Noah Gordon, o xamã



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muito, porque nunca vou encontrar um homem melhor para dirigir esta fazenda. Portanto, espero que fique.

Alden olhou para ele, confuso, satisfeito com o elogio, mas consciente da mensagem. Depois de algum tempo, desviou os olhos e começou a carregar a carroça com moitões

de cerca.

O tamanho e a força prodigiosa de Chega Cantando, aliados ao seu bom gênio, faziam dele um trabalhador excepcional. Isso e o fato de Lua

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ter aprendido a preparar a comida dos brancos na escola cristã contribuíram para inclinar a balança a favor dos índios. Para dois homens solteiros que moravam sozinhos,



seus biscoitos quentinhos, suas tortas, e a comida saborosa eram verdadeiras maravilhas. No fim da primeira semana, embora Alden continuasse arredio, sem dar o braço

a torcer, os sauks tinham se tornado parte da fazenda.

Rob J. enfrentou uma rebelião semelhante entre seus pacientes. Quando tomavam um copo de refresco de maçã, Nick Holden disse.

- Alguns dos fazendeiros estão chamando você de Injun Cole. Dizem que é amigo dos índios. Dizem que você deve ter uma parte de sangue sauk.

Rob J. sorriu. Gostou da idéia.

- Você pode fazer uma coisa. Se alguém reclamar do médico, entregue um daqueles impressos que está sempre distribuindo. Aqueles onde diz como são afortunados por

terem um médico com a prática e os conhecimentos do Dr. Cole. Quando estiverem feridos ou doentes, duvido que façam objeção aos meus supostos ancestrais. Ou à cor

das mãos da minha assistente.

Quando foi visitar Sarah, notou que o caminho que levava à casa tinha agora uma cerca-viva, a terra estava aplainada e varrida. Canteiros de flores silvestres enfeitavam

os cantos da pequena casa. Dentro, todas as paredes estavam caiadas e só se sentia o cheiro de sabão e o perfume de lavanda e poejo, sálvia e anisanto pendiam das

vigas do teto.

- Alma Schroeder me deu as ervas - disse Sarah. - É muito tarde nesta estação para plantar, mas no próximo ano terei a minha horta. - Mostrou o lugar reservado para

isso, em parte já capinado e limpo.

Porém, a transformação mais notável que ele constatou foi em Sarah. Agora estava cozinhando todos os dias, disse ela, ao invés de depender dos ocasionais pratos

quentes mandados pela generosa Alma. A dieta regular e mais nutritiva tinha contribuído para substituir a magreza e a palidez excessivas por uma graciosa feminilidade.

Ela se inclinou para apanhar as cebolinhas que haviam brotado naturalmente no pedaço da terra limpa e Rob notou a pele rosada da nuca. Logo não ia mais aparecer,

porque o cabelo crescia rapidamente como um manto amarelo.

O animalzinho louro que era seu filho escondia-se atrás dela. Ele também estava limpo, notou Rob, mas Sarah, aborrecida, inclinou-se para limpar a lama dos joelhos

do menino.

- É impossível manter um garoto limpo - disse Rob. O menino o examinou com um olhar selvagem e assustado.

Rob apanhou na maleta uma das balas feitas em casa, que o ajudavam a conquistar a confiança dos pequenos pacientes, e a desembrulhou. Só depois de quase meia hora

de um monólogo em voz baixa ele conseguiu se aproximar do pequeno Alex para dar a bala. Quando finalmente

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a mãozinha segurou o doce, Rob ouviu Sarah soltar a respiração e, voltando-se, viu que ela o observava fixamente. Sarah tinha olhos maravilhosos, cheios de vida.



- Eu fiz uma torta de carne de veado, se quiser jantar conosco. Rob ia recusar, mas os dois rostos estavam voltados para ele, o do

menino, muito sério, chupando a bala, o da mãe, com solene expectativa. Pareciam fazer perguntas que ele não podia compreender.

- Eu gosto muito de torta de carne de veado - disse ele.

