No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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— Juro por Deus que gostaria de nunca ter cedido ao pedido do meu pai e me casado com ela. Ele queria um herdeiro, era tudo o que interessava a ele. Viu uma garota com muitos anos de procriação pela frente e fechou negócio com o senhor McDougal, como se ela fosse uma égua reprodutora. — Ele passou a mão pelos cabelos. — Não faz ideia da vida que tenho que levar agora, Lanny. Ninguém para cuidar dos negócios além de mim. Benjamin continua tão inútil quanto um garoto de quatro anos de idade. Minhas irmãs são idiotas. E, quando meu pai morreu, bem... todas as preocupações foram colocadas sobre meus ombros. Essa cidade depende da fortuna de minha família. Faz ideia de quantos colonizadores compraram suas terras com empréstimos financiados por meu pai? Basta um inverno rigoroso ou nenhum talento para plantar, e vão deixar de pagar suas obrigações. Eu posso executar a dívida e pegar as terras de volta, mas de que me serviria outra fazenda improdutiva? Assim, peço que me perdoe por arranjar uma amante e poder fugir um pouco de todas as minhas responsabilidades! — Eu abaixei o olhar. Ele continuou, olhos arregalados. — Não faz ideia de quão atraentes têm sido suas ofertas! Daria qualquer coisa para me livrar de minhas obrigações! Mas não posso, e acho que você entende o porquê. Não só minha família estaria perdida, mas a cidade também entraria em derrocada. Vidas estariam destruídas. Acho que me pegou num momento de fraqueza quando voltou, Lanny, mas os últimos anos me ensinaram lições difíceis. Não posso ser tão egoísta.

Será que tinha se esquecido de que uma vez me dissera que queria deixar tudo para trás, a família e a fortuna, por mim? Que uma vez desejou que o mundo fosse apenas nós dois? Uma mulher mais sensata ficaria feliz por ver que Jonathan assumira suas responsabilidades e tinha sobre os ombros obrigações que poderiam esmorecer um homem mais fraco. Eu não podia dizer que estava feliz ou orgulhosa.

Mas eu o compreendia. Eu amava a cidade, à minha maneira, e não gostaria de vê-la em ruínas. Mesmo vendo minha própria família passando por dificuldades, mesmo que os moradores tenham me tratado mal e falado de mim nas minhas costas, não poderia levar embora quem mantinha a cidade unida. Sentei-me do outro lado, em frente de Jonathan, desgostosa e simpática à situação difícil que acabara de compartilhar comigo, mas, por dentro, o pânico tomou conta de mim dos pés à cabeça. Eu ia falhar com Adair. O que eu faria?

Bebemos nossa cerveja, desanimados. Parecia claro que eu teria que desistir de Jonathan e precisaria me concentrar em minha situação: o que fazer? Para onde poderia ir sem que Adair pudesse me encontrar? Não tinha a menor vontade de encenar, de novo, a tortura pela qual já tinha passado.

Pagamos nossa bebida e fomos para a estrada, cada um em silêncio com seus próprios pensamentos. Mais uma vez, a noite estava gélida, o céu, claro e brilhante, estrelado, nuvens finas cortando a luz prateada. Jonathan colocou a mão em meu braço.

— Me perdoe pela minha explosão e esqueça meus problemas. Você tem todo o direito de me desprezar pelo que acabei de dizer. A última coisa que quero é que carregue meu fardo. Meu cavalo está no celeiro do Daughtery’s. Deixe-me levá-la para casa.

Mas, antes que pudesse dizer a ele que não era necessário e que preferia ficar com meus pensamentos, fomos interrompidos pelo barulho de neve sendo pisoteada ao pé da estrada.

Estava tarde e quase congelando, improvável que alguém estivesse por ali.

— Quem está aí? — perguntei para a figura nas sombras. Edward Kolsted deu um passo sob uma fenda de luz da lua, com um rifle na mão.

— Siga seu caminho, senhorita McIlvrae. Não tenho querela com você. — Kolsted era um jovem rude de uma das famílias mais pobres da cidade e não era páreo para Jonathan na competição pela afeição de qualquer pessoa. Seu rosto longo fora desfigurado pela varíola, assim como o de muitos outros durante a juventude, e, para um homem jovem, seu cabelo castanho já estava afinando, seus dentes, caindo. Ele ergueu o rifle na altura do peito de Jonathan.

