No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Como meu irmão, Daughtery deve ter adivinhado, eles todos devem ter adivinhado, o que tinha acontecido para eu me tornar uma mulher tão rica. Daughtery foi o primeiro a me acusar abertamente, querendo se exibir para os clientes. Ainda assim, o que podia responder nessas circunstâncias? Lancei-lhe um sorriso indecifrável sobre a borda da caneca.

— Fiz o que incontáveis outros fizeram para melhorar a vida: associei-me a pessoas de posse, Sr. Daughtery.

Um dos lenhadores foi embora assim que cheguei, mas outro veio me chamar para dividir a mesa com ele. Ele ouviu Daughtery falar de Boston e estava ansioso para conversar com alguém que estivera lá recentemente. Era jovem, talvez 20 anos, de temperamento meigo e aparência limpa, diferente da maioria dos trabalhadores contratados de St. Andrew. Viera ao Maine para trabalhar. Ganhava bem, mas o isolamento o estava matando; sentia falta da cidade, ele disse, e das opções de diversão. Seus olhos se encheram de lágrimas quando eu descrevi o jardim público num sábado ensolarado e a superfície negra e brilhante do rio Charles sob a lua cheia.

— Gostaria de ir embora daqui antes da neve — ele comentou, olhando para dentro de sua caneca. — Mas ouvi dizer que o St. Andrew precisa de trabalhadores durante o inverno e pagará bem. Quem já ficou no turno do inverno diz que é terrivelmente solitário.

— Acho que é uma questão de perspectiva.

Daughtery bateu uma caneca em cima do balcão, nos assustando.

— Terminem. Hora de ir para as respectivas camas.

Ficamos do lado de fora da porta trancada do Daughtery’s, encostados um no outro para nos proteger do vento. O estranho encostou sua boca perto da minha orelha, de modo que o calor de suas palavras fez a penugem de minha face se arrepiar, como flores se voltando na direção do sol. Ele me contou que fazia muito tempo que não tinha uma companhia feminina. Confessou ter pouco dinheiro, mas perguntou se eu gostaria mesmo assim.

— Espero não estar sendo presunçoso sobre sua profissão — disse ele, com um sorriso nervoso. — Mas quando entrou sozinha no Daughtery’s... — Eu não tinha o que dizer: ele estava certo.

Entramos furtivamente no celeiro do Daughtery’s, e os animais, de tão acostumados aos visitantes noturnos do bar, nem fizeram alarde. O jovem lenhador ajeitou a roupa, desabotoando a parte de baixo das calças e colocando seu membro em minha mão. O jovem se derreteu diante das minhas manobras, instantaneamente perdido em sua própria nuvem de extremo prazer. Deve ter sido a volta a St. Andrew e o fato de ter visto Jonathan novamente o que deixou meu sangue fervendo de paixão. A mão do lenhador estava sobre minha pele, mas era em Jonathan que eu pensava. Estava sendo incauta, me permitindo pensar em Jonathan, mas, naquela noite, a combinação de pele e memória me deu uma amostra do que poderia acontecer e me deixou ávida por mais. Assim, puxei o jovem para mais perto de mim e coloquei um pé em cima de uma pilha de feno, para que ele pudesse chegar mais fácil às minhas roupas de baixo.

O jovem se enfiou em mim, subindo e descendo, a pele firme e suave, as mãos carinhosas, e tentei fingir que ele era Jonathan, mas não conseguia me concentrar na ilusão. Talvez Adair estivesse certo, talvez houvesse alguma vantagem em transformar Jonathan em um de nós. Um desejo terrível me dizia que eu tinha que tentar ou ficaria insatisfeita pelo resto da vida, ou seja, eternamente.

O lenhador deu um profundo suspiro enquanto gozava, então tirou um lenço e o ofereceu a mim.

— Perdão por minha sinceridade, senhorita — ele murmurou morno, em meu ouvido —, mas esse foi o melhor sexo que já tive na vida. Você dever ser a puta mais talentosa de Boston!

— Cortesã — eu o corrigi gentilmente.

— E eu não vou fingir que posso compensá-la da maneira como deve estar acostumada... — ele disse, enfiando as mãos até o fundo dos bolsos para pegar o dinheiro, mas coloquei a mão em seu braço para impedi-lo.

