No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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O que me leva à segunda coisa estranha sobre os arranjos domésticos de Adair: ninguém parecia ter um objetivo na vida. Nenhum assunto de negócios ou finanças era discutido na minha frente. Nenhuma menção ao Velho Mundo, nenhuma lembrança de vidas passadas (como Alejandro me disse: “deixamos os mortos dormirem”). Não chegavam cartas, somente cartões de membros da sociedade bostoniana, ávida para conhecer o misterioso europeu da realeza. A bandeja no corredor estava abarrotada de convites para festas, salões e chás.

O único assunto que interessava a Adair e seu séquito, o único esforço que levavam a sério, a preocupação que permeava os dias, era sexo. Cada membro do séquito mantinha um companheiro, às vezes por uma noite ou por uma semana; podia ser um membro da alta sociedade conhecido numa soirée ou um lacaio comum eleito para uma noite. Também havia um rio de mulheres perambulando pela mansão, tanto prostitutas mal-ajambradas como ousadas filhas da sociedade. Ninguém na casa dormia sozinho. Nem Alejandro nem Donatello pareciam interessados em mim, e quando perguntei a Alej se não me achava atraente, ele riu e me disse para não ser tão estúpida.

A família era dedicada a buscar e experimentar prazer, simples assim. Tudo ao meu redor era a antítese de como eu havia sido criada e, com o tempo, a falta de ter o que fazer me irritou. Porém, no início, fui seduzida pelos luxos que não imaginava existir. St. Andrew fora uma cidade de roupas de linho feito à mão e mobília de pinho natural. Agora, eu vivia rodeada de coisas refinadas, cada nova tentação ainda melhor do que a anterior. Degustava comidas e bebidas que nunca soube existir, usava vestidos e túnicas de exóticos tecidos europeus, feitos por costureiras profissionais. Aprendi a dançar e a jogar cartas, li romances que me expuseram a mundos ainda mais diferentes.

Adair gostava de festas e, já que ainda era uma sensação em Boston, íamos a uma quase toda noite. Ele levava seu séquito aonde quer que fosse, deixando Alejandro, Dona e Tilde entreterem os bostonianos com suas maneiras continentais, roupas escandalosas de Paris, Viena e Londres e histórias sobre a decadente aristocracia europeia.

O que realmente deixou os ricos e cultos bostonianos estupefatos foi quando Adair obrigou Uzra a nos acompanhar. Ela se aventurava pela rua envolvida num manto de tecido cor de vinho que a cobria dos pés à cabeça. Assim que estávamos entre os convidados, o manto caía ao chão para revelar Uzra numa de suas fantasias: espartilho de organza apertado e saia de véus, os olhos com um espesso contorno de kajal, adornos de metal ao redor da cintura nua, das mãos e dos tornozelos. As sedas ricamente coloridas eram maravilhosas, mas transparentes; ela estava praticamente nua comparada ao restante das mulheres com camadas de roupas de baixo, espartilhos e meias-calças. Uzra tilintava suavemente enquanto caminhava, olhos baixos, ciente dos olhares de desejo e malícia, como um animal num desfile. As mulheres colocavam as mãos sobre a boca aberta, em choque, e, com os homens, o ar tornava-se espesso com o cheiro de desejo, as casacas ajeitadas com pressa, cobrindo a ereção deselegante. Mais tarde, Adair ria sobre as propostas que havia recebido, homens oferecendo imensas quantidades de dinheiro por uma hora com sua odalisca. Se ele deixasse, eles lhe dariam a alma, Adair dizia quando já tínhamos voltado para casa depois da festa e nos sentávamos em volta da mesa da cozinha, perto do fogo ainda quente, compartilhando uma garrafa.

— Você poderia fazer o mesmo — Adair me disse, em particular, enquan­-

to subíamos as escadas para nossos quartos, a voz dele suave feito veludo. — O de­sejo de um homem é algo poderoso. Pode reduzir um homem forte a nada. Quando vê uma mulher que o fascina, ele desiste de tudo por ela. Lembre-se disso, Lanore: de tudo.

— Desistir de tudo por mim? Você é louco! Nenhum homem jamais desistiu de alguma coisa pela minha companhia — eu zombei, pensando na incapacidade de Jonathan para se doar a mim por completo. Mergulhada em autopiedade, não estava sendo justa com ele, eu sei, mas tinha sido ferida pelo meu amante incrédulo e estava doendo.

