No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Luke se enrola com a ignição enquanto Lanny se abaixa, tentando não olhar e piorar ainda mais o nervosismo do médico. Finalmente o motor pega e a caminhonete deixa o estacionamento, saindo imprudentemente estrada afora.

A passageira olha fixamente para a frente, como se a concentração dela, sozinha, pudesse fazê-los não serem descobertos.

— Estou na hospedaria Dunratty. Sabe onde é?

Luke acha aquilo um absurdo.

— Acha que é sensato irmos até lá? Imagino que a polícia já tenha descoberto onde estava hospedada. Não recebemos muitos turistas nessa época do ano.

— Por favor, só dê uma passada por lá. Se parecer suspeito, seguimos em frente, mas todas as minhas coisas estão lá. Meu passaporte, dinheiro, minhas roupas. Aposto que não tem nada que me sirva.

Ela é menor que Trici.

— Você ganharia a aposta — ele confirma. — Passaporte?

— Vim da França, onde moro. — Ela se curva na ponta do assento como um gato tentando manter o calor do corpo. De repente, sobre o volante, as mãos de Luke parecem estranhamente imensas e trêmulas. Ele está tendo uma experiência fora do corpo, por causa do estresse, e tem que se concentrar para não desmaiar e fazê-los capotar na estrada.

— Devia ver minha casa em Paris. É como um museu, cheia de um monte de coisas que colecionei ao longo de muitos e muitos anos. Quer ir até lá? — Seu tom é tão agradável e acalentador quanto um licor e o convite, fascinante. Ele imagina se ela está falando sério. Quem não desejaria ir a Paris, ficar hospedado numa casa mágica? Luke sente sua tensão diminuir, sua coluna e seu pescoço começam a relaxar.

Há hospedarias de caçadores, como a Dunratty, espalhadas por toda a floresta. Luke nunca se hospedou numa delas, mas se lembra de ter visto o interior de umas duas, quando era criança, no entanto, por algum motivo, não se lembrava agora de quais eram.

Cabanas baratas dos anos 1950, construídas com madeira compensada, cheias de mobília de lojas populares, mofo, linóleo de terceira e cocô de rato. A garota direciona Luke até a última cabana no estacionamento de cascalho do Dunratty; as janelas são escuras e vazias. Ela estende a mão para Luke:

— Me dê um de seus cartões de crédito para ver se consigo abrir a fechadura.

do lado de dentro, eles baixam as cortinas e Lanny acende a luz de cabeceira. Há um frio em tudo o que tocam. Os pertences pessoais estão espalhados por todos os lados, abandonados, como se os hóspedes tivessem sido forçados a fugir durante a noite. Há duas camas, mas só uma está desarrumada, os lençóis amassados e os travesseiros marcados, devassos e incriminadores. Um laptop, com uma câmera digital anexada a ele por um fio, encontra-se sobre uma mesa bamba que algum dia já fizera parte de um jogo de cozinha. Garrafas vazias de vinho jogadas na mesa de cabeceira, duas taças com marcas de dedos e lábios.

Duas malas, abertas, estão no chão. Lanny fica de cócoras perto de uma delas, enfiando coisas a esmo dentro dela, incluindo o laptop e a câmera.

Luke balança as chaves, nervoso e impaciente.

A garota fecha o zíper da mala, fica de pé, então se volta para a segunda mala. Ela pega um item de roupa masculino e o segura perto do nariz, inspirando profundamente.

— Ok. Vamos!

Enquanto passam pelo caminho em frente da recepção (com certeza fechada àquela hora da manhã, Dunratty Junior dorme no andar de cima), Luke acha que vê as cortinas vermelhas se mexerem, como se alguém os observasse. Ele imagina Dunratty vestido em seu roupão de banho, caneca de café na mão, ouvindo o som de rodas sobre o cascalho e indo ver quem está passando; será que reconhece minha caminhonete? Luke fica imaginando. “Deixe para lá, não é nada, só um gato na janela ou algo do gênero”, Luke diz a si mesmo. “Não há razão para procurar pelo em ovo.”

Luke fica um pouco nervoso quando a garota troca de roupa enquanto ele dirige, até que se lembra de que já a viu nua. Ela coloca um jeans azul e um suéter de cashmere mais exuberante do que qualquer outra coisa que sua esposa jamais vestira. Ela deixa o avental do hospital cair no chão do carro.

