No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Fiquei estupefata com as palavras dele. Quem era ele para me chamar de tola? Estava presa como o restante deles, não estava obrigada a agradar o mestre tirânico para sobreviver. Não, naquele tempo eu me via fazendo o melhor que podia numa situação terrível. Vejo diferente agora, obviamente. Sei que fui impulsiva e incapaz de dizer a verdade a mim mesma. Deveria ter sido grata por Jude arriscar-se tanto para me prevenir dentro da casa do próprio Adair, mas estava muito desconfiada para confiar nele e, em vez disso, tentei enganá-lo, a fim de pensar que eu sabia o que estava fazendo.

— Bem, obrigada pelo aviso, eu acho, mas perdoe-me se eu disser que devo decidir sozinha o que será feito.

— Ah, mas isso não envolve só você, não é? — ele perguntou. — Está prestes a trazer o seu Jonathan para dentro dessa história, o homem por quem você professa um amor tão imenso. O ímpeto com que concordou com a proposta de Adair me faz pensar se, talvez, ele não esteja certo. Você quer fazer como Adair lhe mandou, não quer? Você quer que seu amor seja capturado pela armadilha de Adair, pois isso significa que ele estará preso com você.

— Sabe o que eu acho? — eu quase gritei, empurrando a costura do meu colo para ficar em pé. — Não está aqui para me prevenir de nada; está com ciúmes. Você queria ter trazido Jonathan para Adair, mas não conseguiu. Eu terei sucesso onde você falhou... — Apesar de toda a minha veemência, não fazia ideia do que estava falando; eu com certeza teria mais influência do que Jude sobre Adair, mas com que objetivo? Jude sabia, mas eu não. Ele balançou a cabeça e recuou um passo.

— Eu me certifico de que as pessoas que trago até Adair sejam merecedoras da atenção. E eles vão até Adair por livre-arbítrio. Além disso, nunca daria a ele alguém que eu alegasse amar. Nunca.

Deveria ter perguntado a ele o que queria dizer com tudo aquilo, mas, jovem como era, achei melhor enganá-lo do que lhe revelar que eu não sabia o que estava fazendo. E eu não confiava em Jude; ele estava me mostrando um lado completamente diferente de tudo o que estava acontecendo e eu não sabia o que fazer com aquilo. Será que estava tentando me encurralar num momento de deslealdade a Adair, o mestre a quem servira por muito mais tempo do que me conhecia? Talvez esse fosse o papel dele no bando de Adair, ser o infiltrador, o informante.

Forcei um brilho no meu rosto, mas estava tremendo, nervosa. Jude havia me levado ao limite de minha compostura.

— Já ouvi o suficiente. Saia antes que eu vá até Adair e conte sua traição.

Ele recuou, surpreso, mas só por um momento, então deixou os ombros caírem. Fez uma nova mesura, fingindo respeito, enquanto saía da sala.

— Vejo que estava completamente errado sobre você, Lanore. Está muito longe de ser irresponsável com seu coração... Sabe exatamente o que está fazendo, não sabe? Espero que tenha feito as pazes com Deus antes de fazer o que está prestes a fazer.

Tentei acalmar minha respiração e meu coração disparado, e dizer a mim mesma que nenhuma palavra dele era verdade.

— Saia — repeti, dando um passo na direção dele como se pudesse enxotá-lo da casa. — E espero nunca mais vê-lo de novo.

— Ah, suponho que esse não seja o nosso destino. O mundo é um lugar pequeno, ainda mais quando se tem a eternidade, como vai perceber. Quer queira, quer não, nossos caminhos se cruzarão de novo — ele disse enquanto saía da sala.

