No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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As prostitutas de rua me disseram onde encontrar uma parteira, já que ela era a única ajuda que elas podiam pagar para tratar a gonorreia ou auxiliar com a gravidez indesejada. Senti um arrepio percorrer minhas costas quando atravessei a porta do quartinho dessa mulher: cheirava a poeira, pólen e coisas velhas prestes a apodrecer, não como o quarto secreto trancado, no sótão de Adair.

— Sente-se, queridinha, e me diga por que veio até aqui — ela disse, indicando um banquinho do outro lado da lareira. Era uma mulher mais velha, com uma expressão dura e pragmática no olhar, mas com uma expressão de compreensão no rosto.

— Preciso saber o que é isso, senhora. Já viu algo assim antes? — Tirei um lenço de minha bolsa e o abri para ela ver. O punhado de plantas que havia roubado se amassara no deslocamento, separando-se em pequenos caules e delicadas lascas de folhas marrons. Ela segurou uma folha perto do olho, então a esmagou entre os dedos e a cheirou.

— Isso é casca de mogno, minha querida. Usada para uma grande variedade de doenças. Não muito comum nessas partes e está em estado natural, o que é ainda mais raro. Geralmente se vê em tinturas ou coisas do gênero, diluída com água para fazê-la durar o máximo possível. Como você encontrou isso? — ela perguntou, objetivamente, como se tivesse encontrado no mercado para comprar. Talvez pensasse que era por isso que viera procurá-la. Bateu as mãos sobre o fogo para tirar a poeira e deixou os fragmentos da folha caírem nas chamas.

— Infelizmente, não posso lhe dizer — respondi enquanto pressionava uma moeda na mão dela. Ela deu de ombros, mas a aceitou, guardando o dinheiro dentro do bolso. — Aqui vai meu segundo pedido. Preciso de uma coisa... Preciso que prepare algo que traga um sono muito profundo. Não necessariamente um sono tranquilo. Deve fazer a pessoa ficar inconsciente o mais rápido possível.

A parteira me olhou longa e silenciosamente, talvez imaginando se eu realmente estava dizendo que queria envenenar alguém, ou se deveria interpretar meu pedido de outra forma. Finalmente respondeu:

— Não, isso pode se voltar contra mim, se as autoridades forem envolvidas nessa questão por algum motivo.

— Tem minha palavra! — Coloquei mais cinco moedas na mão dela, uma pequena fortuna. Ela olhava das moedas para mim, então fechou os dedos em volta do ouro.

Na carruagem, no trajeto de volta para a mansão, sentei-me e desembrulhei o lenço com o torrão que a parteira havia me dado. O torrão era branco e duro feito pedra, e — eu não sabia na época — era fósforo branco mortal, provavelmente comprado de um produtor de fósforos, que, por sua vez, o roubara do lugar onde trabalhava. A parteira o manuseou com cuidado, como se não gostasse de segurá-lo, e me instruiu a triturá-lo em um pilão, depois misturá-lo em um pouco de vinho ou bebida, adicionando láudano para ajudar a mistura a descer.

— É muito importante diluí-la, para efeitos medicinais. Poderia usar o láudano sozinho, mas ele demora muito para fazer efeito. Fósforo fará o truque mais rapidamente, mas, se um corpo ingerir esse tanto de fósforo, as conse­quências serão ruins, de verdade — ela disse com um olhar inquestionável.

Eu já tinha elaborado um plano, um plano muito perigoso, mas só conseguia pensar no verdadeiro Adair. Minha mente sentia muita pena do garoto camponês, sem nem mesmo um túmulo, porque não havia corpo para ser devolvido à terra. Sua forma atraente era a possessão de um homem que tinha tomado seu corpo mediante as artes das trevas.

Quanto aos últimos fragmentos da história do físico, bem, estava além de minha capacidade saber o quanto era verdade. Talvez ele tenha visitado a família de Adair e deixado um presente por causa da culpa, ou em agradecimento por terem lhe oferecido o filho, por terem lhe dado um corpo tão belo. Ou, talvez, essa parte fosse mentira, contada somente para tornar a história mais palatável e trágica, para influenciar o coração do ouvinte a seu favor, para dispersar a suspeita. E a perda de seu reino? Um risco calculado... Mas talvez valesse a pena, ao final, ganhar um novo invólucro para abrigar sua velha alma miserável. No entanto, se eu não detivesse esse homem, ele tiraria de mim a coisa mais querida do mundo, Jonathan.

