No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



Baixar 1.23 Mb.
Página12/34
Encontro11.06.2018
Tamanho1.23 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   34

— Sim, mas estou bem. Foi uma noite tranquila. Dormi um pouco — ele mente. — Tomarei cuidado.

Peter tira as chaves do bolso e as coloca nas mãos de Luke. Quando Luke tenta dar as chaves da caminhonete em troca, Peter hesita.

— Não precisa deixar as chaves comigo... não vai demorar muito, vai?

Luke dá de ombros, tentando parecer indiferente.

— Caso você tenha que mudá-la de lugar ou algo do tipo. A gente nunca sabe.

O portão para a garagem de três vagas levanta-se lentamente e Luke verifica o chaveiro, descobrindo que Peter está confiando a ele uma SUV nova e luxuosa, cinza-chumbo brilhante, com assentos de couro aquecidos e um aparelho de DVD na fileira de trás para manter as crianças entretidas durante as viagens longas. Luke se lembra como as pessoas o amolaram no primeiro dia em que chegou ao hospital, com um carro tão incomum para a região, a cobertura brilhante com grandes chances de ser corroída pelo sal da estrada ao final do terceiro inverno.

Luke dá marcha a ré no carro para tirá-lo da garagem e espera na boca da entrada para Lanny se acomodar no banco do passageiro.

— Que carro bonito! — ela diz enquanto puxa o cinto de segurança. — Você sabe negociar, não é?

Ela cantarola para si mesma, enquanto Luke dirige em direção à estação fronteiriça do Canadá, mas, dessa vez, parcialmente escondido atrás dos vidros escurecidos. Sente-se culpado pelo que fez. Ele não sabe exatamente por que, mas suspeita que não fará meia-volta depois de ter cruzado a fronteira, e por isso deixou as chaves da sua velha picape amassada com o amigo. Não que Peter precise da caminhonete; ele obviamente tem outros carros caso necessite ir a algum lugar. Ainda assim, deixar as chaves fez Luke sentir-se melhor, como se tivesse estabelecido um certificado de dívida ou deixado um amuleto da sorte, pois sabe que, em pouco tempo, Peter irá desprezá-lo. Lanny olha nos olhos de Luke quando passam por um cruzamento vazio.

— Obrigada! — ela diz com profunda gratidão. — Você me parece o tipo de homem que não gosta de pedir favores, então... quero que saiba que realmente agradeço e aprecio o que está fazendo por mim.

Luke assente com a cabeça, perguntando-se até que ponto e a que custo ele a ajudará a fugir.

17

BOSTON, 1817



Acordei numa cama diferente, num quarto diferente, o homem de cabelos negros da carruagem sentado a meu lado na cama, com uma tigela de água e uma compressa fria para minha testa.

— Ah, de volta ao mundo dos vivos! — ele disse quando abri os olhos. Suspendeu a compressa de minha testa e a colocou dentro da água para ensopar.

Podia ver uma luz fria pela janela atrás dele, então sabia que era dia, mas qual dia? Verifiquei embaixo da colcha e percebi que estava vestida só com uma camisola. Deram-me um quarto que claramente deveria pertencer a algum membro mais importante dos criados da casa, pequeno e com mobília simples.

— Por que ainda estou aqui? — perguntei, ainda grogue. Ele ignorou minha pergunta.

— Como se sente?

A dor veio devagar, pungente e quente no meu abdômen.

— Como se tivesse sido esfaqueada com uma lâmina enferrujada.

Ele franziu o cenho ligeiramente, então alcançou uma tigela de sopa colocada no chão.

— A melhor coisa para você é descanso, descanso completo. Você provavelmente teve uma perfuração em algum lugar aí dentro — ele apontou indiretamente para minha barriga — e precisa sarar o mais rápido possível, antes que tenha uma infecção. Já vi isso antes. Pode se tornar uma coisa séria.

O bebê. Eu me sentei.

— Quero um médico. Ou uma parteira.

Ele colocou uma colher no caldo claro, o metal batendo na porcelana.

— Muito cedo para isso. Vamos observar por um tempo, para ver se piora.

