Noah Gordon, o xamã



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Noah Gordon, - O Xamã
ParteI

A VOLTA PARA CASA

22 de abril, 1864

JIGGETY-JIG

O Spirií of Dês Moines enviou sinais anunciando sua chegada na estação de Cincinnati, Xamã pode percebê-los, primeiro como um tremor quase imperceptível na plataforma,

depois uma vibração acentuada e então toda a estação pareceu estremecer. De repente, lá estava o monstro com seu cheiro de metal quente e vapor, avançando para ele

na meia-luz acinzentada e tristonha, os bronzes reluzindo no corpo negro do dragão, os braços fortes dos pistões movendo-se, a pálida nuvem de fumaça subindo como

o esguicho de uma baleia, esgarçando e dissolvendo no ar, quando a locomotiva parou, deslizando sobre os trilhos.

Ele embarcou e alojou-se no terceiro vagão, onde havia poucos bancos vazios e, com um estremecimento, o trem continuou a viagem. Os trens eram uma invenção fantástica,

mas estar neles significava viajar com muitas outras pessoas. Ele preferia cavalgar sozinho, absorto em pensamentos. O vagão comprido estava abarrotado de soldados,

caixeiros viajantes, fazendeiros e mulheres, com ou sem filhos pequenos. O choro das crianças não o incomodava, é claro; mas o ar no vagão estava impregnado de uma

mistura de odores - meias muito usadas, fraldas sujas, má digestão, corpos suados e mal lavados e a fumaça de charutos e cachimbos. As janelas pareciam feitas para

desafiar a força e a paciência, mas ele era grande e forte e finalmente conseguiu levantar o vidro, o que, verificou imediatamente, foi um erro. Três carros à frente,

a chaminé da locomotiva lançava para o ar, além da fumaça, uma mistura de fuligem, brasas vivas e cinza que, atraídas para trás pela velocidade do trem, entravam

pela janela. Não demorou para que uma brasa caísse no casaco novo de Xamã. Tossindo e resmungando furioso, ele fechou a janela e bateu no casaco até apagar o fogo.

No outro lado da passagem, uma mulher olhou rapidamente para ele e sorriu. Era uns dez anos mais velha do que Xamã, com um vestido elegante de lã cinzenta, próprio

para viagem, sem anquinhas, enfeitado com debruns de linho azul que acentuavam os cabelos louros. Seus olhos se encontraram por um momento e ela voltou novamente

a atenção para a renda de bilros que trazia ao colo. Xamã também desviou os olhos tranqüilamente; não convinha se dedicar aos jogos de sedução entre homem

e mulher durante o período de luto. Xamã trazia consigo um livro importante para ler, mas sempre que tentava se concentrar, seu pensamento voava até o pai.

O condutor aproximou-se por trás dele e Xamã só o percebeu quando a mão do homem tocou seu ombro. Surpreso, ergueu os olhos para o rosto corado, para o bigode com

pontas enceradas e a barba vermelha com fios brancos, que Xamã gostou, porque deixava a boca bem visível.

- O senhor deve estar surdo! - disse o homem, jovialmente. - Pedi sua passagem três vezes, senhor!

Xamã não se alterou pois isso não era novidade para ele.

- Sim, eu sou surdo - disse, entregando a passagem.

Olhou pela janela, mas a vasta pradaria que passava lá fora não conseguiu prender sua atenção. O terreno sempre plano era monótono e tudo passava tão depressa que

não chegava a ficar registrado em sua mente. O melhor meio de viajar era a pé ou a cavalo; se você chega a uma parada e sente fome ou vontade de urinar, pode entrar

e satisfazer suas necessidades. No trem, os lugares passam e desaparecem numa névoa indistinta.

O livro que estava lendo era Hospital Sketches, escrito por uma mulher de Massachusetts, chamada Alcott, enfermeira, que vinha tratando os feridos desde o começo

da guerra e cuja descrição das horríveis condições dos hospitais do exército estava criando muita agitação nos círculos médicos. Não era uma boa leitura para ele,

porque o fazia pensar no sofrimento pelo qual devia estar passando seu irmão Maior, desaparecido em ação numa patrulha de reconhecimento do exército confederado.

