No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Então, surgiu a mansão de Adair, tão fascinante quanto um castelo, embora, a essa altura, Jonathan já não sentisse mais nada com relação à novidade da grandeza. Ele me deixou guiá-lo escada acima, para dentro da casa, pelo hall com o candelabro pendurado e os criados uniformizados abaixando-se tanto para fazer reverência, que conseguiam até inspecionar os sapatos descascados de Jonathan. Passamos pela sala de jantar, com sua mesa para dezoito pessoas, até a escadaria dupla, que levava aos quartos no andar de cima.

— Onde está Adair? — quis saber de um dos mordomos, ansiosa por terminar esta parte.

— Bem aqui — a voz veio de trás de mim e eu me virei para vê-lo entrar. Ele havia se vestido cuidadosamente, com uma casualidade estudada, seu cabelo amarrado para trás com uma fita, como um cavalheiro europeu. Assim como Dona, passou os olhos pelo meu Jonathan tentando avaliar um preço justo por ele, esfregando os dedos da mão direita. Da parte dele, Jonathan tentou ser indiferente, dando uma olhada rápida para Adair e, logo em seguida, afastando o olhar. Mas senti um peso no ar e um reconhecimento passar entre os dois. Poderia ser o que os místicos chamam de elo entre as almas destinadas a viajar juntas pelo tempo. Ou poderia ter sido a dança dos machos rivais na floresta, imaginando quem ficaria no topo e quão sangrenta a batalha seria. Ou seria porque ele finalmente estava conhecendo o homem que me capturara.

— Então este é o amigo de quem você nos falou — Adair disse, fingindo que a situação era tão simples quanto a visita de um velho amigo.

— Tenho o prazer de apresentá-lo ao senhor Jonathan St. Andrew. — Fiz minha melhor representação de mestre de cerimônias, mas nenhum deles achou graça.

— E você é o ... — Jonathan procurou pela palavra para descrever o Adair da minha história fantástica, pois, honestamente, do que poderia chamá-lo? Monstro? Ogro? Demônio? — Lanny me falou de você.

Adair levantou uma sobrancelha.

— Falou? Espero que Lanny não tenha feito muito alarde; ela tem uma imaginação fantástica. Precisa me dizer o que ela lhe contou, algum dia. — Ele estalou os dedos para Dona. — Acompanhe nosso convidado até o quarto. Ele deve estar cansado.

— Eu posso levá-lo — disse, mas Adair me interrompeu.

— Não, Lanore, fique comigo. Gostaria de falar com você por um momento. — Foi só então que percebi que estava numa enrascada: ele tinia de raiva, oculta em consideração ao nosso convidado. Observamos enquanto Dona acompanhava um Jonathan sonâmbulo subindo pela escada espiralada, até que desapareceram de nossa vista. Então, Adair virou-se para mim, me esbofeteando com violência no rosto. Caída no chão, segurei meu rosto e olhei para ele.

— Por que isso?

— Você o transformou, não foi? Roubou meu elixir e o levou com você. Achou que eu não descobriria o que tinha feito? — Adair estava em cima de mim, bufando, ombros tremendo.

— Não tive escolha! Ele foi baleado... estava morrendo...

— Acha que sou estúpido? Você roubou o elixir porque, desde o princípio, tinha a intenção de vinculá-lo a você. Adair esticou-se e me agarrou pelo braço, suspendeu meus pés do chão e me atirou contra a parede. Nas mãos dele, senti o terror do episódio do porão, amarrada no arreio diabólico, impotente diante de sua violência e mergulhada em pânico. Então, ele me bateu de novo, um golpe doloroso que me derrubou no chão pela segunda vez. Mais uma vez, passei a mão no rosto, agora sujo de sangue. Ele havia cortado a pele e a dor irradiava por minha face, embora as bordas dos ferimentos já tivessem começado a se juntar.

— Se eu quisesse roubá-lo de você, acha que teria voltado? — Ainda no chão, me arrastei de costas como um caranguejo, para sair do alcance de Adair, escorregando na barra de seda da minha saia. — Teria fugido e o levado comigo. Não, é exatamente o que contei a você... Peguei o frasco, sim, mas por precaução. Foi uma premonição que senti, de que algo terrível aconteceria. Mas claro que eu voltei. Sou fiel a você — disse, mesmo com raiva em meu coração, fúria por ter apanhado, por ser impotente e não conseguir me defender.

