Noah Gordon, o xamã



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Eu caminho com você, meu filho.

Onde quer que você vá,

Eu caminho com você, meu filho

Às vezes, cantava para protegê-lo:

Tti-la-ye ke-wi-ta-mo-ne i-no-ki,

Tti-la-ye ke-wi-ta-mo-ne i-no-ki-i-i

Me-ma-ko-te-si-ta

Ki-ma-ma-to-me-ga

Ke-te-ma-ga-yo-se

Espírito, eu te chamo hoje.

Espírito, falo contigo agora,

Alguém que precisa muito

Vai te adorar

Manda tua bênção para mim.

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Essas eram as canções que Xamã cantarolava, seguindo os passos dela. Alex ia atrás, taciturno, vendo outro adulto apossando-se de parte do seu irmão. Ele obedecia



a Makwa, mas ela percebia, às vezes, nos olhos dele o reflexo da suspeita e da repulsa que via nos olhos de Sarah. Isso não a incomodava muito. Alex era uma criança

e ela se esforçaria para ganhar a confiança dele. Quanto a Sarah - até onde Makwa era capaz de lembrar, os sauks sempre tiveram inimigos.

Jay Geiger, ocupado com sua farmácia, contratou Mort London para arar a primeira parte da sua fazenda, um trabalho lento e brutal. Mort trabalhou de abril até o

fim de julho para quebrar a dura camada de solo cheio de mato, um processo mais demorado porque os torrões que ele retirava precisavam de dois ou três anos para

apodrecer, antes que o campo pudesse ser arado novamente e plantado, e também porque Mort apanhou a sarna de Illinois, que atacava a maior parte dos homens que aravam

a pradaria. Alguns pensavam que era provocada por miasmas emanados da terra, enquanto outros diziam que era o resultado da picada de insetos perturbados pelo arado.

Era uma doença desagradável, provocando pequenas feridas e comichão intensa. Tratada com enxofre, podia ser contida como um pequeno desconforto, mas sem tratamento

podia evoluir para uma febre fatal como a que tinha levado Alexander Bledsoe, o primeiro marido de Sarah.

Jay insistia para que todos os cantos dos seus campos fossem limpos e semeados cuidadosamente. De acordo com a antiga lei judaica, na época da colheita ele não tocava

nos cantos, deixando-os para os pobres. Quando o primeiro love de Jay começou a produzir uma boa colheita de milho, ele estava pronto para preparar o segundo para

o plantio de trigo. Mas então, Mort London já era xerife e nenhum dos outros fazendeiros queria trabalhar como assalariado. Era o tempo em que os cules chineses

tinham medo de deixar as turmas que trabalhavam nas estradas de ferro porque podiam ser apedrejados nas cidades. Ocasionalmente, um irlandês ou um dos raros italianos

escapavam das turmas que trabalhavam na construção do canal Illinois e Michigan e apareciam em Holden’s Crossing, mas os papistas eram malvistos pela maioria do

povo e eles saíam rapidamente da cidade. Jay conhecia alguns sauks porque eles eram os pobres que ele convidava para colher o milho que brotava no seu terreno. Finalmente,

ele comprou quatro novilhos e um arado de aço e contratou dois guerreiros sauks, Chifre Pequeno e Cão de Pedra, para que limpassem e arassem o campo para ele.

Os índios contavam com métodos secretos para arar e desmatar o solo da planície, virando-o pelo avesso, expondo sua carne e seu sangue, a terra negra. Enquanto trabalhavam,

pediam desculpas à terra pela agressão e cantavam para evocar os espíritos benfazejos. Sabiam que o homem branco arava a uma profundidade exagerada. Quando preparavam

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o solo para o plantio superficial, a massa de raízes sob a terra arada apodrecia mais depressa e eles cultivavam 2 ¼ de acres por dia, ao invés de um só. E nem

Chifre Pequeno, nem Cão de Pedra contraíram sarna. Entusiasmado, Jay tentou ensinar o método a todos os seus vizinhos, mas ninguém lhe deu atenção.

- É porque os ignorantes filhos da mãe me consideram estrangeiro, embora eu tenha nascido na Carolina do Sul e alguns deles na Europa - queixou-se ele para Rob J.