Adair me olhou, tentando se controlar, e disse algo que nunca esperei ouvir:

— É muito triste ouvir isso de qualquer mulher, mas é especialmente triste ouvi-lo de você. Talvez seja assim porque você nunca pediu nada em troca de sua atenção. Você não sabe o valor que tem, Lanore.

— Valor? Entendo muito bem o meu valor: sou uma garota comum, vinda de uma família pobre.

Ele pegou meu braço e o enfiou debaixo do seu.

— Você está longe de ser comum. Você tem algo que atrai certos homens, um tipo de homem que dá valor a um vigor discreto e não se interessa pela exposição vulgar dos charmes femininos. Muito peito saindo pelo espartilho, anca muito saliente, muito voluptuosa, entende? — Não conseguia acompanhá-lo; em minha experiência, os homens pareciam fascinados exatamente por isso e o fato de eu não ser assim me parecia um detrimento a vida toda.

— Sua descrição do charme feminino “vulgar” me faz lembrar de Uzra, e ela nunca deixa de seduzir um homem que a deseja. Ela e eu somos como água e vinho — eu disse, querendo brincar com Adair.

— Não há só um padrão de beleza, Lanore. Todos adoram a rosa vermelha, mas ainda assim é um tipo comum de beleza. Você é como uma rosa dourada, um botão raro, mas não menos belo — ele disse, tentando ser lisonjeiro, mas eu quase ri alto de sua tentativa. Eu era magra como um garoto e com o peito quase reto. Meu cabelo louro e encaracolado era indisciplinado feito um ninho de pássaro. Só podia imaginar que ele estava me elogiando com algum objetivo, mas suas palavras doces foram, de qualquer forma, atraentes.

— Então, se você confia em mim, deixe-me guiá-la. Eu a ensinarei a ter poder sobre homens comuns. Como Tilde, Alej e Dona — ele disse, acariciando minha mão. Talvez este fosse o objetivo deles; talvez este fosse o trabalho deles. Eles pareciam conseguir que a maioria das pessoas, principalmente os homens, os que tinham o poder, fizesse a vontade deles, e esta parecia uma habilidade muito boa para se adquirir.

— Não é suficiente ser capaz de conquistar seus inimigos; para controlá-los, deve ser capaz de seduzi-los também.

— Considere-me sua aprendiz — eu disse, deixando Adair me levar até seu quarto.

— Não se arrependerá — ele prometeu.

27

E assim comecei meu aprendizado no negócio da sedução. Começou com noites na cama de Adair. Depois daquela noite, quando Adair abriu meus olhos, ele pareceu determinado a me provar que eu era merecedora da atenção de um homem: ele. Continuamos a ir às festas, onde entretínhamos os bostonianos, mas ele sempre voltava para casa comigo em seus braços. Ele me levava para a cama toda noite. Ele me mimava e me dava tudo o que eu pedia. Mandei fazer lindas roupas de baixo, espartilhos (apesar de quase não precisar deles para segurar meus seios, de tão modestos que eram) e camisolas de seda coloridas, com acabamentos de fitas. Cintas-ligas decoradas com pequenas rosas de seda. Deleites para serem descobertos por Adair enquanto ele tirava minha roupa. Eu devotei-me a me transformar em sua rosa dourada.



Estaria mentindo se dissesse que não pensei em Jonathan nessa época. Ele foi meu primeiro amante, afinal de contas. Mesmo assim, tentei matar o amor que sentia por ele lembrando-me dos maus momentos entre nós: das vezes em que ele me machucou profundamente; sempre que ouvia que ele havia se engraçado com uma nova garota; ao lado dele na colina enquanto olhávamos para o túmulo de Sophia, lá embaixo, sabendo que ele estava pensando nela; beijando Evangeline em frente de toda a congregação poucos momentos depois de lhe dar a notícia de minha gravidez. Tentei ver meu amor por Jonathan como uma doença, uma febre queimando em meu coração e em meu cérebro, e essas lembranças avassaladoras eram o purgativo, a cura.

