No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Foi acordado de repente por uma mão em sua garganta, sacudindo-o para que ficasse em pé e, então, inexplicavelmente, estava acima do chão. A princípio Adair não conseguia ver quem o pegara, o ar espesso da noite, mas quando seus olhos se ajustaram, ele se recusou a acreditar no que via. A figura que o segurava era frágil... enrugada... mas, em menos de um minuto, Adair reconheceu o velho pelo cheiro, o fedor de enxofre e podridão.

— Ladrão! É assim que você agradece meu apoio e minha confiança? — O fí­sico rugia com ódio e jogou Adair no chão com tanta força que ele escorregou até a parte de trás do celeiro. Antes que pudesse recuperar a respiração, o velho estava sobre ele novamente, agarrando-o pelos ombros e levantando-o novamente do chão. Adair fervia de dor e confusão: o físico era senil, como um homem velho poderia levantá-lo tão facilmente? Adair teve só um minuto para pensar sobre isso antes que o velho o arremessasse ao chão pela segunda vez e começasse a esmurrá-lo e a chutá-lo. As pancadas eram muito fortes; a cabeça de Adair latejava de dor e ele tinha certeza de que ia desmaiar. Ele percebeu que estava sendo carregado, sentia o movimento do vento a seu redor. Eles viajaram em grande velocidade, a cavalo, mas parecia impossível que o velho cavalo de guerra conseguisse correr tão rápido. Com certeza era tudo uma ilusão, disse a si mesmo, produzida por algum tipo de elixir que o velho o forçara a beber enquanto dormia. Era muito mágico e assustador para ser real.

Ainda em estado de estupor, Adair sentiu o ar entrando em seus pulmões, o corpo novamente com peso humano. Então, os cheiros chegaram até ele: a umidade mofada da casa, o resíduo de ervas queimando e o enxofre pairando no ar. Sentiu-se coalhado de medo. Caindo no chão, abriu um pouco os olhos e ficou devastado ao ver que estava de volta à casa, que tinha voltado a sua prisão.

O velho caminhou em sua direção. Ele havia mudado: talvez fosse um truque do ângulo e percepção, mas ele parecia mais alto e orgulhoso, nenhum sinal do velho físico. A mão dele deslizou até a ferramenta da lareira e então ele se inclinou para fisgar o cobertor esfarrapado da cama de palha de Adair. Devagar e deliberadamente, enrolou o cobertor na ferramenta enquanto avançava em Adair.

Adair viu o braço se levantar, mas evitou o olhar dele quando a ferramenta desceu. O cobertor protegeu a pancada, evitou que o ferro quebrasse os ossos do jovem de uma vez. Mas as pancadas não pareciam em nada com o que já sentira antes: os socos e tapas que recebera do pai, as cordas ou as correias de couro. A barra de ferro comprimia os músculos, amassava a carne até entrar em contato com os ossos. Desceu várias vezes nas costas, nos ombros e na espinha. Ele rolava para escapar das pancadas, mas a arma o acertava da mesma forma, atingindo as costelas, o estômago, as pernas. Logo Adair havia ultrapassado o limite da dor e não conseguia mais se mover, sequer se encolher de medo, enquanto a barra de ferro continuava a descer sobre ele. Doía respirar; labaredas incandescentes apertavam suas costelas a cada respiração, suas entranhas estavam inundadas por um líquido escorregadio e quente. Estava morrendo. O velho iria espancá-lo até a morte.

— Podia lhe cortar a mão, sabe, esta é a punição para ladrões. Mas, então, de que uso você seria, com uma mão só? — O físico ficou parado, ereto e firme, e arremessou a barra de ferro ao chão. — Talvez lhe corte a mão quando seu tempo de serviço terminar, assim todos saberão o que você é. Ou, talvez, eu não o libere, quando seus sete anos se completarem. Talvez tenha que cumprir mais sete anos, como punição pelo seu crime. Como pôde pensar que fugiria de mim e roubaria o que é meu?

As palavras dele não fizeram nenhuma diferença. “O velho está louco”, Adair pensou, “em achar que seu servo sobreviveria”. Ele não veria o nascer do sol, quanto mais sete anos. Um líquido quente permeava seus intestinos e órgãos, e subia pela garganta de Adair. O sangue derramava-se de seus lábios, caindo no piso de madeira, escorrendo em direção aos pés do velho num fio escuro e gotejante. O sangue esvaía de todos os orifícios do corpo de Adair.