— Não seja estúpido, Edward! Há testemunhas: Lanny e os homens que estão dentro do Daughtery’s... a não ser que esteja planejando matá-los também — Jonathan disse para seu futuro assassino.

— Não me importo. Você arruinou minha Anna e me transformou em motivo de piada. Terei orgulho de ser conhecido por ter me vingado de você. — Ele ergueu ainda mais o rifle. Um arrepio de medo tomou conta de mim. — Olhe só para você, seu pavão enfeitado — Edward cutucou Jonathan com o rifle, mas Jonathan, para sua sorte, permaneceu onde estava. — Acha que a cidade vai lamentar quando estiver morto? Não vamos, senhor. Nós desprezamos você, os homens desta cidade. Acha que não sabemos o que tem aprontado, amaldiçoando nossas esposas, colocando-as sob seu feitiço? Você pegou a Anna para se divertir um pouco e, em troca, roubou-me a coisa mais preciosa que tinha. Você é o próprio demônio, é mesmo, e seria melhor esta cidade se livrar de você!

A voz de Edward aumentou, mais defensiva, mas, independentemente das palavras dele, tive a certeza de que Kolsted não levaria a cabo sua ameaça. Ele queria assustar Jonathan, humilhá-lo e fazê-lo implorar perdão, e isso daria ao corno um pouco de dignidade. Mas ele não tinha coragem de matar seu rival.

— É isso o que quer de mim, que eu seja um demônio? Isso serviria a seu propósito, exoneraria sua culpa? — Jonathan abaixou os braços. — Mas a verdade é que sua esposa é uma mulher infeliz, e isso tem muito pouco a ver comigo e muito a ver com você.

— Mentiroso! — Kolsted gritou.

Jonathan deu um passo em direção a seu agressor e minhas vísceras reviraram, sem saber se ele tinha um desejo de morte ou se queria que Koslted encarasse a verdade. Talvez achasse que devia isso à sua amante. Mas seu semblante raivoso foi mal interpretado e Kolsted talvez acreditasse que Jonathan estava furioso porque amava Anna.

— Se sua esposa fosse feliz, não procuraria minha companhia. Ela...

O rifle de Kolsted disparou, um estouro de chama branco-azulada na boca da arma, que eu vi com o canto dos olhos. Foi muito rápido: um barulho como o do trovão, uma luz como a de um raio, e Jonathan foi jogado para trás e caiu no chão. O rosto de Kolsted se contorceu, capturado por um instante sob a luz do luar.

— Eu atirei nele — ele murmurou, como se precisasse ter certeza. — Eu ati­rei em Jonathan St. Andrew.

Caí de joelhos na lama quase congelada, puxando Jonathan para meu colo. Sua roupa já estava encharcada de sangue, inclusive o paletó. Era um ferimento sério e profundo. Passei meus braços em volta dele e olhei com ódio para Kolsted.

— Se tivesse um rifle, atiraria em você bem onde está. Saia da minha frente.

— Ele está morto? — Kolsted esticou o pescoço, pois não era corajoso o suficiente para caminhar até o homem em quem acabara de atirar.

— Eles vão estar aqui fora num segundo e, se o encontrarem aqui, vão prendê-lo imediatamente — avisei, sussurrando entre os dentes. Queria que ele fugisse, já era possível ouvir o burburinho vindo do Daughtery’s e alguém sairia logo para ver quem tinha atirado. Tinha que esconder Jonathan antes de sermos descobertos.

Não tive que avisar Kolsted duas vezes; se foi por medo, por remorso ou porque ele não estava preparado para ser preso, o fato é que o agressor de Jonathan recuou feito um cavalo assustado e bateu em retirada. Prendendo meus braços em volta do peito de Jonathan, puxei-o para dentro do celeiro do Daughtery’s. Tirei seu sobretudo e depois o paletó, até que encontrei o ferimento em seu peito, o sangue espirrando de um buraco perto do coração.

— Lanny — ele ofegou, procurando minha mão.

— Estou bem aqui, Jonathan. Fique quieto.

Ele ofegou novamente e tossiu. Não havia o que fazer, a julgar pela distância do tiro e pela localização do ferimento. Reconheci a expressão em seu rosto: era o olhar fatigado de quem estava prestes a morrer. Ele ficou inconsciente, mergulhando em meus braços.

