No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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Assim, houve um armistício entre a prostituta e as cidadãs virtuosas, que durou longos sete anos. Em épocas difíceis e de doenças, ela contribuía como podia, quer gostassem ou não: cuidava dos doentes e dos moribundos, alimentava os viajantes necessitados, colocava moedas na caixa de doação da igreja quando ninguém estava por perto para vê-la entrar. Eu não conseguia parar de pensar que ela sentia um pouco de falta de uma companhia feminina, apesar de ela sempre se manter respeitosamente distante e nunca puxar conversa com as mulheres da cidade.

A situação de Magdalena era um mistério para muitas crianças. Nós víamos que nossas mães evitavam aquela figura enigmática. A maioria das crianças mais novas acreditava que ela fosse uma bruxa ou algum tipo de criatura sobrenatural. Lembro-me dos gritos zombeteiros, das pedras que às vezes atiravam na direção dela. Não eu, pois desde a mais tenra idade sempre achei que havia algo irresistível nela. A bem da verdade, nunca deveria tê-la conhecido. Minha mãe não era do tipo que julgava, mas mulheres como ela não se relacionavam com prostitutas, muito menos suas filhas. E, mesmo assim, eu quis conhecê-la.

Aconteceu durante um longo sermão de domingo. Pedi licença e fui discretamente ao banheiro. Mas, em vez de voltar rapidamente para o mezanino e para o lado de meu pai, fiquei vadiando do lado de fora, no calor de um lindo dia de início de verão. Perambulei até o celeiro do Tinky Talbot para dar uma olhada na nova cria de leitões, cor-de-rosa manchados de preto, enrolados em pelo áspero e fino. Fiz carinho em seus focinhos curiosos e escutei os roncos suaves.

Então, olhei de lado para a estradinha (era o mais perto que já ficara da misteriosa casinha) e vi Magdalena sentada em uma cadeira, perto da estreita jardineira da varanda, com um cachimbo comprido e escuro entre os dentes. Ela também estava aproveitando o sol, enrolada num cobertor, os cabelos escandalosamente soltos sobre os ombros. As partes dela que não estavam cobertas pelo cobertor eram magras e delicadas, os ossos de sua clavícula, finos como os de um passarinho, visíveis sobre a pele alva como papel. Não usava pó no rosto, somente um traço de carvão esfumaçado no canto dos olhos, um pouco de pintura nos lábios.

Não era como nenhuma outra mulher na cidade. Podia dizer isso por sua atitude: sentada sozinha sob a luz do sol, apreciando a própria companhia e sem remorsos por estar à toa. Fui imediatamente atraída por ela, apesar de estar com medo. Havia algo de pecaminoso nela. Afinal, ela não frequentava os cultos religiosos; aqui estava ela apreciando o domingo, enquanto todo mundo na cidade estava dentro da igreja ou no salão da congregação. Ergueu as mãos sobre os olhos para se proteger do brilho do sol.

— Olá, quem está aí?

Tomei minha decisão naquele momento. Poderia ter corrido de volta à igreja, mas, em vez disso, dei alguns passos tímidos em direção a ela.

— Você não me conhece, senhora. Meu nome é Lanore McIlvrae.

— McIlvrae — ela pensou por um momento, satisfazendo-se por não conhecer o nome e, por consequência, não ter meu pai entre seus clientes. — Não, minha cara, acho que não tive o prazer de conhecê-la — ela sorriu e eu a cumprimentei com uma mesura.

— Meu nome é Magdalena, apesar de suspeitar que já saiba disso, não é? Pode me chamar de Magda. — De perto, ela era muito bonita. Ficou em pé para ajeitar o cobertor e revelou que ainda estava com sua combinação e uma camisola de linho transparente, um pouco decotada no peito, com uma fitinha rosa. Numa casa prática como a nossa, minha mãe não tinha nenhuma peça de roupa tão feminina quanto a camisola usada de Magda. Estava embevecida pela combinação de sua beleza com esta linda peça de roupa; era a primeira vez que realmente tinha sentido inveja de outra pessoa. Ela reparou no meu olhar fixo em sua combinação e um sorriso de reconhecimento abriu-se em seu rosto.