30

Os preparativos para minha viagem começaram imediatamente, minha passagem estava marcada e eu partiria num navio de carga que sairia de Camden em quatro dias. Dona, absolutamente feliz por me ver partir, ajudou-me a escolher dois baús de viagem reforçados, dentro das dúzias e dúzias que vieram da viagem da Europa. Num deles pusemos minhas melhores roupas e, no outro, presentes para minha família: um rolo de seda da China; um conjunto de gola e punhos feitos com renda da Bélgica, prontos para serem colocados num vestido; um colar de ouro com opalas ligeiramente rosadas. Adair insistiu para que eu levasse atrativos a Jonathan, para mostrar a ele algumas das delícias disponíveis fora da Floresta Great North. Expliquei a ele que meu amigo tinha apenas uma fraqueza, as mulheres, e, assim, Dona revirou as caixas e descobriu um jogo de cartas de baralho pintado com figuras lascivas no lugar do rei, da rainha, do valete de vários naipes, com a rainha de copas sendo decapitada em uma pose especialmente distinta e ousada; um livro de versos pornográficos (Jonathan nunca tendeu muito à literatura; se algum livro pudesse fazer de Jonathan um leitor, esse certamente seria o tal); uma estátua de jade, que disseram ter sido comprada no Oriente distante, de um trio que participava de uma aventura sexual; e, por último, um rolo de veludo para joias contendo, em vez de pulseiras ou brincos, um jogo de pênis esculpidos em madeira, ébano e marfim. Franzi o cenho para o último presente.



— Não sei se isso faria o gosto dele — eu disse, segurando o de ébano, o maior do trio, para analisar seus detalhes.

— Não para o uso dele — Dona disse, tirando o objeto de mim e o enrolando junto com os outros, no invólucro de veludo. — Você já deixou claras as tendências dele. Isso pode ser usado, por exemplo, para divertir suas mulheres, uma novidade para estimular o apetite delas e as deixar mais animadas. Quer que mostre como são usados? — ele perguntou e então me jogou um olhar de lado, incrédulo com minha falta de sofisticação sexual, pensando que talvez eu não estivesse à altura do trabalho.

Enquanto Dona fuçava os baús, determinado a encontrar a bugiganga que tinha na cabeça, eu me diverti mexendo também nas cômodas, desenrolando pacotes misteriosos, maravilhando-me com o tesouro guardado dentro deles (uma caixa de música adornada com joias no formato de um ovo; um pássaro mecânico de miniatura que batia as asas e cantava uma musiquinha). Algum tempo depois, num baú empoeirado enfiado debaixo das calhas no canto mais ao fundo, encontrei um objeto que me deu frio na barriga. Um selo pesado, de cor dourada (mas com certeza feito de latão; um objeto daquele tamanho feito de ouro valeria uma fortuna), enrolado em veludo e guardado dentro de uma bolsa de pele de veado. O selo do físico, morto havia muitos anos, de quem Adair havia contado? Teria ficado com ele como lembrança?

— Aqui está! — A voz de Dona me trouxe de volta e eu fechei o baú apressadamente, colocando-o de volta no lugar onde estava. Dona havia embalado os pacotes de Jonathan num quadrado de seda vermelha e amarrado com uma corda dourada. Os presentes de minha família, ele havia embrulhado num pedaço de tecido azul com fitas brancas. — Não confunda estes dois pacotes.

Talvez eu tivesse ficado complacente por causa dessas preparações. Adair estava sendo muito generoso com a quantidade de presentes, com os luxuosos arranjos de viagem. Comecei a pensar se eu não teria uma escolha, se essa não seria minha chance de escapar de seu domínio. Talvez eu não confiasse em mim mesma para considerar essas possibilidades rebeldes na presença de Adair, deitada na cama ao lado dele, mas certamente estaria segura a centenas de milhas longe dele.

Esses pensamentos me confortavam, até me deixavam mais forte. Comecei a ver a viagem como minha chance de fuga; talvez pudesse convencer Jonathan a abandonar a família e deixar suas expectativas com relação a ela para trás, e a fugir comigo.

Foi assim, até a tarde seguinte.

Tilde e eu voltávamos da chapelaria com seu novo chapéu, quando vimos a garota. Ela estava num beco, olhando para o tráfego na rua. Do que podíamos ver dela, era magra e acinzentada, uma ratinha vestida em trapos soltos. Tilde foi até a garota, fazendo-a esconder-se ainda mais para dentro do beco.

Fiquei pensando por que Tilde fora até a garota, para começar, e se eu deveria me juntar a elas, quando começaram a vir em minha direção. Na penumbra da luz da tarde, pude ver o estado deplorável dela: parecia um trapo que fora amassado e jogado fora, a consciência de que era descartável estampada para sempre em seus olhos.