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OS PRETENDENTES DE SARAH



Para Rob, seu dever de médico justificava as várias visitas que fez na semana seguinte a Sarah Bledsoe, quando voltava dos seus chamados e passava por perto da casa

dela. Como seu médico, devia certificar-se de que a paciente estava se recuperando satisfatoriamente. Não tinha muita coisa a dizer sobre a saúde dela, exceto que

o tom da pele passara de branco doentio para o rosado de pêssego, que lhe caía muito bem, e que os olhos cintilavam cheios de vida e de inteligência. Certa tarde,

ela serviu chá e broa de milho. Na semana seguinte ele a visitou três vezes, e em duas delas aceitou o convite para a refeição. Sarah cozinhava melhor do que Lua

e Rob nunca se fartava das delícias que, segundo ela, eram típicas da Virgínia. Sabia que Sarah tinha poucos recursos, por isso começou a levar pequenos presentes,

uma saca de batatas, um pequeno presunto. Certa manhã, um fazendeiro com pouco dinheiro pagou parte da consulta com quatro gordos galos silvestres recém-caçados

e Rob chegou na casa de Sarah com os galos dependurados na sela.

Sarah e Alex estavam sentados no chão, perto da horta, que um homem enorme, sem camisa, suado, com músculos de quem faz trabalho manual e pele queimada de sol, cobria

de adubo. Sarah apresentou Samuel Merriam, fazendeiro de Hooppole. Merriam trouxera de Hooppole uma carroça de esterco de porco e a metade já cobria a futura horta

de Sarah.

- A melhor coisa do mundo para fazer as coisas crescerem - disse o homem jovialmente para Rob J.

Comparado ao presente principesco de uma carroça de esterco e da aplicação cuidadosa do mesmo, os galos silvestres de Rob não eram nada, mas ele os entregou assim

mesmo e Sarah agradeceu sincera e calorosa-

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mente. Rob recusou delicadamente o convite para jantar com ela e Samuel Merriam e foi visitar Alma Schroeder que o cumulou de elogios pela cura de Sarah.

- Já tem um pretendente na casa dela, não tem? - disse ela, com um sorriso satisfeito.

A mulher de Merriam tinha morrido de febre no último outono e ele precisava urgente de alguém para tomar conta dos cinco filhos e ajudar na criação de porcos.

- Uma boa oportunidade para Sarah - disse ela. - Embora, com essa escassez de mulheres na fronteira, ela possa ter muitas outras chances.

Quando deixou Alma, Rob voltou à casa de Sarah. Ele parou e, sem descer do cavalo, olhou demoradamente para ela. Dessa vez o sorriso de Sarah parecia hesitante e

Merriam parou de trabalhar, curioso. Até abrir a boca, Rob não tinha idéia do que ia dizer.

- Você devia estar fazendo esse trabalho - disse ele severamente - porque precisa de exercício para ficar completamente curada. - Então, levou as pontas de dois

dedos à aba do chapéu e voltou para casa mal-humorado.

Três dias depois, quando ele passou pela casa de Sarah, não havia sinal de nenhum pretendente. Ela estava tentando dividir um grande e velho ruibarbo em quatro partes

para replantar e finalmente Rob resolveu o problema com o machado. Juntos, cavaram o solo, plantaram as raízes e as cobriram com terra quente, um trabalho que Rob

gostou de fazer e pelo qual mereceu partilhar com ela o cozido, acompanhado por água fresca da fonte.

Mais tarde, enquanto Alex dormia a sesta à sombra de uma árvore, os dois sentaram na margem do rio, atentos à linha de pesca de Sarah, e Rob falou sobre a Escócia

e ela disse que gostaria que houvesse uma igreja por perto para que seu filho pudesse aprender religião.

- Ultimamente tenho pensado muito em Deus - disse ela. - Quando pensei que estava morrendo e que Alex ia ficar sozinho, eu rezei e Ele mandou você.

Um pouco temeroso, Rob confessou que não acreditava em Deus.

- Acho que os deuses são inventados pelos homens e sempre foi assim - disse ele.

Viu o choque nos olhos dela e teve medo de ter condenado Sarah a uma vida de pieguice religiosa e criação de porcos. Mas ela mudou de assunto e começou a falar da

sua infância na Virgínia, onde seus pais tinham uma fazenda. Os olhos imensos eram de um azul profundo, quase violeta. Não havia neles sentimentalismo mas Rob pressentiu

a saudade daquele tempo de mais calor e de vida mais fácil.

