No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Encontro11.06.2018
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Covardia e indecisão me impediram de fugir do navio imediatamente, mas, no final, foi a ideia de perder meu filho que me fez decidir ir embora. Preferia dormir numa viela imunda e ganhar a vida esfregando o chão a deixar alguém tirar o bebê de mim. Com os detalhes se transformando em delírio, saí pelas ruas de Boston somente com minha bolsa no ombro, deixando o baú no escritório do mestre do porto. Com sorte o encontraria novamente quando tivesse achado um lugar para morar; isto é, se o pessoal do convento não o confiscasse em meu nome quando descobrisse que eu havia sumido.

Mesmo tendo esperado até o anoitecer para escapar furtivamente do navio, fiquei surpresa e assustada com a quantidade de atividades que ainda acontecia na cidade. As pessoas saíam das tabernas e iam para as ruas, lotavam as calçadas ou passeavam em carruagens. Charretes lotadas com barris e caixas tão grandes quanto caixões passavam pelas ruas movimentadas. Caminhei com passos firmes por uma rua e desci a outra, me desviando de outros pedestres, me esquivando das charretes, incapaz de entender o desenho das ruas de uma forma que fizesse sentido, incapaz de dizer, após quinze minutos de caminhada, qual era a direção do porto. Comecei a achar Boston um lugar difícil e triste: centenas de pessoas tinham passado por mim aquela noite, mas ninguém reparou em minha expressão de temor, em meu olhar perdido, em meu andar sem rumo. Ninguém perguntou se eu precisava de ajuda.

O anoitecer deu lugar à escuridão. As luzes da rua foram acesas. O tráfego começou a rarear, as pessoas iam para casa com pressa, para a noite, enquanto os donos de lojas abaixavam as cortinas e trancavam as portas. E a próxima noite, e a noite depois, como seria? Não, eu disse a mim mesma, não devo pensar muito adiante ou ficarei desesperada. Passar por esta noite era preocupação o suficiente; precisava de um bom plano ou começaria a pensar que sucumbiria ao convento.

A resposta era uma taberna ou uma hospedaria. O que fosse mais barato, pensei, passando os dedos pelas moedas que ainda me restavam. A vizinhança onde tinha ido parar parecia residencial e tive dificuldade em lembrar quando tinha sido a última vez em que passara por uma taberna. Teria sido mais perto das docas? Provavelmente, mas, ainda assim, hesitei em fazer o caminho de volta, pensando que isso somente confirmaria que eu não sabia o que estava fazendo e que tinha me colocado na pior situação possível. De qualquer forma, não tinha certeza de qual direção viera. Psicologicamente, era melhor continuar seguindo em direção ao novo território.

Estava tão exaurida, que fiquei parada no meio da rua pensando no que faria depois, desatenta ao tráfego em que, numa parte mais movimentada da cidade, quase fui atropelada. Imersa totalmente em meu problema, levei um minuto para perceber que uma carruagem tinha parado a meu lado e que alguém me cumprimentava.

— Senhorita! Olá, senhorita! — uma voz chamou de dentro da carruagem. E era uma carruagem linda, mil vezes mais elegante do que qualquer charrete rústica do campo que eu jamais vira. A madeira escura reluzia e todos os equipamentos eram extremamente delicados e benfeitos. Era puxada por um par de cavalos baios robustos, tão bem cuidados e paramentados quanto cavalos de circo, mas amarrados com arreios negros como uma carruagem de velório.

— Você não fala inglês? — um homem apareceu na janela da carruagem, vestindo um chapéu de três pontas extraordinariamente pomposo, arrematado com plumas cor de vinho. Ele era pálido e louro, com um rosto longo e aristocrático, mas tinha uma expressão de escárnio na boca, como se estivesse eternamente descontente. Olhei para ele, surpresa por um estranho tão elegante estar falando comigo.

