No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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— Não existe um St. Andrew nesta cidade há, humm, pelo menos cem anos — diz Luke, trivialmente, atormentado por ser repreendido por uma garota fingindo ter nascido ali, mentindo sobre um fato sem a menor importância e que não lhe fará nenhum bem. — Desde a Guerra Civil. Ou, pelo menos, é isso que me disseram.

Ela aponta o bisturi para ele para chamar a atenção.

— Veja bem, não que eu seja perigosa, mas, se você me ajudar a fugir, não vou machucar mais ninguém. — Ela fala como se fosse ele quem não tivesse razão. — Deixa eu mostrar uma coisa para você.

Então, sem avisar, ela aponta o bisturi para si e faz um corte no peito. Uma linha larga e comprida, que vem do seio esquerdo e percorre toda a área da costela embaixo de seu seio direito. Luke fica petrificado enquanto uma linha vermelha surge em sua pele branca. O sangue jorra do corte, os tecidos carnudos avermelhados começam a sair pela abertura.

— Oh, meu Deus! — ele diz. “Que diabos há de errado com essa garota?! Será que ela é louca? Será que tem algum tipo de desejo de morte?” — Ele começa a caminhar em direção à maca.

— Fique longe! — ela grita, golpeando com o bisturi na direção dele novamente. — Só olhe. Preste atenção!

Ela empina o torso, braços abertos, como se quisesse oferecer-lhe uma visão melhor, mas Luke consegue enxergar bem, apenas não consegue acreditar no que está vendo. Os dois lados do corte estão deslizando um em direção ao outro, como o rebento de uma planta, juntando-se, entrelaçando-se. O corte para de sangrar e começa a cicatrizar. Durante todo o processo, a garota respirava com dificuldade, mas não demonstrava nenhum sinal de dor.

Luke não tem certeza se seus pés estão no chão. Está assistindo ao impossível, ao impossível! O que deve pensar? Tinha enlouquecido ou estava sonhando? Estava dormindo no sofá do vestiário dos médicos? O que quer que tenha visto, sua mente se recusa a aceitar e começa a bloquear.

— Que diabos... — ele diz quase num sussurro. Volta a respirar, ofegante, seu rosto vermelho. Sente que vai vomitar.

— Não chame o policial. Eu explicarei tudo a você, juro, só não grite para pedir ajuda, ok?

Enquanto Luke tenta se equilibrar sobre as pernas, percebe que a Emergência está totalmente quieta. Será que tem alguém para ouvi-lo caso decida gritar? Onde está Judy, onde está o agente? É como se a bruxa da Bela Adormecida tivesse entrado no pavilhão e jogado um feitiço, colocando todos para dormir. Do lado de fora da sala de exames está escuro, as luzes fracas, como de costume, para o turno da noite. Os barulhos habituais (a risada vinda de um programa de TV no fundo do corredor e o tilintar metálico de dentro da máquina de refrigerante) tinham sumido. Não há o zunido da enceradeira trabalhando sem parar pelos corredores vazios. É só Luke, sua paciente e o barulho abafado do vento batendo na lateral do hospital, tentando entrar.

— O que foi isso? Como fez isso? — perguntou Luke, incapaz de disfarçar o horror em sua voz. Ele desliza de novo sobre o banquinho para evitar despencar no chão. — O que você é?

A última pergunta parece atingi-la como um soco no estômago. Ela deixa a cabeça cair, os cachos enrolados e sedosos cobrindo o rosto.

— Isso, bem, isso é algo que não posso lhe contar. Não sei mais o que eu sou. Não faço ideia.

Isso é impossível! Coisas desse tipo não acontecem. Não há explicação... O que ela é: um mutante? Feita de material sintético? Um monstro?

E, ainda sim, ela parece normal, pensa o médico, à medida que seu batimento cardíaco se acelera novamente e o sangue lateja em seus ouvidos. O chão de linóleo começa a se mexer sob seus pés.

— Nós voltamos aqui, ele e eu, porque sentimos falta do lugar. Sabíamos que tudo estaria diferente, que todos já teriam morrido, mas tínhamos saudade do que tivemos antes — relatou a jovem com melancolia, olhando além do médico, falando para ninguém em particular.