Belo, forte e capaz, com uma virilidade assustadora, o garoto camponês de-ve ter parecido uma dádiva dos céus para o físico. Aqui no Novo Mundo, entretanto, o corpo do camponês tinha suas limitações. Ou melhor, as limitações estavam em seu rosto: desconcertantemente exótico, pele morena, emoldurado por cabelos despenteados e encaracolados. Vi na expressão dos brancos e sofisticados bostonianos quando conheceram Adair, pelo franzido em suas testas, a desconfiança pairando em seus olhos. Aqui, entre descendentes de britânicos, holandeses e alemães, que nunca tinham visto um turco ou árabe, e para quem o cabelo dele não era muito diferente do de seus escravos, o corpo do camponês era um problema. Agora entendia o olhar frio e avaliador de Adair quando estudava o belo estudante com pé torto que Tilde arrumara, e a admiração faminta pela beleza impecável de Jonathan. Ele soltava seus cães de caça pelo mundo para buscar o invólucro perfeito; tinha até enviado Jude ao campo para achar um substituto. Aqui em Boston, o tempo acabara para Adair e ele precisava de um novo corpo, que fosse compatível com os gostos de seus mestres nesse novo ambiente.

Ele queria Jonathan; queria apoderar-se dele como um disfarce. As pessoas eram atraídas por Jonathan, assim como as abelhas pelo açúcar, tontas e impotentes pela atração desconhecida. Os homens queriam ser seus amigos, orbitando ao redor dele como os planetas em volta do Sol. As mulheres se entregavam a ele totalmente e ninguém sabia disso melhor do que eu. Sempre haveria uma multidão a seu redor, oferecendo-se a ele, sem perceber que o espírito em seu interior era demoníaco e explorador.

E porque ninguém conhecia o segredo de Adair, não havia ninguém para impedi-lo. Ninguém, exceto eu.

44

Cheguei à mansão e encontrei a casa em balbúrdia. Os criados corriam escada abaixo, como água escorrendo pela montanha, para o porão, escondendo-se nas despensas, longe da barulheira no andar superior. Socos nas portas, trancas batendo. As vozes abafadas de Tilde, Dona e Alejandro ecoavam vindas de cima.



— Adair, o que está acontecendo?

— Deixe-nos entrar.

Subi as escadas correndo e encontrei os três, agachados e sem ação, ao pé da escadaria do sótão, sem vontade de interromper o que quer que estivesse acontecendo atrás daquela porta fechada. Ouvimos barulhos horríveis: Uzra gritando, Adair rugindo em resposta. Ouvimos o som seco da troca de tapas.

— Por que tudo isso? — quis saber, rodeando Alejandro.

— Adair foi procurar Uzra, é tudo o que sei.

Pensei na história de Adair; a fúria do físico por causa das coisas roubadas de sua mesa.

— Precisamos ir até lá! Ele a está machucando! — Alcancei a maçaneta da porta, mas ela se recusou a mexer. Ele trancara a porta. — Pegue um machado, uma marreta, qualquer coisa. Precisamos colocar esta porta abaixo! — gritei, mas eles apenas olharam para mim como se eu tivesse ficado louca. — Vocês não sabem do que ele é capaz...

Então, o barulho parou.

Após alguns minutos, a chave virou na fechadura e Adair saiu, pálido feito leite. A adaga em serpentina de Uzra estava na mão dele e o punho de sua camisa estava manchado de vermelho brilhante. Ele jogou a adaga no chão e nos empurrou de lado, retornando a seu quarto. E foi então que encontramos o corpo dela.

— Você teve alguma coisa a ver com isso, não teve? — Tilde disse para mim. — Dá para ver a culpa em seu rosto. — Eu não respondi. Olhando para o corpo de Uzra, meu estômago revirou. Ele a esfaqueara no peito e também lhe cortara a garganta, e isso deve ter sido a última coisa que fizera, pois ela havia caído no chão com a cabeça jogada para trás, o cabelo ainda enrolado onde ele o enroscara nos punhos. As palavras “por minhas mãos e intenção” ecoavam em minha cabeça; as mesmas palavras que haviam lhe dado vida eterna foram evocadas para lhe tirar a vida. Pensar nelas agora me dava arrepios, assim como olhar a tatuagem em seu braço, jogado displicentemente ao lado dela. No final, a marca dele sobre ela não significou nada. Ele retiraria a promessa quando bem quisesse.