— Você tem um passaporte? — pergunta a Luke.

— Em casa, claro.

— Vamos pegá-lo.

— O quê? Vamos voar para Paris, assim, do nada?

— E por que não? Eu compro as passagens, pago tudo. Dinheiro não é problema.

— Acho que devíamos levá-la até o Canadá, agora, antes que a polícia faça um boletim de ocorrência. Estamos a quinze minutos da fronteira.

— Você precisa do passaporte para atravessar a fronteira? Eles mudaram a lei, não mudaram? — a garota pergunta, com um toque de pânico na voz.

Luke aperta a mão no volante.

— Não sei... não atravesso a fronteira há algum tempo... oh, ok, vamos até minha casa. Só vai levar um minuto.

A casa da fazenda localiza-se no meio de um campo aberto, como uma criança muito estúpida que sabe que deve entrar para sair do frio. Sua caminhonete sobe e bate violentamente na lama remexida, agora congelada em pontas como a cobertura de um bolo.

Pela porta de trás, entram numa cozinha desgastada, que não mudou nos últimos cinquenta anos. Luke acende a luz e percebe que não fez muita diferença na luminosidade do cômodo. Sobre a mesa de jantar, canecas de café usadas e, no chão, migalhas. Ele está absolutamente envergonhado da bagunça.

— Esta era a casa de meus pais. Vivo aqui desde que eles morreram — ele explica. — Não gostei da ideia da fazenda ir parar nas mãos de estranhos, mas não consigo cuidar dela do jeito que eles faziam. Vendi o gado poucos meses atrás. Já tenho uma pessoa para alugar os campos, para plantar na próxima primavera. Parece desperdício deixá-los desocupados.

Lanny se movimenta pela cozinha, passando o dedo sobre o balcão de fórmica lascado e pelo encosto de vinil de uma cadeira de cozinha. Ela para em frente de um desenho pendurado por um ímã na geladeira, feito por uma das filhas dele quando ela ainda estava na pré-escola. Uma princesa em um pônei; o pônei é reconhecível como algum tipo de criatura equina, mas a princesa é uma aproximação, com o cabelo louro enrolado e olhos azuis, usando um vestido cor-de-rosa para cavalgar. Exceto pelo vestido longo, poderia ser Lanny.

— Quem desenhou isso? Tem crianças em casa?

— Não mais.

— Elas foram embora com sua esposa? — ela adivinha. — Ninguém para tomar conta do lugar para você?

Ele dá de ombros.

— Não tem razão nenhuma para ficar — ela diz, afirmando um fato.

— Ainda tenho obrigações — ele responde, porque essa é a maneira como costumava pensar em sua vida: uma fazenda que não conseguirá vender na atual situação da economia, seu consultório e velhos para cuidar, já que seus filhos e netos se mudaram da cidade. Assim, seus pacientes diminuem a cada mês.

Luke sobe as escadas e vai até o quarto. Acha o passaporte na gaveta do criado-mudo. Ele mudou-se para o antigo quarto dos pais depois que sua esposa o deixou: o quarto de sua infância também foi o quarto de seu casamento e ele não queria ter mais nenhuma lembrança relacionada a isso.

Ele abre o passaporte. Nunca o usou. Nunca teve tempo para viajar desde sua residência e só viajara pelos Estados Unidos. Nunca estivera em nenhum dos lugares distantes com os quais sonhava conhecer quando ainda era adolescente e gastava muitas horas sobre o trator, seu horário de sonhar acordado. Seu passaporte vazio o faz sentir-se um pouco envergonhado em frente de alguém que já esteve em todos esses lugares exóticos. Era para a vida dele ter sido diferente.

Ele vai ao encontro de Lanny, na sala de jantar, e ela inspeciona as fotos de família colocadas numa prateleira de livros baixa. Sua mãe tinha essas fotos desde quando conseguia se lembrar, e Luke não tinha coragem de guardá-las, mas a mãe dele era a única que sabia quem eram aquelas pessoas e de que forma se relacionavam com ele. Fotografias em preto e branco, com escandinavos carrancudos, e já mortos havia muito tempo, olhando fixamente, estranhos uns aos outros. Há uma foto colorida, com uma grossa borda de madeira, a foto de uma mulher e suas duas filhas aconchegadas entre os parentes como se fizessem parte deles.

