No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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Enrolei o linho do final do verão, refletindo sobre esse estranho relacionamento, amaldiçoando-o por ser inconstante. Afinal, aquele dia, no campo dos McDougal, ele tinha dito que ficaria com ciúme se eu me afeiçoasse por outro menino no vilarejo; e agora aqui estava ele, cortejando Sophia Jacobs. Uma jovem de coração mais fraco poderia ter tirado conclusões sobre seu comportamento, mas eu não faria isso, preferia acreditar que Jonathan me escolheria se soubesse de meus sentimentos. Eu caminhava de um lado para o outro após os cultos da igreja aos domingos, jogando olhares não correspondidos na direção de Jonathan, querendo dizer o quanto o queria. Percorri os trilhos que levavam até a casa dos St. Andrew e fiquei imaginando o que Jonathan estaria fazendo naquele momento; sonhando acordada, tentei imaginar como seria sentir as mãos de Jonathan em meu corpo, como seria ser pressionada embaixo dele, tomada por seus beijos. Fico vermelha ao pensar no quanto minha visão do amor era inocente naquela época! Tinha uma concepção de amor de uma virgem, tão casto quanto nobre.

Sem Jonathan, eu estava sozinha. Essa era uma prévia do que seria minha vida quando Jonathan estivesse casado e assumisse os negócios da família, e eu estivesse casada com outro. Seríamos cada vez mais levados às nossas próprias órbitas, caminhos destinados a nunca se cruzarem. Mas esse dia ainda não havia chegado e Sophia Jacobs não era a legítima esposa de Jonathan. Ela era uma intrusa que queria roubar seu coração.

Um dia, logo após a primeira geada, Jonathan veio me ver. Ele estava tão diferente, parecia que havia envelhecido anos. Ou talvez fosse só aquela alegria em seu rosto que tivesse ido embora; ele parecia sério e bem adulto. Ele me encontrou no campo de feno, com minhas irmãs, colhendo o que ainda restava do feno para secar ao sol de verão e colocando no celeiro, onde guardávamos a alfafa que alimentaria o gado durante o longo inverno.

— Deixe-me ajudar você — ele disse, apeando do cavalo. Minhas irmãs, vestidas como eu, com roupas velhas e lenços amarrados na cabeça para manter o cabelo afastado, olharam desconfiadas para ele e deram gargalhadas.

— Não seja ridículo! — exclamei, olhando para seu elegante casaco de lã e calças de pele de corça. Recolher o feno era uma tarefa horrível e cansativa. De qualquer forma, eu ainda estava ressentida por seu abandono e disse a mim mesma que não queria nada dele. — Só me diga o que o traz aqui — falei.

— Creio que minhas palavras sejam só para seus ouvidos. Podemos pelo menos caminhar um pouco sozinhos? — perguntou, cumprimentando minhas irmãs com a cabeça para mostrar que não queria ser desrespeitoso. Joguei meu forcado no chão, tirei as luvas e comecei a caminhar em direção à floresta.

Ele seguiu a pé a meu lado, trazendo seu cavalo com a rédea frouxa.

— Bem, não nos vemos faz tempo, não é? — ele começou a falar de um modo não muito convincente.

— Não tenho tempo para delicadezas — respondi a ele. — Tenho trabalho a fazer.

Ele desistiu das desculpas de uma vez por todas.

— Ah, Lanny! Nunca consegui enganar você. Senti sua falta, mas não é por isso que vim até aqui hoje. Preciso de seu conselho. Não sou muito bom em julgar meus próprios problemas e você sempre vê as coisas com clareza, independentemente de qual seja o problema.

— Pode parar de me lisonjear — eu disse, passando a testa na manga suja da camisa. — Não sou o rei Salomão. Há muitas outras pessoas mais inteligentes nesta cidade a quem você pode recorrer, então, o fato de ter vindo até mim significa que está metido em algum tipo de problema que não ousa dividir com mais ninguém. Vamos lá, desembucha: o que você fez?

— Tem razão. Não há ninguém em quem eu possa confiar, exceto em você. — Jonathan virou seu rosto lindo, constrangido. — É Sophia, acho que você já adivinhou essa parte, tenho certeza, e acho que o nome dela é o último que queria ouvir...

— Você não faz ideia — sussurrei, enfiando uma dobra da saia na cintura para levantar a barra do chão.