Adair deu-me uma olhada, questionando minha declaração, mas não me bateu de novo. Em vez disso, virou-se e saiu, seu aviso ainda ecoando no corredor.

— Veremos sobre essa sua suposta lealdade. Não pense que isso está terminado, Lanore. Eu destruirei os laços entre você e esse homem tão completamente, que sua relação com ele será reduzida a nada. Seu roubo e seu plano serão um fracasso total. Você é minha e, se acredita que não posso desfazer o que já fez, está enganada. Jonathan será meu também.

Permaneci no chão, com a mão na face, tentando não entrar em pânico com suas palavras. Não podia deixá-lo tirar Jonathan de mim; não podia deixá-lo cortar os laços com a única pessoa de quem eu gostava. Jonathan era tudo o eu tinha e tudo o que eu queria. Se o perdesse, a vida ficaria sem sentido, e, infelizmente, vida era tudo o que me restava.

39

CIDADE DE QUEBEC, HOJE



É quase meia-noite quando eles chegam à cidade de Quebec. Lanny direciona Luke para o que parece ser o melhor hotel na parte antiga da cidade, um edifício alto parecido com uma fortaleza, com parapeitos onde coroas e bandeiras tremulam ao vento gelado da noite. Agradecido por estar dirigindo uma SUV nova em vez de sua velha caminhonete, Luke dá as chaves ao atendente do estacionamento e, então, ele e Lanny entram de mãos vazias no lobby.

O quarto do hotel é o lugar mais luxuoso onde ele já se hospedara; faz o hotel em que passara sua lua de mel parecer vergonhoso. A cama é macia, com colchão de penas, meia dúzia de travesseiros e lençóis de algodão egípcio, e, enquanto ele se acomoda em sua voluptuosidade, ergue o controle remoto em direção à TV de tela plana. O programa de notícias locais deveria começar em alguns minutos e ele está ansioso para ver se vão mencionar o desaparecimento de uma suspeita de assassinato de um hospital no Maine. Luke espera que St. Andrew seja longe e insignificante o bastante para a história não chegar até o Quebec.

Seu olhar passa pelo laptop de Lanny, ao pé da cama. Ele poderia ver se havia alguma coisa on-line, mas Luke é tomado por um medo súbito e irracional de que, se procurar pela história na internet, isso poderá denunciá-los de alguma forma, que as autoridades serão capazes de rastreá-los pela combinação da conexão e pelo uso de palavras-chave. Seu coração acelera, embora saiba que isso não é possível. Ele fica tonto com a paranoia, ainda que não tenha certeza se há razão para isso.

Lanny sai do banheiro envolvida por uma nuvem de ar úmido e morno. Está dançando dentro do roupão do hotel, imenso para ela, e tem uma toalha sobre os ombros, o cabelo molhado caindo em cachos sobre seus olhos. Ela tira um pacote de cigarros de sua jaqueta. Antes de acender, oferece um a Luke, mas ele recusa.

— A pressão da água é maravilhosa — ela diz, mandando um fio de fumaça em direção aos alarmes de incêndio colocados discretamente no teto. — Você deveria tomar um banho quente e demorado.

— Daqui a pouco.

— O que tem na televisão? Está procurando alguma coisa sobre nós?

Ele assente, mexendo os pés ainda com meias para a tela de plasma. O logotipo brilhante do programa de notícias aparece e então um homem de meia-idade, com o semblante sério, começa a ler as manchetes enquanto o segundo âncora concorda, compenetrado. Lanny continua sentada com as costas viradas para a tela, enxugando os cabelos com a toalha. Depois de sete minutos de programa, uma foto do rosto de Luke aparece atrás do âncora. É a foto dos funcionários do hospital, que é usada toda vez que seu nome é mencionado no jornalzinho interno.

“... desapareceu após tratar de uma suspeita de assassinato no Hospital de Aroostook, ontem à noite, e as autoridades temem que algo possa ter acontecido a ele. A po­lícia está pedindo a quem tiver informações sobre a localização do médico que, por favor, ligue para a linha direta do crime...”

