No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Ele sorriu devagar, mas nada respondeu. Rolei de lado em direção a ele, apoiando minha cabeça na mão.

— Já pensou no que vamos fazer depois? Sobre... nós?

Finalmente, os olhos dele se abriram e piscaram para o céu.

— Lanny, chamei você aqui por uma razão. Não consegue adivinhar...?

Balancei a cabeça.

Ele alcançou a garrafa de vinho, ergueu-a e bebeu, então passou-a para mim, só com um restinho no fundo.

— Sabe por que sugeri voltarmos para cá? — Eu balancei minha cabeça. — Fiz isso por você.

— Por mim?

— Achei que pudesse ficar feliz se voltássemos juntos para cá, que seria um jeito de me retratar por tê-la deixado. Essa viagem não foi para mim; tem sido um inferno para mim. Eu sabia que seria assim. Sempre desejei que pudesse me desculpar com eles, minha família, a esposa e a filha que pensaram que eu as abandonei. Daria qualquer coisa para ter tudo de volta.

Como tudo pode ter virado do avesso tão rápido, se tornado tão ruim? Senti que uma barreira fria estava se formando entre nós.

— Não foi culpa sua — eu disse, como se não soubéssemos de quem era a culpa. Eu não tinha mais estômago para o vinho e devolvi a garrafa para Jonathan. — Por que falar sobre isso, Jonathan? Não há nada que eu ou você possamos fazer para trazer o passado de volta. O que passou, passou.

— O que passou, passou — ele repetiu, antes de secar a garrafa. Olhou fixamente para a escuridão, cauteloso para não olhar para mim. — Estou tão cansado disso, Lanny! Não posso mais continuar nessa vida monótona, nessa sucessão sem-fim de dia após dia... Já tentei de tudo para conseguir seguir em frente.

— Por favor, Jonathan! Você está bêbado. E cansado...

A garrafa de vinho afundou na terra macia enquanto Jonathan se inclinou sobre ela.

— Sei o que estou dizendo. É por isso que a chamei para vir comigo. Você é a única que pode me ajudar.

Sabia aonde isso iria chegar: a vida era circular e, até mesmo as piores partes dela certamente voltariam uma segunda vez. Era a briga que tivéramos todas as noites durantes meses... anos? Antes de ele finalmente partir. Ele atormentara, implorara, ameaçara. Este fora o motivo real da partida dele, não porque não conseguia parar de me decepcionar. Seu único desejo pendurava-se no ar entre nós, a única maneira de ele escapar de tudo o que queria esquecer: o abandono de suas responsabilidades, um filho morto, a traição da pessoa que mais o amava. Só uma coisa poderia fazer tudo isso desaparecer.

— Não pode me pedir para fazer isso. Nós concordamos que seria um pedido abominável. Não pode me deixar sozinha com... isso.

— Não acha que eu mereça ser livre, Lanny? Você tem que me ajudar.

— Não, não posso.

— Quer que eu diga que me deve isso? — Aquelas palavras foram como uma facada; ele jamais dissera isso antes. De alguma forma, ele conseguiu nunca atirá-las na minha cara, palavras que eu certamente merecia. — Deve isso a mim porque você fez isso comigo. Você colocou essa maldição sobre mim.

— Como pode dizer isso... — eu lamentei, querendo revidar, querendo fazê-lo sentir-se tão mal quanto ele me fizera sentir — ... como pôde ir embora? Me deixou imaginando o que aconteceu durante todos esses anos...

— Você não estava sozinha. Eu estava lá com você, de certa forma. Independentemente de onde estivesse, sabia que eu estava lá, também, em algum lugar do mundo. — Jonathan fez um esforço para se levantar, exausto. — As coisas mudaram para mim. Tenho uma coisa para lhe contar; eu não queria, Lanny. Não quero magoá-la, mas tem que entender por que isso é muito importante para mim agora. — Ele respirou profundamente. — Veja bem, eu me apaixonei.

Ele esperou, achando que eu fosse reagir mal à notícia da melhor coisa que já lhe acontecera. Abri minha boca para lhe dar os parabéns, mas, obviamente, nenhuma palavra saiu.

