No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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Meu pai encontrou um rastro de pequenos pés que poderiam ser os de Sophia e nós dois começamos a segui-lo. Com meus olhos treinados na neve, minha mente acelerava, imaginando o que teria feito Sophia sair de casa. Talvez tivesse pensado em minhas palavras a noite toda e acordara decidida a conversar com Jonathan. Como nossa discussão poderia não estar relacionada ao desaparecimento dela? Meu coração batia disparado enquanto seguíamos as pegadas, que eu temia que chegassem à casa dos St. Andrew, até que a neve desapareceu dentro da floresta mais fechada e, com ela, a pista de Sophia.

Agora meu pai e eu seguíamos um rastro indistinto no chão da floresta coberto por uma mistura de terra dura e escorregadia, com algumas finas camadas de neve e folhas mortas. Não sabia se meu pai estava procurando pelo rastro escondido de Sophia ou se continuava por pura obrigação. Caminhamos paralelamente ao rio, o som do Allagash à minha esquerda. Geralmente eu achava relaxante o som da água batendo nas pedras, mas hoje, não.

Sophia deve ter sido movida por algo muito forte para se aventurar na floresta sozinha. Somente os moradores mais fortes do vilarejo iam sozinhos à floresta, pois era fácil se perder lá dentro. Acres e acres de floresta aberta numa repetição de vidoeiros, abetos e pinheiros, e a regularidade das pedras que cobriam o chão, todas cobertas com musgos extravagantes ou entremeadas por líquenes cinza-esverdeados.

Talvez devesse ter falado com meu pai antes, dizer a ele que esse sacrifício da comunidade era desnecessário e que era muito provável que Sophia tivesse saído para ir ver um homem, um homem cuja companhia ela não deveria manter. Ela poderia estar salva e aquecida em um quarto com esse homem enquanto nós andávamos a esmo pelo frio e pela lama. Imaginava Sophia correndo pela estrada, apaixonada e confusa, fugindo de seu lar infeliz até Jonathan, que, sem dúvida, a acolheria. Meu estômago revirava com a ideia dela enfiada na cama de Jonathan, a ideia de que ela havia vencido e eu, perdido, e que Jonathan agora era dela.

Depois de um tempo, viramos em direção ao rio e caminhamos seguindo a corrente e seus contornos. Meu pai parou num ponto, furando um buraco em uma fina camada de gelo, enfiando as mãos para pegar um pouco de água para beber. Entre um gole e outro, ele me olhou, curioso.

— Não sei quanto tempo mais vamos continuar procurando. Pode ir para casa, Lanore. Aqui não é lugar para uma jovem. Deve estar congelando de frio.

Balancei a cabeça.

— Não, não, meu pai, gostaria de ficar mais um pouco... — Seria impossível esperar as notícias em casa. Ficaria louca ou sairia da propriedade e correria até a casa de Jonathan e confrontaria Sophia. Conseguia vê-la, orgulhosa, triunfante. Naquele momento, acho que nunca odiara tanto alguém quanto a odiava.

Foi meu pai quem a viu primeiro. Estava mapeando o caminho à frente enquanto eu mantinha meus olhos treinados sobre o chão escorregadio debaixo dos pés. Encontrou o corpo congelado enroscado num redemoinho formado por uma árvore caída, quase escondida em um emaranhado de junco e trepadeira. Ela boiava de barriga para baixo, presa em um monte de plantas, o corpo delicado esticado, as camadas da saia e o longo cabelo espalhados pela superfície da água. Sua capa estava na beira do rio, cuidadosamente dobrada.


— Olhe para lá, garota! — Meu pai disse enquanto tentava me virar para o outro lado. Eu não conseguia tirar os olhos dela.

Meu pai soou o alarme enquanto eu olhava em silêncio para o corpo dela. Outras pessoas atravessaram a floresta, seguindo a voz de meu pai. Dois homens caminharam pela água gelada para desvencilhar o corpo do abraço do mato congelado e da fina camada de gelo que começava a tomar conta dele. Abrimos a capa no chão e colocamos o corpo sobre ela, o tecido encharcado grudando nas pernas e no torso; a pele estava toda azul e seus olhos, graças a Deus, estavam fechados.