- Cavalos! - disse ela. - Eu cresci amando cavalos.

Isso serviu de pretexto para Rob convidá-la, no dia seguinte, a visitar

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com ele um velho que estava morrendo de consumpção e Sarah nem procurou disfarçar a alegria com que aceitou o convite. Na manhã seguinte Rob foi apanhá-la em casa,

montado em Margaret Holland e puxando Monica Grenville pela rédea. Deixaram Alex com Alma Schroeder, que sorriu satisfeita porque Sarah estava “saindo a cavalo”

com o doutor.

O dia estava bom para cavalgar, não muito quente, para variar, e eles seguiram sem pressa, deixando que os animais escolhessem o passo. Sarah tinha pão e queijo

no alforje e fizeram um piquenique à sombra de um carvalho. Na casa do doente, ela se manteve a uma distância discreta, ouvindo a respiração estertorante e vendo

Rob segurar as mãos do velho homem. Ele esperou a água esquentar na lareira e lavou os membros magros e emaciados, depois administrou, colher por colher, um paliativo

para que o sono amenizasse misericordiosamente a espera. Sarah ouviu quando ele disse ao filho e à nora do doente que ele ia morrer dentro de algumas horas. Quando

saíram, ela estava comovida e falou pouco. Para trazer de volta a descontração da viagem de ida, ele sugeriu que trocassem de cavalos para a volta, porque ela montava

muito bem e podia manejar Margaret Holland facilmente. Foi um prazer para Sarah montar a égua esperta e forte.

- As duas têm nomes de mulheres que você conheceu no passado? - perguntou ela, e Rob disse que sim.

Sarah balançou a cabeça pensativamente, num gesto afirmativo. Apesar dos esforços de Rob, a viagem de volta foi silenciosa.

Dois dias depois, quando Rob chegou, encontrou outro homem, um cadavérico vendedor ambulante chamado Timothy Mead, que via o mundo com os olhos castanhos e sombrios

e falou respeitosamente ao ser apresentado ao médico. Mead deu a Sarah quatro carretéis de linha de cores diferentes.

Quando Rob tirou um espinho do pé de Alex, notando que o verão estava no fim e ele não tinha um bom par de sapatos, tirou a medida do pé do garoto. Na sua primeira

visita a Rock Island, encomendou um par de sapatos de criança daquele tamanho. Na semana seguinte, quando entregou o presente, percebeu que Sarah ficou constrangida.

Ela era ainda um mistério para ele, nunca sabia dizer quando estava satisfeita ou aborrecida.

Na manhã seguinte à sua eleição para a legislatura, Nick Holden chegou à casa de Rob. No prazo de dois dias iria se mudar para Springfield, onde criaria leis favoráveis

a Holden’s Crossing. Cuspindo para o lado, pensativamente, Holden disse que todos estavam comentando os passeios a cavalo de Rob com a viúva Bledsoe.

- Bem, você precisa saber de algumas coisas, bode velho. Rob olhou para ele.

- Bem, o garoto, o filho dela. Você sabe que ele é de pai desconhecido? Nasceu quase dois anos depois da morte do marido dela.

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Rob ficou de pé.



- Adeus, Nick. Faça uma boa viagem para Springfield. Holden compreendeu e levantou-se.

- Só estou tentando dizer que um homem não precisa... - começou ele, mas o que viu no rosto de Rob J. o fez engolir as palavras. Num momento ele estava montado,

despediu-se meio sem graça e partiu.

Rob via sempre uma combinação estranha de sentimentos no rosto dela. Prazer por vê-lo e por estar na sua companhia, ternura, quando se permitia, mas também, às vezes,

uma espécie de terror. Afinal, chegou a noite em que ele a beijou. A princípio, a boca de Sarah se abriu, macia e satisfeita, e ela apertou o corpo contra o dele,

mas então o momento passou. Sarah se afastou. Que diabo, pensou Rob, ela não gosta de mim, esse é o caso. Mas com algum esforço perguntou gentilmente o que estava

acontecendo.

