No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Meu peito se apertava, a dor e o pânico eram agonizantes. Meus pulmões não funcionavam mais, não conseguia respirar. Meu cérebro parou. Estava morrendo, mas não morreria sozinha. Minhas mãos foram instintivamente para minha barriga, acariciando a pequena protuberância que agora se tornara inegavelmente evidente.

Adair ficou petrificado, a percepção de uma nova descoberta em seu rosto.

— Meu Deus, ela está grávida! Ninguém sabia que ela estava carregando uma criança? — ele rugiu enquanto virava-se, mexendo os braços violentamente, com Alejandro atrás dele. Meu corpo começou a parar, pouco a pouco, e minha alma, aterrorizada, buscava um lugar para ir.

Então, a vida cessou.

Acordei.

Obviamente, a primeira coisa que pensei foi que aquele incidente terrível havia sido um sonho e que eu tinha ultrapassado o limite de minha doença e estava me recuperando. Encontrei um conforto momentâneo nessas explicações, mas não podia negar que algo terrível e irremediável havia acontecido comigo. Quando me concentrava muito, tinha umas visões confusas de estar presa no colchão, de alguém carregando uma bacia de cobre cheia de sangue grosso e malcheiroso.

Acordei em minha cama pobre, dentro do quartinho, mas o quarto estava gelado, o fogo havia muito tempo já tinha se apagado. As cortinas sobre a única janela estavam fechadas, mas era possível enxergar um pedacinho do céu nublado onde os painéis se encontravam. O céu tinha aquela cobertura cinza do outono da Nova Inglaterra, mas mesmo esses pequenos feixes de luz eram muito brilhantes e claros, difíceis de olhar.

Minha garganta queimava como se tivesse sido forçada a beber ácido. Resolvi sair para procurar uma jarra de água, mas, quando me sentei, fui jogada imediatamente para trás, enquanto o quarto girava, rodava. A luz, meu equilíbrio... Sentia-me absolutamente sensível, como um inválido que fora transformado por uma prolongada doença.

Exceto por minha garganta e minha cabeça fervendo, o restante de mim estava frio. Meus músculos já não ardiam em febre. Eu me mexia com letargia, como se tivesse sido deixada flutuando na água fria por dias. Uma coisa importante havia mudado e não tinha ninguém para me dizer o que era: já não carregava mais o bebê comigo; ele se fora.

Levei quase meia hora para sair do quarto, acostumando-me aos poucos a ficar em pé e, então, a caminhar. Enquanto percorria vagarosamente o corredor até a ala dos quartos, ouvia os barulhos cotidianos da casa com muita clareza, com a precisão dos animais: conversas sussurradas entre os amantes na cama; o ronco do mordomo-chefe cochilando na rouparia; o som de água sendo retirada de um caldeirão gigante, talvez para o banho de alguém.

Parei em frente do quarto de Alejandro, com os pés bambos, me controlando para entrar e pedir para que ele explicasse o que havia acontecido comigo e com meu filho. Levantei a mão para bater à porta, mas parei. O que quer que houvesse acontecido comigo era sério e irrevogável. Sabia quem tinha as respostas e resolvi ir diretamente à fonte: aquele que tinha colocado o veneno em minha língua, dito palavras mágicas em meu ouvido e provocado todas as mudanças. Aquele que, com toda certeza, havia tirado meu filho de mim. Em nome de meu filho perdido, precisava ser forte.

Virei e caminhei suavemente até o final do corredor. Levantei a mão para bater e, de novo, pensei melhor sobre o assunto. Não viria até Adair como uma criada, pedindo permissão para falar com ele.

As portas se abriram com um empurrão. Eu conhecia os aposentos e os hábitos do ocupante, então fui diretamente ao local cheio de travesseiros onde Adair dormia. Ele estava deitado sob um cobertor de zibelina, imóvel como um cadáver, os olhos arregalados, olhando para o teto.

— Você está conosco de novo — era mais uma declaração do que uma observação. — Está de volta ao mundo dos vivos.

Estava com medo dele. Não podia explicar as coisas que tinha feito comigo e por que não tinha fugido do convite de Tilde na carruagem, nem por que tinha deixado tudo isso acontecer. Mas chegara o momento de confrontá-lo.

