No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Assim que o ópio fez efeito em Adair e ele caiu no sono, Jonathan e eu escapamos da sala.

— Meu bom Deus, Lanny, o que devo achar daquela história? Por favor, me diga que ele estava se exibindo, que estava exagerando...

— É estranho... ele disse que salvou a vida dela, “como a dos outros”. Mas ela não é como os outros, não de acordo com a história que ele acabou de nos contar.

— Como assim?

— Ele me contou um pouco sobre como os outros vieram viver com ele, Alejandro, Tilde e Dona. Tinham feito coisas terríveis antes de Adair os encontrar. — Entramos sorrateiramente no quarto de Jonathan, que ficava do lado do quarto de Adair, mas era menor, embora tivesse um vestíbulo de bom tamanho, uma vista para o jardim e uma porta que dava acesso direto aos aposentos de Adair. — Acho que é por isso que ele os escolheu, porque são capazes de fazer as coisas ruins que ele pede. Acho que é isso que procura nas companhias. Um fracasso.

Tiramos algumas camadas de roupas para ficarmos mais confortáveis antes de nos deitarmos na cama, lado a lado, e Jonathan passou a mão sobre minha cintura, de modo protetor. O ópio também estava nos afetando e eu estava à beira de cair no sono.

— Não faz sentido... por que ele escolheu você, então? — Jonathan perguntou meio tonto. — Você nunca machucou ninguém na vida.

Se alguma vez houvera um tempo oportuno para contar sobre Sophia e como eu a havia levado ao suicídio, era agora. Até respirei fundo para me preparar, mas, mais uma vez, não consegui. Jonathan me achava inocente demais para estar aqui. Ele acreditava que eu não fosse capaz de maldades e eu não estragaria isso.

E, talvez tão notável quanto isso, fosse o fato de ele não questionar por que ele próprio havia sido escolhido, o que Adair havia visto nele. Jonathan se conhecia bem o bastante para acreditar que havia alguma maldade escondida dentro dele, alguma coisa que merecesse punição. Talvez eu também soubesse disso. Éramos dois fracassados, cada um a seu modo, e escolhidos para uma punição que merecíamos.

— Queria contar a você — Jonathan murmurou sonolento, olhos já fechados. — Logo, logo farei uma viagem com Adair. Ele me disse que gostaria de me levar a algum lugar... esqueci aonde, exatamente. Talvez para a Filadélfia... apesar de que, depois daquela história, eu não esteja muito animado para ir sozinho com ele a lugar nenhum...

Quando puxei seu braço para mais perto de mim, percebi, pelo tecido fino de sua camisa, uma marca em seu braço. Havia algo asquerosamente familiar nos matizes escuros escondidos sob sua manga, então puxei o tecido solto para trás para ver as finas linhas pretas gravadas do lado de dentro de seu braço.

— Onde fez isso? — perguntei, sentando-me, alarmada. — Foi Tilde, não foi? Ela fez com as agulhas dela?

Jonathan mal conseguia abrir os olhos.

— Sim, sim... outra noite, quando saímos para beber...

Estudei o desenho de perto; não era o brasão heráldico, mas duas esferas com rabos longos e fogosos, interligados como dois dedos enganchados. Podia até ser diferente do que eu tinha, mas já o havia visto antes, enfeitando as costas de Adair.

— É o mesmo de Adair — consegui dizer.

— Sim, eu sei... ele insistiu para que eu fizesse. Significa que somos irmãos ou alguma besteira desse tipo. Fiz só para ele parar de me perturbar.

Tocando a tatuagem com o dedo, senti um arrepio gelado me percorrer; o fato de Adair ter colocado sua marca em Jonathan significava alguma coisa, mas não sabia dizer o que era. Queria implorar para que ele não fosse viajar com Adair, para desobedecê-lo... mas sabia qual seria o resultado inevitável daquela bobagem. Então, não disse nada e fiquei acordada um bom tempo, ouvindo o ritmo da respiração tranquila e compassada de Jonathan, incapaz de ignorar a premonição de que nosso tempo juntos estava chegando ao fim.

42

QUEBEC, HOJE



Luke acorda ao som da comiseração humana. Está desorientado, como sempre fica quando acorda de um cochilo, e seu primeiro pensamento é que dormiu demais e está atrasado para seu turno no hospital. Só quando quase derruba o alarme do criado-mudo com um movimento impetuoso é que percebe que está num hotel e que só há uma pessoa com ele, e essa pessoa está chorando.