Os homens a embrulharam na capa e fizeram turnos para segurar as pontas, usando-a como uma rede para carregar o corpo de Sophia de volta para casa, enquanto eu caminhava atrás deles. Meus dentes rangiam e meu pai se aproximou para esfregar meus braços numa tentativa de me aquecer, mas não adiantou, pois eu tremia de medo, não de frio. Cruzei os braços com força sobre o estômago, com medo de vomitar na frente de meu pai. Minha presença esfriou a discussão entre os homens e eles se abstiveram de especular sobre como Sophia teria tirado a própria vida. No entanto, todos concordaram que o pastor Gilbert não seria informado sobre a capa deixada ao lado de propósito. Ele não saberia que ela havia se suicidado.

Quando meu pai e eu chegamos em casa, corri para a lareira e fiquei tão perto que o fogo queimou meu rosto, mas mesmo esse calor não conseguia me fazer parar de tremer.

— Não fique tão perto! — mandou minha mãe, enquanto me ajudava a tirar a capa, sem dúvida com medo de que ela encostasse em alguma brasa. Eu teria achado bom: merecia queimar como uma bruxa pelo que tinha feito. Algumas horas depois, minha mãe veio até mim, levantou os ombros e disse:

— Vou até os Gilbert para ajudar com a preparação de Sophia. Acho que deveria vir comigo. Já é hora de ocupar o lugar entre as mulheres da cidade e aprender algumas de suas obrigações.

Já havia me trocado e agora vestia uma camisola grossa, estava perto do fogo e bebia uma caneca quente de cidra com rum. A bebida ajudava a me deixar dormente, a acalmar a vontade de chorar e confessar, mas eu sabia que estaria arruinada se tivesse que encarar o corpo de Sophia, mesmo na presença de outras mulheres da cidade. Levantei-me apoiando um cotovelo.

— Não poderia... Não me sinto bem. Ainda estou com frio...

Minha mãe pressionou as costas das mãos em minha testa, depois em minha garganta.

— Para todos os efeitos, direi que está queimando de febre... — Ela me olhou com cautela, desconfiada, então levantou-se do chão, colocando a capa sobre os ombros. — Está bem, só dessa vez, levando em consideração tudo o que passou mais cedo... — As palavras dela sumiram aos poucos. Ela me olhou de cima a baixo mais uma vez, de uma forma que não consegui decifrar, e então saiu pela porta.

Mais tarde, ela me contou o que aconteceu na casa do pastor, como as mulheres prepararam o corpo de Sophia para o enterro. Primeiro, colocaram o corpo perto do fogo para descongelar; depois, tiraram o lodo do nariz e da boca, e pentearam o cabelo suavemente. Minha mãe descreveu como a pele dela havia ficado depois de tanto tempo dentro do rio e como tinha pequenos arranhões vermelhos por ter sido carregada pela corrente e arrastada sobre as rochas submersas. Vestiram-na com seu melhor vestido, um amarelo tão pálido que quase parecia marfim, enfeitado com bordados que ela mesma havia feito e ajustado ao seu corpo esguio com alfinetes. Não houve menção ao corpo de Sophia, não falaram em anormalidades ou comentaram sobre o leve inchaço no abdômen da jovem morta. Se alguém notou alguma coisa, foi atribuído ao inchaço, sem dúvida, à água que a pobre jovem engoliu quando se afogara. E, então, colocaram um xale de linho dentro do caixão simples. Dois homens, que esperavam enquanto as mulheres acabavam o trabalho, carregaram o caixão para dentro de uma charrete e o levaram até a casa de Jeremias, onde ficaria à espera do funeral.

Enquanto minha mãe descrevia o estado do corpo de Sophia, senti como se unhas estivessem me rasgando, exortando para que confessasse minha maldade. Mas, com dificuldade, mantive o bom senso e chorei enquanto minha mãe falava, escondendo meus olhos com as mãos. Minha mãe esfregou minhas costas como se eu fosse uma criança de novo.

— O que é, Lanore, querida? Por que está tão perturbada por causa de Sophia? É uma coisa terrível e ela era nossa vizinha, sim, mas acho que você nem a conhecia tão bem assim... — Ela me mandou para cima com uma bolsa de couro de cabra cheia de água quente e ralhou com meu pai por ter me levado com ele para a floresta. Deitei com a bolsa sobre a barriga, apesar de ela não me trazer conforto. Fiquei acordada, ouvindo todos os sons da noite (o vento, o balançar das árvores, as brasas quase apagadas) sussurrarem o nome de Sophia.

