No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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— Eu me preocupava se ele havia escapado, claro — ela diz, assentindo quase imperceptivelmente. — Mas aquela sensação, aquela conexão havia desaparecido. Não havia nada para prosseguir. Voltei lá uma, duas vezes. Tinha medo do que ia encontrar, sabe; ver se a casa ainda estava em pé. E estava. Por muito tempo foi usada por uma família. Eu andava ao redor do quarteirão, tentando sentir a presença de Adair. Nada. Então, um vez voltei e vi que a casa havia sido transformada numa funerária, se é que pode acreditar. A vi­zinhança estava passando por tempos difíceis... Podia imaginar os quartos onde eles trabalhavam nos corpos, no porão, apenas a alguns passos de onde Adair estava enterrado. A incerteza era muito... — Lanny descarta o cigarro em sua mão e imediatamente acende outro. — Então, pedi a meu advogado que entrasse em contato com a funerária com uma oferta para comprá-la. Como disse, havia a recessão; foi um valor melhor do que os proprietários esperavam ver em suas vidas... então, aceitaram. Assim que eles se mudaram, fui lá sozinha. Era difícil imaginá-la como a casa que eu conhecera; tanta coisa havia mudado! A parte do porão, embaixo das escadas da frente, tinha sido reformada. Chão de cimento, fornalha e aquecedores de água. A parte de trás não fora modificada. Não havia eletricidade e permanecia escura e úmida. Fui até o local onde... pusemos Adair. Não dava para dizer onde a parede original terminava e onde a parte que Jonathan construíra começava. Tudo havia envelhecido junto àquela altura. Mesmo assim, não havia nenhuma sensação vinda de trás das pedras. Nenhuma presença. Não sabia o que pensar. Fiquei quase tentada, quase, a colocar a parede abaixo. É como aquela voz perversa em sua cabeça que diz para pular quando está bem perto da borda. — Ela sorri com pesar. — Eu não fiz nada, obviamente. Na verdade, mandei reforçar a parede com barras de aço e cimento. Tinha que ser cuidadosa; não queria que a parede fosse estragada durante a construção. Está bem selada e fechada agora. Durmo muito melhor. — Ela não dorme bem; Luke aprendeu pelo menos isso durante o curto tempo que estiveram juntos.

Ele precisa tirá-la do lugar onde a deixou, o porão escuro com o homem que ela condenara. Luke a alcança do outro lado da mesa e pega sua mão.

— Sua história... ainda não terminou, não é? Então, você e Jonathan saíram juntos da casa de Adair; o que aconteceu depois?

Lanny parece ignorar a pergunta por um momento, estudando a bituca do cigarro em sua mão.

— Ficamos juntos por mais alguns anos. A princípio, ficamos juntos porque era, acima de tudo, a melhor coisa a fazer. Podíamos cuidar um do outro, dar cobertura um para o outro, como de fato aconteceu. Foram tempos aventureiros. Viajávamos muito, porque precisávamos, porque não sabíamos como sobreviver. Aprendemos a criar novas identidades, a nos tornarmos anônimos, apesar de ser muito difícil para Jonathan não chamar atenção. As pessoas eram sempre levadas por sua beleza excepcional. Ficava cada vez mais evidente que estávamos juntos porque era o que eu queria. Uma imitação de casamento, mas sem intimidade. Éramos como um casal velho num pacto de amor, e eu forçara Jonathan a desempenhar o papel do marido sem-vergonha.

— Ele não precisava se extraviar — Luke retrucou.

— Era a natureza dele. E as mulheres que se interessavam por ele... era uma fila interminável. — Ela bate a cinza no pires que estão usando como cinzeiro. — Nós dóis nos sentíamos muito mal. Chegou a ponto de ser doloroso ficarmos na presença um do outro; não nos entendíamos e dizíamos coisas dolorosas um ao outro. Às vezes eu o odiava e queria que ele fosse embora. Eu sabia que teria que ser ele a me deixar, pois nunca teria força para ir embora. Então, um dia, acordei e encontrei um recado no travesseiro a meu lado. — Ela ri, ironicamente, como se estivesse acostumada a observar sua dor a distância. — Ele escreveu: “Me perdoe. É melhor assim. Prometa que não virá me procurar. Se eu mudar de ideia, eu a encontrarei. Por favor, respeite o meu desejo. Seu querido, J.”.

