No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Acordei nas primeiras horas da madrugada, suada e desgrenhada por causa do sono inquieto. O navio zarparia de manhã e eu tinha que chegar às docas antes do nascer do sol. Quando me abaixei para procurar minha roupa de baixo sob os lençóis, fui tomada pela visão de Adair, sua cabeça sobre o travesseiro. Acho que é verdade que até mesmo os demônios parecem anjos quando dormem, quando a quietude e o contentamento tomam conta deles. Seus olhos estavam fechados, seus cílios longos tocando o rosto; seus cabelos esparramados pelos ombros em cachos escuros e lustrosos; e os fios de barba esparsa em seu rosto o faziam parecer um jovenzinho, não um homem capaz de crueldades inumanas.

Minha cabeça doía da droga que fumara a noite toda. Se estava me sentindo assim, imaginei que Adair devia estar próximo do coma. Peguei sua mão e a deixei cair, peso morto. Ele não grunhiu nem se mexeu embaixo das cobertas.

Então, um pensamento perverso me veio à mente. Lembrei-me do pequeno frasco de prata que guardava o elixir da vida, a gota de magia demoníaca que havia me transformado para sempre. “Pegue”, a voz disse, “esse frasco é a raiz do poder de Adair. Esta é sua chance de se vingar dele. Roube o poder dele e o leve com você para St. Andrew.”

Com a poção, eu seria capaz de vincular Jonathan a mim, da mesma forma que eu era vinculada a Adair. O pensamento passou rapidamente pela minha mente, mas meu estômago arrefeceu. Nunca poderia usá-lo; nunca poderia transformar alguém no que eu sou agora.

“Pegue o frasco para se vingar de Adair. Isso é toda a mágica que ele possui no mundo. Pense no pânico que tomará conta dele quando perceber que desapareceu!”

Queria vingança pelo que tinha feito comigo no porão. Não queria ter sido enviada para essa missão, ser forçada a condenar meu amado a uma eternidade com esse monstro. Mais do que tudo, queria me vingar de Adair.

Prefiro pensar que estava possuída por uma força maior do que minha razão, pois saí da cama devagar e com muito cuidado, deixando meus pés descalços caírem silenciosamente no chão. Enquanto vestia uma das túnicas de Adair, fiz uma busca pelo quarto: onde ele esconderia o frasco? Vi somente naquele dia e nunca mais.

Fui até o quarto de vestir. Estaria na bandeja com as agulhas de costura ou na caixa de joias, entre os anéis e os broches? Talvez na ponta de um chinelo raramente usado? Estava de joelhos percorrendo uma fileira de sapatos, quando me dei conta de que Adair nunca guardaria um objeto tão valioso onde seu lacaio pudesse achá-lo e roubá-lo. Ou ele o manteria consigo o tempo todo (e eu já havia visto Adair nu em pelo em muitas ocasiões, sem sinal do frasco) ou o manteria em segredo onde ninguém pensaria em procurá-lo. Onde ninguém ousaria procurá-lo.

Com a vela na mão, saí sorrateira e apressadamente do quarto e percorri a escadaria dos criados até a adega, atravessei os úmidos corredores subterrâneos que cheiravam à água parada, tateando as grossas paredes de pedra. Indo mais devagar conforme me aproximava da sala aonde ninguém ia e de que todos tinham medo, empurrei a porta marcada e pisei sobre o chão de terra batida onde, há pouco tempo, tinha me deitado, sangrando.

Segurando a respiração fui, na ponta dos pés, até o baú solitário do outro lado da sala e levantei a tampa. Lá dentro estava aquele instrumento odioso, o arreio pavoroso, as tiras duras com meu suor, ainda com a forma do meu corpo. Quase deixei a tampa cair quando vi aquilo, mas controlei meu medo quando notei um pequeno embrulho no canto do baú. Enfiei a mão e encontrei um lenço masculino, dobrado como um pequeno travesseiro.

Desfiz um canto do lenço e vi... o frasco. À luz da vela, o frasco prateado brilhava como um ornamento de árvore de Natal, reluzindo com o mesmo brilho levemente escurecido. A luz parecia pulsar de forma agourenta, algum tipo de presságio. Mas já tinha chegado até ali e não desistiria. O frasco era meu. Agarrei-o, pressionei-o contra o coração e saí, furtiva e apressadamente do calabouço.