— Ah, me deixe tentar — uma mulher disse, de dentro da carruagem. O ho­mem de chapéu saiu da janela e a mulher tomou o lugar dele. Se o primeiro homem era pálido, ela era ainda mais, sua pele era da cor da neve. Ela usava um vestido muito escuro de tafetá marrom moiré, o que talvez desse à sua pele um tom sem sangue. Ela era adorável, mas assustadora, com dentes pontudos escondidos atrás dos lábios abertos, num sorriso cerrado e falso. Os olhos dela eram de um azul tão pálido que pareciam lavanda. E, do que podia ver de seu cabelo — pois ela também usava um chapéu ornamentado, colocado bem alto em sua cabeça, num ângulo ousado —, ele era amarelado, muito arrumado e penteado rente ao crânio.

— Não fique assustada! — ela disse, antes que eu percebesse que realmente estava um pouco amedrontada. Dei um passo para trás quando ela abriu a porta da carruagem e desceu à rua, farfalhando, enquanto se movia, devido à textura do tecido e ao tamanho de sua saia. O vestido dela era o traje mais maravilhoso que eu já havia visto, enfeitado com babadinhos e laços, apertado ao redor de sua fina cintura de vespa. Ela usava luvas pretas e esticou a mão vagarosamente em minha direção, como se estivesse com medo de assustar um cãozinho medroso. Ao homem de chapéu, juntou-se um segundo homem, que tomou o lugar dela na carruagem.

— Você está bem? Enquanto passávamos, meus amigos e eu não pudemos deixar de notar que você parecia um pouco perdida. — O sorriso dela ficou um pouco mais caloroso.

— Eu... bem, isso é... — gaguejei, constrangida por alguém ter me descoberto, ao mesmo tempo desesperada por qualquer ajuda e um toque de bondade humana.

— Você acabou de chegar a Boston? — o segundo homem na carruagem perguntou de seu assento. Ele parecia infinitamente mais agradável do que o primeiro, com traços duros, olhos extraordinariamente bondosos e uma suavidade que convidada à confiança. Eu assenti com a cabeça.

— E tem lugar para ficar? Perdoe-me por minha presunção, mas há algo de órfã em você. Sem teto, sem amigos? — A mulher acariciou meu braço enquanto ele dizia isso.

— Agradeço pela preocupação. Talvez vocês possam me indicar o caminho para a taberna mais próxima — comecei, trocando a sacola de mão. Assim que terminei a frase, o homem alto e arrogante descera da carruagem também e tomou a bolsa de mim.

— Faremos melhor do que isso; nós lhe daremos um lugar para ficar. Por esta noite.

A mulher me pegou pelo braço e me levou em direção à carruagem.

— Vamos para uma festa. Você gosta de festas, não gosta?

— Eu... não sei — respondi secamente, meus sentidos se aguçando em alerta. Como três pessoas de posse poderiam surgir do nada para me ajudar? Parecia natural, até mesmo prudente, ser cética.

— Não diga bobagem. Como você não sabe se gosta de festas? Todo mundo gosta de festas. Haverá comida, muita bebida e diversão. E, no final, haverá uma cama aconchegante para você. — O homem arrogante jogou minha bolsa para dentro da carruagem. — Além disso, tem uma oferta melhor? Prefere dormir na rua? Acho que não.

Ele estava certo e, intuição à parte, eu não tinha escolha a não ser obedecê-los. Até convenci a mim mesma de que esse encontro do acaso era um sinal de boa fortuna. Minhas necessidades tinham sido atendidas, pelo menos até o momento. Eles estavam muito bem-vestidos e, para todos os efeitos, eram ricos; nem de longe pareciam estar planejando me roubar. Nem pareciam assassinos. Todavia, por que estavam tão ansiosos para levar uma estranha a uma festa com eles era um mistério completo, mas pareceu-me muito arriscado questionar minha boa sorte de forma tão rígida.

Cavalgamos num silêncio tenso durante alguns minutos. Eu me sentei entre a mulher e o homem simpático de cabelos escuros, e tentei não olhar quando o homem louro me media de cima a baixo. Quando não pude mais conter minha curiosidade, perguntei:

— Me desculpem, mas, por que, exatamente, querem minha presença nessa festa? O dono da festa não se incomodará em receber um convidado inesperado?