— Tem sido uma união suficientemente feliz entre nós, Lanny. Nunca imaginaria. Somos tão diferentes, mas, ainda assim, gostava muito da companhia dela. Ela tem uma mente independente e não tem medo de dizer o que pensa — ele falava sem perceber que eu estava petrificada, parada no meio do caminho, boquiaberta. Eu já não tinha falado a ele o que penso? Bem, talvez não tivesse dito claramente, mas não tínhamos conversado como iguais, amigos? Era enlouquecedor que ele achasse o humor de Sophia tão singular e admirável! — É ainda mais extraordinário, considerando sua família. Ela conta histórias sobre o pai, que ele é um bêbado e um jogador, e que bate na esposa e nas filhas.

— Tobey Ostergaard — eu disse. Surpreendia-me que Jonathan não conhecesse a má reputação de Tobey, mas isso só servia para demonstrar o quanto era isolado do restante do vilarejo. Os problemas de Ostergaard eram bem conhecidos; ninguém o tinha em alta estima como pai ou provedor. Fazendeiro pobre, Tobey cavava covas nos fins de semana para ganhar dinheiro extra, que quase sempre era desperdiçado em bebida. — O irmão dela fugiu no ano passado — contei a Jonathan. — Ele brigou com o pai e Tobey o acertou no rosto com a pá de coveiro.

Jonathan parecia realmente aterrorizado.

— Esta criação difícil endureceu Sophia, mas, mesmo assim, ela não ficou insensível ou amarga, nem mesmo depois de seu casamento doloroso. Ela se arrepende muito de ter concordado com a proposta, especialmente agora que... — Ele foi saindo de mansinho.

— Agora que o quê? — incitei, o medo subindo por minha garganta.

— Ela diz que está grávida — Jonathan desabafou, virando as costas para mim. — Ela jura que o bebê é meu. Não sei o que fazer.

A expressão dele era uma máscara de terror e, claro, de medo de precisar contar isso para mim. Teria lhe dado um tapa se não fosse tão óbvio que ele realmente não queria me magoar. Ainda assim, queria jogar de volta na cara dele: deixou-se levar por essa mulher durante semanas e o que esperava? Tivera sorte por não ter acontecido antes.

— O que você vai fazer? — perguntei.

— O desejo de Sophia é simples: ela quer que nos casemos e criemos o bebê, juntos.

Uma risada amarga saiu de meus lábios.

— Ela deve estar louca. Sua família nunca permitiria isso. — Ele me deu uma olhada rápida e zangada, que me fez me arrepender de minha reação. — O que — continuei em um tom mais conciliatório — você gostaria de fazer?

Jonathan balançou a cabeça.

— Vou dizer, Lanny, não sei o que pensar sobre esse assunto.

Não sabia se acreditava nele. Havia uma hesitação em sua voz, como se tivesse pensamentos que não ousasse dizer. Havia pouco do Jonathan que eu conhecera, o patife que planejava permanecer sem algemas o máximo possível. Se ele soubesse o quanto seu dilema me preocupava! Por um lado, ele parecia tão miserável e perdido com relação a que caminho seguir, que fiquei com pena. Por outro, meu orgulho doía feito pele recém-esfolada. Andei ao redor dele, com o indicador pressionando meus lábios.

— Bem, vamos analisar a situação. Você sabe tão bem quanto eu que há remédios para esse tipo de ocorrência. Ela precisa fazer uma visita à parteira... — Pensei em Magda: com certeza ela saberia como lidar com aquela calamidade, uma eventualidade em seu tipo de trabalho. — Uma mistura de ervas ou algum procedimento, me disseram, pode resolver o problema.

Com o rosto enrubescido, Jonathan balançou a cabeça.

— Ela não irá; quer, realmente, ter o bebê.

— Mas ela não pode! Seria loucura exibir seu mau comportamento dessa maneira.

— Se esse tipo de comportamento for loucura, então acho que ela não está em seu melhor estado mental.

— E... seu pai? Já pensou em ir até ele para pedir um conselho? — A sugestão não era completamente ridícula: Charles St. Andrew era conhecido por perseguir suas empregadas e provavelmente já estivera na posição de Jonathan uma ou duas vezes na vida. Jonathan resfolegou feito um cavalo assustado.

