No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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O pastor ficou em pé, perto do fogo na cozinha, e analisou todos com um riso forçado no rosto. Assim, de tão perto, vi que ele parecia ser menos religioso do que aparentava ao ar livre. Ele preenchia a sala com sua presença, tornava o ar pesado e rarefeito, como no topo de uma montanha. Começou nos agradecendo por permanecermos com ele, pois tinha guardado o maior segredo de todos para dividir conosco naquele momento, para aqueles que demonstraram estar buscando a verdade. E aquela verdade era que a igreja, qualquer que fosse a fé que professasse — que, naquele território, era, na maioria, congregacionalista — era o maior problema de todos, a instituição mais elitista, e só servia para reforçar o statu quo. Sua última fala gerara uma reação de desprezo e concordância em Nevin, que se orgulhava de ir às missas católicas com nossa mãe aos domingos e de não ficar junto com os patriarcas da cidade e famílias mais privilegiadas no salão da igreja.

Disse que o que deveríamos fazer era acabar com os preceitos da igreja, de novo com aquele brilho ardente nos olhos, um brilho que, de perto, parecia menos pacífico, e adotar os novos preceitos que estavam mais de acordo com as necessidades do homem comum. Para ele, em primeiro lugar e a mais importante entre todas essas convenções ultrapassadas, estava a instituição do casamento.

Na sala fechada, com trinta corpos amontoados, bem juntos, podia-se ouvir um alfinete cair. Diante de nós, o pastor circulava de um lado para outro como se fosse um lobo. Não tinha objeção quanto à afeição natural entre homens e mulheres, ele assegurou ao grupo. Não; eram as restrições legais do casamento, as amarras do casamento, era contra isso que ele lutava. Era contra a natureza humana, ele protestou, ganhando confiança, já que ninguém havia tentado interrompê-lo. Fomos feitos para expressar nossos sentimentos àqueles pelos quais sentíamos uma afinidade natural. Como filhos de Deus, deveríamos praticar o “casamento espiritual”, ele insistiu: escolher parceiros com quem temos vínculos espirituais.

— Parceiros? — perguntou uma jovem, erguendo a mão. — Mais de um esposo ou esposa?

Os olhos do pastor dançavam. Sim, tínhamos ouvido corretamente: parceiros; pois um homem deveria ter esposas com as quais tivesse vínculos espirituais, do mesmo modo que deveria ser possível a uma mulher ter mais de um marido. Ele mesmo tinha duas esposas, afirmou, e encontrara esposas espirituais em todas as cidades que havia visitado. Um riso contido tomou conta do grupo e o ambiente tornou-se carregado de desejo reprimido.

Ele colocou seus polegares sob a lapela do casaco; não esperava que os esclarecidos, aqui em St. Andrew, assumissem de pronto o casamento espiritual, somente levando em consideração os seus conselhos. Não, ele esperava que refletíssemos sobre a ideia, pensássemos sobre até que ponto nós deixávamos a lei ditar nossas vidas. Saberíamos, em nosso coração, se ele dizia a verdade.

Então, bateu palmas, tirou a expressão séria do rosto e seu comportamento mudou totalmente quando sorriu: “Mas chega desta conversa!”. Tínhamos passado a tarde toda o escutando e era hora de um pouco de diversão! Cantemos alguns hinos, bem alegres, e vamos nos levantar e dançar! Esta era uma mudança revolucionária em comparação com nossos cultos comuns: cantar em alegria? Dançar? O conceito já era uma heresia. Após um momento de hesitação, várias pessoas se levantaram e começaram a bater palmas, e, em pouco tempo, começaram a cantar uma música que mais parecia um canção de marinheiro do que um hino religioso.

Cutuquei meu irmão.

— Me leve para casa, Nevin.

— Já ouviu o suficiente, não é? — ele disse, batendo os calcanhares. — Eu também. Estou cansado de ficar ouvindo as insanidades desse homem. Espere aqui enquanto vou pedir fogo aos Dale; a estrada com certeza estará escura.