Os olhos de Adair abriam e fechavam. O velho parara de falar e olhava para ele novamente, daquele jeito intenso. Ele começou a se arrastar pelo chão em direção ao garoto, como uma cobra ou um lagarto, até chegar bem perto de Adair, a boca aberta, a língua para a frente, esticada. Levantou o dedo longo e ossudo e mergulhou-o no fio de sangue que gotejava da boca de Adair. Um fio longo e vermelho escorreu pelo dedo enquanto o trazia até seu rosto e o lambia. Ele enrolou a língua para dentro da boca e um débil suspiro de excitação pairou sobre seus lábios. Nesse momento, Adair desmaiou e ficou aliviado por isso. Mas a última coisa que conseguiu discernir, quando achou que a consciência o tivesse abandonado pela última vez, foram os dedos do velho roçando seu rosto e passando por seus cabelos ensopados de suor.

21

Pela manhã, Marguerite encontrou Adair num estado lamentável. Durante a noite, seu corpo tinha se preparado para a morte: seus intestinos evacuaram, sua roupa empapada de sangue grudara no chão tão teimosamente que a governanta teve que esfregar o lugar com panos embebidos em água quente para poder desgrudá-la do chão.



Ele ficou deitado na cama de palha, inconsciente por muitos dias e, quando acordou, viu-se coberto de grandes manchas pretas e roxas, com as bordas verdes e amareladas, a pele quente e sensível ao toque. Mas, de algum modo, Marguerite limpara todas as marcas externas de sangue e o vestira com uma camisola de linho limpa.

A consciência de Adair ia e vinha, seus pensamentos incoerentes dançando na mente. Num dos piores momentos do crepúsculo, ele imaginara que alguém o estava tocando, pontas de dedos escorregando por seu rosto e lábios. Outra vez imaginou estar sendo colocado de bruços e sentiu mexerem em suas roupas. O último episódio poderia ser explicado se Marguerite o estivesse limpando, já que ele não conseguia se mexer com coordenação suficiente para usar o urinol. Incapaz, ele não conseguia se mover ou resistir, não podia fazer nada além de aceitar sua violação, real ou imaginária.

O olfato foi o primeiro sentido a voltar e, depois, o paladar, o gosto amargo e ferroso de sangue, e a maciez da gordura de carne. Quando abriu os olhos, levou alguns minutos para sua visão focar e ele ter a certeza de que não havia perdido a visão, o ambiente tornou-se real de novo e a sensação de dor voltou. Suas costelas doíam, seu intestino estava instável e solto, e cada respiração perfurava suas costelas quebradas. Junto com a dor, voltou a voz e ele se debatia com o cobertor, tentando, inutilmente, se levantar.

Marguerite correu para o lado dele, sentiu a testa de Adair e dobrou os joelhos e as mãos, procurando sinais de desconforto provenientes de ossos quebrados, tentando ver quais partes ele conseguia mexer sozinho e quais estavam machucadas. Afinal, qual é a utilidade de um trabalhador que não pode usar as mãos e as pernas?

Ela pegou um pouco de caldo e, então, ignorou Adair pelo restante do dia enquanto ia de um lado para o outro fazendo as tarefas domésticas. Ele não tinha outra alternativa a não ser ficar olhando para o teto e deixar o tempo passar, enquanto um facho de luz do sol iluminava a parede, contando as horas até o anoitecer quando o velho acordaria. Adair esperava com medo: pensou que seria melhor ter morrido naquela noite do que acordar preso num corpo destruído. Quanto tempo levaria para se recuperar, pensou; será que ficaria inteiro novamente quando seus ossos colassem? As partes do corpo se grudariam corretamente? Será que ficaria manco ou corcunda? Pelo menos seu rosto parecia estar livre de cicatrizes e desfigurações: o velho havia tomado cuidado com sua cabeça; ele havia batido com uma barra de ferro, podia ter quebrado a cabeça de Adair ao meio.

