No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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— Monte sua cama de palha perto do fogo. Quando Marguerite acordar, ela lhe dará comida e as ordens para o dia. Também tente descansar, pois quero que esteja pronto hoje à noite quando eu acordar. Ah, e não fique surpreso se Marguerite não prestar atenção nem falar com você, ela é surda-muda desde que nasceu. — E, assim, o velho homem pegou uma vela, que já estava acesa na mesa da cozinha esperando por ele, e caminhou mancando em direção à escadaria escura. Adair seguiu suas ordens e se encolheu perto do fogo, caindo no sono antes que a luz da vela se apagasse no andar de baixo.

Ele acordou com o movimento da governanta. Ela parou o que estava fazendo para olhar descaradamente para Adair quando ele se levantava do chão. Adair ficou mais decepcionado do que quando ela estava dormindo: ela era pior do que comum; era feia, com um rosto masculinizado e o corpo largo de um trabalhador do campo. Ela deu a Adair uma refeição de mingau gelado e água e, quando ele terminou, levou-o até o poço e lhe deu um balde, gesticulando as instruções. Ela o fez cortar lenha para o fogo, além de carregar água para a cozinha e os animais. Mais tarde, quando ela foi esfregar roupa num grande tonel de madeira, Adair tentou cochilar, lembrando-se da admoestação do velho.

Quando deu por si, Marguerite o estava sacudindo pelo ombro e apontando para a escadaria. A noite havia caído e o velho estava acordando nos seus aposentos no andar de baixo. A governanta começou a acender as velas no cômodo principal, e, nesse momento, o velho subiu as escadas, carregando a mesma vela curta e grossa das primeiras horas da manhã.

— Você está de pé; bom — disse o físico enquanto arrastava os pés. Ele foi diretamente para sua escrivaninha e folheou as páginas de uma escrita indecifrável. — Acenda o fogo — ele mandou — e pegue um caldeirão. Essa noite preciso fazer uma poção e você me ajudará.

Ignorando o novo serviçal, o físico começou a mexer nas fileiras de jarros, cada um coberto com um pano e um cordão, virando cada um deles para o fogo para ler os rótulos, colocando alguns de lado. Depois que o caldeirão estava pendurado e quente sobre as chamas, Adair ajudou o velho homem a carregar os jarros até a lareira. Sentado ao lado dele, observou o físico medir os ingredientes em suas mãos enrugadas e, então, jogá-los dentro do pote. Adair reconheceu algumas plantas e ervas agora secas a ponto de cinza, mas outras eram mais misteriosas. Uma garra de morcego ou a pata de um rato? A crista de um galo? Três penas pretas, mas de qual pássaro? De um jarro com a tampa bem apertada, o físico derramou algumas gotas de um xarope escuro que exalou um cheiro podre assim que foi exposto ao ar. Por último, adicionou um jarro de água e, então, virou-se para Adair.

— Observe com atenção: espere até ferver completamente, depois apague o fogo e cuide para que o unguento não grude. Deve ser grosso, como piche. Entende?

Adair concordou.

— Posso perguntar para que serve essa poção?

— Não, não pode perguntar — ele respondeu, mas então pareceu pensar melhor sobre o assunto. — Com o tempo, aprenderá, quando adquirir esse tipo de sabedoria. Bem, agora vou sair. Cuide do pote conforme eu o instruí. Não saia da casa e não pegue no sono. — Adair ficou olhando enquanto o velho pegou sua capa de um gancho e saiu sorrateiramente.

Ele fez o que lhe foi mandado, ficou sentado perto o suficiente para inspirar a fumaça malcheirosa que saía da água fervente. A casa estava quieta, exceto pelo ronco de Marguerite, e Adair a observou por um tempo; o subir e descer da barriga dela sob o cobertor, a palha estalando conforme ela virava durante o sono. Quando se cansou de seu entretenimento mesquinho, foi até a escrivaninha do físico e estudou as páginas escritas à mão, desejando poder lê-las. Ele pensou em convencer o velho homem a ensiná-lo a ler; com certeza o físico acharia útil que seu servo tivesse essa habilidade.

