No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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— Não queria nada — respondeu sobre os ombros.

— Não vejo o que...

Ele virou-se para mim.

— E seu irmão, Nevin? Ele não gosta muito de mim, gosta? — Eu parei, atônita. Não, até onde me lembrava, Nevin não gostava, nem nunca gostou de Jonathan. Lembro-me da briga com Jonathan, de como Nevin voltou para casa manchado com uma casca de sangue seco em seu rosto, e do orgulho silencioso de meu pai.

— Por que acha que seu irmão me odeia? — ele quis saber.

— Não sei.

— Nunca dei motivo a ele, mas ele me odeia mesmo assim — Jonathan disse, esforçando-se para não trair a mágoa na voz. — É assim com todos os meninos. Eles me odeiam. Alguns adultos também. Sei disso, posso sentir. É por isso que tento evitá-los, Lanny. — Seu peito estava ofegante, cansado de explicar tudo para mim. — Pronto, agora você sabe — ele disse e se apressou, e fiquei olhando para ele, surpresa.

Pensei a semana toda sobre o que ele dissera. Poderia ter conversado com Nevin sobre seu ódio por Jonathan, mas fazer isso seria retomar uma antiga briga entre nós. Ele não suportava que eu fosse amiga de Jonathan, obviamente, e eu já conhecia muito bem as razões. Meu irmão achava que Jonathan era presunçoso e arrogante, que se gabava de sua riqueza e que esperava, e recebia, tratamento especial. Eu conhecia Jonathan mais do que qualquer outra pessoa fora de seu círculo familiar, talvez até mais do que a própria família, de forma que sabia que tudo isso era mentira, exceto pelo último motivo, mas não era culpa de Jonathan se as outras pessoas o tratavam de maneira diferente. E, ainda que Nevin nunca admitisse, eu via em seus olhos de ódio o desejo de estragar a beleza de Jonathan, de deixar sua marca naquele rosto maravilhoso e derrotar o filho favorito da cidade. A seu modo, Nevin queria desafiar Deus, para corrigir uma injustiça que Ele deliberadamente tinha lhe feito: ser obrigado a viver sob a sombra de Jonathan, em todos os sentidos.

Foi por isso que Jonathan se afastou apressadamente de mim na reunião da igreja, pois tinha sido forçado a compartilhar sua vergonha comigo e talvez pensara que, uma vez que eu soubesse seu segredo, eu o abandonaria. Quanto nos apegamos a nossos medos durante a infância! Como se existisse qualquer tipo de força na terra ou no céu que pudesse me impedir de amar Jonathan! De fato, isso me fez enxergar que ele também tinha seus inimigos e caluniadores; que ele também era julgado constantemente e que precisava de mim. Eu era a única amiga com quem ele era livre. E a recíproca era verdadeira: honestamente, Jonathan era a única pessoa que me tratava como se eu fosse importante. E ter a atenção do garoto mais desejado e mais importante do vilarejo não era pouca coisa para uma garota quase invisível entre seus pares. O que eu poderia fazer a não ser amá-lo, ainda que fosse só por isso?

E foi exatamente o que disse a Jonathan no domingo seguinte, quando fui até ele e coloquei meu braço embaixo do dele enquanto caminhava no final do gramado.

— Meu irmão é um idiota — foi tudo o que eu disse, e continuamos a caminhar juntos sem trocar nenhuma palavra.

Uma coisa da qual eu não me arrependi de dizer durante nossa conversa na reunião da igreja foi que eu gostaria de ter nascido um menino. Ainda acreditava nisso. Foi enfiado na minha cabeça, pelas coisas que meus pais faziam e pelas próprias regras sob as quais vivíamos, que meninas não valiam tanto quanto meninos e que nossa vida estava fadada a ser bem menos importante. Por exemplo, Nevin herdaria a fazenda de meu pai, mas se ele não tivesse o temperamento ou a vocação para a criação de gado, ele poderia ser aprendiz de ferreiro ou ser mandado para trabalhar como lenhador para os St. Andrew; ele tinha opções, apesar de limitadas. Como mulher, eu tinha poucas escolhas: casar e formar a própria família; ficar em casa e cuidar de meus pais; trabalhar como serviçal na casa de alguém. Se, por algum motivo, Nevin recusasse a fazenda, meus pais, possivelmente, a dariam para o marido de uma das filhas, mas isso também dependeria da preferência dele. Um bom esposo levaria em consideração o desejo de sua esposa, mas nem todos o faziam.