Podia ouvir vozes vindas do outro lado das tábuas comidas por vermes, homens do Daughtery’s que saíram até a estrada. Não encontrando ninguém, se afastaram.

Olhei para o belo rosto de Jonathan. Seu corpo, ainda morno, pesava em meu colo. Meu coração vociferava em pânico. “Mantenha-o vivo. Mantenha-o vivo a qualquer custo.” Eu o abracei com mais força. Não podia deixá-lo morrer. E só havia um jeito de salvá-lo.

Soltei seu corpo no chão, abri o sobretudo e o paletó. Graças a Deus que ele estava inconsciente, do contrário, assustada como estava, nunca teria conseguido executar a maldita tarefa. Será que funcionaria? Talvez me lembrasse errado: havia palavras especiais que precisaria recitar para fazer a poderosa mágica funcionar. No entanto, não havia tempo para pensar duas vezes.

Remexi no arremate de meu corpete, procurando pelo frasco. Assim que senti o toque do pequeno frasco de prata, arranquei-o da costura e tirei-o do esconderijo. Minhas mãos tremiam enquanto eu puxava a tampa do frasco e abria os lábios de Jonathan. Havia somente uma gota aqui, menos do que uma gota de suor. Rezei para que fosse o suficiente.

— Não me abandone, Jonathan. Não posso viver sem você — sussurrei no ouvido dele, a única coisa que conseguia pensar em dizer. Mas, então, as palavras de Alejandro me vieram à mente, aquilo que havia me contado no dia em que fui transformada; rezei para não ser muito tarde. — Por minhas mãos e intenção — eu disse, me sentindo tola enquanto falava, sabendo que eu não tinha poderes sobre nada, nem sobre o céu, nem sobre o inferno, nem sobre a terra.

Ajoelhei-me na palha, Jonathan apoiado em meu colo, e tirei o cabelo de sua testa, esperando por um sinal. Tudo o que conseguia me lembrar da terrível experiência era a sensação de queda e da febre percorrendo meu corpo como fogo e, então, acordando bem depois, no escuro.

Mais uma vez, abracei Jonathan junto a mim. Ele parara de respirar e estava ficando mais frio. Pus o casaco em volta dele, imaginando se conseguiria levá-lo até a fazenda de minha família sem ser notada. Parecia improvável, mas não havia outro lugar para levá-lo e, cedo ou tarde, alguém vasculharia o celeiro do Daughtery’s.

Selei o cavalo de Jonathan, impressionada por descobrir que já não tinha mais medo do maldito garanhão. Com uma força que não sabia possuir, surgida da necessidade, joguei Jonathan sobre o lombo do cavalo, montei na sela e saí pelas portas abertas do celeiro, galopando pelo vilarejo. Mais tarde, mais de um morador do vilarejo diria ter visto Jonathan St. Andrew cavalgar para fora da cidade naquela noite, sem dúvida inventando teorias desbaratadas sobre seu desaparecimento.

Quando chegamos à fazenda de minha família, com o corpo de Jonathan aninhado em meu colo, fui diretamente ao celeiro e acordei o cocheiro de aluguel. Tínhamos que sair de St. Andrew naquela noite; não podia arriscar e esperar até amanhecer, quando a família de Jonathan viria procurar por ele. Disse ao cochei­ro para selar os cavalos com rapidez; iríamos embora imediatamente. Quando ele protestou, dizendo que estava muito escuro para viajar, disse a ele que o luar estava forte o bastante para iluminar o caminho. Então acrescentei:

— Estou pagando seu salário, então, escute o que estou dizendo. Você tem quinze minutos para selar aqueles cavalos.

Quanto ao meu baú de roupas e as outras coisas, seriam deixados para trás. Não podia arriscar acordar minha família voltando ao chalé. Meu único pensamento nesse momento era tirar Jonathan da cidade. Assim que a carrua­gem saiu pela estrada coberta de neve, dei uma olhadinha pela janela acortinada para ver se alguém na casa tinha nos ouvido, mas ninguém se mexeu. Imaginei-os acordando, descobrindo que eu tinha ido embora, imaginando, com o coração dilacerado, por que tinha escolhido sair assim, minha partida tão misteriosa quanto meus anos de silêncio. Estava cometendo uma grande injustiça com os corações bondosos de minha mãe e minhas irmãs, e isso me magoava profundamente, mas a verdade era que, para mim, era mais fácil decepcioná-las do que perder Jonathan para sempre ou, ainda, desobedecer a Adair.

