No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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— Chega — choraminguei, enterrando-me completamente debaixo do cobertor de pele. — Não quero saber de mais nada.

— O verdadeiro caráter de um homem está em como se comporta diante da morte. — Havia um tom de escárnio na voz de Adair.

— Isso não é justo. Uma pessoa tem o direito de fazer qualquer coisa para sobreviver.

— Qualquer coisa? — Ele arqueou a sobrancelha e bufou. — De qualquer forma, achei que tinha o direito de saber que é desperdício de tempo e de energia se simpatizar com eles. Embaixo da beleza e de seus bons modos, são monstros. Há uma razão por que escolhi cada um deles. Cada um deles tem um lugar em meus planos, mas nenhum é capaz de amar alguém, exceto a si mesmos. Eles não pensariam duas vezes em entregá-la caso pudessem ganhar algo em troca. Eles poderiam até ignorar a obrigação para comigo, se acreditassem poder se livrar de tal traição. — Ele deslizou de volta para a cama, acoplando seu corpo no meu, e notei uma estranha necessidade em seu toque. — E é isso que acho atraente em você, Lanore. Você tem uma grande capacidade de amar. Anseia entregar seu coração a alguém e, quando o faz, é com um comprometimento impossível, com uma lealdade inexaurível. Acho que faria qualquer coisa pelo homem que ama. Será um sortudo aquele que um dia ganhar seu coração. Gostaria de pensar que até mesmo eu poderia ser tão sortudo.

Ele acariciou meu cabelo por um tempo antes de pegar no sono, me fazendo pensar em quanto ele sabia sobre Jonathan, o quão precisamente Adair lera meus pensamentos. A conversa toda me deu arrepios; não conseguia ver o propósito de dar vida eterna a pessoas que não mereciam, em viver rodeado, pela eternidade, por covardes e assassinos, especialmente se o que ele buscava era lealdade. Os planos dele, e eu não duvidava que ele os tivesse, me intrigavam.

E a pior parte, a parte que eu não suportava encarar, era a razão de ele ter me escolhido para fazer parte daquela família tão perversa. Deve ter visto algo em mim que me fazia como os outros; talvez estivesse escrito em minha alma que eu fora egoísta a ponto de fazer outra mulher tirar a própria vida para ter quem amava. E, quanto ao convite para amá-lo, nunca imaginei que alguém como Adair sentisse a necessidade de ser amado ou que eu fosse o tipo de mulher capaz de amar um monstro. Passei a noite nos braços de Adair, arrepiada, enquanto ele dormia profundamente.

E Uzra? Não precisava ser um místico para ver que ela não se enquadrava no padrão dos outros membros da família de Adair. Ela flutuava acima deles. Não que os outros se esquecessem dela, mas nada se falava sobre ela. Não se esperava que ela se juntasse a nós quando nos reuníamos para beber e conversar até tarde da noite depois de voltar de uma festa; ela nunca se sentava à mesa conosco para uma refeição na sala de jantar. Mas podíamos ouvir ruídos dos passos no andar de cima ou nos corredores, como um rato subindo pelas paredes de madeira.

De vez em quando, Adair a chamava até o quarto, onde ela se juntava a nós, lábios cerrados, olhos baixos, rendendo-se, sem participar. No entanto, ela me procurava, depois, quando eu estava sozinha e me deixava pentear seu cabelo ou ler para ela, o que eu assumia ser uma maneira de me dizer que não me responsabilizava pelo que acontecia na cama de Adair ou que, pelo menos, perdoava minha obediência a ele. Uma vez, sentei-me quieta para que ela pudesse pintar meu rosto à moda de sua tribo nativa, com grossos contornos de kajal ao redor de meus olhos e a linha estendida para fora, na direção das têmporas. Ela me envolveu num de seus tecidos longos e esvoaçantes de forma que só meus olhos ficassem visíveis e, devo dizer, fiquei com um visual bem exótico.

Às vezes, ela me lançava uns olhares estranhos, como se estivesse tentando falar com a minha alma, encontrar alguma forma de enviar uma mensagem a mim. Um aviso. Não acreditava precisar de nenhum aviso dela; eu sabia que Adair era um homem perigoso e que arriscava ter um grande estrago em minha alma e em minha sanidade se chegasse muito perto dele. Acreditava saber onde ficava a linha de controle e que seria capaz de parar a tempo. Que estúpido de minha parte!

