No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas


Parte do dom, veja você. Maravilhoso, não é? Você tem os sentidos de um animal



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Parte do dom, veja você. Maravilhoso, não é? Você tem os sentidos de um animal.

— Que cheiro é esse? Sinto-o por toda parte. — Adair olhou para suas mãos, para a roupa de cama.

— É sangue. Os ratos estão gordos de tanto sangue e estão todos em nossa volta. Marguerite, dormindo no andar de cima. Também consegue sentir o cheiro dos minerais nas rochas, nas paredes a seu redor. A poeira doce, a água limpa; tudo é melhor, mais limpo. É o dom: coloca você acima dos outros homens.

Adair caiu de joelhos no chão.

— E você? Também é como eu? É por isso que tem seus poderes? Também consegue ver tudo?

O velho sorriu misteriosamente.

— Se sou o mesmo que você? Não, Adair, não passei pela transformação pela qual você acabou de passar.

— Por que não? Não quer viver para sempre?

Ele balançou a cabeça como se estivesse falando com um idiota.

— Não é tão simples como realizar um desejo. Pode estar além de sua compreensão. De qualquer forma, sou um velho e sofro os insultos da idade. Não gostaria de viver eternamente desse jeito.

— Se este é o caso, como acha que vai me manter aqui, velho? Agora que me tornou forte, não haverá mais surras. E Deus sabe que não haverá mais assédio sexual. Como espera me manter em sua companhia?

O velho caminhou em direção à escadaria, olhando astuciosamente sobre os ombros.

— Nada mudou entre nós, Adair. Acha que lhe daria algum tipo de poder que o libertasse? Eu ainda sou mais forte. Posso extinguir sua vida como a chama de uma vela. Eu sou o único que pode desfazer o que foi feito. Lembre-se disso — e o físico desapareceu na escuridão.

Adair continuou ajoelhado, tremendo, sem saber, naquele momento, se acreditava no que o velho tinha lhe dito ou na estranha força que vinha de dentro de suas entranhas. Olhou para o lugar de seu braço onde vira o físico trabalhando com agulhas e tinta, achando que estava sonhando, mas, não, havia um desenho curioso lá, de dois círculos dançando, um ao redor do outro. O desenho tinha algo familiar, mas não conseguia se lembrar onde já o tinha visto.

Talvez o físico estivesse certo: talvez Adair fosse muito estúpido para entender algo tão complexo. Mas a vida eterna era a última coisa com a qual se importava naquele momento. Não fazia diferença viver ou morrer. Tudo o que queria era convencer o monge a prosseguir com o plano, e não tinha importância se ele morresse na barganha.

Adair encontrou o monge rezando na capela. Em pé na porta, pensou se sua condição aparentemente sobrenatural o impediria de entrar num lugar santificado. Se tentasse atravessar a passagem, seria arremessado de volta pelos anjos e proibido de entrar? Após respirar fundo, deslizou pela porta de carvalho, sem efeitos colaterais. Aparentemente, Deus não tinha domínio sobre o que ele se tornara. O monge viu Adair e se apressou, pegando-o pelo braço e levando-o para um canto escuro.

— Saia da porta, podem nos ver juntos — ele disse. — Qual é o problema? Parece agitado.

— E estou mesmo. Tomei conhecimento de algo ainda mais aterrorizante do que já lhe contei, algo sobre o físico que eu não sabia até a noite passada. — Adair pensou se estava brincando com fogo. Ainda assim, estava convencido de que era esperto o suficiente para derrotar o físico sem ser incriminado.

— Pior do que ser um adorador de Satã?

— Ele... não é humano; é uma das criaturas de Satã. Ele se revelou para mim, em toda sua maldade. O senhor foi treinado pela Igreja, sabe das coisas do outro mundo, criaturas maléficas atiradas sobre pobres mortais para a diversão de Satã e nosso tormento. Qual é a pior coisa que pode imaginar, monge?

Para seu alívio, Adair não viu ceticismo no rosto redondo do monge. O clérigo ficou pálido e prendeu a respiração, com medo, talvez relembrando todas as histórias terríveis que ouvira ao longo dos anos, as mortes inexplicadas, as crianças desaparecidas.