A porta para o banheiro está fechada. Luke bate gentilmente e, quando ninguém responde, empurra a porta para trás. Lanny está encolhida dentro da banheira, totalmente vestida. Quando ela olha sobre os ombros para ele, Luke vê que a maquiagem dela escorreu pelo rosto como negros punhais, como um palhaço assustador de um filme.

— Ei, você está bem? — ele pergunta, alcançando a mão dela. — O que está fazendo aqui?

Ela deixa que ele a ajude a sair da banheira.

— Não queria acordar você.

— É para isso que estou aqui. — Ele a leva até a cama e deixa que se enrosque em seus braços, como uma criança.

— Me desculpe... estou começando... a perceber... — ela diz em soluços irregulares, em meio a gemidos de choro.

— Que ele se foi — Luke termina a frase, para que ela possa continuar chorando. Faz sentido; até agora ela estava concentrada em fugir, em não ser descoberta. Agora, a fuga ficara para trás, a adrenalina baixara e ela se lembra de como chegara até ali, de que tem que lidar com o fato de que a pessoa mais importante de sua vida se fora para sempre.

Ele pensa nas muitas vezes que passou por alguém chorando nos corredores do hospital, alguém que acabara de receber más notícias, uma mulher escondendo o rosto entre as mãos e um homem em pé ao lado dela, paralisado e lutando com seus sentimentos. Luke não consegue contar as vezes em que saíra da sala de cirurgia, tirando as luvas e a máscara, meneando a cabeça enquanto caminha até a esposa à espera, com o rosto petrificado, desejando teimosamente boas notícias. Aprendera a construir um muro entre si e os pacientes e os familiares mais próximos; não podia se envolver pela dor deles. Pode-se balançar a cabeça e compartilhar o sofrimento dessa maneira, mas só por um momento. Se tentar dividir o fardo, não dura um ano dentro de um hospital.

Essa jovem em seus braços, o sofrimento dela é infinito. Ela caíra num poço de tristeza por um longo período, despencando sem ter como parar. Ele acredita haver uma fórmula para saber quanto tempo leva para a dor passar, mas provavelmente esteja ligada a quanto tempo se conhece o morto. Obviamente, não haverá alívio para ela. Quanto tempo levará até Lanny tolerar a dor diária da ausência de Jonathan, sem contar que fora ela que o havia matado? Muitas pessoas enlouqueciam por muito menos, tomadas pela tristeza. Não há garantia de sobrevivência a algo assim.

Ele vai ajudá-la; tem de ajudá-la. Ele acha que está particularmente preparado para essa situação. Com seu treinamento (“Sra. Parker? Fizemos tudo o que podíamos pelo seu filho, mas sinto muito...”), ele espera que a dor dela escorra por ele. Ela diminui o choro e esfrega os olhos com a parte de trás das mãos.

— Melhor? — Luke pergunta, erguendo seu queixo. — Quer ir lá fora e tomar um pouco de ar? — Ela concorda.

Em quinze minutos, estavam caminhando de mãos dadas na noite escura. Lanny limpara o rosto. Ela se inclina sobre o braço de Luke como uma jovem apaixonada, mas em seu rosto está o sorriso mais triste que o mundo jamais viu.

— Que tal uma bebida? — ele pergunta. Eles saem da rua e entram num bar escuro. Ele pede uma dose de uísque puro para cada um.

— Duvido que beba tanto quanto eu! — ela o avisa, e eles batem os copos como se estivessem comemorando. E, como esperado, após uma dose, Luke sente a quentura que vem com o início da bebedeira, mas Lanny já tomou três doses e só mostra sinais de um meio-sorriso embriagado.

— Há algo que quero lhe perguntar. É sobre... ele — ele fala, como se, não dizendo o nome, a pergunta pudesse magoar menos. — Depois de tudo pelo que fez você passar, como pôde continuar a amá-lo? Não parece que ele merecia você...

Ela pega o copo vazio pela borda, como uma peça de xadrez.