A história inteira dura menos do que sessenta segundos, mas é tão alarmante ver seu rosto na tela da televisão que Luke não consegue absorver o que o âncora está dizendo. Lanny tira o controle remoto da mão dele e desliga a TV.

— Então, estão procurando você — ela diz, sua voz quebrando a paralisia dele.

— Não é preciso esperar 48 horas antes de considerarem alguém desaparecido? — ele pergunta, um pouco indignado, como se tivessem feito uma injustiça com ele.

— Eles não vão esperar; acham que você está correndo perigo.

“Estou?”, ele se pergunta. “Será que Joe Duchesne sabe de alguma coisa que eu não sei?”

— Eles falaram meu nome no ar. O hotel...

— Não há razão para se preocupar. Nós fizemos o check-in em meu nome, lembra? A polícia em St. Andrew não sabe quem eu sou. Ninguém vai somar dois e dois. — A garota se afasta e sopra outro fio de fumaça. — Ficará tudo bem. Confie em mim. Sou especialista em fugas.

É como se o cérebro de Luke se apertasse dentro do crânio, como se o pânico estivesse tentando escapar. Ele se dá conta da gravidade do que fizera: Duchesne estará esperando para falar com ele. Peter deve ter contado à polícia sobre o SUV e o e-mail, então, não há como continuar o usando. Para conseguir voltar para casa, terá que mentir de forma convincente para o xerife e repetir a mesma mentira para todos quando voltar para St. Andrew, talvez pelo resto da vida. Ele fecha os olhos e tenta respirar. O inconsciente dele o levou a ajudar Lanny. Se ele conseguisse ir contra o alarme tocando em sua cabeça, seu inconsciente deveria lhe dizer o que ele realmente quer, por que deixou sua vida para trás e pegou a estrada com essa mulher, o mundo desabando atrás dele.

— Isso significa que não posso voltar? — ele pergunta.

— Se é isso o que você quer — ela responde cautelosamente. — Eles farão perguntas, mas nada que você não consiga administrar. Você quer voltar para St. Andrew? Para a fazenda de seus pais, a casa cheia dos pertences deles; consegue viver com a ausência de suas filhas? Quer voltar para o hospital para cuidar de seus vizinhos ingratos?

O incômodo de Luke fica ainda maior.

— Não quero falar sobre isso.

— Me escute, Luke! Sei o que está pensando. — Ela desliza pela cama e senta-se ao lado dele, perto, assim ele não pode se afastar dela. Ele sente o cheiro suave do perfume de sabonete amornado pela pele dela, saindo do roupão. — Você quer voltar para lá porque é o que conhece; é o que deixou para trás. O homem que eu vi entrar na sala de emergência estava devastado e cansado. Passou por muitas coisas com seus pais e sua ex-mulher, perdeu suas filhas... Não há mais nada lá, para você. É uma armadilha. Se voltar para St. Andrew, nunca mais sairá de lá. Só ficará mais velho, cercado de pessoas que não estão nem aí para você. Sei o que está sentindo. Está sozinho e com medo de ficar sozinho para o resto da vida, andando de um lado para o outro numa casa enorme, sem ter ninguém para conversar. Quem estará lá para você? Quem cuidará de você do mesmo jeito que cuidou de seus pais? Quem segurará sua mão quando chegar a sua vez de morrer? — O que ela disse é brutalmente verdadeiro e ele mal consegue ouvi-la. Ela coloca um braço ao redor do ombro de Luke e, quando percebe que ele não a empurra para o lado, ela o puxa para mais perto ainda.

— Você está certo em ter medo de morrer. A morte já levou todos os que eu conheci na vida. Segurei-os em meus braços até o último momento, confortei-os, chorei quando eles se foram. A solidão é uma coisa terrível. — As palavras parecem contraditórias, vindas dessa mulher, mas sua tristeza é palpável. — Posso ficar com você para sempre, Luke. Não irei embora. Estarei aqui para o resto de sua vida, se você quiser que eu esteja.

Luke não se afasta, mas considera bastante as palavras dela. Ela não está propondo amor (está?), não, Luke sabe que não, ele não é tolo. Embora também não seja exatamente uma amizade. Ele não se ilude imaginando que sejam almas gêmeas: eles se conhecem há menos de 36 horas. Ela precisa de companhia. Luke seguira um instinto que não sabia ter e se saiu bem com ele. Ela acha que pode funcionar. E, em troca, ele pode deixar para trás sua vida antiga e complicada sem ter que fazer muita coisa a não ser cancelar a conta de energia elétrica. E Luke nunca mais estaria sozinho.