— Ele se transformou em um demônio, monge. Não consegue imaginar como é ter uma criatura tão maléfica como esta tão perto, em sua garganta, o fedor do inferno em seu hálito. A força de Lúcifer nas mãos dele.

— Um demônio! Já ouvi falar de demônios que caminham entre os homens, que eles têm muitas formas. Mas nunca, nunca ninguém se encontrou com um e viveu para contar. — Os olhos do monge saltavam em seu rosto pálido e ele se afastou de Adair. — Mas você está aqui, vivo. Qual é o milagre?

— Ele disse que não estava pronto para me levar; disse que ainda precisava de mim como servo, o mesmo com Marguerite. Ele me avisou para não fugir, que haveria punições severas caso eu tentasse escapar, agora que eu já sei... — Adair não precisou fingir estar com medo.

— O demônio!

— Sim. Ele pode ser o próprio demônio!

— Devemos tirar você e Marguerite daquela casa agora mesmo! Suas almas estão em risco, sem falar em suas vidas.

— Não podemos nos arriscar; não sem antes termos um plano. Marguerite está a salvo. Nunca o vi levantar a mão para ela. Quanto a mim, há muito pouca coisa a fazer comigo além do que ele já fez até agora.

O monge suspirou.

Meu filho, ele pode lhe tirar a vida.

— Eu seria mais um entre tantos.

— Arriscaria sua vida para livrar o vilarejo desse demônio?

Adair ruborizou com ódio.

— Com todo o prazer.

Os olhos do clérigo se encheram de lágrimas.

— Muito bem, então, meu filho, nós prosseguiremos. Falarei com os moradores do vilarejo discretamente, pode ter certeza, e verei com quem podemos contar para nossa marcha contra o físico. — Ele se levantou para acompanhar Adair até a porta. — Fique de olho neste prédio. Quando estivermos prontos para agir, amarrarei um pano branco ao poste da lanterna. Até lá, tenha paciência e seja forte.

Passou uma semana, depois duas. Às vezes, Adair imaginava se o monge teria perdido a coragem e fugido do vilarejo, muito covarde para confrontar o físico. Adair passava a maior parte do tempo procurando pelo selo que o velho usara para autenticar os documentos em sua propriedade. Depois da cerimônia no castelo do físico, aparentemente o selo sumira, apesar de Adair saber que o físico não arriscaria guardá-lo onde ele não pudesse lhe pôr as mãos quando precisasse. À noite, depois que Marguerite dormia e o velho saía em suas excursões noturnas, Adair procurava em cada caixa, cesto e baú, mas não encontrou o pesado selo de ouro.

Quando Adair estava com medo de não conseguir mais controlar sua impaciência, veio a noite em que o pano branco balançava ao vento no poste da lamparina da igreja.

O clérigo estava em pé em frente da entrada da abadia. Ele sofrera desde a última vez que Adair o vira e não parecia mais um fraco. Suas bochechas, antes cheias como as de um esquilo, agora estavam murchas. Seus olhos, brilhantes e claros da primeira vez que ele e Adair se encontraram, estavam opacos e tristes devido ao conhecimento que agora ele possuía.

— Falei com os homens do vilarejo e eles estão conosco — o clérigo disse, enquanto pegava Adair pelo braço, com um ar conspirador, e o levava para as sombras do vestíbulo. Adair tentou esconder sua alegria.

— Qual é o plano?

— Nos reuniremos amanhã à meia-noite e marcharemos até a casa.

— Não, não, à meia-noite não — Adair interrompeu, colocando a mão sobre o braço do clérigo. — Para surpreenderem o físico, seria melhor virem no pico do meio-dia. Como qualquer demônio, o físico é ativo à noite e dorme durante o dia. Aproximem-se da casa à luz do dia para terem maior chance. A patrulha nunca vem até a casa. A não ser que soem o alarme, não precisa ter medo dos guardas do conde. — Isso não era exatamente verdade. Os guardas já haviam visitado o velho muitas vezes durante o dia, mas só por uma razão: para entregar uma prostituta para ele. No entanto, essas entregas agora eram menos frequentes. Havia tempos o conde não mandava uma serviçal, então a chance era maior, mas... Adair achou que não era hora, mas pensou que não valia a pena mencionar o risco ou o monge poderia usá-lo como uma desculpa para não prosseguir com o plano.