A outra razão, a mais importante, em minha opinião, era que, se eu fosse um menino, seria muito mais fácil ser amigo de Jonathan. As coisas que poderíamos fazer juntos se eu não fosse uma garota! Poderíamos andar a cavalo e sair em busca de aventuras sem um acompanhante. Poderíamos passar muito tempo na companhia um do outro sem desagradar ninguém ou ser motivo de falatório. Nossa amizade seria tão comum que não seria alvo de investigação.

Em retrospecto, entendo agora que era uma época difícil para mim, ainda presa na adolescência, mas já tateando a maturidade. Havia coisas que queria de Jonathan, mas ainda não conseguia dar nomes a elas e tinha apenas o desajeitado modelo da infância como comparação. Eu era próxima a ele, mas queria ser ainda mais próxima, de uma maneira que não entendia. Via como ele olhava as meninas mais velhas e que ele se comportava de um modo diferente com elas, e pensei que fosse morrer de ciúme. Em parte, isso acontecia por causa da intensidade da atenção de Jonathan, seu grande charme. Quando ele estava com você, tinha um jeito de fazer você se sentir o centro do Universo. Seus olhos, aqueles olhos escuros sem-fim, olhavam para seu rosto e era como se ele estivesse lá para você e somente para você. Talvez isso fosse uma ilusão, talvez fosse somente a alegria de tê-lo junto de si. De qualquer maneira, o resultado era sempre o mesmo: quando Jonathan não dava mais atenção, era como se o Sol se escondesse atrás de uma nuvem e um vento frio e cortante batesse nas costas. Tudo o que queria era que Jonathan voltasse, para ter sua atenção de novo.

E ele mudava a cada ano. Quando estava desatento, via aspectos dele que nunca tinha visto (ou percebido) antes. Ele podia ser cruel, particularmente quando notava que era observado por uma mulher. Exibia o comportamento grosseiro dos lenhadores que trabalhavam para seu pai, falava de maneira vulgar sobre as mulheres como se já estivesse familiarizado com todos os níveis possíveis de intimidade entre os sexos. Mais tarde soube que, aos 16 anos, ele fora seduzido e seguiu seduzindo outras mulheres; tornou-se um participante (comparativamente cedo na vida dele) dessa valsa secreta de amantes ilícitos existente em St. Andrew, um mundo escondido quando não se sabe onde procurar. Mas estes eram segredos que ele não tinha coragem de dividir comigo.

Tudo o que sei é que meu desejo por Jonathan crescia e, às vezes, tinha a sensação de que estava quase além de meu controle. Havia algo em seus olhos negros, ou em seu meio sorriso, ou no modo como acariciava propositadamente a manga de seda de uma jovem quando pensava que ninguém o estava observando, que me fazia querer que ele me olhasse e me acariciasse da mesma forma. Ou, quando pensava nas coisas indecorosas que o tinha ouvido dizer, queria que fosse indecoroso comigo também. Compreendo agora que eu era uma jovenzinha solitária e confusa que implorava por intimidade e paixão física (apesar de isso ser um mistério para mim); sei disso agora, mas minha ignorância foi o caminho para minha desgraça. Estava louca para ser amada. Não posso colocar a culpa toda em Jonathan. Quantas vezes causamos nossa própria derrocada!

4

HOSPITAL DO CONDADO DE AROOSTOOK, HOJE



A fumaça rodopiava em dois pontos de luz dentro do consultório. Agora, as amarras dos pulsos estão soltas e a prisioneira senta-se com a maca ajustada na posição vertical, como uma cadeira, um cigarro queimando entre os dedos. Duas bitucas, queimadas até o filtro, estão amassadas no fundo de uma comadre sobre a maca entre eles. Luke se recosta na cadeira e tosse, a garganta raspando por causa da fumaça e a cabeça um tanto zonza, como se tivesse usado drogass a noite toda.

Ouve-se uma batida na porta e Luke fica em pé mais depressa do que um esquilo consegue subir numa árvore, pois sabe que essa é a batida obrigatória e de praxe que um funcionário do hospital dá antes de entrar. Ele bloqueia a porta com o corpo, deixando-a apenas entreaberta.

