Noah Gordon, o xamã



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e duras, quando ele ergueu as patas dianteiras para tomar a fêmea por trás. A fêmea rosnou e girou o corpo rapidamente, batendo as patas dianteiras no ar e o macho

fugiu. Ela deu alguns passos na direção do urso negro, mas viu a carcaça do coelho e, tomando-a nos dentes, saiu da clareira.

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Finalmente, sentindo muita dor, Dois Céus ficou de pé. O Profeta tinha levado suas roupas. Ela não viu nenhuma pegada de urso na terra dura da clareira, mas nas

cinzas finas do fogo morto havia a marca das patas de uma raposa. Se a raposa tivesse entrado na clareira durante a noite, certamente teria levado a carcaça do coelho.

Talvez os ursos fossem um sonho, ou, quem sabe, manitous.

Durante todo aquele dia ela caminhou. Em certo momento ouviu o tropel de cavalos e se escondeu nas moitas. Seis jovens sioux passaram rapidamente. Era dia ainda

quando entrou em Prophetstown acompanhada por fantasmas, o corpo nu coberto de sangue e de terra. Três homens pararam de falar quando a viram e uma mulher parou

de socar o milho. Pela primeira vez Dois Céus viu medo nos rostos voltados para ela.

O próprio Profeta a lavou. Tratando dos ferimentos e das queimaduras, ele perguntou se ela havia sonhado. Dois Céus falou dos dois ursos e os olhos dele brilharam.

- O sinal mais poderoso! - murmurou Nuvem Branca. Significava, disse ele, que, enquanto ela não dormisse com um homem, os manitous ficariam ao seu lado.

Dois Céus pensou por um momento e Nuvem Branca disse que ela nunca mais seria Dois Céus, nunca mais seria Sarah Dois. Naquela noite, em Prophetstown, ela se tornou

Makwa-ikwa, a Mulher Urso.

O Grande Pai, em Washington, mais uma vez mentiu para os sauks. O exército prometeu aos sauks de Keokuk que poderiam viver para sempre na terra dos iowas, além da

margem leste do Masesibowi, mas aquelas terras estavam sendo rapidamente ocupadas pelos brancos. Uma cidade branca surgiu na frente de Rock Island, na outra margem

do rio. Chamavase Davenport, em honra do negociante de peles que aconselhara os sauks a abandonar os ossos dos seus antepassados e Sauk-e-nuk, e depois comprou suas

terras para fazer fortuna.

Agora o exército disse aos sauks de Keokuk que eles deviam muito dinheiro americano e deviam vender suas novas terras no território de lowa para viver na reserva

instalada pelos Estados Unidos numa região distante, a sudoeste, no território do Kansas.

O Profeta disse à Mulher Urso que enquanto vivesse ela não devia acreditar na palavra dos brancos.

Naquele ano Pássaro Amarelo foi picada por uma cobra, metade do seu corpo ficou inchada e cheia d’água e ela morreu. Lua encontrou um marido, um sauk chamado Chega

Cantando, e já tinham filhos. Mulher Fumaça não casou. Dormia com tantos homens, com tanta felicidade, que todos sorriam ao pronunciar seu nome. Às vezes, Makwa-ikwa

sentia desejo sexual, mas sabia controlar-se, como sabia controlar a dor. A falta de filhos era penosa. Lembrava-se de quando tinha se escondido

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com O-Dono-da-Terra durante o massacre em Bad Ax, lembrava-se dos lábios do irmão sugando seu seio. Mas já estava conformada. Vivia há muito tempo com os manitous



para pensar em questionar a decisão de que jamais seria mãe. Estava satisfeita com a posição de curandeira. As duas últimas Tendas da Sabedoria tratavam de magia,

como provocar doença numa pessoa sã por meio de encantamento, como evocar e dirigir a má sorte. Makwa-ikwa conheceu os pequenos seres malvados chamados watawinonas,

conheceu fantasmas e bruxos, e Panguk, o Espírito da Morte. Esses espíritos só eram evocados nas tendas finais porque uma curandeira precisava dominar a si mesma

antes de chamá-los, do contrário ela se juntaria aos watawinonas na sua maldade. A magia negra era sua mais pesada responsabilidade. Os watawinonas roubaram de Makwa-ikwa

a capacidade de sorrir. Ela ficou pálida e emaciada. Sua carne derreteu, fazendo com que os ossos parecessem enormes e às vezes seu sangue mensal não vinha. Percebeu

que os watawinonas estavam absorvendo também a vida de Wabokieshiek. Ele ficava cada vez mais fraco e pequeno, mas garantiu a Makwa-ikwa que não estava para morrer

ainda.