— O que você fez comigo? E o que aconteceu com meu bebê?

Os olhos dele moveram-se, fixando-se em mim, tão sinistros quanto os de um lobo.

— Você estava morrendo de uma infecção e eu resolvi não deixá-la partir. E você não queria morrer, vi em seus olhos. Quanto ao bebê, não sabíamos que carregava uma criança. Depois que lhe demos a unção, não havia nada a fazer com relação a ele.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Mesmo depois de tudo, do exílio de St. Andrew, de sobreviver àquela infecção infernal, meu bebê havia sido arrancado de mim sem a menor consideração.

— O que você fez... como você me livrou da morte? Você disse que não era médico...

Ele levantou-se da cama e vestiu um robe de seda. Agarrou meu punho e, antes que eu soubesse o que estava acontecendo, me puxou para fora do quarto, escada abaixo.

— O que aconteceu a você não pode ser explicado. Só pode ser... demonstrado.

Ele me levou até os aposentos comuns na parte de trás da casa. Quando passamos por Dona no corredor, Adair estalou os dedos para ele e disse:

— Venha conosco. — Ele me levou para o quarto atrás da cozinha onde eram mantidos os caldeirões gigantes, usados para cozinhar para multidões, além de outros artigos de despensa: grelhas de peixe com formato de um aparelho de tortura medieval, canecas e formas de bolo, e metade de um barril de água da cisterna para uso da casa. A água brilhava, escura e gélida, dentro do barril.

Adair me jogou nos braços de Dona e apontou para o barril com um movimento de cabeça. Dona rolou os olhos enquanto levantava a manga da camisa de seu braço direito e, então, tão suave quanto uma dona de casa agarra a galinha que servirá no jantar, ele me agarrou pela nuca e mergulhou minha cabeça na água. Não tive tempo de me preparar e engoli uma golfada de água, imediatamente. Pela força de seu braço, era possível perceber que ele não me deixaria escapar. Tudo que eu podia fazer era espernear e lutar na esperança de virar o barril ou ele, por compaixão, me deixaria escapar. Por que Adair tinha me salvado da infecção e da febre para me afogar agora?

Ele gritava para mim; eu ouvia a voz dele através do borbulhar da água, porém não conseguia entender o que dizia. Um tempo enorme pareceu passar, mas eu sabia que era ilusão. Diz-se que aqueles que estão para morrer, no pânico, vivem cada um de seus últimos segundos clara e distintamente. Mas eu já não tinha mais ar nos meus pulmões e, certamente, a morte viria a qualquer momento. Estava amortecida pelo frio e terror, esperando pelo fim. Queria me juntar a meu filho perdido, queria, depois de tudo o que acontecera comigo, desistir de tudo. Ficar em paz.

Dona arrancou minha cabeça para fora do barril e a água escorreu pelo meu cabelo, rosto e ombros, esparramando-se por todo o chão. Ele me segurou, fiquei em pé.

— Então, o que acha? — Adair perguntou.

— Você acabou de tentar me matar!

— Mas você não se afogou, não é? — Ele passou uma toalha para Dona e ele a usou para limpar seu braço molhado, com desdém. — Dona a segurou lá embaixo por uns bons cinco minutos e aqui está você, viva. A água não a matou. E por que acha que isso aconteceu?

Eu pisquei, tirando a água gelada dos olhos.

— Eu... não sei.

Seu olhar era como o de um esqueleto, vazio.

— Você é imortal. Nunca mais vai morrer.

Encolhi-me ao lado da lareira no quarto de Adair. Ele me deu uma taça e uma garrafa de brandy, e deitou-se na cama enquanto eu olhava fixamente para as chamas e evitava a hospitalidade de sua bebida. Não queria acreditar nem queria nada do que ele pudesse me dar. Se não podia matá-lo por tirar meu filho de mim, então queria fugir dele e daquela casa. Mais uma vez, o medo não permitiu que eu pensasse claramente e meus últimos fios de bom senso me aconselhavam a não ir embora e ouvi-lo.

Ao lado da cama havia um aparato curioso, com tubos e compartimentos feitos de metal e vidro. Agora sei que é um narguilé, mas, na época, era somente um aparelho exótico de onde se tragava uma fumaça adocicada. Adair tragou-o e exalou uma longa fumaça em direção ao teto, até seus olhos ficarem vidrados e seus membros, lânguidos.

