No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Às vezes, depois que o velho saía para suas caminhadas noturnas, Marguerite mandava Adair descer com comida para a pobre prisioneira. Ele se lembrava da primeira vez, arrastando-se, relutante, para dentro do quarto para ver a pobre mulher, nua sob os lençóis, tremendo, de choque e medo, e incapaz de perceber sua presença. Essa primeira não implorou ao jovem para soltá-la. Paralisada de medo, ela também não se moveu em direção à comida. Adair sentiu-se envergonhado por perceber que tinha uma ereção, olhando para sua forma feminina debaixo do cobertor, sua barriga lisa subindo e descendo a cada respiração, aterrorizada. A simpatia pelo suplício dela e as lembranças horríveis do que tinha acontecido com ele próprio, nessa mesma cama, eram suficientes para afastá-lo do desejo sexual. Ele não ousou tomá-la à força, já que era propriedade do velho e, assim, tremendo de desejo, deixou-a intocada e voltou para o andar de cima.

As criadas geralmente morriam depois de três dias e o velho fazia Adair se livrar de seus corpos, retirando-os da cama e carregando-os para a floresta. Elas ficavam deitadas no chão, como estátuas tombadas, enquanto ele cavava o túmulo, pulverizava-as com cal e as cobria com terra escura. A morte da primeira criada o encheu de vergonha, ódio e desespero, a ponto de não poder olhar para ela enquanto cavava a vala.

Mas, depois da primeira, da terceira, da quarta, Adair sentiu que algo havia mudado dentro dele e seu desejo, que ele reconhecia ser abominável, ultrapassou o medo de cruzar a fronteira do profano. Suas mãos tremiam quando sucumbia ao desejo de tocar seus seios, agora endurecidos e inumanos, ou percorrer as mãos por seus corpos arqueados. Cada vez que colocava uma delas no chão, ele roçava seu torso nelas e vibrava com o endurecimento em seu corpo. Mesmo assim, nunca foi além, nunca cometeu um ato que achava mais repulsivo do que fascinante e, dessa forma, os corpos foram poupados de ser ainda mais molestados.

Muitos anos se passaram dessa maneira. As surras e os estupros diminuíram, talvez porque Adair tivesse crescido e ficado mais forte. Ou, talvez, por não ser mais um garoto, seu corpo já não agradasse mais ao físico.

Depois de um inverno particularmente brutal, o velho anunciou que eles viajariam para a Romênia para visitar sua propriedade. Uma mensagem foi enviada com antecedência para o vassalo que cuidava da propriedade, para que as contas fossem colocadas em ordem e tudo estivesse pronto para ser inspecionado pelo físico. A segurança da viagem seria garantida pelo conde e um segundo cavalo foi comprado para Adair, para que pudesse fazer a jornada. Quando chegou a hora de ir, só arrumaram algumas provisões, poucas roupas e dois baús pequenos e trancados. Partiram depois do pôr do sol, cavalgando para leste noite adentro.

Ao final de sete noites de viagem, estavam bem no meio de território romeno, tendo atravessado uma passagem aos pés dos Montes Cárpatos para chegar até a propriedade do velho.

— Nossa jornada terminou — o físico disse a Adair, balançando a cabeça em direção a uma luz que brilhava sofregamente de um castelo a distância. O castelo tinha torres altas em cada canto, a forma ameaçadora claramente visível à luz da lua. O último trecho os levou por campos férteis, vinhedos pendurados nas encostas das montanhas, gado dormindo nos pastos. Os imensos portões foram abertos quando ambos se aproximaram e um grupo de servos aguardava no pátio, segurando tochas acesas acima da cabeça. Um homem mais velho encontrava-se à frente do grupo, segurando um robe de pele, que colocou sobre os ombros do físico assim que ele desmontou do cavalo.

— Espero que vossa senhoria tenha feito boa jornada — ele disse com a solicitude de um pastor, seguindo o físico pelos largos degraus de pedra.

— Estou aqui, não estou? — o velho respondeu, ruidosamente.