Ao fim de mais dois anos, o Profeta a conduziu através da última tenda. No passado, isso exigia a convocação dos grupos mais distantes dos sauks, a realização de



corridas e jogos, a cerimônia do cachimbo da paz e uma reunião secreta dos Mide’wiwin, a sociedade dos curandeiros das tribos algonquianas. Mas esses dias não existiam

mais. Os povos de pele-vermelha estavam espalhados e em situação difícil. Tudo que Nuvem Branca conseguiu foi a presença de três outros homens idosos, para servir

de juizes, Faca Perdida, dos mesquakies, Cavalo Estéril, dos ojibwas, e Pequena Grande Cobra, dos menominis. As mulheres de Prophetstown fizeram um vestido e um

par de sapatos de corça branca para Makwa-ikwa e ela usou seus izze e argolas nos pulsos e nos tornozelos, que chocalhavam quando ela se movia. Ela matou dois cães

com a vareta estranguladora e supervisionou a limpeza e o preparo da carne. Depois do banquete, ela e os velhos passaram a noite sentados em volta do fogo.

Makwa-ikwa respondeu com respeito, mas com a firmeza de uma igual, às perguntas dos anciãos. Fez soar nos tambores de água os sons de súplica, enquanto cantava,

evocando os manitous e os espíritos pacificadores. Os anciãos revelaram a ela os segredos do Mide’wiwin, guardando os próprios segredos, assim como Makwa-ikwa guardaria

os dela daquele dia em diante. Quando o dia nasceu, Makwa-ikwa era uma Xamã.

No passado o título de Xamã conferia grande poder. Mas agora Wabokieshiek ajudou-a a colher as ervas que não existiam no lugar para onde Makwa-ikwa ia. Depois de

se despedir do Profeta, ela montou no outro presente, um pônei cinzento e, puxando pela rédea a mula malhada carregada com seus tambores, a bolsa de medicina e as

ervas, partiu para o território do Kansas, onde viviam os sauks.

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A reserva ficava numa região mais plana do que as planícies do Illinois.
Havia água suficiente para beber, mas tinha de ser carregada de muito longe. Dessa vez os brancos tinham dado terras bastante férteis para os sauks. As sementes

plantadas brotaram fortes na primavera, mas logo no começo do verão, tudo secou e morreu. O vento soprava areia através da qual o sol escaldava como um olho redondo

e vermelho.

Assim, eles se contentavam com a comida dada pelos soldados. Carne estragada, gordura de porco malcheirosa, vegetais velhos. Migalhas dos banquetes dos brancos.

Não tinham hedonoso-tes. O Povo vivia em cabanas feitas com troncos verdes que empenavam e encolhiam, deixando frestas por onde entrava a neve no inverno. Duas vezes

por ano, um agente índio, pequeno e nervoso, chegava acompanhado de soldados e deixava mercadorias na planície: espelhos baratos, contas de vidro, arreios rachados

e quebrados com sinos, roupas velhas, carne bichada. A princípio, todos os sauks examinaram as pilhas de objetos, então alguém perguntou ao agente por que ele levava

aquelas coisas e ele respondeu que era pagamento pelas terras confiscadas aos sauks pelo governo. Depois disso, só os mais fracos e mais desprezados aceitavam alguma

coisa. A pilha crescia de seis em seis meses, apodrecendo exposta ao tempo.

Tinham ouvido falar de Makwa-ikwa. Quando ela chegou, eles a receberam com respeito, mas não eram mais uma tribo para precisar de uma Xamã. Os mais decididos tinham

acompanhado Falcão Negro e foram mortos pelos brancos, ou pela fome, afogados no Masesibowi ou assassinados pelos sioux, mas havia alguns na reserva que conservavam

os corações fortes dos antigos sauks. Sua coragem era constantemente testada nas lutas com tribos nativas da região, porque a caça vinha diminuindo e os comanches,

os kiowas, os cheyennes e os osages ressentiamse da competição das tribos do leste, levadas para suas terras pelos americanos. Os brancos prejudicavam a capacidade

de defesa dos sauks, fornecendo grandes quantidades de uísque de má qualidade, tomando em troca as peles dos animais que eles apanhavam. A cada dia aumentava o número

de sauks que passavam os dias embriagados e doentes por causa da bebida.