— Espere aqui um minuto — ela disse e entrou na casa. Quando saiu, segurava uma fita de veludo cor-de-rosa e a deu para mim. Não pôde imaginar que tipo de tesouro ela havia me oferecido; artigos manufaturados eram raros em nossa cidade de gente pobre; frivolidades como fitas eram ainda mais raras. Era o tecido mais macio que já havia tocado e o segurei suavemente, como um filhotinho de coelho.

— Não poderia aceitar um presente como este — disse, ainda que honestamente não desejasse dizê-lo.

— Bobagem! — Ela riu. — É só um pedaço do acabamento de um vestido. O que eu faria com isso? — ela mentiu e me observou acariciar a fita, apreciando meu prazer. — Fique com ela. Eu insisto.

— Mas meus pais me perguntarão onde a consegui...

— Pode dizer que a achou — ela sugeriu, apesar de ambas sabermos que eu não poderia fazer isso. Era uma história improvável. E, ainda assim, não conseguia devolver a fita para Magda. Ela ficou satisfeita ao me ver apertar a mão em volta do presente e sorriu, não em triunfo, mas em solidariedade.

— É muito generosa, dona Magda! — agradeci, fazendo outra mesura. — Tenho que voltar para o culto ou meu pai vai achar que aconteceu alguma coisa comigo.

Ela levantou o queixo para poder olhar sobre o nariz fino na direção do salão da congregação.

— Ah, você está certa! Não deve deixar seus pais preocupados. Espero que venha me visitar novamente, senhorita McIlvrae.

— Eu virei, prometo.

— Ótimo. Então, vá logo.

Caminhei pela estradinha, erguendo minhas saias para evitar as partes enlameadas. Antes de virar a esquina, olhei para trás, para a casinha, e vi que Magda havia sentado novamente na cadeira e se balançava, satisfeita, olhando fixamente para a floresta.

Mal podia esperar pelo domingo seguinte, para fugir do culto e visitar Magda de novo. Escondi a fita no bolso, na minha segunda camada de roupas de baixo, onde de vez em quando podia enfiar a mão para, secretamente, acariciar o veludo. A fita lembrava a própria Magda: ela era tão diferente de minha mãe e das outras mulheres do vilarejo! E isso já era motivo para que eu a admirasse.

Algo que admirava nela, mas não entendia exatamente por que, era que ela não tinha um homem. Nenhuma mulher no vilarejo vivia sem um homem e o homem era sempre o chefe da casa. Magda era a única mulher no vilarejo que falava por si mesma, apesar de, até onde eu soubesse, ela fazia muito pouco nesse sentido. Duvidava que fosse às assembleias da cidade. E, mesmo assim, continuava a viver de acordo com as próprias regras e parecia ser bem-sucedida. Para uma jovem, isso realmente era uma coisa admirável.

Assim, no domingo seguinte, arranjei um jeito de pedir licença do culto novamente (apesar dos olhares reprovadores de meu pai) e corri até a casa de Magda. E lá estava ela, dessa vez em pé, na varanda. Não tinha mais seu ar informal. Usava uma linda saia listrada e uma bem-cortada jaqueta roxa de lã, uma cor incomum. O efeito foi calculado para chamar atenção, como se a intenção dela fosse me impressionar. Fiquei lisonjeada.

— Bom dia, dona Magda — disse enquanto corria até ela, quase sem fôlego.

— Bem, bom Sabbath para você, senhorita McIlvrae.

Seus olhos verdes brilhavam. Conversamos um pouco; ela perguntou sobre minha família, eu apontei em direção à nossa fazenda. No momento em que estava pensando em voltar para o culto, ela me disse timidamente:

— Convidaria você para conhecer minha casa, mas suponho que seus pais não aprovariam isso. Sendo quem eu sou, não seria adequado.

Ela deveria saber que eu estava curiosa para ver o interior da casa. Sua própria casa, o lugar de sua independência! Senti que tinha que voltar para a igreja, para meu pai que me esperava... mas como poderia deixar passar a oportunidade?

— Tenho só um minuto... — eu disse, enquanto a seguia pelos degraus e atravessava a porta.