A sensação que teve assim que a vira esta noite, o formigamento, o borbulho, arcos entre eles, finos e elétricos. Ele precisa saber.

— Ok — ele diz, tremendo, mãos sobre os joelhos. — Isso é loucura, mas vá em frente. Estou ouvindo.

Ela respira profundamente e fecha os olhos por um momento, como se estivesse se preparando para mergulhar. E, então, começa a falar.

2

TERRITÓRIO DO MAINE, 1809



Começarei pelo princípio de tudo, pois é a parte que faz sentido para mim e que gravei em minha memória, temerosa de perdê-la ao longo de minha jornada, no desenrolar infinito do tempo.

Minha primeira lembrança vívida e clara de Jonathan St. Andrew é numa ensolarada manhã de domingo na igreja. Ele sentava-se no fundo, nos lugares reservados à sua família, em frente do salão da congregação. Na época, tinha 14 anos e já era tão alto quanto qualquer outro homem na vila. Quase tão alto quanto seu pai, Charles, o homem que fundara nosso pequeno povoa­do. Charles St. Andrew fora um charmoso capitão do exército, ouvi dizer, mas, nessa época, já era de meia-idade e tinha a barriga mole dos aristocratas.

Jonathan não estava prestando atenção na cerimônia, mas provavelmente poucos de nós ali presentes estávamos. O culto de domingo podia durar quatro horas (até oito, se o pastor se considerasse um exímio orador), então, quem poderia honestamente dizer que ficava atento a cada palavra do pastor? Talvez a mãe de Jonathan, Ruth, que sentava ao lado dele. Ela vinha de uma linha de teólogos de Boston e daria um bom sermão no pastor Gilbert se sentisse que a pregação não tivesse sido suficientemente rigorosa. Almas estavam em perigo e, sem dúvida, ela achava que as almas nessa cidade isolada, que ficava no meio do nada, distante das influências civilizadas, estavam particularmente em risco. No entanto, Gilbert não era fanático e quatro horas era geralmente o seu limite; assim, sabíamos que logo seríamos dispensados para a glória de uma tarde maravilhosa.

Observar Jonathan era o passatempo favorito das garotas do povoado, mas, naquele domingo em particular, era Jonathan quem observava: ele não disfarçava seu olhar para Tenebraes Poirier. Seu olhar de contemplação não se desviou dela por bons dez minutos, os olhos marotos fixos no rosto encantador de Tenebraes e em seu pescoço de cisne, porém, principalmente em seus seios, que pressionavam o fino algodão de seu corpete cada vez que respirava. Aparentemente ele não se importava que Tenebraes fosse muitos anos mais velha do que ele e que estivesse prometida a Matthew Comstock desde que tinha 6 anos.

Aquilo era amor? Fiquei me perguntando enquanto o observava do alto da frisa, onde meu pai e eu sentávamos com as outras famílias pobres. Aquele domingo só éramos meu pai e eu, o restante da família estava na igreja católica do outro lado da cidade, praticando a fé de minha mãe, que veio de uma colônia acadiana a nordeste. Com minha bochecha encostada no antebraço, observei Jonathan intensamente, como só uma garota apaixonada poderia fazer. A certa altura, Jonathan parecia não se sentir bem, engolindo com dificuldade e finalmente virando as costas para Tenebraes, que não se dava conta do efeito que causava no filho favorito da cidade.

Se Jonathan estivesse apaixonado por Tenebraes, a solução seria me atirar do mezanino da congregação na frente de todos. Pois eu sabia, aos 12 anos, com absoluta clareza, que amava Jonathan com todo o meu coração e que, se não pudesse passar minha vida com ele, preferiria morrer. Sentei-me ao lado de meu pai até o final da cerimônia, o coração martelando em minha garganta, lágrimas se formando no fundo dos olhos, apesar de ter dito a mim mesma que era uma tola por me deixar levar por algo que não fazia sentido.

