No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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Soava quase plausível e imaginei, por um segundo, se não tinha avaliado mal a situação. Contudo, conhecia Adair muito bem para acreditar que as coisas fossem tão simples como ele fazia parecer.

— Deixe-me pegar sua bebida — eu disse, me levantando.

Havia escolhido um conhaque bem forte, forte o suficiente para mascarar o sabor do fósforo. Na despensa, havia derramado cuidadosamente o pó dentro da garrafa com uma folha de papel, adicionado a maior parte de uma garrafa de láudano, fechado a boca com uma rolha e mexido o líquido vagarosamente. O pó tinha soltado alguns brilhos brancos no ar enquanto eu o manuseava, e rezei para que não ficasse aparente no fundo do copo de Adair.

Enquanto derramava o elixir para Adair, notei algumas coisas sobre a cômoda, provavelmente para a viagem. Havia um pergaminho amarrado com um pedaço de fita, o papel velho e grosseiro que tinha certeza de que viera da coleção presa entre as capas de madeira no quarto secreto. Ao lado dela, havia uma caixa de rapé e um pequeno frasco com tampa, similar aos usados para perfume, contendo aproximadamente trinta mililitros de um líquido marrom repulsivo.

— Aqui está — passei uma taça cheia para Adair. Servi uma taça para mim, mas não tinha a intenção de tomar o conteúdo todo. Só um gole para convencê-lo de que não havia nada de errado. Ele parecia completamente ébrio pelo ópio, no entanto, eu sabia que o ópio sozinho não o faria dormir.

Voltei a meu lugar perto dos pés dele e olhei para cima de um jeito que esperava ser entendido como adoração e preocupação.

— Você tem estado aborrecido há dias; é por causa da questão com Uzra, não é? Não proteste! É normal que esteja aborrecido com o que aconteceu, você a manteve por centenas de anos. Ela tinha que significar alguma coisa para você.

Ele suspirou e me deixou ajudá-lo com o bocal de novo; sim, ele estava ávido por distração. Parecia doente, mexendo-se vagarosamente e inchado. Talvez estivesse sofrendo por ter matado a odalisca, ou tivesse medo de trocar este corpo pelo próximo; afinal, fazia muito tempo que fizera isso pela última vez. Talvez fosse doloroso passar pelo processo ou tivesse medo das consequências por fazer outra maldade, adicionada à longa lista de pecados que já cometera, uma lista pela qual ele teria que pagar algum dia. Após umas duas baforadas, ele me olhou com os olhos semicerrados.

— Você tem medo de mim?

— Por ter matado Uzra? Teve seus motivos; não cabe a mim questioná-lo. É assim que é: você é o mestre.

Ele fechou os olhos e colocou a cabeça de volta no alto encosto da poltrona.

— Você sempre foi a mais racional, Lanore. É impossível viver com eles, os outros; me acusando com seus olhares. Eles são frios, se escondem de mim. Deveria matá-los todos e começar de novo. — Pelo tom de sua voz, percebi que não era uma mera ameaça; uma vez ele já fizera exatamente isso com outro grupo de servos. Dizimou a todos num ataque de fúria. Para ter uma vida que supostamente duraria uma eternidade, fora uma existência precária.

Tive que me controlar para não tremer enquanto continuava a passar os dedos pela testa dele.

— O que ela fez para merecer essa punição? Quer me dizer?

Ele empurrou minha mão para o lado e sugou novamente o bocal. Peguei a garrafa e enchi mais uma taça para ele. Deixei que acariciasse meu rosto desajeitadamente com suas mãos assassinas e continuei a acalmar sua consciência com afirmações mentirosas de que ele tinha o direito de ter matado a odalisca.

A certa altura, ele tirou minha mão de sua testa e começou a acariciar meu punho, tracejando minhas veias.

— O que você acha de tomar o lugar de Uzra? — ele me perguntou, um pouco ansioso.

A ideia me alarmou, mas tentei não deixar que percebesse.

— Eu? Não mereço você... Não sou tão bela quanto Uzra... Nunca poderia dar a você o que ela lhe deu.