Makwa-ikwa ficou pouco mais de um ano na reserva. Naquela primavera, uma pequena manada de búfalos apareceu na planície. O marido de Lua, Chega Cantando, saiu com

outros caçadores e voltaram com carne para os sauks. Makwa-ikwa ordenou que fizessem a Dança do Búfalo e instruiu tambores e cantores. No passado o povo dançava

e ela viu nos olhos de alguns um brilho que há muito tinha desaparecido, uma luz que a encheu de alegria.

Outros também perceberam. Depois da Dança do Búfalo, Chega Can-

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tando disse a Makwa-ikwa que alguns sauks queriam deixar a reserva e viver como seus pais tinham vivido. Perguntaram se sua Xamã os acompanharia.

Ela perguntou a Chega Cantando para onde pretendiam ir.

- Para casa - disse ele.

Assim, os mais jovens e mais fortes deixaram a reserva, e Makwa-ikwa com eles. No outono, estavam na terra que alegrava suas almas e ao mesmo tempo magoava seus

corações. Era difícil evitar o homem branco. Durante a longa viagem davam longas voltas para não atravessar as fazendas e cidades dos brancos. A caça era pouca.

O inverno os apanhou desprevenidos. Wabokieshiek tinha morrido no último verão e Prophetstown estava deserta. Ela não podia pedir a ajuda dos brancos, lembrando

a advertência do Profeta, para jamais confiar na palavra de um branco.

Mas ela rezou e os manitous mandaram ajuda na pessoa do médico branco chamado Cole, e a despeito do espírito do Profeta, ela chegou à conclusão de que podia confiar

nele.

Assim, quando ele entrou no acampamento dos sauks e disse que precisava da ajuda de Makwa-ikwa para fazer sua medicina, ela concordou sem hesitar.



18 PEDRAS

Rob J. tentou explicar a Makwa-ikwa o que era um cálculo na bexiga, mas teve a impressão de que ela não acreditou que a doença de Sarah Bledsoe fosse provocada por

pedras na bexiga. Makwa-ikwa perguntou se ele ia socar as pedras, e depois da conversa ficou claro que ela esperava assistir a um espetáculo de prestidigitação,

uma espécie de malabarismo, para convencer a paciente de que tinha retirado a causa da sua doença. Rob J. explicou várias vezes que as pedras eram reais, que existiam

de verdade e provocavam muita dor, e que ele ia inserir um instrumento no corpo de Sarah para retirá-las.

Makwa-ikwa ficou mais intrigada ainda quando, ao chegarem à casa de Rob, ele lavou com água e sabão escuro a mesa feita por Alden, na qual ia fazer a operação. Os

dois foram de charrete apanhar Sarah Bledsoe em casa. O garoto, Alex, ficou com Alma Schroeder e Sarah

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estava à espera do médico, com os olhos muito grandes no rosto miúdo e abatido. Voltaram para a casa de Rob, Makwa-ikwa em silêncio e Sarah paralisada de medo. Rob

tentou amenizar o ambiente, falando sobre coisas variadas, mas sem resultado.

Quando chegaram à sua casa, Makwa-ikwa saltou da charrete e, com uma gentileza que surpreendeu Rob J., ajudou a jovem branca a descer. Então, ela falou pela primeira

vez.


- Houve um tempo em que eu me chamava Sarah Dois - disse ela, para Sarah Bledsoe, mas Rob pensou ter ouvido “Sarah também”.