Ela para, amassando o cigarro no pires. Sua expressão é dura e levemente distraída, enquanto olha fixamente através das janelas altas.

— Ele finalmente encontrou coragem para partir; foi como se tivesse lido meu pensamento. Claro, sua ausência foi agonizante. Queria morrer, certa de que nunca mais o veria de novo. Mas a vida continua, não é? De qualquer jeito, não tinha escolha, porém ajuda pensar que se tem.

Luke se lembra de como é sentir-se exaurido pela tensão, lembra-se daqueles dias quando ele e Tricia não suportavam estar no mesmo quarto. Quando ele se sentava no escuro e tentava imaginar como se sentiria se eles se separassem, a paz que tomava conta dele. Não havia dúvida de que ela teria que ir embora, ele não deixaria suas filhas nem sua casa de infância, mas quando sua família foi embora e ele ficou sozinho na casa da fazenda, não se sentia sozinho. Era como se algo tivesse sido violentamente arrancado dele, como se tivesse sido amputado.

Ele lhe dá um momento, para ela dobrar a dor e guardá-la de volta em seu lugar.

— Não estava terminado, não é? Obviamente vocês se viram de novo.

A expressão dela é inescrutável, clara e sombria.

— Sim, nós nos encontramos.

47

PARIS, UM MÊS ANTES



Dia cinzento. De trás das cortinas, dei uma olhada no fino trecho de céu visível do terceiro andar de minha casa, uma das muitas casas antigas do 5º Arrondissement. Era o início do inverno em Paris, o que significava que quase todos os dias seriam cinzentos.

Liguei meu computador, fiquei em pé ao lado da escrivaninha e mexi o creme dentro do café enquanto o computador iniciava. Acho a série de zunidos e cliques inconscientemente reconfortante, como o chilrear dos pássaros ou algum outro sinal de vida externa à minha. Gosto muito da normalidade e anseio por uma rotina com a qual possa me fartar; do contrário, minha existência é completamente sem sentido.

Dei um gole no café. Embora não precise dele como a maioria, para se pôr em estado de alerta, bebo por hábito. Mal dormi, apenas cochilei; fiquei acordada até as primeiras horas da manhã, como sempre, fazendo a pesquisa necessária para o livro que eu fora contratada para escrever, mas que, agora, me entediava a ponto de perder a paciência. Quando cansei, comecei a catalogar minha coleção de cerâmica enquanto assistia a reprises de séries americanas na televisão. Tinha chegado ao ponto de pensar em enviar minha coleção de cerâmica para alguma universidade ou museu de arte, algum lugar onde pudesse ser vista. Havia me cansado de ter tantas coisas amontoadas a meu redor o tempo todo, elas me assombravam como mãos saindo do túmulo. Senti necessidade de me desfazer de algumas delas.

Meu e-mail terminou de carregar e olhei para a lista de remetentes. Negócios, na maioria: meu advogado, meu editor da pequena e cambaleante editora que publicara minhas monografias sobre cerâmica antiga da Ásia, um convite para uma festa. Que vida surpreendente tinha construído nos últimos vinte anos, como uma falsa especialista em xícaras de chá chinesas. Minha identidade falsa foi inspirada numa coleção de xícaras de valor inestimável que meu empregador chinês colocara em minhas mãos enquanto embarcava num navio britânico para escapar dos saqueadores nacionalistas. Isso aconteceu na época de O templo de Jade, uma vida anterior a essa, outra história que ninguém sabia.

Então percebi, na lista de e-mails, um endereço que não reconhecia. Do Zaire. Ah, é chamado de República do Congo agora! Eu me lembrava de quando ainda era Congo Belga. Fiz uma careta; será que conhecia alguém no Zaire? Provavelmente era só um pedido de caridade ou um engano, um falso artista se passando por um príncipe africano que precisava de um pouco de ajuda para resolver um dilema financeiro temporário. Quase o apaguei sem lê-lo, mas mudei de ideia no último minuto.

“Cara Lanny”, eu li. “Olá de quem pensou que nunca mais ia ouvir falar. Antes de mais nada, deixe-me agradecer por honrar meu último pedido e não tentar me encontrar desde que nos separamos...”

Malditas palavras inocentes, escritas em pixels trêmulos na tela. “Imprimir”, eu apertei no botão do mouse. “Imprima, maldita, preciso segurar essas palavras em minhas mãos.”