— Poderia dar todo tipo de explicação, por exemplo, dizer que era assim que acontecia naquela época, que as esposas esperavam que seus maridos saíssem da linha. Ou que esse era o tipo de homem que Jonathan era e eu tinha que aceitar isso. Mas não seria o verdadeiro motivo: eu não sei explicar. Sempre quis que ele me amasse do mesmo modo que eu o amava. Ele me amou, sei que sim. Mas não da maneira como eu queria. Então, não é muito diferente do que o que muitas pessoas que conheci viveram. Um parceiro não ama o outro o suficiente para parar de beber, ou jogar, ou sair com outras mulheres. Um é o que dá e o outro é o que recebe. O doador espera que o recebedor pare.

— Mas o recebedor nunca muda — Luke diz, embora fique pensando se este é mesmo o caso.

— Às vezes, o doador tem que desistir; mas às vezes não faz isso. Não consegue. Não conseguia abrir mão de Jonathan. Eu era capaz de perdoá-lo por tudo.

Luke vê o oceano encher-lhe os olhos e tenta distraí-la.

— E Adair? Pelo que contou, parece que ele estava apaixonado por você...

— O amor dele é como o amor que o fogo tem pela madeira — ela ri com melancolia. — Durante um tempo ele me deixou confusa, admito isso. Num minuto, ele me encantava, no outro, me humilhava. Tudo era jogo e armação com ele. Acho que ele queria ver se conseguia me fazer amá-lo. Porque imagino que ninguém jamais o amou. — Ela fica quieta, mãos cruzadas sobre o colo e a superfície vitrificada de seus olhos se rompem. — Veja o que fez... Vou começar a chorar de novo; não quero chorar em público. Não quero deixá-lo envergonhado. Vamos voltar para o hotel. Podemos fumar maconha.

O rosto de Luke se ilumina, lembrando-se da grande sacola de plástico, do “barato” de resina.

— Topo fumar aquela sacola inteira com você, se isso servir para deixá-la mais feliz.

— Meu herói! — ela diz enquanto enfia o braço embaixo do dele. Eles sobem a rua em direção ao hotel, um vento cortante batendo em seus rostos. Luke gostaria de poder dar a ela uma dose de morfina, para lhe aliviar a dor. Ele lhe daria uma injeção de tranquilizante diariamente para lhe trazer paz, se pudesse. Sacode a cabeça para clarear os pensamentos; sente que faria qualquer coisa para deixá-la feliz novamente, mas não quer se tornar uma muleta na vida dela.

— O que há comigo, pode me dizer a verdade? Eu não sou digna de ser amada? — ela desabafa, assim que estão na cama. A pergunta o surpreende.

— Não posso dizer por que Jonathan não retribuiu seu amor, mas, se serve de alento, acho que ele cometeu um grande erro. — Jonathan era um idiota; só um tolo desperdiça uma devoção como esta, pensa Luke.

O olhar dela é descrente, mas ela sorri; e, então, pega no sono. Ele a puxa para perto dele, passando os braços em volta do corpo de sílfide dela, juntando seus braços e pernas elegantemente espalhados. Ele não se lembra de se sentir bem, assim, exceto naquela ocasião miserável na pizzaria com suas filhas, quando quis colocá-las dentro de seu carro alugado e levá-las de volta ao Maine. Sabe que fez a escolha certa de não se deixar levar pela tristeza da época, as meninas estão em melhor situação com a mãe, mas será eternamente assombrado por ter ido embora e tê-las deixado. Só um tolo desperdiça um amor como esse.

E Lanny. Ele está disposto a fazer qualquer coisa para proteger essa mulher vulnerável, para ajudá-la a se recompor. Gostaria de poder tirar o veneno de dentro dela, como uma sanguessuga. Se pudesse, tomaria seu lugar, mas sabe que tudo o que pode fazer é ficar ao lado dela.

43

BOSTON, 1819



Uma noite, uma luz cinzenta me fez levantar as pálpebras e me acordou. Uzra apareceu ao lado de minha cama, uma pequena lamparina a óleo balançando em sua mão. Devia ser muito tarde, pois a casa de Adair estava silenciosa como uma cripta. Os olhos dela imploravam para que eu saísse da cama, e foi isso o que eu fiz.

Ela saiu sorrateiramente do quarto, silenciosa como de costume, seguindo à minha frente. O som dos meus chinelos sobre os tapetes mal podia ser ouvido, mas, em uma casa quieta, ele ecoava pelos corredores. Uzra tampou a lamparina enquanto passávamos pelos outros quartos, assim tínhamos o mínimo de luz possível e ninguém nos notou até alcançarmos as escadas para o sótão.

