No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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O culto da igreja havia terminado e as pessoas saíam para o pátio pelas portas largas do salão da congregação. Os paroquianos estavam em pé conversando, apesar do frio e do vento, relutantes como sempre em abrir mão da companhia e voltar para casa. Não havia sinal de meu pai; talvez, com ninguém para acompanhá-lo, resolvera frequentar a missa católica, por ser mais conveniente. No entanto, meus olhos encontraram Jonathan imediatamente e meu coração alegrou-se ao vê-lo. Ele estava do outro lado do pátio, onde os cavalos e as carruagens eram deixados, e subia na charrete de sua família, suas irmãs e irmão esperando em fila pela vez deles. Onde estavam a mãe e o capitão? A ausência deles me deixou inquieta. De braço dado com ele, estava uma jovem, branca de fadiga. Jonathan ajudou-a a subir no assento da frente da charrete. Havia uma trouxa nos braços dela, um bebê. A noiva criança dera a Jonathan aquilo que eu não pude dar. Ao ver o bebê, quase perdi a coragem e disse ao cocheiro para dar meia-volta. Mas, não.
Minha carruagem roubou a cena e tornou-se imediatamente objeto de curiosidade. Ao meu sinal, o cocheiro parou os cavalos e, com o coração na boca, eu saí da carruagem para o meio da multidão que havia se formado.

Minha recepção foi mais calorosa do que esperava. Eles me reconheceram, apesar de minhas roupas novas, de meu cabelo arrumado e de minha carrua­gem. Fui rodeada pelas pessoas que sempre suspeitei não se importarem comigo: os Watford, Tinky Talbot, o ferreiro, e sua prole suja de fuligem, Jeremias Jacobs e sua nova esposa, de quem eu me lembrava do rosto, mas não do nome. O pastor Gilbert desceu apressadamente os degraus do salão da congregação, as vestes reviradas pelo vento, enquanto meus ex-vizinhos se juntavam a meu redor.

— Lanore McIlvrae, em carne e osso!

— Olhem só para ela, toda embonecada!

Mãos vinham da multidão para me oferecer um cumprimento, apesar de ter visto, do canto do olho, o estalar das línguas e o balançar das cabeças das pessoas ao redor. Então, a multidão se abriu para o pastor Gilbert, que chegou com o rosto vermelho de cansaço.

— Meu Deus, é você, Lanore? — ele perguntou, mas eu mal o ouvi; fiquei tão preocupada com a aparência dele! Como Gilbert envelhecera! Ele encolhera e sua barriguinha protuberante diminuíra, mas seu rosto velho estava enrugado feito uma maçã esquecida num porão gelado e seus olhos estavam remelentos e vermelhos. Ele agarrou minha mão num misto de afeição e emoção.

— Sua família ficará tão feliz em vê-la! Tínhamos dado você como... — ele enrubesceu, como se fosse deixar escapar a palavra errada: “perdida” — e aqui está você de volta entre nós e obviamente em boa fortuna.

À menção de minha família, a expressão dos espectadores mudou, apesar de ninguém dizer nada. Bom Deus, o que aconteceu com minha família? E por que todos pareciam tão mais velhos? A senhorita Watford tinha tufos cinza nos cabelos, dos quais eu não me lembrava. Os garotos Ostergaard estavam totalmente crescidos e quase explodindo para fora de suas roupas surradas, os punhos saindo das mangas muito curtas de seus casacos.

A multidão se abriu novamente com o tumulto ao fundo e, então, Jonathan entrou no meio do círculo. Ah, ele mudara tanto! Havia perdido os ares de menino, o brilho despreocupado dos olhos escuros, o ar arrogante. Ainda belo, pairava agora um ar de sobriedade sobre ele. Ele me olhou, notando minhas óbvias mudanças e parecendo se entristecer por causa delas. Eu queria rir e jogar meus braços em volta dele para quebrar esse humor sombrio, mas não o fiz. Ele colocou minha mão entre as dele.

— Lanny, não achei que nos veríamos de novo. — Por que todos ficavam dizendo isso? — Pelo jeito, os ares de Boston fizeram bem a você.

— Sim — respondi sem dar mais detalhes, querendo aguçar a curiosidade dele.

Nesse momento, a jovem que segurava a criança atravessou a multidão e tocou no cotovelo de Jonathan. Ele se virou para trás e a trouxe para a frente.

