Noah Gordon, o xamã


Parte 3 HOLDEN’S CROSSING



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Parte 3

HOLDEN’S CROSSING

14 de novembro, 1841

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DESVENTURAS E BÊNÇÃOS



Em meados de novembro começou a esfriar. A neve pesada chegou cedo e a rainha Vitória afundava as patas nas camadas brancas, macias e geladas. Quando Rob J. enfrentava

o pior tempo, ele a chamava de Margaret e as orelhas da égua empinavam ouvindo o antigo nome. Cavalo e cavaleiro sabiam onde queriam chegar. Ela, ao lugar onde estava

a água quente e o saco de aveia. Ele ansiava pelo calor e a luz proporcionados mais pela mulher e pelo garoto do que pela lareira e os lampiões a óleo. Se Sarah

não tinha concebido na viagem do casamento, concebeu logo depois. Os terríveis enjoos matinais não arrefeceram o ardor dos dois. Esperavam ansiosos que Alex adormecesse

e se atracavam, os corpos tão ávidos quanto os lábios, com um entusiasmo constante. Mas à medida que a gravidez evoluía, Rob tornou-se um amante cauteloso e terno.

Uma vez por mês ele apanhava caderno e lápis e a desenhava nua, perto do fogo, um registro do desenvolvimento da gravidez, que não deixava de ser científico apesar

das emoções que se transmitiam ao desenho. Rob desenhou também a planta para a nova casa com três quartos, uma grande cozinha e sala de estar. Fez os desenhos em

escala para que Alden pudesse contratar dois carpinteiros e começasse a construção depois do plantio da primavera.

Não agradava a Sarah o fato de Makwa-ikwa partilhar uma parte da vida do marido que lhe estava interditada. Quando os dias mais quentes transformaram a pradaria,

primeiro num pântano e depois num delicado tapete verde, Sarah disse a Rob que quando começassem a aparecer as febres da estação, ela o acompanharia em suas visitas

aos doentes. Mas no fim de abril seu corpo estava enorme. Torturada pelos ciúmes e pela gravidez, ficava em casa, aborrecida, enquanto a mulher índia saía a cavalo

com o médico, para voltar horas - às vezes dias - mais tarde. Exausto, Rob J. chegava em casa, comia, tomava banho quando era possível, dormia algumas horas e, depois,

apanhava Makwa e os dois partiam outra vez.

Em junho, o último mês de gravidez, a febre epidêmica diminuiu bastante e Rob não precisava tanto da ajuda de Makwa-ikwa. Certa manhã, quando ele saiu a cavalo,

sob chuva pesada, para atender à mulher de um fazendeiro que estava agonizando com muitas dores, Sarah entrou

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em trabalho de parto. Makwa-ikwa pôs o pedaço de madeira entre os dentes de Sarah e atou a ponta de uma corda na porta, dando a outra extremidade para ela puxar.

Rob levou muitas horas até perder a batalha contra a erisipela gangrenosa - como escreveu mais tarde no relatório para Oliver Wendell Holmes, a doença fatal, resultado

de um corte mal cuidado, quando a mulher do fazendeiro picava batatas. Quando chegou em casa, no entanto, seu filho ainda não tinha nascido. Com os olhos muito abertos

e furiosos, Sarah disse, assim que ele entrou.

- Ele está me abrindo ao meio. Acabe com isso, seu filho da mãe! Condicionado aos ensinamentos de Holmes, Rob esfregou e lavou

as mãos até quase ficarem em carne viva, antes de chegar perto dela. Depois que ele a examinou, ele e Makwa-ikwa afastaram-se da cama.

- Ô bebê está vindo devagar - disse ela.

- O bebê está vindo com os pés na frente.

Os olhos de Makwa-ikwa se toldaram, mas, inclinando a cabeça, em assentimento, voltou para Sarah.

O trabalho de parto continuou. No meio da noite Rob, com relutância, tomou as mãos de Sarah nas suas, temendo o que elas iam dizer.

- O quê? - perguntou ela, com voz pastosa.

Rob sentiu a força vital da mulher, enfraquecida, mas constante. Murmurou palavras carinhosas, mas Sarah estava sofrendo muito para ouvir palavras de amor ou sentir

beijos.