— Deixe para lá. Fique com o dinheiro. Apenas prometa que não dirá uma só palavra para ninguém — pedi.

— Ah não, madame, não vou... mas vou me lembrar disso pelo resto de minha vida!

— Eu também — eu disse, apesar de este garoto de rosto doce ser apenas mais um numa sucessão de muitos outros ou, talvez, o último, para ser substituído por Jonathan e somente Jonathan, se eu tivesse sorte. Fiquei observando o jovem lenhador sair, trôpego, noite adentro, indo na direção da estrada que levava à propriedade de St. Andrew, antes de fechar bem meu casaco e começar a jornada na direção contrária. A quentura do jovem escorria por dentro de minhas coxas e senti um tremor conhecido em meu peito, a satisfação que sentia toda vez que deixava um homem em estado de servidão sexual. Não via a hora de ter essa experiência com Jonathan e de surpreendê-lo com minhas habilidades recém-adquiridas.

O caminho que peguei me levou até o estabelecimento do ferreiro e, por força do hábito, olhei pela estradinha na direção da casa de Magda. Dava para ver um brilho atrás do xale com o qual ela tapava a janela, então sabia que ela estava acordada. Engraçado pensar que um dia invejei ter uma casa como a dela; e acho que ainda invejo porque senti certo aperto no coração ao avistá-la, lembrando-me dos tesouros caseiros que tanto me impressionaram quando menina. A mansão de Adair poderia até ser toda ornamentada e cheia de coisas luxuosas, mas uma vez que se atravessava a porta, sua liberdade deixava de existir. Magda era dona de sua própria casa e isso ninguém poderia tirar dela.

Quando parei no caminho que levava até a casa dela, a porta da frente se abriu e, de dentro da casa, saiu um lenhador (ainda bem, pois ficaria mortificada caso fosse um dos meus vizinhos saindo da alcova de Magda). A velha garota veio atrás dele e, por um momento, foram pegos pela luz saindo pela porta. Os dois riam, Magda enrolava uma capa sobre os ombros enquanto apressava seu cliente escada abaixo, com um aceno de despedida. Eu recuei, para poupar ao lenhador da vergonha de ser observado, mas não antes de Magda perceber.

— Quem está aí? — ela gritou. — Não quero ter problemas agora.

Saí da escuridão.

— Nenhum virá de minha parte, mestra Magda.

— Lanore? É você? — Ela esticou o pescoço. Passei correndo pelo lenhador, que descia, e subi os degraus para receber um abraço de Magda. Os braços dela pareciam mais frágeis do que nunca.

— Meu Deus do céu, garota, me disseram que tínhamos perdido você! — ela disse enquanto me puxava para dentro. A sala estava abafada por causa do calor vindo da pequena lareira e da união de dois corpos (o cheiro almiscarado ainda pairava no ar; esses lenhadores não eram muito afeitos a banho e podiam ficar muito malcheirosos), então tirei minha capa. Magda me girou pelos ombros para poder olhar melhor meu vestido elegante.

— Bem, senhorita McIlvrae, pelo que vejo, diria que se saiu muito bem.

— Não posso dizer que tenho orgulho do meu trabalho — eu disse.

Magda olhou para mim em reprovação.

— Quer que eu imagine que você encontrou a sorte do mesmo modo que as jovenzinhas...? — Quando não respondi, ela chacoalhou sua capa com força. — Bem, você sabe qual é minha posição sobre esse assunto. Não chega a ser um crime seguir pelo único caminho que se tem aberto e fazer disso um sucesso. Se Deus não quisesse que ganhássemos a vida sendo prostitutas, ele nos daria outro jeito de nos sustentarmos. Mas ele não deu...

— Não sou exatamente uma prostituta. — Por que senti necessidade de esclarecer minha situação a ela? — Tem um homem que me sustenta...

— Vocês são casados?

Balancei a cabeça.

— Então você é amante dele. — Ela colocou gim dentro de dois pequenos copos, manchados pela idade, e eu contei a ela sobre minha vida em Boston e sobre Adair. Era um alívio poder contar sobre ele para alguém; uma visão adulterada, obviamente, omitindo as partes dele que, se pudesse, mudaria: seus violentos ataques de fúria, os altos e baixos constantes, a companhia masculina na cama de vez em quando. Disse a ela que ele era lindo, rico e apaixonado por mim, e ela balançava a cabeça diante das minhas boas notícias. — Que bom para você, Lanore! Guarde um pouco do dinheiro que ele gasta com você.