— Lanny, você se lembra de Evangeline McDougal. Nós nos casamos logo depois de você ter ido embora. Como pode ver, demoramos um pouco para ter nosso primeiro filho. — Ele riu nervosamente. — Uma menina! Consegue acreditar que meu primeiro filho seja uma menina? Digo que foi azar, mas vamos acertar da próxima vez, não é? — ele disse para Evangeline, agora com as bochechas coradas.

Racionalmente eu sabia que Jonathan estaria casado e que era possível que tivesse um filho agora. No entanto, ver a esposa e a filha dele foi mais difícil do que imaginava. Meus pulmões diminuíram. Fiquei paralisada, incapaz de murmurar as congratulações. Como tudo podia ter passado tão depressa? Eu tinha ido embora só havia alguns meses.

— Sei que parece muito rápido, a paternidade e tudo mais — Jonatahn disse, olhando para o chapéu em suas mãos —, mas o velho Charles estava determinado a me ver estabelecido antes de morrer. — Minha garganta se apertou.

— Seu pai está morto?

— Ah, sim, me esqueci, você não sabia. Um pouco antes do casamento. Dois anos atrás, eu acho. — Seus olhos estavam sem brilho e calmos. — Ele ficou doente logo depois que você se foi.

Mais de dois anos que eu havia ido embora? Como podia ser? Era surreal, como algo saído de um conto de fadas. Será que tinha sido enfeitiçada e dormira enquanto o resto do mundo continuou sua vida normal? Não tinha palavras. Jonathan apertou minha mão, interrompendo meu transe.

— Não deveríamos atrasá-la para ver sua família. Faça planos para vir à nossa casa jantar. Gostaria de ouvir as aventuras que a impediram de voltar para nós mais cedo.

— Sim, claro! — Minha cabeça estava em outro lugar: se todas essas mudanças aconteceram na família de Jonathan, o que teria acontecido com a minha? Que infortúnios teriam acontecido com eles? E, a julgar pelo que Jonathan dissera, fazia dois anos que eu fora embora da cidade, apesar de isso não fazer sentido. O tempo passava mais rápido aqui ou em Boston, no redemoinho das festas noturnas e no langor dos quartos de Adair?

Pedi ao cocheiro que parasse a carruagem na estrada que subia para a casa de meus pais. O chalé mudara, não havia como negar. Modesto como já era, ele havia ficado ainda mais dilapidado enquanto estive fora. Meu pai o construíra sozinho, assim como os outros colonizadores (a única exceção foi o capitão, que trouxe carpinteiros de Camden para construir sua casa elegante). Meu pai construiu uma casa de madeira de um cômodo para ir aumentando depois. E realmente aumentou: ele fez uma alcova atrás do cômodo principal para dar espaço para Nevin dormir, um sótão para nós, as meninas, onde, por muitos anos, dormimos as três, lado a lado, como bonecas numa prateleira.

A casa se deteriorara como um cavalo envelhecido. Pedaços de barro haviam caído do meio dos troncos de madeira; o teto precisava de telhas: escombros caíram sobre a varanda estreita e os tijolos da chaminé haviam se soltado. Vi manchas de pele avermelhada entre as árvores acima da casa, o que significava que o gado ainda estava solto nos pastos. Minha família manteve pelo menos parte do rebanho, mas, a julgar pela condição da casa, algo drástico acontecera com seus bens.

Observei a casa. A família tinha voltado da igreja, a charrete estava vazia ao lado do celeiro e eu conseguia ver a velha égua castanha vagando pelo curral, mas não havia movimento na casa, só uma fraca nuvem de fumaça saindo pela chaminé. Um fogo fraco para um dia tão frio. Dei uma olhada na pilha de lenha. Abandonada. A lenha mal alcançava três fileiras de altura, com o inverno chegando.

Finalmente, pedi ao cocheiro para parar em frente da casa. Esperei por um sinal de movimento, mas, como não vi nada, enchi-me de coragem e me aproximei da porta.

Foi Maeve quem atendeu a porta. Boquiaberta, ela me olhou da cabeça aos pés antes de começar a gritar e a jogar seus braços em volta de meu pescoço. Atravessamos a porta valsando e entramos na casa, sua voz feliz enchendo meus ouvidos.