A tortura continuou. Com gemidos e gritos. Rob, quase instintivamente, rezou, sem saber como, assustado por não ser capaz de negociar, sentindo-se arrogante e hipócrita.



Se estou errado e você existe, por favor, me castigue de outro modo, não prejudicando esta mulher. Ou esta criança que luta para se libertar, acrescentou rapidamente.

De madrugada, apareceram as pequeninas extremidades vermelhas, pés grandes para um recém-nascido, perfeitos, com cinco dedos cada um. Rob murmurou palavras de encorajamento,

disse ao bebê relutante que a vida toda é uma luta. As pernas apareceram aos poucos, entusiasmando Rob com os chutes violentos.

O pequeno pênis do menino. Mãos, cinco dedos cada uma. Um bebê perfeito, bem desenvolvido, mas os ombros ficaram presos e ele teve de cortar Sarah. Mais dor. Ele

estava de bruços, com o rostinho encostado na parede da vagina. Para evitar que o bebê sufocasse, Rob afastou um pouco aquela parte da vagina com dois dedos, até

o rostinho indignado sair para o mundo, com um choro fraco.

Com mãos trêmulas, Rob amarrou e cortou o cordão e costurou a mulher que soluçava alto. Quando ele começou a massagear a barriga de Sarah para ajudar a contração

do útero, Makwa-ikwa já tinha limpado e enfaixado o bebê e o levado para o seio da mãe. Foram vinte e três horas de trabalho de parto e durante muito tempo Sarah

dormiu como se estivesse morta. Quando abriu os olhos, Rob apertou a mão dela carinhosamente.

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- Bom trabalho.

- Ele é grande como um búfalo. Mais ou menos como Alex quando nasceu - disse ela, com voz rouca. Rob o pesou. Quatro quilos e meio - um bom bairnl - perguntou ela,

e fez uma careta quando Rob disse que era um bairn danado de bom. - Olha essa linguagem - disse Sarah.

Encostando os lábios na orelha dela, Rob murmurou.

- Lembra do que você me chamou ontem?

- Do quê?

- Filho da mãe.

- Eu nunca disse isso! - exclamou Sarah, chocada e furiosa. Ficou sem falar com ele durante uma hora.

Robert Jefferson Cole. Na família dos Cole, o primeiro filho sempre se chamava Robert, com outro nome começado por J. Rob considerava o terceiro presidente americano

um gênio e, para Sarah, “Jefferson” estava ligado a Virgínia. Ela preocupou-se, temendo que Alex tivesse ciúmes, mas Alex estava fascinado. Nunca ficava a menos

de dois passos do irmão, sempre atento. Desde o começo deixou bem claro que os outros dois podiam tomar conta do bebê, alimentar, trocar as fraldas, brincar com

ele, oferecer beijos e admiração. Mas competia a ele vigiá-lo.

De um modo geral, 1842 foi um bom ano para a pequena família. Alden contratou Otto Pfersick, o moleiro, e um fazendeiro originário do Estado de Nova York, chamado

Morton London, para ajudar na construção da casa. London era um bom e experiente carpinteiro. Pfersick não era muito bom no trabalho com madeira, mas era ótimo pedreiro

e os três homens passaram dias escolhendo as melhores pedras do rio, que eram puxadas por bois para o local da construção. Os alicerces, as chaminés e as lareiras

ficaram bonitos. Eles trabalhavam sem pressa, sabendo que estavam construindo algo permanente, numa região de casas de troncos de árvores, e quando chegou o outono

e Pfersick precisou trabalhar o dia inteiro no moinho e os outros dois homens, na fazenda, a estrutura da casa estava pronta e fechada.

Mas faltava muito para terminar. Sarah estava sentada na frente da casa de madeira, debulhando vagens, quando a carroça coberta puxada por dois cavalos cansados

entrou na clareira. Ela olhou para o homem forte que conduzia a carroça, notando o rosto sem beleza e a poeira da estrada no cabelo e na barba negra.

- Será que esta pode ser a casa do Dr. Cole, senhora?

- Pode ser e é, mas ele está atendendo um chamado. O paciente está ferido ou doente?

- Não há nenhum paciente, graças a Deus. Somos amigos do doutor, e vamos morar nesta cidade.

Uma mulher apareceu na parte de trás da carroça. Sarah viu a touca de babado emoldurando o rosto muito branco e ansioso.