— Uma mulher tcheca, uma enfermeira. Nós nos conhecemos nos campos de refugiados. Ela trabalhava para outra organização humanitária. Um dia, foi chamada à sede de seu escritório em Nairóbi, para uma reunião. Recebi a notícia pelo rádio, no meio da selva, que ela havia morrido num acidente de carro. Levei um dia para conseguir ir de helicóptero até lá para recuperar o corpo. Só ficamos juntos por alguns anos. Não podia acreditar naquela injustiça... tinha esperado tanto, vidas inteiras, para encontrar a pessoa destinada a ficar comigo, e tivemos tão pouco tempo juntos! — Ele falava suavemente, sem muita dor, para me poupar, eu acho. Mesmo assim, minhas entranhas se reviravam cada vez mais apertadas enquanto o ouvia.

— Consegue entender agora? Não consigo mais ir em frente.

Balancei a cabeça, determinada a ser forte, irredutível diante de sua dor.

— Não quero magoar você — ele disse. — E sei que entende a dor pela qual estou passando. Quer que lhe diga o quanto ela era maravilhosa? Que eu não tinha outra coisa a fazer senão amá-la? O quanto é impossível viver sem ela?

— As pessoas fazem isso todos os dias — consegui dizer. — O tempo passa, você esquece. Fica cada vez mais fácil.

— Não, não para mim. Sei que não é assim; você também sabe. — Talvez naquele momento ele me odiasse. — Não posso mais continuar com isso. Não suporto a perda dela; não posso aceitar que não haja nada, absolutamente nada que possa ser feito para acabar com essa dor. Ficarei louco, louco e preso para sempre dentro desse corpo. Não pode me condenar a esse inferno. Aguentei o máximo que pude porque sei... eu sei que é uma coisa terrível para lhe pedir. Não queria ter que pedir dessa maneira. Não queria contar a você sobre ela, tão de repente. Contudo, você me obrigou a isso, e agora que já lhe contei... não dá para voltar atrás. Pronto, é isso, sabe o que quero de você; tem que me ajudar.

Ele esticou os braços e bateu a garrafa de vinho numa pedra. A cascata de sons, alta e pungente, espalhou-se por todo lado. Ele apertou o gargalo e a parte de cima da garrafa, as pontas serrilhadas de vidro verde presas em sua mão como um bouquet. Era a única arma à disposição; era tosca e violenta e ele queria que eu a usasse nele. Queria sangrar até a morte.

“Não pode me deixar aqui, totalmente sozinha, sem você.” Queria dizer isso a ele, mas não conseguia. Ele tinha me dado um motivo incontestável: perdera seu amor e não podia mais viver assim. Havia chegado a hora de deixá-lo partir.

Não conseguia falar e só notei que estava chorando pelo frio de minhas faces ao vento, frio como um fogo cortante. Ele ergueu as mãos e tocou minhas lágrimas.

— Perdoe-me, Lanny! Perdoe-me por ter chegado a esse ponto. Perdoe-me por não ter dado o que você queria. Eu tentei... você não sabe o quanto eu quis fazê-la feliz, mas simplesmente não funcionou. Você merece ser amada da maneira que sempre quis. Rezo para que encontre esse amor.

Vagarosamente, tirei a garrafa quebrada da mão dele. Jonathan tirou a camisa e se ofereceu a mim; olhei, por sobre minha mão, para aquele peito pálido, brilhando azulado sob a luz da lua.

Poderíamos ter tido uma vida de um amor grandioso.

Não consegui olhar; simplesmente me empurrei contra ele, sabendo que as pontas do vidro se encarregariam do restante. O dente verde do vidro afundou-se em sua carne, um círculo perfeito de uma mordida, macia e flexível. A garrafa quebrada entrou profundamente e o sangue de Jonathan escorreu pelos meus dedos. Ele arfou silenciosamente.

E, então, um golpe de minha mão e três linhas foram traçadas na brancura de sua pele. Profundos, os ferimentos se abriram, deixando mais sangue escapar. Jonathan dobrou-se, caindo sobre o peito e, depois, virando-se de costas, as mãos colocadas fracamente sobre o ferimento, o sangue jorrando de dentro dele. Chamou-me a atenção o fato de a carne ceder tão facilmente. Fiquei esperando as pontas dos ferimentos se unirem de volta, mas isso não aconteceu. Devo ter dito as palavras “pelas minhas mãos e intenção” em minha mente. Não havia como negar que aquela proeza fora feita por minhas mãos, mas não fora minha intenção. Tinha cometido um erro; esta não era minha intenção. “Acorde!”, ouvi minha própria voz à distância; “Preciso acordar”.