Como seu casamento, o funeral de Sophia Jacobs foi um evento simples, assistido por seu marido, sua mãe, alguns de seus irmãos e outras poucas pessoas. O dia estava frio e encoberto, com a neve se preparando para cair do céu, assim como tinham sido todos os dias desde que Sophia havia se matado.

Em pé, Jonathan e eu assistimos de um morro que dava para o cemitério. Vimos os enlutados se aglomerarem em volta da vala escura e profunda. De alguma forma conseguiram cavar uma sepultura, apesar de o chão já estar começando a congelar, e eu não conseguia parar de pensar se teria sido o pai, Tobey, que a cavara. Os enlutados, manchas de preto contra o campo branco distante, ficavam para lá e para cá, enquanto o pastor Gilbert proferia as palavras sobre a morta. Meu rosto estava tenso, inchado pelos dias de choro, mas, agora, na presença de Jonathan, as lágrimas desapareceram. Parecia surreal espiar o funeral de Sophia. Sobretudo eu, que deveria estar de joelhos, implorando pelo perdão de Jeremias, pois era a responsável pela morte de sua esposa; era como se eu mesma a tivesse empurrado para dentro do rio.

A meu lado, Jonathan permanecia em silêncio. A neve finalmente começou a cair, como que liberando a tensão de longa data, pequenos flocos ziguezagueando no ar frio antes de pousar sobre o casaco marrom-escuro e os cabelos dele.

— Não acredito que ela se foi — ele disse pela vigésima vez naquela manhã. — Não consigo acreditar que ela tirou a própria vida.

Engasguei em minhas próprias palavras. Qualquer coisa que dissesse seria muito fraco, muito paliativo e totalmente falso.

— É minha culpa — ele grasnou, levantando a mão sobre o rosto.

— Não deve se culpar por causa disso. — Apressei-me em confortá-lo com as palavras que havia dito a mim mesma muitas e muitas vezes nos últimos dias, enquanto me escondia na cama ardendo de febre e culpa. — Você sabia que a vida dela havia sido miserável, desde quando era criança. Quem sabe quais pensamentos infelizes ela carregava e desde quando? Ela finalmente deu cabo deles. Não é sua culpa, de forma alguma.

Ele deu dois passos à frente, como se quisesse estar lá embaixo no cemitério.

— Não acredito que ela estivesse carregando pensamentos de autoflagelo, Lanny. Ela estava feliz comigo. É inconcebível que a Sophia que conheci estivesse lutando contra o desejo de se suicidar.

— Nunca se sabe. Talvez ela tenha brigado com Jeremias. Talvez depois da última vez que você a viu...

Ele fechou os olhos, apertando-os com força.

— Se alguma coisa a incomodou, foi minha reação quando ela me contou sobre o bebê. É por isso que estou me culpando, Lanny, por minha reação insensível. Você disse — Jonathan ergueu a cabeça, de repente, olhando em minha direção — que pensaria numa maneira de dissuadi-la a não ficar com o bebê. Lanny, rezo para que você não tenha se aproximado de Sophia com esse tipo de plano...

Surpresa, dei um passo para trás. Nos últimos dias, enquanto lutava com a culpa, pensei em contar tudo para ele. Tinha que falar para alguém, não era o tipo de segredo que o corpo podia manter sem causar nenhum tipo de dano à alma, e, se alguém poderia entender isso, seria Jonathan. Afinal, tinha feito isso por ele. Ele veio me pedir ajuda e eu fiz o que era necessário fazer. Agora precisava ser absolvida pelo que tinha feito; ele me devia essa absolvição, não devia? Mas, enquanto me observava com aqueles olhos negros e determinados, percebi que não podia contar a ele. Não agora, não enquanto ainda estivesse com a tristeza à flor da pele e capaz de ser levado pelas emoções. Ele não entenderia.

— O quê? Não, não tinha plano nenhum. Além disso, por que abordaria Sophia sozinha? — menti. Não tinha intenção de mentir para Jonathan, mas ele me surpreendeu, sua dúvida me atingiu como uma flecha atirada com estranha precisão. Decidi que contaria a ele um dia, mas não naquele momento. Jonathan virou seu chapéu de três pontas nas mãos.