— Esta é Patience — Tilde falou, segurando a mãozinha da menina nas mãos dela. — Ela precisa de um lugar para ficar, então achei que pudéssemos levá-la para casa conosco, dar-lhe um prato de comida e um teto por alguns dias. Você não acha que Adair se importaria, acha? — O sorriso dela era lupino e triunfante, fazendo-me lembrar de como ela e os outros me acharam na rua alguns meses antes. O efeito foi exatamente o que ela pretendia. Vendo a preocupação em meu rosto, Tilde me lançou um olhar duro e de advertência, e eu sabia que não era para falar nada.

Tilde chamou a carruagem e apressou a garota pelos degraus na nossa frente. A pequena sentou-se na ponta do banco, olhando pela janela com olhos arregalados, observando Boston passar. Será que eu estava assim, tão deplorável, nada além de uma presa para o caçador, praticamente implorando para ser devorada?

— De onde você é, Patience? — eu perguntei.

Ela me olhou com cautela.

— Eu fugi.

— De casa?

Ela assentiu, mas não deu mais explicações.

— Quantos anos você tem?

— Quatorze. — Ela parecia não ter mais do que 12 anos e sabia disso, seus olhos fugiram de meu olhar inquisitivo. Tilde a levou para um dos quartos no andar de cima quando chegamos à mansão.

— Mandarei um criado com água, para você poder se lavar — ela disse, fazendo a garota passar a mão em seu rosto sujo, constrangida. — Vou mandar alguém trazer comida também e procurar algo mais quente para você vestir. Lanore, por que não vem comigo?

Ela foi direto a meu quarto e começou a remexer em minhas roupas, sem pedir permissão.

— Demos todas as coisas pequenas para você, eu acho... Com certeza você tem algo que servirá na garota...

— Não entendo... — cortei a frente de Tilde e fechei a porta do armário. — Por que a trouxe aqui? O que pretende fazer com ela?

Tilde sorriu zombeteira.

— Não se faça de boba, Lanore. Você, mais do que todo mundo, deveria saber...

— Ela ainda é uma criança! Não pode oferecê-la a Adair como se ela fosse um brinquedo. — Até onde eu sabia, Adair nunca molestara uma criança. Achei que não teria estômago para isso. Tilde foi até o baú.

— Ela pode ser novinha, mas não é inocente. Ela me disse que fugiu de um reformatório para onde foi mandada para ter seu bebê. Quatorze anos e com um filho! Honestamente! Estamos fazendo um favor a ela — Tilde falou, enquanto pegava um conjunto de roupas de baixo com rendas de algodão. Eu me joguei na cama.

— Dê-lhe isso e ajude-a a se limpar um pouco. — Tilde jogou a roupa em minha cara. — Vou providenciar alguma coisa para ela comer.

Patience estava em pé, perto da janela, olhando para a rua, quando eu voltei para o quarto. Ela tirou as mechas sujas de cabelo castanho dos seus olhos e olhou cobiçosamente para as roupas em meus braços. Dei as roupas para ela.

— Vamos, coloque isso! — Virei as costas enquanto ela se despia. — Tilde me disse que você veio de um reformatório...

— Sim, senhorita.

— E que você teve um bebê. Diga-me, o que aconteceu com seu filho? — Meu coração batia na garganta; sem dúvida ela não teria fugido e deixado o bebê para trás.

— Eles o tiraram de mim — ela disse, em defesa. — Nunca mais o vi, desde que nasceu.

— Sinto muito.

— Isso está feito e acabado. Gostaria... — Ela parou, talvez pensando melhor sobre compartilhar muita coisa com essas mulheres suspeitas que a tiraram da rua. Sabia como ela se sentia. — A outra mulher me disse que talvez haja um emprego para mim aqui, como ajudante de cozinha, quem sabe?

— Você gostaria?

— Mas ela disse que tenho que conhecer o dono da casa antes, para ver se ele me aprova. — Ela procurou algum sinal de concordância em meu rosto, um sinal de que não estavam lhe pregando uma peça. Tilde estava errada; essa menina ainda era muito inocente. Gostando ou não, eu ouvia as palavras de Jude soarem em meus ouvidos: ela era muito inocente para se envolver com pessoas do tipo de Adair. Não podia deixar que lhe acontecesse o mesmo que acontecera comigo. Agarrei a mão dela.