A briga poderia ter sido sobre qualquer coisa e eu nunca saberia com certeza, mas o momento fazia parecer improvável que tivesse sido por outra coisa que não o quarto secreto. De algum modo, Adair deve ter descoberto que algumas coisas foram retiradas e a culpou por isso. E ela não tentara corrigir o mal-entendido dele. Ou ela queria me proteger, o que era muito provável, ou dera as boas-vindas à morte, sua melhor chance de escapar de tudo aquilo.

Roubei aquelas coisas sabendo da punição que poderia ter, só não sabia que recairia sobre Uzra. Nem pensei que ele mataria um de nós, muito menos ela. Fazia mais seu gênero impor uma punição física brutal e manter a vítima sob seu domínio, tremendo de terror, imaginando quando Adair decidiria fazer tudo outra vez. Nunca, em um milhão de anos, sonhei que ele a mataria de verdade, pois achava que, a seu modo, ele a amava.

Joguei-me no chão e segurei a mão dela, já fria; talvez, em nosso caso, a alma saísse do corpo mais rápido, ávida por escapar. A coisa mais terrível era que estava planejando minha fuga, minha e de Jonathan, mas não tinha nem pensado em levar Uzra conosco. Mesmo sabendo o quão desesperadamente ela desejava fugir, não passou pela minha cabeça ajudar aquela pobre garota que aturara a obsessão doentia de Adair por tantos anos, que fora tão gentil comigo e que tentou me ajudar a navegar por aquela casa de lobos. Não tinha dado o devido valor a ela, e o frio reconhecimento de meu egoísmo me fez pensar se eu realmente não era a alma gêmea de Adair.

Jonathan acompanhou a comoção do andar de cima e, quando viu o corpo de Uzra no chão, quis invadir o quarto de Adair e resolver as diferenças com ele. Foi preciso que Dona e eu o segurássemos.

— Para quê? — gritei com Jonathan. — Você e Adair poderiam se socar daqui até a eternidade e nunca se entenderem. Por mais que queiram matar um ao outro, não têm poderes para isso. — Como queria contar a verdade a ele, que Adair não era quem pensávamos que fosse, que era muito mais poderoso, perigoso e cruel do que qualquer um de nós poderia imaginar, mas não podia me arriscar. Tinha medo que Adair intuísse meu medo.

Além disso, não poderia dizer a Jonathan sobre minha verdadeira suspeita. Eu sabia de tudo, agora. Aqueles olhares mansos que Adair lançava a Jonathan não eram porque ele planejava levá-lo para a cama. A cobiça que tinha por Jonathan ia muito mais fundo; Adair queria tocar aquele corpo, acariciar e afagar, conhecer cada sulco, cada saliência, cada curva não porque queria ter relações com Jonathan, mas porque queria possuí-lo. Possuir aquele corpo perfeito e ser conhecido por aquele rosto perfeito. Ele estava pronto para habitar um corpo, ao qual, verdadeiramente, não se podia resistir.

Adair mandou as instruções: tínhamos que limpar o fogão da cozinha e fazer um esquife. A copeira e o cozinheiro sumiram enquanto tomávamos posse da cozinha e Dona, Alejandro e eu tirávamos as coisas penduradas sobre o enorme fogão. Limpamos as paredes enegrecidas e varremos as cinzas. O esquife foi feito com suportes de madeira de tábuas largas e construímos uma pira no espaço entre os suportes, gravetos secos e pinhas espalhadas com gordura de carne para acender o fogo, palha compacta e lenha seca como combustível. O corpo, embrulhado num manto de linho branco, foi colocado sobre as tábuas.

Colocamos uma tocha sobre o combustível, que se acendeu facilmente. A le­nha levou algum tempo para pegar fogo e quase uma hora até se transformar numa fogueira flamejante. O calor na cozinha era enorme. Finalmente, o corpo pegou fogo, o manto foi consumido rapidamente, o fogo dançando sobre os fios, o tecido enrolando como pele, cinza preta subindo pela parede e saindo pela chaminé. O cheiro, estranho e de natureza assustadora, deixou todos na casa inquietos. Só Adair o suportava; ele se jogou na cadeira colocada diante do fogão e assistiu ao fogo devorar Uzra aos poucos: o cabelo, a roupa, a pele de seu braço macio. Finalmente, o corpo, muito úmido, começou a chamuscar e assar, e o cheiro de carne queimada tomou conta da casa.