- Não confiam em mim. Odeiam os irlandeses e os judeus, os chineses e os índios, os italianos e Deus sabe quem mais, por terem vindo para a América tarde demais.

Detestam os franceses e os mórmons por princípio. E detestam os índios por terem chegado à América cedo demais. Que diabo, de quem eles gostam?

Rob sorriu.

- Ora, Jay... gostam deles mesmos. Acreditam que estão absolutamente certos por terem tido a sensatez de chegar exatamente no tempo certo - disse Rob J.

Em Holden’s Crossing, ser admirado era uma coisa, ser aceito era outra bem diferente. Rob J. Cole e Jay Geiger foram aceitos com relutância pois seus serviços eram

necessários. À medida que se tornavam duas partes importantes na colcha de retalhos, as duas famílias continuaram amigas, apoiando e se estimulando mutuamente. As

crianças se acostumaram com as obras dos grandes compositores, deitadas na cama à noite e ouvindo a bela música tocada pelos pais nos instrumentos de corda.

Quando Xamã tinha cinco anos, a pior doença da primavera foi o sarampo. O escudo invisível que protegia Rob e Sarah desapareceu, bem como a sorte que os mantinha

incólumes. Sarah levou a doença para casa, porém ela e Xamã tiveram um sarampo benigno. Rob J. dizia que tiveram sorte, porque sua experiência demonstrava que a

doença não atacava duas vezes a mesma pessoa. Mas Alex apanhou a forma mais violenta. A mãe e o irmão tinham ficado febris, mas ele ardia em febre. Sarah e Xamã

tinham comichão, mas Alex sangrava de tanto se coçar e Rob J. enrolou seu corpo em folhas murchas de repolho e prendeu as mãos dele para não se machucar.

Na primavera seguinte, a epidemia foi de escarlatina. Os sauks apanharam a doença e Makwa-ikwa apanhou deles. Assim, Sarah teve de ficar em casa, muito contra a

vontade, e tratar da mulher índia, ao invés de sair a cavalo com o marido, como sua assistente. Então Alex e Xamã ficaram doentes. Dessa vez, Alex teve a forma branda

e Xamã ardeu de febre, vomitou, gritou de dor de ouvido e teve uma erupção tão extensa que em certos lugares sua pele se soltava como a das cobras.

Quando a doença chegou ao fim, Sarah abriu a casa para o ar quente de maio e resolveu que a família precisava de férias. Assou um ganso

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e informou os Geiger de que sua presença seria apreciada e, naquela noite, a música que não era ouvida há semanas reinou absoluta.



Os filhos dos Geiger dormiram em esteiras ao lado das camas dos pequenos Cole. Lillian Geiger entrou no quarto e abraçou e beijou todos eles. Na porta, ela parou

e disse boa noite. Alex respondeu, bem como Rachel, Davey, Herm e Cubby, que era pequeno demais para carregar o seu nome verdadeiro, Lionel. Lillian notou que um

deles não respondeu.

- Boa noite, Rob J. - disse ela.

Nenhuma resposta, e Lillian viu que Xamã olhava para a frente, como se estivesse absorto em pensamento.

- Xamã? Meu bem? - Não obtendo resposta, ela bateu palmas com força. Cinco rostos voltaram-se para ela, mas o sexto não se moveu.

Na outra sala, os músicos tocavam um dueto de Mozart, a peça que tocavam melhor, com verdadeiro brilhantismo. Rob J. ficou atônito quando Lillian parou na frente

dele, estendeu o braço e, segurando o arco da viola, interrompeu a frase musical de que ele mais gostava.

- Seu filho - disse ela. - O menor. Ele não está ouvindo.

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A CRIANÇA SILENCIOSA



Rob J., que durante toda a vida lutara para salvar as pessoas dos males físicos e mentais, ficou surpreso com a intensidade da dor quando o paciente era alguém que

ele amava. Rob gostava de todos os seus pacientes, mesmo os que a doença tornava cruéis e mesquinhos, mesmo os que ele sabia que eram cruéis e mesquinhos antes da

doença, porque, ao procurar sua ajuda, de certa forma tornavam-se propriedade dele. Como um médico jovem, na Escócia, tinha visto a mãe adoecer e caminhar para a

morte, e foi uma lição amarga e especial sobre o limite do seu poder de curar. Agora, a dor era mais viva, sofrendo com o que tinha acontecido ao garoto forte, grande

para a idade, filho do seu corpo e da sua alma.