Se, pensou Xamã, Maior não estivesse entre os mortos anônimos. Seu pensamento voltou para o pai, pela trilha da dor imensa, e ele começou a olhar em volta, com desespero.

Na extremidade do vagão, um garotinho magro começou a vomitar, e a mãe, muito pálida, entre as pilhas de bagagem e três outros filhos, levantou-se de um salto para

segurar a testa dele, procurando evitar que o vômito atingisse as malas e embrulhos. Quando Xamã chegou, ela começava a desagradável tarefa da limpeza.

- Talvez eu possa ajudar. Eu sou médico.

- Não tenho dinheiro para pagar.

Ele sacudiu a mão num gesto negativo. O menino suava após o acesso de vômito, mas sua temperatura estava bastante fria. Seus gânglios não estavam inchados e os olhos

brilhavam.

Era a Sra. Jonathan Sperber, apresentou-se a mulher, respondendo à pergunta dele. De Lima, Ohio. Ia encontrar o marido, numa colônia de quacres, em Springdale, oitenta

quilômetros a oeste de Davenport. O menino chamava-se Lester, oito anos. Apesar de pálido, sua cor voltava aos poucos, não parecia gravemente doente.

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- O que foi que ele comeu?



A mulher, com relutância, tirou de um saco de farinha engordurado um pedaço de salsicha feita em casa. A salsicha estava verde e o odor confirmou o que ele temia.

Meu Deus!

- Hum... deu isso a todos eles?

Ela assentiu com um gesto e Xamã olhou admirado para as outras crianças, homenageando respeitosamente sua capacidade digestiva.

- Bem, não pode mais dar isto a eles. Está completamente estragado. A mulher apertou os lábios.

- Não muito. Foi bem salgada e nós já comemos coisa pior. Se estivesse tão ruim, os outros teriam ficado enjoados e eu também.

Xamã conhecia o suficiente acerca de comunidades religiosas para compreender o que ela estava dizendo: a salsicha era tudo que tinham, comiam salsicha estragada

ou não comiam nada. Xamã inclinou levemente a cabeça, foi até seu banco e apanhou seu lanche, um verdadeiro banquete embrulhado nas páginas do Commercial de Cincinnati.

Três grossos sanduíches de carne magra, de boi, com pão preto, uma torta de geléia de morango e duas maçãs, que ele jogou para o ar como um malabarista, para divertir

as crianças. Quando entregou a comida à Sra. Sperber, ela abriu a boca para protestar, mas fechou-a sem dizer nada. Uma mulher que mora numa comunidade quacre precisa

de uma boa dose de realismo.

- Nós te agradecemos, amigo - disse ela.

No outro lado da passagem, a mulher loura o observava, mas Xamã estava tentando ler de novo quando o condutor voltou.

- Ouça, eu o conheço, só agora lembrei. O filho do Dr. Cole, de Holden’s Crossing. Certo?

- Certo. - Xamã compreendeu que fora identificado pela surdez.

- Não lembra de mim, Frank Fletcher? Eu plantava milho na estrada de Hooppole. Seu pai cuidou de nós sete por mais de seis anos, até eu vender a terra e vir trabalhar

para a estrada de ferro. Agora moramos em East Moline. Lembro que quando você era deste tamanho, andava a cavalo, na garupa, agarrado com toda a força no seu pai.

O único tempo que seu pai tinha para passar com os filhos era quando ia atender chamados e Xamã adorava ir com ele.

- Lembro agora de você - disse ele. - E da sua casa. Branca, de madeira, celeiro vermelho com telhado de zinco. A casa original, coberta de relva, vocês usavam como

depósito.

- Isso mesmo. Às vezes você ia com ele, outras vezes era seu irmão, como é o nome dele?

Maior.


- Alex. Meu irmão, Alex.

- Isso mesmo. Onde ele está agora?

- No exército. - Não disse onde.

- É claro. Você está estudando para ser pastor? - perguntou o condutor,

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olhando para o terno preto que até vinte e quatro horas atrás estava numa prateleira de uma das lojas Seligman’s, em Cincinnati.



- Não, sou médico também.

- Nossa. Parece tão novo!

Xamã apertou os lábios porque sua idade era um obstáculo mais sério do que a surdez.