O sótão era dividido em duas seções: uma, transformada em quarto para os criados, e um espaço menor, inacabado, transformado em depósito. Esta era a área onde Uzra se escondia. Ela me guiou através do quebra-cabeça de baús que funcionava como sua barreira contra o mundo e, então, por um corredor inacreditavelmente estreito, que dava numa porta diminuta. Tivemos que nos agachar e nos dobrar para passar pela porta e emergir do outro lado, no que parecia a barriga de uma baleia: asnas no lugar das costelas, uma chaminé de tijolos em vez da traqueia. A luz do luar entrava pelas janelas descobertas, possibilitando avistar o caminho sem adornos até onde ficavam as carruagens. Ela escolhera morar nesse espaço cavernoso para fugir de Adair. Era um lugar difícil para se viver, muito quente no verão e muito frio no inverno, tão solitário quanto a lua.

Passamos pelo que assumi ser seu ninho, escondido pelos esvoaçantes tecidos que ela usava como sarongue, pendurados a partir das asnas como um varal de lavanderia. A cama era composta de dois cobertores da sala de visitas, enrolados num padrão circular, não muito diferente do ninho de um animal selvagem, desorganizado e improvisado. Vários ornamentos empilhavam-se ao lado da cama: diamantes do tamanho de uvas, um véu de uma fina rede dourada para usar com o xador. Mas também havia bugigangas, coisas que uma criança poderia esconder: um lindo e gélido punhal, lembrança do lugar onde nascera; sua lâmina serpenteada parecendo uma cobra em movimento; um espelho de mão de bronze.

Ela me levou até uma parede, não havia saída. Mas, onde eu não via nada, ela se ajoelhou e retirou um par de tábuas, revelando um espaço escondido. Pegando a lamparina a óleo, mergulhou sem medo dentro da escuridão, como um rato acostumado a andar entre as paredes. Respirei fundo e a segui.

Depois de percorrer, sobre as mãos e os joelhos, quase seis metros, saímos num quarto sem janelas. Uzra ergueu a lamparina para podermos ver onde estávamos: era um espaço inacabado, parte do quarto dos criados, com uma pequena lareira e uma porta. Fui até a porta e tentei abri-la, mas estava fortemente trancada por alguma coisa do lado de fora. O quarto era dominado por uma grande mesa coberta de garrafas e jarros, e uma variedade de miudezas. Havia uma arca e também ela estava lotada de recipientes de todos os tamanhos e formas, a maioria deles cobertos com tecido encerado ou tampados com rolhas. Cestas enfiadas debaixo da mesa estavam cheias de tudo: de pinhas e galhos a indecifráveis partes de corpos de animais. Alguns livros, antigos e despedaçados, estavam enfiados entre os jarros; velas sobre pratos no canto da mesa.

Inspirei profundamente: o quarto continha uma grande variedade de cheiros, especiarias, ervas e poeira, e outros odores que não conseguia identificar. Posicionei-me no meio dele e olhei ao redor, vagarosamente. Acho que soube imediatamente o que era aquele quarto e o que significava sua existência, mas não queria admitir.

Tirei um dos livros da prateleira. A capa era de linho azul prensado, enfeitada com letras escritas à mão e diagramas intrincados de símbolos dentro de símbolos. Virando as páginas pesadas, vi que não havia uma só página impressa em todo o livro: cada parte fora feita num roteiro cuidadoso, anotada com fórmulas em ilustrações (a melhor parte a ser mantida de uma planta, por exemplo, ou uma dissecação ornamentada do funcionamento interno de um homem), tudo numa língua que eu não reconhecia. Os desenhos eram mais reveladores, pois eu reconhecia alguns dos símbolos de minha infância assim como dos livros das bibliotecas de Adair: pentagramas, o olho que tudo vê, esse tipo de coisa. O livro era uma obra maravilhosa, o produto de centenas de horas de trabalho, e cheirava aos muitos anos em que ficara escondido, a segredos e intrigas, e, sem dúvida, fora cobiçado por outros homens, mas seu conteúdo era um mistério para mim.

O segundo livro era ainda mais velho, com placas de madeira como capas, amarradas por um fio de couro. Dentro, as páginas estavam soltas e, pela variedade de papéis, parecia ser mais uma coleção de anotações do que um tomo. A letra parecia a de Adair, mas, de novo, numa língua que eu não conhecia.