— Você compreende agora? — ele perguntou. — Você não é mais mortal; está acima da vida e da morte. Não pode morrer. — Ele ofereceu o narguilé para mim e o puxou de volta quando eu não aceitei. — Não importa de que forma tentem matá-la; nem flecha nem rifle, nem faca ou veneno, nem fogo ou água, nem terra, nem doença, nem fome.

— Como isso pode ser verdade?

Ele deu outra longa baforada, segurando a fumaça narcótica por um momento antes de exalar uma nuvem espessa.

— Como isso começou, eu não sei dizer. Já pensei, rezei e sonhei com isso usando todo tipo de drogas. Nenhuma resposta veio até mim. Não posso explicar e parei de procurar respostas.

— Está dizendo que você não morre?

— Estou dizendo que estou vivo há centenas de anos.

— Quem, no reino de Deus, é imortal? — perguntei a mim mesma. — Os anjos são imortais.

Adair bufou.

— Sempre os anjos, sempre Deus. Por que quando ouvem uma voz, sempre acham que é a voz de Deus?

— Você está dizendo que é obra do demônio?

Ele coçou a barriga bem torneada.

— Estou dizendo que tenho buscado respostas e que nenhuma voz falou comigo até hoje. Nem Deus nem Satã se deram ao trabalho de me explicar como este “milagre” se encaixa nos planos deles. Ninguém me pediu para ser submisso a ele. A partir daí, só posso deduzir que não sou servo de nenhum dos dois. Não tenho mestre. Somos todos imortais: Alejandro, Uzra e os demais. Eu transformei todos vocês, você compreende? — Outra longa baforada no narguilé, um gole de água e sua voz retumbante baixou. — Você transcendeu a morte.

— Pare de dizer isso, por favor! Está me assustando.

— Irá se acostumar e, logo, logo, não sentirá mais medo. Não haverá nada com o que se assustar. Agora, há somente uma regra a seguir, uma pessoa a quem deve obedecer e essa pessoa sou eu. Tenho sua alma, Lanore. Sua alma e sua vida.

— Agora tenho que obedecer a você? Isso significa que você é Deus? — bufei também, insolente, quando senti que podia ser assim com ele.

— O Deus com o qual foi criada desistiu de você. Lembra-se do que eu lhe disse antes de receber o presente? Você é minha posse agora e para sempre. Eu sou seu deus e, se não acreditar e quiser testar o que digo, eu a convido para um confronto.

Com isso, deixei que me levasse até a cama e não protestei quando ele se deitou a meu lado. Ele me deu a ponta do narguilé e acariciou meus cabelos úmidos enquanto eu sugava a fumaça espessa. O droga tomou conta de mim, me embalou, e meu medo desabou feito uma criança exaurida. Agora que eu estava cansada e com sono, Adair parecia quase carinhoso.

— Não lhe devo explicações, Lanore, mas existe uma história. Eu lhe contarei essa história, a minha história. Eu lhe direi como me tornei imortal e, talvez assim, você compreenda tudo.

19

TERRITÓRIO DA HUNGRIA, 1349 d.C.



Assim que Adair vira o estranho, sabia, pela clareza do arrepio premonitório, que o velho homem tinha vindo atrás dele.

O final do dia era o momento em que eles celebravam, os trabalhadores nômades com quem a família de Adair viajava. Conforme a noite caía, eles montavam enormes fogueiras para apreciar a parte do dia que consideravam ser deles. As longas horas de trabalho nos campos terminavam e, então, eles se reuniam para dividir a comida e a bebida, e para se divertir. Seu tio, sem ainda estar bêbado, tocaria canções folclóricas em seu violino de camponês, acompanhando a mãe de Adair e as outras mulheres enquanto cantavam. Um traria um tamborim; outro, uma balalaica. Adair sentava-se com a família toda, seus cinco irmãos e duas irmãs, além das esposas dos irmãos mais velhos. Naquela noite, a felicidade dele era completa até o momento em que viu, do outro lado do fogo trepidante, Katarina se aproximar com a família dela.