- Tenho idade suficiente. Estive trabalhando no hospital, em Ohio. Sr. Fletcher... meu pai morreu na última quinta-feira.

O sorriso desapareceu lenta e completamente do rosto do homem, não deixando nenhuma dúvida quanto à sinceridade da dor.

- Oh. Estamos perdendo todos os melhores, não estamos? A guerra?

- Ele estava em casa quando morreu. A mensagem do telégrafo dizia tifo.

O condutor balançou a cabeça.

- Quer ter a bondade de dizer à sua mãe que nossas preces são para ela?

Xamã agradeceu e disse que ela ia apreciar muito essas palavras.

- ... Os vendedores sobem no trem em alguma estação?

- Não. Todos trazem comida. - O homem olhou para ele, preocupado. - Não vai poder comprar nada até a baldeação em Kankakee. Pelo amor de Deus, não disseram isso

quando comprou sua passagem?

- É claro, está tudo bem. Perguntei só por curiosidade.

O condutor tocou a pala do boné e foi embora. Nesse momento, a mulher no outro lado da passagem ergueu o braço para o portabagagem, tentando apanhar um cesto grande

de vime. O movimento revelou uma linha perfeita, do seio à coxa, Xamã levantou-se para apanhar o cesto para ela.

A mulher sorriu.

- Quero que aceite - disse ela, com firmeza. - Como vê, o que eu tenho dá para um batalhão.

Logo Xamã estava comendo galinha assada, pastelão de abóbora, torta de batata. O Sr. Fletcher, que voltava com um sanduíche de presunto um tanto amassado, certamente

pedido a alguém, observou, com um largo sorriso, que o Dr. Cole tinha mais habilidade para encontrar comida do que o exército do Potomac, e afastou-se com a firme

intenção de comer o sanduíche.

Xamã comeu mais do que falou, envergonhado e atônito com a própria fome num momento de tanta dor. A mulher falou mais do que comeu. Chamava-se Martha McDonald. O

marido, Lyman, era agente de vendas da Companhia Americana de Instrumentos para a Lavoura, em Rock Island. Expressou seus sentimentos pela morte do pai de Xamã.

Quando ela o servia, seus joelhos se tocaram numa agradável intimidade. Há muito tempo Xamã tinha aprendido que a reação das mulheres à sua surdez podia ser de repulsa

ou de excitação. Talvez as do último grupo fossem estimuladas pelo prolongado contato visual. Os olhos

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dele não se desviavam do rosto da pessoa com quem falava, porque precisava ler os lábios.



Xamã não tinha ilusões sobre a própria aparência. Era grande, sem ser desajeitado, cheio de energia jovem e máscula e gozava de ótima saúde. Os traços regulares

e os penetrantes olhos azuis, herdados do pai, eram sem dúvida atraentes. De qualquer modo, nada disso importava no que dizia respeito à Sra. McDonald. Uma das suas

regras - tão inviolável quanto a necessidade de lavar muito bem as mãos, antes e depois da cirurgia - consistia em nunca se envolver com mulheres casadas. Logo que

foi possível, sem acrescentar insulto à rejeição, ele agradeceu o ótimo almoço e voltou para seu lugar.

Passou grande parte da tarde com seu livro. Louisa Alcott descrevia operações feitas sem o uso de agentes para aliviar a dor, homens que morriam de ferimentos infeccionados

em hospitais que exalavam sujeira e podridão. A morte e o sofrimento eram sempre motivo de profunda tristeza para ele, mas dor sem motivo e morte desnecessária o

deixavam com uma raiva além da conta. No fim da tarde, o Sr. Fletcher informou que o trem estava fazendo setenta quilômetros por hora, três vezes a velocidade de

um cavalo a galope e sem se cansar! Xamã soubera da morte do pai no mesmo dia em que acontecera, por um telegrama. O mundo estava entrando na era do transporte e

da comunicação mais rápidos, pensou ele, de novos hospitais e novos métodos de tratamento, da cirurgia sem tortura. Cansado desses pensamentos grandiosos, disfarçadamente

ele despiu Martha McDonald com os olhos e passou uma agradável meia hora covardemente imaginando um exame médico que se transformava em sedução, a forma mais segura

e inofensiva de violação do juramento de Hipócrates.

