Noah Gordon, o xamã



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Búfalo Verde permaneceu fiel, embora, quatro luas depois de ter deixado os sauks de Keokuk, o grupo de Falcão Negro estivesse reduzido a algumas centenas de pessoas

que procuravam sobreviver comendo raízes e casca de árvore. Voltaram para o Mesesibowi, como sempre procurando conforto no grande rio. O navio a vapor Warrior avistou

os sauks tentando pescar nos baixios da embocadura do rio Ouisconsin. Quando o navio começou a se aproximar deles, Falcão Negro viu o canhão enorme na proa e compreendeu

que não podia mais lutar. Seus homens ergueram uma bandeira branca, mas o navio chegou mais perto e um mercenário winnebago, que estava no convés, gritou na sua

língua.


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- Fujam e escondam-se, os brancos vão atirar!

Ainda dentro da água rasa, os índios começaram a fugir para a margem quando o canhão disparou, num tiro direto, acompanhado por fogo cerrado de mosquetes. Vinte

e três sauks foram mortos. Os outros fugiram para a floresta, alguns carregando ou arrastando os feridos.

Naquela noite eles confabularam. Falcão Negro e o Profeta resolveram seguir para as terras dos chippewas. Três famílias concordaram em ir com eles, mas os outros,

incluindo Búfalo Verde, não acreditavam que os chippewas cedessem campos de milho aos sauks, quando as outras tribos não o tinham feito e resolveram voltar para

os sauks de Keokuk. De manhã, despediram-se dos poucos que iam para as terras dos chippewas e seguiram para o sul, de volta para casa.

O Warrior perseguiu os índios rio abaixo, guiando-se pelos bandos de abutres e corvos. Agora, quando levantavam acampamento, os sauks simplesmente abandonavam seus

mortos. Eram os velhos, as crianças, os feridos. O navio parava e os homens retiravam as orelhas e os escalpos dos corpos abandonados pelos índios. Não importava

se o escalpo de cabelos negros era de uma criança ou se a orelha vermelha era de uma mulher; seriam mostrados orgulhosamente nas pequenas cidades, como provas de

que seus possuidores tinham lutado contra os índios.

Os sauks restantes deixaram o Masesibowi e rumaram para o interior, e logo se viram à frente dos mercenários winnebagos. Atrás dos winnebagos, fileiras de soldados

calaram as baionetas pelas quais os índios os chamavam de Facas Longas. Os brancos avançaram com um grito uníssono, rouco e animalesco, mais profundo do que um grito

de guerra, mas não menos selvagem. Eram muitos, todos resolvidos a matar para recuperar algo que pensavam ter perdido. Os sauks recuaram, atirando. Quando chegaram

outra vez ao Masesibowi, tentaram lutar, mas foram repelidos para o rio. Dois Céus estava ao lado da mãe, com água até a cintura, quando uma bala de chumbo penetrou

no queixo de Uniãode-Rios e ela caiu de bruços na água. Dois Céus, carregando o irmão, O-Dono-da-Terra, com grande dificuldade conseguiu virar o corpo da mãe e compreendeu

que União-de-Rios estava morta. Dois Céus não viu o pai nem a irmã. O mundo todo era feito de tiros e gritos, e quando os sauks dirigiram-se para uma pequena ilha,

ela os acompanhou.

Tentaram se proteger na ilha, agrupados atrás de rochas e troncos caídos. Mas, no rio, surgindo da névoa como um enorme fantasma, o navio logo começou a castigar

a ilha com seu canhão. Algumas mulheres atiraram-se no rio, tentando atravessá-lo a nado. Dois Céus não sabia que os brancos haviam contratado os sioux para esperá-los

na outra margem do rio e matar quem tentasse atravessar. Finalmente ela entrou na água, segurando com os dentes a pele flácida da nuca do irmãozinho para poder nadar.

Com o gosto do sangue do irmão na boca, os músculos do pescoço e dos ombros tensos e doloridos com o esforço de manter a cabeça fora d’água, ela nadou. O cansaço

logo a venceu e Dois

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Céus compreendeu que, se continuasse, ela e a criança iam morrer. Deixou que a correnteza os levasse rio abaixo, para longe do tiroteio, e virou para terra, nadando



como uma raposa ou um esquilo, carregando o filhote. Quando chegou na margem, ficou deitada ao lado do bebê que gritava de dor, procurando não olhar para o pescoço

dele.