Pareceu-me como o interior de uma caixa de joias, mas, na verdade, era tudo velho e adaptado. O pequeno quarto era dominado por uma cama estreita, coberta com uma colcha lindamente bordada em amarelo e vermelho. Garrafas de vidro forravam o parapeito da única janela, emitindo raios de luz verdes e marrons pelo chão. Dentro de uma tigela de cerâmica, pintada com delicadas rosas cor-de-rosa, havia algumas joias. Suas roupas estavam penduradas em puxadores na porta dos fundos, uma grande variedade de saias rodadas e coloridas, faixas compridas e espartilhos com babadinhos. Não um, mas dois pares de delicadas botas femininas estavam enfileirados ao lado da porta. Minha única decepção era que o quarto era abafado, o ar pesado, com um perfume almiscarado que eu não reconhecia.

— Adoraria viver em um lugar como este! — eu disse, fazendo-a rir.

— Já vivi em lugares melhores, mas este está bom — respondeu ela, enquanto se jogava numa cadeira.

Antes de eu sair, Magda me deu dois conselhos, de mulher para mulher.

O primeiro era que uma mulher sempre tinha que guardar um pouco de dinheiro para si.

— O dinheiro é muito importante — ela me disse, me mostrando onde guardava uma bolsa cheia de moedas. — O dinheiro é a única forma de uma mulher ter controle da própria vida.

O segundo conselho foi que uma mulher nunca deve trair outra por causa de um homem.

— Acontece sempre — ela disse, parecendo triste. — E é compreensível, já que é dado aos homens todo o valor do mundo. Querem que acreditemos que o único valor da mulher está no homem que faz parte de sua vida, mas isso não é verdade. De qualquer forma, nós, mulheres, temos que nos apoiar, pois depender de um homem é besteira. Ele sempre irá decepcioná-la. — Ela abaixou a cabeça, mas podia jurar que vi lágrimas em seus olhos.

Estava me levantando do chão para sair quando bateram à porta. Um homem musculoso entrou, antes que Magda pudesse responder; eu o reconheci como um dos lenhadores de St. Andrew.

— Olá, Magda, achei que estivesse sozinha e quisesse companhia, já que todo mundo está na igreja agora de manhã... Quem é essa? — Ele parou de repente, quando me viu, e um sorriso desagradável se espalhou em seu rosto queimado pelo vento. — Tem uma garota nova, Magda? Uma aprendiz? — Ele colocou a mão em meu braço, como se eu fosse uma posse, não uma pessoa.

Magda deu um passo para a frente, ficou entre nós e me levou rapidamente em direção à porta dos fundos.

— Ela é uma amiga, Lars Holmstrom, e você não tem nada com isso. Mantenha suas mãos bobas longe dela. Agora, vá! — ela disse para mim, enquanto me empurrava pela porta. — Quem sabe eu a vejo na semana que vem?

E, antes que pudesse perceber, eu estava em pé sobre um monte de folhas mortas, troncos caídos estalando sob meus pés, a porta de madeira fechada bem na minha cara, enquanto Magda prosseguia com seus negócios, o preço de sua independência. Saí correndo por entre os arbustos e entrei na estradinha, apressando-me para voltar ao salão da congregação, enquanto os paroquianos saíam para a luz do sol. Dessa vez seria um inferno com meu pai, mas calculei que valeria a pena. Magda era a guardiã dos mistérios da vida e senti que, o que quer que fosse necessário para que eu continuasse a aprender com ela, valeria a pena.

6

Numa tarde de verão de meu décimo quinto ano, a cidade inteira se reuniu no pasto dos McDougal para ouvir um pastor itinerante falar. Ainda consigo ver meus vizinhos fazendo o percurso para o campo dourado, a grama alta faiscando ao sol, nuvens de poeira subindo pela estrada sinuosa. A pé, no lombo do cavalo ou sobre uma charrete, praticamente todos em St. Andrew foram até os McDougal naquele dia, ainda que não fosse por excesso de devoção, posso lhe garantir. Até mesmo pastores itinerantes eram uma raridade no nosso pedaço de floresta; aproveitaríamos qualquer tipo de entretenimento que pudéssemos ter para preencher a monotonia de um longo dia de verão naquele lugar desolado.



Esse pastor, em particular, aparentemente tinha vindo do nada e, em poucos anos, havia conquistado seguidores, além de uma reputação por seus discursos exaltados e conversa rebelde. Havia rumores de que ele teria dividido os frequentadores da igreja da cidade mais próxima, Fort Kent, num dia de viagem para o norte, colocando congregacionalistas tradicionais contra uma nova onda de reformistas. Também havia uma conversa sobre o Maine tornar-se um estado e se libertar do domínio de Massachusetts, de modo que havia certo frisson no ar, religioso e político, apontando uma possível revolta contra a religião que os colonizadores trouxeram com eles de Massachusetts.