À luz da vela, era possível ver o rosto de Magda mais claramente. A passagem dos anos durante minha ausência tinham deixado marcas nela: a pele delicada formava bolsas ao redor da boca e do pescoço, e seu cabelo negro estava quase todo branco. Seus espartilhos, um dia belos, agora estavam acinzentados e surrados. Fosse ela a única prostituta da cidade ou não, não poderia continuar naquele ramo por muito mais tempo. Os lenhadores mais jovens não viriam mais visitá-la e, os mais velhos, que ainda pagariam por seus serviços, eram afeitos a não lhe tratarem bem. Logo ela seria uma velha sem amigos numa cidade onde a vida era dura.

Eu usava um discreto broche de pérola, um presente de Adair. Minha família não entendia nada sobre joias e, assim, eu o usava abertamente na frente deles, mas Magda com certeza sabia que aquilo valia uma pequena fortuna. A princípio, pensei em dá-lo à minha família, eles tinham mais direito a ele do que uma mulher que era apenas minha amiga, mas resolvi deixar o dinheiro para eles, e não era pouco. Assim, tirei o broche da roupa e o ofereci a ela.

Magda meneou a cabeça.

— Ah, não, Lanore, você não precisava fazer isso. Não preciso de sua caridade.

— Quero que fique com isso...

Ela colocou de lado minha mão esticada.

— Sei o que está pensando. Tenho planos de me aposentar logo. Guardei um bom dinheiro durante esse meu tempo aqui; Charles St. Andrew deveria ter mandado o pagamento de alguns de seus homens diretamente para mim, pelo tempo que eles passaram nessa casa, e poupá-los do trabalho de ter que carregar o dinheiro no bolso por um ou dois dias — ela riu. — Não, prefiro vê-la guardar isso para você. Pode não acreditar em mim agora, já que é jovem e linda, e tem um homem que dá valor à sua companhia, mas, um dia, todas essas coisas acabarão e aí poderá precisar do dinheiro que esse broche lhe trará.

Claro que não podia contar a ela que esse dia nunca chegaria para mim. Forcei um sorriso amarelo enquanto colocava o broche de volta no lugar.

— Não, estou planejando me mudar na primavera. Algum lugar perto da costa — ela continuou. Ela olhou ao redor da sala melancolicamente, como se planejasse ir embora amanhã. — Quem sabe eu não encontro um bom viúvo solitário e me acomodo de novo?

— Não tenho dúvida de que a sorte brilhará para você, Magda, em qualquer coisa que queira fazer, pois você tem um coração generoso — eu disse e me levantei. — Vou deixar você se retirar para a noite, e devo voltar para minha família. Foi bom lhe ver, Magda!

Nós nos abraçamos de novo e ela esfregou a mão carinhosamente em minhas costas.

— Cuide-se, Lanore! Tenha cuidado. E, o que quer que faça, não se apaixone pelo seu companheiro. Nós, mulheres, tomamos as piores decisões quando estamos apaixonadas.

Ela me acompanhou até a porta e se despediu com um aceno de mão. A verdade contida no conselho dela pesava em meu coração e fui em direção à floresta menos alegre do que antes.

No caminho para casa, fiquei ainda mais inquieta e, quando refleti sobre isso, percebi que era porque tinha mentido à Magda sobre Adair. Eu não havia apenas escondido o segredo dele, o nosso segredo. Essa parte era compreensível. No entanto, se existia alguém em St. Andrew capaz de perdoar Adair pelas suas peculiaridades, seria Magda e, mesmo assim, escolhi mentir para ela sobre ele e sobre meu relacionamento com ele. Acima de tudo, uma mulher quer sentir orgulho do homem de sua vida e, obviamente, eu não sentia orgulho dele. Como poderia sentir orgulho do que Adair havia trazido à tona de dentro de mim, sabendo, só de olhar, que eu compartilhava alguns dos seus apetites mais nefastos. Por mais que tivesse medo dele, também tinha que admitir que reagia a ele, que havia aceitado toda a aventura sexual que propusera. Ele trouxe à tona algo que eu não poderia negar, mas de que não sentia orgulho. Talvez eu não tivesse vergonha de Adair; talvez eu tivesse vergonha de mim mesma.