Dois Céus apanhou O-Dono-da-Terra nos braços e correu para longe do som da luta. Uma mulher estava sentada na margem do rio e quando se aproximou, Dois Céus viu

que era sua irmã. Mulher Alta estava coberta de sangue, mas disse que não era o seu. Um soldado tentava violentá-la quando foi atingido por uma bala. Ela conseguiu

sair de baixo do corpo ensangüentado do homem. Ele ergueu a mão, pedindo socorro na sua língua e Mulher Alta o matou com uma pedra.

Mulher Alta conseguiu contar sua história, mas não compreendeu quando Dois Céus disse que sua mãe estava morta. Os gritos e os tiros pareciam mais próximos. Carregando

o irmão e conduzindo a irmã, Dois Céus escondeu-se com eles entre as moitas cerradas da margem do rio. Mulher Alta não disse uma palavra, mas O-Dono-da-Terra não

parava de gritar e Dois Céus teve medo de que o choro estridente atraísse os soldados. Abriu o vestido na frente e levou a boca do irmão ao seio de menina. O pequeno

mamilo cresceu com a sucção dos lábios da criança e ela o apertou contra o corpo.

As horas passaram, os tiros tornaram-se mais esparsos e o tumulto terminou. As sombras da tarde alongavam-se no solo quando ela ouviu os passos de uma patrulha e

o bebê começou a chorar outra vez. Dois Céus pensou em estrangular O-Dono-da-Terra para que ela e Mulher Alta pudessem viver. Mas apenas esperou, e depois de alguns

minutos, um garotinho magro e branco enfiou o mosquete na moita e as arrastou para fora. A caminho do navio, por toda a parte, elas viam membros do seu povo sem

orelhas ou escalpados. Os Facas Longas tinham reunido trinta e nove mulheres e crianças. Todos os outros estavam mortos. O-Donoda-Terra chorava ainda e um winnebago

olhou para a criança emaciada com o pescoço ferido. “Ratinho”, disse ele, com desdém, mas um soldado ruivo, com duas divisas amarelas na manga da túnica azul, misturou

água e açúcar numa garrafa de uísque vazia e enfiou um pedaço de pano no gargalo. Tirou o bebê dos braços de Dois Céus, deu o pano para ele chupar e afastou-se,

satisfeito, com o menino nos braços. Dois Céus tentou ir atrás dele, mas o winnebago bateu na cabeça dela com a mão aberta até seus ouvidos ficarem zunindo. O navio

afastou-se da embocadura do Bad Ax, navegando entre os corpos dos sauks. A sessenta quilômetros rio abaixo, chegaram a Prairie du Chien, onde Dois Céus, Mulher Alta

e mais três sauks, Mulher Fumaça, Lua e Pássaro Amarelo, foram levados para uma carroça. Lua era mais jovem do que Dois Céus. As outras duas eram mais velhas, mas

não tanto quanto Mulher Alta. Ela não sabia o que tinha acontecido às outras prisioneiras e nunca mais viu O-Dono-da-Terra.

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A carroça chegou a um posto do exército que mais tarde elas souberam ser Forte Crawford, mas as mulheres foram levadas para uma casa de fazenda com cercas e várias



construções externas, a cinco quilômetros do forte. Dois Céus viu campos arados e plantados e vários animais pastando, além de aves domésticas. Dentro da casa ela

mal podia respirar pois o ar achava-se impregnado com o cheiro estranho de sabão e cera, um cheiro de santidade mookamonik que ela detestaria pelo resto da vida.

Na Escola Evangélica para Meninas índias, Dois Céus teve de agüentar aquele cheiro durante quatro anos.

A escola era dirigida pelo reverendo Edvard Bronsun e pela Srta. Eva, dois irmãos de meia-idade. Nove anos antes, sob o patrocínio da Sociedade Missionária da Cidade

de Nova York, tinham partido para as terras selvagens para conduzir os índios pagãos a Jesus. A escola começou com duas meninas winnebago, uma delas retardada. Perversamente,

as mulheres índias recusavam os convites freqüentes para trabalhar nos campos dos Bronsun, tomar conta do gado, caiar e pintar os prédios e fazer o trabalho doméstico.