Xamã parecia atordoado quando o pai batia as mãos, deixava cair no chão objetos pesados, ficava na frente dele e gritava.

VOCÊ... ESTÁ... OUVINDO... ALGUMA COISA? FILHO? - gritava Rob, apontando para as próprias orelhas, mas o menino apenas olhava intrigado. Xamã estava completamente

surdo.


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- Será que isso passa? - perguntou Sarah.

- Talvez - disse Rob, mas estava mais assustado do que ela, porque sabia mais, já tinha visto tragédias cujas possibilidades ela só podia

imaginar.

- Você vai fazer passar - Sarah tinha confiança absoluta no marido. Como a salvou uma vez, agora ia salvar o filho.

Rob não sabia como, mas tentou. Pôs óleo morno nos ouvidos de Xamã. Fez o menino tomar banhos quentes e demorados, aplicou compressas. Sarah rezava a Jesus. Os Geiger

rezavam para Jeová. Makwaikwa batia no tambor de água e cantava para os manitous e para os espíritos. Nenhum deus e nenhum espírito ouviu.

No começo, Xamã estava confuso demais para ter medo. Mas depois de algumas horas, começou a chorar e gritar. Balançava a cabeça e agarrava as orelhas. Sarah pensou

que a dor de ouvido tinha voltado, mas Rob percebeu que não era isso, porque já vira algo igual antes.

- Ele está ouvindo ruídos que nós não podemos ouvir. Dentro da

cabeça.

Sarah empalideceu.



- Tem alguma coisa na cabeça dele?

- Não, não. - Ele podia dizer que aquilo se chamava tinnitus, mas não podia dizer o que provocava os sons que só Xamã ouvia.

Xamã não parou de chorar. O pai, a mãe e Makwa revezavam-se ao lado da sua cama, abraçando-o e consolando-o. Mais tarde Rob J. aprendeu que o filho ouvia uma variedade

de ruídos, estalidos, campainhas, rugidos trovejantes, apitos estridentes. Tudo muito alto e Xamã estava sempre apavorado.

A barragem interna desapareceu em três dias. O alívio foi profundo e a volta do silêncio, reconfortante, mas os adultos que o amavam estavam torturados pelo desespero

que viam no rosto pequenino e branco.

Naquela noite, Rob J. escreveu para Oliver Wendell Holmes, em Boston, pedindo conselho para o tratamento da surdez. Pediu também, no caso de não ser possível fazer

nada, informações sobre o melhor modo de se criar um filho surdo.

Ninguém sabia como tratar Xamã. Enquanto Rob J. procurava uma solução dentro da medicina, foi Alex quem assumiu a responsabilidade. Embora atônito e assustado com

o que tinha acontecido ao irmão, Alex se adaptou rapidamente à situação. Segurou a mão de Xamã e não a largou mais. Onde o irmão mais velho ia, Xamã ia também. Quando

seus dedos ficavam cansados, Alex passava Xamã para o outro lado e segurava a outra mão. Xamã logo se acostumou à segurança dos dedos suados, muitas vezes sujos

do Maior.

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Alex o vigiava de perto.



- Ele quer mais - dizia quando estavam à mesa, estendendo o prato de Xamã para a mãe, para ser servido outra vez.

Sarah observava seus dois filhos e via o quanto eles sofriam. Xamã deixou de falar e Alex resolveu fazer o mesmo, falando raramente, comunicando-se com Xamã por

meio de uma série de gestos exagerados e olhos nos olhos.

Sarah torturava-se, imaginando situações em que Xamã sofria acidentes terríveis por não ouvir seus gritos de aviso. Obrigava os filhos a ficarem sempre perto de

casa. Eles se aborreciam. Sentavam-se no chão brincando idiotamente com nozes e pedras, desenhando na terra com gravetos. Às vezes, por incrível que fosse, ela os

ouvia rir alto. Como não ouvia a própria voz, Xamã falava muito baixo, e quando pediam para ele repetir, não ouvia o que estavam dizendo. Começou a rosnar ao invés

de falar. Quando Alex ficava impaciente, esquecia a realidade. “O quê?” Ele gritava. “O quê, Xamã?” Então lembrava e voltava aos gestos. Começou a rosnar também,

como Xamã, para enfatizar o que tentava explicar com as mãos. Sarah não suportava aqueles grunhidos e rosnados. Pareciam dois animais.