“... espero que me perdoe por me dirigir a você dessa forma. Apesar de toda conveniência, nunca deixei de achar que a correspondência por e-mail é menos educada e correta do que escrever uma carta. Tenho dificuldades em usar o telefone pela mesma razão. Mas tenho pressa e, então, tive que recorrer ao e-mail. Estarei em Paris em alguns dias e gostaria muito de vê-la enquanto estiver aí. Espero que sua agenda nos permita isso. Por favor, responda dizendo se poderá me ver... Com carinho, Jonathan.”

Sentei-me apressadamente na cadeira, os dedos colocados sobre as teclas. O que dizer? Tanta coisa guardada depois de décadas de silêncio! De querer conversar e não ter ninguém com quem falar. De falar com as paredes, com os céus, com os pombos, com as gárgulas penduradas nos pináculos da Catedral de Notre-Dame. “Graças a Deus; achei que nunca mais fosse ter notícias suas. Me desculpe; me desculpe. Isso quer dizer que você me perdoou? Fiquei esperando por você. Não faz ideia do que é ver seu nome escrito na tela do meu computador. Você me perdoou?”

Eu hesitei, fechei as mãos e cerrei os punhos, chacoalhei-as, abri-as, chacoalhei-as mais uma vez. Fiquei parada sobre o teclado. Finalmente, digitei: “Sim”.

Esperar por aquele dia foi torturante. Tentei manter minhas expectativas baixas. Sabia que não devia ter muitas esperanças, mas ainda havia uma parte de mim que alimentava sonhos românticos no que se referia a Jonathan. Era impossível não me dar ao luxo de sonhar acordada uma ou duas vezes ao dia, só para sentir esse tipo de prazer novamente. Fazia tanto tempo que eu não ansiava por alguma coisa!

Jonathan me contou sobre a vida dele num segundo e-mail. Ele havia se formado em Medicina, nos anos 1930, na Alemanha, e aproveitou-se disso para viajar a lugares pobres e remotos, e prestar serviços médicos. Quando se tinham documentos suspeitos, era mais fácil passar pelas autoridades de áreas isoladas onde precisavam de um médico e os oficiais corruptos do governo empurravam o caso. Ele trabalhara com leprosos na Ásia, vítimas de varíola no subcontinente. Um surto de febre hemorrágica o levou ao centro da África e ele permaneceu lá para administrar uma clínica médica num campo de refugiados perto da fronteira de Ruanda. Não é cirurgia cardíaca, ele digitara: ferimentos de bala, disenteria e vacinação contra sarampo. O que fosse necessário.

O que poderia responder, além de confirmar o horário e o lugar onde nos encontraríamos? O fato de Jonathan ser um médico, um anjo de piedade, me deixava muito feliz e ansiosa. Mas Jonathan esperava que eu lhe contasse sobre minha vida e, sentada diante do computador, não conseguia pensar no quê escrever. O que eu poderia dizer que não fosse vergonhoso? A vida fora difícil depois que nos separamos. Fiz coisas estúpidas, que, na época, acreditei serem necessárias à minha sobrevivência. Agora, finalmente, minha vida estava tranquila, quase como a vida de uma freira e não totalmente por falta de opção. Eu chegara a um acordo com ela.

Jonathan perceberia minha omissão, mas me assegurei de que ele não tivesse nenhuma ilusão de que eu mudara durante o tempo em que ficamos separados, pelo menos não tão drasticamente quanto ele. Em vez disso, meu primeiro e-mail para Jonathan estava cheio de amenidades: como eu ansiava por encontrá-lo e coisas do gênero.

Não consegui dormir na noite anterior ao encontro e me sentei, olhando-me no espelho. Será que estaria diferente para ele? Examinei meu reflexo atenciosamente, preocupada se houvera mudanças, como se fosse uma dessas mulheres nos comerciais, analisando as marcas do sorriso ou os pés de galinha. Nada mudara, eu sabia. Eu ainda parecia uma estudante colegial com uma eterna expressão zangada. Tinha o mesmo rosto macio que Jonathan vira no dia em que fora embora. Ainda tinha o fogo de uma jovem mulher que não fizera sexo o bastante, embora, na verdade, eu tivesse feito sexo para cinco vidas. Não queria parecer tão desesperada quando ele me visse, mas não tinha como evitar, percebi, olhando para o espelho. Sempre seria louca por ele.