- Como pode sentir atração por mim? Não me viu feia e suja, numa condição horrível? Você... sentiu o cheiro da sujeira - disse ela, com o rosto em fogo.

- Sarah - Rob olhou nos olhos dela. - Quando você estava doente, eu era seu médico. Desde então tenho visto você como uma mulher encantadora e inteligente, com quem

tenho muito prazer em trocar idéias e partilhar meus sonhos. Eu a desejo de todos os modos. Só penso em você. Eu a amo.

O único contato físico era o das mãos dela nas dele. Rob apertou os dedos mas ela nada disse.

- Talvez você possa aprender a me amar?

- Aprender? Como posso deixar de amá-lo? - disse ela, com calor. - Você que me devolveu a vida, como se fosse Deus!

- Não, que diabo! Eu sou um homem comum! E é assim que tenho que ser...

Então, estavam se beijando. Beijaram-se por um longo tempo, sem se saciarem. Foi Sarah quem evitou o que fatalmente aconteceria, empurrando-o rudemente, virando

de costas e ajeitando a roupa.

- Sarah, case comigo.

Ela não respondeu e ele disse.

- Você não foi feita para tratar de porcos o dia inteiro, nem andar por aí com uma bolsa de vendedora ambulante nas costas.

- Então, para que eu fui feita? - ela perguntou, em voz baixa e com amargura.

- Ora, para ser mulher de um médico. Está claro - disse ele, muito sério.

Sarah não precisava fingir que falava sério.

- Muita gente vai fazer questão de contar tudo sobre Alex, sobre seu pai, portanto eu quero contar primeiro.

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- Eu quero ser o pai de Alex. Eu me preocupo com o que ele é hoje e o que será amanhã. Não preciso saber nada sobre ontem. Eu também tive alguns ontens terríveis.

Case comigo, Sarah.

Os olhos de Sarah encheram-se de lágrimas, mas tinha mais para revelar. Olhou para ele e disse calmamente.

- Dizem que a mulher índia vive com você. Tem de mandá-la embora.

- Dizem. E muita gente vai contar. Muito bem, vou dizer uma coisa, Sarah Bledsoe. Se casar comigo, terá de aprender a mandar essa gente para o inferno. - Respirou

fundo e continuou: - Makwa-ikwa é uma boa mulher e trabalha arduamente. Ela mora em sua casa, nas minhas terras. Mandá-la embora seria uma injustiça com ela e comigo

e eu não farei isso. Seria o pior modo de começarmos nossa vida juntos.

- Tem de acreditar em mim quando digo que não há motivo para ciúmes - continuou ele, segurando com força a mão dela. - Alguma outra condição?

- Sim - disse ela, com voz decidida. - Tem de mudar os nomes das suas éguas. São nomes de mulheres com quem você dormiu, não são?

Rob esboçou um sorriso, mas havia fúria nos seus olhos.

- Uma delas. A outra era uma bela mulher mais velha que conheci quando garoto, amiga da minha mãe. Eu a desejava, mas para ela eu não passava de uma criança.

Ela não perguntou quem era quem.

- É uma brincadeira vulgar e muito cruel. Você não é um homem vulgar e nem cruel e deve mudar os nomes dos animais.

- Você escolhe outros nomes, então - disse ele, imediatamente.

- E quero que prometa, seja o que for que aconteça entre nós, no futuro, nunca dar meu nome a um cavalo.

- Eu prometo. É claro - ele não resistiu e disse - pretendo encomendar um porco a Samuel Merriam e...

Felizmente Rob ainda estava segurando as mãos dela, e só as soltou quando Sarah correspondeu devidamente ao seu beijo. Quando terminou, viu que ela estava chorando.

- O que foi? - perguntou ele, com a inquietadora impressão de que não ia ser fácil viver com aquela mulher.

Os olhos de Sarah, cheios de lágrimas, brilharam.

- Cartas enviadas pela diligência são muito caras - disse ela. - Mas finalmente posso mandar boas notícias para meu irmão e minha irmã, na Virgínia.

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O GRANDE DESPERTAR



Era mais fácil resolver casar do que encontrar um padre ou pastor. Por isso, muitos casais da fronteira jamais se deram ao trabalho de casar formalmente, mas Sarah

recusou-se a “casar sem ser casada”. Foi clara e objetiva.