Entre compressas e colheradas de caldo, ele respondeu às minhas perguntas. Primeiro, me falou sobre ele. Seu nome era Alejandro e era o mais novo de uma elegante família espanhola, de Toledo. Sendo o filho mais novo, não tinha esperanças de herdar a propriedade da família. O segundo mais velho havia se alistado nas Forças Armadas e era capitão de um navio poderoso. O terceiro mais velho serviu na corte do rei da Espanha e foi rapidamente enviado como emissário para uma terra estrangeira. Assim, a família tinha cumprido todas as obrigações de praxe para com o rei e seu país; Alejandro era livre para decidir seu destino no mundo e, devido a vários incidentes e mudanças de rumo, no final, acabou ficando com Adair.

Adair, ele explicou, era um membro da realeza genuína do Velho Mundo, tão rico quanto alguns príncipes menores, já que conseguira manter as propriedades da família durante séculos. Cansado do velho continente, ele veio para Boston pela novidade, para experimentar o Novo Mundo. Alejandro e os outros dois da carruagem, Tilde, a mulher, e Donatello, o homem louro, eram os cortesãos de Adair.

— Todo membro da realeza tem sua corte — Alejandro afirmou, o primeiro de muitos argumentos circulares. — Ele precisa estar cercado de pessoas de boa estirpe, que possam garantir que suas necessidades sejam atendidas. Somos o filtro entre ele e o mundo.

Donatello, explicou, viera da Itália, onde fora assistente e fonte de inspiração de um grande artista de cujo nome eu nunca ouvira falar. E Tilde, o passado dela era misterioso, Alejandro confessou. A única coisa que sabia sobre ela é que viera de uma terra do norte, tão cheia de neve e tão fria quanto a minha. Tilde já estava com Adair quando Alejandro se uniu à corte.

— Ela conta tudo a ele e seu temperamento pode ser terrível; então, tenha sempre muito cuidado com ela — ele me avisou, mergulhando a colher para pegar mais caldo.

— Mas eu não vou ficar aqui nem um minuto a mais do que o necessário — eu disse, abrindo minha boca para alcançar a colher. — Irei embora assim que estiver me sentindo melhor. — Alejandro não fez nenhum comentário, parecendo concentrado em fazer chegar até minha boca outra colher de caldo.

— Há outro membro da corte de Adair — ele disse, e se apressou em explicar —, mas provavelmente você nunca irá conhecê-la. Ela é... reclusa. Porém, não fique surpresa se achar que vê um fantasma passando por aí.

— Um fantasma? — Os cabelos de trás do meu pescoço se levantaram, memórias das histórias de fantasmas dos condutores da charrete voltando depressa à minha mente, tristes mortos procurando seus entes queridos.

— Não um fantasma de verdade — ele brincou. — Apesar de que ela poderia ser um. Ela é reservada e a única maneira de vê-la é se trombar com ela, como se topasse com um veado no meio da floresta. Não falará nem lhe dará atenção se tentar conversar com ela. Se chama Uzra.

Por mais que estivesse grata por Alejandro me contar tudo o que sabia, todas aquelas informações caíam sobre mim de forma desconfortável, pois evidenciavam cada vez mais minha ignorância e minha criação isolada. Nunca me falaram sobre essas terras distantes, eu não conhecia o nome do artista famoso. O que mais me incomodava era essa tal de Uzra; eu não queria conhecer uma mulher que tinha se transformado num fantasma. E o que Adair havia feito para evitar que ela falasse? Havia cortado a língua dela? Não duvidava que ele fosse cruel a esse ponto.

— Não sei por que se dá ao trabalho de me contar essas coisas — eu disse. — Não ficarei aqui.

Alejandro me observou com um lindo sorriso de coroinha e olhos brilhantes.

— Ah, é só um jeito de passar o tempo! Devo trazer mais caldo?

Aquela noite, quando ouvi Adair e seus subordinados perambulando pelo corredor, preparando-se para sair, rastejei para fora da cama para observá-los. Que lindos eles estavam, enrolados em veludos e brocados, cobertos de pó de arroz, com os cabelos penteados pelos criados, que passaram horas arrumando-os! Tilde, com joias pinçadas nos cabelos amarelos, os lábios pintados de vermelho; Dona, com um paletó branco impecável até a altura de sua mandíbula, acentuando o pescoço aristocrático e o queixo pontudo; Alejandro, com um casaco preto comprido e seu olhar eternamente triste; todos falando sem parar uns com os outros, de maneira venenosa, e pomposos como emplumados pássaros reais.