Ocasionalmente, Uzra vinha ao meu quarto e me abraçava, como se quisesse me confortar. Algumas vezes ela me tirava da cama, insistindo para que eu a acompanhasse até um de seus esconderijos. Agora entendo que ela fez isso para que eu soubesse aonde ir quando viesse o dia em que teria de me esconder de Adair.

Tilde, por outro lado, não me avisou de nada quando, uma tarde, pegou-me pela mão com um suspiro irritado e, ignorando minhas perguntas, segurou-me firme e me levou até um quarto raramente usado. Lá, na mesa perto do fogo, havia um frasco de tinta, algumas agulhas dispostas em leque e um velho lenço muito manchado. Ela ajeitou-se numa cadeira, colocou os cabelos caídos atrás da orelha e não se importou nem um pouco comigo.

— Tire seu espartilho e arregace as mangas da camisa — ela ordenou, bem objetiva.

— O que está acontecendo? — quis saber.

— Não estou pedindo, sua vagabunda estúpida! — ela disse, tirando a tampa do frasco de tinta e limpando a tinta de seus dedos. — Isso é ordem de Adair. Me dê seu braço.

Rangendo os dentes, fiz o que mandou, sabendo que Tilde adorava me perturbar, e sentei-me, irritada, no banquinho oposto a ela. Ela agarrou meu punho direito e puxou meu braço para ela, girando-o para que a parte de dentro ficasse exposta; então, prendeu meu braço embaixo do dela do jeito que um ferreiro prende o casco de um cavalo entre os joelhos para colocar as ferraduras. Olhei desconfiada enquanto ela selecionava a agulha, mergulhava-a na tinta e, depois, enfiava-a na pele branca delicada da parte de dentro de meu antebraço. Eu pulei, ainda que não sentisse nada mais do que a pressão do contato.

— O que está fazendo?

— Já lhe falei, são ordens de Adair — ela grunhiu. — Estou espetando uma marca na sua pele. Chama-se tatuagem. Pelo jeito você nunca viu uma.

Olhei para os furinhos pretos, três, agora quatro; Tilde trabalhava rápido. Pareciam pintas falsas feitas com maquiagem. Depois de quase uma hora, Tilde completara o contorno de um brasão quase do tamanho de um dólar e começava a desenhar uma figura animalesca e fantástica. Levei um minuto para perceber que estava desenhando um dragão. Foi nessa hora que Adair entrou. Ele meneou a cabeça para assistir Tilde fazer o trabalho; passou o dedão sobre o desenho, agora cheio de tinta preta e sangue vermelho, para ter uma visão melhor.

— Sabe o que é isso? — ele me perguntou, orgulhoso. Balancei minha cabeça. — É o brasão de minha família. Ou melhor, o símbolo de minha linhagem adotiva — ele corrigiu. — É o emblema do selo do qual lhe falei.

— Por que está fazendo isso comigo? O que isso significa? — perguntei.

Ele pegou o lenço e limpou a tatuagem, para melhor admirá-la.

— O que acha que isso significa? Estou marcando você como minha.

— Isso é realmente necessário? — perguntei, tentando soltar meu braço, o que só me rendeu um leve tapa na cara, dado por Tilde. — Suponho que faça isso com todas as suas criaturas. E a sua, Tilde? Posso ver, assim vou saber como vai ficar quando...

— Não tenho uma — ela disse abruptamente, sem tirar os olhos do trabalho.

— Não tem? — Olhei para Adair. — Então, por que eu?

— É algo especial que escolhi dar a você. Significa que é minha para sempre.

Não gostei do ar de posse no olhar dele.

— Há outras formas de demonstrar uma intenção tão especial a uma garota. Um anel, um colar, algum objeto de sua devoção é um método mais tradicional, acredito — eu disse, testando-o. Minha alegria pareceu alegrá-lo.

— Esses são apenas momentos, triviais e passageiros. Pode-se tirar um anel; não conseguirá fazer a mesma coisa com isso.

Olhei para o trabalho manual de Tilde.

— Quer dizer que... minha pele ficará pintada para sempre?

Com isso, ele deu aquele sorriso sarcástico que já conhecia quando estava prestes a fazer algo doloroso. Ele puxou meu braço para longe de Tilde e o prendeu embaixo do seu, respirou fundo, pegou uma das agulhas e enfiou no centro do trabalho manual de Tilde, com cuidado para fincar bem no meio do desenho. Uma dor lancinante percorreu meu antebraço, as picadas das agulhas de Tilde vindo à tona todas de uma vez só.

