No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Jonathan ergueu a mão, uma expressão controlada no rosto, como se não quisesse, mas soubesse que tinha que falar.

— Não sei por que reagi daquele jeito ontem à noite...Você já tinha me falado claramente sobre sua situação em St. Andrew. Se fiquei chocado é porque, bem, não esperava que Adair fizesse o convite que fez. — Jonathan limpou a garganta. — Você sempre foi uma boa amiga para mim, Lanny...

— Isso não mudou — eu disse.

— ... mas não estaria dizendo a verdade se dissesse que as palavras dele não me abalaram. Ele não me parece o tipo de homem que uma mulher deveria permitir-se amar. — Parecia incomodá-lo muito falar tudo aquilo para mim. — Você o ama?

Como Jonathan poderia pensar que eu amasse alguém além dele? Ele não parecia estar com ciúmes; estava preocupado.

— Não tem nada a ver com amor — eu disse, com tristeza. — Tem que entender isso.

Seu rosto mudou repentinamente, como se um pensamento lhe tivesse vindo à cabeça. — Diga-me que ele não a força a fazer essas coisas.

Enrubesci.

— Não exatamente.

— Então você quer ficar com ele?

— Não agora que você está aqui — eu disse, e ele se contorceu, embora eu não tivesse certeza do porquê. Naquele momento, queria avisar Jonathan sobre as possíveis intenções de Adair com relação a ele. — Veja bem, há uma coisa sobre Adair que devo lhe contar, apesar de provavelmente já ter percebido, agora que conheceu Dona e Alejandro. Eles... — Hesitei, sem saber quanto mais Jonathan poderia aguentar depois de tudo o que havia passado em 24 horas.

— Eles são sodomitas — ele disse, objetivamente. — Não se passa a vida cercado por homens como aqueles lenhadores, que têm outros homens como companhia, sem que se perceba alguma coisa.

— Eles têm relações com Adair. Você verá; Adair tem uma natureza muito peculiar — eu disse. — Ele é louco por qualquer tipo de fornicação. Mas não há nada de amoroso nisso, nem de suave. — Parei quase a ponto de lhe falar que Adair usava o sexo como punição, para sobrepujar seus desejos sobre nós, para nos fazer obedecê-lo. Eu não disse nada porque estava com medo, assim como Alejandro teve medo de me contar a verdade. Jonathan olhou diretamente para mim, um franzido firme enrugando seus lábios.

— No que você foi me enfiar, Lanny?

Alcancei sua mão.

— Sinto muito, Jonathan, de verdade! Tem que acreditar em mim. Mas, embora não queira me ouvir dizer isso, é um conforto tê-lo aqui comigo. Tenho estado tão sozinha! Precisei tanto de você. — Ele apertou minha mão, relutante. — Além disso — continuei —, o que poderia fazer? Kolsted lhe deu um tiro. Você estava sangrando até a morte em meus braços. Se eu não agisse, você estaria...

— Morto, eu sei. É só que... espero não estar na posição, um dia, de desejar que estivesse morto.

Naquela manhã, Adair mandou um criado buscar um alfaiate. Jonathan precisava de um guarda-roupa, Adair ordenou; seu novo convidado não poderia ser visto em público em trajes descombinados e mal-ajambrados. Como todos os membros da família eram como mancebos e enriqueceram muito o alfaiate, o sr. Drake se apressou e chegou antes mesmo que as coisas do café da manhã fossem retiradas, trazendo com ele uma fila de assistentes carregando os rolos de tecido. As últimas lãs e veludos, sedas e brocados, vindos das lojas europeias. Caixas de chá repletas de botões caros feitos de madrepérola e osso, fivelas de estanho para um par de sapatilhas. Senti que Jonathan não aprovava e não queria ficar em débito com Adair por causa de um guarda-roupa extravagante, mas não disse nada. Sentei-me num banquinho, ao lado da confusão, olhando com admiração os lindos tecidos, na esperança de poder conseguir um ou dois vestidos nesse processo de provas e ajustes.