— Você pode me dar algo que ela nunca me deu. Ela nunca se entregou a mim, nunca. Ela me desprezou todos os dias em que estivemos juntos. De você eu sinto... nós tivemos alguns momentos felizes juntos, não tivemos? Chegaria até a dizer que houve vezes em que chegou a me amar. — Colocou a boca em meu pulso, seu fogo em meu pulso. — Eu facilitaria as coisas para você me amar, se concordar. Seria só minha; não dividiria você com mais ninguém. O que acha?

Ele continuou a acariciar meu pulso enquanto eu tentava pensar numa resposta que não soasse falsa. Em certo momento, ele mesmo respondeu para mim:

— É Jonathan, não é? Posso sentir em seu coração. Quer estar disponível para Jonathan, caso um dia ele queira você. Eu quero você e você quer Jonathan. Bem... talvez haja uma maneira de fazer isso funcionar, Lanore. Talvez haja um jeito para que nós dois tenhamos o que queremos. — Parecia uma confissão de tudo aquilo que eu suspeitara, e a ideia em si só fez meu sangue congelar.

A perspicácia de Adair para escolher almas degeneradas seria sua derrocada. Veja, ele me escolhera bem. Ele me pinçou da multidão, sabendo que eu era o tipo de pessoa que, sem hesitação, encheria taça após taça de bebida venenosa para o homem que acabara de declarar seu amor por mim. Quem sabe, se fosse só por mim, se somente meu futuro estivesse em jogo, tivesse sido diferente. No entanto, Adair incluía Jonathan em seus planos. Talvez achasse que eu seria feliz, que eu era superficial o bastante para amá-lo e ficar com ele contanto que tivesse a maravilhosa casca de Jonathan para admirar. Todavia, o assassino estaria por trás do rosto tão familiar de meu amado e ecoaria cada uma de suas palavras; ao pensar nisso, o que mais eu poderia fazer?

Ele deixou meu braço cair, deixou o narguilé escorregar de sua mão. Adair estava ficando cada vez mais lento, um brinquedo de corda que gastara toda sua força. Não podia esperar mais. Pelo que estava preparada para fazer com aquele homem, eu tinha que saber. Tinha que ter absoluta certeza. Inclinei-me mais perto para perguntar:

— Você é o físico, não é? O homem de quem me falou?

Ele pareceu precisar de um momento para entender minhas palavras, mas, então, não reagiu com raiva. Em vez disso, um sorriso vagaroso espalhou-se em seus lábios.

— Tão esperta, minha Lanore! Você sempre foi a mais esperta de todos, vi isso de imediato. Era a única que conseguia saber quando eu estava mentindo... Encontrou o elixir. Encontrou o selo, também... Ah, sim, eu sabia. Senti seu cheiro no veludo... Por todo o tempo que estive vivo, foi a primeira a resolver meu enigma, a ler as pistas corretamente. Você me descobriu, como eu achei que faria.

Ele mal estava lúcido e não parecia saber que eu estava lá. Inclinei-me sobre ele, minhas mãos agarrando-o pelas lapelas de seu paletó, e tive que dar um safanão para que prestasse atenção em mim.

— Adair, me diga, o que pretende fazer com Jonathan? Vai tomar posse do corpo dele, não é? Foi isso que fez com o garoto camponês, o garoto que era seu criado, e agora vai tomar posse de Jonathan. É esse o plano?

Os olhos dele se abriram e aquele olhar gélido recaiu sobre mim, quase quebrando minha compostura.

— Se isso fosse possível... se isso fosse acontecer... você me odiaria, Lanore, não é mesmo? E, mesmo assim, eu não seria diferente do homem que você conheceu, o homem por quem você teve afeição. Você me amou, Lanore. Eu senti.

— É verdade! — respondi, confirmando sua afirmação.

— Você ainda me teria e teria Jonathan também, porém, sem a indecisão dele. Sem o desprezo pelos seus sentimentos, sem a dor, sem o egoísmo e sem arrependimentos. Eu a amaria, Lanore, e você teria certeza dos meus sentimentos. O que é algo que não pode ter de Jonathan. Isso é algo que nunca terá dele. — Suas palavras me chocaram, pois eu sabia que eram verdadeiras. Como de fato aconteceu, as palavras dele foram também proféticas; foi como uma maldição que Adair colocou sobre mim, destinando-me a ser infeliz para sempre.

