No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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O Senhor deve ter ouvido minhas preces, pois, finalmente, o sol de inverno apareceu em sua plenitude por vários dias seguidos, derretendo uma boa parte da última nevasca. Finalmente, naquele domingo pudemos selar o cavalo, nos cobrir com capas, cachecóis, luvas e cobertores, e nos ajeitar, bem apertados, na parte de trás da charrete para nossa viagem até a cidade.

No vestíbulo da congregação, senti como se as pessoas estivessem me olhando. Deus sabia de minha condição, obviamente, mas eu imaginava que todos na cidade também soubessem. Tinha medo que meu abdômen estivesse começando a crescer e que todos estivessem vendo a protuberância escondida embaixo de minha saia, ainda que fosse muito cedo para isso e, em todo caso, duvidava que alguém fosse notar alguma coisa diferente, com tantas camadas de roupa de inverno. Encostei-me em meu pai e me escondi atrás de uma pilastra durante todo o culto, desejando ser invisível, esperando pela oportunidade de falar com Jonathan no final.

Assim que o pastor Gilbert nos dispensou, saí correndo escada abaixo, sem esperar meu pai. Fiquei em pé no último degrau, esperando Jonathan. Ele logo apareceu e atravessou a multidão em minha direção. Sem dizer uma palavra, peguei firme na mão dele e o levei para trás da escadaria onde podíamos ter mais privacidade. O movimento brusco deixou-o nervoso e ele olhou sobre o ombro para ver se ninguém havia notado que tínhamos nos escondido.

— Pelo bom Deus, Lanny, se está achando que eu poderia lhe beijar aqui...

— Escute, estou esperando um filho.

Ele soltou minha mão e seu lindo rosto passou por várias expressões: choque, surpresa e a palidez trazida pela consciência da realidade. Apesar de não esperar que Jonathan ficasse feliz com as notícias, o silêncio dele me deixou assustada.

— Jonathan, fale comigo. Não sei o que fazer. — Puxei o braço dele. Ele me olhou de lado e, então, limpou a garganta.

— Minha cara Lanny, estou tão perplexo que não sei o que dizer...

— Isso não é o que uma garota quer ouvir numa hora como essa. — As lágrimas enchiam meus olhos. — Diga-me que não estou sozinha, diga-me que não vai me abandonar; diga-me que vai me ajudar a resolver o que fazer daqui para frente.

Ele continuou me olhando, com relutância, e disse secamente:

— Você não está sozinha.

— Não faz ideia do quanto estive assustada, confinada com esse segredo em casa, sem poder falar sobe isso com ninguém. Sabia que tinha que falar com você primeiro, Jonathan. Devia isso a você. — “Fale, fale, era o meu desejo, diga que irá confessar sua parte da culpa a seus pais e que será correto comigo. Diga que ainda me ama, que irá se casar comigo.” Segurei a respiração, lágrimas escorriam pelo rosto, estava quase desmaiando para que ele dissesse essas palavras.

Mas Jonathan não conseguia mais olhar para mim; olhava para o chão.

— Lanny, tem algo que devo lhe falar, mas acredite quando digo que preferiria morrer a ter que compartilhar essa notícia com você agora.

Senti minha cabeça girar e um arrepio de medo percorreu-me como suor.

— O que pode ser mais importante do que eu acabei de lhe contar?

— Fiquei noivo; foi arranjado esta semana. Meu pai está no vestíbulo fazendo o anúncio agora mesmo, mas eu tinha que encontrar você e lhe dizer pessoalmente. Não queria que soubesse por mais ninguém... — As palavras dele foram se perdendo à medida que percebia o pouco que a cortesia significava para mim naquele momento.