Quando a cerimônia terminou, meu pai, Kieran, pegou minha mão e me levou escada abaixo para nos reunirmos com nossos vizinhos no gramado comunitário. Este era o prêmio por ter ficado até o final da cerimônia: a oportunidade de conversar com nossos vizinhos, relaxar um pouco depois de seis dias de trabalho árduo e tedioso. Para alguns, era o único contato com pessoas fora da família em toda a semana, a única chance de ouvir as últimas novidades e falatórios. Fiquei atrás de meu pai enquanto ele conversava com dois de nossos vizinhos, espiando por trás dele e tentando encontrar Jonathan, torcendo para que ele não estivesse com Tenebraes. Ele estava em pé atrás de seus pais, sozinho, com o olhar fixo às costas deles. Claramente queria ir embora, mas era melhor ter desejado que nevasse em julho: a socialização depois do culto durava pelo menos uma hora, até mais se o tempo estivesse agradável como estava aquele dia, e os fiéis praticamente tinham que ser carregados. O pai dele tinha dupla incumbência, pois havia muitos homens que viam os domingos como uma oportunidade de falar com o proprietário das terras ou de aumentar sua fortuna de alguma forma. Pobre Charles St. Andrew! Não percebi, até muitos anos depois, o fardo que tinha que carregar.

Onde encontrei coragem para fazer o que fiz em seguida? Talvez fosse o desespero e a determinação de não perder Jonathan para Tenebraes que me levaram a me afastar de meu pai. Assim que tive certeza de que ele não notara minha ausência, atravessei o gramado apressadamente em direção a Jonathan, entrecortando os grupos de adultos que conversavam. Eu era miudinha naquela idade e as saias volumosas das senhoras facilmente me escondiam dos olhos dos pais, até que encontrei Jonathan.

— Jonathan. Jonathan St. Andrew — eu disse, mas a minha voz saiu como um grunhido.

Aqueles lindos olhos negros olharam para mim e só para mim pela primeira vez; meu coração teve um sobressalto.

— Sim? O que você quer?

O que eu queria? Agora que tinha a atenção dele, não fazia ideia do que dizer.

— Você é uma das McIlvrae, não é? — Jonathan perguntou, desconfiado. — Nevin é seu irmão.

Enrubesci quando me lembrei do incidente. Por que não pensei sobre isso antes de ir falar com ele? Na primavera anterior, Nevin tinha feito uma emboscada para Jonathan do lado de fora do armazém e tirara sangue do nariz dele antes que os adultos os separassem. Nevin tinha um ódio mortal de Jonathan por razões desconhecidas de todos, exceto do próprio Nevin. Meu pai pedira desculpas a Charles St. Andrew pelo que foi considerado nada além de uma briga de garotos, destituída de qualquer maldade. O que nenhum dos pais sabia era que Nevin, sem sombra de dúvida, mataria Jonathan se tivesse uma oportunidade.

— O que você quer? É um dos truques de Nevin?

Olhei para ele, atônita.

— Eu, eu gostaria de lhe perguntar uma coisa. — Mas não conseguia falar na presença de todos aqueles adultos. Era só uma questão de tempo para que os pais de Jonathan percebessem que havia uma garota no meio deles e se perguntariam que diabos a filha mais velha de Kieran McIlvrae estava fazendo e se, de fato, os filhos dos McIlvrae cultivavam alguma estranha obsessão em relação a seu filho.

Segurei a mão dele entre as minhas mãos.

— Venha comigo! — Eu o guiei pela multidão, de volta ao vestíbulo vazio da igreja e, por razões que nunca saberei, ele me obedeceu. Estranhamente, ninguém percebeu nossa saída, ninguém gritou para nos impedir de sairmos juntos, sozinhos. Ninguém saiu para nos acompanhar. Foi como se o destino também tivesse conspirado para que Jonathan e eu tivéssemos nosso primeiro momento juntos.

Fomos até a chapelaria, com seu piso de pedra frio e sua alcova escura. O som das vozes parecia longínquo, somente murmúrios e pedaços entrecortados de conversa vindos do gramado. Jonathan ficou incomodado, confuso.

— Então, o que gostaria de me dizer? — ele perguntou, com um toque de impaciência na voz.

Tinha intenção de lhe perguntar sobre Tenebraes. Queria perguntar sobre todas as garotas do vilarejo, aquelas que lhe interessavam e se tinha sido prometido para alguma delas. Mas não consegui; essas perguntas ficaram engasgadas na minha garganta e me levaram à beira das lágrimas.