— Acha que devo contar a verdade a Jeremias?

Corri para perto de Jonathan e o chacoalhei pelos ombros.

— Isso seria uma coisa terrível a se fazer, tanto para você quanto para a pobre Sophia. Que bem faria contar a Jeremias agora, exceto apaziguar sua consciência? Tudo que conseguiria seria destruir a imagem que Jeremias tem dela. Deixe-o enterrar Sophia como uma boa esposa, que o honrou.

Ele olhou para minhas mãos pequenas apertando seus ombros, era incomum nos tocarmos agora que já não éramos mais crianças, e então olhou em meus olhos com tanta tristeza que não consegui me controlar. Joguei-me em seu peito e o puxei para mim, pensando somente que ele precisava do conforto de uma mulher naquele momento, mesmo que não fosse Sophia. Não vou mentir e dizer que não encontrei conforto no toque de seu corpo forte e quente contra o meu, apesar de não ter direito a me confortar. Quase chorei de felicidade ao tocá-lo. Segurando seu corpo contra o meu, podia fingir que ele havia me perdoado pelo terrível pecado que tinha cometido contra Sophia, ainda que, obviamente, ele não soubesse de nada.

Mantive minha face em seu peito, ouvindo o bater de seu coração embaixo das camadas de lã e linho e inalando seu cheiro. Não queria soltá-lo, mas o percebi olhando para baixo, para mim, e então também olhei para ele, pronta para ouvi-lo falar novamente de seu amor por Sophia. E, se ele fizesse isso, se dissesse o nome dela, decidi, contaria a ele o que tinha feito. Mas ele não disse; em vez disso, sua boca pousou sobre a minha por um instante antes de me beijar.

O momento pelo qual sempre esperei passou rapidamente. Nós nos enfiamos na proteção da floresta, a alguns passos de distância. Lembro-me do calor maravilhoso de sua boca na minha, de seu desejo e sua força. Lembro-me de suas mãos puxando a fita que fechava minha blusa sobre meus seios. Ele pressionou minhas costas contra uma árvore e mordeu meu pescoço enquanto se debatia com as calças caídas. Ergui minhas saias para que pudesse me possuir, suas mãos em meus quadris. Arrependo-me por não ter dado uma olhada em seu membro por causa de todas as roupas entre nós, casacos e capas, saias e roupas de baixo. Mas eu o senti dentro de mim, de repente, um calor firme e grande enfiado dentro de mim, e ele me possuindo com força, esfregando minha pele no tronco da árvore. E, no final, seu gemido em meu ouvido me fez tremer toda, pois isso queria dizer que ele havia encontrado prazer em mim; eu nunca tinha sido tão feliz e temia que nunca fosse tão feliz novamente.

Cavalgamos juntos em seu cavalo pela floresta, eu segurava firme em volta de sua cintura, como fazíamos quando éramos crianças. Fomos pelas estradas menos percorridas, com medo de sermos vistos juntos sem um acompanhante. Não trocamos nenhuma palavra e mantive meu rosto quente enfiado em seu casaco, ainda tentando entender o que tínhamos feito. Sabia que muitas outras jovens da cidade já tinham se entregado a homens antes do casamento (Jonathan era frequentemente o recebedor) e eu as tinha desprezado. Agora era uma delas. Parte de mim sentia que havia me desgraçado, mas outra parte acreditava que eu não teria outra chance: aquela poderia ter sido minha única oportunidade de capturar o coração de Jonathan e provar que estávamos destinados a ficar juntos. Não poderia deixar passar.

Escorreguei do lombo do cavalo e, depois que ele apertou minha mão, caminhei rapidamente até a cabana de minha família. Todavia, enquanto caminhava, surgiram dúvidas com relação ao que nosso encontro clandestino tinha significado para ele. Ele copulava com as garotas sem pensar nas consequências: por que imaginava que dessa vez ele as mediria? E os sentimentos dele por Sophia, ou minha culpa de tê-la levado a tirar a própria vida? Eu também a havia matado e estava fornicando com seu amante. Com certeza não existia uma alma mais perversa.