Enquanto crescíamos, às vezes trazíamos à tona o fato de que Jonathan não havia sido prometido em casamento. Este negócio de arranjo matrimonial era difícil em uma cidade tão pequena quanto St. Andrew; os melhores pretendentes a noivas e esposos eram fisgados logo cedo, casamentos arranjados para crianças desde 6 anos de idade. Assim, se a família não agisse rápido, poderia não haver boas opções. É de se imaginar que um jovem com toda a riqueza e posição social de Jonathan fosse um candidato atraente para qualquer uma das famílias da cidade que tivessem filhas. E realmente era, mas nunca fora feito um arranjo, nem para ele nem para suas irmãs. Jonathan dizia que era por causa das aspirações sociais de sua mãe: ela achava que nenhuma das famílias da cidade fosse vantajosa o suficiente para seus filhos. Eles com certeza poderiam se sair melhor com os sócios dos negócios do pai dele ou através da rede de contatos da família dela em Boston. Ao longo dos anos, houve enxurradas de propostas, algumas mais sólidas do que outras, mas todas pareciam se extinguir e Jonathan chegara a seus 20 anos sem uma noiva à vista. Senti como se meu estômago estivesse sendo cortado com uma faca de açougueiro.

— Está noivo de quem?

Ele balançou a cabeça.

— Agora não é uma boa hora para falarmos sobre essas coisas. Deveríamos estar falando sobre seu estado...

— Quem é? Eu quero saber! — gritei.

Houve uma hesitação nos olhos dele.

— É uma das garotas McDougal: Evangeline.

Mesmo com minhas irmãs sendo próximas às garotas McDougal, tive dificuldade para me lembrar qual delas era Evangeline, pois havia muitas delas. Os McDougal tinham, ao todo, sete filhas, um bando de pintinhas, todas muito lindas à maneira robusta escocesa, altas e fortes, com cabelo vermelho em cachos soltos e a pele toda coberta de sardas, como as trutas no verão. Também conseguia imaginar a sra. McDougal, prática e de bom temperamento, com seus olhos astutos; talvez mais capaz de que seu marido, um eminente fazendeiro, mas todos sabiam que era a sra. McDougal quem fazia a fazenda dar lucro e quem tinha elevado a reputação deles na cidade. Tentei imaginar Jonathan com uma mulher como a sra. McDougal a seu lado, e quis me jogar a seus pés.

— E você vai prosseguir com o noivado? — perguntei.

— Lanny, não sei o que dizer... Eu sei que eu não posso... — Ele pegou minha mão e me puxou mais para o fundo, num canto empoeirado. — O contrato com os McDougal já foi assinado, o anúncio já foi feito. Não sei o que meus pais pensariam de nossa... situação.

Podia argumentar com ele, mas sabia ser inútil. Casamento era um negócio arranjado, com o intuito de aumentar a prosperidade de ambas as famílias. Uma oportunidade de fidelidade a uma família como a dos St. Andrew não seria jogada fora, pelo menos não por algo tão comum como uma gravidez fora do casamento.

— Dói dizer isso, mas haveria muitas objeções a nosso casamento — Jonathan disse o mais gentilmente possível. Balancei minha cabeça, cansada; ele não precisava me dizer isso. Meu pai podia ser respeitado pelos seus vizinhos por seu bom senso discreto, mas os McIlvraes não tinham nada que nos indicassem como boas pretendentes a esposas, a família sendo pobre e metade, católica praticante. Um pouco depois, perguntei com a voz rouca:

— E Evangeline, ela é a que vem depois de Maureen?

— Ela é a mais nova — Jonathan respondeu. Então, depois de hesitar, completou: — Ela tem 14 anos.

A mais nova, só conseguia pensar naquela menininha que veio nos visitar em casa e fazer amostras de ponto-cruz com Maeve e Glynnis. Ela era uma pequena coisinha branca e cor-de-rosa, uma linda boneca com cachos de cabelo fino e dourado e com uma infeliz inclinação ao choro.

— Então o arranjo está feito, mas a data do casamento, se ela tem só 14 anos, ainda deve estar longe...

Jonathan chacoalhou a cabeça.

— O velho Charles quer que nos casemos no outono, se possível. Até o final do ano, sem falta.

Eu dei voz ao óbvio.

— Ele está desesperado para que você perpetue o nome da família.

Jonathan passou os braços em volta de meus ombros, me segurando, e desejei poder me ancorar em sua força e calor para sempre.

— Diga, Lanny, o que você gostaria que fizéssemos? Diga e farei o que puder. Quer que conte a meus pais e peça a eles para me tirarem do contrato de casamento?