Quando a luz se foi, sinalizando o final do dia, Adair sabia que seu tempo tinha terminado. Resolveu fingir que estava dormindo. Marguerite também pressentiu que o confronto se aproximava e tentou se apressar para arrumar a cama enquanto o velho subia as escadas, mas o físico a interrompeu, pegando-a e apontando inquisitivamente em direção à cama de Adair. Mas ela vira Adair fechar os olhos e ficar numa posição de inconsciência, então, ela somente balançou a cabeça e retirou-se para a cama, puxando o cobertor sobre a cabeça.

O velho foi até a cama de Adair e se agachou. Adair tentou manter a respiração equilibrada e calma, e controlar seu tremor, esperando para ver o que o velho faria. Não precisou esperar muito: a mão fria e ossuda do velho tocou as faces do jovem, depois seu pomo de Adão e então escorregou pelo peito rapidamente até parar sobre a barriga lisa de Adair. Ele mal tocou nas feridas e, mesmo assim, foi o suficiente para fazer Adair querer se encolher de tanta dor.

A mão não parou e, em vez disso, continuou escorregando: para o abdômen, então um pouco mais para baixo e o choque quase fez Adair gritar. De algum modo, ele continuou estoicamente deitado, enquanto os dedos do velho encontraram o que estava procurando, acariciando o pedaço irregular de carne, massageando, apertando, seduzindo. No entanto, antes que a virilidade de Adair pudesse reagir, os dedos se retiraram e, sem olhar para trás, o velho virou-se e saiu pela porta noite adentro.

O pânico foi tamanho que Adair quase pulou da cama, apesar de seu estado. Foi tomado pela necessidade de fugir, mas não podia: tinha pouco controle dos braços e suas pernas não lhe respondiam. O velho era consideravelmente mais forte do que parecia; quando saudável, Adair já não podia se defender dele, quanto mais em seu estado atual. Ele não podia nem mesmo rastejar pela sala e tentar encontrar uma arma que pudesse usar para se defender. Amargurado pelo desespero, Adair percebeu que não havia nada que pudesse fazer, não naquele momento. Tudo o que lhe restava era aguentar o que o físico lhe impusesse.

Passou os dias pensando no trabalho que fizera para o físico, nos elixires e unguentos que preparara, imaginando se haveria algo que pudesse usar em sua defesa. Tais pensamentos eram inúteis; apesar de servirem para aguçar sua memória sobre os ingredientes utilizados nessas poções poderosas, assim como as proporções, os cheiros e as texturas, ele ainda ignorava a utilidade deles, exceto daquele que dava poderes de invisibilidade.

Ele conseguiu manter as aparências por mais dois dias antes que o físico percebesse que já recuperara a consciência. Testou seus membros e articulações da mesma maneira que Marguerite havia feito e preparou um elixir que derramou para dentro da garganta do jovem. Era a poção que fazia Adair se entregar, pois ela queimava e ferroava, e ele não podia fazer nada além de engasgar.

— Espero que pelo menos tenha aprendido a lição! — o físico rosnava enquanto caminhava ao redor de sua escrivaninha. — E essa lição é que você nunca poderá fugir de mim. Posso encontrá-lo onde quer que esteja. Nenhuma jornada será tão longínqua, nenhum esconderijo tão profundo a ponto de me enganar. Na próxima vez que tentar me trapacear pelo serviço que paguei ou roubar qualquer coisa minha, esse pequeno episódio vai parecer a mais leve das punições. Se eu apenas sentir que está sendo desleal, acorrentarei você às paredes dessa casa e nunca mais verá a luz do dia, entendeu? — O velho não se incomodou nem um pouco com o olhar de ódio de Adair.

Em poucas semanas, Adair conseguiu se levantar da cama e cambalear pela sala com a ajuda de uma bengala. Como suas costelas estalavam de dor cada vez que levantava os braços, ele ainda era inútil para Marguerite, mas já podia ajudar o físico à noite. No entanto, toda a conversa entre eles cessou: o velho bradava as ordens e Adair sumia de vista assim que as cumpria.

Após alguns meses, com doses regulares do elixir ardente, Adair havia se recuperado consideravelmente, a ponto de poder buscar água e cortar lenha. Conseguia correr, não por muito tempo, e tinha certeza de que poderia cavalgar, caso tivesse a chance. Às vezes, quando colhia ervas na floresta e caminhava até o cume da colina, olhava para o vale e pensava em tentar fugir de novo. Ele desejava, profundamente, ficar livre do velho e, ainda... Um sentimento doentio tomava conta de Adair ao pensar na perspectiva da punição e, com pensamentos quase suicidas, ele se virava e voltava para a casa.