Adair absorvia os detalhes da propriedade enquanto adentravam. O castelo era sólido, velho, mas bem-cuidado. Adair viu que os servos tinham o mesmo olhar de terror que ele imaginava ter. Um criado pegou-o pelo braço e o levou até a cozinha, onde Adair recebeu uma refeição de carnes assadas e galinha, e em seguida foi levado para um pequeno quarto. Naquela noite, afundou-se num verdadeiro colchão de penas e se aconchegou sob um cobertor com bordas de pele.

Adair adorou esse tempo fora, vivendo mais luxuosamente do que alguém pudesse imaginar, sobretudo um camponês. Livre do regime de vida da casa, ele passou a maior parte dos dias perambulando pelo castelo, enquanto o físico estava imerso na administração da propriedade e não tinha interesse nas andanças de Adair.

O administrador, Lactu, simpatizou-se com Adair. Ele era um homem bom e parecia reconhecer o peso silencioso que o servo do físico carregava. Por Lactu falar húngaro, Adair conseguiu ter uma conversa de verdade depois de todo aquele tempo em que estivera trabalhando para o físico. Lactu vinha de uma linhagem de servos que trabalhavam para o físico havia gerações. Ele explicou que não achava estranho que o físico ficasse longe a maior parte do tempo: os senhores dessa propriedade têm sido proprietários ausentes durante gerações, escolhendo, em vez disso, servir o rei da Romênia. Na experiência de Lactu, o físico retornava somente a cada sete anos, para tomar conta de assuntos importantes.

Através do administrador, Adair teve acesso a todos os aposentos do castelo. Ele pôde ver o quarto onde ficavam os robes cerimoniais do velho, guardados em baús, e a despensa, repleta de todos os tipos de comida e guarnições feitas na propriedade. No entanto, o aposento que mais lhe encheu os olhos foi o quarto dos tesouros, repleto de lembranças das conquistas da família de cel Rau: coroas e cetros, adornos encravados de pedras preciosas, moedas de cunhos estranhos. A visão de tantos bens e de tantas posses fez Adair pensar sobre as receitas alquímicas: um castelo enorme numa terra distante era tanto desperdício! Era um crime ter um tesouro como aquele e não desfrutá-lo!

Passaram-se semanas sem que Adair visse o físico, até que, uma noite, o velho mandou uma mensagem para o jovem participar de uma cerimônia no grande salão. O jovem observava enquanto o físico assinava declarações cujos efeitos recairiam em todos aqueles que viviam na propriedade. Ao lado da mão direita do velho, estava um selo pesado. Lactu trazia cada declaração, a lia em voz alta e então colocava a folha na frente do físico, para que ele a assinasse. Depois, o administrador pingava cera vermelha embaixo do rabisco do físico, e o velho pressionava o selo com o símbolo de sua família, um dragão que empunhava uma espada. Mais tarde, Lactu explicou a Adair que aquele era o selo que garantia o domínio da lei de cel Rau, pois os lordes frequentemente morriam longe de sua propriedade e, sem que seus herdeiros fossem apresentados de forma apropriada às autoridades romenas e ao administrador, as assinaturas não significavam nada. Quem quer que possuísse o selo, seria reconhecido como senhor da terra.

Semanas se tornaram meses. Adair ficaria feliz se não tivesse que retornar à Hungria. Ele gostava do duplo benefício de ser tratado como um filho favorecido, ao mesmo tempo em que podia escapar das atenções do físico. Em seu tempo livre, praticava esgrima com os guardas ou passeava pelo vilarejo. Falava sobre o que tinha visto com o administrador, aprofundando os conhecimentos sobre a propriedade em seus muitos aspectos, como o cultivo das lavouras, a produção de vinho, os cuidados com os animais. Adair passou a acreditar que Lactu confiava nele, mas o jovem não ousava compartilhar qualquer detalhe da vida na casa. Ele retribuía a afeição de Lactu multiplicada por dez, mas tinha muito medo do que o administrador pudesse pensar dele se soubesse o que tinha sofrido ou que ele ajudava o velho a praticar magia negra. Sentia muita vontade de contar a Lactu sobre a natureza diabólica do mestre, mas não imaginava uma maneira de fazê-lo sem se envolver, e ele estava relutante de perder a afeição do administrador.