Luke apaga as luzes e ajusta o termostato na temperatura mínima, o suficiente para manter os canos descongelados. Ele verifica as fechaduras das portas, apesar de não saber por que está sendo tão cuidadoso. Planeja voltar assim que deixar a jovem do outro lado da fronteira, mas o toque de sua mão no interruptor de luz fez um nó surgir em sua garganta. É como se estivesse dizendo adeus, o que espera fazer algum dia, do jeito que planejou e imaginou em seus momentos mais conscientes; talvez na primavera, quando consegue pensar com mais clareza, mas agora ele só está ajudando uma jovem em apuros, uma garota sem ninguém a quem possa pedir ajuda. No que diz respeito a hoje, ele volta logo.

— Pronta? — Luke pergunta, balançando as chaves novamente, mas Lanny alcança a prateleira de livros e puxa um pequeno livro, só um pouco maior que a mão dela. Está faltando a contracapa e as capas duras estão gastas nas pontas, de forma que o papel está visível, como um broto dentro do tecido amarelo e desfiado. Leva um minuto para Luke reconhecer o livro: foi seu favorito quando menino e sua mãe deve tê-lo guardado todos esses anos. O templo de Jade, uma clássica lenda infantil, parecido com Kipling, mas não era Kipling: a história de um expatriado britânico, que se passa num local muito distante, com um príncipe chinês e uma princesa europeia, ou uma garota caucasiana, ou qualquer coisa assim, descrita com ilustrações feitas com caneta-tinteiro pelo próprio autor. Lanny folheia as páginas do livro.

— Conhece o livro? — ele pergunta. — Eu o adorava... Bem, dá para perceber pelo uso. A capa quase já era. Acho que não estão mais publicando.

Ela está segurando o livro aberto para ele, apontando para uma das ilustrações. E, pelos diabos, se aquela não era ela! Ela está com um vestido de época e o cabelo está preso num coque, como o das garotas de Gibson, mas aquele é seu rosto ovalado e aqueles são seus olhos levemente arrogantes e distraídos.

— Conheci Oliver, o autor, quando ambos morávamos em Hong Kong. Ele era um mero funcionário civil britânico, na época, e tinha fama de bêbado, implorava para que as esposas dos oficiais posassem para seu “pequeno projeto”, como o chamava. Eu fui a única que concordei em fazê-lo; todo mundo achava que aquilo era escandaloso ou algum tipo de truque, só uma desculpa para levar uma de nós sozinha para o apartamento dele.

Houve uma reviravolta em seu diafragma. Ele sente o coração bater descontroladamente. A garota da ilustração está parada na frente dele em carne e osso e é uma mágica muito estranha ver algo abstrato de repente se manifestar em realidade diante dele. Por um momento, sente medo de desmaiar. Num instante ela está a seu lado, apressando-o na porta.

— Estou pronta. Vamos.

11

ST. ANDREW, 1816



Consegui o único desejo de meu coração: que Jonathan me tomasse como mulher e como amante, mas nada além disso. Vivia em um estado de incerteza porque não tinha conseguido me comunicar com ele desde aquela tarde nervosa e assustadora.

O inverno tinha interferido.

Não podemos ignorar o inverno em nossa parte do Maine. Atravessávamos nevasca após nevasca, pilha de neve até a cintura durante um ou dois dias, o que inviabilizava qualquer possibilidade de viagem. Toda atenção e energia eram direcionadas a nos mantermos quentes e alimentados, e a cuidar da criação de animais. Qualquer tarefa comum ao ar livre exigia um grande esforço para atravessar a neve, era uma perspectiva exaustiva. Quando conseguíamos limpar um caminho até o estábulo e o pasto, ou aparecia alguma abertura sobre a superfície congelada do rio tanto para os animais quanto para o uso doméstico, e o gado já se acostumava a desviar dos montes de neves levados pelo vento, e tínhamos a impressão de que a vida poderia voltar ao normal (ou, pelo menos, à rotina), outra tempestade de neve caía sobre o vale.