Uma tristeza fria tomou conta de mim. Ele disse o que eu queria ouvir, mas podia ver que estava com medo da resposta. Apesar de não querer se casar com Evangeline, agora que o inevitável fora arranjado, ele tinha se conformado com isso. Ele não queria que eu aceitasse sua proposta. E, com toda certeza, seria um fracasso de qualquer maneira: eu não era aceita. Seu pai podia querer um herdeiro, mas a mãe dele insistira em um herdeiro concebido dentro do casamento, um garoto nascido livre e fora de um escândalo. Os pais de Jonathan insistiriam para que ele se casasse com Evangeline McDougal e, uma vez que a notícia de minha gravidez se espalhasse, eu estaria arruinada.

Havia outro jeito. Já não havia dito a Sophia a mesma coisa, meses antes? Apertei a mão de Jonathan.

— Posso ir até a parteira.

Um olhar de gratidão alegrou seu rosto.

— Se é isso o que quer.

— Vou arranjar um modo de visitá-la assim que puder.

— Posso ajudar com as despesas — ele disse, remexendo no bolso. Colocou uma grande moeda em minha mão. Fiquei enojada e resisti à vontade de estapeá-lo no rosto, mas sabia que era só raiva. Depois de olhar para a moeda por um momento, puxei-a para dentro de minha luva.

— Sinto muito — ele murmurou, beijando-me na testa.

Estavam chamando Jonathan, seu nome ecoando no cavernoso vestíbulo da congregação. Ele saiu para atender aos chamados antes que nos descobrissem juntos e eu subi as escadas, arrastando-me até o andar de cima, para ver o que estava acontecendo.

A família de Jonathan estava em pé no corredor, ao lado do recinto especial, o mais próximo do púlpito, como lugar de honra. Charles St. Andrew estava na ponta do corredor, braços levantados enquanto fazia o anúncio, mas parecia mais abatido do que o normal. Ele estava desse jeito desde o último outono, disseram que era exaustão ou muito vinho (no mínimo poderia ser uma combinação de muito vinho e muita vadiagem com as criadas). Mas era como se, de um dia para o outro, ele tivesse ficado mais velho, mais grisalho e enrugado. Ele se cansava com facilidade, caindo no sono na congregação assim que o pastor abria a Bíblia. Já não se importava mais em frequentar as reuniões do conselho da cidade e mandava Jonathan em seu lugar. Na época, nenhum de nós podia adivinhar que ele estava morrendo. Ele tinha criado a cidade com as próprias mãos; era indestrutível, o corajoso desbravador das fronteiras, o visionário homem de negócios. Olhando para trás, foi provavelmente por essa razão que ele pressionou Jonathan a se casar e começar a produzir herdeiros: Charles St. Andrew sentia que seu tempo estava acabando.

Os McDougal vinham apressados pelo corredor para se juntarem a ele no anúncio oficial; sr. e sra. McDougal, como um casal de patos nervosos seguidos pelas suas patinhas, em fila, mais ou menos em idade descendente. Sete garotas, algumas devidamente arrumadas e com laços, outras com os cabelos soltos e desgrenhados, com uma barra de renda aparecendo de seus vestidos.

E, bem atrás, o bebê da família, Evangeline. Ao vê-la, um nó se formou em minha garganta: ela era tão linda! Ao contrário de uma garota abrutalhada de fazenda, Evangeline estava começando a atravessar a fronteira entre a criança e a mulher. Era graciosa e esguia, com os seios e quadril brotando modestamente, e lábios de querubim. Seu cabelo continuava dourado e caía nas costas em longos cachos. Era evidente porque a mãe de Jonathan escolhera Evangeline: ela era um anjo enviado à Terra, uma figura celeste que merecia as atenções de seu filho mais velho.

Poderia ter caído no choro lá na igreja. Em vez disso, mordi meu lábio e assisti quando ela passou por Jonathan, dando-lhe seu cumprimento mais tímido, olhando rapidamente para ele por debaixo da boina. E ele, pálido, cumprimentou-a de volta. A congregação inteira acompanhou essa troca instantânea e compreendeu o que havia sido trocado entre os dois jovens num piscar de olhos.

— Já era hora de acharem uma esposa pra ele — alguém atrás de mim murmurou. — Talvez agora ele pare de correr atrás das moças como um cão no cio.

— Um escândalo, eu acho! A menina não passa de uma criança...

— Fique quieta, a diferença entre eles não passa de seis anos, e muitos maridos são mais velhos que as mulheres muitos anos mais do que isso...