De vez em quando, Adair mexia o conteúdo do caldeirão com uma colher de pau, avaliando a consistência e, quando parecia estar certa, ele pegava a pá de ferro e tirava a lenha que estava queimando, colocando-a no canto da lareira, deixando só brasas embaixo do caldeirão. Nesse ponto, Adair sentiu que poderia relaxar em segurança, então se enrolou no cobertor esfiapado e encostou-se na parede. O sono lhe mordiscava as orelhas por causa de uma cerveja deliciosa de que havia tomado um gole, mas sabia que não poderia beber mais. Fez de tudo para se manter acordado: andou de um lado para o outro, tomou água gelada, fez parada de mãos. Depois de uma hora, estava mais exausto do que nunca e à beira de cair no chão em estupor quando, de repente, a porta se abriu e o velho entrou. Ele parecia revigorado, seus olhos turvos quase brilhantes. Espreitou dentro do caldeirão.

— Muito bem! O unguento parece bom. Tire o caldeirão do gancho e coloque-o no chão, para esfriar. Pela manhã, derramará o unguento na urna e a cobrirá com papel. Agora pode ir descansar; o dia está quase amanhecendo.

Passaram-se muitas semanas como essa. Adair estava feliz pela rotina manter sua mente longe da perda de sua família e de sua amada Katarina. Durante as manhãs, ele ajudava Marguerite e, à tarde, descansava. As noites eram usadas para o preparo de poções e unguentos, ou para que o velho lhe ensinasse a reconhecer e juntar os ingredientes. Ele levava Adair até a floresta para procurar plantas específicas ou sementes, à luz da lua. Outras noites, Adair juntava retalhos e os pendurava no teto, perto do buraco do fogo. Quase todas as noites o físico desaparecia por algumas horas e sempre voltava ao amanhecer. Em seguida, se retirava para seu aposento no andar de baixo.

Após um ou dois meses, o físico começou a mandar Adair até o vilarejo que cercava os muros do castelo para trocar um pote de unguento por mercadorias, tecido, utensílios de ferro ou cerâmica. Depois desse tempo todo, Adair estava desesperado pela companhia de outras pessoas, até mesmo para poder ouvir a própria voz. Mas os moradores do vilarejo mantinham distância assim que descobriam que ele trabalhava para o físico. Se percebiam que Adair estava sozinho e desesperado por companhia e algumas palavras gentis, não se sensibilizavam e mantinham as transações breves e hostis.

Nessa mesma época, ocorreu uma mudança no relacionamento entre Adair e Marguerite, por culpa dele. Uma tarde, quando ele acordara de um cochilo e começara a se vestir, ela veio até a cama e colocou as mãos sobre ele. Sem esperar por estímulo, ela o empurrou de costas na palha, sentindo seu peito por baixo da túnica, e então foi até as calças e procurou pelo membro de Adair. Quando este estava bem envolvido em suas mãos, ela levantou as saias empoeiradas e se agachou sobre ele. Não havia carinho nos movimentos dela, nem nos de Adair, sem a pretensão de que aquilo nada mais era do que uma liberação física dos dois. Enquanto apertava a carne dela, Adair pensou em Katarina, mas não havia jeito de fingir que essa mulher, grande feito um urso, era seu amor delicado e de olhos negros. Ao final, Marguerite emitiu um som gutural enquanto rolava para longe de Adair, abaixou a saia e continuou com suas tarefas.

Ele continuou deitado na cama de palha, olhando para o teto e imaginando se o físico os teria ouvido e, se sim, o que ele faria. Talvez ele próprio satisfizesse seus desejos com Marguerite; não, isso não parecia possível e Adair imaginou que o velho visitasse uma prostituta no vilarejo para satisfazer aquela coceira durante suas rondas noturnas. Talvez com o tempo ele pudesse fazer o mesmo. Por hora, parecia ter adquirido um estilo de vida estranho, mesmo assim, não era tão difícil quanto trabalhar nos campos e havia a promessa de melhora, talvez se ele conseguisse persuadir o velho a ensiná-lo sobre as artes da cura. Apesar de Adair ainda sentir uma terrível falta de sua família, confortava-se com esses fatos e resolveu ficar um pouco mais e ver o que o destino guardava para ele.

