No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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— E você... — aproveitei a oportunidade para mudar de assunto, exaurida por trazer à tona todas aquelas memórias. — Com certeza não ficou sozinho esse tempo todo. Casou-se novamente?

Ele torceu a boca, mas não falou nada.

— Não me diga que ficou sozinho todo esse tempo? Isso teria sido muito triste.

— Bem, eu não diria sozinho. Raramente se fica sozinho quando se é um médico nesses vilarejos... era sempre convidado para comer com eles, participar de suas cerimônias. Partilhar a vida deles. — Os olhos dele fechavam-se por instantes cada vez mais demorados e um langor tomou conta de seu rosto. Peguei um cobertor e coloquei sobre ele. Ele abriu os olhos por um breve momento.

— Vou voltar para o Maine; quero ver tudo de novo. É por isso que procurei você, Lanny. Quero que vá comigo. Você vai?

Tive que me controlar para não chorar, com a perspectiva de voltar para casa com Jonathan.

— Claro que sim.

48

Tomamos um daqueles aviões gigantescos para a viagem de volta à América. De Nova York, pegamos um voo com conexão até Bangor e, então, alugamos um carro esportivo para irmos até o norte. Não via essa terra havia dois séculos e, por mais louco que pareça, algumas partes pareciam ter mudado muito pouco. O restante eram estradas asfaltadas, casas de fazenda vitorianas, imensos campos de plantações bem-cuidadas, as mangueiras dos canos de irrigação girando no horizonte. Vista pelo espelho retrovisor, era fácil me enganar e achar que nunca estivera aqui. Então, a estrada cortava uma das planícies das fazendas, em direção à Floresta Great North. Mergulhamos na floresta escura e fresca, ladeados pelos troncos das árvores, o céu tampado por um cobertor de folhas. O carro descia e subia, seguindo o movimento do terreno, e desviava dos seixos que brotavam da terra, agora escorregadia como limo. Eu me lembrava de tudo. Vi as árvores e fui levada para duzentos anos antes, repleta de memórias de minha primeira vida, minha verdadeira vida, aquela que haviam tirado de mim. Imagino que Jonathan sentia a mesma coisa.



Sentimos nossa terra natal ficar cada vez mais próxima. A viagem passara rápido dentro do carro. A última vez que fizemos essa viagem havia sido dentro da carruagem, Jonathan em choque pelo que eu fizera a ele, mal me dirigindo a palavra.

Ficamos mudos ao nos aproximarmos da cidade. Como tudo mudara! Nem tínhamos certeza se estávamos no caminho certo, a estrada principal atravessava o meio da cidade, era a mesma trilha empoeirada das charretes que levavam até a novata St. Andrew, duzentos anos antes. Onde estavam a igreja e o cemitério? Será que conseguiríamos ver a congregação daqui? Passamos o mais vagarosamente que pudemos, assim podíamos tentar sobrepor a cidade que lembrávamos a esta em nossa frente.

St. Andrew não se tornara como as muitas outras cidades da América, onde cada loja, restaurante e hotel é o produto de uma empresa multinacional e de seus correspondentes genéricos. Pelo menos St. Andrew tinha alguma individualidade, mesmo que tenha perdido o objetivo original. As imensas fazendas espalhadas haviam desaparecido e não havia nem sinal dos negócios de madeira nos últimos vinte quilômetros. O turismo tinha tomado o seu lugar. Lojas de roupas e materiais para expedições na floresta se alinhavam dos dois lados da estrada principal, estabelecimentos onde homens bem-cuidados, com roupas resistentes, acompanhavam outros homens e mulheres pela floresta ou pelo rio Allagash. Ou os levavam para o meio do rio com galochas de pesca, esperando o dia todo por um peixe que soltariam depois de terem tirado uma foto com ele. Havia lojas de artesanato e pousadas onde outrora houvera casas de fazenda e celeiros, a fundição de Tinky Talbot e a loja de mantimentos dos Watford. Ficamos surpresos ao descobrir, finalmente, que a congregação provavelmente fora demolida e que o centro da cidade era agora ocupado por uma loja de ferramentas, uma sorveteria e uma agência do correio. Pelo menos o cemitério fora mantido.