— É verdade, em alguns anos não fará diferença, quando ela tiver 18 ou 20. Mas 14! Pense em sua filha, Sarabeth, gostaria de vê-la casada com esse garoto St. Andrew?

— Não, pelo amor de Deus!

Embaixo, o restante das garotas McDougal formava uma corrente solta ao redor de Jonathan e seus pais, enquanto Evangeline permanecia em pé, tímida, um passo atrás de seu pai. “Agora não é hora de ser recatada”, pensei na época, tentando ouvir o que estava sendo dito embaixo. “Você é aquela com quem ele se casará. Esse homem maravilhoso será seu marido, a levará para a cama todas as noites. É difícil dar seu coração a um homem como esse, mas deve provar que está à altura do desafio. Vá e fique ao lado dele.” Algum tempo depois, após muita insistência de seus pais, ela saiu desajeitadamente de trás do pai, como um potro recém-nascido tentando usar as pernas pela primeira vez. Foi quando ficaram lado a lado que me dei conta: ela ainda era uma criança. Ele parecia uma torre, tão maior do que ela. Imaginei os dois deitados juntos na cama, parecia que ele podia esmagá-la. Ela era pequena e tremia como vara verde cada vez que ele lhe dava atenção.

Ele pegou-lhe a mão e se aproximou dela. Havia algo galanteador nesse gesto, quase protetor. Mas, então, Jonathan inclinou-se e a beijou. Não era um beijo comum, aquele que eu já guardava em minha memória, aquele tão forte a ponto de sentir até a ponta dos dedos dos pés. Entretanto, ele havia dado o sinal de que aceitara o contrato de casamento beijando-a na frente das famílias e da congregação. E na minha frente.

Então, entendi a mensagem de Sophia no sonho: ela não tentava me encorajar a me matar em troca do que eu lhe fizera. Ela estava me dizendo que teria uma vida de decepções diante de mim se continuasse a amar Jonathan como eu amava, do jeito que ela amou. Um amor muito forte pode transformar-se em veneno e trazer muita infelicidade. Mas qual o remédio? Alguém pode desfazer o desejo de um coração? É possível deixar de amar alguém? “Mais fácil se afogar”, era o que Sophia parecia me dizer; melhor me matar por amor.

Tudo isso reverberava em minha mente enquanto assistia à cena, do balcão, lágrimas nos olhos, meus dedos apertando a madeira do corrimão. Eu estava no andar de cima da congregação, alto o suficiente para dar o salto do amante. Mas não fiz nada; até mesmo nessa hora tinha consciência do bebê dentro de mim. Em vez disso, dei as costas e corri escada abaixo, para me afastar daquela cena desoladora.

12

Voltei da igreja para casa em silêncio, na charrete com meu pai. Ele me olhava, enrolada em minha capa e cachecol, mas ainda tremendo e batendo os dentes apesar de o sol de inverno ter saído e nos banhar de luz. Ele não disse nada, sem dúvida atribuindo minha aparência doentia e reticência às notícias do acordo de casamento de Jonathan. Paramos na dilapidada igreja católica e encontramos minha mãe, irmãs e Nevin esperando na neve, com os lábios azuis e reclamando por estarmos atrasados enquanto subiam na charrete.



— Fiquem quietos, temos uma boa razão para o atraso — meu pai disse a eles em um tom que significava que ele não toleraria bobagem. — O arranjo de casamento de Jonathan foi anunciado hoje depois do culto. — Em consideração, não houve comemoração entre eles, somente olhares de minhas irmãs e uma piada: “Tenha piedade da garota, quem quer que seja”, vinda do meu irmão.

Quando chegamos à fazenda, Nevin desarreou o cavalo, meu pai foi verificar o gado e minhas irmãs aproveitaram o dia ensolarado para cuidar das galinhas. Segui minha mãe, sem rumo, para dentro de casa. Ela ia de um lado para o outro na cozinha, preparando-se para fazer a refeição da noite, enquanto eu me sentei numa cadeira em frente da janela, ainda com a capa. Minha mãe não era tola.

— Quer uma caneca de chá, Lanore? — ela perguntou da lareira.

— Tanto faz — eu disse com cuidado, para esconder o tom de tristeza de minha voz. De costas para ela, ouvia o tilintar das panelas pesadas penduradas no gancho sobre o fogo e o jorrar da água que caía do balde de água recolhida.