— Acho que terei que contar para o velho Charles, apesar de não ter grandes expectativas. Ele saberá como lidar com Sophia, mas temo como isso tudo terminará.

Isso queria dizer, achei, que Charles St. Andrew faria seu filho cortar quaisquer laços com Sophia e, com ou sem bebê, eles nunca mais se veriam novamente. Ou, pior, ele poderia insistir que Jeremias soubesse, e Jeremias poderia exigir o divórcio de sua esposa adúltera e processar Jonathan. Ou poderia extorquir dinheiro dos St. Andrew, concordando em criar a criança como seu filho se pagassem por seu silêncio. O que poderia acontecer quando St. Andrew tomasse parte disso era pura especulação.

— Meu querido Jonathan — murmurei, minha mente em busca de um conselho que pudesse lhe dar —, sinto muito por seu infortúnio. Mas, antes de falar com seu pai, me dê um dia para pensar sobre isso. Talvez apareça uma solução.

Olhou por cima do ombro para minhas irmãs, que estavam escondidas de nós atrás de uma pilha de fenos.

— Como sempre, você é minha salvação.

Antes que eu pudesse saber o que estava acontecendo, ele me pegou pelos ombros e me puxou para junto dele; a força de seu beijo foi um alerta de que ele poderia invocar meu desejo quando bem quisesse, que eu era dele. Segurou-me com força, mas ele também tremeu; estávamos os dois ofegantes quando me soltou.

— Você é um anjo — ele suspirou roucamente em meu ouvido. — Sem você, estaria perdido.

Ele sabia o que estava fazendo, dizendo essas coisas para alguém que estava desesperadamente apaixonada por ele? Fiquei pensando se ele tinha vindo para que eu o ajudasse a sair daquela situação imoral ou se tinha vindo meramente para se assegurar dos votos de confiança da garota que o amava independentemente do que fizesse. Gostava de pensar que parte dele me amava de verdade e que sentia muito por me decepcionar. Não consigo dizer honestamente que sabia das verdadeiras intenções de Jonathan naquela época; duvido que ele mesmo soubesse, afinal, era um jovem envolvido num problema muito sério pela primeira vez na vida. Talvez Jonathan quisesse acreditar que, se Deus perdoasse seu erro, ele mudaria e se satisfaria com uma única garota que o amasse completamente.

Ele montou de novo na sela, cumprimentou minhas irmãs com educação e virou seu cavalo na direção de sua casa. E, antes que tivesse cavalgado até a ponta do campo e desaparecido de vista, um pensamento me veio à cabeça, pois eu era uma garota inteligente e mais concentrada do que nunca quando a situação envolvia Jonathan.

Resolvi visitar Sophia no dia seguinte e falar com ela em particular. Esperei até ter recolhido as galinhas ao galinheiro, para minha ausência não ser notada, antes de partir em direção à fazenda dos Jacobs. A propriedade deles era bem mais silenciosa do que a nossa, principalmente porque eles tinham menos gado e não havia crianças para ajudar com todas as tarefas. Entrei sorrateiramente no estábulo, esperando não dar de cara com Jeremias, e encontrei Sophia fechando as três velhas vacas maltratadas em uma baia.

— Lanore! — Ela pulou de surpresa, as mãos subindo para cobrir o coração. Vestia roupas leves demais para quem estava do lado de fora, somente um xale de lã fina sobre os ombros, em vez de uma capa para espantar o frio. Sophia, com certeza, sabia de minha amizade com Jonathan e Deus sabe o que mais ele teria dito a ela sobre mim (ou talvez eu fosse tola demais para acreditar que ele pensasse em mim quando eu não estivesse por perto). Ela me olhou friamente, sem dúvida preocupada com o motivo da visita. Para ela, eu deveria ser uma criança, por ainda não estar casada e viver sob o teto de meus pais, apesar de eu ser poucos anos mais nova do que ela.

— Me perdoe por vir sem avisar, mas tinha que falar com você sozinha — eu disse, olhando sobre meu ombro para ter certeza de que o marido dela não estava por perto. — Vou direto ao assunto, já que não temos tempo para animosidades. Acho que você sabe por que vim falar com você. Jonathan me contou...

Ela cruzou os braços e me olhou furiosamente.

— Ele contou a você, não é mesmo? Ele tinha que dar a boa notícia de que me deixou de barriga?