Essa nova geração de habitantes certamente o achou agradável o bastante e, se não soubesse o que fora dois séculos atrás, eu também não faria objeção. A cidade agora vivia de prestar serviços às hordas de turistas e parecia decadente; como descobrir que sua casa de infância fora transformada num bordel, ou, pior, numa loja de conveniência? St. Andrew havia trocado sua alma por um jeito mais fácil de viver, e quem era eu para julgar?

Hospedamo-nos num hotelzinho para turistas aventureiros, fora da cidade. O Dunratty’s se parecia com um velho motel, desgastado por causa da indiscutível falta de cuidado, e hospedava caçadores sazonais e pescadores; portanto, era de se esperar certa austeridade. Havia um conjunto de dez quartos ou mais formando um bloco, anexo à recepção. Pedimos uma cabana, a que ficasse mais para o interior da floresta. O atendente não disse nada, só olhou discretamente procurando pela presença de rifles ou varas de pescar e, nada encontrando, voltou vagarosa e resignadamente a seu trabalho. Perguntou se éramos casados, como se importasse que uma daquelas cabanas escuras fosse usada como um ninho de amor. Fomos informados de que, exceto por nós, o lugar estava vazio; tudo estaria muito quieto. Ele estaria disponível na casa, se precisássemos de alguma coisa, e apontou para uma direção indecifrável, mas, caso contrário, ninguém nos incomodaria.

A cabana era lúgubre, com as quatro paredes forradas com papel de parede barato, o teto mal forrado com madeira compensada. O espaço era dominado por duas camas um pouco maiores do que camas de solteiro, mas não tão grandes quanto uma cama de casal, com armações de metal da era da Depressão, separadas por uma pequena cômoda colocada no lugar de um criado-mudo, com um abajur de louça em cima. Duas poltronas com o forro surrado estavam de frente para o que parecia ser uma televisão de trinta anos atrás. De um lado, havia uma mesa pequena e redonda, acompanhada de três cadeiras de madeira sem braço. Atravessando a porta, encontrei uma cozinha pequena e funcional e, passando por uma segunda porta, um banheiro quase mofado. Eu ri quando Jonathan jogou as malas sobre uma das camas.

— Vamos ficar aqui? — perguntei, incrédula. — Deve haver outro lugar melhor. Talvez na cidade...

Jonathan não falou nada e ficou em pé diante de um conjunto de portas corrediças. Além do deque comum de madeira, ficava a floresta; troncos imensos e grossos subiam acima de nós, rangendo ao vento. Abrimos a porta e pisamos na floresta, o ar límpido nos lambendo por todos os lados. Ficamos parados no modesto quadrado do deque e olhamos para a floresta sem-fim durante um tempo imensurável. Esse era o lar que conhecíamos; ele nos encontrara.

— Vamos ficar aqui — Jonathan finalmente respondeu.

Saímos da cabana por volta das 5 horas da tarde, ansiosos para dar uma olhada em tudo antes do pôr do sol. Foi difícil encontrar o caminho; as estradas que esperávamos nos levar numa direção, nos levavam para outro lugar, completamente diferente, já que a área havia passado por várias mudanças ao longo dos anos. A atual rede de rodovias fora construída pelas empresas madeireiras e passava por quilômetros e quilômetros dentro da floresta, sem nenhuma razão aparente, levando direto à estrada principal, que, por sua vez, nos levava à junção do rio Allagash com o St. John. Depois de duas iniciativas frustradas, encontramos uma estrada que nos lembrava a trilha das charretes que levava até a casa de Jonathan, e foi com um sinal silencioso dele que percorremos a estrada até o fim.

Atravessamos um túnel de árvores enormes até chegarmos a uma área limpa, que um dia fora os campos de feno em frente da casa dos St. Andrew. A estrada mudara, não passava mais pelo canal do depósito de gelo para depois subir até a casa principal, mas eu reconheci o formato do terreno. Agora, uma estrada passava pelo lado direito da casa, que ainda permanecia em pé sobre a escarpa. Aumentamos um pouco a velocidade, ansiosos para vê-la novamente, e, conforme chegávamos mais perto, fui soltando o acelerador. A casa ainda estava de pé, porém só alguém que tivesse vivido lá um dia seria capaz de reconhecê-la.