Esses pensamentos assustadores enchiam minha mente enquanto apertava mais a capa por causa do vento e me apressava pelo caminho até o chalé de meus pais. Não conseguia parar de me lembrar de todas as coisas terríveis que eu tinha feito ou como podia deleitar-me tanto diante de prazeres tão sinistros. Não foi à toa que me perguntei se não alcançaria mais a redenção.

35

Quando acordei no dia seguinte, ouvi minha mãe e Maeve cochichando na cozinha, para não me acordar. Para elas, eu devia parecer uma preguiçosa, desperdiçando o horário mais produtivo, dormindo até meio-dia, apesar de ser o mais cedo que já tivesse me levantado havia muito tempo.



— Ei, olha só quem acordou! — minha mãe disse, da lareira, quando me ouviu resmungando no andar de cima.

— Imagino que Nevin disse algumas palavras sobre meus hábitos de sono! — respondi, enquanto descia a escada.

— Fizemos o que conseguimos para dissuadi-lo a não lhe puxar pelos pés — Maeve disse, entregando-me minhas roupas, que ficaram sobre a cadeira perto da lareira para tirar a friagem.

— Claro! Bem, estava inquieta ontem à noite e fui andar pela cidade.

— Lanore! — Minha mãe quase deixou a faca cair. — Ficou louca? Poderia ter congelado até a morte! Sem falar que algo muito pior poderia ter acontecido — ela disse, trocando um olhar com minha irmã, ambas sabendo que eu já não tinha mais nenhuma virtude para preservar, o que tirou o tom de urgência da voz dela.

— Tinha me esquecido do quanto é frio à noite aqui, mais para o norte — menti.

— E aonde você foi?

— Não foi à igreja, posso apostar — Maeve disse, com uma gargalhada.

— Não, não fui à igreja. Fui ao Daughtery’s.

— Lanore...

— Um pouco de companhia num momento de solidão, era tudo o que eu queria. Não estou mais acostumada a esse silêncio e a acordar cedo. Minha vida em Boston é muito diferente. Vão ter que me aguentar. — Apertei as amarras de minha saia na altura da cintura antes de me dirigir até minha mãe e beijá-la na testa.

— Você não está em Boston agora, querida — minha mãe murmurou.

— Não fique preocupada — Maeve comentou. — Não que Nevin não seja visto no Daughtery’s de vez em quando. Se os homens podem fazer isso, não vejo por que você não pode, pelo menos algumas vezes — nesse momento, ela deu uma olhada para minha mãe, para ver se ela reagiria —, e teremos que nos acostumar com isso.

Quer dizer que Nevin ia ao Daughtery’s... Eu teria que ser cuidadosa. Se ele descobrisse meus galanteios noturnos, as coisas se complicariam para mim.

Naquele momento, fomos interrompidos por uma batida na porta. Um dos criados de St. Andrew estendeu um envelope cor de marfim, com meu nome nele. Dentro, havia um recado com a meticulosa escrita cursiva da mãe de Jonathan, convidando minha família para jantar aquela noite. O criado esperou na porta por nossa resposta.

— O que devo dizer a ele? — perguntei, apesar de ser muito fácil adivinhar a resposta. Maeve e minha mãe dançavam como a Cinderela quando soube que ia ao baile.

— E Nevin? Com certeza ele se recusará a ir — eu disse.

— Com certeza; e sem motivo — Maeve respondeu.

— Gostaria que seu irmão tivesse uma cabeça melhor para os negócios — minha mãe murmurou. — Ele poderia aproveitar essa oportunidade para falar com Jonathan sobre comprar mais regularmente de nós. Metade da cidade vive à custa daquela família. Quem mais compraria nosso bife? Eles, com todos aqueles homens para alimentar... — Ela provavelmente pensava nos St. Andrew como avarentos por alimentar seus empregados com carne de cervos caçados na propriedade. Voltei até a porta e me dirigi ao criado.

— Por favor, diga à senhora St. Andrew que estamos honradas em aceitar o con­vite e que seremos quatro para o jantar.

O jantar daquela noite foi surreal para mim; estar rodeada pelas duas famílias. Nunca acontecera durante todo o tempo em que Jonathan e eu fomos amigos quando crianças, e estaria feliz naquela noite se o jantar tivesse se limitado a nós dois, numa mesa em frente do fogo, no estúdio dele. Mas não seria apropriado, considerando que agora Jonathan tinha mulher e filha.