— Sabe, eu bem que poderia usar umas coisas novas — eu disse a Adair, segurando um pedaço de cetim cor-de-rosa perto da face para ver se combinava com a cor da minha pele. — Deixei todo meu guarda-roupa para trás, em St. Andrew, quando fugimos. Tive que vender minha última peça de joia para comprar as passagens do navio para Boston.

— Não me faça lembrar disso — ele disse secamente.

O sr. Drake fez Jonathan ficar em pé, em cima de seu banquinho de alfaiate, em frente do maior espelho da casa, e começou a tirar as medidas com a fita métrica, falando sozinho as proporções impressionantes de Jonathan.

— Ora, ora, você é bem alto! — ele disse, correndo as mãos pelo comprimento das costas de Jonathan, então sobre os quadris e, finalmente, quase me fez desmaiar, até o meio de sua perna, para medir a altura do “cavalo”. — O cavalheiro acomoda o membro do lado esquerdo — Drake murmurou, quase gentilmente, para o assistente que tomava nota dos números.

O pedido para o alfaiate era extenso: três paletós e meia dúzia de pares de calças, com um par feito com a mais fina pele de veado, para cavalgar; uma dúzia de camisas, incluindo uma bem elegante, com renda, para eventos de gala; quatro sobretudos, pelo menos uma dúzia de gravatas. Um novo par de botas para o campo. Meias de seda e lã, e ligas, três pares de cada. E isso era só para cobrir as necessidades imediatas; seriam feitos mais pedidos assim que a nova carga de tecidos chegasse. O sr. Drake ainda estava tirando o pedido quando Adair colocou um imenso rubi sobre a mesa, diante do alfaiate. Nenhuma palavra foi dita, mas, pelo sorriso no rosto do sr. Drake, ele estava mais do que feliz com seu pagamento. O que ele não sabia era que a gema era uma mera bugiganga, retirada de uma caixa com muitas outras, a própria caixa, uma entre tantas outras. Adair tinha tesouros que vinham desde o saque de Viena; para ele, uma pedra preciosa daquele tamanho era tão comum quanto uma plantação de cogumelos.

— Uma capa também, acho, para meu sócio. Forrada com cetim grosso — Adair acrescentou, girando o rubi sobre seu lado facetado, como um pião de madeira. O rubi atraiu a atenção de todos, e eu fui a única a perceber o olhar longo e avaliador de Adair em Jonathan, dos ombros até a graciosa curva na parte mais baixa das costas e sobre seu quadril benfeito. O olhar era tão descarado e cheio de desejo que congelou meu coração de medo pelo que ainda viria pela frente para meu Jonathan.

Quando o alfaiate empacotou suas coisas, chegou uma estranha visita para Adair. Um cavalheiro circunspecto, com dois livros contábeis e um kit portátil com objetos de escrita (tinteiro e penas) enfiados debaixo do braço. Os dois foram imediatamente para o estúdio sem dizer uma só palavra a ninguém.

— Sabe quem é esse homem? — perguntei a Alejandro enquanto observava a porta fechada do estúdio.

— Adair contratou um advogado enquanto esteve fora. É compreensível: agora que está neste país, tem problemas legais para resolver com relação à sua propriedade no exterior. Essas coisas aparecem de vez em quando. Não têm consequência nenhuma — ele respondeu, como se isso fosse a coisa mais entediante que se pudesse imaginar. Assim, não prestei mais atenção nela, naquela época.

— É loucura — Jonathan disse, quando Adair falou que um artista estava vindo à casa naquele dia para fazer esboços dele para uma pintura a óleo.