Mais do que tudo, eu observava fixamente Adair, pois ele era encantador. Um selvagem vestido com roupas de cavalheiro. Então, me dei conta: ele era um lobo em pele de cordeiro, indo à caça com sua matilha para dizimar as vítimas. Eles caçavam por diversão, como tinham me caçado. Ele era o lobo e eu, a lebre de pescoço macio e suculento, presa fácil para aquelas mandíbulas cruéis. O lacaio colocou a capa sobre os ombros de Adair e, quando se virou para sair, olhou para mim, como se soubesse que eu estivera lá o tempo todo; deu-me uma olhada e um leve sorriso, que me fizeram cambalear para trás. Eu deveria ter medo dele, eu tinha medo dele, e, ainda assim, estava fascinada. Parte de mim queria participar de seu grupo, queria estar nos braços de Adair quando ele e seus acompanhantes saíam para se divertir e ser bajulados por admiradores.

Aquela noite, fui acordada pelo grupo voltando para casa e não fiquei surpresa quando Adair entrou em meu quarto e me carregou até a cama dele. Apesar de estar doente, ele me possuiu aquela noite e eu me deixei levar, inebriada pelo movimento de seu peso sobre mim, seu membro grosso dentro de mim e o toque de seus lábios na minha pele. Ele sussurrava em meu ouvido enquanto copulávamos, mais gemidos do que palavras, e não conseguia entender o que ele dizia, além de “não pode me negar” e “minha”, como se estivesse tomando posse de mim naquela noite. Depois de tudo, deitei-me ao lado dele, tremendo, enquanto a sensação de escravidão me percorria.

Na manhã seguinte, quando acordei em meu pequeno quarto silencioso, a dor em meu baixo ventre estava muito maior. Tentei caminhar, mas cada passo era marcado por uma pontada brusca, e escorriam sangue e fezes. Não conseguia nem imaginar alcançar a porta da frente, muito menos encontrar alguém para me ajudar. À noite, fui consumida pela febre; nos dias que se seguiram, dormia e acordava, cada vez mais fraca do que antes. Minha pele estava cada vez mais pálida e sensível; meus olhos, vermelhos. As escoriações e os arranhões estavam sarando muito lentamente. Alejandro, a única pessoa que veio até minha cama, deu seu prognóstico, balançando a cabeça.

— Uma perfuração no intestino.

— Com certeza uma doença insignificante? — perguntei, esperançosa.

— Não, se virar uma infecção.

Ignorante como era sobre as complexidades da anatomia, se a dor era uma indicação da severidade do problema, o bebê devia estar em perigo.

— Um médico — implorei, apertando a mão dele.

— Falarei com Adair — ele prometeu.

Algumas horas depois, Adair entrou bruscamente no quarto. Não vi nem sombra de reconhecimento do prazer que tínhamos compartilhando na noite anterior. Ele puxou um banquinho ao lado da cama e começou a me examinar, apertando os dedos na minha testa e bochechas para medir a temperatura.

— Alejandro me disse que não melhorou.

Por favor, chame um médico. Eu lhe pagarei de volta um dia, assim que conseguir...

Ele estalou a língua como para dizer que o custo não importava. Ergueu minhas pálpebras, então sentiu as bolsas de pele embaixo de minha mandíbula. Ao terminar, levantou-se do banquinho.

— Voltarei em um minuto — disse e saiu apressadamente do quarto.

Estava cochilando quando ele voltou com uma caneca velha e furada nas mãos. Colocou-me sentada, antes de me passar a caneca; o conteúdo cheirava a poeira e ervas misturadas num líquido quente, parecendo água suja de pântano.

— Beba — ele disse.

— O que é isso?

— Vai ajudá-la a se sentir melhor.

— Você é médico?

Adair me olhou com um leve desgosto.

— Não, o que você consideraria um médico, não. Pode-se dizer que já estudei minha dose de medicina tradicional. Se isso aí tivesse fervido mais um pouco, seria muito mais palatável, mas não temos tempo — ele acrescentou, como se não quisesse que eu fizesse mau juízo de sua poção por causa do sabor.