Foi minha mãe quem convenceu meu pai a ir, apesar de ela não tolerar a ideia de se converter: só queria uma tarde longe da cozinha. Ela estendeu um cobertor no chão e esperou pelo início do discurso. Meu pai sentou-se ao lado dela, meneando a cabeça com um ar desconfiado, olhando de um lado para o outro para ver quem mais estaria ali. Minhas irmãs permaneceram sentadas perto de minha mãe, enfiando rigorosamente suas saias embaixo das pernas, enquanto Nevin desapareceu quase tão logo a charrete parou, ansioso para encontrar os meninos que moravam nas fazendas vizinhas às nossas.

Eu fiquei em pé, protegendo meus olhos da forte luz do sol com a mão, mapeando a multidão. Todo mundo da cidade estava lá, alguns com cobertores, como minha mãe, alguns com o jantar arrumado em cestas. Eu estava procurando Jonathan, como sempre, mas parecia que ele não estava lá. Sua ausência não era uma surpresa; a mãe dele era uma das mais fervorosas congregacionistas da cidade, e a família de Ruth Bennet St. Andrew não participaria dessa bobagem reformista.

Então, vi algo escondido entre as árvores; sim, era Jonathan, contornando a ponta do pasto em seu distinto garanhão. Não fui a única a vê-lo; uma onda quase palpável percorreu parte da multidão. Qual a sensação de saber que dezenas de pessoas o observam em êxtase, os olhos seguindo a linha de sua longa perna pressionando o flanco do cavalo, suas mãos fortes segurando as rédeas. Tanto desejo contido queimando no seio de muitas mulheres no campo seco naquele dia! É uma surpresa que a grama não tenha se incendiado.

Ele trotou até mim e, soltando os estribos, apeou da sela. Ele cheirava a couro e terra queimada de sol, e senti muita vontade de tocá-lo.

— O que está acontecendo? — perguntou, tirando seu chapéu e passando a manga da camisa sobre a testa.

— Você não sabe? Um pastor está visitando a cidade. Você não veio para ouvi-lo?

Jonathan olhou sobre minha cabeça, estudando a multidão.

— Não. Estava inspecionando o próximo pedaço de terra em que iremos fazer a colheita. O velho Charles não confia no novo inspetor. Acha que ele bebe muito. — Ele deu uma olhada em volta, aproveitando para ver quais garotas estavam olhando para ele. — Minha família está aqui?

— Não, e eu também duvido que sua mãe aprovaria sua presença aqui.

O pastor tem uma reputação horrível. Poderia ir para o inferno só de ouvi-lo.

Jonathan forçou um sorriso para mim.

— É por isso que está aqui? Você quer ir para o inferno? Sabe que há caminhos muito mais prazerosos para a condenação do que ouvir o discurso de pastores diabólicos.

Havia uma mensagem no brilho de seus profundos olhos castanhos, mas eu não consegui interpretá-la. Antes que pudesse pedir a ele que explicasse, ele riu e disse:

— Todas as almas dessa cidade parecem estar aqui. Isso me dá mais pena por não ficar, mas, como você disse, será um inferno se minha mãe souber. — Ele ajeitou o estribo e subiu na sela, mas, então, inclinou-se na minha direção, de forma protetora. — E você, Lanny? Você nunca foi muito de sermões. Por que está aqui? Espera encontrar alguém, algum garoto especial? Algum jovenzinho chamou sua atenção?

Aquilo foi uma completa surpresa: o tom recatado, o olhar investigativo. Ele nunca havia dado a menor indicação de que se importasse se eu estivesse interessada em outro.

— Não — eu disse, sem fôlego, quase sem forças para dar uma resposta.

Ele pegou as rédeas devagar, pesando-as como se estivesse pesando as próprias palavras.

— Sei que virá um dia quando eu a verei com outro garoto, minha Lanny com outro garoto, e eu não gostarei. Mas é justo.

