No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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Quando se aproximavam do posto de controle, os nervos de Luke começaram a enfraquecer. O tráfego estava leve, mas, ainda assim, a perspectiva de ficarem numa fila muito tempo era assustadora. A esta hora já deveria haver um boletim da polícia sobre eles, por suspeita de assassinato e cumplicidade com a fuga... Ele quase sai da fila, mas para, as mãos tremendo sobre o volante. A garota olha para ele, nervosa.

— Você está bem?

— Está demorando muito — ele murmura, suando apesar do ar frio do inverno do lado de fora do carro.

De repente, uma luz verde se acende numa das cabines na fila ao lado e, com uma velocidade surpreendente, Luke corta, vira a direção e pisa no acelerador, jogando o carro na direção do policial da fronteira, que gentilmente faz sinal para organizar o trânsito. Ele atravessa na frente de um carro que aguardava dois veículos à frente, na fila, e a mulher atrás da direção lhe mostrou o dedo, mas Luke não liga. Ele breca forte em frente do agente da fronteira.

— Com pressa? — o oficial diz, disfarçando seu interesse com descuido enquanto alcança a identificação do médico. — Geralmente atendemos a próxima pessoa que está esperando quando abrimos uma nova fila.

— Me desculpe — Luke responde abruptamente. — Eu não sabia...

— Da próxima vez, ok? — ele fala amigavelmente, nem mesmo olhando para cima enquanto analisa a carteira de motorista e, depois, o passaporte de Lanny. O agente é de meia-idade, veste um uniforme azul-escuro e um colete utilitário com um rádio, canetas e outras coisas. Em suas mãos, há uma prancheta e um instrumento eletrônico que parece um scanner. Sua parceira, uma mulher mais jovem, caminha em volta do carro com uma longa vara, em cuja ponta há um espelho, como se esperasse encontrar uma bomba amarrada na parte de baixo do SUV. Luke observa a policial pelo espelho retrovisor e uma nova onda de nervosismo toma conta dele.

Então, ele se dá conta de algo: se eles perguntarem pelo registro do veículo, terá problemas, pois não está registrado em seu nome. “Você não é dono desse carro?”, o agente perguntará. “As pessoas emprestam carros todos os dias”, Luke tenta dizer a si mesmo. “Não há nada de criminoso nisso.”

“Terei que dar uma olhada no sistema só para ter certeza de que não é roubado...”

“Não peça o registro, não peça o registro”, ele pensa, como se, direcionando este mantra ao agente, pudesse evitar que ele se lembrasse disso.Se o nome de Luke aparecer em alguma lista em algum lugar (“procurado para interrogatório”), as chances de eles escaparem se reduziriam a zero. Esse pequeno problema deixa Luke ainda mais nervoso, pois ele nunca esteve em apuros antes, nunca, nem mesmo quando criança, e não é muito hábil em enganar autoridades. Ele tem medo de suar, parecer muito ansioso e...

— Então você é médico? — o agente pergunta à janela, fazendo Luke prestar atenção.

— Sim, cirurgião. — “Idiota”, ele se apercebe; “ele não está nem aí para sua especialidade. É somente sua vaidade médica se mostrando, querendo atenção”.

— Motivo para viagem ao Canadá?

Antes que Luke pudesse responder, Lanny inclina-se para a frente, para ser vista pelo agente da fronteira.

— Na verdade, ele está me fazendo um favor. Passei um tempo com ele e agora está na hora de viver à custa do próximo parente. E, em vez de me colocar num ônibus, ele generosamente insistiu em me trazer de carro.

— Ah, e onde está o primo? — o agente pergunta, uma astúcia leve escondida na pergunta.

— Baker Lake — a garota responde casualmente. — Bem, nós nos encontraremos com ele em Baker Lake, mas na verdade ele mora mais perto de Quebec. — Ela sabia o nome de uma cidade nos arredores, o que, para Luke, parece um milagre. O médico relaxa um pouco.

O agente vai para dentro da cabine e, pela janela Plexiglas riscada, Luke o observa, apoiado sobre um terminal, preenchendo uma base de dados, com certeza. É tudo o que ele pode fazer para não pisar no acelerador; não há nada para impedi-lo: nem cancelas automáticas, nem correntes de dentes de metal para furar os pneus, nada que impeça a fuga.

De repente, o guarda está à janela de novo, a carteira de motorista e o passaporte em sua mão estendida.