Sarah não estava acostumada a beber. Tossiu quando tentou tomar os três dedos de uísque de malte ácido e engasgou com os dois dedos, ou mais, que Rob adicionou à

caneca, por medida de segurança. Ele queria que Sarah ficasse atordoada e insensível, mas capaz de cooperar. Enquanto esperavam que o uísque fizesse efeito, ele

acendeu velas em volta da mesa, apesar do calor, porque a luz era fraca no interior da casa. Quando a despiram, viram que seu corpo estava vermelho de tanto esfregar

e lavar. As nádegas magras eram pequenas como as de uma criança e as coxas azuladas pareciam quase côncavas de tão magras. Ela contraiu o rosto quando Rob inseriu

o cateter e encheu a bexiga com água. Rob mostrou a Makwa-ikwa como devia segurar os joelhos da paciente. Depois, lubrificou o litotrite com gordura limpa, menos

as duas pinças, que deviam triturar as pedras. Sarah deixou escapar um gemido abafado quando ele inseriu o instrumento na sua uretra.

- Eu sei que dói, Sarah. É doloroso quando entra, mas... Pronto. Agora, vai melhorar.

Sarah estava acostumada a dor muito mais intensa e parou de gemer, mas Rob estava preocupado. Fizera isso há alguns anos e assim mesmo, sob o olhar atento do homem

que era, sem dúvida, um dos melhores cirurgiões do mundo. Tinha passado várias horas, no dia anterior, praticando o uso do litotrite, apanhando com as pinças uvas

e pequenas pedras, quebrando cascas de nozes, movimentando-o dentro de um pequeno tubo com água, com os olhos fechados. Mas era muito diferente fazer o mesmo dentro

da bexiga frágil de um ser humano, sabendo que se forçasse demais ou se apanhasse um pedaço de tecido, ao invés da pedra, poderia provocar um ferimento que teria

como resultado infecção e morte dolorosa.

Uma vez que não podia usar os olhos, ele os fechou e movimentou o litotrite delicadamente, em círculo, todo seu ser concentrado no nervo que funcionava na extremidade

do instrumento. Sentiu que tocava em alguma coisa. Abriu os olhos e observou a virilha e o abdome da mulher, desejando poder enxergar através da carne.

Makwa-ikwa observava atentamente as mãos dele, seu rosto. Rob J. afastou com a mão livre uma mosca impertinente e depois ignorou

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tudo que não fosse sua paciente e o que estava fazendo e o instrumento que estava manejando. A pedra... Meu Deus, sem dúvida era muito grande! Talvez do tamanho



do seu dedo polegar, calculou, manobrando e manipulando o instrumento lenta e cautelosamente.

Para saber se a pedra podia ser movida, ele apertou as pinças do litotrite em volta dela, mas quando puxou de leve, a mulher na mesa abriu a boca e gritou.

- Apanhei a pedra maior, Sarah - disse ele, calmamente. - É grande demais para sair inteira, portanto vou tentar quebrá-la. - Enquanto falava, seus dedos se moviam

para o parafuso na extremidade externa do litotrite. Era como se cada volta do parafuso aumentasse a tensão dentro dele também, porque se não conseguisse quebrar

a pedra, o prognóstico era desanimador. Mas, ele continuou a girar o cabo e finalmente ouviu o estalo abençoado da pedra que se partia, com o som de uma vasilha

de barro amassada sob os pés.

Rob quebrou a pedra em três pedaços. Mesmo trabalhando com todo o cuidado, quando retirou o primeiro pedaço, ele a machucou. Makwaikwa limpou com um pano molhado

o suor do rosto de Sarah. Com a mão livre, Rob abriu os dedos dela um a um, como pétalas de flor, e pôs o pedaço da pedra na palma. Era um cálculo feio, marrom e

negro. O pedaço do centro era macio e ovalado, mas as duas extremidades irregulares, com pequenas arestas finas e cortantes. Quando os três pedaços estavam na mão

dela, Rob inseriu o cateter e lavou a bexiga e com a urina saíram vários cristais da pedra partida.

Sarah estava exausta.

- Por hoje chega - resolveu ele. - Há outra pedra na sua bexiga, mas é pequena e vai ser mais fácil de remover. Faremos isso outro dia.

A febre que acompanhava qualquer cirurgia apareceu em menos de uma hora. Eles a fizeram tomar líquidos, incluindo o eficiente chá de casca de salgueiro de Makwa-ikwa.

Na manhã seguinte, Sarah estava ainda levemente febril, mas já podia voltar para casa. Apesar de dolorida e exausta, como Rob sabia que ela devia estar, Sarah não

se queixou nem uma vez durante a viagem. A febre não tinha desaparecido ainda dos seus olhos, mas havia neles agora uma outra luz, a luz da esperança.