— Posso ver que está chateada, Lanore. Mas você sabia que esse dia chegaria — ela disse de uma vez, firme, mas gentilmente. — Sabia que um dia o mestre Jonathan se casaria, assim como você. Nós lhe avisamos que uma amizade tão forte com um garoto não era aconselhável. Agora consegue entender por quê.

Deixei uma lágrima cair, já que ela não podia me ver. Senti-me fraca, como se tivesse sido atropelada e pisoteada por um dos touros no pasto. Precisava da ajuda de alguém; naquele momento, sentada ali, sabia que morreria se tivesse que carregar esse segredo comigo por mais tempo. A questão era: poderia confiar em minha família?

Minha mãe sempre fora boa para nós, seus filhos, nos defendendo quando a rigidez de meu pai resultava numa dura punição. Ela era uma mulher e tinha estado grávida seis vezes, com dois bebês enterrados no cemitério da igreja; com certeza entenderia como eu me sentia e me protegeria.

— Mãe, tenho algo que devo lhe dizer, mas estou com muito medo de como vão reagir, a senhora e meu pai. Por favor, prometa-me que vão continuar me amando depois que disser o que tenho a dizer — eu disse com a voz trêmula.

Ouvi um grito abafado escapar de minha mãe, seguido pelo som de uma colher caindo no chão, e sabia que não precisava dizer mais nada. Apesar de todos os seus conselhos, de todas as suas súplicas e críticas incessantes, seu pior medo tinha se tornado realidade.

Pediram a Nevin que arreasse o cavalo à charrete novamente e que fosse com minhas irmãs até a casa de Dale, do outro lado do vale, e que ficassem lá até que meu pai viesse buscá-los. Fiquei sozinha com meus pais em casa, sentada num banquinho no meio da sala enquanto minha mãe chorava suavemente para si, perto do fogo, e meu pai andava pesadamente a meu redor.

Nunca vira meu pai tão enfurecido. Seu rosto estava vermelho e inchado, suas mãos, brancas de tanto apertar os pulsos. A única coisa que não permitia que ele me desse um soco eram as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.

— Como pôde fazer isso? — meu pai esbravejava. — Como pôde ter se entregado ao garoto St. Andrew? Você não é melhor do que uma vagabunda qualquer? O que deu em você?

— Ele me ama, pai.

Minhas palavras eram provocação demais para meu pai; ele deu um golpe e me acertou com força no meio da face. Até mesmo minha mãe segurou a respiração, surpresa. A dor espalhou-se rapidamente pela mandíbula, mas foi a crueza de sua raiva que me deixou estupefata.

— Foi isso o que ele lhe disse? E você foi suficientemente estúpida para acreditar nele, Lanore?

— Está enganado. Ele realmente me ama...

Ele puxou o braço para me acertar pela segunda vez, mas parou.

— Não acha que ele disse a mesma coisa para que todas as garotas se entregassem ao desejo dele? Se os sentimentos dele são verdadeiros, por que prometeu casamento à garota McDougal?

— Não sei — engasguei, limpando as lágrimas do rosto.

— Kieran — minha mãe disse, firme —, não seja cruel!

— É lição difícil — meu pai respondeu a ela, olhando sobre o ombro. — Tenho pena dos McDougal e da pequena Evangeline, mas não teria um St. Andrew como genro.

— Jonathan não é um homem mau — protestei.

— Ouça o que está dizendo! Defendendo o homem que deixou você grávida e não tem a decência de estar aqui a seu lado, dando a notícia à sua família — meu pai urrou. — Aposto que o canalha sabe de seu estado...

— Sabe.


— E o capitão? Acha que ele teve coragem de contar ao pai?

— Eu... não sei.

— Duvido — afirmou meu pai, voltando a andar, seus saltos tilintando alto no chão de tábua de pinho. — E é melhor assim. Eu não quero ter parte naquela família. Está me ouvindo? Não quero! Já tomei minha decisão, Lanore: vou mandá-la embora para ter o bebê. Para bem longe. — Ele olhou fixamente para a frente, nem um piscar de olhos em minha direção. — Vamos mandá-la para Boston em algumas semanas, quando já pudermos passar pela estrada, para um lugar onde poderá ter seu bebê. Um convento. — Ele olhou para minha mãe, que olhava para as mãos dela enquanto assentia com a cabeça. — As irmãs encontrarão um lar para ele, um bom lar católico, para apaziguar o coração de sua mãe.