— Aqui estão... tenham uma boa estadia! — ele diz, acenando para eles, já olhando para o próximo carro na fila.

Luke não volta a respirar até que a estação da fronteira fique bem reduzida no espelho retrovisor.

— Por que estava tão preocupado? — Lanny ri, olhando sobre o ombro. — Não somos terroristas e não estamos tentando contrabandear cigarros. Somos apenas dois gentis cidadãos norte-americanos indo ao Canadá para o almoço.

— Não, não somos — Luke diz, mas ele está rindo, também, aliviado. — Me desculpe, não estou acostumado a ser um fora da lei.

— Desculpe, não quis rir. Sei que não está acostumado, mas se saiu muito bem! — Ela aperta a mão dele.

Eles param num motel nos arredores de Baker Lake, um lugar indefinido, que não pertence a nenhuma cadeia. Luke aguarda no carro enquanto Lanny está na recepção. Ele a observa bater papo com o cavalheiro mais velho atrás do balcão, que se mexe vagarosamente, aproveitando a oportunidade de falar com uma garota bonita naquela manhã. Lanny sobe de volta na SUV e eles dirigem até uma unidade do fundo, com vista para um trecho cheio de árvores e um campo de beisebol da vizinhança. O carro deles é o único no estacionamento.

Uma vez dentro do quarto do motel, Lanny, num surto de atividade, desfaz a mala, verifica o banheiro, reclama da qualidade das toalhas. Luke senta-se na cama, repentinamente cansado para permanecer sentado. Ele se deita em cima da colcha de poliéster e fica olhando para o teto. Tudo a seu redor gira como uma grande roda-gigante.

— Qual é o problema? — Lanny senta-se ao lado dele, na ponta da cama, e toca sua testa.

— Exaustão, eu acho. No plantão da meia-noite, geralmente vou para a cama assim que chego em casa.

— Então faça isso, durma um pouco. — Ela desaperta os sapatos do médico sem desamarrá-los.

— Não, preciso voltar. É só meia hora — ele protesta, mas não se mexe. — Tenho que devolver o carro...

— Bobagem. Além disso, só vai servir para levantar suspeita na fronteira: dar meia-volta e voltar para casa cansado desse jeito. — Ela coloca um cobertor sobre ele, dá uma bisbilhotada na mala e puxa um saco plástico lotado com a marijuana mais volutuosa que Luke jamais vira.

Em menos de um minuto, ela enrola um cigarro de maconha habilidosamente, acende-o e dá uma tragada longa e cheia de vontade. Ela fecha os olhos enquanto exala e seu rosto relaxa com satisfação. Luke pensa que ele gostaria de causar uma expressão como esta no rosto dela qualquer dia.

Lanny passa o cigarro de maconha para ele. Depois de um segundo de hesitação, Luke pega-o e o traz até os lábios. Ele inspira e segura a fumaça, sentindo-a espalhando-se pelos lóbulos de seu cérebro, sentindo seus ouvidos se tamparem e se bloquearem. Bom Jesus, esta coisa é potente! Rápida.

Ele tosse e passa o cigarro de volta para Lanny.

— Faz tempo que não faço isso. Onde conseguiu esta coisa?

— Na cidade. St. Andrew. — A resposta dela o alarma e o surpreende um pouco, o faz lembrar que há outros mundos invisíveis bem debaixo do nariz dele. Ele está feliz por não saber que ela carregava isso quando atravessaram a fronteira ou teria ficado ainda mais nervoso.

— Você sempre faz isso? — ele aponta o cigarro de maconha.

— Não conseguiria sobreviver sem. Você não sabe das memórias que carrego em minha cabeça. Vida após vida de coisas que se arrepende de ter feito. Coisas que já viu outras pessoas fazerem. Coisas das quais não pode fugir... sem isto. Faço isso às vezes, quando tenho vontade de desmaiar por, vamos dizer, uma década. Dormir, fazer tudo parar. Não há como apagar as memórias ruins. Não é fazer que é tão difícil, é viver com o que você já fez.

— Como o homem no necrotério...

Ela pressiona um dedo sobre os lábios de Luke, para impedi-lo de dizer qualquer palavra. Teremos tempo para isso depois, ele imagina. De fato, ela não tem nada além de tempo se estendendo à sua frente para perceber a coisa irreversível que havia feito a seu verdadeiro amor. Não haveria baseado suficiente para levar isso embora. Inferno na terra. Comparativamente, as coisas que ele havia feito pareciam pequenas. Ainda assim, ele pega o cigarro.