A mulher e o homem arrogante bufaram, como se eu tivesse contado uma piada.

— Oh, não se preocupe com isso! Veja bem, o dono da festa é nosso amigo e sabemos com certeza que ele aprecia entreter mulheres jovens e belas — o homem louro disse com outra bufada. A mulher bateu seu leque nas costas das mãos dele.

— Não se incomode com esses dois — disse o homem de cabelos escuros. — Eles estão se divertindo às suas custas. Tem minha palavra que você será totalmente bem-vinda. Como disse, você precisa de um lugar para passar a noite e, suspeito, para colocar seus problemas de lado por uma noite. Talvez lá encontre algo mais de que precise — ele disse, e tinha um modo tão suave que eu me acalmei. Havia muitas coisas de que eu precisava, mas, mais do que tudo, queria confiar nele. Acreditar que ele soubesse o que era o melhor para mim quando eu mesma não sabia.

Trotamos para cima e para baixo pelas ruas na carruagem negra. Eu olhava para fora da janela e tentava memorizar o caminho, uma criança dentro de um conto de fadas, que, talvez, precisasse voltar para casa. Perda de tempo; não tinha esperança de conseguir refazer minha jornada, não no estado em que me encontrava. Mais tarde, a carruagem parou em frente de uma mansão de tijolos e pedras, toda iluminada para a festa, tão grandiosa que me tirou o fôlego. Aparentemente, a festa ainda não começara; não havia nem sinal de atividade, nem homens e mulheres em roupas de noite, nem nenhuma outra carruagem tentando estacionar.

Lacaios abriram as portas da mansão e a mulher tomou a frente como se fosse a senhora da casa, tirando as luvas dedo por dedo.

— Onde está ele? — ela perguntou rispidamente ao mordomo. Os olhos dele rolaram brevemente para cima.

— Lá em cima, madame.

Conforme subimos as escadas, me senti cada vez mais autoconsciente. Aqui estava eu, com um vestido maltrapilho e artesanal; cheirava a navio e maresia, e meu cabelo estava todo embaraçado e sujo de sal. Olhei para meus pés, para ver meus sapatos simples e rústicos com pedaços de lama da rua grudados, as pontas viradas para cima de tanto uso. Toquei o braço da mulher.

— Não deveria estar aqui. Não estou em estado digno de um evento tão elegante quanto este; não sou adequada nem para ser a ajudante de cozinha dessa casa tão fina. Vou me retirar...

— Você ficará até lhe darmos permissão para ir embora. — Ela virou-se e enfiou as unhas em meu braço, fazendo-me arfar de dor. — Pare de ser tola e venha. Garanto que se divertirá esta noite. — O tom de voz dela me dizia que meu divertimento era a última coisa com a qual ela se preocupava.

Nós quatro entramos por um conjunto de portas num quarto gigantesco, tão grande quanto minha casa toda em St. Andrew. A mulher nos levou direto ao quarto de vestir, onde um homem estava em pé, de costas. Ele era obviamente o dono da casa, um criado estava a seu lado. O mestre vestia calças de veludo azul brilhante, meias de seda brancas e sapatos enfeitados. Usava uma camisa com as bordas de renda e um colete que combinava com as calças. Ele não estava vestido com seu casaco, de forma que eu podia ver sua verdadeira forma sem os truques dos alfaiates para melhorar a compleição física. Ele não era alto e atlético como Jonathan, meu padrão de ideal masculino, mas, mesmo assim, tinha um físico magnífico. Costas e ombros largos saíam de seus quadris estreitos; devia ser extremamente forte, a julgar por aqueles ombros, como alguns dos lenhadores em St. Andrew, robustos e vigorosos. E, então, ele se virou e tentei não demonstrar minha surpresa.