— Meu bom Deus, você está viva! Querida Lanore, pensamos que não a veríamos nunca mais! — Maeve limpava as lágrimas de seu rosto com a ponta do avental. — Quando não tivemos notícias suas... as freiras escreveram para Mama e Papa, e disseram a eles que era muito provável que você tivesse se perdido — Maeve piscou.

— Perdido? — perguntei.

— Morta. Assassinada. — Maeve me olhou astutamente. — Dizem que acontece o tempo todo em Boston. Os recém-chegados à cidade são sequestrados por bandidos, que depois os matam. — Ela olhou para mim, fascinada. — Se você não morreu, irmã, então, o que aconteceu? Por onde andou? Já se passaram quase três anos.

Quase três anos! Mais uma vez, a passagem do tempo me surpreendia. Fora do tempo na companhia de Adair, o restante do mundo era como um trem cumprindo seu percurso no horário marcado, sem parar para me esperar.

Escapei de dar uma explicação no momento em que minha mãe apareceu pelo alçapão do porão, o avental repuxado para segurar algumas batatas. Ela derrubou tudo quando me viu, ficou branca como um lençol.

— Não pode ser!

Meu coração se apertou até quase parar.

— Sim, mãe, é sua filha.

— Ressurgida dos mortos!

— Não sou um fantasma — eu disse, com a mandíbula travada, tentando segurar as lágrimas e, quando a abracei, senti a relutância de seus músculos cansados se dissipando. Ela me abraçou de volta com toda a força que lhe restava, que estava consideravelmente menor do que eu me lembrava.

Quando nos falamos, ela também limpou as lágrimas dos olhos. Olhou por sobre o ombro para minha irmã e fez um sinal com a cabeça.

— Vá buscar Nevin!

Meu estômago revirou.

— Precisa mesmo, tão rápido?

Minha mãe assentiu novamente.

— Sim, precisamos. Ele é o homem da casa agora. Sinto dizer que seu pai mor­reu, Lanore.

Não se pode prever como irá reagir a notícias desse tipo. Por mais que estivesse zangada com meu pai, e por mais que suspeitasse que algo terrível tivesse acontecido, a notícia de minha mãe me tirou o fôlego. Caí numa cadeira. Minha mãe e minhas irmãs me rodearam, mãos dadas comigo.

— Foi há um ano — minha mãe disse, de forma sóbria. — Um dos touros; um coice na cabeça. Foi muito rápido, ele não sofreu.

Mas eles haviam sofrido todos os dias a partir de então: era evidente em seus rostos ásperos, na pobreza do vestuário e na falta de cuidados da casa. Minha mãe notou meus olhos observando tudo discretamente.

— Tem sido muito difícil para Nevin. Ele assumiu a responsabilidade pela fazenda, e você sabe que é muito trabalho para um homem só. — A fala suave de minha mãe tinha se endurecido, era sua maneira de lidar com essa situação cruel.

— Por que não contratam alguém para ajudar, um garoto de uma das outras fazendas? Ou arrendam a propriedade? Com certeza alguém na cidade tem interesse em expandir — eu disse.

— Seu irmão não quer nem ouvir falar nisso, então, tome cuidado para não dizer isso a ele. Você sabe como ele é orgulhoso — ela falou, virando a cabeça para que eu não visse sua expressão amargurada. O orgulho dele havia se transformado na desgraça delas. Precisava mudar de assunto.

— Onde está Glynnis?

Maeve enrubesceu.

— Ela trabalha no Watford’s agora. Hoje ela está estocando as prateleiras.

— No sábado? — ergui as sobrancelhas.

— Tentando pagar nossas dívidas, para falar a verdade — minha mãe disse, a confissão dela terminando num suspiro de irritação enquanto mexia nas batatas.

O dinheiro de Adair pesava em minha bolsa. Não havia dúvida de que eu daria aquele dinheiro a eles e lidaria com as consequências mais tarde.

A porta se abriu e Nevin entrou na casa mal iluminada, a silhueta escura de uma figura robusta contra o céu encoberto. Levou alguns minutos para meus olhos se ajustarem e verem Nevin. Ele perdera peso e havia ficado mais forte e musculoso; cortara o cabelo tão rente à cabeça que era preferível ter raspado, e seu rosto estava sujo e cheio de cicatrizes, assim como suas mãos. Ele tinha nos olhos o mesmo escárnio do dia em que fui embora, alimentado pela pena de si mesmo e pelo que acontecera a eles desde então.