Ele e sua família eram nômades, assim como a família de Katarina e todos da caravana. Muito tempo antes, eles foram servos de lorde Magyar, mas ele os havia abandonado, deixando-os à mercê dos bandidos. Eles fugiram dos vilarejos em charretes e viviam nas charretes a partir de então, seguindo as colheitas como trabalhadores itinerantes, perfurando valas, cuidando dos campos, fazendo qualquer trabalho que pudessem encontrar. Os reinos de Magyar e Romênia estavam em guerra, e havia poucos nobres magiares no campo para proteger os vagabundos, caso se sentissem inclinados a protegê-los.

Ainda assim, fazia tanto tempo que tinham sido forçados a abandonar suas casas, que Adair já não se lembrava do que era dormir dentro de uma casa, de ter um pouco de segurança. Seus irmãos Istvan e Radu eram bebês e não se recordavam daquela época feliz de antes. Adair sentia-se mal por seus irmãos mais novos nunca terem conhecido os confortos daquele tempo, mas, de qualquer forma, à maneira deles, pareciam ser mais felizes do que o restante da família e ficavam perplexos pela melancolia que tomava conta de seus pais e irmãos.

Naquela noite, o estranho apareceu de repente, do lado de fora do grupo. A primeira coisa que Adair notou era que ele era muito velho, praticamente um corpo encolhido se apoiando sobre um cajado, e, quando chegou mais perto, parecia ainda mais velho. A pele dele era fina como papel, enrugada e pintada de manchas senis; seus olhos eram cobertos por uma fina camada esbranquiçada, mas, mesmo assim, havia uma estranha sagacidade neles. Tinha cabelos grossos e brancos, tão longos que caíam em suas costas numa trança. Porém, o mais notável de tudo, eram suas roupas de corte romeno e tecidos caros. Quem quer que ele fosse, era rico e, apesar de ser um homem velho, não tinha medo de entrar num acampamento cigano sozinho e à noite.

Ele abriu caminho pelo grupo de pessoas e ficou em pé no meio do círculo, perto da fogueira. Enquanto seu olhar vasculhava as pessoas na multidão, o sangue de Adair disparava nas veias. Adair não era diferente dos outros garotos no acampamento: sem instrução, sem banho e sem comida. Ele sabia que não havia razão para o velho homem o escolher, mas seu mau pressentimento era tão forte que, não fosse por seu orgulho juvenil, ele poderia ter dado um salto e fugido do círculo. Ele não tinha feito nada para aquele velho homem, então, por que deveria fugir?

Depois de uma busca silenciosa em meio aos rostos iluminados pelo brilho das labaredas, o velho homem sorriu sarcasticamente, ergueu a mão e apontou diretamente para Adair. Então, olhou para o grupo dos mais velhos. Agora, toda a atividade já tinha cessado: a música, as gargalhadas. Todos os olhares recaíram sobre o estranho e, dele, para Adair.

Seu pai quebrou o silêncio. Ele abriu caminho pelos irmãos e irmãs de Adair e agarrou-o pelo braço, praticamente o arrancando de seu lugar.

— O que você fez, menino? — ele sibilou através do buraco entre os dentes. — Não fique aí sentado, venha comigo! — Ele fez o filho ficar em pé. — O resto de vocês, o que estão olhando? Voltem para sua contação de histórias e sua cantoria tola! — Enquanto ele arrastava Adair para longe. Adair podia sentir, nas costas, os olhares de sua família e de Katarina.

Os dois foram até um lugar escuro embaixo de uma árvore, fora do alcance dos ouvidos das pessoas ao redor da fogueira, seguidos pelo estranho.

Adair tentou se desvencilhar do problema que tinha chegado até ele.

— Quem quer que esteja procurando, juro que não sou eu. Está me confundindo com outra pessoa.

O pai lhe estapeou.

— O que você fez? Roubou uma galinha? Tirou algumas batatas e cebolas do campo?

— Eu juro — Adair bravejou cuspindo, colocando a mão sobre a bochecha quente e apontando para o velho. — Eu não o conheço.

— Não deixe que sua imaginação culpada tome conta de você. Não estou acusando o garoto de qualquer crime — o velho homem disse ao pai de Adair. Ele contemplou Adair e seu pai com desdém, como se fossem pedintes ou ladrões. — Escolhi seu filho para trabalhar para mim.