E, então, acordei, no meio da floresta, com meu amado tremendo, convulsionando na terra diante de mim, engasgando e cuspindo sangue, mas sorrindo. O peito dele subia e descia deliberadamente, e percebi que já vira Jonathan daquele jeito uma vez, no celeiro do Daughtery’s. Fiquei ao lado dele pressionando a camisa sobre os ferimentos, tentando, estupidamente, estancar o fluxo de sangue. Jonathan balançava a cabeça e tentava empurrar a camisa de minhas mãos. Ao final, tudo o que pude fazer foi segurá-lo.

E foi aí que percebi o que havia perdido. Jonathan sempre estivera lá, mesmo durante os anos em que estivemos separados, e o som ressonante sempre estivera no cantinho de minha cabeça; era reconfortante. Tudo o que existia agora era um grande e profundo vazio. Acabara de perder a única pessoa importante de minha vida. Não tinha nada, estava sozinha, o peso do mundo desabando sobre as minhas costas, sem ninguém para me ajudar. Tinha cometido um erro. Queria Jonathan de volta. Melhor ser egoísta. Melhor que ele se ressentisse de mim até o fim dos tempos do que me sentir desse jeito. Sentir-me assim e não ter como mandar embora essa dor.

Segurei o corpo dele por muito tempo, até que o sangue tivesse esfriado, e estava coberta por uma camada úmida e viscosa. Não me lembro de ter deixado Jonathan para trás; não me lembro de deixar seu corpo e correr pela floresta, gritando aos céus para que tivessem piedade de mim e me deixassem morrer. Que deixassem tudo terminar para mim também. Não conseguiria viver sem ele. Não me lembro de ter ido parar na estrada, vagando, antes de ser encontrada pelo xerife e por seu assistente. Foi quando me trancaram no carro, com as mãos algemadas, que tudo voltou à tona, que percebi que tudo o que queria era voltar para junto dele na floresta, morrer com ele para que pudéssemos ficar juntos para sempre.

50

PARIS, HOJE



O corredor do saguão do sobrado está repleto de caixotes, a madeira nova e toda cheia de farpas. Um martelo, grampos e um par de luvas de trabalho descansam sobre uma mesa de apoio, junto com uma pilha de correspondência fechada. Luke carrega um busto de mármore escada abaixo, o rosto vermelho pelo esforço. O busto é o segundo de um par que estamos enviando para Bargello, em Florença, um dos muitos museus da Itália, escolhido em vez do Uffizi por sua fantástica coleção de esculturas renascentistas. Da parede, assistindo a toda a atividade, está a única obra de arte que nunca deixará a casa, o esboço de carvão de Jonathan que Lanny tirou da casa de Adair. O re­trato tinha sido retirado de seu lugar original, aos pés da cama de Lanny, colocado no hall, embora Luke não fizesse objeção de deixá-lo no lugar original. Ele não consegue ter ciúme de um homem num retrato mais do que consegue odiar o dourado nascer do sol ou a catedral de Notre-Dame.

Lanny sai do estúdio com um envelope selado nas mãos. Dentro, está um bilhete de desculpas por ter mantido uma obra de arte longe de seus verdadeiros donos, quem quer que eles fossem, depois de todo esse tempo. A nota, que tinha acompanhado cada peça despachada até agora, era de arrependimento, mas vaga, sem nenhum fato relacionado à aquisição da peça, nem quando, nem por quem. Lanny trabalhou nisso durante dias, leu várias versões em voz alta para Luke, antes de os dois concordarem com as palavras finais. Eles usam luvas de látex enquanto trabalham, para não deixarem impressões digitais. Lanny arranjara para que a entrega e a doação dos presentes anônimos fossem feitas através de seu advogado em Paris, a quem escolheu pela especial devoção a seus clientes e sua atitude flexível com relação a alguns aspectos do código legal. Ela tem certeza de que as entregas não serão rastreadas de volta para ela, não importa o quão insistentes os vários museus e outros receptores possam ser.