As irmãs dele já haviam se tornado solteironas com caras de coruja, observando minhas irmãs mais jovens e vigorosas como se fossem macacos soltos pela casa. Pobre Benjamin, lerdo, sentado ao lado da mãe, olhos fixos no prato, lábios cerrados, desejando permanecer quieto. Vez ou outra, a mãe pegava a mão dele e fazia um carinho, o que parecia ter um efeito calmante no pobre garoto.

E, à esquerda de Jonathan, estava Evangeline, parecendo uma criança a quem deram permissão para se sentar à mesa com os adultos. Seus dedos rosados tocavam cada peça dos talheres, como se não estivesse familiarizada com o uso do elegante faqueiro de prata. E, de vez em quando, seu olhar passava rapidamente pelo rosto do marido, como um cão se assegurando da presença do dono.

Vendo Jonathan desse jeito, cercado pela família que sempre dependeria dele, senti pena.

Após a refeição, uma bandeja de carne de veado e uma dúzia de codornas assadas, que resultaram em pratos morbidamente empilhados com costelas de veado e pequenos ossos de pássaros devorados, Jonathan olhou ao redor da mesa, onde havia praticamente apenas mulheres, e me convidou para ir com ele até o antigo estúdio de seu pai, de que agora ele tomara posse. Quando sua mãe abriu a boca para fazer objeção, ele disse:

— Não há nenhum homem aqui para me fazer companhia com o cachimbo, e gostaria de conversar a sós com Lanore, se me permitirem. Tenho certeza de que, de outra forma, ela ficaria muito entediada.

As sobrancelhas de Ruth se levantaram, apesar de as irmãs dele não se ofenderem. Talvez ele estivesse tentando poupá-las da estranheza de minha companhia; tenho certeza de que elas também achavam que eu era uma puta e Jonathan provavelmente me convidara contra a vontade delas.

Depois de fechar as portas, ele nos serviu uísque, preparou dois cachimbos com tabaco e nos acomodamos em cadeiras puxadas para perto do fogo. Primeiro ele quis saber como eu desapareci em Boston. Contei a ele uma versão mais detalhada da que dera à minha família, que eu era empregada de um rico europeu, contratada para trabalhar como sua interlocutora norte-americana. Jonathan ouvia com desconfiança, debatendo-se entre questionar ou somente apreciar a história.

— Deveria pensar em se mudar para Boston. A vida lá é muito mais fácil — eu disse, segurando a chama perto do cachimbo. — Você é um homem de posses; se vivesse na cidade grande, poderia tirar proveito dos prazeres da vida.

Ele chacoalhou a cabeça.

— Não podemos nos mudar; tem a colheita de madeira, é a fonte de renda. Quem administraria as operações de madeira?

— O senhor Sweet, como já o faz agora. Ou outro responsável. É assim que os homens ricos tomam conta das propriedades deles. Não há razão nenhuma para você e sua família sofrerem as mazelas dos terríveis invernos daqui.

Jonathan olhava fixamente para o fogo, tragando seu cachimbo.

— Poderia imaginar que minha mãe estivesse ansiosa para voltar para a família dela, mas nunca sairemos de St. Andrew. Ela não admitiria, mas acostumou-se à sua posição social. Em Boston, seria somente mais uma viúva bem de vida. Ela poderia até sofrer socialmente, por ter passado tanto tempo na floresta. Além disso, Lanny, já pensou no que aconteceria se nós deixássemos a cidade?

— Seus negócios continuariam aqui. Ainda teria que pagar os moradores para fazer o que paga para eles fazerem agora; a única diferença é que você e sua família teriam o tipo de vida que merecem. Haveria médicos para cuidar de Benjamin; você poderia participar das reuniões sociais aos domingos com seus vizinhos, ir a festas e jogar cartas toda noite, como os que pertencem à elite social da cidade.

Jonathan me lançou um olhar incrédulo, duvidoso o suficiente para me fazer pensar que o que ele havia dito sobre sua mãe poderia servir de desculpa. Talvez fosse ele quem tivesse medo de desistir de St. Andrew, deixar o único lugar que conhecia e tornar-se um peixe pequeno num lago grande e cheio de outros peixes. Eu me inclinei em direção a ele.