Por sorte, o pai de Adair desconfiou da oferta.

— Como ele lhe poderia ser útil? Ele não tem nenhuma habilidade especial. Tem a mão para trabalhar no campo.

— Preciso de um criado. Um garoto com as costas fortes e pernas firmes.

Adair viu sua vida sofrer uma reviravolta brusca e indesejada.

— Nunca fui um criado de casa. Não saberia o que fazer...

Um segundo tapa do pai fez Adair parar.

— Não se mostre mais inútil do que já é — seu pai falou com raiva. — Você pode aprender, mesmo que a aprendizagem não seja seu ponto mais forte.

— Ele aprenderá, tenho certeza. — O estranho caminhou ao redor de Adair, avaliando-o como um cavalo à venda no mercado de ladrões. Enquanto caminhava, deixava um rastro de cheiro seco e esfumaçado, como incenso. — Não preciso de alguém com uma mente forte, só de alguém para ajudar um velho homem frágil com as demandas da vida. Mas... — Nesse momento, seus olhos semicerraram e seu semblante tornou-se cruel novamente. — Moro muito longe e não farei essa viagem novamente. Se seu filho quiser o trabalho, deverá ir embora comigo esta noite.

— Esta noite? — A garganta de Adair se fechou.

— Estou preparado para pagar pela perda da contribuição de seu filho à família — o estranho disse ao pai de Adair. Com essas palavras, Adair percebeu que estava perdido, pois seu pai não recusaria o dinheiro. Sua mãe estava se aproximando, embaixo das sombras das árvores, levantando as saias. Ela ficou com Adair, enquanto o pai e o estranho negociavam o preço. Assim que a quantia foi determinada e o velho homem saiu para preparar o cavalo, a mãe de Adair correu até o marido.

— O que está fazendo? — ela gritou, mesmo sabendo que o marido não mudaria de ideia. Não haveria discussão com ele.

Havia muita coisa em risco para Adair, mas seu pai não tinha nada a perder, então, virou-se para ele.

— O que está fazendo comigo? Um estranho entra no acampamento e você vende um de seus filhos para ele? O que sabe sobre ele?

— Como ousa me questionar? — ele respondeu, dando-lhe um soco que jogou Adair no chão. O restante da família havia vindo da fogueira e estava além do alcance do pai. Não havia nada de novo em ver um irmão apanhar, mas, ainda assim, era muito desconcertante. — Você é muito estúpido para enxergar uma oportunidade quando ela aparece. Obviamente, este homem é muito rico. Será o criado de um homem rico. Irá viver numa casa, não numa charrete, e não terá que trabalhar nos campos. Se achasse que o homem fosse concordar, pediria para levar um dos outros também. Talvez Radu, ele não é tão cego a ponto de não perceber quando algo bom cai em seu colo.

Adair se levantou do chão, envergonhado. Seu pai bateu de novo na parte de trás de sua cabeça, em sinal de repreensão.

— Vá, arrume suas coisas e se despeça! Não deixe o homem esperando por você.

Sua mãe procurou o rosto do marido.

— Ferenc, o que sabe desse homem para colocar nosso filho nas mãos dele? O que ele lhe contou de si próprio?

— O suficiente. Ele é o físico de um conde. Mora numa casa na propriedade do conde. Adair será seu servo durante sete anos. Ao final de sete anos, ele pode escolher ir embora ou continuar a trabalhar com o físico.

Adair fez o cálculo: em sete anos, estaria com 21 anos, metade de sua vida. De fato, ele estava chegando à idade de se casar e não tinha paciência para seguir o exemplo de seus irmãos mais velhos e escolher uma noiva, começar uma família, ser aceito como um homem. Como servo de uma casa, não poderia casar ou ter filhos; sua vida ficaria suspensa durante esta época importante. Quando fosse livre, estaria velho. Que mulher o aceitaria?

E sua família? Onde estaria daqui a sete anos? Eram itinerantes, se mudavam para encontrar trabalho, abrigo, para fugir do tempo ruim. Nenhum deles sabia ler ou escrever. Nunca conseguiria encontrá-los novamente. Quando ele deixasse o emprego com o estranho, como sobreviveria sem eles?