Sarah adquiriu o hábito torturante de testar a surdez do filho com muita freqüência. Ficava atrás dos dois e batia palmas, estalava os dedos ou dizia os nomes deles.

Dentro de casa, quando ela batia com o pé no chão, a vibração fazia Xamã se voltar. Nas outras vezes, só a expressão de censura de Alex respondia a essas interrupções.

Sarah fora até então a mãe que ora está, ora não está, saindo com o marido sempre que podia, ao invés de cuidar dos filhos. Admitia para si mesma que o marido era

a coisa mais importante da sua vida, assim como reconhecia que a medicina era a força principal na vida dele, mais importante do que seu amor por ela. Assim eram

as coisas. Sarah jamais sentira por Alexander Bledsoe, ou por qualquer outro homem, o que sentia por Rob J. Cole. Agora que um dos seus filhos estava ameaçado, ela

voltou todo seu amor para os dois meninos, mas era tarde demais. Alex não cedia nenhuma parte do irmão e Xamã estava acostumado a depender de Makwa-ikwa.

Makwa não desencorajava essa dependência. Xamã passava a maior parte do tempo no seu hedonoso-te e ela observava cada movimento do menino. Certa vez Sarah a viu

correr para a árvore onde o pequeno Xamã tinha urinado, raspar um pouco da terra molhada guardando-a numa vasilha, como se fosse uma relíquia sagrada. Sarah estava

certa de que a mulher era um súcubo, o demônio feminino que tentava roubar do seu marido a parte mais valiosa e que agora queria roubar seu filho. Ela sabia que

Makwa estava fazendo encantamentos, cantando, realizando estranhos rituais, mas não tinha coragem de reclamar. Por mais desesperadamente que desejasse ajuda para

seu filho - de qualquer pessoa, de qualquer coisa - não podia evitar um sentimento de vingança, uma

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afirmação da sua crença verdadeira, à medida que os dias passavam e toda aquela bobagem pagã não produzia nenhum resultado.

À noite, Sarah ficava acordada, na cama, atormentada com a lembrança dos surdos-mudos que tinha conhecido, especialmente uma débil mental, suja e andrajosa, que

ela e os amigos perseguiam nas ruas da cidadezinha da Virgínia, atormentando-a, caçoando da sua gordura e da surdez. Bessie era o nome dela, Bessie Turner. As crianças

jogavam gravetos e pedras, rindo às gargalhadas quando Bessie respondia ao insulto físico, depois de ignorar completamente as palavras injuriosas que gritavam. Sarah

imaginava se crianças cruéis iam perseguir Xamã pelas ruas.

Aos poucos ela se convenceu de que nem Rob - nem mesmo Rob! - podia ajudar Xamã. Ele saía de manhã para atender aos chamados, pensando apenas nas doenças das outras

pessoas. Não estava abandonando a família. Apenas Sarah tinha essa impressão, às vezes porque ela ficava com os filhos dia após dia e testemunhava sua luta.

Os Geiger, procurando dar o maior apoio possível, convidavam os Cole para reuniões em família, como faziam antes, mas Rob J. não aceitava. Ele não tocava mais a

viola de gambá. Sarah acreditava que Rob não podia suportar a música que Xamã não seria capaz de ouvir.

Ela procurava consolo no trabalho da fazenda. Alden Kimball limpou e arou um outro pedaço de terra e Sarah começou a plantar sua horta que, esperava, seria especial.

Caminhou quilómetros pela margem do rio à procura de mudas de lírio que plantou na frente da casa. Ajudava Alden e Lua a levar pequenos grupos de ovelhas até a balsa

e soltá-las no meio do rio, para que nadassem até a margem, lavando assim a lã antes da tosquia. Depois de castrar as crias nascidas na primavera, Alden olhava de

soslaio quando Sarah pedia os testículos retirados, o petisco preferido dele. Sarah retirava a pele dos testículos de carneiro, imaginando se os dos homens seriam

iguais sob a pele enrugada. Então, os cortava pela metade e fritava em gordura de porco com cebola silvestre e cogumelo picado. Alden comia sua porção avidamente,

dizia que estava delicioso e esquecia o ressentimento.