— Pela minha mão e intenção — ele disse para o ar, como uma proclamação, e, assim, a ferida doeu como se tivessem esfregado sal na carne aberta. Ele girou meu braço bem forte para poder olhar novamente a tatuagem e eu retorci de dor antes de ele me soltar.

— Lanore, assim você me surpreende! — Adair disse, apesar do exagero para fazer drama. — Achei que fosse gostar de saber que eu a tenho em tão alta estima que quis lhe possuir pela eternidade.

O problema era que ele estava certo: aquilo realmente agradava à minha parte perversa que queria que um homem me desejasse tanto que quisesse queimar seu nome em minha pele. Mas não estava tão iludida a ponto de não ficar alarmada; também pelo fato de ser tratada com um animal.

Semanas se passaram dessa maneira. Eu estava satisfeita com Adair na maioria dos dias: ele era atencioso, bondoso e generoso. Fazíamos amor ardentemente. Mas havia vezes que ele agia com crueldade, sem razão aparente, a não ser por seu próprio prazer. Nessas vezes, Alejandro, Tilde, Dona e eu nos tornávamos bobos da corte tentando agradar um regente vingativo e fazê-lo mudar seu humor terrível ou, pelo menos, tentando escapar de ser o objeto da sua crueldade. Nesses momentos, sentia-me trancada num manicômio, desesperada para sair, mas sabia que não podia. Os outros ainda estavam com Adair, mesmo após décadas desse tratamento exasperante. Disseram-me que Uzra tentara fugir dele incontáveis vezes. Com certeza, se existisse uma maneira de escapar, eles já o teriam feito.

Além disso, apesar de minha preocupação com Adair, Jonathan começou a voltar para os meus pensamentos. No início era culpa o que eu sentia, pois havia outro homem em minha vida (como se eu tivesse opção!). Ainda assim, por mais logicamente que pensasse sobre o assunto, por mais que me lembrasse vigorosamente de como me tratara mal, como havia sido frio, sentia falta de Jonathan e sentia estar sendo desleal a ele. Não tinha importância que ele estava prometido a outra mulher e que abdicara da posse de meu coração: dormir com um homem amando outro parecia errado.

E eu ainda amava Jonathan. Um exame profundo de meu coração me disse isso. Por mais que estivesse lisonjeada com as atenções de Adair, contente por um homem que já vira o mundo me achar inebriante, em meu coração, sabia que, se Jonathan chegasse à cidade amanhã, eu abandonaria Adair sem nem mesmo dizer adeus. Estava só sobrevivendo. A única esperança que me restava era um dia ver Jonathan novamente.

29

O tempo passava vagaroso, imensurável. Havia quanto tempo estava com Adair: seis semanas, seis meses? Já tinha perdido a conta e estava convencida de que não tinha importância; na minha nova condição, nunca mais teria que contar o tempo de novo. O tempo, em todo seu infinito, estava aberto a mim como o oceano e, como da primeira vez que o vi, muito além de meu alcance.



Numa tarde azul e dourada de verão, ouvi uma batida na porta da frente. Como estava passando por lá e não havia nenhum criado por perto (com certeza estavam se recuperando da bebedeira com o vinho tinto roubado da despensa), eu abri a porta, pensando que seria um vendedor ou alguém para visitar Adair. Em vez disso, em pé nos degraus, bolsa na mão, estava o carismático pastor de olhos esbugalhados de Saco.

Ficou boquiaberto ao me ver e seu rosto perspicaz se iluminou de prazer.

— Conheço você, senhorita, não conheço? Reconheço seu lindo rosto, pois um rosto como o seu eu não esqueceria — ele me disse, esgueirando-se para dentro do hall sem ser convidado. Ele esbarrou sua capa empoeirada em mim e tirou o chapéu de três pontas da cabeça.

— Também o conheço, senhor — respondi horrorizada, esquivando-me, incapaz de adivinhar o quê no mundo o trouxera até ali.

— Bem, não mantenha em suspense, então. Qual é seu nome e onde nos encontramos? — ele perguntou, ainda sorrindo, tentando esconder os cálculos que fazia em sua cabeça para lembrar onde havíamos nos conhecido e em quais circunstâncias. Então, em vez de lhe responder, perguntei:

— Por que veio aqui? Você conhece Adair? — Minha cautela parecia diverti-lo.