Uzra andava de um lado para o outro, inquieta, chacoalhando os guizos da corrente em volta de seu tornozelo. Ela não gostava de estar naquele quarto e eu não a culpava. Adair trancara o lado de fora por algum motivo: ele não queria que ninguém o encontrasse. Porém, quando me ergui para colocar o segundo livro de volta em seu lugar, Uzra deu um passo à frente e agarrou meu punho. Ela segurou a lanterna perto de meu braço e, quando viu a tatuagem (que eu já havia esquecido fazia muito tempo), soltou um gemido, como um gato prestes a morrer.

Enfiou o braço embaixo de meu nariz, a palma virada para cima. Ela tinha a mesma tatuagem no mesmo exato lugar, uma versão um pouco maior, mas executada de forma mais rústica, como se a mão do artista não fosse tão firme quanto a de Tilde. O olhar dela era acusatório, como se eu a tivesse feito em mim mesma e, mesmo assim, não havia como se enganar sobre seu significado. Adair escolhera nos marcar da mesma forma. As intenções dele para comigo não estariam muito longe do tratamento dado a ela.

Segurando a lanterna bem no alto, absorvi o conteúdo do quarto mais uma vez. Uma descrição que ouvira dos próprios lábios de Adair voltou à minha cabeça: aquela do quarto da casa do físico, que havia sido a prisão de sua juventude. Só havia uma razão para precisar de um quarto como esse e escondê-lo no canto mais longínquo da casa. Eu compreendia o que era esse lugar e por que ele o mantinha, e um arrepio gélido me percorreu. A lenda aflitiva que Adair tecera sobre sua captura e servidão ao físico demoníaco voltou à minha memória a galope. Mas agora eu imaginava com qual dos dois homens eu havia estado, nesses muitos meses; quem era o homem com quem havia dividido a cama e, mais ainda, a quem eu dera a vida do homem que era tudo para mim nesse mundo? Adair queria que seus seguidores acreditassem que ele era o garoto camponês injustiçado que havia se libertado e que agora estava simplesmente apreciando o prêmio por ter deposto um tirano cruel e desumano. Quando, de fato, dentro daquela juventude encantadora, estava o monstro da história, o coletor de força e o ladrão de almas capaz de mudar de corpo para corpo. Ele deixara sua própria casca decrépita para trás, sacrificando-a aos aldeões, sem dúvida, com o camponês preso lá dentro, passando seus últimos minutos aterrorizado, pagando pelas crueldades do físico. Essa mentira combinava bem com seu plano monstruoso e aparentemente o tinha ocultado por centenas de anos. Agora que eu conhecia a verdade, a questão era: o que eu faria?

Estava mais do que na hora de suspeitar da mentira de Adair, mas precisava de provas: tomar consciência da verdade, mesmo que ninguém mais a soubesse. Com Uzra puxando minha manga para irmos embora, agarrei uma página de um dos livros antigos e peguei um punhado de ervas de um dos jarros empoeirados sobre a mesa. Teria que pagar um preço terrível por roubar essas coisas; eu ouvi a história da própria boca de Adair, não foi? Aquela que terminou com uma barra de ferro embrulhada num cobertor e uma enxurrada de pancadas, mas eu tinha que saber.

Comecei com uma visita a um professor de Harvard, a quem havia conhecido numa das festas de Adair. Não um simples chá da tarde ou reunião de intelectuais; não, conheci esse homem numa das festas de modalidade especial de Adair. Procurei seu escritório no Wheydon Hall, mas ele estava com um estudante. Quando me viu esperando-o no corredor, despachou o jovem e saiu para me buscar, o sorriso mais charmoso estampado em seu velho rosto demoníaco. Talvez estivesse receoso de que eu viera fazer chantagem com ele, já que, na última vez em que o vira, ele estava de pernas escancaradas sobre um garoto de aluguel ainda mais jovem do que seus estudantes, montando nele com orgulho. Ou talvez esperasse que eu tivesse vindo entregar um convite para outra festa.

— Minha querida, o que a traz aqui hoje? — perguntou, dando tapinhas em minha mão enquanto me levava até seu escritório. — Raramente sou abençoado com visitas de jovens bonitas. E como vai nosso amigo em comum, o conde? Espero que esteja gozando de boa saúde.