— Sei que não devo. Ainda assim... — murmurei, acariciando o rosto dele, tentando avaliar o quanto ainda estava alerta. Não parecia possível que um corpo pudesse ingerir tanto veneno e continuar consciente. — Ainda assim, é Jonathan a quem eu escolho — disse, finalmente.

Ao ouvir essas palavras, os olhos vidrados de Adair se acenderam com o último brilho de consciência dentro deles, consciência do que eu acabara de dizer. Consciência de que algo terrível estava acontecendo com ele, que não conseguia se mover. Seu corpo estava parando, ainda que lutasse contra isso, revirando em sua poltrona como uma vítima de parada cardíaca, espasmódico e trêmulo, a baba começando a escorrer pelos cantos da boca em fios borbulhantes. Pus-me de pé e recuei, evitando as mãos dele que buscavam por mim, e então parou, depois congelou e finalmente ficou frouxo. Ele ficou quieto de repente, quieto como a morte e cinza como água encoberta, e rolou da cadeira, caindo no chão.

Era hora de dar o último passo. Mais cedo, já colocara tudo no lugar, mas não poderia fazer essa parte sozinha. Precisava de Jonathan. Saí apressadamente do quarto e percorri o corredor até o quarto dele, entrando repentinamente, sem bater. Ele andava de um lado para o outro, mas parecia preparado para sair, capa sobre o braço e chapéu na mão.

— Jonathan — eu disse buscando ar, fechando a porta e bloqueando o caminho dele.

— Onde você esteve? — ele perguntou, a voz levemente zangada. — Procurei você, mas não consegui encontrá-la... Esperei um pouco, com a esperança de que viesse até mim, até que não pude mais esperar. Vou dizer a ele que não tenho intenção de viajar com ele. Vou dizer a ele que estou me separando dele e que vou embora.

— Espere, preciso de você, Jonathan. Preciso de sua ajuda. — Por mais bravo que estivesse, ele viu que eu estava nervosa e deixou suas coisas de lado para me escutar. Eu derramei a história, certa de que parecia uma mulher insana porque não tive tempo de pensar numa maneira de contar tudo a ele sem parecer louca ou paranoica. Por dentro, eu me encolhia, pois agora ele seria capaz de me ver como eu realmente era, capaz de maldades elaboradas, capaz de condenar alguém a um sofrimento terrível, ainda a mesma garota que levara Sophia a se suicidar, cruel e resistente como aço, apesar de tudo pelo que eu mesma havia passado. Com certeza Jonathan me denunciaria. Esperava que fosse virar as costas e ir embora, que fosse perdê-lo para sempre.

Depois de contar toda a história, de como Adair pretendia exterminar sua alma e usurpar seu corpo, segurei minha respiração, esperando por Jonathan me mandar embora ou me atacar verbalmente, me chamar de louca, pelo farfalhar da capa e a batida da porta. Mas ele não fez nada disso. Ele pegou minha mão e eu senti uma ligação entre nós que já não sentia há algum tempo.

— Você me salvou, Lanny! De novo — ele disse, a voz trêmula.

Ao ver Adair no chão, parado feito um morto, Jonathan recuou por um momento e então juntou-se a mim para amarrar Adair o mais seguro que conseguíssemos. Amarramos as mãos do monstro atrás das costas, juntamos seus tornozelos e enfiamos um pedaço de pano macio em sua boca. No entanto, quando Jonathan foi amarrar os nós dos pulsos aos pés de Adair, arqueando nosso prisioneiro numa posição de absoluta vulnerabilidade, me lembrei do arreio humano. O sentimento de impotência assolou-me e não pude fazer o mesmo com Adair, ainda que ele fosse meu torturador. Quem saberia quanto tempo ele teria que ficar amarrado daquele jeito até que fosse encontrado e desamarrado? Parecia uma punição muito cruel, mesmo para ele.

Então, enrolamos Adair em seu cobertor favorito de zibelina, um conforto solitário. Saí primeiro e, caso Jonathan encontrasse com os outros e fosse questionado, poderia fingir que o embrulho em seus braços era eu. E planejamos nos encontrar no porão para finalizar meu plano.