20

Após meses de trabalho com o físico e o mínimo de contato com qualquer outra pessoa, exceto o velho homem e Marguerite, veio a noite da primeira visita de Adair ao castelo. Não que Adair quisesse ir à fortaleza de um nobre romeno; ele não sentia nada além de ódio pelos demônios que haviam atacado os vilarejos Magyar, destruído suas casas e confiscado suas terras. No entanto, ele mal podia esconder sua curiosidade; Adair nunca havia estado na residência de um homem rico, nem do lado de dentro dos muros do castelo. Só havia trabalhado nos campos. Ele imaginou que poderia aguentar se fingisse que o proprietário do castelo era um magiar, não um romeno. Assim, poderia se maravilhar com os grandes aposentos e a riqueza.



Naquela noite, seu trabalho era carregar um enorme jarro de uma poção na qual tinham trabalhado na noite anterior. Como sempre, o objetivo da poção era mantido em segredo. Adair esperou do lado de fora da porta enquanto o físico se debatia com sua aparência, finalmente escolhendo vestir uma túnica elegante, bordada com fios de ouro e ornamentada com cabochões coloridos, o que significava que a ocasião era muito especial. O físico foi em seu cavalo de guerra e Adair seguiu atrás com dificuldade, equilibrando a urna nas costas como uma velha senhora que não pode mais andar ereta. A ponte levadiça sobre o fosso foi rebaixada e eles foram acompanhados até o grande salão por um pelotão de soldados do conde; guardas se espalhavam pelos muros.

Havia uma festa acontecendo no grande salão. O físico juntou-se ao conde à cabeceira da mesa e Adair agachou-se no fundo da sala, encostado na parede, ainda segurando o jarro. Ele reconheceu alguns dos emblemas nos brasões que decoravam as paredes; eram de propriedades onde ele já trabalhara. O dialeto do conde soava familiar, mas Adair não conseguia entender o que eles falavam porque a conversa estava temperada por romeno. Até mesmo um garoto simples feito Adair entendia o que essa combinação de fatores significava: o conde era originalmente magiar, mas se aliara aos opressores romenos para salvar a própria pele e preservar sua fortuna. Devia ser por isso que os moradores do vilarejo o evitavam: achavam que Adair também fosse um simpatizante romeno.

Acabara de chegar a essa conclusão quando o velho o chamou para levar a urna. Dispensado com um aceno de mão do físico, Adair voltou a seu lugar à parede. O físico removeu a cobertura de tecido oleoso para que o conde pudesse inspecionar o conteúdo. O nobre fechou os olhos e inspirou profundamente, como se o cheiro daquela coisa fosse tão doce quanto um campo cheio de flores selvagens. Os cortesãos do conde riam com antecipação, como se já soubessem que algo fantástico estivesse prestes a acontecer. Adair segurava a respiração na esperança de saber qual o propósito de pelo menos uma das poções místicas do físico, quando o olhar cortante do velho caiu sobre ele.

— Acho que aqui não é lugar para um garoto — ele disse, fazendo movimento para um guarda. — Talvez possa encontrar algo para ocupar o tempo dele, ensinar-lhe uma coisa ou outra sobre a vida de um soldado. Talvez ele tenha que defender esse castelo um dia ou, no mínimo, salvar minha cabeça velha e imprestável.

Adair foi levado, em meio a risadas de escárnio dos convidados, a um pátio onde alguns poucos soldados gazeteavam. Estes não eram cavaleiros nem mesmo soldados profissionais; eram simples guardas, apesar de muito mais experientes com a espada ou a lança do que Adair. Sob o pretexto de treinamento, e com um prazer brutal, eles abusaram da inexperiência de Adair enquanto ele tentava se defender dessas armas incomuns. Quando lhe foi permitido retornar ao grande salão, seus braços doíam de tanto balançar uma espada de lâmina larga e cega, a mais pesada que os guardas conseguiram encontrar, e ele tinha cortes e ferimentos.

A cena no grande salão não foi o que esperava. O conde e seus vassalos pareciam estar num estado de intoxicação, recostados em seus assentos ou caídos no chão, olhos fechados, sorriso bobo no rosto, músculos relaxados. Deram pouca atenção quando o físico se despediu, guiando Adair até o pátio. No cinza de antes da aurora, tomaram o caminho sobre a ponte levadiça e através da floresta. Adair seguia com dificuldade atrás do cavalo do velho e, exausto como estava, agradecia por não ter que carregar a urna.