— Vou voltar — ele diz como se quisesse convencê-la disso. — Assim que eu tirar um cochilo. Será mais seguro dirigir depois de tirar um cochilo. Mas tenho que voltar... coisas para fazer, me esperando... o carro de Peter...

— Com certeza — ela responde.

Quando o médico acorda, o hotel está banhado de cinza. O sol está se pondo, mas nenhuma das luzes foi acesa. Luke continua deitado, quieto, sem se levantar, tentando retomar o controle. Durante um longo minuto, sua cabeça está leve e ele não consegue se lembrar de onde está e por que tudo lhe é tão estranho. Ele está quente e suado por estar debaixo do cobertor e sente-se como uma vítima de sequestro obrigada a sair correndo do carro, olhos vendados, tudo girando em volta.

Aos poucos, o quarto entrou em foco. A estranha está sentada numa das duras cadeiras de madeira à mesa, olhando pela janela. Ela está sentada absolutamente quieta.

— Ei! — Luke diz, para avisá-la de que está acordado.

— Está melhor? Deixa eu pegar um copo d’água para você. — Ela se levanta da cadeira e se apressa até a geladeira. — É água da torneira. Pus na geladeira para gelar.

— Quanto tempo eu dormi? — Luke estica a mão para pegar o copo; a água está deliciosamente gelada e fica tentado a colocá-la em sua testa. Ele está fervendo.

— Quatro, cinco horas.

— Minha nossa, é melhor eu pegar o caminho de volta! Devem estar me procurando. — Ele empurra o cobertor de lado e senta-se na ponta da cama.

— Por que a pressa? Você disse que não tem ninguém em casa esperando você — a jovem responde. — Além do mais, você não parece bem. Aquela porcaria deve ter sido muito para você. É forte. Talvez deva deitar-se um pouco mais.

Lanny retira o laptop da gaveta da cômoda envernizada e lascada, e caminha até ele.

— Eu baixei isso da câmera enquanto você dormia. Achei que você quisesse vê-lo. Quer dizer, eu sei que já o viu, viu o corpo dele, mas pode estar interessado, de qualquer maneira...

Luke recua ao ouvir esse discurso macabro, descontente por ser lembrado do corpo morto no necrotério e da relação dele com Lanny, mas aceita o laptop quando ela o passa para ele. As imagens saltam brilhantemente na tela, naquela escuridão empoeirada do quarto: é o homem de dentro do saco, mas não tem comparação. Aqui ele está brilhantemente vivo, vibrante e inteiro. Os olhos, o rosto animado, eletrizado com vida.

E ele é tão, tão belo que a visão dele faz Luke sentir-se estranhamente triste. A primeira foto deve ter sido tirada de um carro, a janela abaixada, seus cabelos pretos e compridos desgrenhados e seus olhos apertados enquanto ri para a mulher tirando a foto, ri de alguma coisa que Lanny disse ou fez. Na foto ele está na cama, a cama que devem ter compartilhado no Dunratty, a cabeça dele sobre um travesseiro branco, de novo o cabelo caindo sobre o rosto, fios tocando o rosto, o rubor cor-de-rosa perfeito nas maçãs do rosto. Uma parte do pescoço e a clavícula saliente visível embaixo da dobradura do lençol branco amarelado.

Após um minuto, olhando foto por foto, ocorre a Luke que a coisa mais bela daquele homem nas fotos não é seu magnífico rosto. Não é sua beleza. É algo em sua expressão, um efeito recíproco entre o prazer nos seus olhos e o sorriso em seu rosto. É que ele está feliz por estar com a pessoa que segura a câmera e tira as fotos.

Um nó se forma na garganta de Luke e ele devolve o laptop para Lanny. Não quer mais olhar.

— Eu sei — a garota diz, também emocionada e tomada pelas lágrimas. — Me mata pensar que ele se foi, que se foi para sempre. Sinto a ausência dele como um buraco em meu peito. Um sentimento que carreguei por duzentos anos foi dilacerado. Não sei como farei para seguir em frente. É por isso que estou lhe pedindo... por favor, fique comigo mais um pouco. Não posso ficar sozinha. Ficarei louca. — Ela coloca o laptop no chão e, então, alcança a mão de Luke. A mão dela é pequena e quente. A palma está úmida, mas Luke não consegue dizer se a umidade é dele ou dela.