— Seria um crime não ter um retrato seu — Adair argumentou de volta. — Há homens muito mais feios que se imortalizaram para a posteridade e cobriram as paredes das mansões da família com seu rosto patético. Esta casa é um exemplo disso! — Adair disse, gesticulando em direção às paredes cheias de retratos, alugados com a casa para dar um aspecto de pedigree já pronto. — Além do mais, a sra. Warner me falou do artista, muito talentoso, e quero ver se ele é merecedor dos elogios que lhe estão sendo feitos. Ele deveria agradecer a Deus por ter um modelo como você, pode acreditar. Seu rosto pode muito bem dar um empurrão na carreira desse homem.

— Não me importo com a carreira de ninguém — Jonathan revidou, mas sabia que a batalha estava perdida. Posou para o artista, mas não cooperou muito: se jogou na cadeira, inclinando-se com a face encostada na mão, o rosto mal-humorado como o de um aluno que ficou de castigo depois da aula. Fiquei sentada à janela durante toda a sessão, vendo a beleza dele novamente através dos rápidos esboços de carvão do artista. O pintor resmungava para si mesmo durante todo o processo, sem dúvida agradecido pela sorte de trabalhar com uma figura tão impressionante e ainda ser pago por este privilégio.

Dona, que já fora modelo, sentou-se comigo durante uma tarde, aparentemente para estudar a técnica do artista. Notei que ele parecia observar mais a Jonathan do que ao artista.

— Ele vai se tornar o preferido, não vai? — Dona disse a certa altura. — Pode-se dizer pelo retrato; Adair só faz retratos dos favoritos. A odalisca, por exemplo.

— E o que isso significa: ser seu preferido?

Ele me lançou um olhar cínico.

— Ah, não finja que não sabe! Você foi a preferida de Adair durante um tempinho. De alguma forma, ainda é. Então, você sabe, é oneroso. Ele espera sua atenção o tempo todo. Exige muito e se cansa rápido, especialmente quando falamos de jogos sexuais — Dona disse, erguendo os ombros de maneira astuciosa, como se para expressar que estava feliz por não sofrer mais a pressão de ter que inventar novas maneiras de fazer Adair chegar ao clímax. Olhei Dona bem de perto, estudando seus traços enquanto ele falava: ele também era um belo homem, embora sua beleza tenha sido destruída pela infelicidade que carregava dentro de si. Uma malícia secreta encobriu-lhe os olhos e transformou sua boca num sorriso de escárnio.

— E ele só fez retrato desses dois? — perguntei, retomando a conversa. — Apenas Uzra e Jonathan?

— Ah, houve alguns outros! Só dos absolutamente lindos. Ele deixou a pintura deles guardadas no Velho Continente, como os rostos de anjos trancados num cofre. Eles caíram em desgraça. Talvez os encontre algum dia. — Ele meneou a cabeça, estudando Jonathan com olhos críticos. — Os quadros, quero dizer.

— Os quadros... — repeti. — Mas e os que caíram em desgraça, o que acon­teceu com eles?

— Ah, alguns foram embora. Com a bênção de Adair, é claro. Ninguém vai embora sem isso. Mas estão espalhados como folhas ao vento... Nós raramente os vemos. — Ele parou por um minuto. — Embora você tenha conhecido Jude, pensando bem. Não fez falta nenhuma. Que homem diabólico, fingir-se de pastor! Um pecador em roupa de santo — Dona riu, como se fosse a coisa mais engraçada que pudesse conceber: o maldito fantasiado de pastor.

— Você disse que apenas alguns foram embora. E os outros? Alguém foi embora sem a permissão de Adair?

Dona me dirigiu um sorriso levemente maléfico.

— Não finja ser estúpida! Se fosse possível fugir de Adair, acha que Uzra ainda estaria aqui? Você já passou tempo suficiente com ele para saber que não é negligente nem sentimental. Ou você vai embora com as bênçãos dele ou, bem... ele não deixaria alguém para trás para se vingar dele e revelá-lo para as pessoas erradas, não é? — Mas isso seria a última coisa que Dona diria sobre nosso misterioso senhor. Ele me olhou e, parecendo pensar melhor sobre revelar mais alguma coisa, saiu do quarto e me deixou refletindo sobre o que me contara.