Eu me sentei perto da janela e fiquei olhando para a trilha da charrete, a neve imaculada com quase três metros de profundidade. Rezei fervorosamente para a neve parar e ficar sólida o suficiente para conseguirmos andar sobre ela, assim poderia ir ao culto no domingo, minha única oportunidade de ver Jonathan. Precisava que ele aliviasse meus medos, que não tinha me possuído só porque não podia ter Sophia, mas porque me desejava. Talvez até porque me amasse.

Finalmente, depois de ficar confinada em casa durante dias, a neve derreteu até uma altura passável e meu pai disse que iríamos à cidade no domingo. Enquanto em outras épocas do ano uma notícia como aquela seria encarada com tolerância, talvez indiferença, dessa vez parecia que papai havia nos contado que iríamos a um baile. Maeve, Ghynnis e eu passamos dias em frenesi, decidindo o que usar, como limpar uma mancha de uma camisa adorada e qual de nós arrumaria o cabelo da outra. Até Nevin parecia ansioso pela chegada do domingo, para poder escapar de nossa cabana minúscula.

Meu pai e eu deixamos minhas irmãs, irmão e minha mãe na igreja católica e então nos dirigimos até o corredor da congregação. Meu pai sabia por que ia ao culto com ele, então devia ter uma vaga ideia da razão pela qual eu estava mais ansiosa do que o normal, conforme nos aproximávamos do corredor. E, após o culto, como a neve ainda estava muito alta no jardim público destinado à socialização, a congregação permaneceu do lado de dentro, enchendo os corredores, o saguão de entrada e as escadarias. O ar estava barulhento pela conversa animada das pessoas que estiveram confinadas com suas famílias por muito tempo e ansiavam por falar com pessoas diferentes.

Eu me espremi entre a multidão, procurando Jonathan. Meus ouvidos captavam pedaços de conversas dos vizinhos: quão deprimente e tedioso havia sido o inverno, o quanto todos estavam cansados de comer ervilhas secas no melaço e carne de porco salgada. Por uma janela estreita, consegui enxergar o quintal da igreja e o túmulo de Sophia. A terra havia se acomodado e afundado, e a neve sobre o túmulo nivelou-se alguns centímetros mais abaixo do restante da cobertura, deixando uma irregularidade na paisagem.

Finalmente eu vi Jonathan, também se contorcendo por entre a multidão, parecendo estar procurando por mim. Nós nos encontramos ao pé da escadaria que dava para a frisa, apertados ombro a ombro com nossos vizinhos, cientes de que não podíamos conversar livremente. Alguém poderia ouvir.

— Está encantadora hoje, Lanny. — Jonathan disse, educadamente. Uma colocação sem maldade, podia pensar um abelhudo comum, mas o Jonathan de minha infância nunca havia feito qualquer tipo de comentário sobre minha aparência. Não consegui agradecer o elogio, só fiquei vermelha. Ele se inclinou e cochichou em meu ouvido.

— As últimas três semanas foram insuportáveis. Vá até seu estábulo uma hora antes do pôr do sol esta noite e eu darei um jeito de me encontrar com você lá.

Claro que, nessas circunstâncias, eu não poderia fazer perguntas nem buscar afirmações para as incertezas de meu coração. E, para ser sincera, nada que ele tivesse dito me faria ficar longe dele. Eu ardia de vontade de estar com ele.

Naquela tarde, meus medos foram amainados. Durante uma hora, senti-me o epicentro do mundo dele, tudo o que podia desejar. Seu ser inteiro estava em todos os toques: a maneira como tateava as fitas e os nós que fechavam minha roupa, seus dedos puxando suavemente meu cabelo, até seus beijos em meus ombros nus e arrepiados. Mais tarde, nos aconchegamos um ao outro enquanto voltávamos a nossos corpos e era a glória estar rodeada pelos braços dele, sentir sua pressão em meu corpo, como se ele também não quisesse que nada nos separasse. Nenhuma felicidade se compara à felicidade de se conseguir o que sempre se almejou. Eu estava exatamente onde queria estar, mas agora tinha consciência do passar de cada segundo e como minha família estaria me procurando. Relutante, afastei as mãos dele da minha cintura.

— Não posso ficar. Tenho que voltar... às vezes gostaria que houvesse outro lugar... um lugar para ir que não fosse minha casa.