— Sim, sim... — o monge concordou, olhos vidrados. “Ele está escapando de mim”, Adair pensou.

— E o que propõem fazer com o velho quando o capturarem?

O clérigo parecia ter levado um golpe.

— Não cabe a mim decidir o futuro de um homem...

— Claro, padre, seria sua responsabilidade como representante de Deus. Lembre-se do que o Senhor diz sobre bruxas: não pode deixá-las viver. — Ele apertou o braço do homem com firmeza enquanto falava, como se puxasse sua coragem pelas veias. Após um longo momento, o clérigo baixou os olhos.

— A multidão... Não posso garantir que serei capaz de controlar a fúria da multidão. Afinal, eles têm muito ódio do físico... — ele disse, com voz firme e resignada.

— Isso mesmo! — Adair concordou pacientemente. — Não pode ser o responsável pelo que acontecer. É o desejo de Deus. — Ele precisou esconder a risada selvagem que borbulhava dentro dele. O velho odioso finalmente teria o que merecia! Poderia estar além da força de Adair, sozinho, vencer um homem com o demônio a seu lado, mas certamente o físico não conseguiria se defender de metade do vilarejo.

— Precisarei de mais um dia para informar a mudança de planos aos homens — o clérigo disse. Adair assentiu. — Depois de amanhã, então, ao meio-dia — o clérigo engoliu em seco e fez o sinal da cruz.

Um dia. Adair tinha um dia para encontrar o selo ou arriscar que os moradores do vilarejo o encontrassem. Ele voltou para a casa, dissimulando o pânico. Onde o objeto poderia estar? Adair tinha procurado em todas as prateleiras, gavetas, revirado todas as peças de roupa do físico, tinha até mesmo esquadrinhado cada baú para ter certeza de que o selo não fora escondido entre eles. O fracasso da busca só servia para aumentar o desespero de Adair, e ele viu seus planos desmoronarem, como um castelo de cartas: nunca conseguiria fugir do físico, nunca viveria no castelo distante, nunca veria sua família nem sua amada Katarina. Preferia estar morto, pensou. Sua frustração era tão grande que teria pedido ao velho que pusesse fim à sua existência, por compaixão, se seu ódio pelo físico não fosse maior. O velho estava em sua escrivaninha, quando Adair voltou de seu encontro secreto, e olhou para cima quando o servo adentrou a sala.

— Precisarei voltar à vila amanhã para buscar comida para os cavalos — Adair disse para o velho e, um segundo depois, um pensamento, uma possibilidade surgiu em sua mente. O velho batia os dedos sobre a mesa.

— Sua missão terá que esperar um dia. Farei um emplastro curativo para levar, para trocar por aveia com o fornecedor de provisões...

— Minhas desculpas, mas, devido à minha falta de atenção, o depósito de grãos está vazio. Já não há comida há vários dias e a grama está muito escassa para satisfazer os cavalos por muito mais tempo. Não posso esperar. Com sua permissão, comprarei só uma pequena quantidade, o suficiente para os cavalos passarem essa semana, e me encontrarei com o fornecedor de provisões na semana que vem, quando o senhor já tiver tido tempo de fazer o emplastro.

Adair prendeu a respiração, esperando para ver o que o velho diria, pois, caso recusasse, seria difícil inventar outra desculpa, em tão pouco tempo, para fazê-lo revelar onde escondia seu dinheiro e seus pertences valiosos. O velho balançou a cabeça diante da incompetência do servo, então se levantou e desceu as escadas. Adair queria segui-lo, mas ouviu com a atenção de um cão de caça, pegando cada som, cada pista. Apesar do grosso assoalho de madeira, ouviu o movimento de escavação e, em seguida, o som de algo pesado sendo tirado do lugar. O tilintar de uma moeda, então o som do movimento de novo. Finalmente, o velho subiu os degraus de volta e jogou uma bolsinha de pele de veado sobre a mesa.

— Apenas o suficiente para uma semana. Tente conseguir uma boa barganha — alertou, resmungando.

À noite, quando o velho saiu, Adair voou para o porão. O chão nojento parecia não ter sido mexido e foi só depois de uma busca cuidadosa que Adair encontrou o lugar onde o velho estivera trabalhando, rente à parede, num lugar úmido e mofado, cheio de fezes de ratos.