A diversão não durou muito. Pai! Quanto mais se aproximava de casa, mais difícil era contemplar a realidade. Lágrimas assomaram nos seus olhos. Médicos com vinte

e um anos não devem chorar em público. Pai... A noite chegou, muito escura, horas antes da baldeação, em Kankakee. Finalmente, e cedo demais, menos de onze horas

depois de ter saído de Cincinnati, o Sr. Fletcher anunciou a estação de “Ro-o-ock I-II-sla-a-and!”

A estação era um oásis de luz. Assim que desceu do trem, Xamã avistou Alden, esperando por ele sob uma lâmpada de gás da rua. O empregado bateu de leve no braço

dele, com um sorriso tristonho e um cumprimento familiar.

- Em casa outra vez, em casa outra vez.

- Como vai, Alden? - Pararam por um momento, sob a luz, para conversar. - Como está ela?

- Bem, você sabe. É duro. Ainda não a atingiu em cheio. Ela não teve muita oportunidade para ficar sozinha, com toda aquela gente da igreja e o reverendo Blackmer

em casa, o dia inteiro.

Xamã fez um gesto afirmativo. A religiosidade inflexível da mãe era

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um tormento para todos, mas se a Primeira Igreja Batista podia ajudálos nesse momento, só lhe cabia agradecer.



Alden acertou quando resolvera levar a aranha, que tinha molas razoáveis, ao invés da carruagem aberta, que não possuía nenhuma, imaginando que Xamã não traria mais

de uma mala. O cavalo era Boss, um baio castrado de que o pai de Xamã gostava muito. Xamã acariciou o focinho do animal antes de subir para a pequena carruagem de

duas rodas. Uma vez a caminho, a conversação tornou-se impossível pois, no escuro, ele não podia ver o rosto de Alden. O cheiro de Alden era o de sempre, feno e

tabaco, lã crua e uísque. Atravessaram a ponte de madeira sobre o rio Rocky e depois seguiram para o nordeste, com o cavalo no trote. Xamã não podia ver o caminho

de nenhum lado da estrada, mas conhecia cada árvore e cada rocha. Em alguns trechos a neve quase toda derretida transformava o solo em lama espessa. Depois de uma

hora de viagem, Alden puxou as rédeas para descansar o cavalo, no mesmo lugar de sempre, os dois homens desceram para urinar na relva baixa do pasto de Hans Buckman

e caminharam por algum tempo para desenferrujar as pernas. Logo depois, estavam atravessando a ponte sobre o rio dentro da sua propriedade e o momento mais assustador

chegou quando Xamã viu a casa e os celeiros. Até então, tudo era rotina. Alden sempre o apanhava em Rock Island, mas agora, quando chegassem, o Pai não estaria lá.

Nunca mais.

Xamã não seguiu direto para a casa. Ajudou Alden a desatrelar o cavalo, foi com ele até o estábulo e acendeu o lampião a óleo, para conversar. Alden tirou do meio

do feno uma garrafa com pouco menos da metade de uísque, mas Xamã balançou a cabeça.

- Virou abstêmio lá em Ohio?

- Não. - Era mais complicado. Como todos os Cole, não era bom bebedor, porém, o mais importante era que há muito tempo seu pai tinha explicado que o álcool eliminava

o Dom. - É só que não costumo beber muito.

- Igualzinho ao seu pai. Mas esta noite, devia beber.

- Não quero que ela sinta cheiro de bebida em mim. Já tenho muitos problemas com ela sem precisar de mais esse. Mas deixe a garrafa aí, está bem? Quando ela for

dormir, eu a apanho, a caminho da privada.

Alden assentiu com um gesto.

- Precisa ter paciência com sua mãe - fez uma pausa e continuou, hesitante. - Eu sei que ela pode ser difícil, mas... - Parou atônito quando Xamã o abraçou. Isso

não fazia parte do relacionamento dos dois, homens não abraçam homens. O empregado bateu de leve no ombro de Xamã, constrangido. Num instante Xamã o libertou, apagou

o lampião e atravessou o pátio escuro para a cozinha onde, agora que todos tinham partido, sua mãe o esperava.