Corri na frente, pela escadaria dos criados até o porão. Enquanto esperava ao pé da escada, descansando contra uma parede fria de pedra, me preocupei com Jonathan. Deixei que ele passasse por todo o risco de remover Adair do quarto secretamente. Apesar de os outros terem se retirado, introspectivos e chocados pela morte de Uzra, e confusos pela partida de Adair, nada garantia que Jonathan não cruzaria com um deles pelo caminho. Ele também poderia facilmente ser espiado por um criado e uma breve olhadela poderia arruinar nossos planos. Esperei, tensa, até Jonathan aparecer com a figura frouxa em seus braços.

— Alguém viu você? — perguntei, e ele negou com a cabeça.

Eu o guiei através do labirinto sinuoso até o nível mais baixo do porão, para o quarto cavernoso onde os vinhos eram guardados. Aqui, o porão era mais parecido com o calabouço de um castelo, separado do restante dos aposentos, coberto por grossas camadas de terra e pedra para manter a temperatura constante do vinho. Eu encontrara um nicho bem no fundo, uma cela pequena e sem janela, cortada dentro da fundação de pedra maciça da mansão. Parecia uma extensão inacabada da adega de vinhos, com tijolos e madeira espalhados. As entregas de tijolos e pedras do dia anterior estavam no chão, junto a um balde de cimento amarrado com um tecido molhado, quase seco agora. Jonathan olhou para as ferramentas e depois para mim, chegando instantaneamente à conclusão sobre o uso do material, e então derrubou o corpo de Adair no chão de terra úmido. Sem dizer uma só palavra, tirou o paletó e arregaçou as mangas da camisa.

Fiz companhia a Jonathan enquanto ele fechava a pequena abertura que servia como entrada para a cela. Primeiro, tijolo; depois, uma camada de pedras para fazer a entrada desaparecer dentro da parede espessa. Jonathan desempenhou a tarefa silenciosamente, colocando as pedras no lugar com batidas do cabo da pá de pedreiro, lembrando-se do trabalho que fizera quando criança, enquanto eu mantinha os olhos sobre a forma escura de Adair, um mero pedaço de sombra sobre o chão da cela.

Na hora que Adair tinha marcado de sair, subi quieta e vagarosamente, e despachei a carruagem, dizendo ao cocheiro que os viajantes haviam mudado de ideia, mas queria que a bagagem fosse enviada na frente para seus alojamentos, conforme planejado. Então, disse casualmente a Edgar que o senhor havia partido em sua viagem um pouco mais cedo, para evitar ostentação, querendo sair sem chamar atenção. Os aposentos vazios de Adair e Jonathan confirmavam o que eu acabara de dizer, e Edgar simplesmente deu de ombros e voltou às suas tarefas. Suspeito que diria isso aos outros caso alguém perguntasse.

Jonathan continuou a trabalhar, parando toda vez que ouvíamos qualquer movimento que parecesse estar vindo de longe. Durante a maior parte do tempo, esse subterrâneo profundo era excessivamente silencioso e ouvíamos alguns movimentos vindos dos andares ocupados, mas era muito improvável que pudéssemos ser ouvidos, com as despensas situadas entre o primeiro andar e a adega de vinhos. Mesmo assim, eu estava nervosa, certa de que os outros poderiam vir me procurar. E eu queria deixar para trás esse ato horripilante. “O homem na cela é um monstro”, eu dizia a mim mesma para amainar minha culpa galopante. “Ele não é o homem que conheci.”

— Vamos logo, por favor! — murmurei de meu posto sobre um velho barril.

— Não há nada a fazer, Lanny — Jonathan disse por sobre o ombro, sem quebrar o ritmo. — Seus venenos...

— Não são meus, com certeza! Não são só meus — gritei, pulando do barril, agitada.

— O efeito do veneno desaparecerá, em instantes. Os nós podem se soltar e a mordaça se desfazer, mas esta parede não pode falhar. Tem que ser a mais forte que pudermos fazer.

— Muito bem — eu disse, apertando as mãos enquanto andava de um lado para o outro. Sabia que a poção não poderia matá-lo, mesmo que tivesse sido veneno, mas esperava que pudesse fazê-lo dormir para sempre ou causar algum dano ao cérebro, assim nunca teria consciência do que acontecera a ele. Porque ele não era um ser mágico, nem um demônio, nem um anjo; não poderia fazer os nós se desamarrarem ou atravessar as paredes como um fantasma. O que significava que, algum dia, ele acordaria no escuro e não conseguiria tirar a mordaça da boca, não conseguiria gritar por socorro e quem saberia quanto tempo permaneceria aqui, enterrado vivo.