Jonathan estava deitado no banco à minha frente, enrolado em seu sobretudo e num robe de zibelina, minha capa enrolada como um travesseiro, a cabeça dele caída num ângulo esquisito. Ele não fez nenhum movimento, não havia o subir e descer do peito pela respiração, nada. Sua pele estava pálida como gelo ao luar. Mantive meus olhos grudados no rosto dele, esperando pelo primeiro sinal de vida, mas ele estava tão quieto que comecei a pensar que havia fracassado.

38

Percorremos muitos quilômetros nas primeiras horas da madrugada, a carrua­gem barulhenta atravessando a trilha solitária e rude da floresta enquanto eu vigiava Jonathan. Poderia ser uma armação funerária, eu fingindo ser uma viúva acompanhando o corpo do marido morto na jornada até seu lugar de repouso final.



O sol já havia nascido havia algum tempo quando Jonathan começou a acordar. Até aquele momento, quase chegara à conclusão de que ele não voltaria; sentei-me tremendo e suando durante horas, a ponto de vomitar, odiando-me. O primeiro sinal de vida foi um tremor na sua face direita, então o movimento dos cílios. Como estava branco feito um morto, duvidei de meus olhos por um momento, até que ouvi um resmungo baixo, vi os lábios entreabertos e, então, os dois olhos se abriram.

— Onde estamos? — ele perguntou, num sussurro que mal dava para ouvi-lo.

— Numa carruagem; deite-se quieto. Vai se sentir melhor daqui a pouco.

— Numa carruagem? Para onde estamos indo?

— Para Boston. — Não sabia o que dizer a ele.

— Boston! O que aconteceu? Eu... — seu pensamento deve ter voltado até a última coisa de que conseguia se lembrar, nós dois no Daughtery’s — ... perdi uma aposta? Estava bêbado, para concordar com você...

— Não houve acordo — eu disse, ajoelhando-me mais perto para apertar o robe em volta dele. — Estamos indo porque temos que ir. Você não pode mais ficar em St. Andrew.

— Do que está falando, Lanny? — Jonathan estava irritado e tentou me empurrar, embora estivesse tão fraco que não conseguia nem me tirar do lugar. Senti algo desconfortável sob meu joelho, como um seixo afiado; esticando a mão para baixo, meus dedos encontraram uma bala de chumbo. A bala da espingarda de Kolsted. Segurei para Jonathan vê-la.

— Reconhece isso?

Ele tentou focar na pequena forma escura em minha mão. Eu vi quando a memória voltou e ele se lembrou da briga na estrada e da explosão de pó que lhe havia tirado a vida.

— Fui baleado — ele disse, ofegante. Sua mão foi até o peito, as camadas de sua camisa e do paletó endurecidas pelo sangue seco. Sentiu a carne embaixo da roupa, mas estava inteira.

— Sem ferimento — Jonathan disse com alívio. — Kolsted deve ter errado a mira.

— Como isso poderia ter acontecido? Você está vendo o sangue, os buracos nas suas roupas. Kolsted não errou, Jonathan. Ele atirou em seu coração e matou você.

Ele apertou os olhos.

— O que você está dizendo não faz sentido. Não entendo.

— Não é algo que possa ser compreendido — respondi, pegando a mão dele. — É um milagre.

Tentei explicar tudo, embora Deus saiba que eu mesma compreendia muito pouco. Contei a ele minha história e a de Adair. Mostrei o pequeno frasco, agora vazio, e deixei que cheirasse seus últimos vapores malcheirosos. Ele ouviu, o tempo todo me observando como se eu fosse uma mulher insana.

— Diga a seu cocheiro para parar a carruagem — ele pediu. — Vou voltar para St. Andrew nem que tiver que andar a pé todo o caminho de volta.

— Não posso deixá-lo fazer isso.

— Pare a carruagem! — ele esbravejou, ficando em pé e esmurrando o teto do veículo. Tentei fazê-lo se sentar, mas o cocheiro havia escutado e parou os cavalos.

Jonathan abriu a porta da carruagem e pulou para a neve virgem, que ia até a altura dos joelhos. O cocheiro virou-se, olhando desconfiado para nós de seu banco alto, o bigode congelado pela própria respiração. Os cavalos tremiam buscando fôlego, exaustos de puxar a carruagem pela neve.