Antes que eu pudesse me recuperar do choque e dizer a ele que estava ao alcance dele evitar que isso acontecesse (e ele sabia!), ele virou o cavalo e galopou para dentro da floresta, me deixando a olhar para ele, confusa, mais uma vez. Ele era um enigma. Geralmente me tratava como sua melhor amiga, com uma atitude platônica, mas havia vezes em que eu pensava ver um convite na maneira que me olhava ou uma faísca de (ouso ter esperanças?) desejo em sua inquietude. Agora que ele tinha ido embora, não poderia ficar pensando naquilo ou eu enlouqueceria.

Encostei-me em uma árvore e vi o pastor caminhar até o centro de uma pequena clareira em frente à multidão. Ele era mais novo do que eu esperava (Gilbert era o único pastor que conhecia e já chegara a St. Andrew de cabelos grisalhos) e caminhou ereto como uma vara, certo de que tanto Deus quanto a retidão estavam a seu lado. Ele era bonito de uma forma inesperada e até desconfortável para um pastor, e as mulheres sentadas mais próximas a ele gorjeavam como pássaros, quando ele lhes deu um sorriso branco e largo. Ainda assim, observando enquanto ele olhava para a multidão, preparando-se para começar (tão confiante como se ele fosse o dono), senti um calafrio, como se algo ruim pairasse no horizonte.

Ele começou a falar com uma voz clara e alta, recordando suas visitas pelo território do Maine e descrevendo o que tinha visto. O território estava se tornando uma cópia de Massachusetts, com seus modos elitistas. Alguns poucos homens ricos controlavam o destino de seus vizinhos. E o que isso trazia para o homem comum? Tempos difíceis. Pessoas comuns sem ter como pagar suas contas. Homens honestos, pais e esposos, aprisionados, e a terra tomada de suas esposas e filhos. Fiquei surpresa ao ver cabeças concordando na multidão.

O que o povo queria, o que os americanos querem, ele enfatizou, abanando a Bíblia no ar, era liberdade. Não tínhamos lutado contra os britânicos só para ter outros donos tomando o lugar do rei. Os proprietários de terra em Boston e os comerciantes que vendiam mercadorias para os colonos não passavam de ladrões, exigindo taxas de empréstimos absurdas, e a lei estava a serviço deles. Seus olhos brilhavam enquanto analisava a multidão, encorajado pelos murmúrios de consentimento, e ele andava de um lado para o outro dentro do círculo de grama pisoteado. Não estava acostumada a ouvir dissidentes falarem em voz alta, em público, e me senti vagamente preocupada pelo sucesso do pastor.

De repente, Nevin estava a meu lado, estudando o rosto erguido de nossos vizinhos.

— Olhe só para eles, cretinos boquiabertos... — ele disse, zombeteiro. Não havia dúvidas de que ele tinha o temperamento crítico de nosso pai. Cruzou os braços sobre o peito e deu uma fungada.

— Parecem bem interessados no que ele tem a dizer — observei.

— Você tem a menor ideia do que ele está falando? — Nevin semicerrou os olhos para mim. — Não tem, não é? Claro que não, você é só uma menina burra. Você não entende nada.

Olhei-o com desdém, mas não respondi, pois Nevin tinha razão a respeito de uma coisa: eu não fazia ideia sobre o que o homem estava falando. Era ignorante com relação ao que acontecia no mundo de forma geral. Ele apontou para um grupo de homens em pé, ao lado do pasto lotado.

— Vê aqueles homens? — perguntou, indicando Tobey Ostergaard, Daniel Daughtery e Olaf Olmstrom. Os três estavam entre os homens mais pobres da cidade, apesar de os menos caridosos poderem dizer que eles também estavam entre os mais preguiçosos. — Estão criando confusão — Nevin disse. — Sabe o que é um índio branco?

Até mesmo a menina mais burra da cidade teria dito que conhecia o termo: meses antes, houve notícias de uma rebelião em Fairfax, quando cidadãos vestidos de índios dominaram um funcionário municipal quando ele tentava cumprir uma ordem judicial de um fazendeiro que não pagou suas dívidas.