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- Vocês não são... Será que podem ser os Geiger?

- Podemos e somos. - O homem tinha belos olhos e o sorriso largo e franco parecia aumentar sua altura.

- Oh, são tão bem-vindos, vizinhos! Desçam já dessa carroça. - Na pressa, deixou cair as vagens quando se levantou do banco. Havia três crianças na carroça. O mais

novo, Herman, dormia, mas Rachel, com quase quatro anos, e David, de dois, começaram a chorar quando foram tirados da carroça e o bebé de Sarah imediatamente reforçou

o coro.

Sarah notou que a Sra. Geiger era alguns centímetros mais alta que o marido e que nem a fadiga de uma viagem longa e árdua conseguia esconder a delicadeza dos seus



traços. Uma mulher da Virgínia sabia reconhecer boa qualidade. Era uma beleza exótica, que Sarah nunca tinha visto antes, mas ela começou imediatamente a planejar

uma refeição especial. Então Lillian começou a chorar e Sarah lembrou o tempo interminável que tinha passado numa carroça. Abraçou a outra mulher e, para seu espanto,

viu que estava chorando também, enquanto Jason ficava parado, sem saber o que fazer, no meio do choro das mulheres e das crianças. Finalmente Lillian recuou, murmurando,

embaraçada, que toda a sua família precisava de um regato para se lavar.

- Muito bem, isso podemos resolver imediatamente - disse Sarah, com uma sensação de poder.

Quando Rob J. chegou em casa, encontrou todos com os cabelos molhados ainda do banho no regato. Depois dos apertos de mão e batidas nas costas, ele teve oportunidade

de ver sua fazenda através dos olhos dos recém-chegados. Jay e Lillian ficaram maravilhados com os índios e impressionados com a habilidade de Alden. Jay concordou

com entusiasmo quando Rob sugeriu que selassem Vicky e Bess e fossem ver as terras dos Geiger. Voltaram a tempo para o ótimo jantar. Os olhos de Geiger cintilavam

de felicidade quando tentou descrever para a mulher a terra que Rob J. tinha reservado para eles.

- Você vai ver, espere só para ver! - disse ele.

Depois do jantar, Jay foi até sua carroça e voltou com o violino. Como não podiam transportar o piano de Lillian na carroça, resolveram pagar para guardá-lo num

lugar seco e seguro, até o dia em que o pudessem levar para Holden’s Crossing.

- Você aprendeu o Chopin? - perguntou Jay.

Segurando a viola de gambá entre os joelhos, Rob tocou as primeiras notas da mazurca. A sessão de música em Ohio fora muito mais gloriosa por causa do piano, mas

o violino e a viola combinaram maravilhosamente. Sarah terminou de arrumar a cozinha e sentou para ouvir, observando os três. Os dedos de Lillian se moviam às vezes,

como se estivessem tocando piano. Sarah teve vontade de tomar as mãos de Lillian nas suas e reconfortá-la com palavras e promessas, mas ao invés disso, ficou em

silêncio, sentada no chão, enquanto a música enchia o ar, como uma dádiva de esperança e conforto. “

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Os Geiger acamparam perto de uma fonte, em suas terras, enquanto Jason abatia as árvores para construir a sua primeira casa. Não queriam de modo algum abusar da

hospitalidade dos Cole. As duas famílias visitavam-se constantemente. Numa noite fria, quando estavam sentados em volta do fogo, no acampamento dos Geiger, os lobos

começaram a uivar na planície e Jay tirou do violino um som exatamente igual, longo e trémulo. Os lobos responderam e durante algum tempo, os animais e o homem conversaram

na noite escura, até Jason notar que Lillian tremia, não só de frio e, pondo mais lenha na fogueira, ele guardou o violino.

Geiger não era bom carpinteiro. Mais uma vez a construção da casa de Rob foi adiada, pois logo que folgou um pouco do trabalho na fazenda, Alden começou a fazer

a casa dos Geiger. Logo depois, Otto Pfersick e Mort London foram ajudá-lo. Os três construíram rapidamente uma acolhedora casa de troncos, com um galpão, uma farmácia

para guardar as caixas de medicamentos, que ocupavam quase todo o espaço na carroça. Jay pregou no batente da porta um tubo fino de lata que continha o pergaminho

com uma parte do Deuteronômio, um costume dos judeus, disse ele, e os Geiger mudaram para a nova casa no dia dezoito de novembro, um pouco antes do frio intenso

descer do Canadá.