— Nós já voltamos. Derreta neve para dar água aos cavalos — eu disse, numa tentativa de distrair o cocheiro. Corri atrás de Jonathan, minhas saias me prendiam na neve, e agarrei o braço dele quando finalmente o alcancei.

— Você tem que me ouvir; não pode voltar a St. Andrew. Você se transformou.

Ele me empurrou.

— Não sei o que aconteceu com você desde que foi embora, mas só posso suspeitar que tenha ficado louca...

Segurei o punho dele com toda a força.

— Provarei a você. Se eu conseguir fazê-lo ver que estou dizendo a verdade, promete vir comigo?

Ele parou, mas olhou para mim como se esperasse um truque.

— Não vou prometer coisa nenhuma.

Ergui minha mão, soltando a manga da camisa dele, fazendo sinal para que esperasse. Com minha outra mão encontrei uma faca pequena, porém firme, no bolso do meu sobretudo. Abri a parte de cima de minha roupa, expondo meu corpete ao ar frígido e cortante e, então, pegando o cabo da faca com as duas mãos, enfiei-a no peito até o punho.

Jonathan quase caiu de joelhos, mas, num reflexo, suas mãos tentaram me alcançar.

— Meu Deus! Você é louca! Em nome de Deus, o que está fazendo...

O sangue brotava ao redor do punho da faca, rapidamente encharcando minha roupa, até que uma enorme mancha vermelha espalhou-se pela seda, da barriga até o esterno. Puxei a lâmina para fora, agarrei a mão dele e pressionei seus dedos no ferimento. Ele tentou se desvencilhar, mas eu o segurei com força.

— Toque. Sinta o que está acontecendo e me diga se ainda não acredita em mim.

Eu sabia o que ia acontecer. Era um truque de salão que Dona fazia para nós quando nos juntávamos na cozinha para relaxar, depois de uma noite pela cidade. Ele se sentava diante do fogo, jogava o casaco nas costas de uma cadeira, enrolava para cima suas volumosas mangas de camisa e, então, com uma faca, fazia um corte profundo nos antebraços. Alejandro, Tilde e eu assistíamos quando as duas pontas de carne vermelha rastejavam uma em direção à outra, impotentes feito dois amantes amaldiçoados, e se juntavam num abraço sem costuras. Uma façanha impossível, feita repetidamente, tão certa como o sol da manhã (Dona ria sarcasticamente enquanto observava sua própria pele se juntar, mas, ao recriar este truque por minha conta, percebi que havia uma sensação única: buscávamos dor, mas não podíamos recriá-la, não exatamente. Chegamos a querer algo próximo do suicídio, e assim teríamos o prazer temporário de infligir dor a nós mesmos, mas até isso nos era negado. Como nos odiávamos, cada um à sua maneira!).

O rosto de Jonathan empalideceu quando sentiu a carne macia se mexer, tremer e fechar.

— O que é isso? — ele murmurou, horrorizado. — A mão do demônio está aí, com certeza.

— Não sei nada sobre isso; não tenho explicação. O que está feito, está feito e não há como fugir. Você nunca mais será o mesmo, e o seu lugar não é mais em St. Andrew. Agora, venha comigo — eu disse. Ele veio, débil e pálido, e não resistiu quando coloquei minha mão sobre seu braço e o levei de volta à carruagem.

Jonathan não se recuperou do choque durante toda a viagem. Foi um período de muita ansiedade para mim, já que estava ávida para saber se teria meu amigo e amante de volta. Jonathan fora sempre confiante e me deixava doente ter que ser a líder. Era tolo de minha parte esperar outra coisa; afinal, quanto tempo ficara enfiada na casa de Adair, recolhida em mim mesma e recusando-me a acreditar no que tinha acontecido?

Ele permaneceu na cabine do navio durante todo o percurso e não pisou no deque uma vez sequer. Aquilo aguçou a curiosidade da tripulação e de todos os outros passageiros, e, embora o mar estivesse calmo como a água de um poço, disse a eles que Jonathan estava doente e não confiava nas próprias pernas para ficar andando por aí. Eu trazia sopa da cozinha e sua cota de cerveja, apesar de ele não ter mais necessidade de comer e de seu apetite tê-lo abandonado. Como Jonathan logo se daria conta, comer era algo que fazíamos por hábito e conforto, e para fingir que éramos os mesmos de sempre.