Uma noite, já no fim da estação, Adair foi acordado por uma presença em seu quarto. Enquanto acendia a vela, sabia que não estava sozinho, mas mesmo assim ficou assustado ao ver o físico em pé, ao pé de sua cama. Seu coração disparou à memória dos horrores dos quais aquele homem era capaz.

— Mestre, o senhor me surpreendeu. Está precisando de meus serviços?

— Não vejo você há muito tempo, Adair. Queria olhá-lo, mas juro que quase não o reconheci — ele disse com uma delicada aspereza. — A vida aqui lhe fez bem. Você cresceu. Está mais alto... e mais forte. — Havia um olhar, um brilho da velha tentação nos olhos do físico, que Adair não queria ver.

— Aprendi muito durante este tempo aqui — Adair disse, querendo mostrar ao físico que não havia ficado ocioso durante o período que ficara longe dos olhares do velho. — Sua propriedade é magnífica. Não entendo como suporta viver longe daqui.

— A vida aqui é muito parada para o meu gosto. Acho que também concordaria com isso, com o tempo. Mas é por isso que vim esta noite, para avisá-lo que não ficaremos por muito mais tempo. O verão está se aproximando e preciso voltar para a Hungria.

As palavras do velho alarmaram Adair. Sabia que essa situação teria um fim, mas de algum modo havia se iludido que ficaria ali para sempre. Adair tentou dissimular o pânico. Enquanto isso, o velho deslizava para o lado da cama do servo, tateando as feições de seu rosto. Ele esticou a mão e puxou o cobertor, expondo o abdômen e o peito de Adair. Adair ficou esperando pelo toque, mas não houve toque nenhum. Em vez disso, o velho ficou olhando para o jovem, com um desejo palpável, mas ele pareceu satisfeito só de olhar para o corpo do rapaz. Ou talvez a maturidade de Adair o tenha feito parar, pois, após um longo minuto, ele virou-se e saiu do quarto.

23

Após voltarem para a casa do físico, Adair esperava que a vida continuasse como antes, mas isso se provou impossível. Muita coisa tinha acontecido com ele. Estava obcecado com uma ideia que não conseguia tirar da cabeça, especialmente durante o dia, quando o físico não estava por perto para controlar seus pensamentos. Adair não conseguia se esquecer do que vira na propriedade do velho: o castelo, os campos abundantes, o tesouro, os serviçais, os servos... A única coisa que faltava era um senhor feudal, e o que estava em seu caminho eram apenas duas coisas simples: o selo, agora escondido em algum lugar da casa, e a morte do velho.



O selo poderia ser encontrado com um pouco de persistência. Matar o velho era outra questão. Adair já havia pensando nisso muitas vezes durante seus anos de aprisionamento, havia planejado cada detalhe, mas, ao final, considerava tudo uma loucura. Todas as vezes que o velho colocara as mãos nele, por ódio ou por desejo, o serviçal sufocava sua humilhação jurando que um dia faria o físico pagar por tudo. Mas era a lembrança daquele ataque brutal com a barra de ferro e dos meses agonizantes de recuperação que faziam Adair não tomar uma atitude.

No entanto, muitos anos haviam se passado desde aquela surra e Adair havia crescido consideravelmente. O físico não era mais tão rápido para levantar a mão e, ainda que continuasse a olhar para Adair com desejo, suas aproximações eram poucas e calculadas. E o ódio de Adair pelo velho o acompanhava por tanto tempo, que já se tornara tão natural quanto respirar. Seus pensamentos estavam mais precisos, a necessidade de vingança, mais aguçada e irrefutável. Ele não percebera o quanto tinha mudado até uma noite, quando enterrava outra garota morta. Olhou para seu lindo corpo e percebeu que este último tabu havia caído. Ele podia facilmente atacar essa forma vazia, mas o que realmente queria era violentar aquele corpo sem vida antes de enterrá-lo no chão molhado. E, mais ainda, ficaria satisfeito por fazê-lo. Ele não sentia medo nem repulsa; havia abandonado o último fragmento de humanidade. Todas as reservas foram extirpadas, camada por camada, como um animal cuja pele é retirada pelo caçador. Havia se tornado páreo para o velho e essa ideia fez Adair sentir-se feliz pela primeira vez durante anos.