31

PROVÍNCIA DE QUEBEC, HOJE



Do lado de fora da janela do quarto do motel, o céu ficara negro-azulado, a cor de tinta de uma caneta esferográfica. Haviam deixado as cortinas suspensas quando se jogaram na cama juntos e, agora que a ânsia para descobrir o corpo um do outro terminara, Lanny e Luke estavam deitados lado a lado, olhando as estrelas do norte através da janela. Ele passa os dedos pelo braço nu dela, fascinado pela luminosidade de sua pele, tão perfeita ela é, creme, toda salpicada com sardas douradas. O corpo dela é feito de uma série de curvas suaves e profundas. Ele quer deslizar as mãos por ela, sem parar, como se fazendo isso pudesse arrancar uma parte dela para ele. Ele se pergunta se a mágica que possui a fez mais bela, se evidenciou ainda mais sua aparência natural.

Ele não acredita na sorte de ter ido para a cama com ela; sente-se quase como um velho homem depravado, pois não tocava numa mulher tão firme desde muito antes de se casar. Na verdade, desde seus 20 e poucos anos, mas não se lembra de o sexo ter sido tão bom, talvez porque ele e suas parceiras fossem muito inseguros. Podia imaginar o que sua ex-mulher ou seus amigos diriam se vissem Lanny; eles pensariam que ele estava à beira de uma crise épica de meia-idade, ajudando uma mulher em situação praticamente ilegal a fugir da polícia em troca de sexo.

Lanny olha para ele com um sorriso em seu rosto lindo, e ele fica imaginando o que ela teria visto nele de interessante. Ele sempre se achou um homem comum: altura média, mais magro do que gordo, porém longe de ter um físico digno de admiração; cabelo desgrenhado e ondulado entre o marrom-areia e o louro. Seus pacientes já tinham sugerido que ele parecia meio hippie, como alguns dos mochileiros que vinham para St. Andrew no verão, mas Luke acha que eles tiveram essa impressão porque ele tendia a ser desarrumado quando não havia ninguém perto dele para arrumá-lo. O que uma mulher como ela poderia ver em um homem como ele? Era o que ele se perguntava.

No entanto, antes que ele conhecesse a resposta, ocorre uma distração na janela, uma ondulação de sombras do lado de fora do vidro, que indica movimento no corredor. Luke mal tem tempo de se levantar antes de os golpes do outro lado da porta começarem, e uma voz masculina grossa grita:

— Abram! É a polícia!

Luke segura a respiração, incapaz de pensar, de reagir, de fazer coisa alguma, mas Lanny pula da cama num salto, o lençol enrolado no corpo, e caminha silenciosamente, como um gato. Ela coloca um dedo sobre os lábios, desliza pelo canto até a área da cozinha e, de lá, para dentro do banheiro. Quando está fora do campo de visão, ele sai da cama, enrola um cobertor em volta da cintura e abre a porta.

Dois policiais preenchem o espaço da porta aberta, acendendo uma lanterna bem na cara de Luke.

— Recebemos uma ligação sobre um homem fazendo sexo com uma menor... pode acender a luz, senhor? — um dos oficiais pergunta, parecendo enfurecido, como se não houvesse nada que ele gostasse mais do que empurrar Luke contra a parede, a coronha da polícia atravessada na garganta dele. Ambos os policiais olharam fixamente para o peito nu de Luke e o cobertor amarrado em volta dos quadris. Luke bate a mão no interruptor mais próximo e acende a luz.

— Onde está a menina que fez o check-in do quarto?

— Que menina? — Luke consegue dizer, apesar da garganta seca como areia do deserto. — Deve haver um engano, este é meu quarto.

— Então você fez o check-in neste quarto?

Luke concorda.

— Acho que não. O atendente da recepção disse que há só um quarto alugado deste lado do prédio. Para uma menina. Ela disse ao atendente que o quarto era para ela e o pai. — Os policiais bloquearam a porta. — A camareira disse que ouviu o que parecia ser duas pessoas fazendo sexo aqui, e já que o atendente sabia que estava sendo ocupado por um pai e sua filha...

O pânico toma conta de Luke quando tenta consertar sua mentira.