Quando o navio chegou ao porto de Boston, Jonathan tinha se tornado uma criatura estranha, devido às muitas horas na semiescuridão da cabine. Pálido e nervoso, com os olhos vermelhos por não dormir, ele saiu da cabine vestido com os trapos que tínhamos comprado em Camden, numa pequena loja que vendia coisas de segunda mão. Ficou no deque, aguentando os olhares dos outros passageiros, que, sem dúvida, imaginavam se o passageiro desaparecido morrera dentro da cabine durante a jornada. Ele observava a atividade no porto quando o navio ancorou, com os olhos arregalados diante da multidão. Sua beleza extraordinária fora prejudicada pela situação difícil pela qual estava passando e, por um momento, desejei que Adair não visse Jonathan nessas condições lamentáveis durante o primeiro encontro. Queria que Adair visse que Jonathan era tudo o que eu havia prometido; que vaidade tola!

Desembarcamos e não tínhamos andado nem 40 metros no píer quando vi Dona esperando por nós com uma dupla de criados. Dona vestia uma roupa funérea: plumas pretas de avestruz no chapéu, enrolado numa capa preta e apoiado numa bengala, elevando-se sobre as pessoas comuns como o próprio anjo da morte. Um olhar malicioso tomou conta do rosto dele enquanto nos espiava.

— Como sabia que eu estava voltando hoje? Neste navio? — perguntei. — Não mandei nenhuma carta para avisá-los sobre meus planos.

— Ah, Lanore, você é tão ingênua que me faz rir! Adair sempre sabe dessas coisas. Ele sentiu sua presença no horizonte e me mandou vir buscá-la — ele disse, me empurrando para o lado. Dedicou toda sua atenção a Jonathan, sem tentar disfarçar que o inspecionava da cabeça aos pés e vice-versa. — Então, apresente-me a seu amigo!

— Jonathan, este é Donatello — eu disse, objetivamente. Jonathan nem se mexeu para olhá-lo, nem retornou o cumprimento; se foi por causa da avaliação descarada de Dona ou porque ainda estava em choque, não saberia dizer.

— Ele não fala? Não tem boas maneiras? — Dona disse. Quando Jonathan não fisgou a isca, Dona parou repentinamente e virou-se para mim. — Onde estão suas malas? Os criados...

— Acha que estaríamos vestidos assim se tivéssemos outra coisa para usar? Tive que deixar tudo para trás. Mal tinha dinheiro para chegar a Boston. — Em minha imaginação, via o baú que deixara para trás na casa de minha mãe, acomodado discretamente num canto. Quando eles o inspecionassem, esperando até que a curiosidade os consumisse antes de violar minha privacidade, ainda que soubessem que eu não voltaria mais, encontrariam a bolsa de couro de veado cheia de moedas de ouro e prata. Estava feliz por ter deixado a bolsa de dinheiro para trás; achava que devia isso à minha família; considerava aquela a dívida de sangue de Adair, pagando a minha família por terem me perdido para sempre, da mesma forma que ele aliviou sua culpa deixando dinheiro para a família dele séculos antes.

— Quão consistente de sua parte! A primeira vez, você veio até nós sem nada. Agora traz seu amigo, ambos sem nada. — Dona jogou as mãos para o ar como se eu fosse incorrigível, mas eu sabia por que estava agindo de forma tão irritada: mesmo no atual estado de Jonathan, sua beleza excepcional era óbvia. Ele se tornaria o predileto de Adair, o amigo e companheiro com quem Dona nunca poderia competir. Dona seria renegado por Adair; não havia nada a ser feito e isso ficara claro para Dona desde o momento em que colocara os olhos em Jonathan.

Jonathan voltou à vida na carruagem, a caminho da mansão de Adair. Esta era sua primeira viagem a uma cidade tão grande como Boston e, pelos seus olhos, revivi minha chegada três anos antes: a multidão nas ruas empoeiradas; a quantidade de lojas e tabernas, as casas maravilhosas feitas de tijolo, com muitos andares de altura; o número de carruagens nas ruas, puxadas por cavalos bem-cuidados; as mulheres com vestidos da moda, decotes reveladores e longos pescoços brancos. Por um instante, Jonathan teve que se afastar da janela e fechar os olhos.




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