— Amanhã você irá até o vilarejo para achar uma jovenzinha. Ela tem que ser virgem. Não deve perguntar nada nem chamar a atenção de ninguém. Apenas encontre essa jovenzinha, volte e me diga onde ela vive.

O pânico subiu pela garganta de Adair.

— Como posso saber se a jovem ainda não foi deflorada? Devo examinar...

— Obviamente deve encontrar uma que seja bem nova. Quanto ao exame, deixe isso para mim — ele disse friamente.

O velho não deu explicação nenhuma e, depois de tanto tempo, Adair não precisava de explicações. Sabia que qualquer ordem do físico certamente seria um pedido diabólico, mas, mesmo assim, Adair não estava em posição de desobedecê-lo. Geralmente via as idas até o vilarejo como um raro prazer, quando podia apreciar o burburinho da vida em família, ainda que não fosse a sua, mas esse passeio não trazia bons presságios. No vilarejo, Adair permaneceu sorrateiro perto das casas, espiando os moradores, mas o vilarejo era pequeno e ele não era desconhecido das pessoas. Toda vez que encontrava algumas crianças brincando ou fazendo tarefas domésticas, os pais as espantavam ou ameaçavam Adair com olhares ferinos.

Com medo da reação do físico, caso falhasse, pegou um caminho desconhecido de volta à casa, esperando que isso lhe trouxesse sorte. A estradinha o levou até uma clareira onde, para sua surpresa, estavam algumas charretes não muito diferentes das que seus pais viviam. Uma trupe de romenos tinha chegado ao vilarejo e o coração de Adair encheu-se com a esperança de que seus pais estivessem procurando por ele. Enquanto passava os olhos pelos trabalhadores itinerantes, logo percebeu que não reconhecia nenhum dos membros do grupo. Todavia, havia crianças de todas as idades: garotos de bochechas vermelhas e garotas de rostos meigos. E, porque tinha a mesma ascendência, podia caminhar livremente entre eles, apesar de ser obviamente desconhecido.

Poderia fazer algo tão horrível?, ele se perguntou, o coração disparado enquanto escolhia a vítima, olhando de rosto em rosto. Estava a ponto de sair correndo, tomado de ódio de si mesmo (como poderia escolher quem seria entregue às mãos de um monstro?), quando se deparou abruptamente com uma criança, uma garotinha que lembrava muito sua Katarina. A mesma pele branca e sedosa, os mesmos olhos negros inebriantes, o mesmo sorriso cativante. Foi como se o destino tivesse tomado a decisão por ele.

O físico ficou extasiado com a notícia e instruiu Adair a ir até o acampamento dos romenos naquela noite, quando todos estivessem dormindo, e trazer a criança para ele.

— Está de acordo, não está? — o velho gargalhou, talvez achando que Adair se sentiria melhor pelo que estava prestes a fazer. — Seu povo o expulsou, deram você sem pensar duas vezes. Agora é sua chance de vingança.

Em vez de convencer Adair de que tinha o direito de roubar a criança, isso só o deixou ainda mais enfurecido.

— Por que quer essa menina? O que fará com ela?

— Não está em posição de pensar, só de obedecer — o velho resmungou. — Você acabou de se recuperar, não é? Seria uma pena quebrar todos os seus ossos de novo.

Adair pensou em implorar pela intervenção divina, mas, neste momento, as preces eram inúteis. Adair tinha todos os motivos para acreditar que ele e aquela menina estavam amaldiçoados e que nada salvaria nenhum dos dois. Assim, mais tarde naquela noite, voltou ao acampamento. Foi de charrete em charrete, espiando pelas janelas ou pela abertura de cima das portas holandesas, até encontrá-la, encolhida como um gato sobre um cobertor. Prendendo o fôlego, ele empurrou a porta e deu uma olhada na criança adormecida, torcendo para que ela chorasse e alertasse a mãe e o pai, mesmo que isso significasse que ele seria pego. Mas a criança dormiu em seus braços como se estivesse enfeitiçada.