A terra havia sido retirada de uma das pedras. Adair ajoelhou-se e segurou o canto das pedras pela ponta dos dedos, retirando-a da parede. Num pequeno recôndito, só conseguia discernir uma trouxa de tecido grosseiro, que ele retirou e desenrolou. Havia uma bolsa gorda de dinheiro e, envolto num quadrado de veludo, o selo do reino de seus sonhos.

Adair pegou tudo e empurrou a pedra de volta no lugar. Ajoelhado na terra, estava empolgado com o sucesso, feliz por ter encontrado o selo, feliz por ter tido uma vitória sobre seu opressor depois de tantas injustiças que recaíram sobre ele.

Adair deveria ter matado seu pai em vez de tê-lo deixado bater em sua mãe e irmãos.

Não deveria ter se deixado vender como escravo.

Deveria ter aproveitado cada chance para escapar e nunca desistir de tentar.

Deveria ter matado o maldito conde. Ele merecia a morte por ser inimigo do povo magiar e um bárbaro em conluio com um emissário de Satã.

Deveria ajudar Marguerite a fugir, levá-la até uma boa família ou a um convento, encontrar alguém para tomar conta dela.

A maneira que Adair via a situação não era uma questão de roubo. O físico devia seu reino a Adair. Ou ele o dava a Adair ou morreria.

No dia marcado, Adair observava o sol a pino, tão cobiçosa e atentamente quanto os olhos de uma águia olham para um rato no campo. O clérigo e sua multidão chegariam à casa em uma hora ou duas. A questão era se ele deveria ficar e testemunhar a ruína do físico.

Era tentador ver os moradores arrastarem o velho de sua cama nojenta e trazê-lo à luz do sol, o rosto dele contorcido pelo medo e pela surpresa. Ouvir seus gritos enquanto eles o espancavam no chão, golpeando-o com porretes, cortando-o aos pedaços com foices. Encorajá-los enquanto saqueavam a casa, pilhavam os baús, jogavam as garrafas e os jarros de ingredientes preciosos no chão, os esmagavam e, então, queimavam a maldita fortaleza.

Ainda que estivesse em posse do selo, Adair não poderia sair cavalgando sem ter certeza de que o físico não viria atrás dele. Mas havia uma boa razão para desaparecer antes que a multidão chegasse: e se o velho, por algum motivo, escapasse da morte? Se a coragem da multidão falhasse ou se o velho também tivesse poderes de imortalidade (uma possibilidade, o físico nunca dissera que não tinha, não com todas as letras), ele poderia pensar que Adair estava envolvido no ataque. Não haveria como negar isso ao físico, se sua aliança fosse descoberta. Seria mais prudente preservar a sombra da dúvida.

Ele foi até Marguerite, que estava esfregando batatas num balde de água, tirou as batatas da mão dela e começou a acompanhá-la até a porta. Ela resistiu, alma boa que era, mas a vontade de Adair prevaleceu e ele a fez esperar ao lado dele enquanto selava o cavalo do velho. Ele levaria Marguerite para a segurança da cidade, para não presenciar a confusão. Assim seria melhor. Ele só voltaria para ver o resultado.

O sol estava se pondo quando Adair refez o caminho de volta à casa. Ele não teve pressa, deixou o cavalo vaguear com a rédea solta por caminhos desconhecidos pela floresta. Ele não estava ansioso para se encontrar com o grupo de moradores do vilarejo em seu caminho de volta, cheios de animação e sede de sangue.

Adair notou uma nuvem de fumaça negra no horizonte, mas, quando chegou mais perto da casa, ela já tinha se transformado numa nuvem de fumaça. Apressou o cavalo, até chegar a uma clareira familiar antes da casa de pedra.

A porta estava sem a tranca e o chão em frente estalava assustadoramente. O curral fora destruído e o segundo cavalo havia desaparecido. Adair deslizou do lombo do cavalo e se aproximou cuidadosamente da porta aberta, preta e sinistra como um crânio sem o olho.