— Quer dizer que somos um fardo para você? — Radu lamentou. Dois anos mais novo do que Adair, Radu era o sensível da família. Ele correu para Adair e passou os braços finos em volta da cintura dele, enxugando as lágrimas na camisa rasgada do irmão.

— Adair já é um homem e tem que encontrar seu caminho no mundo — o pai disse a Radu, depois a todos eles. — Agora chega de histeria. Adair tem que arrumar as coisas.

Adair viajou a noite toda cavalgando atrás do estranho, conforme fora instruído. Ficou surpreso ao saber que o velho homem tinha um cavalo magnífico, o tipo de cavalo que um cavaleiro teria, pesado o bastante para que seu trote fizesse o chão tremer. Adair conseguia ver que estavam indo para o oeste, mais para dentro do território romeno.

Pela manhã, passaram pelo castelo do conde para quem o físico trabalhava. Não havia nada de poético nele. Era uma fortaleza (baixa e sólida, quadrada, cercada por um punhado de casinhas e redis de carneiros e gado). Campos cultivados estendiam-se em todas as direções. Os dois cavalgaram durante mais vinte minutos por uma densa floresta, antes de chegar a uma pequena construção de pedra, quase escondida pelas árvores. A construção parecia úmida, coberta pelo musgo que crescia sem a luz do sol para controlá-lo. Para Adair, a construção parecia mais uma masmorra do que uma casa, aparentemente sem nem mesmo uma porta cortada em sua fachada assustadora.

O velho homem desceu do cavalo e instruiu Adair a cuidar dos cavalos antes de se juntar a ele dentro da casa. Adair permaneceu com o equino o máximo que pôde, tirando a sela e o estribo, buscando água para ele, coçando-lhe as costas com um galho seco. Quando se entediou, pegou a sela e entrou na casa.

Dentro, a fumaça era tanta que mal dava para ver, havia uma lareira pequena acesa e somente uma janela estreita para deixar a fumaça sair. Olhando ao redor, Adair viu que a casa era um aposento grande e circular. Uma mulher dormia perto da porta numa cama de palha. Ela era facilmente dez anos mais velha do que ele, como uma matrona, com mãos grandes avermelhadas e feições quase assexuadas. Dormia cercada pelas ferramentas ligadas a seu gênero: tigelas, colheres de pau, potes e baldes; uma placa de madeira que servia de mesa, usada e engordurada; pilhas de suportes de madeira que serviam como pratos; jarros de vinho e cerveja. Guirlandas de pimenta e alho penduravam-se dos ganchos nas paredes de pedra, junto a cordões de salsicha e uma fileira de pedaços de pão de centeio.

Do outro lado do aposento, havia uma escrivaninha coberta de garrafas e jarros, maços de papel, tinteiro e penas, e uma novidade sobre a qual Adair nunca havia colocado os olhos: livros com capas de madeira. Cestas contendo artefatos estranhos da floresta estavam prontas atrás da mesa: raízes secas empoeiradas, pinhas, maços de urtiga, galhos de ervas daninhas. Atrás da escrivaninha, Adair podia ver uma escadaria que levava para baixo, provavelmente para um porão gelado.

De repente, o velho estava ao lado de Adair, espreitando o jovem ignorante.

— Suponho que queira saber meu nome. Sou Ivor cel Rau, mas deve se dirigir a mim como “mestre”. — Enquanto tirava sua capa pesada e aquecia as mãos no fogo, o físico explicou que vinha de uma linhagem de nobres romenos proprietários de terras, o último dos homens da família. Apesar de saber que um dia herdaria o castelo e a propriedade da família, quando jovem decidiu buscar uma profissão e fora a Veneza estudar medicina. Em suas décadas como físico, havia servido a vários condes e até mesmo a reis. Agora ele estava no final de uma longa carreira, a serviço do Conde cel Batrin, o nobre romeno dono do castelo pelo qual haviam passado. O físico explicou que não havia contratado Adair para ensiná-lo as artes da cura, mas esperava que ele o ajudasse buscando ervas e outros ingredientes para unguentos e elixires, além de executar tarefas diárias e ajudar a governanta, Marguerite.

O velho homem fuçou dentro do baú aberto até encontrar um velho cobertor de lã, surrado e áspero.




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