— Imagine esse cheiro se levantando sobre a casa, lá na rua. Será que ele não acha que os vizinhos o sentirão? — Tilde disse, sarcasticamente, com os olhos lacrimejando.

Nós nos juntamos, agachados, na porta da cozinha, mas em algum momento Dona e Tilde escaparam furtivamente para seus aposentos, murmurando misteriosamente, enquanto Alejandro e eu permanecemos do lado de fora da porta da cozinha, afundados no chão, observando Adair.

Quando o céu lá fora começou a se iluminar, o fogo já havia apagado. A casa agora estava repleta de uma fina fumaça cinza, que pairava no ar, um odor acre de cinza de madeira. Só quando a brasa esfriou Adair se levantou de sua cadeira e encostou no ombro de Alejandro quando passou.

— Junte as cinzas e as jogue na água — ordenou numa voz profunda.

Alejandro insistiu em fazer isso sozinho, ajoelhando-se dentro do fogão ainda quente, com uma vassoura e um espanador.

— Tanta cinza — ele disse, sem perceber minha presença. — De toda aquela madeira, eu acho. A própria Uzra não daria mais do que um punhado.

Naquele momento, a vassoura tocou em algo sólido e ele se abaixou, procurando em meio aos sedimentos. Ele encontrou algo carbonizado, um pedaço de osso.

— Devo guardar isso? Para Adair? Algum dia ele ficará feliz em tê-lo. Essas coisas podem ser maravilhosos talismãs — ele brincou, virando-o para lá e para cá como um objeto raro. Mas, então, jogou-o no balde. — Acho que não.

Adair afastou-se do restante de nós depois daquilo. Ficava em seu quarto e a única visita que recebia era a do advogado, o sr. Pinnerly, que, no dia seguinte, chegou apressado, com uma profusão de papéis explodindo de sua sacola. Ele saiu uma hora depois, o rosto vermelho como se tivesse percorrido quilômetros. Interceptei-o na porta, mostrando preocupação com seu rosto avermelhado e me oferecendo para buscar alguma coisa fresca para beber.

— Quanta gentileza! — ele disse enquanto engolia um pouco de limonada, enxugando a testa. — Infelizmente, não posso ficar muito tempo. Seu senhor tem grandes expectativas sobre o que um mero advogado é capaz de fazer. Como se eu pudesse mandar no tempo e o fazer dançar de acordo com minha música! — ele comentou em tom de desaprovação; então notou que os papéis ameaçavam voar de sua maleta e correu para colocá-los no lugar.

— Ah, verdade? Ele é do tipo exigente, mas ouso dizer que o senhor parece inteligente o bastante para conseguir resolver qualquer tarefa que Adair coloque à sua frente — eu disse, lisonjeando-o despudoradamente. — Então, me diga, quais milagres ele espera do senhor?

— Uma série de complicadas transferências financeiras, que envolve bancos europeus, algumas cidades das quais nunca ouvi falar antes — ele respondeu, então pareceu pensar melhor sobre revelar quaisquer deficiências suas a qualquer membro da família de seu cliente. — Ah, não é nada, nem preste atenção em mim. Só estou um pouco cansado, minha querida. Será feito conforme solicitado. Nem pense em preocupar essa linda cabecinha com esses assuntos. — Ele deu tapinhas em minha mão de uma maneira tão arrogante, que tive vontade de lhe dar um tapa de volta. Entretanto, isso não me traria o que queria saber.

— Só isso? Ficar mexendo em dinheiro de um lugar para o outro? Pensei que um homem tão inteligente quanto o senhor fosse capaz de fazer isso apenas com o dedo mindinho. — Pontuei minhas palavras com um pequeno gesto obsceno que envolvia meu próprio dedo mínimo e uma insinuação da boca, um gesto que vira ser feito por garotos de aluguel e que passava uma mensagem inquestionável para a maioria dos homens e, certamente, chamaria a atenção dele. Foi o que realmente aconteceu. A discrição pareceu fugir de seus ouvidos feito serragem de um brinquedo de criança quebrado, e ele me olhou de queixo caído. Se nunca suspeitara de que essa era uma família de prostitutas lambedoras de traseiros, com certeza soube naquele exato momento.