Ele permanece nos braços de Lanny, deixando-a passar a mão em suas costas, apreciando o toque de sua mão. Isso clareia a mente e traz paz a Luke pela primeira vez desde que o xerife a levou até a sala de emergência.

Ele sabe que, se pensar muito, a nuvem encobrirá tudo de novo. Sente-se como um personagem no meio de um conto de fadas, mas, se parar para refletir sobre o que está acontecendo, se resistir ao embalo suave da história, a confusão tomará conta. Está tentado a não questionar o mundo misterioso de Lanny; se aceitar ser verdade o que ela diz, então o que acredita sobre a morte é uma mentira. Mas, como médico, Luke já testemunhou o final da vida, acompanhou pacientes enquanto a vida deles se esvaía aos poucos. Ele aceitava a morte como uma das verdades absolutas do mundo e agora estão lhe dizendo que não é bem assim. No final da vida, as exigências são escritas com tinta invisível. Se a morte não era uma verdade absoluta, e os outros fatos e crenças com os quais fora criado? Quais desses outros também seriam mentira?

Isto é, se a história dessa jovem for verdadeira. Embora esteja caminhando por uma névoa de aquiescência, Luke ainda não consegue deixar de lado a suspeita de que esteja sendo enganado. Ela obviamente tem talento para manipular as pessoas, como muitos dos psicopatas. Mas agora não é hora de ter esses pensamentos. Ela está certa: ele está cansado, devastado e com medo de chegar à conclusão errada, de tomar a decisão errada.

Ele encosta de volta no travesseiro, que cheira a lavanda, e se aninha no corpo morno de Lanny.

— Não precisa se preocupar. Eu não vou a lugar nenhum agora. Para começar, você ainda não me contou o resto da história. Quero saber o que acontece depois.

40

BOSTON, 1819



Saímos naquela noite, a primeira de Jonathan em Boston. O evento era mais sossegado, um sarau, com um piano e um cantor de renome, mesmo assim não achei uma boa ideia levá-lo enquanto ainda estava em choque e tinha a mente confusa. Segredo era a palavra-chave de Adair, que havia nos impressionado com lendas sobre ser suspeito de bruxaria e mal ter escapado da gentalha violenta, fugindo a cavalo sob o luar, deixando para trás uma fortuna que levara anos para amealhar, e sabia-se lá o que Jonathan poderia dizer no estado em que estava. No entanto, Adair não desistiu e fomos enviados para remexer os baús e achar roupas de festa para Jonathan. Ao final, Adair confiscou a maravilhosa sobrecasaca francesa de Dona (Jonathan era tão alto quanto Dona, mas tinha os ombros mais largos) e mandou uma das criadas trabalhar nas alterações enquanto o restante de nós nos maquiávamos, nos perfumávamos e nos vestíamos para apresentar Jonathan à cidade.

A única coisa é que ele não podia continuar sendo Jonathan, podia?

— Deve se lembrar de se apresentar com outro nome — Adair explicou, enquanto os criados nos ajudavam a colocar as capas e os chapéus sob um candelabro no hall. — Não podemos deixar que fiquem sabendo, em seu pequeno vilarejo, que Jonathan St. Andrew foi visto em Boston.

A razão era óbvia: a família de Jonathan estaria procurando por ele. Ruth St. Andrew se recusaria a aceitar que o filho tivesse simplesmente desaparecido. Ela faria uma busca pela cidade inteira, incluindo as florestas e o rio. Quando a neve derretesse, na primavera, e ainda assim não encontrassem o corpo, ela deduziria que Jonathan havia ido embora por conta própria e, então, formaria uma rede ainda maior na tentativa de encontrá-lo. Não podíamos deixar uma trilha de migalhas para trás, pistas que pudessem trazer alguém à nossa porta.

— Por que você insiste em sair com ele hoje? Por que não o deixa se recuperar primeiro? — perguntei a Adair, enquanto nos amontoávamos na carruagem. Ele deu atenção a mim como daria a um idiota ou a uma criança barulhenta.