Assim, em desespero, inclinei-me para a frente e pressionei meus lábios contra os dele. Podia notar que ele estava surpreso, pelo jeito que se esquivou, vagarosamente, antes de retomar o controle. E, então, fez algo inesperado: beijou de volta. Ele inclinou-se sobre mim, buscando meus lábios e respirando em minha boca. Foi um beijo forte, faminto e desajeitado, e muito mais do que eu esperava. Antes que eu tivesse a chance de ficar assustada, ele me encostou na parede, sua boca ainda sobre a minha, e se pressionou contra mim até eu tocar no lugar secreto escondido debaixo da parte da frente de suas calças e embaixo do tecido de sua jaqueta. Ele deixou escapar um gemido, a primeira vez que eu ouvi um gemido de prazer vindo de outra pessoa. Sem nenhuma palavra, ele pegou minha mão e trouxe para a frente de sua calça, e o senti estremecer enquanto soltava outro gemido.

Tirei minha mão, que formigava, ainda sentindo a excitação dele.

Ele ofegava, tentando recuperar o controle, confuso por eu ter me desvencilhado dele.

— Não era isso que você queria? — ele perguntou, estudando meu rosto, um pouco mais do que preocupado. — Foi você quem me beijou.

— Eu queria... — As palavras se atropelavam. — Queria perguntar... Tenebraes...

— Tenebraes? — Ele deu um passo para trás, alisando a frente do casaco. — O que tem Tenebraes? Que diferença... — Ele recapitulou e talvez tenha percebido que fora observado na igreja. Balançou a cabeça, como que colocando de lado a própria ideia de Tenebraes Poirier. — E qual é o seu nome? Qual das irmãs McIlvrae você é?

Não poderia culpá-lo por não ter certeza: nós éramos três irmãs.

— Lanore — respondi.

— Não é um nome muito bonito, é? — ele disse, sem perceber que cada palavrinha poderia ferir o coração de uma jovem. — Vou chamar você de Lanny, se não se importa. Então, Lanny, sabe que é uma garota muito travessa. — Havia um tom de brincadeira em sua voz, suficiente para saber que ele não estava seriamente zangado comigo. — Ninguém nunca lhe falou que não deveria provocar um garoto desse jeito, especialmente aqueles que você não conhece?

— Mas eu conheço você. Todo mundo conhece você — eu disse, um pouco preocupada que ele pudesse me achar frívola. Ele era o filho mais velho do homem mais rico da cidade, o proprietário da madeireira ao redor da qual o vilarejo inteiro vivia; obviamente todos sabiam quem ele era. — E... e acho que amo você. Um dia serei sua esposa.

Jonathan levantou uma sobrancelha cinicamente.

— Saber meu nome é uma coisa, mas como pode saber se me ama? Como pode entregar seu coração a mim? Você nem me conhece, Lanny, mas, ainda assim, já declarou ser minha. — Ele ajeitou a jaqueta mais uma vez. — Devíamos voltar lá para fora antes que alguém venha nos procurar. Seria melhor não sermos vistos juntos, você não acha? Você deve ir primeiro.

Fiquei lá parada por um segundo, chocada. Estava confusa, ainda possuída pelo rastro fantástico de seu desejo, seu beijo e a memória de sua excitação na palma de minha mão. De qualquer forma, ele entendera errado: não tinha me oferecido a ele. Tinha declarado que ele me pertencia.

— Está bem — eu disse, e a decepção deve ter sido evidente em minha voz, pois Jonathan me deu seu sorriso mais belo.

— Não se preocupe, Lanny! Tem o próximo domingo; nós nos veremos depois do culto, prometo. Quem sabe eu a convenço a me dar outro beijo?

Será que preciso lhe contar sobre Jonathan, o meu Jonathan, para que então compreenda como eu podia ter tanta certeza de minha devoção? Ele era o primogênito de Charles e Ruth St. Andrew, e eles estavam tão emocionados por ter um filho que lhe deram um nome assim que nasceu, batizaram-no em um mês e o adoraram de modo irresponsável numa época em que a maioria dos pais só dava nomes às crianças depois de elas terem vivido por algum tempo e provado que tinham chance de sobrevivência. O pai deu uma grande festa enquanto Ruth ainda se recuperava na cama: todas as pessoas da cidade vieram para o ponche de rum e chá com açúcar, bolo de ameixa e biscoitos de melaço. Contrataram um violonista acadiano, deram tantas risadas e tocaram tanta música tão perto do nascimento do garoto, que parecia que o pai estava provocando o demônio: “Tenta aparecer por aqui e levar o meu garoto! Tente e veja o que terá!”.