Só através da cooperação das autoridades legais e militares conseguiram aumentar o número de alunas e, por ocasião da chegada das sauks, tinham vinte e uma meninas

índias, taciturnas, mas obedientes, trabalhando numa das mais perfeitas fazendas da região.

O Sr. Edvard, alto e magro, com a cabeça calva e sardenta, ensinava agricultura e religião, enquanto que a Srta. Eva, corpulenta e com olhos frios, ensinava como

os brancos queriam que o assoalho fosse esfregado e os móveis e os painéis de madeiras encerados. As alunas aprendiam trabalho doméstico, trabalho no campo, que

se tornava cada vez mais pesado, a língua inglesa, esquecendo sua língua e sua cultura, e aprendiam a rezar a deuses que não conheciam. A Srta. Eva, com um eterno

sorriso frio, castigava a preguiça, a insolência ou o uso de uma palavra indígena, espancando-as com galhos finos e flexíveis de ameixeira.

As outras alunas eram winnebagos, chippewas, illinois, kickapoos, iroqueses e potawatomis. As sauks eram tratadas com hostilidade por todas, mas não as temiam. Tendo

chegado juntas, formavam uma maioria tribal, embora o sistema da escola procurasse anular essa vantagem. A primeira coisa que a aluna perdia era seu nome índio.

Para os Bronsun, somente seis nomes bíblicos podiam inspirar devoção a uma convertida: Rachel, Ruth, Mary, Martha, Sarah e Anna. Uma vez que essa escolha limitada

significava várias alunas com o mesmo nome, para evitar confusão, cada uma recebia um número que só podia ser descartado quando a aluna deixava a escola. Assim,

Lua passou a ser Ruth Três, Mulher Alta, Mary Quatro, Pássaro Amarelo, Rachel Dois e Mulher Fumaça, Martha Três. Dois Céus era agora Sarah Dois.

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A adaptação não foi difícil. As primeiras palavras inglesas que aprenderam foram “por favor” e “obrigado”. Durante as refeições, todos os alimentos e bebidas eram



identificados uma vez, em inglês. A partir daí, quem não fizesse o pedido em inglês passava fome. As sauks aprenderam inglês rapidamente. As duas refeições diárias

consistiam de canjica, pão de milho e raízes vegetais picadas. A carne, raramente servida, era lombo gordo de animais pequenos. As crianças que algumas vezes passaram

fome sempre comem avidamente. Apesar do trabalho árduo, elas engordaram. O brilho voltou aos olhos de Mulher Alta, mas das cinco sauks ela era a que mais vezes esquecia

que era proibido falar a língua do povo e por isso era espancada com maior freqüência. No segundo mês da chegada das sauks, a Srta. Eva ouviu Mulher Alta cochichando

na língua do seu povo e a espancou severamente, na presença do Sr. Edvard. Naquela noite, o Sr. Edvard foi ao sótão escuro que servia de dormitório e em voz baixa

disse que tinha um unguento para tirar a dor das costas de Mary Quatro. Ele a levou para fora do dormitório. No dia seguinte, o Sr. Edvard deu a Mulher Alta um saco

de broas de milho que ela dividiu entre as outras sauks. Depois disso, ele passou a aparecer freqüentemente no dormitório para levar Mulher Alta, e as meninas acostumaram-se

com a comida extra.

Dois meses depois, Mulher Alta começou a sentir enjôo de manhã e ela e Dois Céus souberam, muito antes do seu ventre começar a crescer, que Mary Quatro ia ter um

filho.


Algumas semanas depois, o Sr. Edvard atrelou o cavalo à charrete e a Srta. Eva saiu, levando Mulher Alta com ela. Quando voltou, sozinha, disse a Dois Céus que sua

irmã fora abençoada, que de agora em diante ia trabalhar numa ótima fazenda cristã no outro lado do Forte Crawford. Dois Céus nunca mais viu Mulher Alta.