O primeiro passo era garantir que teria ajuda. Adair precisava de aliados, moradores do vilarejo que já odiavam o físico, pois este apoiava o opressor romeno. Adair tinha que encontrar esses moradores que guardavam rancor contra seu soberano e quisessem descontar essa fúria no físico, um alvo mais fácil do que o conde. Se ele pudesse provar que o físico cometera crimes contra os moradores, crimes os quais o conde não poderia defender, então, o conde seria forçado a olhar para o outro lado se a vingança deles tomasse a forma de assassinato. Era uma questão de encontrar as pessoas certas, escolher a ofensa adequada e produzir as provas necessárias.

Certo dia, Adair foi até o vilarejo procurar as autoridades religiosas, pois pareciam uma escolha correta para seu objetivo. Na abadia, ele encontrou um monge, poupado dos rigores do campo e rosado de cima a baixo, como um recém-nascido. O clérigo pareceu surpreso por encontrar o servo do maldito físico parado em frente da sua porta, mas quando Adair caiu a seus pés, implorando por seus conselhos, o jovem monge não pôde recusar. Sentaram-se juntos na solidão da abadia e ele ouviu Adair derramar seu remorso por ser o criado do opressor do vilarejo. Adair explicou que fora forçado a servi-lo. Sem discorrer muito sobre as circunstâncias, continuou a expressar sua repulsa por servir a um déspota tão malvado e impenitente. Quando o monge começou a acalmá-lo (hesitante, a princípio, mas, depois, as palavras saíam mais livremente), Adair sabia que havia encontrado o aliado que estava procurando. Para fechar com chave de ouro, ele sugeriu alguns pecados tenebrosos que o físico e o conde haviam cometido. O monge garantiu a Adair que ele podia voltar, a qualquer hora, para continuar a se redimir.

E assim Adair o fez. Na segunda vez em que foi ver o monge, descreveu como fora enviado para sequestrar uma criança. O rosto do monge ficou pálido e ele recuou como se tivesse sido confrontado por uma víbora, quando Adair descreveu a localização das charretes ciganas; o monge confirmou que os ciganos haviam desaparecido sem nenhuma explicação.

— Imagino que ele tinha a intenção de usar a criança para uma de suas poções satânicas, mas para que efeito e para qual causa, não posso dizer. Deve ser trabalho do demônio, exigir um sacrifício humano, não deve? — Adair perguntou com voz incrédula, fazendo-se soar tão arrependido e inocente quanto podia.

Naquele ponto, o monge pediu para que ele parasse de falar, sem querer acreditar no que acabara de ouvir.

— Juro que é verdade! — Adair disse, caindo de joelhos. — Posso provar. O pergaminho em que os feitiços estão escritos seria prova suficiente? — O monge, impressionado, só conseguia concordar com a cabeça.

Adair sabia que seria um truque bem simples tirar os papéis da casa durante o dia, enquanto o físico dormia, mas, no dia seguinte, quando tentava juntar as evidências, suas mãos tremiam ao alcançá-las. “Não seja tolo”, castigava-se, “já faz anos! Você é um homem ou um garoto assustado?” Cansado de ser assombrado pelo medo e pela humilhação, agarrou os papéis com certa rudeza, enrolando-os bem apertado antes de enfiá-los na manga de sua túnica. Sem dizer uma única palavra para Marguerite, saiu em direção à abadia.

Os olhos do monge se iluminaram ao ler as palavras apagadas do pergaminho. Enquanto devolvia os papéis, ele pediu desculpas a Adair por duvidar dele e o instruiu a devolvê-los rapidamente, além de avisá-lo caso o físico começasse a planejar outro crime sanguinário. No entanto, ele precisava de tempo para trabalhar num plano para capturar o herético, que era, afinal de contas, um aliado do senhor feudal. Adair protestou: o físico era um aliado do demônio e não merecia nem mais um dia de liberdade. Mas o monge titubeou; ele obviamente tinha dificuldades em pôr em prática um ato tão ousado contra o conde. Para dar apoio à resolução do monge, Adair prometeu voltar com mais provas de bruxaria.