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A HERANÇA



Na manhã seguinte, embora o nível do líquido marrom da garrafa de Alden tivesse descido muito pouco, a cabeça de Xamã latejava. Não tinha dormido bem. O velho colchão

de cordas há anos não era esticado e reforçado. Cortou o queixo ao fazer a barba. Porém, no meio da manhã, nada disso tinha muita importância. Seu pai fora enterrado

às pressas por ter morrido de tifo, mas retardaram a cerimônia fúnebre até sua chegada. A pequena Primeira Igreja Batista estava lotada com três gerações de pacientes

que seu pai tinha trazido ao mundo, tratado de diversas doenças, de ferimentos à bala, ferimentos de faca, assaduras, ossos quebrados e tantas coisas mais. O reverendo

Lucian Blackmer fez o panegírico - com calor suficiente para evitar a animosidade dos ouvintes, mas não tão entusiasmado a ponto de passar a idéia de que fosse correto

morrer como o Dr. Robert Judson Cole havia morrido, sem o bom senso de pertencer à única igreja verdadeira. Sua mãe mais de uma vez expressou sua gratidão pelo fato

de o reverendo Blackmer, por consideração a ela, ter permitido que o marido fosse enterrado em solo sagrado, no cemitério da igreja.

Durante toda a tarde a casa esteve cheia de gente, quase todos levando os pratos mais variados, assados, tortas de carne, pudins, tortas doces, tanta comida que

parecia uma festa. Até Xamã comeu alguns pedaços de coração assado, frio, seu prato favorito. Foi com Makwa-ikwa que aprendeu a gostar dessa iguaria. Xamã pensava

tratar-se de um prato indígena, como cachorro cozido ou esquilo com entranhas, e foi uma satisfação descobrir que seus vizinhos brancos também comiam o coração do

boi e do veado. Servia-se de mais um pedaço, quando ergueu os olhos e viu Lillian Geiger atravessar a sala na direção de sua mãe. Mais velha, mais sofrida, Lillian

era ainda atraente. Sua filha, Rachel, herdara a beleza da mãe. Lillian trajava o seu melhor vestido negro, com uma capa de linho, um xale branco dobrado e a estrela

de David, pendente do cordão, sobre o belo busto. Notou o cuidado com que ela escolhia as pessoas com quem falava; muitos, embora com relutância, estariam dispostos

a cumprimentar uma judia, mas nunca uma nortista que simpatizava com os sulistas. Lillian era prima de Judah Benjamin, o secretário de estado confederado, e seu

marido, Jay, partira para seu estado

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natal, a Carolina do Sul, a fim de se alistar no exército da Confederação, com dois dos seus três irmãos.



Lillian aproximou-se de Xamã com um sorriso um tanto constrangido.

- Tia Lillian - disse ele. Lillian não era sua tia, mas os Geiger e os Cole eram como parentes, e desde pequenos era assim que Xamã a chamava. Os olhos dela suavizaram-se.

- Como vai, Rob J. - disse, com a ternura antiga; ninguém mais o chamava assim - era como chamavam seu pai - mas Lillian raramente usava o nome de Xamã. Beijou o

rosto dele e não precisou dizer o quanto sentia a perda do seu pai.

Segundo as cartas que recebia de Jason, disse ela, muito raras, porque tinham de atravessar as linhas inimigas, ele estava bem de saúde e aparentemente não corria

perigo. Na sua condição de farmacêutico, era o encarregado de um pequeno hospital na Geórgia, quando se alistou, e agora dirigia um hospital maior, nas margens do

rio James, na Virgínia. Sua última carta, disse ela, informava que o irmão dele, Joseph Reuben Geiger, farmacêutico como os outros homens da família, mas alistado

na cavalaria, tinha morrido na batalha comandada por Stuart.

Xamã balançou a cabeça tristemente, também sem precisar dizer o quanto sentia.

E como estavam as crianças?

- Ótimas. Os meninos cresceram tanto que Jay não ia reconhecêlos quando voltasse! Comem como tigres.

- E Rachel?

- Ela perdeu o marido, Joe Regensberg, em junho. Morreu de tifo, como seu pai.