O olhar frio de Judy, distorcido pelas lentes dos óculos, analisa-o de cima a baixo.

— O necrotério ligou. O corpo acabou de chegar. Joe quer que você ligue para o médico-legista.

— Está tarde. Diga a Joe que não há necessidade de ligar para o legista agora. Certamente dá para esperar até amanhã.

A enfermeira cruza os braços.

— Ele também pediu para perguntar sobre a prisioneira. Ela está pronta para ir ou não?

Isso é um teste, ele percebe. Ele sempre se viu como uma pessoa honesta, mas ainda não está pronto para deixá-la ir.

— Não, ele ainda não pode levá-la.

Judy lhe lança um olhar tão duro, que parece atravessá-lo.

— Por que não? Ela não tem um arranhão sequer.

Rapidamente uma mentira lhe vem à cabeça.

— Ela ficou agitada. Tive que sedá-la. Preciso ter certeza de que não terá reações adversas ao sedativo. — A enfermeira suspira profundamente, como se já soubesse (não suspeita, mas sabe) que ele está fazendo alguma coisa horrorosa com o corpo inconsciente da garota. — Me deixe sozinho, Judy. Diga a Joe que ligarei para ele quando ela estabilizar. — Ele fecha a porta na cara dela.

Lanny empurra a cinza em volta da comadre com seu cigarro aceso, sem fazer contato visual com ele.

— Jonathan está aqui. Agora não precisa acreditar nas minhas palavras — ela diz, batendo a cinza dentro da comadre e indicando a porta com a cabeça. — Desça até o necrotério. Veja com seus próprios olhos.

Luke se mexe desconfortavelmente no banquinho.

— Então, há um homem morto no necrotério, o que prova que você realmente matou um homem esta noite.

— Não, há mais uma coisa. Deixa eu mostrar para você — ela diz, erguendo a manga do avental do hospital e revelando as linhas de um desenho pequeno na parte branca, do lado de dentro de seu antebraço. Ele se inclina para olhar mais de perto e vê que é uma tatuagem grosseira, feita em tinta preta: o contorno de um escudo heráldico com a figura de um réptil dentro. — Verá no braço de Jonathan, neste lugar...

— A mesma tatuagem?

— Não — ela responde, passando o dedo sobre a tatuagem. — Mas é do mesmo tamanho e foi feita pela mesma pessoa, então é parecida, como se tivesse sido feita com alfinetes mergulhados em tinta, e realmente foi. A dele são dois cometas circundando um em volta do outro, com as caudas estendidas.

— O que significam? Os cometas? — Luke pergunta.

— Gostaria muito de saber — ela responde, arrumando o avental e a roupa de cama. — Vá lá e olhe para Jonathan, e então me diga que não acredita em mim.

Depois de amarrá-la novamente de forma muito ineficaz, com amarras raramente usadas em pacientes rebeldes, Luke Findley se levanta do banquinho. Passa pelas portas de vaivém, olhando para todos os lados para se assegurar de que ninguém o veja sair. O hospital ainda está escuro e silencioso, somente com algum movimento nos distantes pontos de luz sobre o balcão das enfermeiras no fundo do corredor. Seus sapatos rangem no limpo piso de linóleo enquanto ele se apressa pela escadaria, em direção ao norte, pelo corredor do subsolo que leva até o necrotério.

Durante o percurso, seus nervos estão à flor da pele. Se alguém o intercepta e lhe pergunta o que está fazendo fora da sala de emergência, por que está indo ao necrotério, ele simplesmente dirá... Luke nunca foi um bom mentiroso. Ele vê a si mesmo como uma pessoa fundamentalmente honesta, seja lá o bem que isso lhe faça. Apesar de sua honestidade e do medo de ser pego, ele concordou com a estranha sugestão da prisioneira, porque está curioso para saber se o morto é o homem mais belo já colocado sobre esse planeta e qual é a aparência desse tal homem mais belo de todos.

Ele empurra a pesada porta do necrotério. Luke ouve música (o funcionário noturno do necrotério, um jovem chamado Marcus, gosta de ter o rádio sempre ligado), mas não vê ninguém. A escrivaninha mostra que há gente ali (a luminária acesa, papéis espalhados, papel de chiclete, uma caneta sem tampa), mas nem sinal de Marcus.