Ele fez um som na parte de trás da garganta quando me viu e passou de cabeça baixa até o balde com água para se lavar, enfiando as mãos dentro dele.

Eu fiquei em pé.

— Olá, Nevin.

Ele secou as mãos num pedaço de pano, tirando seu casaco surrado; cheirava a gado, poeira e cansaço.

— Gostaria de falar com Lanore em particular — ele disse. Minha mãe e irmã trocaram olhares e então seguiram em direção à porta.

— Não, esperem — eu chamei. — Pode deixar que Nevin e eu iremos para fora. Vocês fiquem onde está quente.

Minha mãe balançou a cabeça.

— Não, temos coisas que precisam ser feitas antes do jantar. Podem conversar. — Ela empurrou minha irmã, que estava na sua frente.

Na verdade, eu estava com medo de ficar sozinha com Nevin. Seu ódio por mim expressava-se num semblante duro; ele não me deu a menor chance para começar. Era preferível ir embora; sua resistência parecia me dizer que tentava encontrar um caminho para chegar a seu coração ou à sua cabeça.

— Então você está de volta — ele disse, levantando uma sobrancelha. — Mas não para ficar.

— Não. — Não havia motivo para mentir para ele. — Minha casa é em Boston agora.

Ele me olhou com superioridade.

— Por suas roupas elegantes, posso adivinhar o que anda fazendo por lá. Você acha que sua mãe ou eu queremos saber que tipo de coisa vergonhosa se tornou? Por que voltou? — a pergunta que eu temia.

— Para rever todo mundo — respondi em tom de defesa. — Para vocês saberem que eu não estava morta.

— Essas notícias poderiam ter sido colocadas numa carta. Ficamos muito tempo sem receber uma palavra sua.

— Só posso pedir desculpas por isso.

— Você estava presa? É por isso que não podia escrever? — ele perguntou com escárnio.

— Eu não escrevi porque não tinha certeza se a carta seria bem-vinda. — O que eu poderia ter dito? Tinha certeza de que era melhor que eles nunca mais ouvissem falar de mim e isso foi o que Alejandro me aconselhou a fazer. É prepotência, ou fraqueza dos jovens, pensar que pode exorcizar o passado sem que ele nunca o persiga. Ele bufou à minha desculpa.

— Alguma vez pensou no efeito que seu silêncio pudesse ter sobre a mãe e o pai? Quase matou a mãe; e foi a razão de o pai ter morrido.

— A mãe disse que ele foi morto por um touro...

— Foi assim que ele morreu, com certeza. Sua cabeça foi rachada no meio pelo touro, o sangue escorrendo pela lama sem que tivéssemos como fazê-lo parar. Mas alguma vez viu o pai abaixar a guarda perto dos animais? Não. Isso aconteceu porque estava de coração partido. Depois que recebeu a carta das freiras, nunca mais foi o mesmo. Culpava-se por ter mandado você embora... e pensar que ele ainda estaria aqui se você tivesse mandado notícias, avisando que estava viva! — Ele esmagou os ossos da mão na mesa.

— Já falei que sinto muito! Houve circunstâncias que não me permi­tiram...

— Não quero ouvir suas desculpas. Você disse que não estava na prisão. Você volta parecendo a prostituta mais rica de Boston. Faço ideia de como esses anos foram difíceis para você. Não vou ouvir mais nada — disse e se virou para longe de mim, acariciando as articulações dos dedos que sangravam. — Me esqueci de perguntar: onde está o bebê? Você o deixou para trás com seu alcoviteiro?

Meu rosto estava quente como brasa.

— Ficará feliz em saber que a criança morreu antes de nascer. Um aborto.

— Ah, a vontade de Deus, como dizem! Punição pelos seus pecados, se entregar àquele demônio do St. Andrew. — Nevin estava cego de raiva, satisfeito com minha notícia, feliz por fazer seus próprios julgamentos. — Nunca consegui entender como uma garota inteligente como você pôde ser cega por aquele patife. Por que não me escutou? Sou um homem, como ele, eu sei como um homem pensa... — Ele parou, irritado. Queria tirar aquela expressão de desgosto do rosto de Nevin, mas não podia. É possível que estivesse certo. Talvez ele realmente pudesse ver dentro da mente de Jonathan e a entendesse melhor do que eu, e que durante todos aqueles anos tivesse tentado me proteger da tentação. Meu fracasso significava o fracasso dele.