E as atenções de meu novo amante seriam meu tônico restaurador. Comparando minhas experiências com os dois homens, parecia que o ato com Jonathan me preenchia com uma felicidade tamanha que sentia que morreria. Nessas vezes, mal tinha consciência de meu corpo; poderia ter flutuado até o teto nos braços dele. Era sublime. Com Adair, era tudo sensação, uma necessidade da carne e do poder de ter essa fome satisfeita. Na época, eu não tinha medo dessa fome inédita que ele criara em mim. Sentia prazer nisso e Adair, em vez de me julgar indulgente e vulgar, parecia satisfeito de ter feito isso aflorar em mim. Ele confirmou isso uma noite na cama, acendendo o narguilé após uma sessão acrobática.

— Acho que você tem uma disposição natural para os negócios do prazer — ele disse, sorrindo obsceno. — Ouso dizer que você gosta de suas aventuras na alcova. Fez tudo o que lhe pedi, não fez? Nada que fiz lhe assustou? — Quando sacudi a cabeça, ele continuou: — Então, chegou a hora de expandir suas experiências, pois a arte do amor é assim: quanto mais amantes se tem, mais especialista se torna. Entende? — Recebi sua afirmação franzindo o cenho, sentindo que não tinha entendido alguma coisa. Ele já estava cansado de mim? O vínculo que criamos fora só uma ilusão? — Não fique zangada! — ele disse, colocando a fumaça narcótica de sua boca na minha com um beijo. — Ficou com ciúme? Deve lutar contra esses sentimentos, Lanore. Eles estão abaixo de você, agora. Tem uma vida à sua frente, uma vida cheia de experiências, se não tiver medo.

Ele não estava inclinado a explicar mais nada naquele momento. Mas descobri o que quis dizer na noite seguinte, quando Dona esgueirou-se para dentro do quarto conosco. E Tilde, na outra noite. Quando eu fiz objeção, protestando que era muito autoconsciente para sentir prazer na frente dos outros, deram-me uma venda para colocar nos olhos. Na manhã seguinte, quando olhei rápida e timidamente para Tilde enquanto passávamos pela escadaria, ainda embasbacada pelo prazer que ela havia me proporcionado na cama, ela murmurou ruidosamente:

— Foi só atuação, sua vagabunda estúpida! — e saiu a passos largos, desfazendo qualquer dúvida sobre ter sido outra coisa além disso. Acho que era ingênua, mas os prazeres da carne eram novos para mim, as sensações, avassaladoras. Logo eu me tornaria indiferente a tudo isso e indiferente a tudo o que provocara em minha alma.

Não muito tempo depois, um evento notável aconteceu, apesar de eu não lhe dar muita importância na época. Tudo começou com uma palestra sobre astronomia e artes da navegação, da qual participamos em Harvard. A ciência estava um tanto em moda naqueles dias e às vezes as faculdades ofereciam palestras abertas ao público. Eram lugares para as pessoas serem vistas, como em qualquer festa, uma forma de demonstrar que, ainda que fosse uma pessoa da sociedade, tinha inteligência. Assim, Adair fez questão de ir. A palestra daquele dia não me interessava, então, sentei-me ao lado de Adair e emprestei seus binóculos para examinar a plateia. Havia muitos rostos que já tinha visto antes, mas não conseguia me lembrar dos nomes e, no momento em que estava pensando que essa saída havia sido um desperdício de tempo, espiei Tilde conversando com um homem no fundo do auditório. Dava para ver só uma pequena parte de seu rosto e a maior parte do que podia ver eram suas costas, mas podia dizer que tinha um físico maravilhoso.

Passei os binóculos para Adair.

— Parece que Tilde encontrou um novo homem — cochichei e apontei com a cabeça na direção dela.

— Humm, acho que está certa — ele disse, dando uma espiadela pelos binóculos. — Ela é uma caçadora inata, essa Tilde.

Era comum encontrar com outras pessoas da sociedade, após as palestras, numa taberna das proximidades. Naquela tarde, no entanto, Adair não estava com paciência para conversa fiada com café e cerveja, e observava a porta. Pouco tempo depois, Tilde entrou de braços dados com o jovem que víramos na faculdade. Ele era bem vistoso, com um belo rosto (mais para delicado), um nariz afilado, um sulco no queixo e gloriosos cachos dourados. Parecia ainda mais jovem ao lado da sofisticada Tilde e, apesar de não haver razões para confundi-la com a mãe dele, era difícil não notar a diferença de idade entre os dois.