O mistério do estilo de vida do físico aos poucos começou a fazer sentido na mente de Adair. Por um lado, Adair era grato por ter um lugar quente e seco para dormir, e não ter que trabalhar diariamente até a exaustão e a morte prematura como um trabalhador do campo. Diferentemente de sua família, ele fazia três refeições por dia, comia praticamente tudo o que se podia comer: guisado, ovos, um pedaço de carne assada de vez em quando. Tinha companhia sexual, de forma que não precisava ficar louco de insatisfação. Por outro lado, Adair via tudo isso como se tivesse feito um pacto com o diabo, ainda que tenha sido selado contra sua vontade: havia um preço a ser pago por uma vida relativamente fácil e ele sentia que, um dia, teria de pagar a conta.

Ele recebeu a primeira pista da dívida a ser paga uma noite, quando o físico levou Adair e Marguerite para dentro da floresta. Eles caminharam durante um bom tempo e, já que não estavam fazendo nada além de colocar um pé na frente do outro, Adair viu a oportunidade para fazer algumas perguntas ao velho.

— Posso perguntar, mestre, por que faz todo o seu trabalho à noite? — ele falou com cuidado, para parecer o mais tímido e ingênuo possível.

A princípio o velho limpou a garganta, como se a pergunta não fosse digna de uma resposta. Mas, após alguns minutos, já que ele não gostava de falar dele mesmo, não importa quão triviais sejam as perguntas, ele limpou a garganta para responder.

— É um hábito, suponho... É o tipo de trabalho que é melhor ser feito longe dos olhos curiosos dos outros. — O físico respirou pesadamente, quando subiram um leve aclive, e só continuou depois que alcançaram um lugar nivelado. — A verdade, Adair, é que este trabalho é melhor se feito à noite, pois há poder na escuridão, sabe. É da escuridão que essas poções tiram sua força — o velho disse isso com tanta certeza que Adair sentiu que pedir ao homem para que lhe explicasse somente revelaria sua ignorância e, então, voltou a ficar em silêncio.

Mais tarde, chegaram a um lugar tão selvagem e coberto de vegetação que parecia nunca ter sido visto por olhos humanos. Ao redor das raízes de choupos e lariços, proliferava uma planta estranha, as folhas largas e em forma de leque sobre troncos de arbustos bem acima do chão, acenando para o trio de visitantes.

O físico indicou para que Marguerite o seguisse. Ele a levou a uma das plantas, ao redor da qual colocou as mãos dela e fez um sinal para que esperasse. Então, afastou-se dela, chamando Adair para vir com ele. Eles caminharam até que a criada tivesse quase se perdido na escuridão, o avental branco brilhando sob o luar.

— Tampe os ouvidos, fique atento, ou o pior acontecerá — ele instruiu Adair. Então, gesticulou para Marguerite puxar, o que ela fez, jogando todo o peso no movimento de solavanco. Apesar de ter as mãos sobre os ouvidos, Adair jurou ter ouvido um barulho abafado vindo da planta, enquanto estava sendo arrancada do chão. Adair olhou para o físico e abaixou as mãos, desconfiado.

Marguerite trotou como um cachorro seguindo seu mestre, carregando a planta nas mãos. O físico pegou a planta das mãos dela, tirando a terra pendurada nos fios da raiz.

— Sabe o que é isso? — ele perguntou a Adair enquanto inspecionava o torrão grosso de cinco pontas, maior do que a palma da mão de um homem. — Isso é a raiz da mandrágora. Percebem como tem a forma de um homem? Aqui estão os braços, as pernas, a cabeça. Vocês a ouviram gritar, enquanto a arrancávamos do chão? O som pode matar qualquer homem que o escute. — O físico chacoalhou a raiz diante de Adair; parecia mesmo um homem grosseiro e deformado. — Isso é o que precisam fazer para pegar mais mandrágoras, e lembrem-se bem disso quando eu mandar colhê-las. Alguns físicos usam um cachorro preto para arrancar a raiz, mas o cachorro morrerá se ouvir o grito, assim como qualquer outro homem. Não temos que nos preocupar em matar cachorros quando temos Marguerite, não é?