— Claro que eu o conheço, senão, por que apareceria aqui em sua porta? Eu o conheço da mesma forma que você o conhece, posso apostar.

Então, era verdade, ele e eu éramos a mesma coisa: duas criaturas de Adair. E finalmente ele se lembrou, seu rosto se iluminou com puro prazer.

— Ah, agora me lembro! Aquele pequeno vilarejo no Maine, não muito longe do assentamento de Acadia! É de lá que conheço você! Sem aquele vestido marrom mal-ajambrado, você está praticamente irreconhecível! Vestida em seda azul e renda francesa! É uma transformação formidável, dou-lhe minha palavra. Deixou os puritanos para trás sem arrependimentos, não é? São sempre os mais comportados que têm o coração mais selvagem — ele disse, semicerrando os olhos maliciosamente, provavelmente pensando que tínhamos uma boa chance de terminarmos na cama. Tudo o que tinha que fazer era pedir para Adair, e era muito improvável que Adair lhe negasse. Naquele momento, fomos interrompidos pela voz de Adair, vinda do patamar do andar de cima.

— Vejam só quem apareceu na minha porta! Jude, veio dar uma trégua de suas viagens? Entre, entre, já faz muito tempo que não o vejo — ele disse enquanto descia correndo pelas escadas. Depois de abraçar Jude afetuosamente, notou que ele olhava fixamente para mim, em regozijo, e então Adair perguntou: — O que é isso? Vocês já se conhecem?

— Na verdade, já — Jude disse, rodando à minha volta, fazendo um grande espetáculo sobre a minha figura. — Escrevi para você falando sobre uma jovem, um tempo atrás. Você se lembra da carta descrevendo uma beleza provavelmente virgem com um traço selvagem?

Eu me recompus, queixo para cima.

— O que quer dizer com isso?

Mas Adair só gargalhou e tocou meu rosto para amainar minha raiva.

— Tudo bem, minha querida. Acho que o que ele quis dizer é bem simples, e você não estaria aqui ao meu lado se não fosse verdade.

Os olhos do visitante indesejado passaram por mim como as mãos de uma dona de casa provando um pedaço de fruta.

— Bem, posso apostar que ela não é mais uma virgem, ahn? Então você transformou essa mocinha de pavio curto em sua esposa espiritual, não foi? — Jude perguntou a Adair num tom de desdém e se dirigiu a mim. — Deve ser seu destino, minha querida, você ter vindo parar aqui, não acha? E você tem sorte, Adair, por não precisar ter feito a jornada até lá para buscá-la; acredite em mim, não é uma viagem que desejaria a ninguém. Ela também me deu um pouquinho de trabalho quando eu estava lá. Não quis me apresentar o camarada sobre quem lhe escrevi.

Ele estava se referindo a Jonathan. Segurei minha língua.

— Gostaria que você parasse com essa bobagem de “esposa espiritual”, pelo menos quando estiver comigo. Não me serve para nada esse lero-lero espiritual — Adair falou ao jogar um braço sobre o ombro de Jude e levá-lo até o salão de visitas, onde o visitante caminhou diretamente até as garrafas de vinho. — Mas de quem você está falando? De que camarada?

O pastor encheu uma taça para si.

— Você não lê minhas cartas? Para que pedir que eu escreva sobre minhas observações se não vai prestar atenção nelas? Estava tudo no meu relatório, sobre o que encontrei naquele vilarejo miserável no fim do mundo, no canto mais ao norte do território. Sua última aquisição aqui — ele fez um sinal com a cabeça enquanto tomou um gole de vinho — me impediu de conhecer um jovem extraordinário. Pelo que pude ver, ela o protegia com muito ciúme. Esse homem é exatamente o que procura, se as histórias que ouvi sobre ele forem verdadeiras.

Minha pele se arrepiou; algo terrível estava prestes a acontecer. Fiquei paralisada de apreensão.

Adair colocou vinho para ele e não o ofereceu para mim.

— Isso é verdade, Lanore? — Eu não sabia como responder e, de qualquer maneira, naquele momento o bom senso havia me abandonado. — Pelo seu silêncio posso dizer que sim. Quando ia me contar sobre ele? — Adair perguntou.