Tive a intenção de dizer que só queria não ter que deixar o doce refúgio de sua companhia, mas a verdade escapou, uma verdade que mantinha sufocada dentro de mim. Pareceu algo do que me envergonhar, um medo secreto que não queria admitir, mas as palavras haviam escapado e não havia como tomá-las de volta. Jonathan olhou para mim, confuso:

— Por que, Lanny?

— Bem, às vezes sinto que não tenho espaço na minha família. — Eu me senti uma tola tendo que explicar isso a Jonathan, talvez a única pessoa no vilarejo que nunca tinha sofrido de desamor ou jamais se tenha imaginado não merecedor da felicidade. — Nevin é o único filho, então tem um valor inestimável para meus pais e um dia herdará a fazenda. E tem minhas irmãs... bem, elas são tão lindas, todo mundo na cidade as admira pela beleza. As perspectivas para elas são boas. Mas eu... — Não podia dizer, nem mesmo para Jonathan, o motivo de meu medo secreto: que minha felicidade não importava a ninguém, que ninguém se importava comigo, nem mesmo meus pais.

Ele me puxou para perto dele, no feno, e me segurou apertado em seus braços enquanto eu tentava me desvencilhar, não dele, mas de minha vergonha.

— Não aguento ouvir você dizendo essas coisas, Lanny. Bem, você é quem eu escolhi para ficar, não é? A única com quem me sinto confortável, a única pessoa para quem eu me revelo. Passaria a vida toda em sua companhia, se pudesse. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs, Benjamin... Eu os deixaria, todos eles, só para estar com você, só nós dois, juntos para sempre.

Claro que acreditei em cada palavra de sua linda homenagem; elas atravessaram minha vergonha e subiram direto até minha cabeça, como um forte gole de uísque. Não se engane com o que digo: na época, ele acreditava me amar e eu tinha certeza da sinceridade dele. Mas agora, com a sabedoria conquistada a duras penas, entendo quão tolos fomos ao proclamar palavras tão perigosas um ao outro! Éramos arrogantes e ingênuos, pensando que o que sentíamos, então, era amor. O amor pode ser uma emoção barata, facilmente oferecida, apesar de que não me parecesse assim naquela época. Em retrospecto, sei que só estávamos tapando os buracos de nossas almas, do jeito que uma onda carrega areia para encher os orifícios de uma praia cheia de pedras. Nós, ou talvez fosse só eu, saciávamos nossas necessidades com o que declarávamos ser amor. Mas, no final, a onda sempre leva de volta aquilo que trouxe.

Para Jonathan, era impossível me dar aquilo que ele dizia ser o seu desejo; ele não poderia abrir mão de sua família ou de suas responsabilidades. Ele não precisava me dizer que seus pais nunca permitiriam que ele me escolhesse como esposa. Mas, naquele início de noite, naquele estábulo frio, eu possuía o amor de Jonathan e, por tê-lo, ficava ainda mais feroz para mantê-lo. Ele declarou seu amor por mim, eu tinha certeza de meu amor por ele, prova de que éramos feitos um para o outro e que, de todas as almas no universo de Deus, estávamos unidos no amor.

Nós nos encontramos dessa maneira só mais duas vezes ao longo dos outros dois meses, um resultado triste para amantes. Em cada ocasião, falamos muito pouco (exceto para ele confessar que tinha sentido minha falta), nos apressando para fazer amor, nossa pressa proveniente do medo de sermos descobertos e também do frio. Despíamos um ao outro o máximo que podíamos e aguentávamos, e usávamos bocas e mãos para apertar, acariciar e beijar. A cada vez, copulávamos como se fosse a última para cada um de nós; talvez intuíssemos um futuro infeliz, hesitante, contando os segundos até sermos envolvidos num abraço de medo. Ambas as vezes também partimos com pressa, o odor dele exalando da parte de baixo de minhas roupas, a umidade entre as minhas pernas e uma queimação em minhas bochechas, que eu esperava ser confundida pela minha família como uma queimadura do frio.