— Não sei como agradecer tudo o que fez por mim — ela diz, enquanto olha através dos olhos e dentro dele, como se pudesse ver o que está se passando em sua mente. — Eu, eu nunca... quero dizer, ninguém nunca foi tão bom para mim. Arriscando-se dessa maneira.

De repente, sua boca está sobre a dele. Ele fecha os olhos e mergulha seu ser inteiro na umidade quente do beijo dela. Ele cai de costas no mesmo lugar da cama de onde havia saído, o peso quase imperceptível do corpo dela sobre o seu, e ele sente como se estivesse se dividindo. Uma parte dele se sente terrível pelo que está fazendo, mas ele quis fazer isso desde o primeiro momento em que a viu. Ele não voltará para St. Andrew, pelo menos não agora; irá segui-la, como poderia ir embora? A necessidade que ela tem dele é como um gancho plantado em seu peito, puxando-o sem o menor esforço, e ele não consegue resistir. Ele está pulando de um penhasco para dentro de águas escuras, não pode ver o que o espera lá embaixo, mas sabe que não há força no mundo que possa impedi-lo.

26

BOSTON, 1817



Depois de ouvir a história de Adair, me recolhi a meu quarto, apavorada. Engatinhei até a cama e encolhi os joelhos debaixo do queixo. Estava com medo de todas as coisas que ele havia me contado e tentei afastá-las de mim.

Alejandro bateu à porta e, como não houve resposta, a empurrou um pouquinho para poder deslizar para dentro com uma bandeja de chá e biscoitos. Ele acendeu muitas velas.

— Não pode se sentar no escuro, Lanore, é detestável — então colocou a xícara e o pires silenciosamente em minhas mãos, mas eu não queria sua hospitalidade. Fingi olhar pela janela, só que não conseguia ver nada, ainda estava cega de raiva e de desespero.
— Ah, minha querida, não fique triste! Sei que é assustador. Fiquei assustado quando aconteceu comigo.

— Mas, Alej, o que nós somos? — eu perguntei, apertando o travesseiro em meu peito.

— Você é você mesma, Lanore. Você não faz parte de um mundo mágico. Não pode atravessar paredes como um fantasma ou visitar Deus no paraíso como um anjo. Nós dormimos e acordamos, comemos e bebemos, passamos o dia como qualquer outra pessoa. A única diferença é que outra pessoa pode pensar, de vez em quando, quando será seu último dia. Mas, para mim e para você, nossos dias nunca terão fim. Nós prosseguiremos sendo testemunhas de tudo o que acontece a nosso redor — ele disse tudo isso totalmente sem paixão, como se a desordem dos dias intermináveis tivesse sugado todo seu entusiasmo. — Quando Adair me explicou o que tinha feito comigo, eu quis fugir dele, mesmo se isso significasse me matar, algo que não seria capaz de fazer. Mas perder o bebê, além de tudo... bem, é muito terrível. Pobre Lanore! Sua tristeza vai passar, sabe — ele continuou em seu inglês monótono, com sotaque espanhol. Tomou um gole de chá e então olhou para mim através da fumaça subindo da xícara. — Todos os dias nosso passado se afasta cada vez mais e a vida com Adair passa a ser mais e mais comum. Você passa a fazer parte da família. Então, se lembrará de alguma coisa de sua outra vida, um irmão, uma irmã, a casa onde vivia, um brinquedo de que gostava, e perceberá que não sofrerá mais por isso. Parecerá algo de muito tempo atrás. Aí, então, verá que a mudança está completa.

Olhei para ele por cima do meu ombro.

— Quanto tempo até a dor ir embora?

Alejandro levantou um torrão de açúcar da tigela com um pequeno par de pegadores e o derrubou dentro do chá.

— Depende de quão sentimental você é. Eu, eu sou muito amoroso. Eu amava minha família e senti falta dela durante muito tempo após a transformação. Mas Dona, por exemplo, ele provavelmente nunca olhou para trás. A família o havia abandonado quando ele era pequeno, por ser um garotinho de pederastas — Alejandro disse baixando a voz, até murmurar as últimas palavras, apesar de sermos todos sodomitas naquela casa. — A vida dele foi repleta de depravação e incerteza. Linchamentos. Fome. Prisão. Não, não imagino que tenha qualquer tipo de arrependimento.

— Não acho que meu sofrimento terminará um dia. Meu filho se foi! Quero meu filho de volta, quero minha vida de volta!