Do lado de dentro, linhas de ferrugem subiam pelas paredes como se se agarrassem para fugir. A destruição foi como imaginara: pedaços de vidro e cerâmica no chão, por todo lado; caldeirões, potes e baldes revirados, a escrivaninha em pedaços. Todas as receitas haviam desaparecido, junto com os vestígios do velho. A não ser que... o sangue de Adair congelou imediatamente ao pensar que a coragem da multidão realmente tivesse falhado. Começou a fuçar pelos destroços, erguendo móveis, procurando por roupas espalhadas pelo chão e os poucos itens que sobraram dos baús saqueados. Mas não encontrou nada do velho, nem mesmo uma orelha. Com certeza haveria restos, um pedaço de osso, um crânio queimado, se os aldeões tivessem sido bem-sucedidos em lhe trazer a ruína.

Outras alternativas ainda mais assustadoras vieram à mente de Adair: talvez o físico tivesse conseguido escapar para a floresta ou se escondido em algum lugar da casa. Afinal, se havia um pequeno cofre atrás de uma pedra na parede, quem poderia dizer que não havia um quarto maior escondido? Ou talvez, e ainda mais perigoso, tivesse se entregado por meio de feitiços ou fora poupado pelo próprio mestre da escuridão, que interveio em nome de um servo fiel.

Com o pânico subindo pela garganta, Adair desceu as escadas para os aposentos do velho. A cena abaixo era ainda mais horrenda do que no andar de cima. O ar estava espesso com fumaça negra, aparentemente o fogo principal havia sido feito aqui, e o quarto estava completamente vazio, exceto pela cama de cinzas ardentes.

Mas Adair conseguia cheirar a morte escondida e profunda dentro da fumaça; então, foi até o monte preto de cinzas, agachou-se e passou os dedos pelos restos. Encontrou pedaços de osso, lascas e pepitas ainda quentes ao toque. E, finalmente, a maior parte de um crânio, com um pedaço de carne queimada e o cabelo fino e comprido ainda no lugar.

Adair ficou em pé e limpou as cinzas das mãos o melhor que pôde. Não teve pressa para sair da casa, olhou pela última vez o lugar de seus cinco anos de sofrimento. Era uma pena que as paredes de pedra não pudessem ser queimadas também. Ele não manteve nada além das roupas do corpo e, claro, o selo e a bolsa de moedas. Saiu vagarosamente pela porta aberta, juntou as rédeas do cavalo e seguiu em direção ao leste, para a Romênia.

Adair conseguiu viver na propriedade do físico por muitos anos, apesar de o direito à propriedade não ter lhe sido passado diretamente como ele esperava. Quando chegou às terras sozinho, sem o físico, Adair apresentou-se ao administrador, Lactu, e disse a ele que o velho havia morrido. A esposa e o filho haviam sido inventados, Adair explicou, uma história para dar ao físico a privacidade para a verdadeira razão de sua solteirice: suas tendências peculiares. Sem herdeiro, o físico havia deixado a propriedade para seu fiel servo e companheiro, Adair explicou, e mostrou o selo ao administrador.

As dúvidas do administrador eram óbvias em seu rosto e ele esclareceu que o pedido da posse da terra deveria ser feito ao rei da Romênia. Se Adair não era um descendente de sangue do físico, o rei tinha o direito de decidir sobre o destino da propriedade. A decisão do rei levou anos, mas, no final, não foi tomada a favor de Adair: ele teve permissão para continuar na propriedade e manter o título da família, mas o rei se apropriou das terras.

Chegou o dia em que Adair não podia mais permanecer ali. Lactu e todos os outros tinham murchado e envelhecido com o passar dos anos, enquanto Adair era o mesmo desde o dia em que chegara ao castelo. Assim, para não levantar suspeitas, era o momento de Adair desaparecer por uns tempos, ficar quieto e, talvez, voltar em algumas décadas, fingindo ser seu próprio filho, com o selo de ouro na mão.

Ele resolveu ir para a Hungria, seguindo seu coração, para procurar sua família. Adair queria muito vê-los; não o pai, claro, pois, depois do físico, era quem ele mais odiava. Sua mãe já deveria estar velha e vivendo com o filho mais velho, Petu. Os outros estariam crescidos, com filhos. Ele ansiava vê-los e saber o que tinha acontecido com eles.