— Minha querida, você acabou de...

— O que mais Adair pediu ao senhor? Nada, tenho certeza, que o manteria ocupado a noite toda. Nada que o impediria de, vamos dizer, divertir um visitante...

— Passagens para amanhã para a Filadélfia — ele disse com pressa —, o que eu respondi ser impossível. E, então, tenho que alugar uma carruagem particular...

— Para amanhã! — exclamei. — Ele está partindo tão rápido...

— E não levará você com ele, minha querida. Não. Já esteve na Filadélfia? É uma cidade fantástica, muito mais animada do que Boston e não o tipo de lugar que, digamos, a senhora Pinnerly estaria apta a visitar. Talvez eu pudesse mostrá-la a você...

— Espere. Como sabe que eu não vou com ele? Ele lhe disse?

O advogado grunhiu para mim, revigorado.

— Bem, não se preocupe. Não é como se ele fosse fugir com outra mulher. Ele vai com um homem, o feliz beneficiário de todas essas malditas transferências de dinheiro. Se seu senhor me consultasse, eu o aconselharia a simplesmente adotar esse sujeito, pois seria muito mais fácil a longo prazo...

— Jonathan? — perguntei, querendo chacoalhar o advogado pelos ombros para fazê-lo parar de tagarelar e arrancar o nome de sua boca como uma lesma reticente em sair da casca. — Jacob, quero dizer. Jacob Moore?

— Sim, é esse o nome. Você o conhece? Ele será um homem muito rico, pode ter certeza. Se não se importa que lhe diga isso, talvez deva considerar investir nesse tal de senhor Moore antes que a notícia se espalhe... Hummm? — Com suas suposições sobre minhas intenções, Pinnerly se colocara numa situação difícil e eu gostei de vê-lo tentar se destrinçar. Ele limpou a garganta. — Isso não quer dizer que eu imagine, nem por um segundo, que você... e o benfeitor do conde... Peço desculpas! Acredito ter ultrapassado os limites de minha posição.

Juntei minhas mãos discretamente.

— Acho que sim.

Ele me devolveu o copo e pegou sua maleta.

— Por favor, acredite quando eu digo que falei de brincadeira, senhorita. Confio que não contará ao conde sobre minha indiscrição a respeito do... Hummm?

— Sua indiscrição? Não, senhor Pinnerly. Sou absolutamente discreta.

Ele hesitou.

— E suponho que minha pergunta sobre uma visita à meia-noite...?

Balancei a cabeça.

— Está fora de questão.

Ele me lançou um olhar controlado, dividido entre o arrependimento e o desejo, e, então, saiu rapidamente da casa peculiar, de seu cliente mais bizarro, feliz (tenho certeza) de nos deixar para trás.

Aparentemente, vultosas quantias de dinheiro estavam sendo transferidas para contas em nome de Jonathan e a fatídica viagem para a Filadélfia começaria no dia seguinte. Adair estava pronto para dar o bote, o que significava que o tempo tinha se acabado para mim e Jonathan. Precisava agir agora ou passar o restante da eternidade em arrependimento.

Fui até Edgar, o mordomo-chefe, o encarregado de supervisionar os outros criados e administrar os assuntos da casa. Ele tinha um coração desconfiado e culpado, como todos aqueles que ocupavam um lugar naquela família, do senhor até os criados, o que significa dizer que ele fazia direito o seu trabalho no mínimo grau necessário. É uma característica terrível num criado quando se deseja ter uma casa bem-administrada, mas a atitude perfeita para alguém numa casa na qual as convenções e os escrúpulos havia muito saíram pela porta.

— Edgar — eu disse, cruzando as mãos formalmente diante de mim como se fosse a senhora da casa. — Há um conserto na adega de vinhos que Adair gostaria que visse durante a ausência dele. Por favor, mande alguém até a mansão para entregar uma carriola de pedras e uma de tijolos no porão hoje à tarde. Já contratei um homem para executar o trabalho assim que o conde sair de viagem. — Quando Edgar olhou de modo desconfiado para mim (a adega de vinhos sempre foi uma bagunça, por que a pressa agora?), eu acrescentei: — E não precisa incomodar Adair com isso; ele está se preparando para a viagem. Ele me confiou essa tarefa durante sua ausência e espero que seja feita. — Eu podia ser bem arrogante com os criados; Edgar sabia que era melhor não me aborrecer. Com isso, virei-me e saí andando, para colocar o próximo passo de meu plano em ação.