— Porque não quero que ele fique trancado no quarto, remoendo sobre o que deixou para trás. Quero que aproveite o que o mundo tem a lhe oferecer. — Ele sorriu para Jonathan, embora Jonathan só olhasse tristemente para fora da janela da carruagem, ignorando até mesmo a mão de Tilde brincando de maneira provocativa com seu joelho. Alguma coisa na resposta de Adair não me convenceu, e eu já havia aprendido a confiar em meus instintos quando achava que Adair estava mentindo. Adair queria muito que Jonathan fosse visto em público, mas, o motivo, eu não sabia.

A carruagem nos levou para uma casa imponente e alta, não muito longe do Boston Common, de um intendente municipal e advogado cuja esposa enlouquecera por Adair ou, melhor dizendo, enlouquecera pelo que ele representava: aristocracia europeia e sofisticação (se ela soubesse que, na verdade, estava recepcionando o filho de um trabalhador braçal itinerante, um camponês com sangue e lama nas mãos...). O marido se retirava para a fazenda deles a oeste da cidade toda vez que a esposa dava uma dessas festas, e era melhor assim, do contrário, morreria de ataque cardíaco se soubesse o que acontecia nesses eventos e como ela gastava o dinheiro dele.

Além de ficar pendurada nos braços de Adair praticamente a noite toda, a esposa do intendente também tentou fazê-lo interessar-se por suas filhas. Apesar de a América ter acabado de conseguir sua independência e desbancar a monarquia a favor da democracia, alguns ainda se enamoravam da ideia da realeza, e a esposa do intendente provavelmente desejava, em segredo, que uma de suas filhas se casasse com um nobre. Esperava que, quando chegássemos, ela cairia sobre Adair numa agitação de saias de tafetá e reverências, conduzindo as filhas para mais perto do conde, de onde ele pudesse espiar seus decotes sem problema.

Quando Jonathan entrou no salão de baile, houve um silêncio brusco e então um ti-ti-ti se espalhou pela multidão. Não seria exagero dizer que todos os olhares recaíram sobre ele. Tilde estava de braço dado com ele e o acompanhou até onde Adair estava conversando com as anfitriãs.

— Permita-me apresentar a vocês... — Adair começou e então disse um nome à esposa do intendente pelo qual Jonathan seria chamado, Jacob Moore, um nome ilusório e comum. Ela o olhou e ficou sem fala por um momento.

— Ele é meu primo americano, acredita nisso? — Adair passou as mãos afetuosamente em volta do pescoço de Jonathan. — Do ramo da família na Inglaterra, do lado de nossas mães. Um braço distante da família... — Adair parou quando ficou aparente que ninguém, pela primeira vez desde que chegara à América, prestava atenção no que estava dizendo.

— Você é novo em Boston? — a anfitriã perguntou a Jonathan, os olhos dela presos no rosto dele. — Porque eu certamente me lembraria se o tivesse visto antes.

Eu fiquei perto da mesa de ponche, com Alejandro, observando Jonathan enrolar-se para dar uma explicação, precisando que Adair viesse em seu socorro.

— Acho que não vamos ficar muito tempo aqui esta noite — eu disse.

— Isso não será tão fácil quanto Adair pensa. — Alejandro ergueu o copo na direção deles. — Não dá para esconder aquele rosto. A notícia vai se espalhar, talvez até chegue a seu vilarejo miserável.

Havia uma preocupação mais imediata, pensei, enquanto observava Jonathan e Adair juntos. As mulheres se juntavam não ao redor do europeu aristocrático, mas do estranho alto. Elas olhavam para ele de trás de seus leques; enrubesciam a seu lado, esperando para serem apresentadas. Já vira aquelas expressões antes e percebi, naquele momento, que isso nunca mudaria. Onde quer que Jonathan estivesse, as mulheres tentariam possuí-lo. Mesmo que ele não as incentivasse, elas o perseguiam. Por mais difícil que tenha sido a concorrência em St. Andrew, agora Jonathan nunca seria só meu; sempre teria que dividi-lo com alguém.