A casa, em outros tempos gloriosa, fora abandonada até apodrecer. Era como um cadáver exposto aos elementos do tempo, um esqueleto, cujas características pelas quais se conhecia a pessoa tivessem sido destruídas. A grandiosa casa de outrora sucumbira; sem pintura, com telhas de ardósia faltando no telhado, ripas de madeira como costelas faltando no torso. Até mesmo a fileira de pinheiros à frente, que formava uma proteção do vento, estava se deteriorando, os pinheiros magros e abandonados, como as árvores que se encontram em cemitérios.

— Está abandonada — Jonathan disse.

— Quem imaginaria... — repliquei, não sabendo o que dizer. — Ah, Jonathan... pelo menos a deixaram no mesmo lugar. Você viu o lugar onde era a casa de minha família: nada além de um cruzamento de ruas, agora. A vida continua, não é?

Jonathan ficou quieto em resposta à minha tentativa de animá-lo. Demos meia-volta no carro e voltamos à cidade.

Naquela noite, fomos a um pequeno restaurante no centro da cidade para jantar. Se é que se poderia chamar aquilo de restaurante, pois era um lugar onde podíamos comprar refeições, mas não lembrava nem de longe o tipo de restaurante que eu estava acostumada a frequentar. Era mais como um vagão-restaurante, com uma dúzia de mesas de tampo laminado, cada uma rodeada por quatro cadeiras de tubo de metal. As toalhas de mesa eram impermeáveis, os guardanapos, de papel. Os cardápios estavam cobertos de um plástico amarelado e grudento, podia apostar que não haviam sido trocados nos últimos vinte anos. Havia cinco clientes, incluindo Jonathan e eu. Os outros eram todos homens vestindo jeans, camisas de flanela e um tipo de gorro. A garçonete era, provavelmente, também a cozinheira. Lançou-nos um olhar crítico enquanto nos passava os cardápios, como se estivesse em dúvida sobre nos servir ou não. Música country tocava suavemente no rádio.

Pedimos comida que há muito tempo não víamos, se é que víamos, vivendo no exterior: filé de bagre frito, frango e bolinhos de carne, o tipo de comida que chega quase a ser exótica, de tão incomum. Nós esperamos, tomando cerveja e falando pouco, os dois com a impressão de que os outros clientes nos observavam. A garçonete, com cabelos parecendo arame enrolado e sulcos no rosto, olhou explicitamente para nossas refeições, comidas pela metade, antes de nos perguntar se queríamos alguma sobremesa. — A torta é boa — disse impassível, como se fazendo uma observação geral.

— Foi frustrante visitar sua casa? — eu perguntei, depois que a garçonete nos trouxe mais duas cervejas. Jonathan balançou a cabeça.

— Deveria ter esperado isso mesmo. Mesmo assim, não estava preparado.

— É tudo tão diferente, mas, ao mesmo tempo, tudo tão igual! Me sinto deslocada; se você não estivesse comigo, iria embora.

Saímos do restaurante e caminhamos pela rua. Estava tudo fechado, exceto um pequeno bar, o Blue Moon, a julgar pelo sinal de néon em forma de lua crescente. Parecia romântico, e estava completamente cheio de homens, caminhoneiros e lenhadores assistindo a um evento esportivo na televisão. Depois que a parte comercial da cidade havia fechado, chegamos ao cemitério da igreja. Havia um luar fraco, o suficiente para vagarmos entre as lápides.

O cemitério tornara-se deserto e coberto de vegetação. Arbustos de frutas silvestres e urtiga tomavam conta da parede de pedra, encobrindo as colunas gêmeas que, um dia, marcaram a entrada, e engoliam algumas das marcações. Anos de geadas e solo congelado haviam tirado algumas lápides do lugar; outras sofreram a erosão do tempo ou foram destruídas por vândalos. Achei meu caminho pelos túmulos rapidamente, sem a menor vontade de visitar os antigos vizinhos desse jeito, enquanto Jonathan ia de túmulo em túmulo, tentando ler os nomes e as datas, arrancando as ervas daninhas que subiam nas pedras. Ele estava tão triste e tão pesaroso que tive que controlar minha vontade de fazê-lo ir embora.

— Veja, é a lápide de Isaiah Gilbert — Jonathan falou em voz alta. — Ele morreu em... 1842.

— Viveu um tempo respeitável. Uma longa vida boa — respondi, de volta do lugar onde eu estava, fumando e tentando fugir das memórias e da vertigem.