Ele limpou os dedos da mão novamente.

— Está planejando ficar aqui por quanto tempo?

— Não sei. Algumas semanas.

— A mãe sabe que você não está voltando para ficar? Que você vai nos deixar novamente? — Nevin perguntou, com prazer em sua voz, sabendo que eu magoaria minha mãe mais uma vez.

Balancei a cabeça.

— Não pode ficar muito tempo — ele me avisou — ou ficará presa na neve até a primavera.

Quanto tempo levaria para convencer Jonathan a vir para Boston comigo? Será que conseguiria passar o inverno isolada em St. Andrew? Ficava claustrofóbica só de pensar nos dias longos e escuros do inverno, presa na neve, dentro de um chalé, com meu irmão.

Nevin mergulhou sua mão ensanguentada dentro do balde de água, cuidando do ferimento que ele mesmo provocara enquanto falava comigo.

— Pode ficar conosco durante sua visita. Poderia expulsá-la daqui, mas não quero ser motivo de mexericos para nossos vizinhos. Mas deve se comportar o tempo todo, caso contrário, coloco você para fora.

— Claro.


— E não trará aquele cretino do St. Andrew nem perto daqui. Eu diria que está proibida de vê-lo enquanto estiver sob o meu teto, mas sei que você iria até ele e mentiria para mim.

Ele estava certo, obviamente. Por ora, tinha que fingir estar arrependida.

— Como quiser, meu irmão. Obrigada!

34

Aquela primeira noite em casa foi difícil. Por um lado, não consigo me lembrar de um jantar mais prazeroso. Quando Glynnis voltou para casa de seu trabalho na Watford’s, tivemos a oportunidade de nos reunir novamente, o que encheu nosso coração de alegria mais uma vez (exceto por Nevin, que nunca me perdoaria). Enquanto os biscoitos assavam, eu trouxe os presentes de meu baú e os distribuí como se fosse o Papai Noel. Maeve e Glynnis dançavam ao redor da seda chinesa colocada em seus corpetes, planejando os vestidos elegantes que fariam com ela, e minha mãe quase chorou de alegria com o xale. O deleite delas só deixava Nevin ainda mais zangado; graças a Deus não tinha trazido nada para ele (sabendo que ele atearia fogo) ou provavelmente teria me dado um soco na orelha, ou me colocado para fora com um chute no traseiro.



Nós nos sentamos ao redor da mesa depois de acabar de jantar, as velas já queimadas pela metade, minha mãe e meu irmão me contando sobre tudo o que tinha acontecido no vilarejo desde quando eu fora embora: plantações que não vingaram, doenças, um ou outro recém-chegado. E, claro, mortes, nascimentos e casamentos. Ficaram um bom tempo falando sobre o casamento de Jonathan, esperando que eu quisesse saber sobre tudo, que comida diferente fora servida (sem saber das delícias que eu já havia provado), quais os sócios dos St. Andrew que fizeram a dura viagem para participar do evento.

— Muito triste, o capitão não viveu para vê-la — minha mãe disse.

E o bebê! O jeito que minha mãe e minhas irmãs falaram dele daria para pensar que ele era fruto de um esforço conjunto da cidade. Todos, exceto Nevin, pareciam ter um provinciano interesse na criança.

— Que nome Jonathan deu a ela? — perguntei, molhando a última casca de pão no molho de gordura de bife.

— Ruth, como a mãe dele — Glynnis respondeu, sobrancelhas arqueadas.

— É um bom nome cristão — minha mãe argumentou. — Tenho certeza de que queriam um nome da Bíblia.

Comecei a bater os dedos na mesa.

— Nem Jonathan nem Evangeline, aposto; foi tudo arranjado pela mãe dele. Podem escrever o que estou falando.

— Talvez a ideia de ter um filho assim que possível, talvez isso tenha sido ideia da sra. St. Andrew também. — Maeve segurou a respiração por um momento, olhando para a irmã para buscar apoio, antes de continuar. — Foi um parto muito difícil, Lanore. Quase perderam Evangeline. Ela é tão pequena...

— E jovem...

Todos assentiram.