Esperei um momento do nosso lado da parede fria de pedra para ver se sentia o familiar arco elétrico da presença de Adair, mas não senti nada. Tinha desaparecido. Talvez tivesse desaparecido apenas por estar tão profundamente sedado. Talvez eu voltasse a senti-lo quando recuperasse a consciência, e que tortura seria sentir a agonia dele viva em mim, dia após dia, e não poder fazer nada. Não posso dizer quantas noites pensei sobre o que fizera com Adair, e houve vezes em que quase pensei em desfazer o que lhe fizera, se fosse possível. Mas, naquela época, não podia me permitir pensar nisso. Era muito tarde para piedade ou remorso.

Jonathan saiu naquela noite, quando os outros estavam fora dedicando-se a um de seus passatempos. Tive uma amostra dos conflitos por vir com Jonathan quando, uma vez do lado de fora, ele se virou para mim e perguntou:

— Podemos voltar a St. Andrew agora, não podemos?

Eu respirei fundo.

— St. Andrew é o último lugar no mundo para onde podemos ir, pois, lá, de todos os lugares, é onde seremos descobertos mais rapidamente. Nós nunca envelheceremos, nunca ficaremos doentes. Todas aquelas pessoas, para quem você retornaria, passariam a olhar para você com horror. Eles terão medo de você. É isso o que quer? Como nos explicaríamos? Não podemos, e o pastor Gilbert nos condenaria como bruxos, com certeza.

A expressão dele se anuviou enquanto me escutava, mas não disse nada.

— Precisamos desaparecer. Devemos ir para onde ninguém nos conheça e estar preparados para partir a qualquer momento. Deve confiar em mim, Jonathan. Deve contar comigo. Só temos um ao outro agora. — Ele não argumentou; beijou minha bochecha e começou a caminhar em direção à taberna onde combinamos nos encontrar no dia seguinte.

Na manhã seguinte, disse aos outros que estava indo me juntar a Adair e a Jonathan na Filadélfia. Quando Tilde ergueu a sobrancelha, desconfiada, usei as palavras do próprio Adair com ela, explicando que ele não tinha paciência com os olhares acusatórios pelo que tinha feito a Uzra e que, ainda que eles não o tivessem perdoado, eu tinha. Então, fui ver o sr. Pinnerly para saber sobre a lista de contas que foram abertas em nome de Jonathan. Quando o advogado ficou relutante em me entregar os documentos pessoais de Adair, uma sessão de não mais do que dez minutos ajoelhada no quartinho dos fundos foi suficiente para fazê-lo mudar de ideia; e o que eram dez minutos a mais de prostituição em troca de um futuro financeiro seguro? Jonathan me perdoaria, tinha certeza, e, de qualquer forma, ele nunca saberia.

Os outros não disseram nada abertamente contra mim, mas estavam claramente céticos e desconfiados, e se juntavam nos cantos e em lugares escuros para sussurrar entre eles. Depois de um tempo, eles se recolheram a seus aposentos ou retomaram seus afazeres, abrindo caminho para que eu fosse até o estúdio. Jonathan e eu precisávamos de dinheiro para fugir, pelo menos até termos acesso aos fundos que Adair havia guardado para o próprio uso futuro, obviamente.

Para minha surpresa, Alejandro estava sentado, caído sobre a mesa, a cabeça entre as mãos. Ele observou indiferente, todavia, enquanto eu retirava dinheiro do cofre de Adair passava para uma sacola; seria natural que eu carregasse mais dinheiro para Adair usar em sua viagem. Alejandro ergueu a cabeça, curioso, quando eu retirei da parede o desenho em carvão emoldurado de Jonathan. Era um item que eu não suportaria deixar para trás. Forcei a parte de trás da moldura e, com um pedaço de tecido sobre o desenho e uma camurça embaixo, enrolei a figura num cilindro apertado e a amarrei com um cordão de seda vermelha.

— Por que está levando o desenho? — ele perguntou.

— Tem um pintor na Filadélfia; Adair planeja apresentá-lo a Jonathan. Jonathan nunca concordará em posar para um retrato de novo, e Adair sabe disso, assim ele quer que o artista crie uma pintura a partir do esboço. Parece ser uma coisa muito trabalhosa, concordo, mas você sabe como Adair é quando resolve fazer alguma coisa... — eu disse, alegremente.