Alguns dias mais tarde, Nick Holden o convidou para outra caçada de corça e Rob aceitou, um tanto ressabiado. Dessa vez tomaram um barco e subiram o rio até Dexter,

onde as duas irmãs LaSalle os esperavam na taverna. Apesar da descrição hiperbólica de Nick, Rob percebeu que eram duas prostitutas cansadas. Nick escolheu Polly,

a mais jovem e mais atraente, deixando para Rob uma mulher envelhecida, com expressão amarga e um bigode incipiente, que camadas de pó-de-arroz não conseguiam esconder

- Lydia. Lydia ficou evidentemente ofendida com a insistência de Rob no uso de água e sabão, além do Velho Tesão, mas

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executou sua parte da transação com eficiente profissionalismo. Naquela noite, deitado ao lado dela, no quarto que guardava o leve odor dos fantasmas de desejos

passados e pagos, ele perguntou a si mesmo o que estava fazendo ali. Do quarto vizinho chegava o som de vozes exaltadas, depois o estalo de uma bofetada, gritos

roucos de mulher, baques surdos mas inequívocos.

- Meu Deus! - Rob J. bateu na parede fina. - Nick. Está tudo bem aí?

- Perfeito. Que diabo, Cole. Veja se dorme um pouco agora. Ou faça outra coisa qualquer. Está ouvindo? - respondeu Holden, irritado, com voz arrastada, cheia de

uísque.


Na manhã seguinte, quando se encontraram para o café, Polly estava com o lado do rosto inchado. Nick devia ter pago muito bem a pancadaria porque, quando se despediram,

ela não parecia nem um pouco descontente.

Não era possível ignorar o incidente. No barco a vapor, quando voltavam, Nick pôs a mão no braço de Rob.

- Às vezes mulheres gostam de jogo bruto, não sabia disso, seu bode velho? Elas praticamente pedem pancada, para se excitar.

Rob olhou para ele em silêncio, certo de que aquela fora sua última caçada de corça. Tirando a mão do seu braço, Nick começou a falar sobre as eleições. Ia se candidatar

a um cargo público na legislatura do distrito. Rob J. podia ajudar, disse ele, esperançoso, convencendo seus pacientes a votar no seu velho amigo.

19

UMA MUDANÇA



Duas semanas depois da primeira operação, Rob J. estava pronto para remover o cálculo menor da bexiga de Sarah, mas ela não parecia muito disposta. Nos dias que

se seguiram à retirada da pedra, ela havia expelido cristais, às vezes com alguma dor. Os sintomas tinham desaparecido. Pela primeira vez, desde o aparecimento da

doença, deixou de sofrer dores lancinantes e aos poucos recuperou o controle do próprio corpo.

- Ainda tem uma pedra na bexiga - lembrou ele.

- Não quero tirar. Não sinto nenhuma dor - disse ela, com desafio, e depois abaixou os olhos. - Sinto mais medo agora do que da primeira vez.

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Rob notou a melhora na aparência dela. O rosto trazia ainda as marcas do longo período de sofrimento e aflição, mas estava mais cheio e menos abatido.

- A pedra grande que removemos começou como uma pedra pequena. Elas crescem, Sarah - disse ele.

Então ela concordou. Mais uma vez Makwa-ikwa ajudou na remoção do pequeno cálculo - mais ou menos um quarto do tamanho do primeiro. Depois de um mínimo de desconforto,

a sensação de triunfo.

Porém, a febre pós-operatória quando chegou pareceu incendiar o corpo de Sarah. Rob pressentiu o desastre iminente e censurou a si mesmo por ter insistido. Antes

do anoitecer, o temor de Sarah se tornou realidade. O processo muito mais simples de remoção da pedra menor teve como resultado uma infecção generalizada. Rob e

Makwa-ikwa revezaramse ao lado do leito durante quatro dias e quatro noites, enquanto o corpo de Sarah empenhava-se numa feroz batalha contra a morte. Segurando

as mãos dela, Rob sentia a vitalidade fugindo rapidamente. Uma vez ou outra, com o olhar perdido na distância, Makwa-ikwa entoava cantos suaves na sua língua. Disse

a Rob que estava pedindo a Panguk, o deus da morte, para poupar aquela mulher. Tudo que podiam fazer era lavar o corpo de Sarah com panos molhados, ampará-la quando

ministravam líquidos e passar gordura limpa nos seus lábios rachados e secos. Durante algum tempo, seu estado deteriorou, mas na manhã do quinto dia - teria sido

obra de Panguk, da força do espírito de Sarah ou do chá de loureiro? - ela começou a transpirar. As camisolas ficavam encharcadas de suor assim que eram trocadas.