— Tão jovem... — Maeve respirou fundo. — Ouvi dizer que a parteira disse a ela para não ter mais bebês por enquanto.

— É verdade — Glynnis acrescentou.

— Chega! — Nevin enfiou a ponta de sua faca na mesa, fazendo as mulheres pularem de susto. — Será que um homem não consegue comer seu jantar em paz sem ter que escutar os mexericos sobre o dândi da cidade?

— Nevin... — minha mãe começou, mas ele a cortou.

— Não quero mais ouvir sobre isso. É culpa dele ter casado com aquela garota. É escandaloso, mas não esperava nada melhor dele — Nevin resmungou. Por um breve momento, quase acreditei que ele tinha esbravejado com minhas irmãs para me poupar de mais conversa sobre bebês. Ele se afastou da mesa e foi em direção à cadeira ao lado do fogo, o lugar onde nosso pai costumava se sentar após o jantar. Vê-lo naquela cadeira, com o cachimbo de meu pai, me causou estranheza.

A julgar pela posição da Lua no céu, era quase meia-noite quando eu, insone, desci do sótão. Os restos do fogo decoravam as paredes com um brilho dançante e tremeluzente. Agitada, não conseguia ficar trancada no chalé. Precisava de companhia. Geralmente, àquela hora da noite, eu estaria me preparando para uma noite na cama de Adair e percebi, sentada no banco, que estava ansiosa, ou melhor, ávida por conforto físico. Vesti-me e escapei, tão quieta quanto pude. Meu cocheiro estava dormindo no celeiro, aquecido por uma montanha de cobertores e o calor de uma dúzia de vacas colocadas sob o mesmo teto que ele. Eu não queria colocar a sela na égua castanha da família, tirar a pobre coitada de seu merecido descanso; assim, saí a pé na única direção que me veio à cabeça: a cidade. Para qualquer outra pessoa, mesmo num trecho curto como esse, caminhar a pé essa distância seria suicídio. A temperatura estava abaixo de zero e o vento, cortante, mas eu não era suscetível ao tempo e podia caminhar num ritmo acelerado sem me cansar. Cheguei às casas na beirada da cidade num piscar de olhos.

Onde poderia ir? St. Andrew estava longe de ser uma cidade grande. Poucas luzes eram visíveis pelas janelas das casas. A cidade dormia, mas a taberna de Daniel Daughtery ainda estava aberta, a luz brilhando através da única janela. Eu hesitei ao chegar à porta, imaginando se seria prudente ser vista vagando por aí àquela hora. Poucas mulheres entravam na Daughtery’s e nenhuma delas ia lá sozinha. A notícia chegaria facilmente aos ouvidos de Nevin e alimentaria sua convicção de que eu era uma prostituta comum. No entanto, a sedução dos corpos quentes do lado de dentro, do burburinho da conversa, da alegria de uma gargalhada ocasional, era forte. Tirei a lama dos sapatos e entrei.

Havia poucos clientes naquele pequeno espaço: uma dupla de lenhadores, empregados de Jonathan e Tobey Ostergaard, o pai cruel da pobre Sophia, parecendo, ele próprio, um defunto, a pele cinza e seus olhos mortos olhando fixamente para a parede do fundo. Todas as cabeças viraram em minha direção quando entrei, e Daughtery me lançou um especial olhar atravessado.

— Uma bebida — pedi, apesar de ser desnecessário, pois só havia um tipo de bebida no cardápio.

A taberna um dia já havia sido parte da casa dos Daughtery e fora repartida (sob objeção da esposa) para acomodar o balcão do bar, uma pequena mesa e vários bancos construídos com sobras de madeira, com pernas de alturas diferentes. Nos meses mais quentes, havia jogos de azar e, às vezes, brigas de galo no celeiro, que era separado da casa principal por uma trilha enlameada. A maioria dos fregueses não ficava, mas levava um barril de cerveja para tomar em casa com as refeições, já que fazer cerveja era um negócio trabalhoso e Daughtery, todos concordavam, era o melhor cervejeiro da cidade.

— Ouvi dizer que você tinha voltado — Daughtery comentou, enquanto pegava minha moeda. — Pelo que parece, Boston lhe fez bem. — Ele fez um comentário bem direto sobre minha roupa. — O que uma criatura do campo feito você faz para comprar roupas tão elegantes quanto estas?




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