- Eu sei o quanto custa ter de criar um filho sem pai e isso nunca mais vai me acontecer - disse ela.

Rob compreendeu. Mas o outono chegou e ele sabia que, se a neve cobrisse a planície, teriam de esperar meses até que um pregador ou um pastor itinerante aparecesse

em Holden’s Crossing. A resposta para o problema surgiu um dia num volante que ele leu no armazém geral, anunciando o encontro religioso que ia durar uma semana.

- Chama-se O Grande Despertar e vai ser realizado na cidade de Belding Creek. Nós precisamos ir, Sarah, porque certamente não vão faltar ministros religiosos no

encontro.

Rob sugeriu que deviam levar Alex e Sarah concordou, satisfeita. Escolheram a carruagem de quatro rodas. Era uma viagem de um dia e meio, numa estrada transitável,

mas pedregosa. Passaram a noite no celeiro de um fazendeiro, estendendo os cobertores sobre o feno fresco e cheiroso, no celeiro. Na manhã seguinte, Rob J. passou

quase uma hora castrando os dois touros do fazendeiro e extraindo um tumor do flanco de uma vaca, para pagar a hospedagem. Apesar dessa demora, chegaram a Belding

Creek antes do meio-dia. A comunidade era apenas cinco anos mais antiga do que Holden’s Crossing, mas bem maior. Quando entraram na cidade, Sarah arregalou os olhos,

chegou para mais perto de Rob e segurou a mão de Alex, pois não estava acostumada a ver tanta gente na rua. O Grande Despertar estava sendo realizado na planície,

ao lado de um pequeno bosque de salgueiros. Havia gente de toda a região. Barracas eram erguidas para proteger os forasteiros do sol e do vento do outono e havia

carroças de todos os tipos, cavalos e gado amarrados nelas. Os organizadores do encontro atendiam o povo e os três viajantes de Holden’s Crossing passaram por fogueiras

onde os vendedores preparavam petiscos cheirosos - veado assado, cozido de peixe de rio, porco assado, milho doce, lebre cozida. Quando Rob J. amarrou o cavalo nos

galhos de um arbusto - o animal que antes era Margaret Holland

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e agora se chamava Vicky, em homenagem à rainha Vitória (“Você nunca dormiu com a jovem rainha, dormiu?” tinha perguntado Sarah antes de rebatizar a égua) -, estavam



todos com fome, mas não precisavam gastar dinheiro comprando comida. Alma Schroeder tinha providenciado um cesto tão grande que a festa de casamento podia durar

uma semana, e naquele dia comeram galinha fria e bolinhos de maçã.

Comeram rapidamente, contagiados pela excitação que pairava no ar, olhando o movimento, ouvindo os gritos e o vozerio. Então, cada um segurando uma das mãos de Alex,

deram uma volta, andando devagar. Na verdade eram dois encontros religiosos e tornou-se ferrenha a competição entre pregadores metodistas e batistas. Ouviram durante

algum tempo o pregador batista, numa clareira, no bosque. Chamava-se Charles Prestiss Willard e gritava e esbravejava, provocando calafrios em Sarah. Ele advertiu

que Deus estava escrevendo os nomes de todos no seu livro, marcando os que teriam a vida eterna e os que estariam condenados à morte eterna. O que condenava o pecador

à morte eterna, disse ele, era a conduta imoral e não-cristã, como fornicação, beber uísque ou trazer ao mundo crias ilegítimas.

Rob J. estava sombrio e Sarah trêmula e pálida quando foram ouvir o metodista, na pradaria, um homem chamado Arthur Johnson. Não era um orador tão impressionante

quanto o Sr. Willard, mas disse que todos podiam alcançar a salvação praticando boas ações, confessando os pecados e pedindo perdão a Deus, e Sarah balançou a cabeça

afirmativamente quando Rob perguntou se ela não achava que o Sr. Johnson podia realizar o casamento. O Sr. Johnson ficou satisfeito quando Rob falou com ele, depois

do sermão. Queria que a cerimônia fosse realizada perante todos os presentes, mas nem Rob, nem Sarah estavam dispostos a fazer parte do espetáculo. Por três dólares,

ele concordou em acompanhá-los para fora da cidade. Rob e Sarah ficaram de pé, na margem do Mississipi, sob uma árvore, Alex sentou no chão e uma mulher gorda e

tranqüila, que o Sr. Johnson apresentou apenas como Irmã Jane, serviu de testemunha.