— Então, quer dizer que é como uma parteira? — Não precisaria dizer que as parteiras, apesar de geralmente serem as únicas praticantes de medicina em qualquer vilarejo, não tinham nenhum treinamento, já que as mulheres não podiam frequentar as escolas. As mulheres que se tornavam parteiras aprendiam a fazer partos e a mexer com ervas e grãos, sendo aprendizes de suas mães ou outros parentes.

— Não — ele respondeu mal-humorado, aparentemente não acreditando em parteiras tanto quanto não acreditava em médicos. — Ande, beba logo!

Fiz como ele pediu, achando que não concordaria em chamar um médico caso ficasse chateado comigo por não experimentar o remédio dele. Pensei que fosse vomitar tudo; a mistura era muito oleosa e amarga, com pedacinhos que não conseguia engolir.

— Agora descanse mais um pouco e veremos amanhã como está indo — ele disse, alcançando a caneca.

Coloquei minha mão em seu punho.

— Me diga, Adair... — mas estava confusa.

— Dizer o quê?

— Não sei o que pensar de seu comportamento comigo ontem à noite.

Ele retorceu sua linda boca num sorriso cruel.

— É tão difícil assim de entender? — Ele me ajudou a me apoiar de volta nos travesseiros e então puxou o cobertor até meu queixo; ajeitou o cobertor sobre meu peito e tocou meu cabelo, muito carinhosamente. Sua expressão de escárnio se abrandou e, por um momento, tudo que eu conseguia ver era seu rosto infantil e um traço de bondade em seus olhos verdes. — Você acha que me afeiçoei um pouco a você, Lanore? Você me surpreendeu; não é apenas uma maltrapilha que Tilde tirou da rua. Tem alguma coisa em você... Temos afinidades de alma que ainda não desvendei... Mas entenderei um dia. Primeiro, tem que melhorar. Vejamos se esse elixir lhe fará bem. Tente descansar agora. Alguém virá ver você mais tarde.

Fiquei surpresa com a revelação dele. A julgar por aquela única noite, o que existia entre nós era atração mútua. Desejo, para falar honestamente. De um lado, passou pela minha cabeça que um nobre, um homem com riqueza e poder, pudesse ficar interessado em mim; mas, de outro, ele também era um sádico e egoísta. Apesar dos sinais de alerta, aceitei a afeição de Adair, mesmo que fosse só para substituir aquilo que eu desejava de outro homem.

Meu estômago havia melhorado; o gosto amargo do elixir, desaparecido. Havia outro enigma para resolver. Minha curiosidade não era páreo para o elixir curativo de Adair e, em pouco tempo, tinha caído calmamente no sono.

Outra noite e outro dia se passaram, mas nenhum médico veio me ver e comecei a pensar qual seria o jogo que Adair estava fazendo. Ele não apareceu mais desde a confissão de seu interesse por mim; mandou serviçais a meu quarto com mais doses do elixir, mas nenhum médico se materializou em minha porta. Depois de 36 horas, fiquei novamente desconfiada de seus motivos.

Precisava sair daquela casa. Se ficasse, morreria naquela cama e o bebê morreria comigo. Tinha que tentar encontrar o médico ou alguém que pudesse restituir minha saúde ou, no mínimo, que me mantivesse viva até o nascimento do bebê. Essa criança seria a única prova do amor de Jonathan por mim e eu estava determinada que ela vivesse mesmo depois de minha morte.

Fui procurar minha sacola, mas, quando me apoiei no estrado da cama e no armário, percebi a fria umidade de minhas roupas de baixo, grudadas em minhas pernas. Tinham-nas tirado e me enrolado num pedaço de tecido, para que ele segurasse o fluido malcheiroso que saía de dentro de mim. O tecido estava sujo e com cheiro podre; não havia como andar pelas ruas daquele jeito sem ser confundida com uma louca e ser levada a um hospício. Precisava de roupas, da minha capa, mas tinham levado tudo embora.

Mas eu sabia onde podia encontrar algo para vestir: o quarto cheio de baús, aonde tinham me levado na fatídica primeira noite.

Do lado de fora do quarto, tudo estava quieto, somente um murmúrio de conversa entre dois serviçais subia pela escadaria. O corredor estava vazio. Olhei atônita para os degraus, mas estava tão fraca e febril que tive que recorrer às minhas mãos e aos joelhos para subir até o andar de cima. Uma vez lá, encostei-me na parede para recuperar o fôlego e o controle. Qual o corredor que levava até o quarto com os baús? Os corredores eram todos parecidos e havia tantas portas... Não tinha força nem tempo para tentar todas elas. E, enquanto estava lá em pé, a ponto de chorar de frustração e dor, lutando para me manter resoluta em minha decisão de fuga, eu a vi. Eu vi a fantasma.