Adair não gostou de o físico tê-lo incluído no comentário sobre Marguerite. Ele se perguntou, envergonhado, se o velho sabia dos encontros deles e se tinha objeções ao tratamento informal que Adair dava a ela. Na verdade, o físico deveria compará-lo ao próprio tratamento brusco que dava à criada, usando-a feito um boi para puxar um tronco caído do meio do campo e, apesar de ela ser surda e muda, ele claramente tinha tão pouca consideração pela vida humana que não fazia diferença para ele se ela vivesse ou morresse tentando arrancar a raiz. Claro que seria possível que a mandrágora não a matasse nem mesmo se ela pudesse ouvir e que o velho apenas contara a história a Adair para assustá-lo. Mas Adair guardou na memória essa informação sobre a mandrágora, junto com outros conhecimentos que o físico compartilhara com ele, que deveriam ser usados depois.

O pouco prazer que Adair sentiu com sua nova vida começou a desaparecer à medida que ele ficava cada vez mais infeliz com a rotina solitária. O tédio deu lugar à curiosidade. Ele fez uma inspeção detalhada nas garrafas e nos jarros no laboratório do físico, então inventariou o quarto maior, até que conheceu cada pedaço do andar de cima da casa. Mas ele tinha bom senso para não se aventurar no porão.

Sem pedir permissão ao físico, Adair começou a pegar o cavalo para pas­sear pelos campos durante as tardes. Ele achou que fosse bom para o cavalo ser exercitado entre as cavalgadas esporádicas do físico. Mas, às vezes, quando estava a muitas milhas de distância da casa, uma voz o tentava para que fugisse, para que continuasse cavalgando e nunca retornasse. Afinal, como aquele velho homem encontraria Adair sem um cavalo para levá-lo? De qualquer forma, Adair sabia que, com o tempo que passara desde quando chegara à casa, já não conseguiria encontrar sua família e, sem família para a qual retornar, não fazia sentido ir embora. Aqui ele tinha comida e abrigo. Se fugisse, não teria nada e ainda seria um fugitivo pelo tempo que ainda devia ao físico. Depois de um longo momento zanzando pelas estradas que o levariam para longe de sua prisão, ele virava o cavalo e, relutantemente, cavalgava de volta para a casa.

Com o passar do tempo, Adair achou que o físico estava começando a se afeiçoar dele. À noite, enquanto trabalhavam numa poção, surpreendia o velho olhando para ele de maneira menos dura do que o normal. O físico começou a contar a Adair um pouco sobre as coisas que havia nos jarros enquanto ele esmagava sementes secas ou separava as ervas para guardar, como os nomes de plantas mais obscuras e como elas poderiam ser usadas. Haveria uma segunda visita ao castelo, sobre a qual o velho estava praticamente efusivo, esfregando as mãos enquanto andava de um lado para o outro na casa.

— Temos um novo pedido do conde, para o qual começaremos os preparativos hoje à noite — ele gargalhou, enquanto Adair pendurava a capa do velho no gancho ao lado da porta.

— Começar o quê, mestre? — Adair perguntou.

— Um pedido especial do conde; uma tarefa muito difícil, mas que eu já fiz antes. — Ele movia-se apressadamente de um lado para o outro no piso de madeira, juntando jarros de ingredientes sobre a mesa de trabalho. — Pegue o caldeirão grande e acenda o fogo, já está quase apagando.

Da lareira, Adair o observava: primeiro, o físico selecionou uma folha de suas receitas escritas à mão e a leu rapidamente, antes de apoiá-la num jarro, para consultá-la. Ele olhava para o papel de vez em quando, media os ingredientes e os colocava no caldeirão ao fogo. Pegou coisas das prateleiras em que Adair nunca havia mexido antes: pedaços misteriosos de animais, como focinhos, pedaços de pele, essências de carne mumificada. Pós, cristais com brilhos brancos e acobreados. Derramou a mesma quantidade de água e então Adair tirou o pote pesado do assador. Quando a água começou a ferver, o físico encheu a mão com o pó amarelo de um frasco e o jogou no fogo: a chama, com uma baforada de fumaça, emitiu o cheiro inquestionável de enxofre.

— Nunca vi essa mistura antes, já vi, mestre? — Adair perguntou.