— Me acompanhe. Não diga uma palavra, nem faça barulho.

Descemos apressadamente a escadaria de trás, a dos criados, que eu sabia que Tilde nunca usava, e atravessamos a cozinha até a entrada de serviço. Havia um punhado de moedas no canto de tábua de cortar, certamente esperando pelo entregador; peguei o dinheiro e o pressionei dentro da mão de Patience.

— Vá. Leve o dinheiro e fique com a roupa.

Ela olhou para mim como se eu tivesse ficado louca.

— Mas para onde irei? Se eu voltar para o reformatório, eles com certeza vão me castigar, e eu não posso voltar para casa, para minha família...

— Então receba seu castigo ou peça perdão à sua família. Há ainda muito mais maldade, além de tudo o que viu até agora, Patience. Vá! É para seu próprio bem — eu disse enquanto a empurrava para fora. Fechei a porta. Neste momento, a arrumadeira entrou e me olhou, desconfiada. Então eu subi para o abrigo do meu quarto.

Andava com passos apressados. Se eu havia expulsado a garota para sua própria segurança, que desculpa me restava para viver ali? Sabia que o que estava fazendo com Adair era errado, sabia que esse era um lugar perverso e ainda assim... o medo me manteve no lugar. Assim como o medo tomava conta de mim, seria só uma questão de minutos até Tilde perceber que sua presa fora solta. Então ela e Adair me caçariam como dois leões. Comecei a colocar as roupas numa sacola, já que todos os nervos do meu corpo me diziam para fugir. Fugir ou encarar uma fúria terrível.

Eu estava na rua, dentro da carruagem, e sem pensar, contava o dinheiro em minha bolsa. A carruagem me deixou no escritório de um serviço de carruagem onde comprei uma passagem para a próxima carruagem que sairia de Boston para a cidade de Nova York.

— A carruagem só sairá daqui a uma hora — o vendedor me disse. — Tem uma taberna atravessando a rua onde algumas pessoas costumam esperar até dar o horário da partida — ele comentou, solícito.

Sentei-me com um bule de chá em minha frente, minha sacola a meus pés, minha primeira chance de retomar o fôlego desde que tinha fugido. Mesmo com o medo martelando em meu coração, também me sentia estranhamente otimista; estava indo embora da casa de Adair. Quantas vezes desejei fazer isso, mas a coragem me faltara! Agora havia feito a proeza com pressa e não havia sinais de que fora descoberta. Com certeza ele não me encontraria em uma hora. Boston era uma cidade grande, e logo eu estaria na estrada e não deixaria pistas. Coloquei minhas mãos ao redor da porcelana branca para esquentá-las e me permiti um suspiro de alívio. Talvez a casa de Adair tivesse sido uma ilusão, um sonho ruim que só parecia realidade quando no meio dele. Talvez ele não tivesse poderes para me machucar aqui fora. Talvez juntar coragem para fugir fosse o único teste. A questão agora era para onde ir e o que fazer da minha vida.

De repente, notei a presença de várias pessoas às minhas costas. Adair, Alejandro, Tilde. Adair agachou-se perto de mim e sussurrou em meu ouvido:

— Venha comigo agora, Lanore, e nem pense em fazer uma cena. Posso lhe garantir que há joias em sua bolsa e, se pedir ajuda, direi às autoridades que você roubou essas preciosidades de minha casa. E os outros serão testemunhas.

A mão dele quase estraçalhou meu cotovelo quando me puxou do assento. Podia sentir sua raiva irradiando feito o calor do fogo. Não consegui olhar para nenhum deles na carruagem a caminho da casa; sentei-me, fechada em mim mesma, minha boca cerrada pelo medo. Mal tínhamos passado pela porta da frente quando ele me alcançou e me estapeou o rosto, me jogando no chão. Alejandro e Tilde passaram apressadamente por trás de mim e saíram do salão, como pássaros alçando voo antes de uma tempestade.

Pela fúria nos olhos de Adair, parecia que ele queria me quebrar em pedaços.

— O que achou que estava fazendo? Para onde estava indo?