Percebi um movimento pelo canto do olho. Achei que fosse uma criada da cozinha a caminho dos aposentos dos criados, na parte mais alta do sótão, mas a figura que estava à minha frente não era uma serviçal comum.

Ela era muito pequena. Se não fossem pelos seios fartos e pelo corpo curvilíneo, podia se passar por uma criança. Sua figura feminina estava envolta num traje exótico feito de seda finíssima, pantalonas esvoaçantes e uma túnica sem manga, pequena demais para cobrir seus seios. E que seios maravilhosos eram, perfeitamente redondos, firmes e altos! Ao olhar para eles, podia-se imaginar o quão pesados seriam quando apalpados, o tipo de seios que atrai qualquer homem.

Além de sua forma sedutora, ela era esteticamente linda. Seus olhos amendoados pareciam ainda maiores com o contorno preto. Os cabelos eram uma variedade de tons de cobre, castanho e dourado, e caíam em cachos despenteados até a cintura. Alejandro descrevera perfeitamente a cor da pele dela: canela, levemente manchada de mica para fazê-la brilhar, como se ela fosse feita de algum tipo de pedra preciosa. Lembro-me de tudo isso agora com a vantagem de tê-la visto muitas vezes depois desse episódio e sabendo que era feita de carne e osso; mas, na época, ela poderia ter sido uma visão, invocada pela mente masculina como a perfeita fantasia sexual. Ela era fascinante e de tirar o fôlego. Tinha medo de me mexer e ela ir embora. Ela me olhou de volta, cautelosa, enquanto eu olhava fixamente para ela.

— Por favor, não vá! Preciso de sua ajuda. — Cansada de ficar em pé, me escorei no corrimão. Ela deu um passo para trás, seus pés descalços sobre o tapete. — Não, não, por favor, não me deixe! Estou doente e preciso sair dessa casa. Por favor, preciso de sua ajuda para continuar viva. Seu nome é Uzra, não é? — Ao ouvir seu nome, ela deu mais alguns passos para trás, virou-se e desapareceu na escuridão, no topo da escada para o sótão. Naquele momento, não sei se minhas forças se esvaíram ou se minha determinação vacilou enquanto ela fugia de mim, mas escorreguei e caí. O teto rodava acima de minha cabeça, como uma lanterna girando livremente enrolada numa corda: primeiro girando numa direção, depois, na outra. De repente, tudo ficou escuro. Então, murmúrios e o toque de dedos.

— O que ela está fazendo fora do quarto? — Era a voz de Adair, irritada e baixa. — Você disse que ela não conseguiria sair da cama.

— Aparentemente ela é mais forte do que parece — Alejandro murmurou. Alguém me levantou e me senti leve, flutuando.

— Coloque-a de volta lá dentro e dessa vez tranque a porta. Ela não pode sair dessa casa. — A voz de Adair começou a se afastar. — Ela vai morrer?

Pelo inferno, como posso saber? — Alejandro resmungou num suspiro e então gritou, bem alto, para que Adair pudesse ouvir. — Acho que isso vai depender de você.

Depender dele? Como poderia depender dele se eu viveria ou morreria? No entanto, não tinha mais tempo para ficar contemplando essa conversa perturbadora, já que mergulhava novamente no vácuo escuro e silencioso do esquecimento.

18

— Ela está morrendo; não conseguirá chegar até à noite.



Era a voz de Alejandro, dizendo coisas que eu não deveria ouvir. Minhas pálpebras se abriam e fechavam. Ele estava em pé, ao lado de Adair, ao pé da cama. Os dois tinham os braços cruzados no peito, resignados, com uma expressão grave no rosto.