— Ah, sim, é isso que quero dizer. A garota, nós estamos juntos, por isso disse que este é meu quarto... mas ela não é minha filha. Não sei por que ela teria dito isso a alguém.

— Certo. — Eles não pareciam estar convencidos. — Se importa se entrarmos e dermos uma olhada? Gostaríamos de conversar com ela; ela está aqui?

Luke congela, tentando ouvir; ele não escuta nada, o que o leva a pensar que ela havia escapado. Nos olhos dos policiais, Luke mal consegue ver uma indignação controlada; eles provavelmente não queriam nada além de jogá-lo no chão e dar-lhe uma surra por todas as filhas abusadas sexualmente que já viram em sua carreira. Luke está a ponto de soltar uma desculpa quando nota que os policiais estão olhando para alguma coisa atrás dele. Ele se vira, enroscando o cobertor barato em suas pernas.

Lanny está em pé, com o lençol ainda enrolado no corpo nu, bebendo de uma garrafa plástica vermelha surrada, uma expressão de surpresa e falsa vergonha em seus olhos.

— Ah, pensei ter ouvido alguém à porta. Boa noite, policiais. Algo errado?

Os dois policiais a olharam de cima a baixo, da cabeça aos pés, antes de responder.

— Você fez o check-in para este quarto, senhorita?

Ela concorda.

— Esse homem é seu pai?

Ela finge estar encabulada.

— Ah, meu Deus, não! Não... Não sei por que disse aquilo para o cara da recepção. Tive medo de ele não querer nos alugar o quarto, eu acho, já que não somos casados. Ele parecia, sei lá, ser meio crítico. Não achei que ele tivesse nada a ver com isso.

— Ah-hã. Precisamos ver algum documento de identificação. — Estão tentando ser imparciais, dissipar a indignação, agora que não há nenhum pervertido para ser trazido à justiça.

— Não têm o direito de nos investigar. Foi consensual o que fizemos — Luke fala enquanto passa o braço ao redor de Lanny, puxando-a para seu lado. Ele quer que a polícia vá embora; quer que essa experiência embaraçosa e exasperante fique para trás.

— Só queremos prova de que vocês não são... você sabe — o policial mais jovem explicou, abaixando a cabeça e fazendo um gesto impaciente com sua lanterna. Não havia alternativa a não ser deixar os policiais olharem sua carteira de motorista e o passaporte dela, esperando que qualquer relatório da polícia de St. Andrew ainda não tivesse atravessado a fronteira do Canadá.

Logo Luke percebe que ele não precisava se preocupar: os dois policiais estavam tão frustrados e decepcionados que passaram os olhos superficialmente pela identificação, muito provavelmente nem leram os documentos, antes de darem meia-volta e saírem pela porta, pedindo desculpas quase inaudíveis pelo inconveniente. Assim que saíram, Luke desceu as persianas da janela que dão para o corredor.

— Ah, meu Deus! — Lanny diz, antes de cair na cama.

— Precisamos ir embora; preciso levar você até alguma cidade.

— Não posso pedir para correr mais riscos por mim...

— Não posso deixar você aqui, posso? — Ele se veste, enquanto Lanny está no banheiro, a água escorrendo. Luke passa a mão no queixo, sentindo os pelos eriçados, dando-se conta de que já faz 24 horas desde que se barbeou, então resolve ver se o estacionamento está vazio. Ele enrosca um dedo na persiana e dá uma espiada: o carro da polícia está ao lado da SUV. Deixa a persiana voltar ao lugar.

— Droga! Eles ainda estão lá fora!

Lanny olha, mexendo na mala.

— O quê?


— Os dois policias, eles ainda estão lá fora. Verificando a licença da placa do carro, talvez.

— Você acha?

— Talvez estejam vendo se já fomos fichados. — Ele esfrega o lábio inferior, pensando. É provável que não consigam respostas imediatas para placas licenciadas nos Estados Unidos ou carteiras de motoristas; eles provavelmente têm que esperar por uma resposta do sistema, através de unidades de comunicação da polícia. Deve haver uma brecha de tempo antes... Luke agarra Lanny pelo braço.

— Temos que ir, agora.

— Não acha que eles vão nos parar?

— Deixe sua mala, deixe tudo. Apenas ponha uma roupa.