Sarah poderia quase estar satisfeita. A não ser por uma coisa.

Certo dia, Rob J. chegou em casa e disse que tinha falado com Tobias Barr a respeito de Xamã.

- Recentemente abriram uma escola para surdos em Jacksonville, mas Barr não tinha muitas informações a respeito. Eu podia ir até lá para ver como é. Mas... Xamã

é tão pequeno ainda.

- Jacksonville fica a duzentos a quarenta quilómetros daqui. Nós o veríamos muito pouco.

Rob disse que o médico de Rock Island lhe confessara que não sabia nada sobre como tratar uma criança surda. Na verdade, alguns anos

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atrás, ele havia desistido do caso de uma menina de oito anos e do irmão, de seis. Finalmente, as crianças foram entregues à tutela do estado e enviadas para o Asilo

Illinois, em Springfield.

- Rob J. - disse ela. Pela janela aberta chegavam até eles os grunhidos dos filhos, um som impressionante, e Sarah, de repente, viu os olhos vazios de Bessie Turner.

- Mandar uma criança surda para um asilo de doidos... é um pecado. - A idéia de pecado a fez ficar gelada. - Você acha que Xamã está sendo punido por meus pecados?

Ele a tomou nos braços e Sarah sentiu, como sempre, a força de Rob passando para ela.

- Não - disse ele. Abraçou-a por um longo tempo. - Oh, minha Sarah. Nunca pense isso. - Mas não disse o que podiam fazer.

Naquela manhã, quando os dois garotos estavam sentados na frente do hedonoso-te como Cão Pequeno e Mulher Pássaro, tirando a casca de galhos de salgueiro que Makwa

fervia para preparar sua medicina, um índio estranho, a cavalo, saiu do bosque, na margem do rio. Era uma aparição, um sioux não muito jovem, tão magro quanto o

cavalo que montava, tão maltratado e andrajoso. Os pés descalços estavam sujos. Vestia uma calça justa até os joelhos, uma tanga de pele de gamo e um pedaço rasgado

de pele de búfalo sobre os ombros, como um xale, preso por um trapo amarrado na cintura. O cabelo malcuidado tinha uma trança curta atrás e duas, mais longas, nos

dois lados do rosto, amarradas nas pontas com tiras de pele de lontra.

Alguns anos antes, um sauk teria recebido o sioux com uma arma na mão, mas agora ambos sabiam que estavam rodeados pelo inimigo comum, e quando o homem a cavalo

a saudou com a linguagem dos sinais, usada pelas tribos da planície, que falavam línguas diferentes, Makwa respondeu do mesmo modo.

Ela imaginou que o sioux devia ter atravessado o Ouisconsin, acompanhando a orla da floresta ao longo do Masesibowi. Os sinais do índio diziam que ele vinha em paz

e seguia o sol poente a caminho das Sete Nações. Pediu comida.

As quatro crianças estavam fascinadas. Riam e imitavam o gesto que indicava comida com as mãos pequeninas.

O homem era um sioux, portanto Makwa não podia dar qualquer coisa a ele sem receber nada em troca. Ele trocou uma corda trançada por um prato de esquilo assado e

um pedaço de bolo de milho, além de uma pequena bolsa com vagens secas para a viagem. O assado estava frio, mas ele desmontou e comeu com avidez.

O sioux viu o tambor de água, perguntou se ela era uma guardiã dos espíritos, e ficou visivelmente perturbado quando Makwa disse que era. Não deram um ao outro o

poder de saber seus nomes. Quando ele terminou de comer, Makwa disse que ele não devia caçar as ovelhas, pois,

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se o fizesse, o homem branco o mataria. O homem voltou para seu cavalo magro e foi embora.