Era evidente, desde a mais tenra idade, que Jonathan era incomum: ele era excepcionalmente inteligente, excepcionalmente forte, excepcionalmente saudável e, acima de tudo, excepcionalmente belo. As mulheres sentavam embevecidas ao lado do berço, implorando para carregá-lo, e fingiam que aquele pacotinho bem-feito de cachinhos pretos e delicados era delas. Mesmo os homens e os lenhadores mais durões, que trabalhavam para St. Andrew na operação da madeireira, ficavam estranhamente dóceis quando estavam perto do bebê.

Quando Jonathan completou 12 anos, não havia como negar que havia alguma coisa sobrenatural nele, e parecia óbvio atribuir isso a sua beleza. Ele era uma maravilha; a perfeição. Não era algo que se pudesse dizer sobre muita gente naquela época, quando as pessoas eram desfiguradas por um número variado de causas: sarampo ou acidente; queimadura na fornalha; magreza por desnutrição; desdentadas aos 30 anos; tortas por causa de algum osso consertado de forma errada; com cicatrizes; paralíticas; sarnentas por falta de higiene; com partes do corpo amputadas por causa do frio da floresta. Mas não havia uma só marca de desfiguração em Jonathan. Ele se tornara alto, ereto e de ombros largos, tão majestoso quanto as árvores de sua propriedade. Sua pele tinha um tom creme; seus cabelos eram negros, lisos e tão brilhantes quanto as asas da graúna; seus olhos eram escuros e profundos, como os remotos recessos do Allagash. Ele era simplesmente lindo.

Seria uma bênção ou uma maldição ter um garoto como Jonathan vivendo entre nós? Pobre de nós, garotas, eu digo; pense no efeito que um garoto como Jonathan tem nas meninas de um pequeno vilarejo, em uma cidadezinha tão limitada que há poucas outras distrações e onde é impossível evitar o contato com ele. Ele era uma tentação constante. Sempre havia a chance de vê-lo saindo do armazém ou enquanto atravessava o campo aparentemente numa caminhada, mas, na verdade, ele era enviado pelo demônio para enfraquecer nossas forças. Ele nem precisava estar presente para dominar nosso pensamento: quando nos sentávamos com as irmãs ou amigas para bordar, pelo menos uma delas comentaria sobre um vislumbre de Jonathan e, então, ele se tornaria o assunto da reunião. Talvez tivéssemos culpa pelo próprio encantamento, por não conseguirmos controlar a obsessão por ele, nem em encontros ocasionais (“ele falou com você”, as garotas queriam saber: “o que ele disse?”) ou numa visão de relance pela cidade, quando até mesmo o detalhe mais insignificante, como a cor do casaco dele, era discutido. Mas, no fundo, o que todas nós realmente pensávamos era: “Bem que ele podia olhar para mim com um olhar impertinente ou levantar o canto da boca enquanto pensava...”; “Eu morreria para estar em seus braços pelo menos uma vez na vida”. E não eram só as moças que se sentiam assim em relação a ele; ele fazia os homens do vilarejo parecerem velhos, toscos, gordos ou magricelas e as esposas dedicadas olhavam Jonathan com outros olhos, com olhares febris, bochechas avermelhadas, lábios mordidos e, num rápido suspiro, a eterna esperança.

Também havia a atração de um leve perigo, de querer tocá-lo da maneira que uma voz ensandecida dentro da mente manda tocar um ferro quente. Você sabe que vai se machucar, mas não resiste. Tem que passar pela experiência. Ignora o que virá depois, a dor insuportável da carne ressequida, a fisgada brusca da queimadura toda vez que se toca na ferida. A cicatriz que irá carregar pelo resto da vida. A cicatriz que marcará seu coração, que, acostumado a amar, nunca mais será enganado da mesma maneira.