Ainda olhando no espelho, imaginei se seria estranho ou enlouquecedor, quando nos encontrássemos no dia seguinte. Olhar um para o outro, o tempo poderia parar. Quanto tempo fazia desde que vira Jonathan pela última vez? Cento e sessenta anos? Não conseguia nem me lembrar em qual ano ele me deixara. Estava surpresa ao perceber que isso já não doía tão violentamente; que levara décadas, mas a dor finalmente tinha atenuado e tornara-se somente uma pulsação enfadonha, facilmente sobreposta por minha ânsia em vê-lo.

Guardei o espelho. Era hora de uma bebida. Abri uma garrafa de champanhe. Para que serviria guardá-la para amanhã na esperança de que ele voltaria para mim? Já não era motivo suficiente que Jonathan tivesse entrado em contato comigo após uma eternidade de separação? Resolvi cortar minha esperança pela raiz antes de trocar os lençóis ou colocar toalhas extras no banheiro. Ele estava vindo me visitar e nada mais.

“Encontre-me no lobby ao meio-dia”, ele instruíra em seu último e-mail. Eu mal podia esperar e, em vez disso, considerei chegar mais cedo ou ir até o quarto de Jonathan. Isso seria patético; seria melhor fingir que eu tinha algum autocontrole. Fiquei observando os minutos se arrastarem até as 11 horas, antes de sair, pegar um táxi e me dirigir ao Hotel Prix St. Germain. Da janela de trás do táxi, vi minha rua desaparecer como o desenho de um pano de fundo de um carrossel quando a música começa.

Eu já tinha ouvido falar do Hotel Prix St. Germain, mas nunca estivera lá. Era um lugar quieto, enterrado numa rua sem estilo na margem esquerda do Sena, bem de acordo com um médico expedicionário que passa alguns dias em Paris. O lobby era malcheiroso e um atendente profissionalmente circunspecto, na recepção, observou quando eu me sentei numa das poltronas de couro. Será que todos os lobbies de hotel eram assim: sufocantes, inquisidores? A poltrona que escolhi dava de frente para o caminho entre a porta e a recepção. Um relógio antigo, todo enfeitado, pendurado sobre a porta da frente, marcava 11h48. Quando mais novo, Jonathan tinha o hábito de deixar os outros esperando. Como um médico expedicionário, imaginei que tivesse aprendido a ser mais pontual.

Um jornal já lido estava sobre a mesa de apoio. Nunca segui os acontecimentos do mundo e raramente me dava ao trabalho de ler um jornal. As notícias me confundiam, tornaram-se todas muito parecidas umas com as outras. Assistia às da noite e caía num profundo sentimento de déjà vu. Um massacre na África? Ou era em Ruanda? Não, espere, foi em 1993. Ou era o Congo Belga, ou a Libéria? Um chefe de Estado assassinado? O mercado de ações em derrocada? Uma praga, pólio, varíola, tifo ou Aids? Passei por todos os eventos a uma distância segura e os assisti assolarem e aterrorizarem a humanidade. Era horrível ver o sofrimento e não ser capaz de fazer nada. Eu era um fantasma no fundo da paisagem.

Conseguia imaginar como Jonathan se sentira inclinado a ir para a escola de Medicina, preparar-se para fazer algo contra as coisas terríveis que aconteciam no mundo. Arregaçar as mangas e dedicar-se, mesmo sabendo que seria impossível erradicar uma doença, numa só vila que fosse, mas tentando, mesmo assim. Sem perceber, meus olhos tinham recaído sobre o jornal durante todo o tempo em que estivera pensando. Olhei para cima abruptamente, antecipando a chegada de Jonathan.

A porta da frente foi aberta e me inclinei para a frente ansiosamente, em direção ao que parecia uma figura conhecida, mas relaxei novamente. O homem usava uma calça cáqui amassada e uma jaqueta surrada de tweed. Um pedaço de tecido étnico estava enrolado em volta de seu pescoço, óculos de sol cobrindo os olhos. E seu rosto tinha uma barba por fazer, suja e irregular, de três dias ou mais. O homem caminhou em minha direção, mãos nos bolsos. Estava sorrindo; então, eu percebi.

— São essas as boas-vindas que eu recebo? Não se lembra de mim? Talvez devesse ter mandado uma foto recente — Jonathan disse.