— Nunca mais terá seu filho de volta, sabe disso — falou suavemente, acariciando meu braço. — Mas por que, minha querida, iria querer sua velha vida de volta? Pelo que me contou, não tem para quem voltar: sua família a abandonou e a expulsou. Eles a abandonaram num momento de necessidade. Não vejo nada do que deva se arrepender os deixando para trás. — Alejandro olhou fixamente para mim com seus olhos escuros e doces, como se pudesse resumir o que estava em meu coração. — Em momentos de dificuldade, sempre queremos voltar para aquilo que conhecemos. Isso desaparecerá.

— Bem, há uma coisa... — sussurrei.

Ele inclinou-se para a frente, ansioso por minha confissão.

— Um amigo. Sinto falta de um amigo em particular.

Alejandro era, como ele havia dito, um alma sensível que adorava nostalgia. Ele apertou os olhos, como um gato sentando-se ao calor do sol no peitoril da janela, sedento para beber minha história.

— Sempre são as pessoas de quem sentimos mais saudade. Me conte sobre esse seu amigo.

Desde que deixara St. Andrew, tentei, o máximo que pude, não pensar em Jonathan. Estava acima da minha capacidade não pensar nele, então, me permiti algumas indulgências, como alguns minutos antes de pegar no sono, quando me lembrava de seu calor, de sua face ruborizada colada à minha, o jeito que minhas costas se arrepiavam quando ele me agarrava pela cintura para tomar posse de mim. Era muito difícil controlar as emoções quando Jonathan era somente um fantasma às margens de minha memória: lembrar-me dele diretamente era muito doloroso.

— Não posso. Sinto muito a falta dele — disse a Alejandro.

Alejandro recuou.

— Este amigo é tudo para você, não é? Ele é o amor da sua vida. Era o pai de seu filho.

— Sim — respondi. Alejandro esperou que eu continuasse, seu silêncio era como uma corda me puxando, até que fui forçada a falar. — O nome dele é Jonathan. Sou apaixonada por ele desde que éramos crianças e a maioria das pessoas dizia que ele era bom demais para mim. A família dele é dona da cidade onde eu vivia, não é grande nem rica, mas todo mundo lá depende da família dele para sobreviver. E também tem a sua beleza esplendorosa. — Enrubesci. — Deve achar que sou uma pessoa frívola.

— Nem um pouco — ele disse em tom amigável. — Ninguém está imune ao poder da beleza. Mas, de verdade, Lanore, o quão belo ele poderia ser? Pense em Dona, por exemplo. Tão impressionante que encantou um dos maiores artistas da Itália. Ele é mais bonito do que Dona?

— Se conhecesse Jonathan, entenderia. Ele faria Dona parecer um troll.

Aquilo fez Alejandro engasgar: nenhum de nós gostava muito de Dona; ele era tão fútil que chegava a ser intolerável.

— Não pode deixar Dona ouvi-la dizer isso! Muito bem, então... e quanto a Adair? Ele não é um sujeito bonito? Já viu olhos como os dele? São como os olhos de um lobo...

— Adair tem um certo charme. — “Um charme animalesco”, pensei, apesar de não dizê-lo em voz alta. — Mas não há comparação, Alej, acredite. Mas falar dele não adianta nada. Nunca mais o verei.

Alejandro acariciou minha mão.

— Não diga isso. Você não sabe, pode ser que sim.

— Não consigo imaginar voltar para casa, não agora. Não é como Adair contou na história dele? Como explicaria o que me aconteceu para eles? — respondi em tom de zombaria.

— Há algumas maneiras... você não poderia viver com eles novamente. Não, isso estaria fora de questão, mas uma breve visita... se ficasse só um pouquinho... — Ele brincou com seu lábio inferior, contemplativo.

— Não alimente minhas esperanças. É muito cruel. — Lágrimas encheram meus olhos. — Por favor, Alejandro, preciso descansar! Estou com uma dor de cabeça terrível.

Ele pressionou os dedos rapidamente na minha testa.

— Sem febre... Me diga, esta dor de cabeça, você sente como um latejar constante no fundo da cabeça?

Concordei.

— Sim? Bem, minha querida, melhor se acostumar com isso. Não é uma dor de cabeça: é parte do dom. Agora você está conectada a Adair.

— Conectada a Adair? — repeti.