Eles se juntaram a nós na mesa e Adair passou o tempo enchendo-o de perguntas. Ele era estudante de Harvard? (Sim.) Tinha família em Boston? (Não, tinha vindo da Filadélfia e não tinha família na região.) O que estava estudando? (Tinha paixão por ciências, mas seus pais queriam que continuasse no ramo da família, que era Direito.) Quantos anos ele tinha? (20) Com essa última resposta, Adair franziu o cenho como se não tivesse ficado satisfeito; uma resposta intrigante para uma pergunta tão direta. Então, Adair convidou o jovem para jantar conosco aquela noite, na mansão.

Falarei sem rodeios: o cozinheiro pode até ter servido um lombo de cordeiro, mas era claro e evidente que o jovem de cabelos cor de trigo era o prato principal. Adair continuou a fazer todo tipo de perguntas pessoais (tinha amigos na faculdade? Noiva?) e, quando o jovem começou a ficar constrangido, Alejandro interveio e passou a distrair a todos ao redor da mesa com histórias autodepreciativas e piadas. Mais vinho do que o normal foi servido, principalmente no copo do jovem, e, então, após o jantar, foi oferecido aos homens uma dose de conhaque, e todos nós nos juntamos novamente no salão de jogos. Ao final de uma noite de faraó, Adair deu a desculpa de que não poderíamos mandar o jovem de volta a seus aposentos da faculdade naquele estado, pois ele seria admoestado por embriaguez se os professores o vissem, e insistiu para ele passar a noite conosco. A essa altura, o jovem estudante quase não conseguia ficar em pé sem ajuda e não estava em condições de recusar o convite.

Adair pediu que um lacaio o acompanhasse escada acima enquanto nós nos juntamos do lado de fora do quarto de Adair, como chacais se limpando antes de dividir a caça da noite. Ao final, Adair decidiu que ele e eu apreciaríamos a companhia do jovem e liberou os outros. Bêbado como estava, ele, corajoso, seguiu as ordens de tirar a roupa e, afoito, seguiu-me até a cama. Aqui está a parte curiosa: enquanto o jovem se despia, Adair o observava de perto, não com prazer (como eu esperava), mas com olho clínico. Foi só então que notamos que o garoto tinha um pé torto; não era terrivelmente deformado e ele tinha uma bota especial que o ajudava a andar sem mancar muito. Mas, ao perceber isso, Adair pareceu visivelmente decepcionado.

Adair sentou-se numa cadeira e observou enquanto o jovem se encaixava em mim. Vi, sobre os ombros do garoto, a decepção no rosto de Adair, um desprezo por nosso convidado, que ele lutava para disfarçar. Ao final, Adair tirou a roupa e se juntou a nós, surpreendendo o jovem com suas atenções, que, todavia, foram aceitas (ele não resistiu a nada, apesar de ter uivado um pouco quando Adair foi mais bruto com ele). E nós três dormimos juntos, nosso convidado relegado ao pé da cama, sucumbido aos efeitos do álcool e ao resultado comum das efusões amorosas de um homem.

Na manhã seguinte, depois de o jovem ter sido levado embora por uma carruagem, Adair e Tilde estavam discutindo atrás das portas fechadas. Alejandro e eu nos sentamos à sala do desjejum, tomando chá, e os ouvimos, ou tentamos não ouvi-los.

— Sobre o que estão discutindo? — eu perguntei, apontando com a cabeça em direção ao cochicho.

— Adair nos deu ordens permanentes para procurarmos homens atraentes, mas só os mais atraentes. Devemos trazê-los para a apreciação dele. O que posso dizer? Adair gosta de um rosto bonito. Mas ele não é o único interessado em perfeição, vê? E entendo que o homem que Tilde trouxe para Adair era muito menos que perfeito...

— Ele tinha um pé torto. — Não via como isso pudesse fazer a mínima diferença; o rosto dele era maravilhoso.

Alejandro deu de ombros.

— Ah, então é isso! — Ele se ocupou passando manteiga na ponta do pão e não disse mais nada. Eu fiquei misturando o chá e pensando sobre as estranhas obsessões de Adair. O que aconteceu foi que ele fez sexo com o garoto como se fosse uma punição por decepcioná-lo de alguma forma. Incomodou-me pensar naquilo. Inclinei-me sobre a mesa e agarrei a mão de Alejandro.