— A mesma coisa está acontecendo aqui — Nevin disse, balançando a cabeça. — Ouvi dizer que Olmstrom e Daughtery, e alguns outros, conversaram com o pai sobre isso. Reclamando sobre os Watford cobrarem muito e injustamente... — Os detalhes estavam além da compreensão de Nevin; ninguém explicava para as crianças sobre contas e cobranças no armazém. — Daughtery diz que é uma conspiração contra o homem comum — Nevin recitou, soando como se não tivesse certeza de que Daughtery não estivesse falando a verdade.

— E daí? Por que me importaria se Daughtery não paga a dívida que tem com os Watford? — funguei, fingindo que não me importava. Por dentro, de qualquer forma, estava chocada por pensar que alguém pudesse não pagar uma dívida intencionalmente, tendo sido ensinada por nosso pai que tal comportamento era desonroso e algo que somente uma pessoa sem respeito próprio consideraria fazer.

— Pode ser problema para o seu garoto, Jonathan — Nevin sorriu com desdém, deliciado por ter a oportunidade de fazer piadas sobre Jonathan comigo. — Não são só os Waldorfs que serão prejudicados se as coisas forem mal. O capitão tem os papéis das propriedades... O que aconteceria se eles se recusassem a pagar os aluguéis? Aqueles homens lutaram por três dias em Fairfax. Ouvi dizer que arrancaram a roupa do funcionário, bateram nele com varas e o fizeram voltar para casa a pé e nu como veio ao mundo.

— Nem temos um funcionário do governo em St. Andrew — eu disse, assustada com a história de meu irmão.

— É muito provável que o capitão mande seus mais fortes e maiores lenhadores até o Daughtery e exija que ele pague a dívida. — Havia um tom de medo na voz de Nevin; seu respeito pela autoridade e o desejo de ver a justiça prevalecer, traços de nosso pai, certamente, eram superados por seu desejo de ver Jonathan sofrer algum tipo de má sorte.

Daughtery e Olmstrom... o capitão e Jonathan... até mesmo a afetada srta. Watford e seu irmão igualmente arrogante... eu estava envergonhada pela minha ignorância e senti um respeito invejoso por meu irmão conseguir ver o mundo em toda sua complexidade. Fiquei imaginando o que mais acontecia que eu não sabia.

— Acha que o pai vai se juntar a eles? Ele será preso? — sussurrei preocupada.

— O capitão não tem os papéis de nossa terra — Nevin me informou, um pouco desgostoso por eu ainda não saber disso. — O pai é o dono mesmo. Mas acho que ele concorda com o companheiro ali. — Ele balançou a cabeça em direção ao pastor. — O pai veio para este território como todo mundo, pensando que seria livre, mas as coisas não funcionaram assim. Alguns estão passando por maus pedaços enquanto os St. Andrew estão enriquecendo. Como eu disse — ele chutou a terra, levantando uma nuvem de poeira —, seu garoto poderá ficar em maus lençóis.

— Ele não é meu garoto — respondi rapidamente.

— Você quer que ele seja seu garoto — meu irmão disse, todo zombeteiro. — Mas só Deus sabe o porquê. Deve ter alguma coisa do avesso, Lanore, para ser apaixonada por esse cretino.

— Você está com inveja, é por isso que não gosta dele.

— Com inveja? — Nevin bravejou. — Daquele pavão? — disse isso e foi embora, sem querer admitir que eu tinha razão.

Aproximadamente trinta pessoas seguiram o pastor até a casa dos Dale, do outro lado das montanhas, onde continuaria falando para todos os que estivessem interessados. Os Dale tinham uma casa de bom tamanho, mesmo assim ainda ficamos amontoados, querendo ouvir mais coisas daquele orador cativante. A sra. Dale acendeu o fogo na grande lareira da cozinha, pois, mesmo no verão, fazia um pouco de frio à noite. Lá fora, o céu escurecia em um azul-escuro, com uma faixa de rosa no horizonte.

Como Nevin devia estar bravo comigo! Implorei a meus pais para que me deixassem ouvir o pastor, o que significava que precisaria de um acompanhante, então, meu pai disse a Nevin para me acompanhar. Meu irmão soltou fogo pelas ventas e ficou com o rosto vermelho, mas não podia recusar nada a meu pai, então, pisou duro atrás de mim durante todo o caminho até a casa dos Dale. Mas Nevin, apesar de sua tradicional sensibilidade, tinha um lado rebelde e eu acreditava que ele, secretamente, estava gostando de presenciar o restante da reunião.




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