Cada vez que partíamos, no entanto, a dúvida começava a martelar na minha mente. Eu tinha o amor de Jonathan, por ora, mas o que isso significava? Conhecia o passado de Jonathan melhor do que ninguém. Ele também não tinha amado Sophia? Mas eu o fiz esquecer-se dela, ou assim parecia. Podia fingir que ele seria sincero e fiel a mim, escolher ser cega, como muitas mulheres fazem, e esperar que, com o tempo, tudo passasse. Minha cegueira contava com a ajuda de minha teimosa convicção de que um elo de amor era algo vindo de Deus e que não importava quão desagradável, quão improvável ou doloroso, não poderia ser alterado pelo homem. Tinha que ter fé que meu amor triunfaria sobre qualquer imperfeição do amor de Jonathan por mim; o amor, afinal, é fé, e toda fé um dia será testada.

Agora compreendo que somente um tolo busca garantias no amor. O amor demanda tanto de nós que, em troca, tentamos garantir que ele dure. Nós queremos eternidade, mas quem consegue fazer tais promessas? Deveria ter sido feliz com o amor companheiro, constante, que Jonathan teve por mim desde a infância. Aquele amor era eterno. Em vez disso, tentei transformar o sentimento dele por mim em algo que não existia e, nessa tentativa, destruí a única coisa linda e eterna que eu tinha.

Às vezes, as piores marés vêm como calmarias. Um amigo que não aparece no horário de costume e que, logo em seguida, afasta-se da amizade. Uma carta esperada que não chega, seguida, depois de um tempo, por notícias de uma morte precoce. E, no meu caso, naquele inverno, o cessar de meu ciclo menstrual. O primeiro mês; depois, o segundo.

Rezei para que o motivo fosse outro. Amaldiçoei o espírito de Sophia; com certeza ela estava me dando o troco. No entanto, uma vez liberado, o espírito de Sophia não era fácil de ser contido.

Sophia começou a me visitar em meus sonhos. Em alguns deles, o rosto dela aparecia vagamente no meio da multidão, contrariado e acusatório, e então desaparecia. Num sonho recorrente, eu estava com Jonathan e ele me deixava abruptamente, fugindo de mim como se obedecesse a uma ordem silenciosa, ignorando minhas súplicas para ficar. Então, reaparecia com Sophia, os dois caminhando de mãos dadas a distância, Jonathan sem nem se lembrar de mim. Sempre acordava desses sonhos me sentindo ferida e abandonada.

Meu pior sonho me acordava como se estivesse caindo de um cavalo empinado e tinha que sufocar meus gritos ou arriscava acordar minhas irmãs. Os outros sonhos deviam ser minha culpa fazendo truques, mas esse não podia ser nada além de uma mensagem da própria jovem morta. Nesse sonho, eu caminho pelo vilarejo vazio, o vento açoitando minhas costas enquanto percorro a estrada principal. Não há ninguém, nem voz ou som de vida, não há o corte da madeira ou o barulho estridente da bigorna do ferreiro. Logo estou no meio da floresta, branca com a neve, seguindo o Allagash metade congelado. Paro em uma passagem estreita no rio e vejo Sophia em pé, do outro lado. Ela é a Sophia que cometeu suicídio, azulada, o cabelo congelado em tufos, a roupa molhada pesando sobre ela. Ela é a amante esquecida, mofando no túmulo, à custa de quem eu conquistei minha felicidade. Seus olhos mortos pousam em mim e então ela aponta para a água. Nenhuma palavra é dita, mas eu sei o que ela está me dizendo: pule na água do rio e acabe com sua vida e a vida de seu filho.

Não ousava falar sobre minha condição com ninguém de minha família, nem com minhas irmãs, a quem eu era normalmente muito próxima. Minha mãe comentou uma ou duas vezes que eu parecia mal-humorada e preocupada, mas ela zombava que, a julgar pelo meu comportamento, eu deveria estar sofrendo muito com minhas maldições mensais. Se eu tivesse falado com ela sobre minha situação... mas, ai de mim, minha lealdade era a Jonathan. Não podia revelar nosso relacionamento a meus pais sem consultá-lo antes.

Esperava encontrar Jonathan nos cultos de domingo, quando, novamente, a natureza interviu. Muitas semanas já haviam passado antes que os caminhos para a cidade ficassem transitáveis novamente. Até que isso acontecesse, sentia a pressão do tempo sobre mim: se fosse forçada a esperar por muito mais tempo, não poderia manter o segredo. Enquanto estava acordada, rezava a Deus para que me desse a oportunidade de falar com Jonathan logo.




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