Sempre que tinha certeza de que estavam sós, Dois Céus falava com as outras sauks na sua língua. Enquanto tiravam lagartas das batatas, ela contava histórias que

ouvira de União-de-Rios. Capinando as plantações de beterrabas, ela cantava as canções dos sauks. Cortando lenha, ela falava de Sauk-e-nuk e do acampamento de inverno,

lembrando as danças e os festivais e os parentes vivos e mortos. Quando elas não respondiam na língua dos sauks, Dois Céus as ameaçava com uma punição pior do que

as sovas da Srta. Eva. Embora duas das meninas fossem mais velhas e maiores do que ela, nenhuma a desafiava e assim conservaram a língua do seu povo.

Quando estavam há mais de três anos e meio na escola, chegou uma nova aluna sioux. Asa Tatalante era mais velha do que Mulher Alta. Pertencia ao grupo dos wabashaws,

e à noite ela provocava as sauks contando como seu pai e seus irmãos tinham esperado na margem do Masesibowi para matar e escalpelar todos os seus inimigos sauks

que

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conseguiram atravessar o rio durante o massacre do Bad Ax. Asa Tatalante ficou com o nome de Mulher Alta, Mary Cinco. Desde o princípio o Sr. Edvard gostou dela.



Dois

Céus chegou a pensar em matá-la, mas afinal a presença de Asa Tatalante foi uma sorte, pois dentro de poucos meses ela também ficou grávida. Talvez Mary fosse um

nome prolífico.

Dois Céus via o ventre de Asa Tatalante crescer a cada dia e planejou e preparou. A Srta. Eva levou Asa Tatalante na charrete num quente dia de verão. O Sr. Edvard

sozinho não podia tomar conta de todas. Assim que a mulher saiu, Dois Céus largou a enxada no campo de beterrabas e desapareceu atrás do celeiro. Empilhou grandes

nós de pinho ao lado dos troncos secos e acendeu com os fósforos de enxofre roubados para esse fim. Quando o fogo foi notado, o celeiro estava em chamas. O Sr. Edvard

saiu correndo como um louco da plantação de batatas, onde estava, gritando, com os olhos arregalados, e mandou que as meninas ficassem enfileiradas, passando baldes

de água para apagar o incêndio.

Dois Céus ficou impassível no meio da confusão. Reuniu Lua, Pássaro Amarelo e Mulher Fumaça. Com uma inspiração de momento, apanhou um dos galhos de ameixeira da

Srta. Eva e com ele fez o porco enorme da fazenda sair da lama do chiqueiro. Depois levou o animal fedido para dentro da casa esfregada e piedosamente polida da

Srta. Eva e fechou a porta. Então, levou as outras para a floresta, para longe daquele lugar de mookamon.

Elas evitaram estradas, caminhando no bosque até chegarem ao rio. As quatro soltaram um grande tronco de carvalho que estava preso pelo mato na margem do rio. As

águas mornas que guardavam os ossos e os espíritos dos seus entes queridos envolveram as meninas agarradas no tronco e o Masesibowi as levou para o sul.

Saíram do rio quando começou a escurecer. Naquela noite dormiram com fome, na floresta. De manhã, quando colhiam frutas silvestres na margem do rio, encontraram

uma canoa sioux escondida entre os arbustos e apossaram-se dela, torcendo para que pertencesse a um parente de Asa Tatalante. No meio da tarde, depois de uma curva

do rio, chegaram a Prophetstown. Um pele-vermelha limpava peixe na margem. Quando viram que era um mesquakie, as meninas riram, aliviadas, e viraram a canoa para

a margem.

Depois da guerra, logo que foi possível, Nuvem Branca retornou a Prophetstown. Os soldados brancos haviam queimado seu hedonoso-te e muitos outros, e ele construiu

mais um. Quando souberam que o shaman tinha voltado, as famílias foram chegando, como antes, de várias tribos e instalaram-se ao lado dele. Outros discípulos chegaram

de tempos em tempos, mas agora ele demonstrou interesse especial pelas quatro meninas que haviam escapado dos brancos e chegado até ele. Durante dias ele as observou

enquanto descansavam e se alimentavam no

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seu hedonoso-te, notando que para qualquer coisa, pediam conselho a uma delas. Ele as interrogou longamente, uma de cada vez e todas falaram sobre Dois Céus.



Sempre, Dois Céus. Nuvem Branca começou a observá-la

esperançosamente.