— Lembra a conversa que tivemos, há algumas semanas, sobre o meu amigo? Meu belo amigo? Me prometa, Alejandro, que nunca contará a Adair sobre ele.

— Acha que eu faria isso com você? — ele disse, ofendido. Sei agora que seu ar ofendido era uma farsa. Ele era muito bom ator, Alejandro. Todos tínhamos que ficar com Adair, mas este era o papel de Alejandro no grupo: ser aquele que dissipava as preocupações e as incertezas, aliviava e acalmava a vítima de forma que ela não percebesse o golpe iminente. Na época, eu achava que ele fosse bom, ao passo que Tilde e Dona eram maus e amargurados, os impostores, mas vejo agora que cada um tinha um papel a desempenhar.

No entanto, na ocasião, acreditei nele.

28

Comecei a ficar mais curiosa com relação a meus companheiros de casa. Agora já os via como um bando que trabalhava junto, cada um com um objetivo, cada um desempenhando um papel com a facilidade adquirida ao fazer um trabalho muitas vezes. Incitar a vítima, distrair a presa, derrubar a caça azarada no chão, quer fosse o jovem de pé torto, quer uma figura fácil na mesa de jogo. Os três eram como cães de caça mantidos sob controle em suas coleiras; Adair só tinha que soltá-los e eles saíam, confiantes, para fazer o que ele ou ela tinham a obrigação de fazer. Eu era o quarto cão de caça, novo no bando e incerta sobre meu papel. E, como instrumentos bem afinados quando estavam juntos, eles relutavam em abrir espaço para eu entrar, certos de que eu os faria tropeçar, diminuindo a graça e a eficiência deles. Funcionava bem para mim: não tinha nenhuma vontade de me juntar a eles.



Esperei uma reação dos outros com relação à ternura de Adair por mim e fiquei surpresa quando não houve nada. Afinal, devo ter tirado um deles do posto de confidente e favorito de Adair. Mas ninguém estava incomodado. Não havia nem uma faísca de ciúme no ar. Na verdade, exceto por Alejandro, eles tinham pouco que ver comigo. Agora, todos os três me ofereciam um largo espaço na cama, mas sem malícia. Eles nos evitavam, a mim e a Adair, exceto quando voltávamos das festas, e, nessas ocasiões havia um ar de jovialidade forçada pairando sobre nós, como uma nuvem. Quando Tilde e eu nos olhávamos, por exemplo, às vezes notava o sorriso amargo combinado ao cenho franzido, mas o que via não parecia ser ciúme. Os três desapareciam pela casa como fantasmas, assombrados e impotentes.

Uma noite resolvi perguntar sobre isso a Adair. Afinal, era mais fácil que ele me dissesse a verdade do que os outros. Esperei até que encontrasse uma garrafa de conhaque e duas taças para levar ao quarto, enquanto os lacaios me ajudavam a tirar minha saia e o corpete, e a desmanchar o penteado. Quando Adair colocou a bebida em nossos copos, eu disse:

— Há algo que faz tempo que quero lhe perguntar...

Ele tomou um gole da bebida antes de passar uma taça para mim.

— Já esperava por isso. Você tem andado meio distraída ultimamente.

— São... são os outros — comecei, sem saber direito como continuar.

— Não me peça para mandá-los embora. Eu não farei isso. Você pode querer que passemos todo o tempo juntos, mas não posso deixá-los vagando por aí. E, além disso, é importante que fiquemos juntos. Nunca se sabe quando precisará que um de nós venha nos salvar, alguém que compreenda a obrigação. Um dia você entenderá o que estou falando — ele se apressou em dizer.

— Não quero que os mande embora. É só que fiquei pensando, Adair, qual coração está machucado agora que você passa todo seu tempo comigo? Qual deles sente mais profundamente a perda de sua atenção? Eu os vejo e sinto pena... Por que está rindo de mim? Não era minha intenção fazer graça para você.

Esperava que ele risse de minha pergunta, fizesse brincadeira sobre minha sensibilidade tola e me assegurasse que ninguém tinha ressentimentos contra mim, que os outros já tiveram sua vez como favoritos e sabia que esse nosso prazer não duraria para sempre, que a harmonia da família estava intacta. No entanto, essa não foi a reação de Adair. Sua risada não foi de prazer: foi de desdém.