— Eu nunca fiz nada desse tipo — Alejandro disse, desistindo de suas perguntas com o desespero de alguém que aceita o inevitável. — É muito... inesperado. Muito estranho. Estou confuso com relação ao que fazer daqui para frente.

— Todas as coisas têm um fim — comentei, antes de sair do estúdio, indiferente.

Esperei na carruagem enquanto os criados traziam meus baús, amarrando-os na parte de trás. Então, com um balanço abrupto, a carruagem começou a andar e eu deslizei para dentro do tráfego de Boston, desaparecendo completamente no meio da multidão.

Parte quatro

46

CIDADE DE QUEBEC, HOJE



Sentam-se à mesa no quarto do hotel, Luke e Lanny, um elegante conjunto de louça de café de porcelana branca colocado à frente deles, com um prato de croissants intocado. Quatro pacotes de cigarro, pedidos com o restante do serviço de quarto, dentro de uma tigela de prata.

Luke toma outro gole de café, cheio de creme. A noite anterior foi difícil, com toda a bebida e a maconha, e enquanto pode-se notar a fadiga no rosto dele, o rosto de Lanny não mostra nada além de uma pele viçosa, macia e lisa. E tristeza.

— Imagino que tenha tentado aprender sobre esse feitiço — Luke diz em algum momento. Sua pergunta traz um brilho confuso ao rosto de Lanny.

— Claro que sim. Não é fácil encontrar um alquimista, um de verdade. Toda cidade onde fui, procurava pelos mais sombrios, você sabe, aqueles com as inclinações mais sinistras. E eles estão em todas as cidades, alguns a céu aberto, outros escondidos. Em Zurique, encontrei uma loja numa ruazinha estreita bem perto da via principal. Vendia artefatos raros, crânios antigos com inscrições esculpidas no osso, manuscritos escritos em pele humana, cheios de palavras que não se entendem mais. Achei que, se alguém conhecesse a verdadeira arte da necromancia, seriam as pessoas donas dessa loja, que colocaram suas vidas em busca da mágica arcana. Mas eles só sabiam rumores. Não cheguei a lugar algum. Foi assim até este século, mais ou menos cinquenta anos atrás, quando finalmente ouvi algo que tinha um longínquo toque de verdade. Foi em Roma, num jantar. Conheci um professor, um historiador. A especialidade dele era a Renascença, mas sua vocação pessoal era a alquimia. Quando perguntei se conhecia uma poção que conferia a imortalidade, ele explicou que um verdadeiro alquimista não precisaria de uma poção para imortalidade, porque o verdadeiro propósito da alquimia era transformar o homem, transformá-lo num ser superior. Assim como a suposta busca para transformar metal comum em ouro: ele disse que isso era uma alegoria, que buscavam transformar um homem comum em um ser mais puro. — Ela empurra a xícara um ou dois centímetros, o pires deixando um pequeno rastro sobre a toalha branca adamascada. — Fiquei frustrada, como pode imaginar. Mas, então, ele continuou a dizer que ouvira falar de uma poção rara, com um efeito parecido ao que eu tinha descrito. Transformava um objeto em algo, bem, familiar é o melhor termo, acho. Trazer um objeto inanimado à vida, como um golem, e transformá-lo num criado do alquimista. A poção podia reanimar os mortos, trazê-los de volta à vida, também. Esse professor achava que o espírito que preenchia a pessoa morta, ou o objeto, vinha do mundo do demônio — ela disse, tremendo de medo. — Um demônio com o objetivo de obedecer às ordens de alguém. Isso foi tudo o que eu suportei ouvir. Não fui atrás de explicações desde então.

Eles se sentam em silêncio e observam o tráfego a distância. O sol da manhã começa a aparecer entre as nuvens, deixando os talheres e a tigela de prata em fogo. Tudo é branco e prata e vidro, limpo e estéril, e tudo sobre o que eles estiveram conversando, escuridão e morte, parece estar a um milhão de quilômetros de distância. Luke pega um cigarro, enrola entre os dois dedos antes de colocá-lo de lado, apagado.

— Então, você deixou Adair dentro da parede na mansão. Alguma vez voltou lá para ver se ele havia saído?




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