Depois de algum tempo, ele apanhou dois cavalos da manada e disse a Dois Céus para acompanhá-lo. Ela cavalgou atrás dele grande parte do dia e finalmente chegaram

a uma colina. Todas as montanhas são sagradas, mas na planície até uma colina é um santuário. No topo arborizado, ele a conduziu até uma clareira com cheiro almiscarado

de urso, onde havia ossos de animais espalhados e cinzas de antigas fogueiras. Quando desmontaram, Wabokieshiek tirou a manta dos ombros e mandou Dois Céus se despir

e deitar nela. Dois Céus não ousou recusar, embora certa de que o velho shaman pretendia usá-la sexualmente. Mas quando Wabokieshiek a tocou, não foi como um amante.

Ele a examinou até certificar-se de que ela estava intacta.

Quando o sol desceu para o horizonte, eles entraram no bosque próximo e o shaman preparou três armadilhas. Então fez uma fogueira na clareira e sentou-se ao lado

do fogo, cantando, enquanto Dois Céus, deitada no chão, dormia.

Quando ela acordou, ele estava abrindo o ventre de um coelho apanhado numa das armadilhas. Dois Céus estava com fome, mas, ao invés de cozinhar o coelho, ele estudava

as vísceras do animal, tocando-as com as pontas dos dedos, mais demoradamente do que tinha examinado o corpo de Dois Céus. Quando terminou, rosnou satisfeito e olhou

para ela com expressão cautelosa e maravilhada.

Foi com tristeza e desânimo que Nuvem Branca e Falcão Negro souberam do massacre do seu povo no rio Bad Ax. Resolveram que mais nenhum sauk devia morrer sob sua

liderança, por isso entregaram-se ao agente dos índios, em Prairie du Chien. No Forte Crawford, foram entregues a um jovem tenente do exército chamado Jefferson

Davis, e com ele desceram o Masesibowi até St. Louis. Passaram o inverno confinados no quartel Jefferson, humilhados e agrilhoados. Na primavera, para mostrar aos

brancos a arrasadora vitória do exército sobre o Povo, o Grande Pai, em Washington, ordenou que os dois prisioneiros fossem levados a cidades americanas. Eles viram

estradas de ferro pela primeira vez e viajaram de trem para Washington, Nova York, Albany e Detroit. Por toda a parte, multidões, como manadas de búfalos, corriam

para ver as curiosidades, os “chefes índios” derrotados.

Nuvem Branca viu cidades enormes, prédios magníficos, máquinas assustadoras. E um número infinito de americanos. Quando permitiram que voltasse a Prophetstown, ele

contemplou a amarga verdade. Os mookamonik jamais poderiam ser expulsos da terra dos sauks. Os pelesvermelhas seriam empurrados cada vez mais, e cada vez para mais

longe das terras férteis e da caça. Aqueles que eram seus filhos, os sauks,

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os mesquakies e os winnebagos precisavam se acostumar ao mundo cruel, dominado pelos brancos. O problema não era mais expulsar os brancos. Agora, o shaman tentava



descobrir quais as mudanças necessárias para que seu povo pudesse sobreviver, conservando seus manitous, sua medicina. Nuvem Branca estava velho e próximo da morte,

por isso começou a procurar uma pessoa para a qual pudesse passar o que ele era, um escrínio onde pudesse guardar a alma das tribos dos algonquins. Mas não encontrou

ninguém. Até aquele momento.

Tudo isso ele explicou para Dois Céus, sentado no lugar sagrado da colina, estudando os augúrios favoráveis das entranhas do coelho, que já começavam a cheirar mal.

Quando terminou, perguntou se Dois Céus permitiria que ele lhe ensinasse a ser uma curandeira.

Dois Céus era uma criança, mas sabia o suficiente para ficar com medo. Não compreendia muita coisa ainda, mas compreendia o que era importante.

- Vou tentar - ela murmurou para o Profeta.