Fiquei parada na porta, desejando que Nevin se apressasse. As palavras do pastor ainda ressoavam dentro de mim. Vi os olhares das mulheres no grupo quando ele colocou seu olhar poderoso sobre elas, o sorriso que iluminou o rosto delas. Elas se imaginavam com ele ou, talvez, com outro homem da cidade com quem sentiam um vínculo espiritual... e só podiam esperar que esse desejo se tornasse realidade. O pastor professara o conceito mais estranho que se podia imaginar: depravação; mas ele era um homem da Bíblia, um pastor. Ele já pregara em algumas das igrejas mais santas da costa, de acordo com a conversa que havia chegado à cidade antes dele. Com certeza, aquilo lhe dava algum tipo de autoridade.

Debaixo de minhas roupas, senti-me incandescente, com fogo e vergonha, pois, honestamente, também gostaria de ter liberdade para compartilhar minha afeição com o homem que desejava. Obviamente, naquele momento, o único homem que eu desejava era Jonathan, mas quem poderia dizer se outro não atravessaria o meu caminho um dia? Talvez alguém tão charmoso e atraente quanto o próprio pastor, por exemplo? Podia ver como uma mulher o achava intrigante; quantas esposas espirituais o pastor já tinha encontrado? Fiquei imaginando.

Enquanto estava perdida em meus pensamentos, encostada na porta, observando os vizinhos dançando uma dança de origem escocesa (era só minha imaginação ou os homens e mulheres trocavam olhares cheios de desejo enquanto rodopiavam no salão?), percebi a presença do pastor bem na minha frente. Com seus olhos penetrantes e feições marcantes, era sedutor e parecia ter consciência dessa vantagem, e sorria forçado para que eu pudesse ver seus dentes incisivos, afiados e brancos.

— Agradeço por se juntar a mim e a seus vizinhos esta noite — ele disse, fazendo uma reverência com a cabeça. — Presumo que esteja em busca espiritual, procurando uma luz maior, senhorita...

— McIlvrae — respondi, dando um passo para trás. — Lanore.

— Reverendo Judah Van der Meer. — Alcançou minha mão e apertou a ponta de meus dedos. — O que achou do meu sermão, senhorita McIlvrae? Espero que não tenha ficado chocada — seus olhos dançaram novamente, como se estivesse zombando de mim — com a franqueza com a qual apresentei minhas opiniões.

— Chocada? — Eu mal conseguia pronunciar uma palavra. — Com o quê, senhor?

— Com a ideia de casamento espiritual. Tenho certeza de que uma jovem como você consegue simpatizar com o princípio que há por trás disso, a ideia de ser fiel às paixões, pois, se não estou enganado, você me parece uma mulher de uma grande e imensa paixão.

Ele falou com mais veemência, seus olhos (e não acredito que tenha imaginado isso) percorrendo meu corpo como se estivesse usando as próprias mãos.

— Me diga, senhorita Lanore, parece que tem idade para se casar. Sua família já a entregou à escravidão do casamento? Seria uma pena, para uma jovem mulher tão bonita quanto você, passar o resto da vida no leito nupcial com um homem por quem não sente a mínima atração. Que desperdício passar a vida toda sem sentir a verdadeira paixão física — seus olhos brilharam de novo, como se estivesse a ponto de avançar —, que é um presente de Deus a seus filhos!

Meu coração estava a ponto de explodir dentro do peito e eu me sentia como um coelho diante dos olhos do lobo. Então, ele riu, colocou a mão no meu braço, mandando um arrepio direto à minha cabeça, e me puxou mais para perto, perto o suficiente para que pudesse sentir seu hálito em meu rosto e para que um cacho de seu cabelo pudesse encostar em minha bochecha.

— Ora, ora, parece que vai desmaiar! Acho que precisa de um pouco de ar fresco. Poderia vir aqui fora comigo? — Ele já estava segurando meu braço e, sem esperar resposta, me fisgou para a varanda. O ar noturno estava muito mais fresco do que o ambiente abafado da casa e eu respirei profundamente, até não poder mais.

— Melhor? — Quando concordei, ele continuou. — Devo dizer, senhorita McIlvrae, fiquei muito feliz por ter se juntado a nós nesse ambiente mais íntimo. Esperava que viesse. Observei-a no pasto esta tarde e sabia, imediatamente, que teria de conhecê-la. Senti uma conexão imediata, você também? — Antes que tivesse a oportunidade de responder, ele pegou minha mão. — Passei a maior parte da minha vida viajando pelo mundo. Tenho sede de conhecer pessoas. De vez em quando, encontro pessoas extraordinárias, alguém cuja singularidade pode ser vista, mesmo em um pasto cheio de gente. Alguém como você.