— Nada disso! Se acha que ele está feliz porque você vai ter um bebê...

— O bebê dele — ela insistiu. — E sei que ele não está feliz.

Era disso que eu precisava. Fiquei pensando no que diria a Sophia desde o momento em que Jonathan partira no dia anterior. Ele tinha vindo até mim porque precisava de alguém que pudesse ser duro com Sophia no lugar dele. Alguém que pudesse deixar bem claro para ela a fragilidade da posição em que se encontrava. Sophia saberia que eu entendia o que enfrentava; haveria menos espaço para conversa e menos apelo à emoção. Não estava fazendo isso porque odiava Sophia, assegurei a mim mesma, nem porque me ressentia por ela ter roubado meu lugar na vida de Jonathan. Não, eu sabia como Sophia era e estava evitando que Jonathan caísse numa armadilha.

— Com todo respeito, tenho que perguntar: qual é a prova que você tem para dizer que o bebê é de Jonathan? Temos só sua palavra e... — Caminhei um pouco, deixando minha afirmação pairar no ar.

— Você é o quê? A advogada de Jonathan? — O rosto dela enrubesceu quando eu não fisguei a isca. — Sim, tem razão, poderia ser tanto de Jeremias quanto de Jonathan, mas eu sei que é de Jonathan. Eu sei. — As mãos delas se entrelaçaram sobre a barriga, apesar de ela ainda não mostrar sinais de gravidez.

— Espera que Jonathan arruíne a vida dele baseado em suas afirmações?

— Arruinar a vida dele? — ela gritou num som agudo. — E a minha vida?

— Sim, e a sua vida? — eu disse, falando o mais alto que conseguia. — Já pensou no que acontecerá se você acusar Jonathan publicamente de ser o pai de seu bebê? Tudo o que vai conseguir é fazer com que toda a cidade pense que você é uma mulher perdida... — Sophia bufou, girando nos saltos para longe de mim, como se não suportasse ouvir mais nenhuma palavra. — ... e ele negará o caso. E quem acreditará em você, Sophia? Quem acreditaria que Jonathan St. Andrew escolheria vadiar com você quando pode escolher qualquer outra mulher no vilarejo?

— Jonathan vai me renegar? — ela perguntou, incrédula. — Não desperdice seu fôlego, Lanore. Não me convencerá de que meu Jonathan me renegaria.

Meu Jonathan, ela tinha dito. Minhas bochechas enrubesceram, meu coração disparou. Não sei onde encontrei coragem para dizer as coisas horríveis que disse para Sophia. Foi como se outra pessoa se escondesse dentro de mim, alguém com qualidades que nunca imaginei ter, e essa pessoa secreta tinha saído de dentro de mim tão facilmente quanto um gênio é invocado para fora de uma lâmpada. Estava cega de ódio; tudo o que sabia era que Sophia estava ameaçando Jonathan, ameaçando arruinar seu futuro e eu nunca deixaria que ninguém o machucasse. Ele não era o Jonathan dela, ele era meu. Já tinha tomado posse dele havia anos, no vestíbulo da igreja, e, tão tolo quanto possa parecer, senti essa possessão tomar conta de mim, feroz e primitiva.

— Vai ser motivo de riso, a mulher mais feia de St. Andrew dizendo que o homem mais requisitado da cidade é o pai de seu filho, não o palerma do marido. O palerma a quem ela despreza.

— Mas é mesmo filho dele — ela disse, desafiadora. — Jonathan sabe disso. Ele não se importa com o que aconteceria com a carne de sua carne e o sangue de seu sangue?

Isso me fez parar; senti uma ponta de culpa.

— Faça um favor a você mesma, Sophia, e esqueça seu plano mirabolante. Você tem um marido, diga que o filho é dele. Ele ficará feliz com a notícia; tenho certeza de que Jeremias gostaria de ter filhos.

— Sim, gostaria, de filhos dele — ela sibilou. — Não posso mentir a Jeremias sobre a linhagem da criança.

— Por que não? Você, sem dúvida nenhuma, mentiu a ele sobre sua fidelidade — eu disse, sem piedade. Naquele momento, o ódio dela era tão palpável que pensei que fosse me dar um bote, como uma cobra. Chegara a hora de enfiar a adaga em seu coração. Olhei para ela de cima a baixo, com os olhos contraídos.