Eles deixam o motel de mãos dadas e começam a caminhar em direção ao veículo, quando a janela do carro de polícia se abaixa.

— Ei — o policial do lado do passageiro gritou —, vocês ainda não podem ir embora.

Luke solta a mão de Lanny para que ela fique para trás enquanto ele se aproxima do carro-patrulha.

— Por que não podemos ir embora? Não fizemos nada de errado. Mostramos nossos documentos. Vocês não têm nenhum motivo para nos deter. Isso já está começando a parecer assédio.

Indecisos, os policias se encresparam; contudo, não gostaram do som da palavra “assédio”.

— Vejam — Luke continua, abrindo as mãos para mostrar que estavam vazias. — Só estamos saindo para jantar. Parece que vamos fugir? Deixamos nossa bagagem no quarto; já pagamos pela noite. Se ainda tiverem perguntas quanto às nossas fichas, podem nos encontrar depois do jantar. Mas, se não vai me prender, acredito que não possa me impedir de sair. — Luke fala calma e razoavelmente, braços abertos, como um homem tentando convencer ladrões a não o roubar. Lanny sobe no assento da frente da SUV, dando um olhar hostil aos policiais. Ele vai logo depois, dá partida no carro e sai do estacionamento vagarosamente, olhando uma última vez para ter certeza de que o carro-patrulha não está atrás deles.

Quando já estão bem distantes na estrada, Lanny puxa o laptop de dentro de sua jaqueta.

— Não podia deixar isso para trás. Tem muita informação incriminatória que liga Jonathan a mim, coisas que poderiam ser usadas como provas, se quisessem — ela explica, já que se sente culpada por se arriscar para salvá-lo. Um segundo depois, ela tira o saco de maconha de dentro do bolso, como se estivesse tirando um coelho de dentro da cartola de um mágico. O coração de Luke trila em sua garganta.

— A erva também?

— Pensei que depois que percebessem que não vamos voltar, fariam uma busca de verdade no quarto. Isso lhes daria um motivo para nos prender... — Ela enfia o saco de volta no bolso da jaqueta. — Acha que estamos seguros?

Ele olha o espelho retrovisor de novo.

— Sei lá... agora eles têm o número da placa. Se eles se lembrarem dos nomes, do meu nome... — Eles terão que abandonar a SUV e Luke sente-se mal por ter emprestado o carro de Peter. Tem que tirar isso da cabeça. — Não quero pensar nisso agora. Conte-me mais da sua história.

Parte três

32

A autoestrada até Quebec tem mão dupla nas duas direções e é tão escura quanto uma pista de decolagem abandonada. As árvores desfolhadas e a paisagem sem graça lembravam a Luke Marquette, a cidadezinha ao norte, na ponta solitária do Michigan, onde sua ex-esposa morava. Luke a visitara uma vez para ver suas filhas, logo após Tricia ter ido morar lá com seu namorado, que conhecia desde a infância. Tricia e as duas filhas de Luke agora viviam na casa do namorado dela, numa fazenda de cerejas, e o filho e a filha dele também os visitam duas noites por semana.



Durante sua estadia, Luke achou que Tricia não parecia estar mais feliz com o namorado do que quando estava com ele, ou talvez ela estivesse envergonhada por ser vista por seu ex numa casa em situação precária, com um Camaro de 12 anos na garagem. Não que a casa de Luke em St. Andrew fosse muito melhor.

As meninas, Winona e Jolene, estavam infelizes, mas isso já era esperado; elas tinham acabado de se mudar para a cidade e não conheciam ninguém. O coração de Luke quase partiu ao se sentar com elas na pizzaria onde as tinha levado para o almoço. Elas estavam quietas e eram muito jovens para saber a quem culpar ou com quem ficar zangadas. Ficaram mal-humoradas quando ele tentou puxar conversa, e Luke não suportava a ideia de levá-las de volta para a mãe, de dizer adeus quando todos eles estavam tão sensíveis e magoados. Também sabia que não havia nada a fazer: o processo pelo qual estavam passando não seria resolvido num fim de semana.

No final, quando estava se despedindo nos degraus de cimento na porta da frente de Tricia, as coisas haviam melhorado entre ele e as filhas. O pânico havia diminuído, elas haviam encontrado chão firme sob seus pezinhos. Elas choraram quando ele lhes deu um abraço de despedida e abanaram as mãozinhas enquanto Luke saía em seu carro alugado, mas ainda lhe cortava o coração ter de deixá-las.