- Oh - disse ele, soturnamente. - Ouvi dizer que houve muitos casos de tifo em Chicago, no verão passado. Ela está bem?

- Oh, sim. Rachel está muito bem, bem como seus filhos. Tem um menino e uma menina - Lillian hesitou. - Está saindo com outro homem, um primo de Joe. Vão anunciar

o noivado quando ela completar o ano de luto.

Ah. Era surpreendente como podia doer tanto, ainda.

- E você está gostando de ser avó?

- Muito - disse ela e, afastando-se, começou a conversar com a Sra. Pratt, vizinha dos Geiger.

No começo da noite, Xamã fez um prato farto e o levou para o cubículo abafado de Alden Kimball, que sempre cheirava a fumaça de lenha. O empregado estava sentado

na cama, só com a roupa de baixo, bebendo numa garrafa. Seus pés estavam limpos. O banho foi em honra da cerimónia fúnebre. As peças de sua roupa íntima de lã, mais

amarela do que branca, estavam dependuradas para secar, no meio da pequena cabana, numa corda com uma ponta amarrada num prego na viga do teto e a outra a uma vara,

entre os dois cantos do quarto.

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Alden ofereceu a garrafa e Xamã balançou a cabeça. Sentou na única cadeira e ficou vendo Alden comer.



- Por mim, eu teria enterrado o pai na nossa terra, de frente para o rio.

Alden balançou a cabeça.

- Ela não ia permitir. Ficaria muito perto do túmulo da mulher injun. Antes de ela ser... morta - disse ele, cautelosamente - todos estavam falando muito sobre os

dois. Sua mãe morria de ciúme.

Xamã queria perguntar sobre Makwa e seus pais, mas não ficava bem comentar esse assunto com Alden. Despediu-se com um aceno de mão e saiu da pequena cabana. A noite

começava a cair quando ele caminhou ao longo do rio, para as ruínas do hedonoso-te de Makwa-ikwa. Uma das alas da extensa casa permanecia intacta, mas o outro lado

desmoronava, a madeira apodrecendo, um bom ninho para cobras e serpentes.

- Eu voltei - disse ele.

Sentia a presença de Makwa. Ela estava morta há muito tempo; o que Xamã sentia por ela era uma saudade, empalidecida agora pela dor profunda da morte do pai. Ele

queria consolo, mas tudo que podia sentir era a fúria terrível da mulher, tão real que eriçava os cabelos na sua nuca. Não muito longe estava o túmulo, sem marcas

porém cuidado, a relva aparada, lírios amarelos em toda a volta, transplantados da margem do rio. Os novos brotos verdes surgiam da terra. Certamente era seu pai

quem cuidava do túmulo de Makwa, imaginou ele. Ajoelhou e arrancou o mato do meio das flores.

Era quase noite fechada. Xamã sentiu que Makwa queria lhe dizer alguma coisa. Já tinha acontecido antes, e ele quase sempre acreditava que esse era o motivo daquela

raiva que pairava no ar, não poder dizer a ele o nome do seu assassino. Queria perguntar a ela o que devia fazer, agora que seu pai não existia mais. O vento ondulava

a água. As primeiras estrelas apareceram pálidas no céu e Xamã estremeceu. O inverno não tinha acabado de todo, pensou, ao voltar para casa.

No dia seguinte ele devia ficar em casa, para receber as visitas atrasadas, mas não conseguiu. Com a roupa de trabalho, passou a manhã toda com Alden, dando banho

de parasiticida nas ovelhas e castrando os machos recém-nascidos. Alden guardou os testículos para fritar com ovos, no jantar.

À tarde, de banho tomado e com um terno preto, Xamã sentou na sala com a mãe.

- Acho melhor você ver as coisas do seu pai e resolver o que fica com quem - disse ela.

Mesmo com o cabelo louro quase grisalho, sua mãe era uma das mulheres mais interessantes que ele conhecia, com um belo e longo nariz e a boca expressiva. O que quer

que fosse, que sempre parecia formar

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uma barreira entre eles, existia ainda, mas mesmo assim ela percebeu a relutância do filho.



- Tem de ser feito, mais cedo ou mais tarde, Robert - disse ela. Estava arrumando os pratos vazios que deviam ser levados para a




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