Nessa noite, Adair parecia satisfeito em deixar Jonathan ser o centro das atenções; na verdade, parecia prestar muita atenção na reação dos convidados. Mas eu me perguntava até quando isso duraria. Adair não parecia ser do tipo que viveria à sombra de alguém, e nunca havia opção senão deixá-lo ser a estrela. O próprio Jonathan não tinha chance.

— Acho que teremos problemas logo, logo — murmurei para Alejandro.

— Com Adair, sempre há problema; é só uma questão de quão sério o problema é.

Ficamos mais do que esperava: a noite começava a dar lugar ao nascer arroxeado da madrugada, quando voltamos à mansão, exaustos e calados. Percebi que, mesmo sem querer, Jonathan parecia ter saído um pouco da concha. Pontos de cor (por excesso de bebida?) espalhavam-se por suas bochechas e ele estava definitivamente menos tenso.

Subimos as escadas em silêncio, o som agudo de nossos saltos sobre o chão de mármore ecoando pela casa grande e vazia. Tilde agarrou a mão de Jonathan, tentada em levá-lo para o quarto dela, mas ele chacoalhou a cabeça e escapou de suas garras. Um por um, os cortesãos desapareciam atrás das portas douradas de seus aposentos até ficarmos apenas Jonathan, Adair e eu. Estava prestes a acompanhar Jonathan ao quarto dele, para lhe dizer algumas palavras de conforto e encorajamento, e, com alguma sorte, ser convidada para mantê-lo quente sob as cobertas, quando Adair me puxou para mais perto dele, bem na frente de Jonathan, e passou sua mão sobre meus seios e minhas nádegas. Ele abriu a porta de seu quarto com um chute.

— Vai se juntar a nós essa noite? — ele perguntou, com uma piscadela. — Podíamos fazer desta uma noite memorável, para comemorar sua chegada. Lanore pode muito bem dar prazer a nós dois; já fez isso muitas vezes antes. Deveria ver por si mesmo: ela tem um dom para amar dois homens ao mesmo tempo. — Jonathan empalideceu e deu alguns passos para trás. — Não? Uma próxima vez, então. Talvez quando estiver mais descansado. Boa noite! — Adair disse enquanto me puxava para dentro, atrás dele. Não havia dúvida em sua mensagem: eu era uma prostituta comum. Era assim que Adair planejara matar a afeição de Jonathan por mim e percebi, naquele exato momento, que fora tola de duvidar da capacidade dele em fazer o plano dar certo. Mal olhei para o rosto de Jonathan, que estava chocado e magoado, e a porta se fechou com uma pancada.

De manhã, juntei minhas roupas em meus braços e, de camisola e descalça, fiquei do lado de fora do quarto de Jonathan, tentando ouvir os sinais de que estava acordado. Morri de vontade de escutar os barulhos cotidianos de seu ritual matinal, o farfalhar do lençol de linho, a água caindo na bacia, achando que isso consertaria tudo. Não fazia ideia se conseguiria encará-lo. Queria o tipo de reafirmação que uma criança recebe de seus pais depois de ser punida, mas não tinha coragem de bater à porta. No entanto, não fazia diferença: estava completamente quieto do lado de dentro, e dado o dia longo e complicado que ele tivera, não duvidaria se ele dormisse por 24 horas.

Lavei-me em meu quarto e coloquei uma roupa limpa, então desci as escadas na esperança de que, embora tão cedo, os criados tivessem colocado o café para ferver. Para minha surpresa, Jonathan estava sentado na sala de jantar, o leite soltando fumaça e o pão torrado na mesa em frente dele. Ele me olhou.

— Você já está de pé — eu disse.

Ele se levantou e puxou a cadeira diante dele.

— Mantive os horários de fazendeiro a vida toda. Com certeza se lembra disso em St. Andrew; se dormisse depois das seis horas da manhã, a cidade inteira estaria falando de você antes do meio-dia. A única coisa capaz de mudar isso é se estivesse em seu leito de morte — ele disse com ironia. Um jovem sonolento e desajeitado entrou com uma xícara e um pires, deixando espirrar café nas bordas, então colocou-a em minha mão esquerda, fez um aceno com a cabeça e saiu.

Apesar de ter pensado a noite toda sobre como me explicaria para Jonathan, estava confusa. Não fazia ideia de como começar, então passei a mexer na alça da xícara.

— O que viu na noite passada...




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