Jason e Rob abriram uma trilha no meio do bosque ligando a casa de madeira dos Geiger à casa nova dos Cole. Logo todos a chamavam de Caminho Longo, para diferenciá-lo

da outra, aberta por Rob J. entre a casa e o rio, o Caminho Curto.

Os construtores levaram suas ferramentas para a nova casa dos Cole. Com todo o inverno para terminar o interior, eles queimavam lascas de madeira na lareira e trabalhavam

aquecidos e bem-humorados, fazendo frisos e lambris de carvalho e misturando tintas feitas com nata de leite nas cores escolhidas por Sarah. O pequeno bebedouro

de búfalos, perto da casa, estava congelado e às vezes Alden amarrava patins às suas botas e mostrava suas habilidades de patinador no gelo, adquiridas durante a

infância, em Vermont. Rob J. costumava patinar no gelo todos os invernos, na Escócia, e teria pedido emprestado os patins de Alden se não fossem pequenos demais

para seus pés.

A primeira neve fina começou a cair três semanas antes do Natal. Era como fumaça levada pelo vento e as pequenas partículas pareciam brasas quando tocavam a pele

humana. Então chegaram os flocos pesados da verdadeira neve cobrindo o mundo todo de branco e deixando-o assim. Com entusiasmo crescente, Sarah começou a planejar

seu menu de Natal, descrevendo para Lillian as receitas infalíveis da Virgínia. Agora, começava a descobrir diferenças entre ela e os Geiger, pois Lillian não compartilhava

seu entusiasmo. Na verdade, Sarah soube, com espanto, que seus novos vizinhos não comemoravam o nascimento de Cristo, preferindo comemorar uma antiga e estranha

batalha na Terra Santa com

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i

velas e panquecas de batata! Mesmo assim, eles deram presentes de Natal aos Cole, compotas de ameixas feitas em Ohio e meias de lã tricotadas por Lillian para todos.

O presente dos Cole para os Geiger foi uma pesada e negra frigideira de ferro montada sobre um tripé, que Rob tinha comprado no armazém-geral de Rock Island.

Insistiram para que os Geiger os acompanhassem na ceia de Natal e, depois de alguma hesitação, eles aceitaram, embora Lillian Geiger não comesse carne fora de casa.

Sarah serviu sopa de creme de cebola, peixe de rio com molho de cogumelos, ganso assado com molho de miúdos, bolinhos de batata, pudim inglês de ameixas, feito com

as compotas de Lillian, bolachas, queijo e café. Sarah deu para sua família suéteres de lã. De Rob ela ganhou uma manta de pele de raposa, tão brilhante que a encantou

e provocou exclamações de admiração dos convidados. Alden ganhou de Rob um cachimbo e uma caixa de fumo e surpreendeu o patrão com um par de patins de neve de lâmina

afiada, feito na oficina de ferreiro da fazenda - do tamanho dos pés do médico!

- Agora, a neve está cobrindo o gelo - disse Alden, com um largo sorriso - mas vai aproveitar os patins no ano que vem.

Depois que os convidados saíram, Makwa-ikwa bateu na porta e entregou luvas fechadas, um par para Sarah, outro para Rob e o terceiro para Alex e foi embora antes

que tivessem tempo de convidá-la para entrar.

- É uma mulher estranha - disse Sarah, pensativa. - Devíamos

ter dado alguma coisa para ela.

- Eu me encarreguei disso - disse Rob, e disse que tinha dado a Makwa-ikwa uma frigideira com tripé, igual à dos Geiger.

- Não vai me dizer que deu para aquela índia um presente caro, comprado em loja? - Ele não respondeu e Sarah continuou, com voz tensa. - Aquela mulher deve significar

muito para você!

Rob olhou para ela.

- Significa - respondeu ele, secamente.

Naquela noite, a temperatura subiu e choveu ao invés de nevar. De manhã, Freddy Grueber, um garoto de quinze anos, todo molhado de chuva e chorando, bateu à porta

dos Cole. O boi, o bem mais precioso de Hans Grueber, tinha derrubado um lampião a óleo e, apesar da chuva, o celeiro pegou fogo.