Nuvem Branca mandou Lua, Pássaro Amarelo e Mulher Fumaça para os sauks de Keokuk, mas Dois Céus ficou em Prophetstown, morando na casa de Wabokieshiek, como uma

filha predileta. Ele mostrou as folhas e raízes e cascas de árvores, dizendo qual delas faziam com que o espírito saísse do corpo para conversar com os manitous,

quais serviam para tingir a pele de gamo e as que serviam para fazer a tinta de guerra, quais deviam ser secas e quais umedecidas, quais deviam ser expostas ao vapor,

e quais eram usadas em compressas, quais podiam ser raspadas com movimentos de baixo para cima e as que deviam ser raspadas de cima para baixo, quais podiam abrir

as entranhas e quais as fechavam, quais faziam baixar a febre e quais podiam aliviar a dor, as que podiam curar e as que podiam matar/

Dois Céus ouvia com atenção. No fim de quatro estações, o Profeta fez o teste e ficou satisfeito. Disse que a tinha conduzido através da Primeira Tenda da Sabedoria.

Antes de passar pela segunda tenda, sua condição de mulher revelouse pela primeira vez. Uma das sobrinhas de Nuvem Branca ensinou a ela o que devia fazer, e todos

os meses ela ficava na tenda das mulheres, enquanto sua vagina sangrava. O Profeta explicou que ela não devia conduzir uma cerimônia, nem tratar qualquer doença

ou ferimento sem primeiro se purificar na tenda do suor, depois de cada fluxo mensal.

Durante os quatro anos seguintes, ela aprendeu a chamar os manitous com canções e tambores, os vários métodos de matar cães, de acordo com a cerimônia e como prepará-los

para os banquetes, como ensinar os cantores e os tambores que tomavam parte nas danças sagradas. Aprendeu a ler o futuro nas entranhas de um animal. Aprendeu a força

da ilusão - para sugar doenças do corpo e cuspir depois, jogando-as fora

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sob a forma de uma pedra, que o doente podia ver e saber que estava curado. Aprendeu o canto que enviava o espírito do agonizante para outro mundo, quando não conseguia



persuadir os manitous a permitir que ele vivesse.

Eram sete as Tendas da Sabedoria. Na quinta, o Profeta a ensinou a controlar o próprio corpo para aprender a controlar os corpos das outras pessoas. Ela aprendeu

a dominar a sede e a passar longos períodos sem comer. Freqüentemente ele a levava, a cavalo, até lugares muito distantes e voltava sozinho, com os dois cavalos

para que Dois Céus encontrasse o caminho de volta a pé e sem a sua ajuda. Gradualmente ele a ensinou a dominar a dor, enviando a mente para um lugar dentro de si

mesma, tão pequeno e tão profundo, que a dor não podia alcançar.

No fim daquele verão, ele a levou outra vez à clareira sagrada no topo da colina. Fizeram uma fogueira, homenagearam os manitous com canções e novamente puseram

as armadilhas na mata. Dessa vez apanharam um coelho magro e marrom e quando o abriram e leram as entranhas, Dois Céus reconheceu que os sinais eram favoráveis.

No fim da tarde, Nuvem Branca a mandou tirar o vestido e os sapatos. Então, com sua faca britânica, ele fez dois cortes em cada ombro dela, depois, cuidadosamente,

descolou a pele, formando duas dragonas como as dos oficiais brancos. Passou uma corda sob os cortes, fez um laço, prendeu a outra extremidade da corda num galho

de árvore e a ergueu a pouca distância do chão, suspensa pela própria carne sangrenta.

Aqueceu as pontas de finas varetas de carvalho no fogo, até ficarem em brasa, e com elas desenhou nos seios de Dois Céus os sinais dos espíritos do seu Povo e os

símbolos dos manitous.

A noite chegou quando ela tentava ainda se libertar. Durante boa parte da noite, Dois Céus se debateu até a alça de pele do ombro esquerdo se partir. Logo partiu-se

também a do ombro direito e ela caiu no chão. Com a mente no lugarzinho distante e profundo, para fugir da dor, talvez tivesse adormecido.

Quando surgiu a luz fraca da manhã, estava acordada e ouviu o ruído arrastado dos pés de um urso entrando na clareira. O animal não sentiu seu cheiro porque caminhava

na direção da brisa matinal, num passo tão lento que Dois Céus notou o focinho branco e viu que era uma fêmea. Outro urso apareceu, todo negro, um macho jovem, ansioso

para acasalar, a despeito do rosnado de advertência da fêmea. De onde estava, Dois Céus podia ver o coska grande e rígido, circundado pelas cerdas protetoras, cinzentas




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