O necrotério é pequeno, de acordo com as modestas necessidades da cidade. Há uma sala refrigerada para exames mais ao fundo, mas os corpos são guardados em quatro câmaras frias na parede próxima da entrada. Luke respira fundo e alcança um dos trincos, grande e pesado como os trincos dos caminhões antigos de comida congelada.

Na primeira câmara ele encontra o corpo de uma velha senhora, desconhecida para ele, o que significa que ela provavelmente veio de uma das cidades um pouco mais afastadas do condado. O corpo pequeno e compacto e os cabelos brancos o fazem pensar em sua mãe e, por um momento, ele é levado de volta à última conversa lúcida que tiveram. Ele havia se sentado ao lado de sua cama, na unidade de terapia intensiva, enquanto os olhos perdidos dela buscavam o filho, e suas mãos buscavam as dele, para se confortar.

— Sinto muito por fazê-lo voltar para casa para tomar conta de nós — ela lhe disse; sua mãe nunca se desculpava porque não se permitia fazer nada pelo que precisasse se desculpar. — Talvez tenhamos ficado na fazenda tempo demais. Mas seu pai, ele não desistia... — Ela se obrigou a parar, incapaz de ser desleal ao velho homem, tão teimoso a ponto de ter andado pesadamente até o estábulo para tirar leite das vacas na manhã do dia em que morreu. — Sinto muito pelo que isso causou à sua família... — Luke lembra-se de tentar explicar que o casamento deles já estava desmoronando muito antes de retornar com a família para St. Andrew, mas sua mãe não queria saber de ouvir nada daquilo. — Você nunca quis ficar em St. Andrew, desde quando era pequeno. Não pode estar feliz aqui agora. Depois que eu morrer, não fique enfiado aqui. Vá embora e comece uma vida nova. — Ela começou a chorar e continuou segurando as mãos dele, ficando inconsciente poucas horas depois.

Leva um tempo para Luke reparar que a câmara ainda está aberta e que ele estava em pé havia tanto tempo que seu peito ficara gelado. É como se pudesse ouvir a voz da mãe em sua mente. Ele sente um arrepio e escorrega a bandeja para dentro da câmara; então, fica parado mais um minuto até lembrar por que tinha vindo ao necrotério.

Encontra um saco para cadáveres preto na segunda câmara e, com um grunhido de esforço, puxa a bandeja para fora. Abre o zíper até embaixo, emitindo o som de algo se rasgando, como o desgrudar de um velcro.

Luke afasta o saco e olha fixamente o corpo. Ele já viu muitas pessoas mortas ao longo dos anos, e a morte não faz nada para melhorar sua aparência. Dependendo da maneira como morreram, os mortos podem ficar inchados. Podem ter escoriações e descoloração, ou ficar pálidos e azulados. E há sempre a incontestável falta de vivacidade no semblante. O rosto deste homem está quase branco, como as manchas nas folhas escuras e molhadas; o cabelo negro está emplastrado na testa, os olhos, fechados. Não faz diferença. Luke poderia ficar olhando para ele a noite toda. É maravilhoso, mesmo na morte. Ele é de tirar o fôlego, lindíssimo!

Luke está a prestes a empurrar a bandeja de volta quando se lembra da tatuagem. Primeiro olha por sobre o ombro, caso Marcus tenha voltado, e então se apressa, abrindo mais o zíper do saco e mexendo na roupa para conseguir ver o antebraço do morto. E lá está ela, exatamente como Lanny disse que seria: duas esferas interligadas com as caudas se cruzando em direções opostas, e os pontos se parecem em tamanho, na qualidade do trabalho manual e até no traço tremido da linha.

Refazendo seus passos pelos corredores vazios até a ala de emergência, Luke se debate com a confusão de seus pensamentos que são, na maior parte, perguntas. São como matéria e antimatéria, um anulando o outro, duas verdades que não podem coexistir. Ele sabe o que presenciou na sala de emergência quando viu a garota se cortar; seria impossível, mas aconteceu. Ele tocara no torso dela, antes e depois do corte, então sabe que não foi um truque. Mas o que viu não poderia ter acontecido, não da maneira como ele viu.