Quanto a Luke, ele tem pena de ver todas essas maravilhas irem embora, logo agora que chegou lá. Ele gostaria de ter mais tempo para conhecer o que seria a maior coleção particular de artes e artefatos do mundo. Lanny não havia exagerado quando disse que sua casa era mais fascinante do que qualquer outro museu. Os andares superiores estavam entulhados de tesouros, guardados sem ordem ou razão. Cada vez que tirava uma coisa para despachar, descobria outras oito ou dez. E não eram apenas pinturas ou esculturas; havia montanhas de livros, sem dúvida incluindo a primeira edição de muitos deles; tapetes orientais feitos de seda tão fina que poderiam atravessar a pulseira de uma mulher; quimonos japoneses e caftans de seda bordados; todo tipo de espadas e armas de fogo. Vasos gregos, samovares russos, tigelas de jade ou feitas de ouro batido, esculpidas em pepitas. Muitos baús cheios de pedaços de seda e veludos amassados, cada um abrigando uma peça de alguma pedra preciosa. E, então, havia as surpresas completas: por exemplo, dentro de uma caixa de leque, ele encontrou um bilhete para Lanny, escrito por Lord Byron. Luke não consegue entender a maioria das palavras, mas consegue discernir “Jonathan” em meio aos rabiscos. Lanny diz não se lembrar ao que se referia essa carta, mas como alguém se esqueceria de um bilhete de um dos maiores poetas do mundo? Essa é a casa de uma colecionadora insana, tentando compensar alguma falta desarticulada e desconhecida de sua vida, uma escrava da compulsão por acumular beleza. Mesmo assim, ela generosamente deixou algumas peças de lado para serem colocadas num investimento destinado às filhas de Luke, o bastante para pagar os custos de uma boa faculdade quando elas ficarem mais velhas.

Luke descobre que, tirando a coleção de porcelana chinesa antiga, nunca houve uma tentativa de catalogar nada. Então ele faz Lanny catalogar as peças conforme são despachadas: uma descrição, uma estimativa de onde foi adquirida, o nome da pessoa ou lugar que receberia a peça. Ele acha que, um dia, isso será um conforto para ela; permitirá que ela se lembre das aventuras distantes sem ter que suportar o peso dos objetos em si.

É bom para ela se dispor dessas coisas, ele acha. Afasta seu pensamento de Jonathan, ainda que não inteiramente; Luke já a pegara chorando no banheiro ou na cozinha, enquanto esperava a água ferver para um chá. Mesmo assim, ultimamente o choro tinha melhorado e o atual projeto deles, despachar o conteúdo da casa dela, a tinha deixado visivelmente mais feliz. Ela diz estar mais em paz, que está se redimindo pelos erros que cometeu. Uma vez, ela chegou a dizer que esperava que, se tentasse muito reparar os erros, seria perdoada e o feitiço se quebraria. Assim poderia ficar velha ao lado de Luke e deixar essa terra ao mesmo tempo que ele, mais ou menos; nunca mais teria de sofrer dessa profunda solidão de novo. Esse tipo de conversa, dependência de algum tipo de intervenção mágica, deixa Luke desconfortável.

Lanny enfia o bilhete embaixo do busto de mármore e Luke martela a tampa da caixa de madeira. O carregador virá às 2 horas da tarde para a entrega do dia e Luke só conseguiu empacotar os dois bustos até agora. Esperava ter pelo menos uma meia dúzia de peças prontas. Terá que trabalhar mais rápido.

Quando coloca o martelo no chão para limpar a testa, nota uma pilha de correspondências não respondidas. Em cima de tudo, está um envelope grosso, da América, e, por reflexo, ele a puxa para ler o endereço. É de um advogado em Boston, o responsável pela casa de Adair, ou melhor, pela cripta de Adair. Luke revira rapidamente a pilha: há sete cartas com o endereço do mesmo advogado, de até um ano antes. Ele abre a boca para dizer algo para Lanny quando ela entra apressada, com a bolsa nos ombros, procurando discretamente pela chave da casa.

— Tenho horário na cabeleireira, mas voltarei antes de o carregador chegar. Posso pegar alguma coisa para o almoço enquanto estiver fora. O que gostaria de comer?

— Faça uma surpresa — ele diz.

Luke se delicia em ver como ela já se adaptou de volta à rotina, um sinal de que não se deixara imobilizar pela depressão, e, em particular, como ela o incorporou à vida dela. Eles se sentem tão confortáveis juntos. Ela deixou de fumar porque ele pediu, pois não suportava vê-la fumando, embora soubesse que não causava nenhum mal à saúde dela. Ela divide tudo com ele: a padaria favorita, sua caminhada à tarde, os homens idosos com quem ela conversa no parque. Ele está feliz por fazer as coisas para ela, por cuidar dela, e, em retorno, ela é agradecida por toda a consideração que ele demonstra ter com ela. Será que ele a ama? Ele é cético, verdadeiramente cético; não acredita que o amor possa acontecer tão rápido, especialmente pelo que contou a ele, mas, ao mesmo tempo, há essa sensação de vertigem que toma conta dele e que ele não sentia desde que suas filhas nasceram.