Fomos para fora por sua sugestão, dizendo que parecia que eu desmaiaria. Jonathan pegou meu braço e o segurou com força enquanto me acompanhava até a calçada. Encontramos um canto quieto num parque que era só cimento e bancos, uma só árvore cercada de concreto nos quatro lados, mas dava a ilusão de natureza.

— É bom ver você.

Não consegui responder, mas minha resposta era desnecessária, de qualquer forma. Parecia absurdo que ele tivesse ficado ausente de minha vida por tanto tempo e, vendo-o novamente, parecia não haver motivo no mundo para nos mantermos separados. Queria tocá-lo e beijá-lo, ter certeza de que ele estava lá, em carne e osso, diante de mim. Mas, por mais que fôssemos íntimos um do outro, havia entre nós mais de cem anos de separação. E alguma coisa em seu comportamento me dizia para ir devagar.

Assim que minha cor voltou, achamos um café, onde ficamos durante horas. Entre cafés, copos de Lille e cigarros (para mim, embora Jonathan, o médico, não aprovasse), nos sentamos num banco e colocamos a conversa sobre muitas vidas em dia. As histórias da selva eram fascinantes e me surpreendia ver que Jonathan pudesse ter sido feliz numa terra tão seca e escassa quanto o Maine era frio e luxuriante. Que ele pudesse sentar-se numa tenda, enchendo seringas, sem pensar nos mosquitos zunindo em volta dele. Malária, meningite, que diferença fazia? Ele se voluntariara para descer até um vale tomado por um surto de dengue. Havia carregado antidiarreicos e outros remédios nas costas quando o Land Rover não conseguia atravessar o rio. Por mais que admirasse o que ele fez, as histórias que o colocavam em perigo me causavam incômodo, embora esses medos fossem irracionais.

Como me encontrou, depois de tanto tempo, nesse mundo tão grande? — perguntei a ele, finalmente, morrendo de vontade de saber. Ele sorriu misteriosamente e deu outro gole em seu aperitivo.

— É uma história divertida. A resposta curta é: tecnologia... e sorte. Fazia tempo que queria procurá-la, mas tinha dúvida se devia ou não. Como poderia fazer isso? A resposta começou com um livro infantil que vi por acaso na casa de um colega...

— O templo de Jade — adivinhei.

— O templo de Jade — ele respondeu, assentindo. — Lendo o livro para o filho de meu colega, encontrei a modelo do artista, Beryl Fowles, uma expatriada britânica vivendo em Shangai...

— Sempre gostei desse nome. Eu mesma o inventei.

— ... e contratei alguém para achar o que conseguisse sobre Beryl. Mas, na época, Beryl Fowles já tinha morrido há décadas.

— Mesmo assim, você me achou.

— Contratei um investigador para encontrar quem havia herdado o dinheiro de Beryl e daí por diante. Mas as pistas não deram em lugar nenhum.

— E você não desistiu?

Jonathan sorriu para mim novamente.

— Aqui é onde entra a tecnologia. Sabe aqueles softwares de reconhecimento fotográfico que existem on-line hoje em dia, para que possa encontrar fotos suas ou de amigos em websites? Bem, tentei com uma das fotos do livro e acredita que funcionou? Não foi fácil e tive que ser persistente, mas apareceu uma combinação, uma foto pequena da autora de uma monografia sobre xícaras de chá chinesas. De todas as coisas... Nunca imaginei que se tornaria uma especialista em porcelana chinesa. Bem, seu editor me informou como entrar em contato com você.

As xícaras de chá chinesas, confiadas a mim por meu empregador em Shangai, onde eu fora trabalhar depois de posar para o livro infantil. E, assim, minha última grande aventura na China tinha trazido Jonathan até mim.

Acabamos indo para minha casa no final da tarde; o champanhe se foi, assim como três quartos do cabernet, junto com o foie gras e as torradas. Por insistência de Jonathan, mostrei a casa para ele, mas, a cada quarto que entrávamos, ficava mais constrangida. Eu mesma me surpreendi com o tanto de coisas adquiridas ao longo dos anos, amontoadas como uma proteção contra o futuro incerto. Jonathan disse palavras gentis, elogiou-me por minha atitude visionária em guardar objetos raros e de grande beleza para as gerações futuras, mas só fez isso para aliviar minha culpa. Um médico expedicionário não viajaria com tamanha carga de quinquilharias. Não havia um depósito de memórias esperando pela volta de Jonathan. Deparei-me com uma caixa que não via fazia mais de duas décadas, cheia de joias preciosas que me foram dadas por admiradores: um anel com um rubi do tamanho de uma uva; um alfinete de gravata com um diamante azul, relíquia de família. A visão de tamanho exagero era doentia e empurrei a caixa de volta à prateleira esquecida, onde ela estivera mofando.