— Não, nunca viu. — Ele parou. — É uma poção que deixa invisível todo aquele que a bebe. — Ele olhou para Adair esperando uma reação. — O que acha disso, garoto? Acha que pode realmente acontecer?

— Nunca ouvi uma coisa dessas. — Ele sabia que era melhor não discordar do velho.

— Talvez possa ver com os próprios olhos. O conde fará alguns de seus melhores homens beberem esta poção, e eles ficarão invisíveis por uma noite. Pode imaginar o que um exército consegue fazer se não for possível vê-lo?

— Sim, mestre — Adair respondeu e, a partir daquele momento, passou a pensar nas mágicas e poções do físico de uma maneira diferente.

— Agora, precisa prestar atenção neste caldeirão e deixar a poção ferver, como já fez antes. Quando ferver, deve tirá-lo do fogo para que ela esfrie. Quando tiver terminado tudo, pode ir dormir. Mas só quando tiver terminado. Esses ingredientes são raros e é o último de alguns deles aqui, por isso não podemos nos dar ao luxo de estragar essa receita. Tome conta do caldeirão, com muito cuidado! — ele disse por sobre o ombro, enquanto descia a escadaria. — Verei como se saiu hoje, ao anoitecer.

Adair não teve dificuldade de ficar acordado aquela noite. Ele recostou-se ereto contra a parede de pedra, percebendo que o velho havia mentido para ele e seu pai. O velho homem não era um físico, mas um alquimista, talvez um mago. Não era à toa que as pessoas no vilarejo o evitavam. Não era só por causa do nobre vira-casaca. Eles tinham medo dele e por uma boa razão: ele certamente estava em comum acordo com o demônio. Só Deus sabe o que eles suspeitavam sobre Adair!

Essa poção não era como as outras e demorou muito para ferver. A madrugada chegaria antes que uma parte considerável da poção tivesse evaporado. Mas, durante as últimas horas da noite, enquanto observava um vapor vagaroso subir das profundezas do caldeirão, o olhar de Adair ia e voltava para a pilha de papéis sobre a mesa. Com certeza havia fórmulas mais intrigantes, e mais lucrativas, do que aquela capaz de tornar um homem invisível por uma noite. O velho provavelmente sabia como fazer poções de amor eterno e talismãs para trazer riqueza e poder ao proprietário. E certamente todo alquimista sabia transformar metal comum em ouro. Ainda que não pudesse ler as receitas, não tinha dúvida de que poderia encontrar alguém que as lesse em troca de uma parte dos lucros.

Quanto mais pensava nisso, mais inquieto ficava. Poderia esconder os papéis na manga de sua túnica e passar sorrateiramente por Marguerite, que acordaria a qualquer minuto. Então, caminharia o dia todo e iria o mais longe possível da casa. Ele pensou rapidamente em levar o cavalo, mas sua coragem falhou. Roubar uma propriedade tão valiosa quanto um cavalo era ofensa de morte. O velho homem poderia tirar a vida de Adair, com motivos. Mas as receitas... ainda que o velho pudesse seguir seu servo, ele provavelmente não ousaria levar Adair até o conde. O físico não ia querer que os moradores do vilarejo soubessem o quão poderoso ele realmente era, ou que seu conhecimento místico estava escrito em lugar que podia ser roubado ou destruído.

O coração de Adair batia com força, até que não pôde mais ignorar sua exortação selvagem. Foi quase um alívio render-se a seu desejo.

Adair enrolou apertadamente o máximo de papéis que ousou pegar de uma só vez e os enfiou na manga de sua túnica antes de Marguerite se levantar. Antes de sair, tirou o caldeirão do assador e deixou-o esfriando na lareira. Do lado de fora, escolheu um caminho que conhecia, um que o levaria para o território húngaro, para uma fortaleza onde os simpatizantes romenos hesitariam em ir. Caminhou durante horas, maldizendo sua impetuosidade, pois não havia trazido provisões. Quando começou a sentir tontura e o sol começou a se pôr no horizonte, Adair imaginou que tivesse longe o suficiente e refugiou-se num celeiro no meio de um campo de feno. Era um lugar desolado, sem nada ao redor, nem gado, de forma que Adair sentiu que havia percorrido uma longa distância e que ninguém o procuraria ali. Sobre o feno, ele adormeceu como um homem livre.




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