No meio da manhã, ela mergulhou num sono profundo e reparador e, à tarde, sua testa estava quase fria sob a mão de Rob.

A expressão de Makwa-ikwa não se alterou muito, mas Rob J. começava a conhecê-la e teve certeza de que a idéia a agradava, embora, a princípio, ela não a tivesse

levado a sério.

- Trabalhar com você? Sempre?

Ele fez que sim com a cabeça. Rob não hesitou em fazer o pedido porque estava certo da sua capacidade para cuidar de doentes. Disse que podia ser muito vantajoso

para ambos.

- Você pode aprender um pouco da minha medicina e pode me ensinar muita coisa sobre suas ervas e plantas. O que elas podem curar, como devem ser usadas.

Tocaram no assunto pela primeira vez na charrete, depois de terem deixado Sarah em casa. Rob não insistiu. Queria que ela tivesse tempo para pensar.

Alguns dias depois, ele foi ao acampamento dos sauks e repetiu a sugestão, enquanto comiam cozido de coelho. Makwa-ikwa não gostou da idéia de morar perto da casa

de Rob, uma necessidade, segundo ele, para casos de emergência.

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- Preciso ficar com meu povo.

Rob havia pensado longamente na situação dos sauks.

- Mais cedo ou mais tarde o homem branco vai requisitar ao governo cada pedaço de terra que vocês precisam para sua aldeia ou para seu acampamento de inverno. Serão

obrigados a voltar para a reserva de onde fugiram. - O que deviam fazer, disse ele, era aprender a viver no mundo que existia agora. - Preciso de ajuda na minha

fazenda. Alden Kimball não pode fazer tudo. Um casal, como Lua e Chega Cantando, podia ser muito útil. Podem construir casas de madeira nas minhas terras. Pagarei

os três com dinheiro dos Estados Unidos, bem como com produtos da fazenda. Se der certo, talvez outros fazendeiros queiram dar trabalho aos sauks. E se vocês puderem

economizar algum dinheiro, mais cedo ou mais tarde poderão comprar terras, de acordo com a lei e os costumes dos brancos, e ninguém mais poderá expulsá-los.

Makwa-ikwa olhou pra ele.

- Sei que a idéia de comprar sua própria terra a ofende. O homem branco mentiu para vocês e os enganou. Ê matou muitos do seu povo. Mas os peles-vermelhas também

mentiram uns para os outros. Também roubaram do seu próprio povo. E os grupos diferentes sempre mataram uns aos outros, você mesma me contou. A cor da pele não é

importante, todos os povos são uns filhos da mãe. Mas nem todas as pessoas do mundo são filhas da mãe.

Dois dias mais tarde, Makwa-ikwa, Lua, Chega Cantando e seus filhos chegaram à fazenda de Rob. Construíram um hedonoso-te com duas aberturas para saída da fumaça,

uma única casa longa para todos, com espaço suficiente para acomodar também o terceiro filho que estava a caminho. Ergueram a casa na margem do rio, quinhentos metros

rio abaixo da casa de Rob J. Ao lado, construíram uma tenda de suor e a casa que as mulheres usavam quando estavam menstruadas.

Alden Kimball não aprovou a idéia.

- Há muitos homens brancos à procura de trabalho - censurou ele. - Homens brancos. Nunca lhe ocorreu que eu posso me recusar a trabalhar com os malditos índios?

- Não - disse Rob - nunca me ocorreu. Achei que, se tivesse encontrado um bom trabalhador branco, você me teria aconselhado a empregá-lo, há muito tempo. Eu conheço

essa gente. São pessoas muito boas. Agora, sei que você pode me deixar, Alden, porque só um tolo não o agarraria imediatamente se estivesse desempregado. Eu sentiria




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