A essa altura, Jonathan já tinha se virado para outro túmulo. Ele estava de cócoras, sobre os calcanhares, olhando pelo cemitério.

— Fico imaginando se todos que conhecemos estão aqui, em algum lugar.

— É inevitável que alguns deles tenham ido embora. Encontrou alguém de minha família?

— Será que eles não estariam no cemitério católico do outro lado da cidade? — ele perguntou, andando por uma passagem, olhando lápide por lápide. — Podemos ir até lá depois, se quiser.

— Não, obrigada! Não tenho nenhuma curiosidade.

Sabia que Jonathan havia encontrado algo significativo quando ele se ajoe­lhou perto de uma lápide dupla. A pedra estava desgastada e manchada pelo tempo, a parte de trás, larga e plana, de costas para mim, de modo que eu não podia ler a inscrição.

— De quem é essa aí? — perguntei enquanto me aproximava.

— Do meu irmão. — As mãos dele passavam sobre as palavras entalhadas. — Benjamin.

— E Evangeline. — Eu toquei o outro lado do túmulo. — Evangeline St. Andrew, esposa amada. Mãe de Ruth.

— Então eles se casaram.

— Honra de família? — eu perguntei, limpando as letras com as pontas dos dedos. — Parece que ela não viveu muito tempo.

— E Benjamin foi enterrado ao lado dela; ele nunca se casou de novo.

No decorrer das horas seguintes, encontramos a maior parte da família de Jonathan: sua mãe e, mais tarde, sua filha Ruth, a última St. Andrew a viver na cidade. As irmãs de Jonathan não estavam lá, o que o levou a ter esperança de que elas teriam se casado e saído da cidade para constituírem famílias felizes e bem-sucedidas em algum outro lugar, e serem enterradas ao lado de seus maridos numa vizinhança mais alegre. Ele queria acreditar que elas haviam escapado de toda a melancolia de St. Andrew.

Levei Jonathan de volta à cabana. Havia trazido, escondidas, da França, em minha mala, duas garrafas de um cabernet extraordinário. Tiramos a rolha de um e deixamos respirar sobre a bancada enquanto nos deitamos na cama. Segurei Jonathan bem perto até que o frio tivesse deixado seu corpo e, então, o despi. Ficamos deitamos na cama entre os lençóis de algodão amaciados e surrados, tomando goles de cabernet em copos de vidro e conversando sobre nossa infância, irmãos e irmãs, amigos e inimigos; nossos entes queridos mortos havia muito tempo, decompostos e matérias inertes no chão, enquanto nós estávamos inexplicavelmente vivos. Não tinha coragem de contar a ele sobre Sophia. Falamos sobre pessoas queridas, até que Jonathan caiu no sono; então, chorei pela primeira de muitas vezes.

49

Não houve mais excursões para reviver o passado: nem visitas ao cemitério nem tentativas de refazer os caminhos pela floresta, antes conhecidos, mas agora quase inexistentes e fantasmagóricos. Caminhamos ao longo do Allagash, observando alces e veados e admirando a luz do sol do Maine brilhar sobre a correnteza, em vez de ficarmos falando sobre eventos que ocorreram nesse ou naquele lugar. Passamos o restante do tempo silenciosamente na companhia um do outro.



O tempo que passávamos juntos tornou-se uma droga da qual eu não me saciava e comecei a pensar que talvez pudéssemos nos perder aqui, onde tudo havia começado. Não teríamos que viver necessariamente em St. Andrew; como a cidade mudara tanto, talvez fosse incômodo ficar aqui. Poderíamos encontrar algum pedaço de terra na floresta e construir uma cabana, onde viveríamos longe de tudo e de todos. Sem jornal, sem o tique-taque insistente do tempo nos cutucando no ombro, reverberando em nossos ouvidos. Sem fugir do passado a cada cinquenta ou sessenta anos, para surgir como uma nova pessoa, em outro lugar, ou melhor, fingir ser outra pessoa, tão nova quanto um pintinho que acabou de sair do ovo, mas, por dentro, sentindo-me como a pessoa que sempre fui e da qual nunca pude fugir.