— Sabe, a punição para adultério de uma mulher, se ela for casada, é a morte. Essa ainda é a posição da igreja. Leve isso em consideração, se insiste em manter seu plano. Selará sua própria sorte.

Era uma ameaça sem fundamento: nenhuma mulher seria condenada à morte por ser adúltera, nem em St. Andrew nem em nenhuma outra cidade vizinha, onde as mulheres com idade para ter filhos eram escassas. A punição de Jonathan, se a população da cidade resolvesse, por um motivo impensável, que ele era culpado, seria pagar o imposto de bastardia e, talvez, ser banido por alguns membros mais devotos durante um tempo. Sem dúvida, Sophia levaria a maior parte da culpa. Ela andava em círculos, como se procurasse torturadores escondidos.

— Jonathan! — ela gritou, mas não alto o suficiente para que seu marido conseguisse ouvi-la. — Como pode me tratar assim? Esperei que fosse se comportar honradamente... Em vez disso, manda essa víbora — ela me lançou um olhar venenoso, com os olhos cheios e lacrimejantes — para fazer o trabalho sujo em seu lugar. Não pense que não sei por que está fazendo isso — ela sibilou, apontando o indicador para mim. — Todo mundo na cidade sabe que é apaixonada por ele, mas ele não a quer. É ciúme, eu sei. Jonathan nunca teria mandado você para tratar comigo dessa maneira.

Havia me preparado para permanecer calma. Dei alguns passos para trás, como se ela estivesse louca ou fosse perigosa.

— Claro que ele me pediu para ver você, caso contrário, como eu saberia que você está de barriga? Ele desistiu de tentar colocar alguma razão nessa sua cabeça e me pediu para conversar com você, como mulher. E, como mulher, eu digo: sei o que está aprontando. Está usando esse infortúnio para melhorar sua vida, para trocar seu marido por alguém com mais condições. Talvez nem haja um bebê; você me parece a mesma de sempre. No que se refere a meu relacionamento com Jonathan, nós temos uma amizade especial, pura e casta, e mais forte do que a de um irmão e irmã, mas não espero que você entenda isso — disse, com desdém. — Você não compreenderia o relacionamento com um homem que não envolvesse levantar suas saias. Pense muito nisso, Sophia Jacobs. É um problema seu e a solução está em suas mãos. Escolha o caminho mais fácil, dê um filho a Jeremias. E não se aproxime de Jonathan de novo: ele não quer ver você — eu disse com firmeza e, então, saí do estábulo. No caminho para casa, tremia de medo e triunfo, os nervos à flor da pele, apesar do ar gelado. Tinha invocado toda a minha coragem para defender Jonathan e tinha feito isso com uma determinação que desconhecia possuir. Poucas vezes erguera a voz e nunca impusera minha opinião de forma tão veemente a alguém. Descobrir que tinha essa força interior era assustador e, ao mesmo tempo, fantástico. Caminhei de volta para casa pela floresta, despreocupada e enrubescida, confiante de que podia fazer qualquer coisa.

9

Foi o barulho que me acordou na manhã seguinte, o disparo de um mosquete, bala e pólvora. Um mosquete disparado àquela hora significava problema: um incêndio na casa de um vizinho, uma invasão, um acidente terrível. O tiro veio da direção da fazenda dos Jacobs; eu sabia assim que ouvi o disparo.



Puxei o cobertor sobre a cabeça, fingindo dormir, ouvindo os sussurros vindos da cama de meus pais. Ouvi meu pai se levantar, vestir-se e sair pela porta. Minha mãe também se levantou, provavelmente enrolando uma colcha de retalhos em volta dos ombros, enquanto fazia as tarefas domésticas que costumava fazer todas as manhãs, acendendo o fogo e colocando um caldeirão de água para ferver. Virei-me de um lado para o outro antes de me sentar, relutante em colocar as solas dos pés no assoalho frio e começar um dia que se anunciava estranho e de má sorte.

Meu pai entrou de volta com uma expressão sombria.

— Vista-se, Nevin. Precisa vir comigo — ele disse à massa resmunguenta na cama do andar de baixo.

— Preciso? — Ouvi meu irmão perguntar com a voz pesada de sono. — Não precisamos alimentar o gado...