— Seu espião entendeu tudo errado. Esse homem não é digno de sua atenção. — Nunca imaginei dizer palavras como essas sobre Jonathan. — Ele é só um amigo.

— Ah, não é digno de minha atenção! Estamos falando de Jonathan, o homem de quem você falou maravilhas para Alej? Não fique surpresa; claro que Alejandro me contou. Ele sabe que não deve manter segredos. Então, para esclarecermos, esse Jonathan, esse ideal de beleza, é o homem que ama? Estou decepcionado, Lanore, de saber o quanto você pode ser facilmente levada por um rosto bonito...

— Quem é você para falar! — eu disse enraivecida. — Quando se fala em amor à beleza, quem é que junta criaturas bonitas em volta de si como um colecionador de artes? Se o amor à beleza é sinal de superficialidade, você é muito mais culpado do que eu...

— Ah, não se ofenda tão rápido. Só estou brincando. O simples fato desse tal de Jonathan ser o homem que você acredita amar é razão suficiente para eu querer conhecê-lo, não acha?

Jude levantou as sobrancelhas.

— Se eu não o conhecesse, Adair, diria que está levemente enciumado.

Para que Adair mudasse de ideia, eu implorei:

— Tenha misericórdia de Jonathan! Ele tem uma família que depende dele. Não quero que ele seja trazido para isso. Quanto a amá-lo... você está certo, mas ele já saiu da minha vida. Eu já o amei uma vez, não o amo mais.

Adair inclinou a cabeça e me avaliou.

— Ah, minha querida, você está mentindo. Você já teria desistido dele agora, se fosse o caso. Mas ainda o ama. Posso sentir aqui — ele disse e tocou meu peito acima do coração. — Quero conhecer esse homem de beleza extraordinária que encantou nossa Lanore.

— Se isso tem a ver com ir para cama com ele, não vai adiantar. Ele não é... como Alejandro ou Dona.

Jude soltou uma gargalhada rude, então cobriu a boca rapidamente e, por um momento, pareceu que Adair, borbulhando de raiva, ia me bater.

— Acha que estou interessado nesse homem só para poder copular com ele? Acha que esse seria o meu único uso para um homem como o seu Jonathan? Não, Lanore, quero conhecê-lo. Quero ver por que ele é tão merecedor de seu amor. Talvez sejamos almas gêmeas, ele e eu. Seria bom ter um novo companheiro, um amigo. Estou cansado de estar rodeado por bajuladores. Vocês não passam de criados, traidores maquiavélicos, arrogantes. Estou cansado de todos vocês. — Adair saiu e bateu o copo vazio sobre o aparador. — Além do que, que reclamações você teria sobre a vida aqui? Seus dias são plenos de prazer e conforto. Já lhe dei tudo o que queria, tratei-a como a uma princesa. Ampliei seus horizontes, não foi? Livrei sua mente das limitações impostas por aqueles ministros e pastores ignorantes, e lhe mostrei segredos que os sábios passam a vida buscando. Dei-lhe todas essas coisas gratuitamente, minha querida, não foi? Francamente, sua ingratidão me ofende.

Mordi minha língua, sabendo que a reação não seria nada boa se eu falasse sobre tudo o que ele me havia feito passar. O que poderia fazer, exceto baixar a cabeça e murmurar...

— Desculpe-me, Adair.

Ele abriu e fechou as mandíbulas, pressionando as articulações dos dedos na mesa, usando o silêncio entre nós para mostrar que sua fúria estava passando.

— Se Jonathan é seu amigo de verdade, imagino que queira compartilhar sua boa sorte com ele.

Aquela devia ser a visão de Adair sobre minha vida com ele, mas apenas demonstrava o tamanho de sua desilusão. A verdade era mais complexa; por mais grata que eu fosse, também tinha medo dele e me sentia uma prisioneira naquela casa. Tinha sido transformada numa prostituta e não queria que Jonathan me visse assim, quanto mais trazê-lo a esse sofrimento comigo.

Quando saía da sala, Adair deu-me um sorriso falso por sobre o ombro.

— Não pense, em nenhum momento sequer, que pode me enganar, Lanore. Você protesta, mas, em seu coração, você também deseja isso.

Não podia deixar que Jonathan tivesse o mesmo destino que o meu; jamais.