As palavras me fugiram, mas, como esperado, ele não queria respostas. Só queria me espancar, repetidamente, até que caísse destroçada a seus pés, olhando para ele com olhos inchados e turvos de sangue. Sua raiva ainda não havia diminuído; isso era visível, já que passava a mão pelas articulações dos dedos e andava de um lado para o outro na minha frente.

— É assim que você retribui minha generosidade, minha confiança? — ele rugia. — Trago você para a minha casa, para a minha família, dou-lhe roupas, segurança... de certa maneira, você é como uma filha para mim. Eu lhe avisei: você é minha, quer goste, quer não. Você nunca, jamais me deixará, não até eu permitir que você vá.

Então ele me levantou e me carregou para a parte dos fundos da casa, a cozinha e a parte dos criados, mas todos eles desapareceram como ratos. Ele me carregou por um conjunto de escadas até o porão abandonado, depois dos barris de vinho, sacos de farinha e mobílias não utilizadas cobertas por lençóis, através de uma passagem estreita, as paredes úmidas pela friagem e, finalmente, por uma porta de mogno, terrivelmente assustadora. A luz na sala era fraca. Dona estava em pé ao lado da porta, com um robe bem apertado na cintura e arqueado, como se estivesse doente. Algo terrível estava prestes a acontecer se Dona, que geralmente se deliciava com os infortúnios alheios, estava com medo. Em sua mão havia uma teia de aranha de tiras de couro, um arreio, mas um arreio de cavalo como eu jamais tinha visto. Adair me derrubou no chão.

— Prepare-a — ele ordenou a Dona, que começou a tirar minhas roupas suadas e ensanguentadas. Atrás dele, Adair começou a tirar a roupa. Uma vez despido, Dona começou a amarrar o arreio em mim. Era um modelo de horrores e começou a torcer meu corpo numa posição anormal, uma posição de vulnerabilidade absoluta. Prendia meus braços atrás das costas e puxava minha cabeça quase ao ponto de quebrar meu pescoço. Dona soltou um gemido enquanto apertava as tiras, mas não as deixou mais soltas. Adair ergueu-se diante de mim, seus modos ameaçadores e sua pretensão muito clara.

— Chegou a hora de lhe ensinar obediência. Esperava, pelo seu bem, que não fosse necessário. Parece que seu destino é ser diferente... — Ele parou, se controlando. — Todos devem ser punidos uma vez, assim sabem o que acontecerá se tentarem de novo. Eu lhe disse que nunca me deixaria e, mesmo assim, você tentou fugir. Você nunca tentará fugir de novo. — Adair enrolou os dedos em meu cabelo e aproximou seu rosto do meu. — E lembre-se disso quando estiver de volta a seu vilarejo, com sua família e seu Jonathan: não existe nenhum lugar onde eu não possa encontrá-la. Você nunca escapará de mim.

— A garota... — eu tentei dizer, com os lábios cerrados com sangue seco.

— Isso não tem nada a ver com a garota, Lanore! Você deveria aprender a aceitar o que acontece em minha casa; você aceitará e também fará parte de tudo. Isso tem a ver com não virar as costas para mim, não me rejeitar. Eu não permitirei isso. Especialmente vindo de você, nunca esperei que você... — Ele engoliu o resto, pensando melhor, mas eu sabia o que ele queria dizer, que ele não queria se arrepender por ter entregado uma parte de seu coração a mim.

Não contarei o que aconteceu comigo naquela sala. Permita-me um pouco de privacidade, para lhe poupar dos detalhes de minha humilhação. Deveria ser suficiente saber que foi a experiência mais terrível pela qual já passei na vida. Adair não foi meu único torturador; ele também convocou Dona, ainda que fosse totalmente contra o desejo do italiano. Foi minha pitada do fogo do demônio, sobre a qual Jude me alertara, uma lição de que provocar o amor de um demônio é um grande risco. Esse amor, se é que pode ser chamado assim, nunca é doce. Um dia irá experimentá-lo da maneira que realmente é. É corrosivo. É venenoso. É como ácido derramado dentro da garganta.

Estava quase inconsciente quando eles terminaram. Abri meus olhos numa fenda e vi Adair recolhendo suas roupas do chão. Ele estava coberto de suor e seu cabelo colado ao pescoço, em cachos escuros. Dona também já havia vestido seu robe de volta e rastejava sobre as mãos e os joelhos, pálido e trêmulo, como se fosse passar mal a qualquer momento.