- Eu tenho um anel - disse Rob, tirando a jóia do bolso, e Sarah arregalou os olhos porque a aliança da mãe, que Rob mostrou, foi uma surpresa para ela. Os dedos

longos de Sarah eram finos e a aliança ficou larga. Ela tirou a fita azul-escura, presente de Alma, que prendia seus cabelos louros, deixando-os cair sobre os ombros

e as costas, enfiou nela a aliança e disse que a usaria dependurada no pescoço até poder adaptála ao seu dedo. Segurou fortemente a mão de Rob enquanto o Sr. Johnson

realizava a cerimônia com a tranqüilidade da sua grande experiência. Rob J. surpreendeu-se com a força da própria voz quando repetiu os votos. A voz de Sarah soou

trêmula e ela parecia não acreditar no que estava acontecendo. Depois da cerimônia, estavam ainda se beijando quando o Sr. Johnson começou a tentar convencê-los

a voltar para o encontro, pois era na sessão da noite que a maioria das almas compareciam em busca da salvação.

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Mas eles agradeceram e se despediram, pondo Vicky na direção de casa. Alex, cansado, estava rabugento e manhoso, mas Sarah o distraiu com canções e histórias e

Rob parou várias vezes para brincar um pouco com ele.

Jantaram cedo, tortas de carne e rim, da cesta preparada por Alma, bolo inglês com cobertura de açúcar e água do regato. Depois, procuraram resolver o tipo de acomodação

que deviam procurar para aquela noite. Havia uma estalagem a poucas horas de viagem e a idéia agradou a Sarah que nunca tivera dinheiro suficiente para pagar um

quarto numa estalagem. Mas quando Rob J. falou de percevejos e da sujeira desses estabelecimentos, ela concordou em parar no mesmo lugar da noite anterior.

Chegaram ao cair da noite e depois da permissão imediata do fazendeiro, subiram para o calor do jirau escuro, quase com a sensação de estarem chegando em casa.

Cansado da viagem e da falta da sua sesta habitual, Alex mergulhou imediatamente num sono profundo e, depois de cobri-lo cuidadosamente, os dois estenderam um cobertor

e abraçaram-se com avidez, antes mesmo de estarem despidos. Rob ficou satisfeito por Sarah não fingir inocência, admitindo que o desejo que os envolvia era honesto

e sincero. Fizeram amor barulhento e agitado e depois esperaram para ver se não tinham acordado Alex, mas o menino dormia tranqüilamente.

Rob acabou de tirar a roupa dela e como estava muito escuro dentro do celeiro, aproximaram-se da portinhola por onde o feno era levado para o jirau e a abriram.

No retângulo de luz desenhado pela lua nova, eles se examinaram mutuamente durante um longo tempo. Ele observou os ombros e os braços banhados de luar, os seios

firmes, o triângulo entre as pernas, que parecia o ninho de um pequeno pássaro, as nádegas muito brancas. Rob queria fazer amor ao luar, mas o ar estava um pouco

frio e Sarah teve medo de que o fazendeiro pudesse vê-los. Rob fechou a porta e dessa vez fizeram amor lenta e ternamente e, no momento em que se satisfez, ele exclamou,

exultante.

- Isto fará nosso pequeno bairn. Isto! - Alex acordou com os gemidos roucos da mãe e começou a chorar.

Com Alex deitado entre eles, Rob a acariciou suavemente, tirando as palhas de feno do corpo dela e lembrando.

- Você não pode morrer - disse ela.

- Nenhum de nós, por muito e muito tempo.

- Um bairn é um filho?

- É.


- Acha que já começamos um?

- ... Pode ser.

Sarah engoliu em seco e disse.

- Talvez, para garantir, seja melhor continuarmos a tentar? Como marido e como médico, Rob achou a idéia sensata. Os dois

engatinharam sobre o feno fresco, afastando-se do pequeno Alex adormecido.

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