Ele era muito mais novo do que eu esperava, diria que na casa dos 20 anos, só um pouco mais velho do que eu. E era bonito de uma maneira diferente, vagamente selvagem. Tinha a pele morena, um tom que eu nunca vira antes em nosso vilarejo de escoceses e escandinavos. Seu bigode e barba escuros rareavam por sua mandíbula quadrada, como se estivesse crescendo havia pouco tempo. Mas sua característica mais marcante eram os olhos, verdes-oliva e manchados de cinza e dourado. Eram belos feito joias e seu olhar era lupino e fascinante.

— Trouxemos outra atração para sua festa — anunciou a mulher.

Seu olhar de avaliação era tão áspero e, após apenas um olhar seu, senti que não tinha segredos com ele. Minha garganta secou e meus joelhos amoleceram.

— Este é nosso anfitrião — a voz da mulher desapareceu lentamente sobre meu ombro. — Faça uma mesura, sua idiota! Está na presença da realeza. Este é o conde cel Rau.

— Meu nome é Adair. — Ele esticou a mão em minha direção, como se quisesse me impedir de fazer uma mesura. — Estamos na América, Tilde. Sei que os americanos não têm realeza no país e, assim, não farão mesura a ninguém. Não podemos esperar que os americanos façam mesura para nós.

— Você acabou de chegar à América? — De alguma forma, tomei coragem para falar com ele.

— Há duas semanas. — Ele soltou minha mão e virou-se para o lacaio.

— Da Hungria — o homem baixo e escuro acrescentou. — Sabe onde fica?

Minha cabeça girou.

— Não, infelizmente não. — Mais esfolegadas de risadas soaram atrás de minhas costas.

— Isso não é importante — Adair, o mestre da casa, respondeu bruscamente para seus subordinados. — Não podemos esperar que as pessoas conheçam o lugar de onde viemos. Nosso lar é muito mais longe do que as milhas de terra e mar que deixamos para trás. É uma terra diferente desse lugar; é por isso que vim até aqui, porque é outro mundo. — Ele fez um gesto em minha direção. — Você... tem um nome?

— Lanore.

— Você é daqui?

— De Boston? Não, cheguei hoje. Minha família... — engasguei com um nó na garganta — ... vive no território do Maine, ao norte. Já ouviu falar de lá?

— Não — ele respondeu.

— Então estamos quites. — Não sei onde encontrei coragem para fazer piada com ele.

— Talvez sim. — Ele deixou o lacaio arrumar sua gravata, olhando curiosamente antes de se dirigir ao trio. — Não fiquem parados aí — ele disse. — Aprontem-na para a festa.

Fui levada para outro quarto, repleto de baús. Eles abriam as tampas, procurando diligentemente até encontrar uma roupa que coubesse em mim, um belo vestido de algodão vermelho e um par de sapatilhas de cetim. Não era uma roupa que combinasse comigo, mas era muito mais elegante do que qualquer outra que já havia vestido. Haviam mandado um criado preparar um banho rápido e fui instruída para me esfregar com cuidado, porém, rapidamente.

— Vamos queimar isso — o homem louro disse, balançando a cabeça para minhas roupas feitas em casa, agora jogadas no chão. Antes de me deixarem sozinha para me lavar, a assustadora mulher loura colocou uma taça em minha mão com um bom vinho, mexendo lá dentro.

— Beba — ela disse. — Deve estar com sede. — Sequei a taça em dois goles.

Percebi que colocaram droga dentro do vinho quando saí da sala de banho. O chão e as paredes pareciam girar e precisei me concentrar muito para chegar ao salão. Os convidados já começavam a chegar, em sua maioria bem-vestidos, homens com perucas e máscaras cobrindo o rosto. O trio desaparecera e eu fui deixada sozinha. Em meu estado de torpor, fui de sala em sala tentando entender o que estava acontecendo, o bacanal estridente se espalhando a meu redor. Lembro-me de ver jogos de cartas numa grande sala, quatro ou cinco homens sentados ao redor de uma mesa, em meio a surtos de risadas e fúria enquanto as moedas brilhavam quando eram jogadas para dentro do pote. Continuei a perambular, indo de uma sala a outra, sem destino. Quando batia nas paredes, um estranho me tomava pela mão, mas eu soltava e corria o mais rápido que conseguia, dado o meu estado de torpor. Havia homens e mulheres jovens, atarantados, sendo levados pelos convidados em todas as direções.