Deparamo-nos com coisas ainda piores: pilhagem, coisas que eu roubara de países distantes durante meus anos frenéticos. Certamente Jonathan os reconhecia: budas maravilhosamente entalhados, tapetes de vinte cores trançados à mão, armaduras cerimoniais. Tesouros que conseguira em troca de rifles, ou tomados na ponta da arma, ou, em alguns casos, arrancados dos mortos. Tudo isso iria embora, jurei, fechando as portas dos quartos; cada cetro e estátua seria mandado para museus, de volta aos países de onde vieram. Como pude viver tanto tempo com essas coisas em minha casa sem nem me lembrar delas?

O último aposento que visitamos foi meu quarto, no andar de cima. Tinha o triste ar de um quarto que não era mais usado para seu propósito. Havia uma cabeceira sueca e um estrado ao lado de um par de janelas altas e estreitas; as janelas e a cama eram cobertas com algodão branco, e um edredom de seda azul cobria o colchão. Uma secretária francesa do século XVIII servia como mesa de computador, pernas finas e compridas e tudo mais, com uma cadeira Biedermeier. A mesa estava bagunçada, com papéis e bugigangas, uma camisola de seda cinza pendurada nas costas da cadeira. Parecia um quarto de onde acabaram de tirar os lençóis de cima dos móveis, como se tudo estivera esperando pelo momento de ser usado.

Jonathan parou em frente da foto pendurada do outro lado da cama. O nome do artista já havia sumido fazia muito tempo, mas eu me lembrava do dia em que o esboço fora feito. Jonathan não queria posar para o retrato, mas Adair insistira, de modo que ele foi desenhado inclinado grosseiramente para trás, na cadeira, sombrio, mal-humorado e de tirar o fôlego. Ele pensou que fosse estragar o retrato, mas só fez o desenho ficar ainda melhor. Nós dois ficamos parados diante da foto, levados de volta há pelo menos dois séculos.

— De todos os tesouros que acumulou nessa casa... não posso acreditar que guardou esse desenho estúpido. — Jonathan disse, baixinho. Quando viu a expressão aflita em meu rosto, ele se acalmou e pegou minha mão. — Claro que você guardaria... fico feliz que o tenha guardado! — Olhamos uma última vez para ele antes de sairmos do quarto.

Quando a noite caiu, Jonathan estava esparramado no sofá na sala de visitas e eu, no chão, inclinada sobre o encosto do braço. Contamos histórias durante horas. Eu não aguentei e lhe contei algumas coisas do passado das quais tinha vergonha: sair em busca de aventura com o louco que tomara o lugar de Jonathan quando ele me deixou. O nome dele era Savva e era um de nós, um dos acompanhantes anteriores de Adair, o único outro de nós que eu jamais conhecera. Savva teve a má sorte de ter sido encontrado por Adair, séculos antes, perto de São Petersburgo, durante uma tempestade. Savva não quis contar os detalhes de sua briga com Adair, mas eu podia imaginar, pois ele tinha um temperamento caprichoso e uma língua afiada e impaciente.

Por Savva não suportar ficar num só lugar por muito tempo, viajamos pelos continentes feito exilados. Para um homem que nascera no meio do gelo e da neve, Savva era inexplicavelmente atraído pelo calor e pelo sol, o que significa que passamos a maior parte do tempo no norte da África e na Ásia central. Viajamos com os nômades pelo deserto, contrabandeamos armas pela passagem do Khyber. Ensinamos beduínos a atirar com rifles longos e chegamos até a viver com os mongóis durante um tempo (eles ficaram impressionados com os extraordinários dotes equestres de Savva durante a corrida de caça). Éramos unidos, como irmão e irmã, até o final do século XIX, quando percebemos que não tínhamos mais nada a dizer um ao outro. Provavelmente deveríamos ter nos separado décadas antes, mas era fácil demais viver com alguém a quem não precisávamos dar explicações.




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