Ele tinha o olhar brilhante, o olhar selvagem de alguém buscando um pensamento, mas sem conseguir se concentrar. Comecei a ficar com medo. Por que ele havia me escolhido? Ou talvez eu não tenha sido escolhida; talvez isso fosse um jogo de sedução que ele fazia para qualquer garota impressionável a ponto de considerar sua oferta de casamento espiritual. Ele se aproximou de mim de maneira íntima demais para ser educada, parecendo apreciar meu nervosismo.

— Extraordinária? Senhor, o senhor não me conhece. — Tentei empurrá-lo para o lado, mas ele continuou em pé, na minha frente. — Não há nada de extraordinário em mim.

— Ah, mas claro que há; posso sentir. Você deve sentir, também. Você tem uma sensibilidade especial, uma natureza notavelmente primitiva. Consigo ver isso em seu rosto lindo e delicado. — Sua mão subiu até meu pescoço, como se fosse me tocar, e estava prestes a fazer isso. — Você é cheia de querer, Lanore; é uma criatura sensual. Você queima de vontade de conhecer esse vínculo entre homem e mulher... Só pensa nisso. Tem fome disso. Talvez haja algum homem em particular...

Claro que havia — Jonathan —, mas achei que o pastor estivesse me encurralando para ver se me sentia atraída por ele.

— Esta conversa não é apropriada, senhor. — Dei alguns passos para o lado e comecei a me afastar dele. — É melhor eu entrar...

Ele colocou uma mão sobre meu braço novamente.

— Não quis deixá-la constrangida. Peço desculpas. Não falarei mais disso, mas, por favor, me dê o prazer de sua presença por mais um minuto. Tenho uma pergunta que gostaria de lhe fazer, Lanore. Quando cheguei ao campo esta tarde e vi você, notei que estava falando com um jovem a cavalo. Um sujeito excepcionalmente belo.

— Jonathan.

— Sim, me falaram o nome dele. Jonathan. — O pastor lambeu os lábios. — Seus vizinhos me disseram que esse jovem poderia ser a favor de minha filosofia. Acha que conseguiria um encontro meu com ele?

Senti um arrepio atrás do pescoço.

— Por que quer se encontrar com Jonathan?

Ele riu nervosamente.

— Bem, como falei, me disseram que ele parece ser um discípulo natural, o tipo de homem que pode valorizar a verdade que eu prego. Poderia abraçar a causa e, talvez, ser um representante de minha igreja aqui na floresta.

Olhei em seus olhos e, pela primeira vez, vi uma verdadeira perversidade neles, o amor pelo caos e pela desordem. Ele queria plantar essa maldade em Jonathan também, como tentara plantá-la em toda a cidade. Como tentou plantá-la em mim.

— Meus vizinhos estão se divertindo às suas custas, senhor, já que não conhecem Jonathan tão bem quanto eu. Duvido que ele tenha interesse no que o senhor tem a dizer. — Por que senti que tinha que proteger Jonathan desse homem, eu não sei. Mas havia algo nefasto em seu interesse.

O pastor não gostou da resposta. Talvez achasse que eu estivesse mentindo ou não gostasse de ser desafiado. Ele me olhou de forma longa e intimidante, como se estivesse pensando no que fazer para conseguir o que queria e senti, pela primeira vez em sua presença, o verdadeiro perigo, uma sensação de que aquele homem seria capaz de qualquer coisa. Nesse momento, Nevin apareceu diante de nós com uma tocha acesa na mão e, pelo menos uma vez na vida, fiquei feliz em vê-lo.

— Lanore! Estava procurando você. Estou pronto. Vamos! — ele gritou com impaciência.

— Boa noite — eu disse, desvencilhando-me do pastor, esperando nunca mais vê-lo. Podia sentir seu olhar ferino cravado em minhas costas enquanto Nevin e eu íamos embora.

— Satisfeita com seu passeio? — Nevin resmungou, enquanto íamos em direção à estrada.

— Não foi o que eu esperava.

— Tenho certeza disso. O homem é um louco, provavelmente por causa das doenças que ele sem dúvida tem — Nevin falou, querendo dizer sífilis. — Mas ouvi dizer que tinha seguidores em Saco. Fico imaginando o que faz aqui, tão longe...