Nesse momento, houve uma comoção no quarto; Jonathan levantou-se abruptamente da cadeira.

— Já cansei dessa insensatez! Não aguento mais — ele disse, seguindo Dona e deixando o artista decepcionado por ver sua boa sorte caminhar para fora do quarto. No final, a pintura de Jonathan nunca foi terminada e Adair foi forçado a se contentar com o esboço de carvão que, logo em seguida, foi emoldurado em vidro e mantido no estúdio. O que Adair não sabia é que Jonathan seria o último de seus preferidos a ser imortalizado num retrato, que todas as peculiaridades e intrigas de Adair estavam prestes a ser completamente desfeitas.

41

Após o sucesso da primeira noite, Adair levava Jonathan com ele a todos os lugares. Além das diversões noturnas, ele começou a encontrar coisas para os dois fazerem juntos, deixando o restante de nós sozinhos. Adair e Jonathan iam a corridas de cavalo, reuniões no campo, jantares e debates no clube dos cavalheiros, e participavam das palestras de Harvard. Ouvi dizer que Adair levou Jonathan ao bordel mais exclusivo da cidade, onde escolheram meia dúzia de garotas para atender a ambos. A orgia parecia um tipo de ritual com a intenção de uni-los, como um pacto de sangue. Adair, com impaciência, apresentou Jonathan a todas as suas coisas favoritas: empilhou romances na mesa de cabeceira ao lado da cama de Jonathan (os mesmos que ele me fez ler quando me tinha embaixo das asas dele), mandava fazer pratos especiais para ele. Havia até uma conversa sobre voltar ao Velho Mundo, assim Jonathan poderia vivenciar as grandes cidades. Era como se Adair estivesse determinado a criar uma história que os dois pudessem compartilhar. Ele faria sua vida a de Jonathan. Era assustador, mas parecia distrair Jonathan. Ele não mencionara os temores relacionados à sua família e à cidade desde que partimos, mas com certeza isso estava em sua mente. Talvez estivesse fazendo uma gentileza para mim, não falando sobre isso, já que não havia nada que pudéssemos fazer para mudar a situação.



Depois de algum tempo vivendo desse jeito, os dois homens passando a maioria do tempo na companhia um do outro, Adair me puxou de lado. A família estava relaxando na sala de estar, os outros três ensinando as complexidades de apostas do faraó, Adair e eu sentados no divã observando, como pais satisfeitos a admirar a prole brincar em harmonia.

— Agora que tenho estado na companhia de Jonathan, formei uma opinião sobre ele... Gostaria de saber qual é? — Adair me disse em voz baixa, para que não fosse ouvido. Seu olhar não saiu de Jonathan enquanto falava. — Ele não é o homem que pensa que é.

— Como você sabe o que penso dele? — tentei soar confiante, mas não consegui esconder o tremor em minha voz.

— Sei que acha que um dia ele vai cair em si e dedicar-se inteiramente a você — ele disse sarcasticamente, dando indícios do quanto desprezava a ideia. Renegar todas as outras... Jonathan já não fizera um voto de fidelidade a uma só mulher, com tudo o que isso acarreta? Ele provavelmente não fora fiel à Evangeline nem por um mês depois de terem se casado. Eu pus um sorriso congelado em meus lábios; não daria a Adair a satisfação de saber que tinha me magoado. Adair mudou seu peso de lado no divã, cruzando uma perna sobre a outra, indiferente.

— Não devia levar a inconstância dele tão a sério. Ele não é capaz de um amor assim, por nenhuma mulher. Ele não consegue colocar as necessidades dos outros à frente de suas próprias vontades e desejos. Por exemplo, ele me contou que fica muito incomodado por fazê-la tão infeliz...