45

Na manhã seguinte, a família estava consumida pelas preparações com a viagem de Adair. Ele passara a manhã escolhendo as roupas que levaria e então mandou os criados arrumarem tudo nos baús e carregarem a carruagem alugada. Jonathan se fechara em seu quarto, onde supostamente também estaria arrumando as coisas para a viagem, mas senti que ele não queria ir e que uma briga estava prestes a acontecer.



Eu me escondi na despensa, com o pilão do cozinheiro, e ralei o fósforo metodicamente até virar pó. Enquanto arrumava as coisas de que precisaria, estava nervosa como nunca, certa de que Adair sentiria minhas emoções e ficaria em alerta. Na verdade, eu não sabia a extensão de seus poderes, se é que podiam ser chamados de poderes. Porém, já havia chegado até ali e não tinha outra escolha a não ser jogar com a minha vida e a de Jonathan, e ir até o fim.

Nessa altura, a casa estava em silêncio e, pode ter sido minha imaginação, parecia estar tensa e com emoções veladas: abandono, ressentimento, raiva de Adair pairando no ar pelo que tinha feito à Uzra, indecisão sobre o que nos aguardava dali para frente. Carregando uma bandeja com o vinho envenenado, passei pela porta fechada do quarto de Adair, que, nesse momento, estava quieto, uma vez que os criados já haviam retirado os baús. Bati uma vez e, sem esperar resposta, empurrei a porta para trás e entrei devagar.

Adair estava sentado numa poltrona que puxara para perto do fogo, o que era incomum por si só, já que ele geralmente descansava sobre um monte de almofadas. Talvez tivesse se sentado mais formalmente por estar com trajes de viagem, isto é, vestido como um distinto cavalheiro da época e não com o peito nu como era de hábito. Ele estava sentado com as costas retas no braço da poltrona, com calças e botas, um paletó e uma camisa de colarinho alto, amarrada ao pescoço com uma gravata de seda, seu sobretudo pendurado nas costas de uma segunda poltrona. Seu traje era feito de lã cinza-escura com muito pouco bordado ou enfeites, muito mais discreto do que seus trajes de sempre. Não estava usando peruca; em vez disso, tinha o cabelo penteado para trás e amarrado com capricho. Sua expressão era de tristeza, como se estivesse sob pressão, sendo forçado a embarcar naquela viagem, e isso não fazia seu gênero. Ele ergueu a mão e foi quando notei que tinha o narguilé a seu lado, e que o quarto cheirava à doce fumaça de ópio, do tipo mais forte. Ele sugava o bocal, bochechas para dentro, olhos semicerrados.

Coloquei a bandeja sobre a mesa perto da porta e me agachei no chão perto dele, gentilmente enrolando meus dedos nos cachos brilhantes caídos em sua testa, colocando-os de lado.

— Achei que pudéssemos passar um momento juntos antes de você ir. Trou­xe algo para você beber.

Ele abriu os olhos lentamente.

— Fico feliz por estar aqui. Quis contar-lhe sobre essa viagem; deve estar se perguntando por que irei com Jonathan e não com você. — Eu controlei minha vontade de dizer a ele que já sabia o motivo, mas esperei que continuasse. — Sei que mal pode aguentar separar-se de Jonathan, mas eu o manterei longe de você só por alguns dias — ele disse, sarcasticamente. — Jonathan retornará, mas eu viajarei sozinho por um tempo. Tenho essa necessidade de vez em quando... de ficar sozinho com meus pensamentos e minhas memórias.

— Como pode me deixar desse jeito? Não sentirá minha falta? — perguntei, tentando fazer charme. Ele assentiu.

— Sim, sentirei, mas não posso fazer nada. É por isso que Jonathan virá comigo; preciso explicar algumas coisas a ele. Ele será responsável pela família enquanto eu estiver fora. Ele me contou sobre as responsabilidades que tinha cuidando dos negócios da família e fazendo com que as dívidas dos vizinhos não quebrassem a cidade; administrar as contas da família deverá ser fácil para ele. Já transferi todo o dinheiro para o nome dele. Ele terá autoridade; você e o restante não terão outra opção a não ser obedecê-lo.




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