Assim que Lanny sai, ele volta para o andar de cima em busca do novo item a ser repatriado. Deve lembrar-se de dizer a Lanny para dar uma olhada na correspondência, pois ele tem um compromisso mais tarde, vai se encontrar com o diretor dos serviços voluntários na Mercy International, uma organização que envia médicos para zonas de guerra, campos de refugiados e clínicas para os sem-teto. Foi a última organização para a qual Jonathan tra­balhou; alguém entrara em contato com Lanny logo após ela e Luke chegarem ao Quebec, procurando por Jonathan. Ele havia dado o endereço dela à organização, como um ponto de contato durante a ausência dele, mas ele nunca retornou e eles queriam saber se Lanny sabia onde ele estava. Por um momento, ela ficou sem fala, depois retomou o controle e disse que conhecia outro médico que poderia doar seus serviços, desde que pudesse permanecer em Paris. Luke está feliz pela entrevista, contente que Lanny saiba que ele não será feliz se não puder usar seu treinamento médico, e espera que seu francês enferrujado seja bom o bastante para ajudar os imigrantes do Haiti e do Marrocos.

Luke seleciona o último item a ser despachado, uma enorme tapeçaria que será enviada a um museu têxtil em Bruxelas. A tapeçaria estava enrolada como um tapete e espremida contra uma prateleira lotada de todo tipo de bugiganga. Metade das portas de vidro foi deixada aberta e algo cai da prateleira enquanto Luke luta para manter a tapeçaria de pé.

Ele se inclina para pegá-lo. É uma pequena bola de camurça e ele reconhece a maneira que a camurça está dobrada, o jeito fortuito de Lanny empacotar as coisas. Há alguma coisa dentro daquele pedaço de tecido empoeirado. Ele o abre cuidadosamente, quem sabe o que há lá dentro, e encontra um pequeno objeto de metal. Um frasco, para ser mais preciso, mais ou menos do tamanho do dedo mindinho de uma criança. Embora esteja coberto de musgo e escurecido pela idade, pode-se dizer que é um trabalho tão delicado quanto uma joia. Com os dedos tremendo, ele puxa a tampa e tira a rolha. Está vazio.

Ele cheira o frasco vazio. Sua cabeça vai a mil: pode até estar vazio, mas há maneiras de se analisar o resíduo. Poderiam enviar para um laboratório e descobrir os ingredientes do elixir, as proporções. Poderiam tentar fazer uma amostra e, provavelmente, depois de algumas tentativas e erros, teriam sucesso. Recriar a poção significaria viver com Lanny para sempre. Ela não estaria sozinha e, claro, outras pessoas teriam interesse na imortalidade. Poderiam vendê-la por quantias absurdas, espalhar pelas línguas dos clientes feito hóstias de comunhão. Ou poderia ser tudo por caridade, afinal, de quanto dinheiro alguém realmente precisa? Poderiam oferecê-lo às grandes cabeças para ser estudado. Quem saberia que tipo de impacto isso teria sobre a medicina e a ciência? Um elixir que regenera tecidos machucados poderia revolucionar o tratamento dos ferimentos e das doenças.

Isso mudaria tudo. Assim como revelar a condição de Lanny ao mundo. Luke suspeita, no entanto, que a análise do resíduo não revelaria nada. Algumas coisas resistem ao escrutínio, não podem ser examinadas em plena luz do dia. Uma pequena fração de uma porcentagem de ocorrências não pode ser explicada ou reproduzida. Quando era estudante de Medicina, ouviu falar sobre algumas dessas frações, que foi comentada espontaneamente por um sábio e velho professor no final de uma palestra, sussurrada entre os alunos enquanto lotavam a sala de cirurgia após uma dissecação. Há alguns médicos e pesquisadores que descartam tais histórias e querem acreditar que a vida é mecânica, que o corpo não é nada além de um sistema de sistemas, como uma casa. Que viverá desde que coma isso, beba aquilo, siga essas regras, como se houvesse uma receita para a vida; consertar o cano ou arrumar a moldura quando estragarem, pois seu corpo é somente um navio que carrega sua consciência.