— Eu irei com você, pai — chamei do andar de cima, vestindo-me apressadamente. Meu coração já estava batendo tão rápido que seria impossível ficar em casa e esperar notícias do que acontecera. Tinha que ir com meu pai.

Havia nevado durante a noite, a primeira neve da estação, e tentei clarear minha mente enquanto caminhava atrás de meu pai, concentrando-me somente em pisar nas pegadas que ele fazia na neve recém-caída. Minha respiração pairava no ar seco e uma gota escorria da ponta de meu nariz.

Bem no meio do nada, diante de nós, estava a fazenda dos Jacobs, um sobradinho marrom sobre a vastidão de neve. As pessoas começavam a chegar, pequenas formas negras e distantes contrastando com a neve, e outras mais vinham até a fazenda de todas as direções, a pé ou a cavalo. A visão fez meu coração disparar mais uma vez.

— Nós vamos até os Jacobs? — perguntei atrás de meu pai.

— Sim, Lanore. — Uma resposta taciturna, com sua habitual economia de palavras. Eu mal conseguia conter minha ansiedade. — O que acha que aconteceu?

— Espero descobrir — ele disse pacientemente.

Havia um representante de cada família, exceto dos St. Andrew, mas eles moravam na ponta mais longínqua da cidade e não conseguiriam ouvir o tiro, todos vestidos com partes de roupas que não combinavam: roupões, barras de camisolas malfeitas aparecendo debaixo do casaco, cabelos despenteados. Segui meu pai através da pequena multidão, abrindo caminho a cotoveladas até chegarmos à porta, onde Jeremias estava ajoelhado na neve enlameada e despedaçada. Era óbvio que havia se enfiado nas calças apressadamente, botas sem amarrar nos pés e um cobertor enrolado sobre os ombros. Seu velho bacamarte, a arma que usara para dar o alarme, estava encostado ao lado, na parede de tábua. Seu rosto grande contorcia-se em agonia, olhos vermelhos, lábios rachados e sangrando. Por ele ser um homem desprovido de emoções, a visão era enervante. O pastor Gilbert abriu caminho até ele, então ficou de cócoras para conseguir falar suavemente ao ouvido de Jeremias.

— O que foi, Jeremias? Por que disparou o alarme?

— Ela partiu, pastor...

— Partiu?

— Sophia, pastor. Ela se foi.

A quietude em sua voz criou uma onda de murmúrios pela multidão, todos cochichando uns com os outros, exceto eu e meu pai.

— Se foi? — Gilbert colocou as mãos nas faces de Jeremias, segurando o rosto dele. — Como assim, ela se foi?

— Ela foi embora ou alguém a levou. Quando acordei, ela não estava em casa. Nem no curral nem no estábulo. Sua capa sumiu, mas as outras coisas ainda estão aqui.

Ouvir que Sophia (zangada, talvez se sentindo destruída) não revelara minha visita a Jeremias aliviou o aperto em meu peito, de que até então não me apercebera. Naquele momento, que Deus meu perdoe, não estava tão preocupada com uma mulher perambulando sem nada pela floresta, mas sim com minha própria ruína. Gilbert balançou a cabeça branca.

— Jeremias, com certeza ela só saiu um pouco, talvez para uma caminhada. Voltará logo para casa e se desculpará por ter deixado o marido tão preocupado. — Mas, apesar das palavras dele, todos sabíamos que estava enganado. Ninguém saía para passear em um tempo tão frio, muito menos nas primeiras horas da manhã. — Acalme-se, Jeremias! Vamos para dentro e aqueça-se um pouco antes que congele os ossos... Fique aqui com a sra. Gilbert e a srta. Hibbins; elas cuidarão de você enquanto o resto de nós vai procurar Sophia, não é mesmo, vizinhos? — Gilbert disse com um falso entusiasmo, enquanto ajudava o homenzarrão a se levantar, e virou-se para nós.

A especulação passava nos olhares rápidos dos maridos para as esposas, vizinho para vizinho (a recém-casada havia abandonado o marido?), mas ninguém tinha coragem de fazer nada a não ser seguir a sugestão do pastor. As duas mulheres acompanharam Jeremias, trôpego e confuso, para dentro de casa enquanto o restante de nós se dividia em grupos. Procuramos por um rastro na neve, esperando que o caminho de Sophia não tivesse sido pisoteado por quem havia respondido ao tiro de Jeremias.




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