— Tenho duas filhas — Luke desabafou, tomado pela necessidade de dividir uma parte de sua vida com Lanny. Ela olha para ele.

— Aquela era a foto delas, na sua casa? Quantos anos elas têm?

— Cinco e seis. — Ele sente um pequeno orgulho, tudo que lhe restou da paternidade. — Elas vivem com a mãe. E com o cara com quem ela pretende se casar. — Outra pessoa estava cuidando das filhas dele agora. Ela se ajeita para poder ficar de frente para ele.

— Por quanto tempo foram casados?

— Seis anos. Agora estamos divorciados — acrescenta. — Foi um erro nos casarmos, vejo isso agora. Tinha acabado de terminar minha residência em Detroit. A saúde dos meus pais estava começando a piorar e eu sabia que voltaria a St. Andrew... Acho que não queria voltar sozinho. Não podia imaginar encontrar alguém lá. Conhecia todo mundo, fui criado lá. Acho que vi Tricia como minha última chance.

Lanny dá de ombros, com uma expressão de desconforto marcada no cenho franzido. Desconfortável pelo excesso de honestidade, Luke imagina, se é que ela estava sendo honesta.

— E você? Já se casou alguma vez? — ele a questiona e a pergunta a faz rir.

— Não me escondi do resto do mundo todo esse tempo, se é isso o que você pensa. Não, com o tempo eu caí na realidade; vi que Jonathan nunca se comprometeria comigo. Vi que não tinha essa intenção. — Luke se lembra do homem no necrotério. As mulheres se ofereciam para homens como aquele. Convites e propostas intermináveis, quanta vontade e desejo, quanta tentação! Como podia se esperar que um homem como aquele se comprometesse com uma só mulher? Era natural para Lanny querer que Jonathan fosse fiel, mas como culpar o homem por decepcioná-la?

— Então encontrou outra pessoa e se apaixonou? — Luke tenta esconder a esperança em sua voz. Ela ri de novo.

— Para um homem que se casou no desespero e acabou divorciado, você me parece um romântico incorrigível. Eu disse que me casei, não que estava apaixonada. — Ela se vira e, assim, não olha de frente para ele. — Isso não é exatamente verdade. Amei todos os meus maridos, só que não da mesma maneira que amei Jonathan.

— Todos eles? Quantas vezes já se casou? — De novo, Luke tem a mesma sensação de desconforto que sentiu no Dunratty, olhando para a cama remexida.

— Quatro vezes. Uma garota sente-se sozinha depois de uns cinquenta anos ou mais — ela responde, zombeteira, fazendo piada de si mesma. — Eles eram todos amáveis, cada um a seu modo. Cuidaram de mim; me aceitaram como eu sou, aceitaram somente o que eu podia lhes dar.

Esses vislumbres da vida dela o faziam querer saber mais.

— Quanto da sua vida contou a eles? Você falou com alguém sobre Jonathan?

Lanny movimenta a cabeça para trás e remexe os cabelos, ainda evitando olhar para ele.

— Nunca contei a verdade sobre mim a ninguém, Luke. Você é o primeiro.

Ela está dizendo isso só para me agradar? Luke pensa. Ela é treinada para saber o que as pessoas querem ouvir. É o tipo de habilidade que tem que desenvolver se vai sobreviver por centenas de anos e não pode ser descoberta. Tudo parte da sutil arte de entrelaçar as pessoas em sua vida, prendê-las a você, fazê-las gostar de você, ou até mesmo amar você.

Luke quer ouvir sua história, saber tudo sobre ela, mas será que pode confiar que lhe dirá a verdade, ou ela só o está manipulando até estarem a salvo da polícia? Enquanto Lanny volta a seu estado de silêncio pensativo, Luke dirige, imaginando o que acontecerá quando chegarem a Quebec, se ela desaparecerá e o deixará apenas com sua história.