Adair não ouviu nada atrás de si enquanto fugia: não havia passos nem nenhum tipo de mexerico vindo da charrete dos pais, nenhum grito de invasão do acampamento. A criança começou a se agitar e a se mexer, e Adair não sabia o que fazer, exceto segurá-la cada vez mais perto de seu coração disparado, na esperança de fazê-la se acalmar. Quanto mais desejava ter coragem para desobedecer às ordens maléficas do velho, mais se embrenhava pela floresta, chorando durante todo o caminho.

No entanto, quando se aproximou da casa, uma coragem desesperadora veio à tona. Ele simplesmente não podia sucumbir aos desejos do físico, independentemente do quanto poria em risco sua própria segurança. Quando chegou aos arredores da clareira, a menina estava acordada e respirava ofegante, mas em silêncio. Ele a colocou em pé e ajoelhou-se ao lado dela.

— Volte para seus pais e diga a eles para saírem desse vilarejo imediatamente. Há um grande mal aqui e haverá uma tragédia se eles não ouvirem esse conselho — ele disse para a garota.

A garota alcançou seu rosto e tocou-lhe as lágrimas.

— Quem eu devo dizer que mandou essa mensagem a eles?

— Meu nome não é importante — ele respondeu, sabendo que mesmo que os romenos tivessem seu nome e viessem atrás dele, tentando puni-lo por invadir o acampamento e sequestrar uma criança, não faria diferença. Ele já estaria morto.

Adair continuou ajoelhado na grama enquanto a observava correr em direção às charretes. Desejou poder correr também, correr em direção à floresta e continuar correndo, mas sabia que isso de nada serviria. Era melhor retornar à casa e aceitar sua punição.

Quando Adair empurrou a porta da casa, o velho estava sentado na escrivaninha. A leve expressão de entusiasmo em seu rosto rapidamente transformou-se na conhecida expressão de escárnio e desprezo ao ver Adair sozinho. O físico levantou-se, repentinamente muito alto, como uma árvore frondosa.

— Vejo que você me decepcionou. E não posso dizer que esteja surpreso por isso.

— Posso ser seu escravo, mas não pode me transformar num assassino. Não farei isso!

— Você ainda está fraco, fatalmente fraco, covardemente fraco. Preciso que fique mais forte. Se achasse que você não fosse capaz de fazer isso, mataria você esta noite. Mas ainda não estou convencido, ainda não... assim, não o matarei esta noite, só o castigarei. — O físico esbofeteou o servo com tanta força que ele caiu no chão e desmaiou. Quando Adair voltou a si, percebeu que o velho levantava sua cabeça e enfiava uma taça em sua boca. — Beba isto.

— O que é, veneno? É assim que pretende me matar?

— Eu disse que não o mataria esta noite. Isso não significa que eu não tenha outros planos. Beba isto — ele ordenou, os olhos brilhando impiedosamente —, beba e não sentirá mais dor.

Naquele ponto, Adair teria dado as boas-vindas ao veneno, então engoliu o conteúdo que o físico depositava dentro de sua boca. Um sentimento estranho se apoderou de Adair rapidamente, parecido com o estupor inebriante dos elixires de cura do velho. Começou com um formigamento dos membros e depois tomou conta de seu corpo. Sem conseguir controlar os músculos, Adair despencou, as pálpebras pesadas como as de uma vítima de paralisia, a respiração lenta. Quando o formigamento chegou à nuca, uma sensação de adormecimento trouxe o mau presságio de que algo sobrenatural estava prestes a acontecer.

O velho ficou em pé em frente do servo, analisando-o de maneira fria e desconcertante. Adair se sentiu levantado e carregado, percebia seu peso a cada passo. Foi levado para o porão, onde jamais estivera antes, para os aposentos do velho. Essa percepção lhe trouxe um pânico gelado. O quarto era úmido e abafado, uma verdadeira masmorra, e nojento. Baratas e outros bichos escalavam os cantos das paredes. O velho derrubou o jovem sobre a cama, num colchão de pena mofado e fedorento. Adair queria rastejar e fugir, mas estava preso num corpo que não lhe respondia. Insensível, o velho subiu na cama e começou a despir seu prisioneiro, puxando a túnica sobre a cabeça, soltando-a acima da cintura.