Levei alguns minutos antes de continuar meu caminho para casa, para me recompor. Não podia chegar aos pedaços em frente de minha família. Não tinha ninguém com quem conversar sobre isso; teria de manter esse segredo até me acalmar o bastante para poder pensar racionalmente. Escondi tudo: a culpa, a vergonha, o ódio. Mas, mesmo assim, estava repleta de uma trêmula euforia, pois, apesar de não merecer, tinha conseguido o que sempre quis. Expirei, tirei a neve fresca da frente de minha capa, ergui os ombros e caminhei com firmeza o restante do caminho até a casa de meus pais.

10

HOSPITAL DO CONDADO DE ARROSTOK, HOJE



Ouvem-se sons no corredor.

Luke olha para o relógio de pulso: 4 horas da manhã. Logo o hospital acordaria. As manhãs são tomadas por ferimentos comuns à vida na fazenda: uma costela esmagada por um coice de uma vaca leiteira, um escorregão num pedaço de gelo durante o carregamento de um fardo de feno, seguidos por uma mudança de turno às 6 horas.

A jovem olha para ele do jeito que um cachorro olha para um dono em quem não confia.

— Vai me ajudar? Ou vai deixar aquele xerife me levar para a delegacia?

— O que mais posso fazer?

O rosto dela se ilumina.

— Você pode me deixar ir embora. Feche os olhos enquanto eu fujo. Ninguém vai colocar a culpa em você. Pode dizer a eles que desceu até o laboratório, me deixou sozinha por um segundo e que eu tinha ido embora quando voltou.

— Joe diz que ela é uma assassina — Luke pensa. — Posso deixar uma assassina fugir?

Lanny pega as mãos dele.

— Já esteve tão apaixonado por alguém a ponto de fazer qualquer coisa por essa pessoa? Que, não interessa o que você queira, o que mais quer nesse mundo é a felicidade dela?

Luke está feliz por ela não poder ver dentro de seu coração, pois nunca fora tão altruísta. Ele era cumpridor de seus deveres, mas nunca fora capaz de se doar sem uma pontada de ressentimento e não gosta de como isso o faz se sentir.

— Não sou uma ameaça a ninguém. Eu disse a você porque eu... fiz o que fiz com Jonathan.

Luke olha dentro daqueles límpidos olhos azuis enchendo-se de lágrimas e sente um arrepio da cabeça aos pés. A dor da perda toma conta dele rapidamente, já que está lá desde a morte de seus pais. Ele sabe que ela está sentindo a mesma tristeza que ele e, por um momento, estão juntos nesse sofrimento. E ele está tão cansado de estar aprisionado ao sofrimento (a perda de seus pais, seu casamento, sua vida inteira) que sabe que deve fazer alguma coisa para se libertar disso, agora ou nunca mais. Não tem certeza por que fará o que está prestes a fazer, mas sabe que não pode pensar senão acabará não o fazendo.

— Espere aqui. Volto logo.

Luke caminha sorrateiramente pelo estreito corredor até a sala de armários dos médicos. Dentro de seu armário cinza amassado, há um par de jalecos, surrados e esquecidos. Ele dá uma busca em outros dois armários e encontra um casaco branco de laboratório, um quepe cirúrgico e, no armário de um pediatra, um par de tênis de corrida tão velhos que chegam a virar para cima nas pontas. Luke leva tudo para a sala de exames.

— Aqui! Vista isso.

Eles fazem o caminho mais curto até o fundo do hospital, enfiando-se pelas passagens dos lixeiros até as docas de embarque na área de serviço. Um enfermeiro, que acaba de chegar para trabalhar, acena para eles quando atravessam o estacionamento, mas, quando Luke acena de volta, sente seus braços duros de ansiedade. Só quando chegam ao estacionamento e param ao lado de sua caminhonete é que Luke se lembra de que deixou as chaves dentro de sua parca na sala dos médicos.

— Droga, tenho que voltar! Não tenho as chaves. Esconda-se no bosque. Já volto.

Lanny balança a cabeça sem dizer nada, arqueada contra o frio que atravessa seu avental de algodão.