Com relação a isso, eu não só era invejada como ridicularizada: invejada por todo o tempo que passei na presença de Jonathan e ridicularizada porque deixei bem claro que não havia nenhum tipo de romance entre nós. Isso se confirmava aos olhos das outras garotas, que julgavam me faltar a necessária audácia feminina para conquistar o interesse de um homem. Mas eu não era diferente delas. Sabia que Jonathan tinha a capacidade de me afetar com sua atenção, como colocar fogo em papel. Uma garota poderia ser destruí­da num instante de amor divino. A questão era: valia a pena?

Poderia me perguntar se eu amava Jonathan por sua beleza e eu responderia: essa é uma pergunta irrelevante, pois sua grande e rara beleza era uma parte inseparável do todo. Conferia a ele uma confiança silenciosa, que alguns chamavam de arrogante superioridade, e um jeito fácil e sedutor com o sexo frágil. E, se a princípio sua beleza tomou conta de meus olhos, não me desculparei por isso; nem me desculparei pelo desejo de considerá-lo meu. Contemplar essa beleza é desejar possuí-la; é o desejo que move cada colecionador. E eu não estava sozinha. Quase toda pessoa que conheceu Jonathan tentou possuí-lo. Esta era sua maldição, e a maldição de todos aqueles que o amaram. No entanto, era como estar apaixonado pelo Sol: brilhante e inebriante quando perto, mas impossível de mantê-lo só para si. De nada adiantava amá-lo e, do mesmo modo, de nada adiantava não amá-lo.

Assim, fui enfeitiçada pela maldição de Jonathan, tomada por essa terrível atração, e ambos fomos destinados a sofrer por isso.

3

Cresceu uma grande amizade entre nós, Jonathan e eu, durante a infância. Nós nos encontrávamos depois das cerimônias aos domingos e em eventos sociais, como casamentos ou até funerais, ou quebrávamos totalmente as regras e caminhávamos para dentro da floresta para podermos concentrar nossa atenção um no outro. Cabeças balançavam em sinal de desaprovação e, sem dúvida, muitas línguas se rendiam às fofocas, mas nossas famílias nada fizeram para impedir nossa amizade ou, pelo menos, não fui informada disso.



Foi nessa época que percebi o quanto Jonathan era mais solitário do que eu imaginava. Os outros meninos procuravam a companhia dele muito menos do que eu pensava e, da parte de Jonathan, quando um grupo chegava perto de nós nos eventos sociais, ele os debandava. Lembro-me de em uma ocasião, numa reunião da igreja durante a primavera, que Jonathan se desviou quando viu um grupo de garotos vindo em nossa direção. Não tinha ideia do que aquilo significava e, após alguns minutos de ansiosa contemplação, resolvi perguntar.

— Por que preferiu caminhar por aqui? — perguntei. — É porque tem vergonha de ser visto comigo?

Emitiu um som, zombando de mim.

— Não seja estúpida, Lanny! Posso ser visto com você agora. Qualquer um pode nos ver caminhando juntos.

Isso era mesmo verdade, e um alívio. Mas não podia deixar de saber a razão.

— Então é por que você não gosta deles, daqueles garotos?

— Não é que não goste deles — ele respondeu irritado.

— Então por que...

Ele me cortou.

— Por que está me questionando? Acredite no que estou dizendo. É diferente para os meninos, Lanny, e isso é tudo.

Ele começou a andar mais rápido e eu tive que erguer um pouco as saias para alcançar o passo dele. Ele não havia me explicado a que o maldito “diferente” se referia: o que era diferente para os garotos? Tentei imaginar. Quase tudo, até onde conseguia enxergar. Os meninos podiam ir para a escola, se a família tivesse condições de pagar as taxas de seus tutores, enquanto a escolaridade das meninas não passava daquilo que as mães conseguiam lhes ensinar: as artes domésticas da costura, limpeza e cozinha, talvez um pouco da leitura da Bíblia. Os meninos podiam lutar entre eles só para se divertir, correr e brincar de pega-pega sem o desconforto das saias compridas, andar a cavalo. É verdade que eles tinham tarefas mais difíceis e que precisavam aprender todo tipo de coisa; uma vez, Jonathan me contou, seu pai o fez consertar a base do depósito de gelo, pedra e argamassa, só para que soubesse um pouco sobre marcenaria, mas, a meu ver, a vida de um garoto era muito mais livre. E aqui estava Jonathan reclamando disso.

— Queria ser um menino — murmurei, quase sem fôlego, tentando manter o ritmo dele.




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