As crianças estavam ainda brincando de imitar o sioux, fazendo gestos que não significavam coisa alguma, com exceção de Alex que repetia o sinal de comida. Makwa

deu a ele um pedaço do bolo de milho, depois ensinou o sinal aos outros, recompensando com um pedaço de bolo quando acertavam. A linguagem intertribal era uma das

coisas que as crianças sauks deviam aprender, por isso Makwa ensinou a eles o sinal para salgueiro, incluindo os dois irmãos brancos e, quando notou que Xamã aprendia

com mais facilidade do que os outros, passou a se concentrar nele.

Além dos sinais para comida e salgueiro, ela ensinou menina, menino, lavar-se e vestir-se. Era bastante para o primeiro dia, pensou ela, mas os fez praticar por

muito tempo, como se fosse um jogo, até todos terem aprendido perfeitamente.

Naquela tarde, quando Rob J. chegou em casa, Makwa fez com que as crianças mostrassem a ele o que tinham aprendido.

Rob J. olhou pensativamente para o filho. Os olhos de Makwa brilhavam de satisfação. Ele elogiou as crianças e agradeceu a Makwa, que prometeu continuar com as aulas.

- O que adianta isso? - perguntou Sarah, quando ficaram sozinhos. - Para que nosso filho precisa aprender sinais que só um punhado de índios pode entender?

- Existe uma linguagem de sinais para os surdos - disse Rob J. pensativamente. - Inventada pelos franceses. Quando eu estava na escola de medicina, vi duas pessoas

surdas conversando facilmente, usando as mãos ao invés da voz. Posso encomendar um livro com os sinais e poderemos falar com Xamã e ele conosco.

Sarah concordou com relutância e Rob J. decidiu que aprender os sinais dos índios não ia prejudicar em nada seu filho.

Rob J. recebeu uma longa carta de Oliver Wendell Holmes. Como era típico dele, Holmes pesquisou a literatura na biblioteca da Faculdade de Medicina de Harvard e

consultou autoridades no assunto, descrevendo com detalhes o caso de Xamã.

Na sua opinião, a condição de Xamã era irreversível. Às vezes, escreveu ele, o paciente acometido de surdez total, depois de uma doença como sarampo, escarlatina

ou meningite, recobra a audição. Mas de um modo geral, a infecção ocorrida durante a doença danifica e escarifica os tecidos, destruindo os processos sensitivos

e delicados irreversivelmente.

Na sua carta, você diz que examinou os dois canais auditivos a olho nu, por meio do especulo, e foi muito engenhoso, iluminando o interior da orelha com a luz de

uma vela refletida num espelho. É quase certo

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que o dano foi mais profundo, onde você não podia ver. Nós dois já fizemos a dissecação do ouvido e sabemos como são complexos e delicados os ouvidos médio e interno.

Provavelmente nunca saberemos se o problema do jovem Robert está no tímpano, nos ossículos auditivos, no martelo, na bigorna, no estribo, ou talvez no labirinto.

O que sabemos, meu caro amigo, é que, se seu filho estiver surdo ainda quando você receber esta carta, provavelmente ficará surdo pelo resto da vida.

Desse modo, o problema a ser considerado seria qual a melhor forma de criá-lo.

Holmes havia consultado o Dr. Samuel G. Howe, de Boston, que ensinara dois pacientes surdos-mudos e cegos a se comunicar soletrando as palavras com os dedos. Três

anos antes, numa viagem à Europa, o Dr. Howe vira crianças surdas que aprendiam a falar clara e distintamente.

Mas nenhuma escola para surdos, na América, ensina a falar, escreveu Holmes, apenas ensinam a linguagem dos sinais. Se seu filho aprender a linguagem dos sinais,

só poderá se comunicar com pessoas surdas. Se aprender a falar e a ler os lábios, nada o impedirá de levar uma vida normal na sociedade.

Portanto, o Dr. Howe recomenda que seu filho fique em casa e seja educado por você, e eu concordo.

Os médicos consultados por Holmes disseram que, a menos que aprendesse a falar, Xamã ficaria mudo por atrofia das cordas vocais. Mas Holmes advertia que, para que

ele pudesse aprender a falar, a família Cole não devia usar nenhum dos sinais formais, e nunca aceitar nenhum sinal feito por ele.

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O COMPROMISSO



A princípio Makwa-ikwa não compreendeu quando Cawso wabeskiou a mandou parar de ensinar a linguagem dos sinais das nações para seus filhos. Mas Rob J. explicou por




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