Uma noite, estávamos no deque da cabana deteriorada, enrolados em nossos casacos, sentados em duas cadeiras de dobrar, bebendo vinho em copos de vidro e olhando para a lua no céu. Jonathan direcionou nossa conversa de volta ao passado, o que me deixou incomodada. Ele se pôs a imaginar se Evangeline tivera uma vida difícil e infeliz depois que ele desaparecera e se ele teria sido a causa da morte prematura de sua mãe. Eu disse que sentia muito, repetidamente, mas Jonathan não queria ouvir, balançando a cabeça e dizendo que não, que fora culpa dele, que ele fora terrível comigo, tirando vantagem do meu óbvio amor por ele.

— Mas, veja bem, eu quis tanto você! — disse a ele. — A culpa não foi toda sua.

— Vamos até lá de novo — Jonathan disse —, àquele lugar na floresta onde costumávamos nos encontrar; o lugar com as mudas de vidoeiros. Tenho pensado muito nele, o lugar mais lindo do mundo. Acha que elas ainda estão lá? Odiaria se alguém as tivesse cortado.

Zonza e quente de beber, subimos na SUV, embora eu tenha voltado para dentro da cabana para buscar um cobertor e uma lanterna. Segurei a garrafa de vinho aberta sobre o peito enquanto Jonathan manobrava o veículo pela floresta. Tivemos que deixar o carro ao lado da estrada de madeira e percorrer os últimos 200 metros a pé.

Conseguimos encontrar a clareira, embora estivesse mudada. As mudas cresceram até certa altura e então pararam. Os galhos mais altos agora se tocavam, fechando a abertura da abóbada, encobrindo as mudas que tentavam seguir o exemplo delas. Lembro-me dessa clareira, de quando, ainda crianças, nos encontrávamos para rir e contar histórias sobre nossas vidas solitárias, mas o tempo havia levado embora sua beleza particular. A clareira não era mais abençoada e alegre; era como qualquer outro pedaço da floresta, nem mais nem menos.

Estiquei o cobertor sobre o chão e nos deitamos de costas, tentando ver o céu da noite através da folhagem da abóboda, mas havia só alguns lugares por onde conseguíamos espiar as estrelas. Tentamos acreditar que aquele era o mesmo lugar onde nos encontrávamos, mas ambos sabíamos que poderia ser cinco passos para oeste ou 200 metros para a esquerda. Resumindo, era um lugar tão bom quanto qualquer outro na floresta, desde que as folhas do topo das árvores rareassem, desde que pudéssemos deitar de costas e ver as estrelas.

Pensar em minha infância me fez lembrar do fardo que tenho carregado todo esse tempo. Chegara a hora de contar a Jonathan a verdade sobre Sophia. Antigos segredos têm sempre maior impacto, e eu estava aterrorizada sobre como Jonathan reagiria. Nosso encontro poderia terminar nessa noite; ele poderia me banir para sempre de sua vida, dessa vez. Esse medo quase me fez desistir, mais uma vez, mas não podia mais carregar esse peso comigo. Tinha que falar.

— Jonathan, há algo que preciso lhe contar. É sobre Sophia.

— Hummm? — ele se mexeu perto de mim.

— Foi minha culpa ela ter se matado. Minha culpa. Menti para você quando me perguntou se tinha ido vê-la. Eu a ameacei; disse que estaria arruinada se tivesse o bebê, disse que você nunca se casaria com ela, que não queria mais saber dela. — Sempre imaginei que cairia no choro quando fizesse essa confissão, mas nada aconteceu. Meus dentes começaram a bater e meu sangue congelou em minhas veias.

Ele se virou para mim, embora não pudesse ler a expressão de seu rosto no escuro. Alguns longos segundos se passaram antes que ele respondesse:

— Esperou esse tempo todo para me contar isso?

— Por favor, por favor, me perdoe!

— Está tudo bem, de verdade. Pensei muito sobre isso ao longo desses anos. É engraçado como vemos as coisas diferentes com o tempo. Naquela época, imaginei que meu pai e minha mãe nunca teriam permitido que eu me casasse com Sophia. Mas o que eles poderiam ter feito para me impedir? Se eu ameaçasse abandonar a família para ficar com Sophia e o bebê, eles não teriam me deserdado; teriam concordado. Eu era a única esperança deles para dar continuidade aos negócios, para cuidar de Benjamin e das garotas depois que eles morressem. Só que não via assim naquela época. Não sabia o que fazer e, então, recorri a você. Injustamente, vejo isso agora. Então... a culpa é tão minha quanto de qualquer outra pessoa que Sophia tenha se suicidado.