Naquela noite, a companhia do físico foi agonizante. Adair pulava toda vez que o homem lhe dava o menor olhar descrente, certo de que o físico podia sentir que ele havia tocado em seus preciosos pergaminhos. Enquanto o velho folheava os papéis procurando pelo feitiço de que precisava, Adair se inquietava achando que o físico encontraria alguma coisa diferente: uma ponta dobrada, uma mancha, o cheiro de lavanda e incenso da abadia. Mas o velho continuou seu trabalho calmamente.

Um pouco depois da meia-noite, o velho o olhou da mesa de trabalho e disse:

— Você ainda gostaria de aprender a ler? — perguntou de maneira bastante agradável. Parecia estranho que o velho trouxesse isso à tona tão repentinamente. Ainda assim, se Adair desse qualquer outra resposta, o velho acharia que algo estava errado.

— Sim, claro.

— Suponho que esta noite seja tão boa quanto qualquer outra para começarmos. Venha aqui e eu lhe ensinarei algumas das letras desta página. — O físico curvou um dedo para ele. Com o peito apertado, Adair levantou-se do chão e andou em direção ao velho. O físico olhou o pequeno espaço entre eles. — Mais perto, garoto, não conseguirá enxergar o papel daí. — Ele apontou para o lugar próximo dele, no chão. O suor escorria da testa de Adair conforme ele se aproximava. No momento em que deslizou para perto do velho e abaixou a cabeça em direção ao papel, o velho o alcançou e o agarrou pela garganta com punho de ferro. Ele não conseguia respirar, uma vez que o punho estava cerrado em volta de sua traqueia.

— Esta noite será muito importante para você, Adair, meu bom garoto. Muito importante — ele repetiu, levantando-se de seu assento, erguendo o jovem no ar pela garganta. — Não achei que fosse mantê-lo empregado por tanto tempo; planejava matá-lo antes. Mas, apesar de sua séria ofensa, passei a gostar de você. Você sempre teve uma beleza selvagem e também tem sido mais leal do que eu pensei ser possível. Sim, você se saiu melhor do que eu esperava desde a primeira noite em que o vi. Assim, resolvi mantê-lo como meu criado, para sempre. — Ele arremessou Adair na parede de pedra como se fosse uma boneca de pano, a cabeça de Adair rachando contra as pedras. A força desapareceu de seu corpo. O velho o levantou, carregando-o de novo escada abaixo, para a privacidade de sua câmara subterrânea. Deitado na cama, a consciência de Adair ia e vinha, e sentia as mãos do velho em seu rosto.

— Tenho um presente precioso para dar a você, meu tolinho rebelde. Você achou que eu não conseguiria ver em seus olhos, mas claro que eu conseguiria... — Adair entrou em pânico com as palavras do velho, preocupado que o físico pudesse ler sua mente e soubesse do pacto com o monge. — Mas, assim que receber este presente, você nunca mais conseguirá recusar nada a mim de novo. Este presente nos unirá, você verá...

O velho chegou bem perto e estudou seu criado de um modo aterrorizante. Foi então que Adair notou um amuleto pendurado num cordão de couro amarrado no pescoço do físico. O velho fechou a mão em volta do amuleto e puxou o cordão com força, protegendo-o com as duas mãos da visão de Adair. Mas Adair conseguira ter um vislumbre dele através da fraca luz da vela: era um pequeno frasco de prata, adornado com relevos diminutos e uma tampa minúscula.

De alguma forma, com a ponta dos dedos murchos, o físico conseguiu tirar a tampa, revelando uma longa agulha que servia como uma rolha bem fina. Um fluido viscoso e acobreado estava grudado na agulha e formava uma gota gorda na ponta.

— Abra a sua maldita boca! — o físico mandou, segurando a rolha sobre os lábios de Adair. — Está prestes a receber um dom precioso. A maioria dos homens mataria ou pagaria muito dinheiro por ele. E aqui estou eu a ponto de desperdiçá-lo com um idiota feito você! Faça o que eu disse, seu cachorro mal-agradecido, antes que eu mude de ideia. — Ele nem precisava ter brigado: a agulha era fina o suficiente para atravessar os lábios de Adair, e ele a enfiou na língua do rapaz.