— Existe um vínculo entre vocês dois e essa sensação é um sinal desse vínculo. — Ele se inclinou, conspiratório. — Lembra quando eu disse que você havia mudado só de uma maneira, que não era mágica? Bem, nós somos um tanto mágicos, apenas um pouquinho. Às vezes acho que somos como animais, sabe? Deve ter notado como tudo parece um pouco mais brilhante, como consegue ouvir o menor barulho, como todo cheiro fica muito forte? Isso é parte do dom: a transformação nos faz melhores. Somos mais refinados. Ouvirá uma voz bem de longe e saberá quem está vindo visitá-la, conseguirá detectar o aroma da cera de selo e saber que uma pessoa guarda uma carta escondida. Com o tempo, não notará mais essas habilidades, mas aos outros parecerá que pode ler os pensamentos, que é mágica! A segunda coisa que deve saber é que nunca mais sentirá dor. Tem a ver com a habilidade de não morrer. Não sentirá fome ou sede. Ah, leva um tempo para o reflexo, a expectativa de que se deve comer ou beber, ir embora. Mas poderia jejuar por semanas e não sentir a fome apertando seu estômago, nem ficar fraca ou desmaiar. Poderá ser atropelada por um cavalo de corrida e não sentir nada, além de um leve desconforto onde algum osso pode ter se quebrado, mas a dor desaparecerá minutos depois, enquanto o osso se cicatriza sozinho. — As palavras dele me fizeram arrepiar. — E essa conexão com Adair, essa agulhada no cérebro, é um lembrete desse poder, pois só ele pode torná-la mortal novamente. Nas mãos dele, e somente nas mãos dele, você sente dor. Mas qualquer dano que ele a faça sofrer será temporário, a não ser que ele próprio decida que será diferente. Ele pode lhe desejar qualquer coisa: dor, desfiguração, morte. Pelas mãos e intenção dele. Essas são as palavras que ele usa no feitiço. Essas são as palavras que criam o vínculo com ele.

Coloquei a mão sobre meu abdômen; ele estava certo com relação à dor.

O la­tejar silencioso que sentira em meu útero desaparecera completamente.

— Ele deve ter dito isso tudo a você. Acredite: Adair é seu deus agora. Você vive ou morre de acordo com o desejo dele. E... — a expressão dele se suavizou completamente por um momento, como se um manto protetor tivesse descido brevemente sobre ele — deve tomar cuidado com Adair. Ele lhe deu tudo o que um mortal quer, mas só enquanto você o satisfizer. Não hesitará em lhe tirar o que deu, caso o deixe enfurecido. Nunca se esqueça disso.

Percebi rapidamente que, quisesse ou não, agora eu era parte daquela estranha casa e seria de meu total benefício se descobrisse meu lugar ali dentro. Minha vida mudara de forma irrevogável e eu não tinha certeza de como sobreviveria. Adair, no entanto, tinha centenas de anos de experiência. Os outros que ele escolhera haviam permanecido com ele provavelmente por uma boa razão.

Também decidi tentar esquecer Jonathan. Acreditava que nunca o veria novamente, apesar do que Alejandro dissera. Minha antiga vida se fora, em todos os sentidos: Boston era tão diferente de St. Andrew assim como a água do vinho, e eu não era mais uma pobre menina do campo com um futuro infeliz pela frente. Perdi o bebê, a única coisa que poderia me manter ligada a Jonathan. Era melhor deixar tudo para trás de uma vez só.

Em poucos dias percebi que os ritmos da casa não se pareciam em nada com minha experiência anterior, em minha cidade puritana. Para começar, ninguém na casa, além dos serviçais, levantava-se antes do meio-dia. Ainda assim, os cortesãos e seus convidados permaneciam nos quartos até duas ou três da tarde, apesar de poder ouvir sons baixos atrás das portas, murmúrios, um pedaço de uma risada ou o arranhar da perna de uma cadeira sendo arrastada pelo chão. Alejandro explicara que este era o jeito europeu: as noites, a parte mais importante do dia, eram dedicadas à socialização (jantares, bailes, jogos de mesa), e os dias eram dedicados à arrumação: ter o cabelo penteado e vestir os trajes mais formidáveis. Haviam trazido com eles, da Europa, alguns serviçais-chave, aqueles especializados em arrumar os cabelos e manter o guarda-roupa. Eu achava muito decadente viver daquela maneira, mas Alejandro me garantiu que era só porque eu havia sido educada por norte-americanos puritanos. Houve uma razão para os puritanos deixarem a Inglaterra em busca do Novo Mundo, ele fez questão de salientar.




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