Aproximava-se o fim absoluto e eu ainda não fazia ideia do que fariam comigo, por que Adair havia se incomodado em demonstrar sua afeição por mim ou se ocupado em me oferecer poções homeopáticas, ao mesmo tempo que me recusava um médico. Àquela altura, seu comportamento estranho não fazia a menor diferença: eu estava à beira da morte. Se era o meu corpo que eles queriam para dissecação médica, ou experiências ou rituais satânicos, não havia nada para impedi-los. Afinal, o que eu era além de uma vagabunda sem dinheiro e sem amigos? Não era nem uma criada; era menos do que isso, uma mulher que deixava estranhos fazerem o que bem entendessem com ela em troca de abrigo e comida. Teria chorado por aquilo que me tornara, mas a febre havia me deixado sem lágrimas.


Não dava para discordar da conclusão de Alejandro: eu estava morrendo. Um corpo não podia se sentir tão mal e estar vivo; eu fervia por dentro, cada músculo queimava. Tudo doía. A cada respiração, minhas costelas estalavam como um fole enferrujado. Se não sentisse tanta culpa por carregar o bebê de Jonathan e tivesse tanto medo do peso de todos os pecados pelos quais seria julgada, teria rezado a Deus para me perdoar e me deixar morrer.

Tinha somente um arrependimento, que era nunca mais ver Jonathan de novo. Eu acreditava tão piamente que estávamos destinados a ficar juntos, que parecia inconcebível que pudéssemos estar separados, que eu morreria sem poder tocar em seu rosto, que ele não estaria segurando minha mão nesse último suspiro. A gravidade da situação tornou-se real para mim naquele momento: meu fim estava aqui, não havia nada a ser feito, nenhuma súplica a Deus mudaria isso. E tudo o que eu mais queria era ver Jonathan.

— A decisão é sua — Alejandro disse a Adair, que até então não havia dito uma só palavra. — Se ela lhe agrada. Dona e Tilde já se posicionaram...

— Não é uma votação — ele respondeu, irritado. — Nenhum de vocês diz quem vai fazer parte de nossa família. Vocês todos continuam a existir porque eu quero... — Tinha ouvido direito? Achei que não; suas palavras confusas retumbavam em minha mente... — Vocês continuam à minha disposição. — Adair deu um passo para o meu lado e passou a mão em minha testa suada. — Vê a expressão no rosto dela, Alejandro? Ela sabe que está morrendo e, mesmo assim, está lutando. Vi essa mesma expressão no seu rosto, no de Tilde. É sempre a mesma coisa. — Ele pegou meu rosto com as duas mãos. — Me ouça, Lanore. Estou prestes a dar a você um presente raro. Você compreen­de? Se eu não intervier, você morrerá. Então, esta será nossa troca... Estou pronto para resgatá-la quando morrer e trazer sua alma de volta para este mundo. Mas isso significa que você pertencerá inteiramente a mim, não apenas seu corpo. Ser dono do seu corpo é fácil, posso fazer isso agora mesmo. Quero mais de você; quero sua alma ardente. Você concorda com isso? — ele perguntou, procurando uma reação em meus olhos. — Prepare-se! — ele me disse. Não tinha ideia sobre o quê ele estava falando.

Ele inclinou-se mais perto, como um pastor prestes a ouvir minha confissão. Segurou um frasco de prata, tão fino quanto o bico de um beija-flor, e tirou a tampa, mais uma agulha do que uma tampa.

— Abra a boca — ele ordenou, mas eu estava petrificada de medo. — Abra sua maldita boca — ele repetiu — ou vou quebrar sua mandíbula ao meio.

Em meu estado de confusão, achei que ele estivesse oferecendo os sacramentos (para todos os efeitos, eu vinha de uma família católica) e queria a absolvição de meus pecados. Então, abri a boca e fechei os olhos, esperando.

Ele passou a tampa pela minha língua. Não senti nada, o instrumento era minúsculo, mas minha língua imediatamente amorteceu e foi tomada por um sabor odioso. Minha boca encheu de água e comecei a convulsionar; ele fechou minha boca e a segurou, me prendendo na cama enquanto eu era tomada por convulsões. Minha boca se enchia de sangue e ficava mais amarga e ácida por causa da poção que ele colocara em minha língua. Será que ele me envenenara para acelerar minha morte? Estava afogada em meu próprio sangue e não sentia nada. No fundo de minha mente, ouvia Adair murmurar palavras que não faziam sentido. Mas o pânico tinha tomado o lugar de tudo, principalmente o da lógica. Não me importava com o que ele estava dizendo ou por que ele estava fazendo aquilo. Eu estava completamente em choque.




1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   34


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal