No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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— Se está dizendo... — A expressão dele me implorava para eu continuar.

— As mulheres se oferecem a ele. Todo tipo de mulher. Mulheres da sociedade, mulheres comuns e, quando ele se cansa dessas companhias, há sempre as “coelhas”.

— Coelhas?

— Prostitutas. Boston tem prostitutas de todos os tipos. Bordéus elegantes. Prostitutas de rua. Atrizes e cantoras que ficariam felizes de ser sua amante, em troca de belas acomodações e gastança de dinheiro.

— Você está dizendo que eu tenho que ir até uma atriz ou cantora para encontrar uma mulher que queira me fazer companhia? — ele perguntou, então olhou de lado. — Todos os homens em Boston pagam pela companhia de uma mulher?

— Se ele quer sua atenção exclusiva. Essas mulheres tendem a ser mais versadas nas artes do amor do que outras — eu disse, esperando aguçar a curiosidade dele. Era hora de compartilhar um dos segredos de Adair. — Um presente de meu patrão — eu disse, enquanto tirava um pequeno pacote embrulhado em seda vermelha: o jogo de cartas obsceno. — De um cavalheiro para outro.

— Divertido! — ele disse enquanto olhava intensamente para cada carta. — Tinha visto um conjunto como esse quando fui a Fredericton, apesar de não ser tão... criativo. — Quando ele foi pegar a seda vermelha para embrulhar de volta as cartas, um segundo presente caiu, um que eu havia esquecido que trouxera. Jonathan reteve a respiração.

— Meu Deus, Lanny, quem é essa? — Ele segurava a pintura em miniatura de Uzra nas mãos, um brilho de encantamento nos olhos. — Ela é um fantasma, a criação da mente de um artista?

Não me importei com seu tom de voz, nenhum cavalheiro falaria dessa forma em frente da mulher com a qual alegasse se importar, mas o que eu podia fazer? A foto tinha a intenção de tentá-lo e, claramente, o truque funcionara.

— Ah, não, posso lhe garantir que ela existe em carne e osso! Ela é a concubina de meu patrão, uma odalisca que trouxe com ele da rota da seda.

— Seu patrão tem um arranjo doméstico curioso, me parece. Uma concubina, mantida abertamente, em Boston? Não achei que permitiriam isso lá. — Jonathan olhava da foto para mim, cenho franzido.

— Não entendo... por que seu patrão mandaria presentes para mim? Qual o interesse dele? O que você disse a ele a meu respeito?

— Ele está procurando uma companhia que combine com ele e sente que você pode ser sua alma gêmea. — Ele estava desconfiado, talvez temendo que qualquer interesse vindo de um homem que ele não conhecia estaria ligado à sua fortuna. — Para falar a verdade, acho que ele está meio decepcionado com as companhias de Boston. Eles são bem circunspectos. Até agora ele não encontrou um bostoniano com o espírito parecido com o dele, com a vontade de ceder ao desejo de qualquer coisa que chame a sua atenção...

Mas Jonathan não parecia estar prestando atenção ao que eu dizia. Ele me estudava tão de perto que eu temi, sem querer, ter dito algo ofensivo.

— O que é? — perguntei.

— É que você está... tão mudada — ele disse, finalmente.

— Não tenho o que argumentar sobre isso. Eu mudei completamente. A per­gunta é: você está decepcionado com a mudança?

Ele piscou, uma sombra de dor em seus olhos negros.

— Devo dizer que sim, talvez um pouco. Não sei como dizer isso sem ferir seus sentimentos, mas não é mais a mesma garota de quando foi embora. Está tão falante; você é amante desse homem, não é? — ele perguntou com hesitação.

— Não exatamente. — Um termo de anos anteriores me veio à cabeça: — Sou sua esposa espiritual.

— Esposa espiritual?

— Todas somos: a odalisca, eu, Tilde... — Achei melhor não incluir Alejandro e Dona, não tinha noção de como Jonathan reagiria a esse tipo de arranjo.

— Ele tem três esposas sob o mesmo teto?

— Isso sem falar das outras mulheres com quem se diverte...

— E você não se importa?

— Ele pode compartilhar as afeições dele como quiser, assim como nós. O que temos é algo que nunca ouviu dizer antes, mas... sim, esse arranjo funciona para mim.

— Meu Deus, Lanny, mal posso acreditar que você é a mesma menina que eu beijei na igreja anos atrás. — Ele lançou um olhar tímido em minha direção, como se não tivesse certeza de como se comportar. — Suponho, dada toda essa conversa sobre compartilhar suas afeições livremente, que não seria indecoroso se eu lhe pedisse... outro beijo? Só para ter certeza de que você é a Lanny que conheci um dia, que está aqui comigo de novo?

Esta era a abertura pela qual eu esperava. Ele se levantou da cadeira e inclinou-se sobre mim, pegando meu rosto em suas mãos, mas seu beijo foi hesitante. Essa hesitação quase me partiu o coração.

— Deve saber que eu achava que nunca mais o veria novamente, Jonathan, muito menos que sentiria seus lábios nos meus. Pensei que fosse morrer de tanto que senti sua falta!

Enquanto meus olhos mapeavam seu rosto, percebi que a esperança de ver Jonathan novamente foi a única coisa que me manteve sã. Agora que estávamos juntos, eu não seria enganada. Eu me levantei e pressionei-me contra ele. Depois de hesitar mais uma vez, ele me envolveu em seus braços. Estava agradecida por ele ainda me desejar, mas tudo nele havia mudado desde a última vez que estivemos juntos, até mesmo o cheiro do cabelo e da pele. A reserva das suas mãos quando agarrou minha cintura. O gosto dele quando nos beijamos. Tudo mudara. Ele estava mais vagaroso, mais carinhoso, mais triste. Seu ato de fazer amor, apesar de dócil, perdera a ferocidade. Talvez porque estávamos na casa da família dele, sua esposa e sua mãe bem atrás da porta trancada. Ou ele estaria consumido de arrependimento por trair a pobre Evangeline?

Deitamos juntos no banco depois de Jonathan terminar, a cabeça dele entre meus seios emoldurados por um corpete de seda fina, ornamentado e arrematado com renda. Ele ainda estava no meio de minhas pernas, deitado sobre um amontoado de saias e o espartilho levantado até a minha cintura. Eu passava os dedos pelos seus cabelos enquanto meu coração batia forte de felicidade. E, sim, senti a servidão secreta de tê-lo feito entregar-se totalmente ao seu prazer. E, quanto à esposa esperando obedientemente do outro lado da porta, bem, ela não tinha roubado Jonathan de mim, para começar? E um contrato de casamento não significava muito se ele ainda me desejava, se o coração dele ainda me pertencia. Meu corpo tremia com a prova do desejo dele. Apesar de tudo o que acontecera a nós durante os anos em que ficamos separados, mais do que nunca estava convencida de que nosso elo era inquebrável.

36

PROVÍNCIA DE QUEBEC, HOJE



Luke para num restaurante, perto da saída da estrada. Precisava descansar um pouco. Assim que se acomodam no balcão, ele empresta o laptop de Lanny para se atualizar com as notícias e olhar seu e-mail. Além das costumeiras filas de e-mails dos administradores do hospital (“Funcionários, devem se lembrar de não parar no estacionamento leste, uma vez que este espaço será usado para a remoção da neve...”), ninguém lhe mandara nenhuma mensagem. Ninguém parecia ter notado sua ausência. Distraído, Luke faz o cursor deslizar para lá e para cá na área de trabalho, mas não há nada para verificar. Está prestes a desligar o computador quando ouve um alerta. Alguém acabara de lhe enviar um e-mail.

Ele espera que seja um spam, outro convite comemorativo e impessoal de seu banco, ou alguma porcaria do gênero, mas era de Peter. Luke sente uma pontada de desconforto por ter tirado vantagem da bondade de seu amigo. Peter é mais um conhecido do que um amigo, mas uma vez que há poucos anestesistas na cidade e Luke é um médico da emergência, eles se viam mais do que outros médicos. A última série de infortúnios na vida de Luke o tinha deixado menos amigável do que o normal, mas Peter era um dos poucos médicos que ainda falava com ele. “Onde você está?”, estava escrito no e-mail. “Não achei que planejasse ficar com o carro por tanto tempo. Tentei ligar, mas você não atende seu celular. Está tudo bem? Sofreu algum acidente? Está machucado? Estou preocupado com você. ME LIGUE.” Então Peter listou todos os seus números de telefone e o número do celular da esposa dele.

Luke fecha o e-mail de Peter, sua mandíbula travada. “Ele está com medo que eu tenha enlouquecido”, Luke percebe. Ele tem consciência de que seu comportamento é estranho, para dizer o mínimo, e as pessoas na cidade prendem a respiração quando estão perto dele, com medo de falar sobre Tricia e o divórcio, ou sobre a morte de seus pais. Elas não acham que ele seja capaz de administrar toda a abundância de infelicidade de sua vida. Só agora Luke se dá conta de que sair da cidade com essa mulher serviu para distraí-lo da própria infelicidade. Há meses que ele se sente miserável. Esta é a primeira vez que consegue pensar em suas filhas sem ter vontade de chorar.

Luke inspira fundo e expira devagar e longamente. “Não tire conclusões apressadas”, diz a si mesmo. Peter está sendo legal, paciente. Não ameaçou ligar para a polícia. Peter é a pessoa mais bem-ajustada na vida de Luke nesse momento, mas Luke sabe que essa amizade ainda existe porque Peter é novo em St. Andrew. O jovem doutor ainda não foi afetado pela estranheza inerente à cidade, pelo distanciamento frio, pelo vício puritano de fazer julgamentos.

Por um momento, Luke está tentado a ligar para Peter. Peter é a corda que o mantém preso ao mundo real, o mundo que existia antes de ele ajudar Lanny a fugir da polícia, antes de ouvir a fantástica história dela, antes de dormir com a paciente. Peter talvez conseguisse fazer Luke desistir dessa insensatez. Ele respira fundo mais uma vez. A questão é: ele quer que alguém o faça desistir?

Ele abre de novo o e-mail de Peter e aperta “Responder”.

— Sinto muito pelo seu carro — ele digita. — Logo vou deixá-lo em algum lugar e a polícia o encontrará e o devolverá a você. — Ele pensa no que escreveu e percebe que o que está realmente dizendo é que ele foi embora e não vai mais voltar. Sente um enorme alívio. Antes de apertar o botão “Enviar”, ele adiciona à mensagem: — Fique com minha caminhonete; é sua.

Luke para no banheiro antes de entrar na SUV e vê que Lanny já está no banco da frente, olhando fixamente para a frente, com um sorriso triste no rosto.

— Algo errado? — Luke pergunta, enquanto gira a chave na ignição.

— Não é nada... — Ela abaixa o olhar. — Quando fui pagar a conta, quando você estava no banheiro, vi que eles tinham bebida à venda atrás do balcão, então pedi uma garrafa de Glenfiddich, mas ela não quis vender para mim. Disse que eu tinha que esperar meu pai sair do banheiro se ele quisesse comprar uma garrafa.

Luke tenta alcançar a maçaneta da porta.

Eu posso ir, se você quiser...

— Não, não é pelo uísque; é só que... isso acontece o tempo todo. Estou cansada dessa situação, é só. Sempre sendo confundida com uma adolescente, tratada como uma criança. Posso parecer uma criança, mas não penso como uma criança e, às vezes, não quero ser tratada como se fosse uma. Sei que ter uma aparência jovem também me ajuda, mas, Deus... — Ela segura a cabeça, chacoalhando-a, então joga os ombros para trás. — Vamos fazer um show para impressioná-la?

Antes que Luke pudesse responder, Lanny agarra a jaqueta dele pelo colarinho e puxa-o até ela. Ela trava a boca sobre a dele, dando-lhe um beijo longo, se esfregando nele. O beijo continua, até ele ficar tonto. Sobre os ombros de Lanny, ele consegue ver a mulher petrificada atrás do balcão do caixa, sua boca aberta num círculo horrorizado e os olhos espantados.

Lanny o solta, rindo, e dá um tapa no painel.

— Vamos lá, papai, vamos achar um motel para eu trepar com você até cansar.

Luke não ri junto com ela. Sem pensar, ele limpa a boca.

— Não faça isso. Não gosto de ser confundido com seu pai. Faz com que me sinta... — “Uma pessoa horrível, e eu não sou”, ele pensa, mas não diz.

Ela fica quieta, enrubesce de vergonha e olha para as mãos, desamparada.

— Você está certo. Me desculpe, não quis deixá-lo constrangido — ela diz. — Não acontecerá de novo.

37

ST. ANDREW, 1819



Aquele nosso delicioso encontro não foi o último. Planejávamos nos encontrar o máximo que podíamos, apesar de, às vezes, as circunstâncias serem inconvenientes, para dizer o mínimo: um celeiro de feno no final do pasto, cheirando a alfafa seca (nesse caso tínhamos que tomar cuidado para tirar qualquer semente e caule de nossas roupas), ou na estrebaria da casa dos St. Andrew, onde nos atracávamos na sala das selas e nos esfregávamos um no outro em meio a arreios e estribos pendurados.

Durante essas ocasiões com Jonathan, até mesmo quando inalava seu hálito e gotas de seu suor caíam sobre meu rosto, ficava surpresa por sentir Adair permeando meus pensamentos. Surpresa por me sentir culpada, como se o estivesse traindo, pois, à nossa maneira, éramos amantes. Também me percorria uma corrente de medo, da punição que Adair me daria, não por copular, mas por amar outro homem. Por que deveria me sentir culpada e amedrontada se estava fazendo o que ele queria? Talvez porque, em meu coração, eu soubesse que amava Jonathan, apenas Jonathan. Ele venceria todas as vezes.

— Lanny — Jonathan sussurrou, beijando minhas mãos enquanto deitava-se sobre o feno se recuperando do nosso encontro amoroso. — Você merece mais do que isso.

— Eu me encontraria com você na floresta, numa caverna, no campo — respondi —, se essa fosse a única maneira de vê-lo. Não interessa onde estamos; tudo o que interessa é que estamos juntos.

Lindas palavras, palavras de amantes. Mas, enquanto deitávamos juntos sobre o feno e eu passava os dedos em seu rosto, minha cabeça não fazia outra coisa a não ser vagar. E vagou para lugares perigosos, mexendo em feridas que não deveriam ser tocadas, como as circunstâncias envolvendo minha partida abrupta anos antes e o silêncio de Jonathan sobre o assunto. Desde que voltara para a cidade, ele não havia me perguntado nenhuma vez sobre a criança. Ele queria me perguntar; eu sentia toda vez que havia um momento de silêncio incômodo entre nós, quando o pegava olhando de lado para mim. “Quando foi embora de St. Andrew...”, mas as palavras permaneciam em sua boca. Ele deve ter presumido que eu abortara o bebê, como disse que faria aquele dia na igreja. Mas queria que ele soubesse a verdade.

— Jonathan — eu disse suavemente, pegando e deixando escorregar os cachos negros de seus cabelos por entre meus dedos —, já se perguntou por que meu pai me mandou embora da cidade?

Senti que ele segurava a respiração, uma hesitação em seu silêncio. Pouco depois, ele respondeu:

— Não, só soube que havia ido embora quando já era tarde... Foi errado de minha parte não procurar você mais cedo, para saber se não estava com problemas ou se algo terrível tinha acontecido com você... — Ele começou a brincar com a renda de meu espartilho, distraído.

— Que desculpa minha família deu por eu ter sido mandada embora? — perguntei.

— Disseram que você tinha ido cuidar de um parente doente. Eles se fecharam muito depois que você se foi e só ficaram entre eles. Perguntei a uma de suas irmãs se havia notícias suas e se podiam me dar um endereço para onde pudesse lhe escrever, mas ela saiu correndo sem me responder. — Ele levantou a cabeça de meu peito. — Não foi esse o caso? Você não estava cuidando de alguém?

Eu poderia ter rido da ingenuidade dele.

— A única pessoa que precisava de cuidados era eu mesma. Eles me mandaram embora para que eu pudesse ter o bebê. Não queriam que ninguém daqui soubesse.

— Lanny! — Ele pressionou a mão sobre meu rosto, mas eu a tirei. — E você...

— Não há nenhum filho; sofri um aborto. — Agora eu conseguia dizer essas palavras sem emoção, sem tremor na voz ou nó na garganta.

— Sinto muito por tudo o que passou, e sozinha... — Ele sentou-se, incapaz de tirar os olhos de mim. — Foi por isso que você acabou conhecendo esse homem? Esse Adair?

Tenho certeza de que minha expressão ficou muito sombria.

— Não quero falar sobre isso.

— Por quantas provações você teve que passar, Lanny? Devia ter escrito, me informado sobre sua situação. Teria feito alguma coisa por você, qualquer coisa que pudesse... — Ele veio me dar um abraço e meu corpo queria isso; então, ele pareceu pensar melhor e recuou. — Fiquei louco? O que... o que estamos fazendo? Já não a prejudiquei o suficiente? Que direito eu tenho de começar tudo de novo, como se fosse algum tipo de jogo? — Jonathan segurou a cabeça entre as mãos. — Precisa me perdoar pelo meu egoísmo e pela minha estupidez...

— Você não me forçou a nada — eu disse, tentando acalmá-lo. — Eu quis isso também. — Se pudesse retirar minhas palavras; foi um erro mencionar o filho, morto e perdido para sempre. Amaldiçoei-me por ter me rendido à minha natureza trivial. Queria que Jonathan soubesse que eu sofri e que reconhecesse a parte dele no mal que recaíra sobre mim, mas o tiro saíra pela culatra.

— Não podemos continuar assim. Esta é a última complicação de que eu preciso na vida. — Jonathan saiu de perto de mim e ficou em pé. Quando viu minha expressão de choque e mágoa, continuou: — Perdoe minha franqueza, querida Lanny! Mas sabe muito bem que eu tenho uma família, uma esposa, uma filha, obrigações das quais não posso fugir. Não posso colocar em risco a felicidade deles por alguns momentos de prazer com você... E não há futuro para nós, não pode haver. Seria doloroso e injusto com você nós continuarmos...

“Ele não me ama o suficiente para ficar comigo.” A verdade cortou meu coração como uma lâmina. Engasguei procurando ar. A raiva inflamou-se dentro de mim diante de suas palavras. Ele percebera isso só agora, depois de termos recomeçado nosso caso de amor ilícito? Ou eu estava magoada por ele estar me renegando pela segunda vez, por causa de Evangeline? Enquanto me sentava, totalmente pasma, devo admitir que o primeiro pensamento que me vinha à mente era me vingar. Consigo entender agora como as mulheres rejeitadas fazem pactos com o demônio; naquele momento, a necessidade de vingança é forte, mas a capacidade de extraí-la é insuficiente. Se Lúcifer tivesse aparecido diante de mim naquele segundo, prometendo-me as ferramentas para fazer Jonathan sofrer as intermináveis tormentas do inferno em troca de minha alma, eu teria aceitado de bom grado.

Ou talvez não houvesse necessidade de encontrar o demônio, de fazer o maldito contrato, de assinar meu nome com sangue. Talvez eu já tivesse feito isso.

Estava confusa sobre como prosseguir com o plano de Adair, e a perspectiva de que eu pudesse falhar me deixava doente de medo. Pensei que fisgaria Jonathan para Boston com meu amor e meus favores sexuais, mas não funcionara. O remorso fez meu amante renunciar a mim solenemente, apesar de ter prometido ser meu amigo e benfeitor para sempre, se necessário. Esperei para ver se Jonathan mudava de ideia e voltava para mim, porém, com o passar dos dias, ficou claro que ele não voltaria. “Uma visita”, implorei a ele. “Venha para Boston para uma visita”, mas Jonathan resistia. Um dia a desculpa dele era que não podia confiar em sua mãe para cuidar dos negócios do vilarejo durante sua ausência e, no outro, era que tinha surgido um problema que precisava de sua atenção. No final, era sempre a esposa que o impedia de concordar em ir.

— Evangeline nunca me perdoaria se eu a deixasse sozinha com minha família por muito tempo, e ela nunca faria a viagem com o bebê — ele me disse, como se estivesse à mercê de sua esposa e filha, como se nunca tivesse colocado seus próprios desejos na frente dos delas, marido e pai responsável que era. Aquelas desculpas seriam críveis se viessem de outro homem, mas não do Jonathan que eu conhecia.

Todavia, a aproximação da época de neve pressionava minha partida. Achava que, se ficasse em St. Andrew durante o inverno, alguma coisa terrível aconteceria. Adair, enfurecido por desafiá-lo, poderia vir até a cidade com seus cães do inferno e quem saberia o que aquele demônio de coração sombrio seria capaz de fazer com os inocentes de St. Andrew, isolados do restante do mundo? Pensei nas histórias que Alejandro e Dona me contaram sobre o passado bárbaro de Adair, liderando saques em vilarejos e matando os moradores que resistiam. Lembrei-me das criadas que ele estuprara e a maneira como havia me drogado e me usado para diversão. O trânsito na sociedade bostoniana garantia que as tendências brutais de Adair ficassem sob controle; não havia como dizer o que aconteceria numa cidade isolada no meio da neve. E eu seria a responsável por trazer a praga a meus vizinhos.

Uma noite, no Daughtery’s, estava analisando minha situação difícil, esperando encontrar com o dócil lenhador que conhecera no início de minha visita, quando Jonathan entrou. Já vira aquela expressão no rosto dele antes: tinha vindo até o Daughtery’s querendo companhia. Seu rosto estava vermelho de satisfação; acabara de vir de um encontro amoroso.

Ele parou quando me viu e não podia ir embora sem tomar conhecimento de minha presença. Sentou-se no banquinho do outro lado da mesa, com as costas para o fogo.

— Lanny, o que está fazendo aqui? Não é um lugar para uma senhorita fre­quentar sozinha.

— Ah, mas eu não sou uma senhorita, sou? — eu disse sarcasticamente e me arrependi imediatamente. — Aonde mais poderia ir? Mal consigo beber na companhia de minha mãe e meu irmão; não suporto o ar de reprovação deles. Você, pelo menos, sempre pode voltar para sua casa e tomar uma bebida antes de dormir. A bebida seria de melhor qualidade, com certeza. E, de qualquer maneira, a esta hora você não deveria estar em casa com sua esposa? Você aprontou alguma coisa essa noite, consigo sentir o cheiro em você.

— Considerando sua posição, não achei que seria tão rápida em me julgar — ele disse. — Tudo bem, vou lhe dizer a verdade, já que quer saber. Estive com outra mulher; alguém com quem eu já estava me encontrando antes de seu retorno inesperado. Eu também tenho uma amante. Anna Kolsted.

— Anna Kolsted é uma mulher casada.

Ele deu de ombros. Eu tremi de raiva.

— Então você não terminou seu caso com ela, mesmo depois daquele belo discurso que fez para mim outro dia?

— Eu... eu não poderia deixá-la tão rápido, sem uma explicação sobre o que aconteceu.

— E vai explicar que teve um epifania moral? Que resolveu não vê-la mais? — ordenei, como se tivesse o direito de fazê-lo.

Ele permaneceu em silêncio.

— Você nunca aprende, Jonathan? Isso não vai acabar bem — eu disse friamente.

Jonathan franziu os lábios com desdém, o ressentimento antigo e fervente borbulhando entre nós.

— Isso parece ser o que você sempre me diz, não é? — O nome de Sophia pairava no ar entre nós, não dito.

— Vai terminar como sempre. Ela se apaixonará por você e vai lhe querer só para ela. — Medo e pena tomaram conta de mim, como quando encontrei Sophia no rio. Nunca imaginei, depois de tudo pelo que havia passado, que a visão dela ainda me afetasse; talvez ainda o fizesse porque, de vez em quando, imaginava se não teria sido melhor para mim seguir o exemplo dela. — É inevitável, Jonathan. Todos que o conhecem querem possuí-lo.

— Você fala por experiência própria?

A agudeza dele me silenciou por um segundo, mas eu não podia deixar passar. Respondi sarcasticamente:

— Aqueles que têm você tendem a destruir a boa fortuna deles. Talvez devesse perguntar à sua esposa sobre isso. Já pensou em como seu caso com a sra. Kolsted afetará Evangeline, caso ela descubra?

A raiva tomou conta de Jonathan rapidamente, como uma tempestade. Ele olhou por sobre os ombros para ter certeza de que Daughtery estava ocupado e que ninguém o ouvia, então agarrou meu braço e me puxou para perto.

— Pelo amor de Deus, Lanny, tenha piedade de mim! Sou casado com uma criança. Quando eu a levei para nosso leito conjugal, ela chorou depois. Chorou. Ela tem medo de minha mãe e fica impassível ao redor de minhas irmãs. Não preciso de uma criança, Lanny, preciso de uma mulher!

Puxei meu braço.

— Acha que não sei disso?




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