Luke acredita que o corpo não seja tão objetivo assim. Mesmo que um cirurgião fosse procurar algo dentro de Lanny, e que pesadelo seria, o corpo tentando se fechar mesmo com as mãos e os instrumentos ainda lá dentro, não encontraria qual parte dela mudara para fazê-la eterna. Nem mesmo exames de sangue e biópsias ou quaisquer exames radiológicos. Ela até poderia dar a poção para ser analisada, dar a receita para que milhares de químicos a recriassem, mas Luke acha que nenhum deles seria capaz de duplicar o resultado. Há uma força em movimento dentro de Lanny, ele pode sentir isso, mas, se ela é espiritual, mágica, química ou algum tipo de energia, ele não faz ideia. Tudo o que sabe é que o milagre da existência de Lanny, assim como a fé e a oração, funciona melhor na solidão, protegido do ceticismo e da força bruta da razão e que, se sua situação fosse a público, ela poderia se reduzir a pó ou evaporar como o orvalho sob a luz do sol. É por isso que nenhum dos outros (aqueles outros de quem Lanny lhe contou, Alejandro, Dona e a diabólica Tilde) nunca vieram a público, Luke imagina.

Ele rola o frasco entre os dedos como um cigarro e, então, rapidamente, coloca-o embaixo do calcanhar e joga todo seu peso sobre ele. O frasco dobra-se tão facilmente quanto uma folha de papel, fica totalmente amassado. Luke vai até a janela, abre-o, e atira o pedaço de metal o mais longe que consegue, sobre o teto de seus vizinhos, e não acompanha o trajeto com os olhos. Sente um alívio imediato. Talvez devesse ter falado com Lanny antes de destruir o frasco, mas não; ele sabe o que ela teria dito. Está feito.

Agradecimentos

Ainda que seja óbvio que Ladrão de almas é um trabalho fruto da imaginação, foi feito um pouco de pesquisa, especialmente no que se refere à história do estado do Maine. Eu me baseei em dois livros em particular: Maine in the Early Republic, editado por Charles E. Clark, James S. Leamon e Karen Bowden (University Press of England, 1988) e Liberty Men and Great Proprietors: the Revolutionary Settlement on the Maine Frontier 1760-1820, escrito por Alan Taylor (University of North Carolina Press, 1990). Quaisquer erros ou falta de precisão são de minha responsabilidade.

Diz-se, geralmente, que a vida de um escritor é solitária e que escrevemos em solidão. Embora isso seja, em grande parte, verdade, seria impossível transformar o trabalho em uma publicação sem contar com a ajuda e a boa disposição de muitas pessoas ao longo da jornada. Gostaria de agradecer aos leitores das versões prévias desse romance, incluindo Dolores, Lia, Randy, Lisa, Jill, Kelley e Kevin; meus professores da John Hopkins, Tim Wendel, Richard Peabody, Elly Williams, David Everett e Mark Farrington; Elyse Cheney e Jeff Kleinman pelo apoio inicial; e os maravilhosos organizadores do Squaw Valley Community of Writers.

Meu enorme agradecimento a Tricia Bockowski, minha editora na Gallery Books, pelo direcionamento editorial e bom humor sem limites para fazer com que esse romance fosse publicado. Agradeço também a todos na Gallery por seus esforços em meu nome.

Agradecimentos imensos e eternos a Kate Elton, minha editora na Century, e a sua assistente, Anna Jean Hughes, pelo incrível entusiasmo e apoio ao romance.

Também devo agradecer a Nicki Kennedy, Sam Edenborough e Katherine West, agentes de direitos internacionais na Intercontinental Literary Agency, e aos editores das edições estrangeiras de Ladrão de almas, pela confiança nesse primeiro trabalho: Giuseppe Strazzeri, publisher, e Fabrizio Cocco, editor, na Longanesi; Cristina Arminana, na Mondadori; Katarzyna Rudzka, na Proszinski Media; e EKSMO Pusblishing. Meus agradecimentos também a Matthew Snyder, na Creative Artists Agency, por ver um futuro promissor em Ladrão de Almas.

Meu profundo agradecimento a Peter Steinberg, meu agente, não só por acreditar no romance, mas também por seu habilidoso trabalho editorial, que pegou uma história instável e a transformou nesse romance que hoje você, leitor, tem nas mãos.

Obrigada a minha família por ter aturado minhas manias de escritora desde que eu era uma criancinha mal-humorada.

E, claro, todo meu amor a meu marido, Bruce, que permitiu, pacientemente, que eu ficasse enfiada por horas incontáveis dentro do livro, e que fez todos os meus sonhos se tornarem realidade.






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