A caminhada do estacionamento até a entrada de emergência é a mais longa da vida dele. Luke se apressa por causa do frio e do nervosismo. Judy e Clay já devem ter notado sua ausência. E, se Clay ainda estiver dormindo no sofá, Luke poderá acordá-lo quando entrar na sala para pegar as chaves e, então, será pego. Cada passo fica mais difícil, até que se sente como um esquiador aquático que foi puxado para baixo da superfície após algo terrível ter acontecido com o cabo de reboque.

Ele empurra a pesada porta de vidro, tão nervoso que seus ombros estão quase na altura de seus ouvidos. Judy, no balcão das enfermeiras, franze as sobrancelhas para o computador e nem olha para cima quando Luke passa por perto.

— Onde esteve?

— Fumando.

Agora Judy está prestando atenção, olhando fixamente para Luke com seus olhos de corvo.

— Desde quando voltou a fumar?

Luke sente-se como se tivesse fumado dois pacotes a noite anterior, então o que responde a Judy não lhe parece mentira. Ele decide ignorá-la.

— Clay já acordou?

— Não o vi. A porta da sala continua fechada. Talvez deva acordá-lo; não pode dormir aqui o dia todo. A esposa vai ficar imaginando o que pode ter acontecido com ele.

Luke congela; quer contar uma piada para Judy, para agir como se tudo estivesse normal. No entanto, obviamente Luke nunca contou uma piada para Judy e isso, por si só, seria anormal. Sua incapacidade de mentir e cobrir seus rastros só o deixa ainda mais constrangido. Sente-se como se tivesse caído num lago congelado e Judy o olhasse sem ter nenhuma reação.

— Preciso de café — Luke resmunga, enquanto sai.

A porta da sala está a dois passos de distância. Ele imediatamente vê que ela está entreaberta e a sala está escura. Dá um empurrãozinho e vê claramente o espaço vazio no sofá onde o policial deveria estar.

O sangue sobe até os ouvidos, as glândulas da garganta expandem quatro vezes seu tamanho normal. Não consegue respirar. É pior do que afogamento: ele sente que está sendo estrangulado.

A parca está pendurada à direita, no gancho da parede, esperando para que ele enfie a mão no bolso. O tilintar indica que as chaves estão exatamente onde deveriam estar.

No caminho de volta, sua jornada é direta e objetiva. Com a cabeça para baixo, as mãos enfiadas bem fundo no bolso de seu jaleco, ele decide não seguir pelo corredor de serviço: é muito indireto. Então marcha em direção à entrada de emergência. A cabeça de Judy se levanta quando Luke passa pela estação.

— Pensei que fosse buscar café.

— Esqueci minha carteira no carro — fala sobre o ombro. Está quase na porta.

— Acordou Clay?

— Ele já estava acordado — Luke responde, virando as costas para abrir a porta. E, no final do corredor, lá está o delegado, parecendo ter se materializado com a menção de seu nome. Ele vê Luke de volta e levanta o braço como se tivesse fazendo sinal para o ônibus parar. Clay quer falar com ele e começa a correr pelo corredor em sua direção, acenando com a mão...

— Pare, Luke!

Mas Luke não para. Jogando todo seu peso num golpe dos quadris, Luke fecha a porta de volta. O frio bate em seu rosto quando ele sai do outro lado da porta, voltando à superfície da vida real: “O que estou fazendo? Este é: o hospital onde eu trabalho. Conheço cada tijolo, cadeira de plástico, e cada maca, tanto quanto conheço minha própria casa. O que estou fazendo, jogando minha vida fora para ajudar uma suspeita de assassinato a fugir?”. Mas ele continua, tomado por um estranho borbulhar no sangue, que ricocheteia em suas veias como bolinhas de fliperama, fazendo-o seguir em frente. Ele caminha rápido pelo estacionamento, frenético e desajeitado, como uma pessoa tentando manter-se ereta enquanto desce uma montanha íngreme, sabendo que parece um doido.

Luke dá uma olhada para sua caminhonete, ansioso, mas a garota sumiu, nem um único vestígio do intrigante avental verde-água do hospital. A princípio, ele fica em pânico; como podia ter sido tão estúpido, deixando-a do lado de fora sem ninguém para vigiá-la? Mas uma chama de esperança enche seu peito quando percebe que, se a prisioneira se foi, também se foram suas preocupações.

No minuto seguinte, lá está ela, esguia, etérea, um anjo vestido em roupas de hospital... e seu coração se sobressalta ao vê-la.




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