Enfiei minhas unhas com força na parte da trás de uma mão, mas não havia dor para me distrair.

— ... mas ele está confuso sobre o que fazer. No entanto, para a maioria dos homens, o remédio seria óbvio: ou dar à mulher o que ela deseja ou separar-se dela de uma vez. Mas ele ainda anseia por sua companhia e, desse modo, não pode separar-se de você — ele suspirou, quase teatralmente. — Não se desespere! A esperança não está totalmente perdida. Virá o dia em que ele conseguirá amar apenas uma pessoa e há uma chance, ainda que pequena, de que essa pessoa seja você. — Então, ele riu.

Desejava estapeá-lo, avançar nele, pegar seu pescoço com as duas mãos e estrangulá-lo até a morte.

— Está zangada comigo, posso sentir. — Minha raiva impotente também parecia diverti-lo. — Zangada comigo por lhe dizer a verdade.

— Estou zangada com você — respondi —, mas é porque está mentindo para mim. Está tentando destruir meus sentimentos por Jonathan.

— Consegui deixá-la bem irritada, não é? Vou lhe fazer essa concessão; você geralmente consegue dizer quando eu estou mentindo, e é a única que parece ter essa habilidade, minha querida, mas não estou mentindo para você dessa vez. Até gostaria que eu estivesse mentindo, assim não ficaria tão magoa­da, não é?

Não podia suportar aquilo. Adair tendo piedade de mim ao mesmo tempo em que tentava me jogar contra Jonathan. Olhei para Jonathan, que prestava atenção nas cartas no meio da mesa, absorvido no jogo do faraó. Começara a achar sua presença reconfortante, como um zumbido ressonante dentro de mim. Mas, ultimamente, percebi uma melancolia disfarçada nele, que eu julgava ser tristeza por ter abandonado Evangeline e a filha. Se o que Adair dissera era verdade, será que poderia ser melancolia pela infelicidade que me causava? Pela primeira vez pensei se o obstáculo do nosso amor, o defeito, na verdade, estaria em Jonathan e não em mim, pois parecia quase inumano não ser capaz de se doar totalmente a uma só pessoa.

A vibração de uma risada feminina interrompeu meus pensamentos, quando Tilde baixou as cartas em sinal de vitória. Jonathan olhou de soslaio e, naquele olhar, percebi que já havia dormido com ela. Dormira com Tilde apesar de não achá-la particularmente atraente, apesar de saber que devia desconfiar dela, apesar de saber que, se eu descobrisse, ficaria arrasada. O desespero percorreu todo meu corpo como uma carreira de pólvora acesa, desespero por aquilo que não podia mudar.

— Que desperdício! — Adair estava imediatamente sussurrando na minha orelha, como a serpente no Jardim do Éden. — Você, Lanore, é capaz de um amor tão perfeito, um amor como eu jamais vi antes. E por que escolhe desperdiçá-lo com alguém tão sem valor quanto Jonathan?

Seu sussurro era como o perfume no ar da noite.

— O que está dizendo? Está se oferecendo como um objeto mais merecedor do meu amor? — perguntei, buscando a resposta em seus olhos de lobo.

— Ah, se você me amasse, Lanore! Se realmente me conhecesse, veria que não sou digno de seu amor. Mas, um dia talvez, será que olhará para mim do mesmo jeito que olha para Jonathan, com o mesmo carinho? Parece impossível, dada sua devoção a ele, mas quem sabe? Já vi o impossível acontecer, uma vez na vida, outra na morte — ele disse com malícia. Porém, quando pedi para se explicar, ele simplesmente franziu o nariz e riu. Então, levantou-se do divã e disse que entraria na rodada seguinte de faraó.