A não ser que ela esteja falando a verdade. E agora tem um homem lindo no necrotério, e as tatuagens... Ele tem a sensação de que precisa ouvi-la e deixar-se levar, para variar. Mas ele é teimoso, afinal é um homem da ciência; não está a ponto de jogar para o alto tudo o que sabe ser fato. De qualquer forma, está curioso para saber mais.

O médico passa correndo pela porta do consultório da sala de emergência, a energia e o nervosismo dentro do peito como vaga-lumes dentro de uma garrafa, para encontrar a prisioneira acomodada na maca, sob o brilho da fresta de luz e das partículas rodopiantes de fumaça. “Ela poderia ser um anjo excomungado”, Luke pensa, “as asas cortadas”.

Lanny olha avidamente para ele.

— Então, você o viu? Ele não era tudo o que eu disse que seria?

Luke concorda. Uma beleza assim é o próprio droga. Ele passa a mão pelo rosto, respira fundo.

— Então agora você compreende — Lanny disse solenemente. — E, se acredita em mim, Luke, me ajude. Me desamarre — ela pediu, curvando as costas e mostrando as amarras, seu rosto meigo e infantil virado para ele. — Preciso que você me ajude a fugir.

5

ST. ANDREW, 1811



Talvez tivesse sido melhor, tanto para mim quanto para Jonathan, se eu tivesse nascido homem. Preferia ter deixado nossa amizade continuar e, assim, sempre ter Jonathan. Teríamos passado nossa vida toda dentro dos limites de nosso pequeno vilarejo; nunca teria passado pelas dificuldades que passei, nunca teria sofrido esta provação colocada para nós dois.

Mas eu era uma menina e, por mais que desejasse, nada mudaria isso. À minha frente surgia a misteriosa transição de menina para mulher, tão assustadora quanto mágica. Quais exemplos deveria seguir? Minha mãe, Theresa, não conseguira me dar os tipos de conselho que eu buscava; ela era recatada e quieta demais para meu gosto; eu não queria ser como ela, queria mais. Queria casar com Jonathan, por exemplo, e não parecia que minha mãe pudesse me ensinar a ser o tipo de mulher que conquistaria Jonathan.

Parecia haver segredos que nem todas as mulheres podiam saber. Por sorte, havia uma mulher na cidade que os conhecia, uma mulher de quem todos falavam coisas, cujo nome trazia um sorriso ao rosto dos homens (se suas mulheres não estivessem por perto). Era uma mulher diferente de todas no vilarejo e eu tinha que achar um jeito de fazê-la compartilhar esses segredos comigo.

Numa trilha da floresta, escondida à sombra da oficina do ferreiro, havia uma casinha. Se alguém conseguisse notá-la, acharia que era uma extensão da oficina ou um depósito de ferramentas do ferreiro, um lugar para guardar ferro-gusa. Era muito desmantelada e pequena para ser uma casa, mesmo assim, não parecia abandonada e o caminho até a porta da frente ficava cada vez mais batido. Com certeza não dava para mais de uma pessoa morar ali, e a lei vigente contra morar sozinho ainda prevalecia no apagar das luzes do século XIX, em nosso gélido vilarejo puritano (porque éramos puritanos, não tenha dúvida disso; os fundadores da cidade haviam crescido nos territórios de Massachusetts e estavam acostumados a misturar religião e governo). No entanto, neste ponto do extremo norte, que depois viria a ser o Maine, a única razão para a ordem de não viver sozinho era a necessidade: era impensável que uma pessoa sozinha conseguisse desempenhar todas as tarefas necessárias e sobrevivesse nesse ambiente hostil. No entanto, em uma cidade rigorosamente puritana, ninguém podia viver sozinho porque na solidão se pode pecar, fazer coisas que não são de Deus. A ordem contra viver sozinho permitia a vigilância dos vizinhos, mas os cidadãos de St. Andrew valorizavam a independência e resguardavam sua privacidade com unhas e dentes.

De fato, morava alguém naquela casinha, uma mulher que já passara da época de ter filhos, ainda bela, embora envelhecida. Ela raramente saía, mas quando se aventurava nas ruas durante o dia, os moradores da cidade a olhavam com cautela. Os homens fingiam estar fazendo algo para que os olhos deles não se encontrassem com os dela, e as mulheres puxavam suas longas saias de lado. Alguns a encaravam diretamente.