— Teria se casado com ela? — perguntei.

— Não sei... pelo bem da criança, possivelmente.

— Você a amava?

— Foi há tanto tempo, não me lembro dos meus sentimentos, exatamente. — Ele poderia estar falando a verdade, mas não percebeu que me deixava louca com esse tipo de resposta. Tinha certeza de que ele colocava as mulheres de sua vida numa longa lista de prioridades, e eu queria muito saber qual era minha posição, quem estava na frente, quem estava atrás. Queria que nossa história complicada fosse simplificada: certamente as coisas tinham se resolvido com a passagem de tantos anos. Jonathan devia saber como se sentia agora.

Sentei-me, sem tocar em Jonathan, o que me deixou um pouco nervosa. Eu precisava da segurança do toque dele para saber que ele não me odiava. Mesmo que não me culpasse pela morte de Sophia, podia estar enojado por todas as coisas terríveis que eu fizera.

— Está com frio? — perguntei.

— Um pouco. E você?

— Não. Tudo bem se eu me deitar do seu lado? — Tirei minha jaqueta e a estendi sobre nós dois. Nossos hálitos congelantes pairavam sobre nós como espectros, enquanto admirávamos o céu noturno.

— Sua mão está gelada. — Ergui a mão de Jonathan e soprei um hálito morno sobre ela, antes de beijar cada dedo. Tomei seu rosto em minhas mãos.

— Seu rosto está gelado. — Também não houve protesto quando eu passei a mão sobre seu rosto cheio de penugem, seu lindo nariz e suas pálpebras finas feito papel. A partir daí, não houve interrupção, quando tirei peça por peça da roupa de Jonathan até abrir caminho por seu peito e sua virilha. Então, tirei minha roupa e fiquei por cima dele, a flanela do forro de minha jaqueta roçando em meus quadris.

Fizemos amor ali mesmo, embaixo das estrelas. Nós nos mexemos durante o ato sexual, porém, algo mudara entre nós. O sexo era vagaroso e carinhoso, quase cerimonial; mas como podia reclamar? O turbilhão de nossa paixão de juventude havia passado e em seu lugar ficara algo amoroso, mas que me deixava triste. Era como se estivéssemos nos despedindo.

Quando terminamos, alcancei o bolso de minha jaqueta para pegar um cigarro. Uma tragada de fumaça foi expelida no ar gelado, a quentura em meus pulmões se acalmando. Continuei a tragar o cigarro enquanto Jonathan passava os dedos na parte de cima de minha cabeça.

Fiquei imaginando o que aconteceria ao final dessa viagem. Jonathan não dissera nada e eu não tinha certeza de quando terminaria. As passagens estavam com a volta em aberto e Jonathan não mencionara quando o esperavam de volta ao campo de refugiados. Não que a viagem ainda fosse se arrastar por muito mais tempo; não havia acontecido nada além de decepções (com desejos intermitentes de “felizes para sempre”) e lembranças de perdas, somente com as árvores e o lindo céu para nos acolherem de volta.

Eu também não conseguia deixar de lado a dúvida mesquinha de que eu era a causa da melancolia de Jonathan. Será que o tinha decepcionado ou, talvez, ele ainda não tivesse me perdoado? Ainda não tínhamos conversado sobre a razão de ele ter me deixado e achei que sabia qual era: que, após anos de frustrações e recriminações, ele se cansara de me decepcionar.

Dessa vez, entretanto, não era sobre ficarmos juntos para sempre, era sobre algo mais; só não tinha certeza do quê. Ele queria estar comigo, isso era óbvio; caso contrário, não teria me convidado para fazer essa viagem com ele. Se estivesse zangado, nunca teria me procurado, enviado e-mail, bebido champanhe, beijado meu rosto, me deixado levá-lo para a cama. Eu era insegura ao lado dele e sempre seria, o fardo do amor como uma pedra amarrada a meu pescoço.

— O que gostaria de fazer amanhã? — perguntei, fingindo indiferença, amassando o cigarro no chão. Jonathan ergueu o queixo em direção às estrelas e fechou os olhos. — Bem, então... — eu falei lentamente quando ele não respondeu — ... quanto tempo mais vai querer ficar? Não estou lhe apressando; ficarei o quanto você quiser.




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