Ignorada, fui até o estúdio procurar um livro para me distrair. Quando passei pela escrivaninha de Adair, a luz da vela caiu sobre um calhamaço de papéis deixados sobre o mata-borrão, e meus olhos, como mágica, passaram pelo nome de Jonathan, escrito com a letra de Adair.

Por que Adair estaria escrevendo sobre Jonathan? Uma carta a algum amigo? Duvidei que ele tivesse algum amigo no mundo. Segurei as páginas mais perto da luz da vela.

Instruções para Pinnerly (o nome do advogado, soube depois).

Conta a ser estabelecida para Jacob Moore (o nome falso de Jonathan) junto ao Bank of England, no valor de oito mil libras (uma fortuna), transferidos da conta de... (um nome que eu não reconheci).

As instruções também estabeleciam que fossem abertas outras contas no nome falso de Jonathan, saques de outras contas de outros estranhos em Amsterdã, Paris e São Petersburgo. Li tudo mais duas vezes, mas não fazia sentido, e deixei a folha no mesmo lugar em que a havia encontrado.

Aparentemente, Adair estava tão encantado com Jonathan que tomara providências para sustentá-lo, como se o estivesse adotando. Admito que senti um leve ciúme e me perguntei se havia algum fundo em meu nome em algum lugar. De que valeria, se Adair nunca me contara sobre isso? Tinha que adulá-lo e lhe implorar para gastar dinheiro, assim como os outros. Isso era outra prova de que Adair tinha um interesse especial em Jonathan.

Jonathan parecia aceitar sua nova vida. Afinal, ele não fazia objeção de compartilhar as indulgências e depravações de Adair, e não trouxe St. Andrew à tona. Havia só um vício que Adair ainda não dividira com o seu favorito, um que Jonathan não declinaria se lhe fosse oferecido. Esse vício era Uzra.

Jonathan já estava vivendo conosco havia três semanas quando foi apresentado a ela. Adair pediu a ele para esperar na sala de visitas, comigo, vigilante, e então trouxe Uzra com um floreio, a odalisca vestida em seu traje típico de tecido esvoaçante. Quando ele soltou a mão dela, o tecido caiu no chão e revelou Uzra em toda sua glória. Adair ordenou a ela que dançasse para Jonathan, mexendo os lábios e volteando os braços enquanto ele cantava uma música improvisada. Ao final, pediu que trouxessem o narguilé e nos reclinamos sobre as almofadas espalhadas pelo chão, sugando o bocal entalhado de mármore, um de cada vez.

— Ela é linda, não é? Tão linda que ainda não consegui me separar dela. Não que ela não tenha sido um problema: ela é um demônio. Já se jogou das janelas e do teto. Não faz outra coisa a não ser ter ataques. Ainda arde de ódio de mim. — Ele passou a mão pela linha do nariz dela, embora parecesse que ela poderia arrancar-lhe o dedo com uma mordida, se tivesse a chance. — Acho que é isso que me manteve interessado nela ao longo dos anos. Deixe-me contar como Uzra veio parar comigo. — À menção de seu nome, Uzra ficou visivelmente tensa.

— Encontrei Uzra durante uma viagem aos países mouros — Adair começou, indiferente ao nervosismo de Uzra. — Eu estava na companhia de um nobre, que negociava a liberdade do irmão que havia, bestamente, tentado roubar algum tesouro de um dos líderes. Naquela época, eu tinha boa reputação de guerreiro; tinha cinquenta anos de experiência com a espada, mais do que a maioria dos homens. Eu havia sido comprado, supostamente, para ajudar esse nobre, minha lealdade paga em moedas. Foi assim que fui parar no Oriente e me deparei com Uzra.

— Foi numa cidade grande, no mercado; ela seguia atrás de seu pai, sob um véu, como mandava a tradição. Tudo o que eu conseguia ver eram os olhos dela, mas foi o suficiente: sabia que tinha que ver mais. Então, eu os segui até o acampamento nos arredores da cidade. Conversando com alguns homens que cuidavam dos camelos, soube que o pai era o líder de uma tribo nômade e que a família estava na cidade para que ela fosse dada a algum sultão, algum príncipe indolente, em troca da vida do pai.