— Vão tirar meu filho de mim? — Comecei a me levantar do banquinho, mas meu pai me empurrou de volta.

— Claro que sim. Não pode trazer sua vergonha de volta com você para St. Andrew. Não vou permitir que meus vizinhos saibam que você é mais uma das conquistas de St. Andrew.

Comecei a chorar de novo, copiosamente. O bebê seria tudo o que eu teria de Jonathan; como poderia abrir mão dele? Minha mãe caminhou até mim e tomou minhas mãos nas dela.

— Deve pensar em sua família, Lanore. Pense em suas irmãs. Pense na vergonha se a notícia se espalhar pela cidade. Quem iria querer que seus filhos se casassem com suas irmãs depois de uma desgraça como essa?

— Acho que meus fracassos não deveriam refletir em minhas irmãs — disse, roucamente, mas sabia da verdade. Os cidadãos honrados fariam minhas irmãs e meus pais sofrerem por minhas falhas. Ergui a cabeça. — Então, não vai contar ao capitão sobre meu estado?

Meu pai parou de andar e virou o rosto para mim.

— Não darei ao velho canalha a satisfação de saber que minha filha não resistiu ao filho dele. — Ele chacoalhou a cabeça. — Pode pensar o pior de mim, Lanore. Rezo para estar fazendo a coisa certa por você. A única coisa que sei é que devo tentar salvá-la da própria ruína.

Não senti nenhuma gratidão. Egoísta como era, meu primeiro pensamento não foi para minha família nem para sua dor, mas para Jonathan. Seria forçada a deixar minha casa e nunca veria Jonathan de novo. A ideia me perfurava como uma lâmina em meu coração.

— Tenho mesmo que ir? — perguntei, a miséria aquebrantando minha voz. — Por que não posso procurar uma parteira? Poderia ficar; ninguém saberia de nada.

O olhar frio de meu pai feriu-me mais profundamente do que se tivesse sido esbofeteada de novo.

— Eu saberia, Lanore. Eu saberia e sua mãe saberia. Algumas famílias podem concordar, mas... nós não podemos deixá-la fazer isso. Seria um pecado monstruoso, ainda pior do que o que você já cometeu.

Assim, eu não era só uma filha má e um brinquedinho dos desejos de Jonathan, mas, em meu coração, também era uma assassina impiedosa. Naquele momento, queria morrer, mas só a vergonha não era suficiente para isso.

— Entendo — disse, limpando a umidade fria de meu rosto, determinada a não chorar mais na frente de meu pai.

Ah, que vergonha e que medo senti aquela noite! Hoje, em retrospecto, parece ridículo ter me sentido tão culpada, tão amedrontada. Mas, naquele tempo, eu era só mais uma vítima da propriedade, tremendo e chorando na casa de meus pais, esmagada pelo peso de suas ordens. Uma pobre alma prestes a ser exilada num mundo cruel. Levou muitos anos até que eu me perdoasse. Na época, pensei que minha vida tinha terminado; meu pai me considerava uma prostituta e um monstro, e estava me mandando embora do único lugar com que me importava. Não conseguia imaginar como minha vida prosseguiria.

O pior do inverno passara; os dias curtos e escuros diminuíam e o céu, quase sempre encoberto, da cor de pano de chão velho, começava a se iluminar. Imaginava se eu também estava mudando visivelmente, com um bebê dentro de mim, ou se as mudanças em meu corpo estariam todas na minha mente. Afinal, sempre fora magra e, no meu martírio, perdi todo o apetite. Minhas roupas não me serviam, como eu esperava, mas talvez essa fosse a única culpa pairando em minha imaginação. Em alguns momentos, também imaginava se Jonathan pensava em mim, se sabia que eu ia ser mandada embora e sentia-se mal por ter me abandonado. Talvez ele tenha assumido que eu fizera o que havia prometido, ido à parteira e me limpado; talvez tivesse se distraído com a aproximação do casamento. Eu não tinha como saber: não podia mais ir aos cultos de domingo, tiraram-me a única possibilidade de ver Jonathan.




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