- Nunca vi nada igual. Cristo, não conseguimos apagar o fogo. Salvamos os animais, menos uma mula. Mas meu pai está muito queimado no braço, no pescoço e nas pernas.

Tem de vir agora, doutor!

O garoto tinha cavalgado vinte quilómetros naquela chuva e Sarah ofereceu comida e bebida, mas ele não aceitou e voltou para casa.

Sarah arrumou numa cesta as sobras do jantar de Natal, enquanto Rob apanhava as ataduras de pano limpo e os unguentos de que ia precisar.

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Depois ele foi chamar Makwa-ikwa. Em poucos minutos Sarah os viu desaparecer na chuva, Rob montando Vicky, com o capuz na cabeça, o corpo grande inclinado sobre



a sela para se proteger do vento. A mulher índia, enrolada numa manta, montava Bess. No meu cavalo e saindo com meu marido, pensou Sarah, e foi para a cozinha, fazer

pão porque sabia que não adiantava tentar dormir de novo.

Sarah esperou por Rob e Makwa-ikwa o dia todo. Quando a noite chegou, sentou ao lado do fogo, ouvindo a chuva e vigiando para que o jantar que estava guardando no

fogão não se queimasse. Finalmente foi para a cama, mas não dormiu, dizendo para si mesma que, se os dois tinham parado num tipi ou numa caverna, a culpa era sua,

por atormentá-lo com seus ciúmes.

De manhã ela estava à mesa, torturada pela imaginação, quando Lillian Geiger, que sentia falta da vida na cidade e não estava acostumada com a solidão, enfrentou

a chuva para uma visita. Sarah estava com olheiras e abatida, mas recebeu Lillian amavelmente e conversou durante algum tempo, até começar a chorar no meio da conversa

sobre sementes de flores. Imediatamente Lillian levantou-se e passou o braço em volta dos ombros dela. Sarah, consternada, surpreendeu-se contando a ela seus temores.

- Até ele aparecer, minha vida era péssima. Agora é tão boa! Se eu o perder...

- Sarah - disse Lillian ternamente. - Ninguém pode saber o que acontece entre os casais, é claro, mas... Você mesma diz que seus temores podem ser infundados. Eu

tenho certeza disso. Rob J. não é o tipo de homem capaz de enganar alguém.

Sarah deixou que Lillian a consolasse e a convencesse de que estava errada. Quando Lillian saiu, a tempestade emocional tinha passado. Rob J. chegou ao meio-dia.

- Como está Hans Grueber? - perguntou ela.

- Ah, queimaduras terríveis - disse Rob, com voz cansada. - Muita dor. Espero que fique bom. Deixei Makwa-ikwa tomando conta dele.

- Isso é bom - disse ela.

Rob dormiu a tarde toda até o começo da noite e, durante esse tempo, a chuva passou e a temperatura caiu rapidamente. Ele acordou no meio da noite e se vestiu para

ir à privada, fora da casa, porque a neve derretida pela chuva tinha agora a consistência de mármore. Voltou para a cama mas não conseguiu dormir. Tinha pensado

em voltar de manhã à casa dos Grueber, mas com a neve transformada em gelo, o cavalo não tinha onde firmar os cascos. Vestiu-se outra vez, no escuro, saiu e bateu

com o pé calçado de bota fortemente no chão, mas não conseguiu quebrar a camada de gelo.

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Foi até o celeiro, apanhou os patins feitos por Alden e os prendeu na bota. No caminho que levava à casa, muito usado, o gelo estava áspero e irregular, mas no

fim dele estava a planície aberta, onde a superfície varrida pelo vento era macia e lisa como vidro. Rob patinou seguindo a faixa de luar, a princípio hesitante,

depois, ganhando confiança, aventurando-se mais para longe na vasta extensão de gelo, ouvindo apenas o som das lâminas sobre o gelo e a própria respiração.

Finalmente, quase sem fôlego, ele parou e contemplou o mundo estranho e noturno da planície gelada. Muito perto e assustadoramente alto, soou o uivo de um lobo.