Adair passou a mão pelos cabelos molhados, então virou a cabeça na direção de Dona.

— Leve-a para cima e peça para alguém limpá-la — ele disse, antes de sair da sala.

Eu me encolhia de dor enquanto Dona tirava as tiras de couro. Elas tinham corroído minha pele e me deixado com dezenas de cortes, as feridas se abrindo de novo cada vez que as tiras esbarravam no sangue seco. Ele deixou o medonho instrumento no chão, as tiras fazendo o contorno oco de uma forma humana, e me pegou nos braços, da forma mais cuidadosa que jamais vira Dona fazer, antes ou depois disso.

Ele me levou ao quarto onde havia a banheira de cobre, e Alejandro esperava com baldes de água quente. Então, Alejandro me lavou gentilmente, tirando o sangue e os fluidos, mas eu mal podia aguentar seu toque e não conseguia parar de chorar.

— Estou no inferno, Alejandro. Como posso continuar assim?

Ele pegou minha mão e a cobriu com um pano.

— Você não tem escolha. Se lhe conforta saber, todos nós já passamos por isso, cada um de nós. Não há do que se envergonhar pelo que aconteceu a você, pelo menos não entre nós.

No momento em que ele estava me lavando, minhas feridas se curaram, os pequenos cortes desapareceram, as manchas roxas ficaram amareladas. Ele me secou e me envolveu numa túnica limpa, e nos deitamos juntos na cama, Alejandro encaixado atrás de mim, sem me deixar sair de perto dele.

— E agora, o que acontece? — perguntei, meus dedos entrelaçados aos dele.

— Nada. Voltará a ser como antes. Deve tentar esquecer o que foi feito com você hoje, mas não a lição. Nunca se esqueça da lição.

A noite anterior à minha partida para Boston foi horrível. Queria ficar sozinha com minhas preocupações, mas Adair insistiu em me levar para a cama. Desnecessário dizer que agora eu tinha muito medo dele, mas ele não se importou com a mudança de meu comportamento. Acho que já conhecia isso de seus outros servos e esperava que um dia, com o tempo, eu superasse o fato.

Adair tinha bebido muito, talvez para se esquecer do que havia feito para me deixar com tanto medo dele, e fumou o narguilé até que nuvens de fumaça narcótica enchessem o quarto. Aquela noite eu fui uma parceira distraída e ausente na cama: só conseguia pensar no que faria com Jonathan. Estava prestes a condená-lo à eternidade com aquele homem insano. Jonathan não tinha feito nada para merecer isso.

Também não tinha pensado no que diria à minha família quando retornasse a St. Andrew. Afinal de contas, tinha desaparecido da vida deles desde minha fuga do porto, um ano antes. Claro que deveriam ter feito perguntas ao convento e ao mestre do navio, e ouviram que eu havia chegado a Boston e desaparecido imediatamente. Talvez ainda tivessem esperanças de que eu estivesse viva e tivesse fugido para ficar com meu bebê. Será que tinham verificado com as autoridades em Boston? Será que pediram para os policiais procurarem por mim até não terem mais esperança e estarem certos de que eu não fora assassinada? Fiquei imaginando se teriam feito um falso funeral para mim em St. Andrew; não, meu pai nunca os deixaria demonstrar tais sentimentos. Em vez disso, minha mãe e minhas irmãs carregariam seu pesar com elas, pedras pesadas costuradas abaixo da pele, perto do coração.

Falando nisso, e Jonathan? O que será que ele pensava que havia acontecido comigo? Talvez que eu estivesse morta, se é que pensava em mim. As lágrimas me encheram os olhos prontamente: claro que ele pensava em mim de vez em quando, a mulher que o amara mais do que a qualquer homem no mundo! Mas tinha que encarar o fato de que todos em St. Andrew me tinham como morta. Os sobreviventes se acostumam com a morte de entes amados; ficam de luto durante semanas ou meses, mas, passado algum tempo, a lembrança é deixada no passado e só é revisitada esporadicamente, como quando tropeçamos em um antigo brinquedo querido, jogado no porão, e o deixamos novamente para trás.




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