A pobre Uzra estava completamente paralisada agora. Ela parara até mesmo de sugar o narguilé. Adair enrolou um cacho de seu cabelo brilhante ao redor de um dedo, deu um puxão, como se a repreendesse por sua apatia, então soltou o cabelo.

— Encontrei sua tenda, onde ela estava sendo preparada por uma dúzia de criadas. Elas formavam um círculo a seu redor e, achando que não poderia ser vista, ajudavam-na com suas roupas, tiravam o tecido de sua pele cor de canela e desenrolavam seus cabelos, as mãos passando por todo seu corpo. Instalou-se o caos quando entrei na tenda de repente — Adair disse com uma risada gutural. — As mulheres gritavam, corriam, caíam umas sobre as outras tentando se proteger de mim. Como poderiam pensar que eu estava atrás de alguma delas com esta djim nua na minha frente? E, pelo seu olhar, Uzra sabia que eu tinha ido atrás dela. Ela mal teve tempo de se cobrir com um robe antes que eu a pegasse no colo e a carregasse dali. — Eu a levei para um lugar no deserto onde sabia que ninguém iria nos encontrar. Eu a possuí vez após outra naquela noite, indiferente a seu choro — ele contou, como se não tivesse nada do que se envergonhar, como se tivesse o direito a ela assim como teria à água para matar sua sede. — O sol nasceu, na manhã seguinte, antes que meu delírio começasse a acalmar e antes que eu estivesse saciado com sua beleza. Entre um prazer e outro, perguntei-lhe por que seria dada ao sultão. Era porque a tribo tinha uma superstição, sobre uma djim com olhos verdes que traria a peste e o sofrimento. Eles estavam com medo, os idiotas, e apelaram ao sultão. O pai teria que entregá-la ou seria morto. Vejam, para quebrar o feitiço, ela teria que morrer.

— Sabia que eu não fora o primeiro homem com quem ela estivera, então perguntei quem tinha tirado sua virgindade. Um irmão? Algum homem da família, sem dúvida; quem mais poderia chegar tão perto dela? Descobri que fora o pai dela. Dá para acreditar nisso? — ele perguntou, incrédulo, bufando, como se fosse a coisa mais ridícula que jamais ouvira. — Ele era o chefe, um patriarca acostumado a ter tudo a seu modo. Mas quando Uzra fez cinco anos, ele notou, pela cor da pele da menina, que não era o pai dela. A mãe havia sido infiel e, pelos olhos verdes da criança, tivera relações com um estrangeiro. Ele não disse nada; simplesmente levou a mãe para o deserto um dia e voltou sem ela. Quando Uzra completou doze anos, tinha tomado o lugar da mãe na cama dele; ele disse a ela que era filha de uma prostituta e não tinha relações de sangue com ele, assim, não era proibido. Não deveria contar a ninguém. Os criados achavam encantador que a garota fosse tão afetuosa com o pai a ponto de não conseguir ficar longe dele. Disse a ela que nada disso importava; eu não iria entregá-la ao sultão supersticioso. Nem mandá-la de volta ao pai, que iria molestá-la uma última vez antes de entregá-la, como um covarde. — Durante a história de Adair, consegui pegar a mão de Uzra e a apertava, de vez em quando, para dizer que me comiserava dela, mas vi, em seus olhos verdes e mortos, que estava em outro lugar, longe dessa crueldade. Jonathan, também, estava envergonhado por ela. Adair continuou, indiferente ao fato de que era o único que estava apreciando sua narração. — Resolvi salvar sua vida. Como a dos outros. Disse a ela que seu sofrimento estaria terminado. Ela começaria uma nova vida comigo e ficaria comigo para sempre.




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