Não passou pela cabeça de Nevin que o homem poderia ter sido enxotado pelas autoridades, que estivesse fugindo; que, em sua loucura, poderia ter visões e pressentimentos esplêndidos, colocando ideias na cabeça de jovens garotas inocentes e ameaçando os menos inclinados a agir de acordo com seus desejos. Apertei meu xale com força em volta dos ombros.

— Agradeceria se você não dissesse ao pai o que o pastor falou...

Nevin riu com maldade.

— Claro que não! Mal consigo me lembrar daquelas blasfêmias, imagine repeti-las ao pai! Várias esposas! Casamento espiritual! Não sei o que o pai faria: acho que me encheria de chibatadas e trancaria você no celeiro até completar 21 anos, só por termos ouvido aquelas palavras pagãs. — Ele balançava a cabeça enquanto caminhávamos. — Vou dizer uma coisa: os ensinamentos daquele pastor com certeza cairiam bem para seu garoto, Jonathan. Ele já fez casamentos espirituais com pelo menos metade das garotas da cidade.

— Chega de falar de Jonathan — retruquei, mantendo em segredo o interesse do pastor por Jonathan, como se para não confirmar a opinião ruim de Nevin. — Não vamos mais falar sobre isso.

Ficamos quietos durante o restante da longa jornada até nossa casa. Apesar do ar frio da noite, ainda latejava ao me lembrar do olhar misterioso no rosto do pastor e da rápida passada por dentro de sua verdadeira natureza. Não sabia o que pensar sobre seu interesse por Jonathan nem sobre o que ele quis dizer a respeito da minha “sensibilidade especial”. Minha vontade de experimentar o que acontecia entre um homem e uma mulher era assim tão evidente? Com certeza esse mistério era o ápice da experiência humana. Poderia ser anormal ou especialmente diabólico para uma jovem mulher ficar curiosa sobre isso? O pastor Gilbert e meus pais provavelmente pensariam que sim.

Caminhei pela estrada solitária, agitada internamente e excitada com toda aquela conversa aberta sobre desejo. A ideia de conhecer Jonathan, de conhecer outros homens no vilarejo do jeito que Magda conhecia, deixou-me quente por dentro. Esta noite eu tinha conhecido minha verdadeira natureza; apesar de ser muito inexperiente para entendê-la, muito inocente para realizá-la, deveria ficar atenta à facilidade com que o desejo se acendia em mim. Deveria ter lutado contra ele com mais determinação, mas talvez fosse em vão, já que a verdadeira natureza sempre vence.

7

Os anos passaram como sempre: o seguinte parecendo igual ao anterior. No entanto, algumas pequenas diferenças eram evidentes: eu queria cada vez menos seguir as regras de meus pais, ansiava por um pouco de independência e estava cansada de meus vizinhos preconceituosos. O pastor carismático foi julgado e aprisionado em Saco, então escapou e desapareceu misteriosamente, mas sua ausência de cena ajudou muito pouco a acalmar a efervescência escondida sob a superfície. Havia uma influência oculta de rebeldia no ar, até mesmo em uma cidade tão isolada como St. Andrew; havia conversas sobre se tornar independente de Massachusetts e formar um estado. Se os proprietários de terras, como Charles St. Andrew, estavam preocupados que suas fortunas seriam afetadas, nada demonstravam e guardavam as preocupações para si.



Meu interesse por esses assuntos cresceu, apesar de ainda ter poucas oportunidades para exercer minha curiosidade. Parecia que os únicos tópicos adequados ao interesse de uma jovem eram de domínio doméstico: como fazer um bolo de melaço macio ou tirar pacientemente o leite de uma vaca velha; o quão bem se pode costurar ou a melhor maneira de curar a febre de uma criança. Testes para provar nossa adequabilidade como esposas, mas eu tinha pouco interesse em competições desse tipo. Só havia um homem a quem eu queria como marido e ele não se importava com a maciez de um pedaço de bolo.

Uma das tarefas domésticas de que eu menos gostava era lavar roupa. Roupas leves podiam ser levadas para o riacho para ser enxaguadas e torcidas. Mas, muitas vezes por ano, tínhamos que fazer uma lavagem completa, o que significava colocar um enorme caldeirão no fogo, no quintal, para passar um dia inteiro de fervura, esfregação e secagem. Era um trabalho miserável; os braços enfiados na água fervente com uma solução alcalina, torcendo roupas de lã volumosas, espalhando-as para secar sobre os arbustos e galhos de árvores. O dia da lavagem de roupas tinha que ser escolhido com cuidado, pois era necessário um longo dia de tempo bom, quando nenhuma outra tarefa doméstica trabalhosa fosse necessária.