33

BOSTON, 1819



Havia planejado minha viagem de volta a St. Andrew com o entusiasmo típico de um funeral. Usando um saco de moedas de Adair, marquei minha passagem num navio de carga que zarparia de Boston para Camden, e de Camden em diante viajaria numa carruagem especial, com um cocheiro. O único transporte de ida e volta de St. Andrew havia sido a charrete do fornecedor, que trazia mercadorias frescas para a mercearia dos Watford duas vezes ao ano. Planejei chegar com estilo, exibindo uma carruagem maravilhosa, repleta de almofadas para amaciar seus bancos e com cortinas nas janelas, para mostrar a eles que eu não era a mesma mulher que tinha ido embora.

Era o começo do outono e, enquanto Boston estava apenas fria e úmida, os caminhos em direção ao norte até o condado de Arroostook já tinham neve. Fiquei surpresa por minha nostalgia ao ver a neve de St. Andrew, os sulcos altos e profundos e a paisagem branca intocada, as pontas dentadas dos pinheiros surgindo através de grossas camadas de neve. Quando criança, olhava pela vidraça da janela do chalé de meus pais e assistia ao vento soprar lufadas de neve tão finas quanto poeira, e agradecia por estar dentro do chalé com o fogo e cinco outros corpos para me manter aquecida.

Mas, naquela manhã, eu estava no porto de Boston, esperando para embarcar no navio que me levaria de volta a Camden em circunstâncias completamente diferentes das em que havia partido: dois baús de roupas maravilhosas e presentes, uma bolsa com mais dinheiro do que o vilarejo inteiro vira em cinco anos e acomodações de viagens luxuosas. Saí de St. Andrew como uma jovem desgraçada e sem perspectivas, e voltava como uma dama refinada que encontrara, por acaso, uma fonte secreta de riqueza, da qual me valia. Obviamente eu devia muito a Adair, mas isso não me deixava menos entristecida pelo que estava fazendo.

Durante a viagem pelo mar, eu me escondia na cabine, ainda tomada pela culpa. Numa tentativa de encobrir minhas emoções, sentei-me com uma garrafa de conhaque e, gole após gole, tentei me convencer de que não era uma traidora de meu ex-amante. Eu apresentaria uma oferta a Jonathan em nome de Adair, um presente que alguém só poderia sonhar em ter: a capacidade de viver para sempre. Qualquer homem aceitaria prontamente esse presente e até mesmo pagaria uma fortuna por isso, se lhe fosse oferecido. Jonathan fora escolhido para fazer parte desse mundo secreto, para aprender que a vida como conhecíamos não era tudo que existia. Ele mal poderia reclamar do que eu estava lhe trazendo.

Porém, sabia que este outro nível de existência tinha um preço; só não sabia qual seria, ainda. Não me sentia superior aos mortais, assim como não me sentia uma deusa. No máximo, sentia que tinha deixado a esfera da humanidade e atravessado para uma esfera de segredos obscenos e arrependimentos, um submundo escuro, um lugar de punições. Mas, com certeza, eu não estava totalmente perdida. Devia haver uma chance de me redimir.

Ao chegar a Camden, aluguei a carruagem e iniciei minha viagem solitária para o norte. Então a ideia de me rebelar contra Adair começou a martelar em minha mente novamente. Afinal, o ambiente à minha volta era tão diferente de Boston que Adair parecia estar muito longe. Negociei comigo mesma: se, depois de chegar a St. Andrew, visse que Jonathan estava vivendo feliz com sua família dominadora e sua esposa criança, teria misericórdia dele. Eu poderia arcar com as consequências: fugiria e faria o próprio caminho no mundo, pois nunca poderia voltar a Boston sem Jonathan. Ironicamente, o próprio Adair me dera as armas para fugir: tinha mais dinheiro do que precisava para um novo começo. Todavia, essas fantasias duravam pouco; eu não conseguia me esquecer dos avisos de Adair para fazer o que havia mandado ou sofreria em suas mãos. Adair nunca me deixaria ir!

Diante desse quadro infeliz, me enchi de coragem e força para entrar em St. Andrew naquela tarde de outubro, para encarar a surpresa de minha família e conhecidos por estar viva e a provável decepção com aquilo que eu havia me tornado.

Cheguei num domingo nublado. Estava com sorte porque a estação não estava sendo tão severa quanto costumava ser, e a neve ao longo da estrada nos permitia passar. As árvores estavam nuas diante de um céu cinzento e as últimas folhas penduradas nos galhos, secas e enroladas, tinham uma cor morta, como morcegos empoleirados.




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