— A perda de minha atenção? Acha que estão lá em cima, em prantos antes de dormir à noite, agora que já não são mais a menina dos meus olhos? Deixe-me contar um pouco sobre as pessoas com quem você divide seu lar; tem o direito de saber, já que está ligada a eles pela eternidade. É melhor manter a guarda quando eles estiverem por perto, minha querida! Eles não vão se preocupar com seu bem-estar, nunca. Não tem a menor ideia sobre quem eles são, não é?

— Alej me contou um pouco — murmurei, baixando os olhos.

— Aposto que ele não contou nada que tivesse alguma consequência e certamente nada que a fizesse pensar mal dele. O que ele falou sobre si mesmo?

Comecei a me arrepender de ter trazido esse assunto à tona.

— Só que ele vem de uma boa família da Espanha...

— Uma família muito boa. Os Pinheiro. Pode-se até dizer uma nobre família, mas hoje em dia não encontrará mais nenhum Pinheiro em Toledo, na Espanha. Sabe por quê? Já ouviu falar na Inquisição? Alejandro e sua família foram cercados pela Inquisição, pelo próprio inquisidor, Tomás de Torquemada. A mãe, o pai, a avó e a irmãzinha de Alejandro foram jogados na prisão. Deram-lhe duas chances: confessar os pecados e converter-se ao catolicismo, ou permanecer na prisão e morrer ali.

— Por que não se converteram? — gritei. — Para salvar a vida dele, isso teria sido assim tão terrível?

— Mas ele se converteu. — Adair serviu-se de mais conhaque e então ficou em pé, em frente ao fogo, com seu rosto iluminado. — Ele fez o que eles pediram. Teria sido um tolo em recusar, dadas as circunstâncias. A Inquisição se orgulhava de sua capacidade de quebrantar o ânimo de um homem: eles fizeram disso uma ciência. Eles o puseram numa cela tão pequena que precisava se curvar como uma bola para caber lá dentro, e então tinha que ouvir os gritos e as orações de todos os prisioneiros até o nascer do sol. Quem não enlouqueceria nessa situação? Você não faria qualquer coisa que lhe pedissem para se salvar?

Por um momento, havia só o som do crepitar do fogo e, em meu coração, implorei para que Adair não continuasse. Queria manter aquele Alejandro que conhecera, doce e preocupado com os outros, e continuar ignorando qualquer que fosse o mal que ele guardava. Adair inclinou a cabeça para trás para tomar o último gole da bebida, e olhou novamente para as chamas.

— Ele lhes deu a irmã. Eles queriam alguém para servir de exemplo, alguma pecadora no meio deles. Uma razão para eliminarem os judeus do país. Assim, ele lhes disse que sua irmã era uma bruxa, uma bruxa pecadora. Em troca de sua irmã de 14 anos, os padres o deixaram ir. E foi nessa época que o encontrei, gaguejando palavras sem sentido sobre o que tinha feito, como um louco.

— Isso é horrível! — Arrepiada, puxei o cobertor de pele em volta dos ombros.

— Dona entregou seu mestre às autoridades quando foi preso por ser sodomita. O homem que o havia tirado das ruas, que o alimentara e o vestira, e pintara sua imagem em todos os murais de Florença. Um homem que o adorava, o adorava de verdade, e Dona o entregou sem um segundo de hesitação. Seria tolo de minha parte esperar algo diferente vindo dele.

— E, então, tem a Tilde. Ela é a mais perigosa de todos. Vem de um país muito ao norte, onde, nos dias de inverno, o sol só brilha por algumas horas. Encontrei-me com Tilde numa dessas noites frígidas, na estrada. Ela havia sido molhada e deixada no frio da noite por seu próprio povo. Veja bem, ela tinha dado seu coração a um homem rico do vilarejo vizinho. Havia somente um obstáculo no caminho: ela era casada. E como ela resolveria o problema? Matando seu marido e seus dois filhos. Mas as pessoas do vilarejo descobriram seu plano e a condenaram à morte. Era para ela ter congelado até morrer e, quando eu a encontrei, ela já estava metade congelada. O cabelo estava duro como gelo, seus cílios e sua pele congelados feito cristal. Ela estava morrendo e, ainda assim, conseguiu olhar para mim com uma expressão de puro ódio.




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