Lembro-me de um desses dias, no início do outono do meu vigésimo ano. Estranhamente, minha mãe havia mandado Maeve e Glynnis para ajudar meu pai com o feno, insistindo que ela e eu, sozinhas, daríamos conta da lavagem. Ela também estava particularmente quieta aquela manhã. Enquanto esperávamos a água ferver, remexia nas coisas para lavar: o desinfetante, a lavanda seca, os pedaços de pau que usávamos para empurrar a roupa dentro do caldeirão.

— Chegou a hora de termos uma conversa séria — minha mãe finalmente disse, no momento em que estávamos em pé ao lado do caldeirão, observando as bolhas subirem até a superfície da água. — É hora de pensar em você começar a própria vida, Lanore. Você não é mais uma criança. Já está na idade de casar...

Verdade seja dita, eu já estava passando da idade de casar e comecei a imaginar como meus pais pretendiam lidar com essa situação. Eles não haviam prometido nenhum dos filhos em casamento.

— E devemos conversar sobre o que fazer quanto ao mestre St. Andrew. — Ela segurou a respiração e piscou os olhos para mim.

Meu coração disparou com as palavras dela. Que outra razão ela teria para trazer o nome de Jonathan ao contexto do casamento se ela e meu pai não tivessem a intenção de arranjar as coisas para mim? Fiquei sem fala de tanta alegria e surpresa, a última, por saber que meu pai não desaprovava a família St. Andrew, não mais. Muitas coisas haviam mudado desde que as famílias seguiram para o norte com Charles St. Andrew. Seu relacionamento com o restante da cidade, com os homens que haviam confiado nele, estava estremecido. Minha mãe olhou para mim com sinceridade.

— Digo isso como a mãe que ama você, Lanore: deve terminar sua amizade com mestre Jonathan. Vocês dois não são mais crianças. Continuar nessa situação não lhe fará bem.

Não senti os respingos de água fervente queimarem minha pele ou o calor do caldeirão molhar meu rosto. Olhei fixamente para ela. Ela se apressou para encobrir meu silêncio tomado de horror.

— Deve entender, Lanore. Que outro jovem irá querer você quando está obviamente apaixonada por Jonathan?

— Não estou apaixonada por Jonathan. Somos só amigos! — reclamei.

Ela riu suavemente, mas, de qualquer forma, apunhalou meu coração.

— Não pode negar seu amor por Jonathan. É muito óbvio, minha querida, assim como é óbvio que ele não sente a mesma coisa em relação a você.

— Não há nada para ele demonstrar — protestei. — Somos só amigos, posso lhe garantir isso.

— Os casos dele são o falatório da cidade...

Esfreguei minha mão na testa suada.

— Eu sei, ele me conta tudo.

— Ouça, Lanore — ela implorou, virando-se para mim mesmo quando lhe dei as costas. — É muito fácil se apaixonar por um homem tão bonito ou tão rico quanto Jonathan, mas deve resistir. Jonathan não faz parte de seu destino.

— Como pode dizer isso? — O protesto saiu de meus lábios ainda que não quisesse dizer nada daquilo. — Você não sabe o que acontecerá comigo ou com Jonathan.

— Ah, menina tola, não me diga que entregou seu coração a ele! — Ela me pegou pelos ombros e me chacoalhou. — Não pode esperar que se case com o menino do capitão. A família de Jonathan nunca permitiria, nunca, nem seu pai concordaria com isso. Sinto muito por ser eu a lhe dizer esta verdade tão terrível...

Ela não precisava dizer. Eu sabia que nossas famílias não eram do mesmo nível e sabia que a mãe de Jonathan tinha grandes expectativas com relação ao casamento de seus filhos. Mas os sonhos de uma garota são quase impossíveis de morrer, e eu cultivava esse desde sempre; parecia que havia nascido com o desejo de estar com Jonathan. Sempre acreditei, secretamente, que um amor tão profundo e verdadeiro quanto o meu seria premiado no final, e agora estava sendo forçada a aceitar a amarga verdade. Minha mãe retornou ao trabalho, pegando o longo pedaço de pau para mexer a roupa na água fervente.