Foi mais o choque do que a dor que fez Adair se atirar para cima do físico, o choque do estranho amortecimento tomando conta de seu corpo. O coração do jovem congelou de terror, com a sensação instantânea de que estava no limiar de algo demoníaco. Conforme a pressão de seu corpo caía, seu coração começou a bater cada vez mais rápido, desesperado para mandar o que ainda restava de sangue para os membros famintos, o cérebro, o coração. Enquanto isso, o velho o segurava firme, murmurando a ininteligível e, certamente, a língua do diabo, enquanto executava outra função sobre ele, dessa vez com agulhas e tinta. Adair tentou empurrar o velho, mas não conseguia removê-lo do lugar e, em poucos minutos, não tinha mais forças para tentar. Convulsionando, engasgando, enrolando-se nos lençóis nos espasmos da morte e ficando azul de frio... Adair sentia como se estivesse sendo enterrado vivo, preso num corpo que caía em espiral.

Dentro de Adair, um desejo feroz o fazia resistir à morte. Se ele morresse, o velho nunca seria punido e, mais do que tudo, Adair queria ver este dia. O físico analisou o rosto de Adair em seus espasmos de morte.

— Tão forte! Você tem um senso de sobrevivência muito forte, isso é bom. Fique cego de ódio de mim, isso é o que eu espero de você, Adair. Seu corpo passará pelos últimos estágios da morte e isso irá mantê-lo ocupado por um tempo. Fique quieto.

Quando o corpo de Adair já não podia mais se salvar, começou a endurecer, aprisionando a mente de Adair dentro dele. Enquanto permanecia deitado ali, o físico falou de como ele tinha sido levado à alquimia (ele não esperava que Adair, um camponês, entendesse a magia da ciência), de como seu treinamento como físico lhe abrira as portas. Mas, acima da alquimia, ele havia se aliado, aos poucos, aos mais astutos, àqueles que transitavam acima dos segredos do mundo natural para o mundo sobrenatural. Transformar metais comuns em ouro era uma alegoria, Adair conseguia entender? Os verdadeiros videntes não buscavam transformar materiais terrenos em coisas mais preciosas, mas sim transformar a própria natureza do homem! Mediante a purificação mental e a dedicação total ao conhecimento da alquimia, o físico havia passado para o nível dos maiores conhecedores, dos homens mais poderosos na Terra.

— Eu comando água, fogo, terra e vento. Você já viu, sabe que é verdade — gabou-se. — Posso tornar os homens invisíveis; tenho a força da minha juventude. Isso lhe surpreendeu, não foi? Na verdade, sou mais forte do que costumava ser; às vezes me sinto tão forte quanto vinte homens juntos! E também tenho poder sobre o tempo. O presente que lhe dei — o rosto dele transformou-se em uma máscara odiosa de superioridade e autossatisfação — é a imortalidade. Você, meu servo quase perfeito, nunca deixará de me servir. Nunca me decepcionará. Nunca morrerá.

Adair ouviu as palavras enquanto estava morrendo e desejou que tivesse entendido errado. Servir ao físico para sempre! Ele implorou para que a morte o levasse. Em pânico, bloqueou o restante do que o físico estava lhe dizendo, mas não tinha importância.

Ainda ouviu mais um pouco antes que a escuridão o engolisse. O físico estava lhe contando que só havia uma forma de escapar da eternidade, só uma maneira de ser morto: pelas mãos daquele que o tinha transformado. Pelo seu feitor, o físico.

24

Quando Adair acordou, viu que ainda estava na cama do físico, o velho deitado perto dele, parecendo um morto. Adair sentou-se; sentia-se estranho. Era como se tudo tivesse mudado enquanto dormia, mas não sabia dizer exatamente o quê. Algumas mudanças eram evidentes: a visão, por exemplo. Ele conseguia enxergar no escuro. Viu ratos correndo pelos cantos do quarto, subindo um em cima do outro enquanto percorriam a largura da parede. Podia ouvir cada som como se estivesse bem ao lado da fonte do barulho, cada som separado e distinto. O olfato era o mais predominante de todos; os odores lhe chamavam a atenção, principalmente os doces e encorpados, com uma pitada de cobre no ar. Não conseguia identificá-lo, por mais que mexesse com ele.



Em alguns minutos, o físico se moveu e, então, levantou-se. Notou o estado de estupor de Adair e riu.




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