— Está bem como sempre — eu disse objetivamente.

— Então, a que devo essa feliz visita? Talvez um recado sobre outra soirée...? — Os olhos dele brilharam com os desejos mais agudos, seu apetite estimulado pelas muitas tardes olhando para hordas de garotos inexperientes.

— Estava esperando que pudesse lhe pedir um favor — eu disse, enfiando a mão dentro de minha bolsa de amarrar para pegar a página que havia roubado. O próprio papel era diferente de tudo o que já vira: grosso, áspero e quase tão marrom quanto o papel do açougueiro, e agora que estava livre da pressão da capa de madeira, começara a se enrolar como um pergaminho.

— Hummm? — ele respondeu, claramente surpreso. Mas pegou o papel de minha mão e o trouxe mais para perto de seu rosto, erguendo os óculos para inspecioná-lo. — Onde você encontrou isso, minha querida?

— Com um livreiro — menti. — Um livreiro particular que diz ter uma coleção de livros antigos sobre um assunto do qual Adair gosta muito. Pensei em comprar os livros de presente para Adair, mas a língua é ilegível para mim. Gostaria de ter certeza de que o livro é mesmo o que o vendedor diz ser. Excesso de cuidado nunca faz mal.

— Não, nunca — ele murmurou enquanto examinava a página. — Bem, o papel não é de manufatura local. Não foi alvejado. Possivelmente foi feito por um indivíduo para uso próprio, melhor dizendo. Mas veio até mim por causa da língua, não foi? — Ele sorriu modestamente sob seus óculos; era um professor de línguas antigas, lembrava-me disso de nossa rápida apresentação na festa. Porém, de exatamente quais línguas, eu não me lembrava.

— Prussiano, eu diria, ou pelo menos parecido. Muito estranho, possivelmente uma forma arcaica da língua. Nunca vi nada igual antes. — Ele alcançou uma prateleira na parte de trás, tirou um livro grande e pesado, e começou a folhear suas páginas finas e transparentes.

— Pode me dizer o que está escrito? O assunto?

— De que você espera que ele esteja falando? — perguntou curioso, ainda folheando as páginas. Limpei a garganta.

— Magia, de algum tipo. — Ele parou o que estava fazendo e olhou fixamente para mim. — Alquimia? — eu disse, mais fraco dessa vez. — Algo a ver com transformar uma coisa em outra?

— Ah, minha querida, é certamente sobre alguma coisa mágica, possivelmente um feitiço ou encantamento. Exatamente o quê, não sei dizer. Talvez possa deixar isso comigo por alguns dias...? — Seu sorriso foi recatado. Eu sabia o suficiente do trabalho dos estudiosos para suspeitar o que ele faria com o papel deixado sob seus cuidados: poderia tentar alavancar sua carreira com ele, usando-o como base para este ou aquele estudo, e eu nunca mais o veria de novo. Ou, pior ainda, se Adair descobrisse que ele havia sumido, dado ao nosso impudente amigo professor... bem, dizer que as coisas ficariam feias para mim seria pouco. Ele ergueu uma sobrancelha em expectativa, mas me inclinei sobre sua escrivaninha e peguei rapidamente o papel de volta.

— Não, não poderia, mas agradeço sua oferta. O que me falou já é suficiente — eu disse, pulando da cadeira e abrindo a porta. — E, por favor, me faça a gentileza de não mencionar isso a Adair, caso o encontre. Quando se trata de presentes, ele é um homem muito difícil de agradar. Eu quero realmente surpreendê-lo com os livros.

O velho professor pareceu levemente surpreso quando eu saí apressadamente de seu escritório.

Depois, fui atrás de uma parteira.

Era difícil encontrá-las. Estavam se tornando cada vez mais raras em cidades como Boston. Os doutores tinham praticamente tomado conta do trabalho de trazer crianças ao mundo, pelo menos para aqueles que podiam pagá-los. Mas eu também não estava procurando qualquer parteira: precisava de uma daquelas que vivesse no campo, alguém que soubesse sobre tratamentos e curas com plantas, e coisas do tipo. As que, um século antes, nessa mesma cidade, poderiam ter sido chamadas de bruxas por seus vizinhos e encontrado a morte esmagadas nas prensas ou enforcadas.




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