Mas, à noite, era outra história. Na escuridão da noite, ela tinha visitantes regulares. Homens, um de cada vez, e, mais raramente, um casal, atravessavam rapidamente o caminho e batiam educadamente em sua porta. Se ninguém atendesse, o visitante sabia que tinha que se sentar no degrau e esperar, de costas para porta, fingindo não ouvir qualquer som que saísse de lá de dentro. Vez ou outra, os sons da casinha se tornavam conversas murmurantes, depois silêncio e, dentro de poucos minutos, a porta da frente se abria para o visitante que estava esperando.

Aqueles que sabiam de sua existência a chamavam de Magdalena. Era o nome que dera a si mesma quando chegara à cidade sete anos antes. Na época, ninguém questionou aquele nome estranho. Ela chegou com um pequeno grupo de viajantes do território franco-canadense e, quando eles seguiram viagem, ela ficou. Disse que era viúva e resolveu se mudar para o clima mais ameno do sul, isto é, se os moradores de St. Andrew permitissem que ela ficasse.

O ferreiro se ofereceu para transformar seu velho depósito em uma pequena casa e as boas mulheres do vilarejo a ajudaram a se acomodar, trazendo-lhe todas as coisas das quais pudessem dispor: um banquinho bambo, um pouco de chá, um cobertor velho. Mandavam os maridos com lenha e gravetos para acender o fogo. Perguntavam o que faria para se manter: bordado, fiação, tear? Era parteira, treinada para curar e amamentar? E ela simplesmente sorria discretamente e abaixava o rosto, como se dissesse: “Eu? Que tipo de habilidades teria? Meu marido me tratava como uma boneca de porcelana. Como uma pobre viúva que não sabe fazer nada conseguirá sobreviver no mundo?”. As boas mulheres iam embora confusas, cacarejando e balançando a cabeça, sem saber o que dizer, exceto que Deus era o provedor de todos os seus filhos, inclusive desta mulher inocente que parecia acreditar que encontraria a caridade sem limites nesta cidade rude e solitária.

Como o futuro provou, ela realmente não precisou depender da caridade. Misteriosamente, o sustento aparecia em sua porta, espontaneamente. Uma barra de manteiga, um saco de batatas, um jarro de leite. A lenha se amontoava do lado de fora da porta dos fundos. E dinheiro. Ela era uma das poucas pessoas na cidade que tinha dinheiro vivo e contava-o no armazém quando comprava mantimentos. E que mantimentos curiosos: garrafas de gim, tabaco! Através da única janela da casinha, os vizinhos notavam uma lamparina acesa até tarde da noite. Será que ela ficava acordada a noite toda fumando tabaco e bebendo gim?

No final, foram os lenhadores que revelaram o segredo dela, os madeireiros que trabalhavam para Charles St. Andrew ano após ano e viviam longe de suas esposas. Homens desse tipo conseguiam sentir o cheiro de mulheres como Magdalena do outro lado da cidade, até mesmo através do vale, se o vento certo soprasse e eles estivessem muito desesperados. Primeiro um, depois outro, até que cada um deles achava o caminho até a escadaria da casa de Magdalena assim que o sol se punha. Não que os lenhadores fossem os únicos clientes dela: afinal, eles pagavam em moedas, não com ovos nem presunto defumado. Mas, por causa dos lenhadores, sua reputação se espalhou pela cidade e a fúria se instalou entre as esposas virtuosas. Ainda assim, Magdalena não dizia nada. Não enquanto o sol brilhava. Nem mesmo quando foi humilhada pessoalmente por uma esposa indignada.

As esposas, junto com o pastor, organizaram um grupo para expulsá-la da cidade. A presença dela era o primeiro sinal de vida pecaminosa na cidade de St. Andrew, o tipo de coisa que os cidadãos queriam evitar. O pastor Gilbert foi até Charles St. Andrew, já que ele era o patrão dos lenhadores, os clientes que reclamariam abertamente.

Por mais que simpatizasse com o pedido do pastor, Charles observou que havia outro lado nos serviços prestados por Magdalena, ao qual a população não estava prestando atenção. Os lenhadores agiam de acordo com suas necessidades naturais, com as quais o pastor concordou rancorosamente, já que estavam separados de suas cônjuges legais por muitas milhas de distância. Sem os serviços de Magdalena, o que os lenhadores poderiam aprontar? A presença dela tornava a cidade mais segura para as esposas e as filhas.




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