— Isso não deveria ser sua recompensa, Jonathan? Você trabalhou com seu pai para construir essa fortuna. Não faz ideia do que lhe espera fora dessas florestas, essas árvores tão espessas quanto as paredes de uma prisão!

Ele pareceu ofendido.

— Até parece que eu nunca saí de St. Andrew! Já estive em Fredericton.

Os St. Andrew tinham sócios em Fredericton como parte do negócio de madeira. Os troncos desciam pelo rio Allagash até o rio St. John e eram processados em Fredericton, cortados em lâminas ou queimados até virar carvão. Charles levara Jonathan numa viagem quando Jonathan ainda era adolescente, mas tinha ouvido falar muito pouco sobre isso. Agora, pensando bem, me pareceu que Jonathan não tinha curiosidade sobre o mundo fora de nossa pequena cidade.

— Fredericton não chega nem aos pés de Boston — retruquei. — Além disso, se você viesse a Boston, teria a oportunidade de conhecer meu patrão. Ele é um nobre europeu, praticamente um príncipe. Mas, para irmos direto ao ponto, ele é um verdadeiro mestre do prazer. Um homem que busca o coração. — Tentei sorrir zombeteiramente. — Posso lhe garantir que ele mudará sua vida para sempre.

Ele me olhou nos olhos.

— Um mestre do prazer? E como sabe disso, Lanny? Achei que fosse a in­terlocutora dele.

— Pode-se agir como intermediário de alguém para muitas coisas.

— Tenho que admitir que você me deixou curioso — ele disse, ainda que seu tom fosse de complacência. Parte de mim lamentava que Jonathan tivesse sido obrigado a assumir novas responsabilidades e não tivesse a mínima curiosidade sobre as tentações que eu lhe oferecia. No entanto, tinha certeza de que o antigo Jonathan estava lá; só tinha que trazê-lo à tona.

Jonathan e eu passamos a maioria das noites juntos. Percebi rapidamente que ele não havia cultivado outros amigos. Não sabia ao certo o motivo, pois com certeza não faltariam homens querendo desfrutar o status e os possíveis benefícios financeiros advindos de ser o maior aliado de Jonathan. Todavia, Jonathan não era tolo. Esses eram os mesmos homens que, quando jovens, tinham se ressentido por sua beleza, sua posição social e sua riqueza. Ressentidos por seus pais deverem obrigações ao capital, por salários ou aluguel.

— Sentirei sua falta quando for embora — Jonathan disse para mim numa dessas noites, quando nos trancamos atrás das portas do estúdio e queimamos um bom tabaco. — Você consideraria ficar? Você não tem que voltar para Boston, não se a questão for dinheiro. Eu poderia lhe dar um trabalho e então você ficaria aqui para ajudar sua família, agora que seu pai se foi.

Fiquei imaginando se Jonathan tinha pensado sobre essa oferta ou se ela tinha sido espontânea. Mesmo que ele encontrasse alguma posição para mim, a mãe dele seria contra ter uma mulher desonrada trabalhando para ele. Ele estava certo sobre esta ser uma oportunidade de me corrigir com minha família e, por dentro, eu me contorcia. Mas, ao mesmo tempo, convivia com um medo inominável diante da perspectiva de não obedecer às ordens de Adair.

— Não posso abrir mão da cidade agora que sei como é. Você se sentiria da mesma forma.

— Já expliquei a você...

— Não precisa tomar uma decisão no calor do momento. Afinal, mudar sua família inteira para Boston não seria pouca coisa. Venha comigo para uma visita. Diga à sua família que fará uma viagem de negócios. Veja se você gosta. — Eu limpara habilidosamente o cano do cachimbo com um fio (uma habilidade aprendida com a manutenção dos canos de água de Adair) e bati a tigelinha numa pequena bandeja para limpar a cinza. — Também poderia ser vantajoso para você do ponto de vista de negócios. Não há cultura aqui em St. Andrew! Você não faz ideia das coisas que está perdendo: peças, concertos. E o que imagino que você acharia mais fascinante... — inclinei-me para a frente, nossas cabeças abaixadas bem perto, para ser revelado o maior segredo de todos — é que Adair é bem parecido com você no que diz respeito aos prazeres de um cavalheiro.




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