Rob sentiu eriçarem os cabelos na sua nuca. Se caísse, se quebrasse uma perna, em poucos minutos seria presa dos predadores famintos do inverno. O lobo uivou outra

vez, ou talvez fosse outro. Havia naquele uivo tudo que Rob não queria ouvir. Era um chamado feito de fome, solidão e selvageria. Imediatamente ele começou a voltar

para casa, patinando com mais cuidado e menos audácia do que antes, mas voando assim mesmo como se estivesse sendo perseguido. Entrou em casa e foi ver se Alex e

o bebê estavam bem cobertos. Os dois dormiam calmamente. Quando se deitou, sua mulher aqueceu seu rosto gelado com os seios quentes. Ela o abraçou com os braços

e as pernas, murmurando baixinho, um som de amor e contrição. O médico estava preso pelo gelo. Grueber ficaria bem sem ele, enquanto Makwa-ikwa estivesse lá, pensou

Rob, entregando-se aos lábios e ao corpo quentes e à alma que o acolhiam, para o passatempo mais misterioso do que o luar, mais agradável até do que voar à luz da

lua sobre o gelo, sem lobos.

23 TRANSFORMAÇÕES

era um novo país para os Cole e os que ele amava não conheciam os costumes haditoais da família. Por mais que ele tentasse exphcar, eles nunca chamaram o novo filho

de Rob J. Para Alex, a principio, o novo

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irmão era Baby. Para Alden era o Menino. Foi Makwa-ikwa quem o chamou com o nome que ia se tornar parte essencial dele. Certo dia o menino, que começava a engatinhar



e a dizer as primeiras palavras, estava sentado no chão de terra do seu hedonoso-te com dois dos três filhos de Lua e Chega Cantando. As crianças índias eram Anemoha,

Pequeno Cão, com três anos, e Cisawa-ikwa, Mulher Pássaro, com dois. Brincavam com bonecos de espiga de milho, mas o menininho branco se afastou dos outros. À luz

fraca que entrava pelas aberturas do teto, ele viu o tambor de água de Makwa-ikwa e bateu com a mão na pele esticada, produzindo um som que fez erguer todas as cabeças

no interior da casa.

O garoto se afastou do tambor, mas ao invés de voltar para as outras crianças, como um adulto fazendo inspeção, engatinhou para onde estavam as ervas medicinais,

parando muito sério na frente de cada pilha, examinando-as com atenção e interesse.

Makwa-ikwa sorriu.

- Você é ubenu migegee-ieh, um pequeno Xamã - disse ela.

Desde esse dia, foi assim que ela passou a chamar o menino e os outros logo fizeram o mesmo porque combinava com ele e porque ele atendia prontamente quando o chamavam

de Xamã. Havia exceções. Alex o chamava de Irmão, e era Maior para ele, porque desde o começo Sarah dizia seu Irmão Bebê e seu Irmão Maior. Só Lillian Geiger procurava

chamá-lo de Rob J. porque ouvira Rob falar do costume da família e ela acreditava muito em família e tradição. Mas até Lillian esquecia às vezes e o chamava de Xamã,

e Rob J. Cole (o pai) logo desistiu da luta e ficou com a inicial J. Com inicial ou não, sabia que, quando ele não estava presente, seus pacientes o chamavam de

Injun Cole e alguns de “o maldito serra-ossos amigo dos sauks”. Porém, liberais ou bitolados, todos o conheciam como um bom médico. Quando o chamavam, ele os atendia

prontamente, quer gostassem dele ou não.

Holden’s Crossing que, até pouco tempo, não passava de descrições otimistas dos volantes de Holden, tinha agora uma rua principal com lojas e casas, conhecida por

todos como a Village. Orgulhava-se do prédio da Prefeitura, do Armazém-Geral de Tom Haskins: aviamentos, mercearia, instrumentos agrícolas e armarinho em geral;

Rações e Sementes, de N. B. Reimer; a Instituição de Holden’s Crossing, Companhia para Poupança e Hipotecas; a pensão da Srta. Anna Wiley, que também servia refeições

para o público; a loja de Jason Geiger, farmacêutico; o Bar do Nelson (era uma estalagem, nos planos de Nick para a cidade, mas por causa da pensão da Srta. Wiley,

nunca passou de um salão de teto baixo com um comprido bar) e os estábulos e a oficina de ferreiro de Paul Williams. Na sua casa de madeira, na Village, Roberta




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