— Jude não está exagerando: Jonathan vive longe, muito longe — continuei, ignorando seu ultraje. — Teria que viajar durante três dias de navio e carruagem, e, no final, encontraria nada além de floresta e pasto. Sem festas, sem jogos de azar. Nem mesmo uma taverna para animá-lo.

Adair me estudou por um segundo.

— Muito bem, então. Eu não farei esta viagem, se é tão tediosa assim como diz. Você a fará e o trará para mim. Este é um bom teste para sua lealdade, não acha?

Meu coração partiu.

Durante a estadia na mansão, Jude ia conosco às festas, mas, ao final de uma noite de bebedeira, quando o grupo ia para os quartos, Adair não permitia que ele nos acompanhasse lá dentro, colocando um ombro na porta, com um sorriso falso e um boa-noite festivo.

A estadia de Jude foi curta. Ele passou uma tarde a portas fechadas com Adair no estúdio e, depois, o vi enchendo sua bolsa de moedas; com certeza Adair o estava recompensando por algo.

No dia de sua partida, Jude me procurou enquanto estava costurando na sala do desjejum, aproveitando a luz do sol. Ele fez uma mesura, como se eu fosse a dona da casa, segurando o chapéu nas mãos.

— Ponto cruz? Estou surpreso em ver que você ainda pegue em agulha e linha, Lanore. Certamente tem criados para fazer as tarefas domésticas — ele disse. — Mas, pensando bem, é uma boa ideia praticar suas habilidades. A vida com Adair não será sempre assim, sabe: a mansão, os criados, as riquezas na ponta dos dedos. Haverá tempos magros quando precisará cuidar de si mesma, se é que minha experiência pode lhe ser útil — ele disse, sorrindo com melan­colia.

— Obrigada pelo conselho — eu disse friamente, demonstrando minha intolerância com sua presença. — Está vendo que estou ocupada; tem algum motivo para me procurar?

— Não vou mais abusar de sua boa vontade, senhorita Lanore — ele respondeu quase docilmente. — Irei embora hoje.

— De minha boa vontade? Meus sentimentos não são considerados no que tange à sua presença nessa casa ou não. O desejo de Adair é tudo o que interessa.

O pastor deu uma risada, batendo o chapéu na perna para tirar o pó.

— Lanore, com certeza você sabe que Adair leva em consideração os seus desejos na maioria das coisas. Ele gosta de você; acho que deve ser muito especial para ele. Não me importo em lhe dizer que nunca o vi agir dessa forma antes... Ousaria dizer que ele nunca esteve tão envolvido com uma mulher. — Tenho que admitir ter ficado lisonjeada com as palavras dele, apesar de manter a cabeça baixa sobre a costura e tentar não demonstrar nada. Jude, então, fixou seu olhar maníaco sobre mim.

— Eu também vim para lhe prevenir. É um jogo perigoso, esse que você está jogando. Há uma razão para o resto de nós mantermos uma distância de Adair, e aprendemos nossa lição da maneira mais difícil. Mas, agora, você mostrou-lhe o amor e isso deu a ele a noção de que ele é merecedor de tal devoção. Alguma vez já pensou que a única coisa que mantém o demônio sob controle é o fato de ele saber o quanto é desprezado? Até mesmo o demônio, às vezes, anseia por simpatia, mas simpatia pelo demônio é o combustível para a chama. Seu amor o fará mais forte, provavelmente de uma maneira que fará você se arrepender.

Seu aviso me surpreendeu e me deixou agitada; não era algo que esperava dele. Mas não disse nada, esperando que ele continuasse.

— Tenho uma pergunta para você e espero que seja honesta comigo. O que uma garota como você vê em Adair? Já olhei dentro de seu coração e vi que é selvagem e aventureiro. Ele lhe apresentou o mundo dos prazeres carnais e você o tomou de uma forma que somente uma criança criada pelos puritanos o faria, para o deleite de Adair, devo dizer. Talvez sua impetuosidade seja apenas tolice, Lanore; já pensou nisso? Entregue seu lindo corpo a Adair, se isso é o que quer, mas por que daria seu coração para um homem que só vai abusar dele? Ele não é merecedor de sua lealdade, do seu amor. Está sendo irresponsável com seu coração, Lanore. Acho que é inocente demais para se envolver com pessoas do tipo de Adair. Perdoe-me por dizer o que penso, mas é para o seu próprio bem.




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