Levou dois anos até Adair encontrar sua família. Ele começou pela propriedade de onde havia sido levado e reconstruiu a rota, dolorosamente, baseando-se em pistas e informações de ex-vizinhos e soberanos. Finalmente, quando o segundo inverno estava chegando, parou no lago Balaton e cavalgou pelo vilarejo, procurando por rostos parecidos com o seu.

Assim que chegou perto de um grupo de cabanas nos arredores do vilarejo, teve um pressentimento de que alguém que conhecia estava muito próximo. Adair desmontou do cavalo, caminhou pela escuridão em direção às cabanas e bisbilhotou pelas janelas. Enfiando o olho pelo buraco das cortinas, onde a luz da vela era quase imperceptível, ele viu alguns rostos conhecidos.

Apesar de terem mudado com o tempo, ficado mais redondos, enrugados e cansados, ele os reconheceu. Seus irmãos estavam reunidos em volta da fogueira, bebendo vinho e tocando o violino e a balalaica. Com eles havia mulheres que Adair não reconhecia, suas esposas, ele supôs, mas não havia sinal de sua mãe. Finalmente viu Radu, crescido, peito musculoso, alto... Ah, como Adair queria correr para dentro da cabana, abraçar Radu e agradecer a Deus por ele estar vivo, por ter sido poupado de todo o inferno e tormenta pelos quais Adair havia passado. Então, percebeu que Radu parecia bem mais velho do que ele, que todos os seus irmãos já mostravam o sinal do tempo. Viu uma mulher ir até Radu e sorrir, e este deslizou o braço em volta dos ombros dela e a apertou. Era Katarina, agora mulher e linda, e apaixonada por Radu, o irmão que era exatamente como Adair. Só que mais velho.

Enquanto permanecia em pé no escuro e no frio, ainda queimando com o desejo de ver sua família, de abraçá-los e conversar com eles, de lhes contar que não havia morrido nas mãos do físico, a terrível verdade se abateu sobre ele. Esta seria a última vez que os veria. Como poderia explicar o que havia acontecido com ele e o que ainda tinha pela frente? Porque ele nunca envelheceria; não era mortal como eles: havia se transformado em algo que não conseguia explicar.

Adair foi até a frente da cabana e tirou uma sacola de moedas do bolso, deixando-a em frente da porta. Era dinheiro suficiente para que parassem de perambular pelo mundo. Seria difícil confiarem totalmente naquele milagre, mas, com o tempo, aceitariam a boa sorte e agradeceriam a Deus por sua generosidade e compaixão. Até lá, Adair já estaria muitos dias ao norte, perdendo-se entre as multidões de Buda e Szentendre, aprendendo a lidar com seu destino.

Ao final da história, tinha me desvencilhado dos braços de Adair, o efeito da fumaça já desaparecido. Não sabia se deveria ter respeito ou medo dele.

— Por que me contou isso tudo? — perguntei, fugindo de seu toque.

— Considere uma lenda de advertência — ele respondeu misteriosamente.

25

FRONTEIRA DO MAINE, HOJE



Luke vira para sair da via expressa e pega uma estrada velha e empoeirada, deixando o ponto morto levar a SUV pelos buracos. Quando chega a um cotovelo, estaciona ao lado da via de acesso, mas mantém o motor funcionando. A visão deles é clara graças à nudez das árvores de inverno e ambos, ele e a passageira, conseguem ver o ponto de travessia da fronteira dos Estados Unidos e do Canadá a distância. Parece um brinquedo de criança montado num local de construção: uma gigantesca fileira de cabines e gabinetes abarrotados de caminhões e carros, o ar pairando pesado com o ar abafado da fumaça dos veículos.

— É para lá que estamos indo — ele diz, gesticulando na direção do para-brisa.

— É enorme — a garota responde. — Achei que estávamos indo para algum posto mais afastado, com dois guardas e um cão de caça inspecionando carros com uma lanterna...

— Tem certeza de que quer continuar com isso? Há outras maneiras de chegar ao Canadá — Luke diz, apesar de achar que não deveria encorajá-la a desobedecer a lei mais do que ela já tinha feito. O olhar que ela lança a Luke vai direto a seu coração, como uma criança procurando o apoio dos pais.

— Não, você me trouxe até aqui e acredito que vá conseguir me fazer atravessar a fronteira.




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