— Seu pai quer começar a procurar um companheiro para você; por isso, tente entender por que tem de terminar essa amizade. Precisamos encontrar um companheiro para você antes de encontrarmos para suas irmãs — ela continuou —, você entende a importância disso, não entende, Lanore? Não gostaria que suas irmãs ficassem solteiras para o resto da vida, gostaria?

— Não, mãe — respondi, arrasada. Ainda estava de costas para ela, com o olhar distante, tentando não chorar, quando notei um movimento na floresta atrás de nossa casa. Poderia ser qualquer coisa, boa ou perigosa, meu pai e minhas irmãs voltando do campo de feno, alguém viajando entre as fazendas, um veado andando pelo mato. Meus olhos seguiram a figura até que consegui distingui-la, grande e escura, um negrume brilhante e gracioso. Não era um urso. Um cavalo e um cavaleiro. Havia só um verdadeiro cavalo negro no vilarejo e pertencia a Jonathan. Por que Jonathan estaria cavalgando por esses lados se não para me ver? Mas ele passou para além de nossa casa e seguiu na direção de nossos vizinhos, os recém-casados Jeremias e Sophia Jacobs. Não conseguia pensar em nenhuma razão para Jonathan visitar Jeremias, absolutamente nenhuma. Levantei a mão para enfiar uns cachos soltos dentro de meu chapéu.

— Mãe, a senhora não disse que Jeremias Jacobs não estaria em casa nesta semana? Ele já partiu?

— Sim, já partiu — ela respondeu distraída, mexendo o caldeirão. — Foi para Fort Kent procurar um par de cavalos de tropa e disse a seu pai que voltaria na semana que vem.

— E deixou Sophia sozinha, não deixou? — A figura brilhante passou pelos meus olhos e desapareceu na escuridão da floresta. Minha mãe concordou com um murmúrio.

— Sim, mas sabe que não tem com o que se preocupar. Estará segura, sozinha durante uma semana. — Ela tirou a peça de roupa molhada do caldeirão com o pedaço de pau, uma massa de onde saía vapor e escorria água. Tomei a massa de roupa das mãos dela e levei para debaixo da árvore, onde pendurávamos todas as roupas de lã juntas. — Prometa que vai desistir de Jonathan e não procurar mais a companhia dele — foi a última coisa que ela disse sobre o assunto. Mas minha cabeça estava no pequeno sobrado de madeira de nossos vizinhos, o cavalo de Jonathan esperando impacientemente do lado de fora.

— Prometo — respondi à minha mãe, mentindo descaradamente, como se não quisesse dizer absolutamente mais nada.

8

À medida que o outono se aprofundava e as folhas tomavam tons de marrom, vermelho e dourado, o caso de amor entre Jonathan e Sophia Jacobs não arrefeceu. Durante aquelas semanas, meus encontros com Jonathan eram cada vez mais raros e dolorosamente curtos. Ainda que a culpa não fosse toda dela, cada um de nós tinha as próprias preocupações naquela época, eu colocava toda a culpa em Sophia. Que direito ela tinha de ter a atenção dele? Até onde conseguia entender, ela não merecia a companhia dele. O pior pecado era ela ser casada e, na busca desse relacionamento, estava forçando Jonathan a comprometer sua moral cristã. Ela o estava condenando ao inferno junto consigo mesma.



Mas as razões pelas quais ela não o merecia não paravam por aí. Sophia não chegava a ser a garota mais bonita do vilarejo; pelas minhas contas, havia pelo menos umas vinte garotas, comparáveis em idade, que eram mais bonitas do que ela, mesmo me excluindo deste grupo por questão de modéstia. Além disso, ela não tinha nem a posição social nem a riqueza que a tornaria adequada para a companhia de um homem com o status de Jonathan. Faltavam-lhe dotes domésticos: sua costura era passável e as tortas que trazia às festas da igreja eram massudas e assadas de maneira desigual. Sophia era inteligente, sem dúvida, mas se alguém fosse obrigado a escolher uma garota inteligente na cidade, o nome dela não estaria entre aquelas que vêm primeiro à mente. Assim, qual era exatamente a base de seu relacionamento com Jonathan, que deveria ter só o melhor?




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