— Esta noite, você atravessará a última fronteira de suas reservas. A partir desta noite, não haverá nada que eu não possa obrigá-lo a fazer. — Ele puxou as calças do jovem para baixo e alcançou o fino linho que cobria a virilha. Mais uma vez, Adair fechou os olhos enquanto o físico tateava, enroscando os dedos nos pelos pubianos. Adair lutou para não ter uma ereção enquanto o velho manipulava seu pênis. Depois do que pareceu ser um longo tempo, o velho soltou seu brinquedo, mas deixou que suas mãos passassem sobre o rosto de Adair. Apertou os dedos no rosto do jovem, depois no sulco abaixo de seus olhos. Em seu estado droga, o jovem lutou o máximo que pôde contra esse abuso horripilante.

— Ouça bem, seu garoto estúpido, eu o estrangularei caso não me obedeça. Precisa respirar, não precisa? — Ele fechou a mão sobre o nariz de Adair, cortando-lhe o ar. Adair segurou o máximo que pôde, imaginando, nesse estado de desorientação, se ele morreria ou só desmaiaria... Mas, ao final, o instinto veio à tona e ele buscou o ar. Quando abriu a boca, o velho forçou-se sobre o jovem e penetrou seu membro dentro das mandíbulas abertas. Piedosamente, a droga trouxera a sombra da incoerência para encobrir o horror e a humilhação de Adair, e a última coisa de que se lembrava era do velho dizendo que sabia de seus encontros com Marguerite e que eles cessariam. Ele não queria Adair gastando sua energia e desperdiçando sua semente com outra pessoa.

22

Pela manhã, Adair acordou no andar de cima, em sua miserável cama de palha, suas roupas desarrumadas. Atormentado pela náusea e pelos traços da droga, ele se lembrava das ameaças do velho, mas não tinha ideia se outras liberdades tinham sido tomadas. Teve vontade de correr escada abaixo e esfaquear o velho até a morte, na cama, a ideia latejando em sua mente por um segundo. Todavia, sabia que alguma coisa misteriosa e sobrenatural estava acontecendo; a força e os poderes do velho estavam acima de qualquer perspectiva razoável e ele seria poderoso o suficiente para não se deixar ser morto no próprio covil.



Passou o dia tentando juntar coragem para fugir. Mas o medo de sempre acorrentou Adair onde estava; a dor gélida em seus ossos remendados era um aviso sobre o preço da desobediência. Assim, quando o sol cruzou o céu e a escuridão começou a tomar conta, Adair sentou-se num canto, o olhar fixo no topo da escadaria.

O velho não se surpreendeu ao ver que seu servo ainda estava lá. Um sorriso sarcástico atravessou seu rosto, mas ele não se aproximou de Adair. Continuou seus afazeres como sempre fazia, retirando a capa do gancho na parede.

— Irei ao castelo hoje à noite, para uma função especial. Se sabe o que é bom para você, é melhor estar aqui quando eu voltar. — Quando saiu, Adair desmoronou ao lado do fogo, desejando ter coragem para se jogar nele.

A vida continuou assim durante muitos meses. As surras tornaram-se rotineiras, apesar de o velho nunca mais ter usado a barra de ferro. Adair percebeu rapidamente que não havia motivos para as surras; ele era tão obediente que não havia razões para isso. As surras serviam para mantê-lo assim e, por isso, nunca terminariam. O assédio sexual continuou, de forma irregular. O fí­sico fazia Marguerite drogar a comida ou a bebida de Adair para facilitar essas sessões, até que o jovem percebeu a tática e se recusou a comer. O velho então o surrava e o forçava a engolir drogas debilitadoras até ficar num estado deplorável.

A decadência do físico se acelerava. Talvez ele tivesse aberto algum tipo de portal: agora que se satisfazia com esses atos imorais, nada o impedia. Ou talvez os homens velhos fossem sempre assim. Adair imaginou se o velho teria matado seu último servo e tinha procurado Adair para começar tudo novamente. De vez em quando, o conde mandava uma criada para servir o velho, alguma jovem desafortunada, capturada pelos homens do conde durante as invasões aos campos húngaros. A jovem era levada para o aposento do velho e acorrentada à cama. Durante o dia, os gritos da criada chegavam até o andar de cima, assombrando Adair, que se culpava por não descer até o covil do físico para ajudá-la a escapar.




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