Comecei a alucinar. Estava convencida de estar sonhando e sonhava que estava num labirinto. Não conseguia me fazer entender; as palavras saíam confusas e, de qualquer forma, ninguém parecia inclinado a me ouvir. Aparentemente, não havia saída dessa festa infernal, nenhuma saída para a segurança relativa da rua. Nesse momento, senti uma mão pousar sobre meu cotovelo e, então, desmaiei.

Quando acordei, estava deitada numa cama, quase sufocada por um homem deitado sobre mim. O rosto dele estava grotescamente perto do meu, sua respiração quente varrendo meu rosto. Estremeci sob o peso e sob os insistentes golpes de seu corpo contra o meu, e me ouvia lamentar e chorar de dor, mas a dor estava desconectada, aliviada momentaneamente pela droga. Eu sabia, por instinto, que mais tarde tudo voltaria à tona. Tentei gritar para pedir ajuda e uma mão suada cobriu minha mão, dedos salgados passaram pelos meus lábios.

— Fique quieta, meu bichinho — o homem em cima de mim grunhiu, com olhos semicerrados.

Sobre seus ombros, vi que estávamos sendo observados. Homens mascarados sentavam-se em cadeiras colocadas ao pé da cama, taças na mão, rindo e instigando o homem. Sentado no meio do grupo, com as pernas cruzadas, estava o anfitrião. O conde. Adair.

Acordei com um sobressalto. Estava deitada numa cama enorme, num quarto escuro e silencioso. Só o ato de acordar enviou faíscas de dor por todo meu corpo; eu me sentia como se tivessem me revirado do avesso, esticada, dolorida e rígida, anestesiada da cintura para baixo. Meu estômago estava revirado, um mar de bílis. Meu rosto estava inchado, minha boca também, com lábios secos e cortados. Sabia o que tinha acontecido comigo na noite anterior, minha dor era toda a prova de que eu precisava. O que eu precisava agora era sobreviver.

Então, o vi deitado a meu lado, na cama. Adair. Seu rosto era quase beatífico enquanto dormia. Do que podia ver, ele estava nu, mas coberto pelos lençóis da cintura para baixo. Suas costas estavam expostas para mim, matizadas de antigas cicatrizes, sugerindo surras horríveis no passado.

Eu me inclinei sobre a beirada da cama e, agarrando-me ao colchão, vomitei no chão. Meu movimento acordou o anfitrião. Ele lamentou sobre a ressaca, ou assim eu pensei, e ergueu a mão até a testa. Seus olhos verdes-dourados piscaram incertos.

— Meu bom Deus, você ainda está aqui — ele disse para mim.

Eu avancei nele com raiva, erguendo o braço para acertá-lo com um soco, mas ele me jogou de lado com um braço forte e preguiçoso.

— Não se comporte estupidamente — avisou-me — ou quebrarei você ao meio como um graveto.

Pensei nos outros homens e nas mulheres que tinha visto na noite anterior.

— Onde eles estão? Os outros? — quis saber.

— Foram pagos e foram embora, assim espero. — Adair murmurou, passando a mão pelo cabelo embaraçado. Ele torceu o nariz quando sentiu o cheiro de meu vômito. — Chame alguém aqui para limpar isso — disse, enquanto se inclinava para o lado para sair da cama.

— Não sou sua serviçal. E não sou uma... — busquei uma palavra que eu sabia não existir.

— Não é uma puta? — Ele puxou o cobertor da cama e o enrolou em volta do corpo. — Tampouco é uma virgem.

— Isso não quer dizer que eu queira ser drogada e atacada por um bando de homens.

Adair não disse nada. Segurou o cobertor amarrado no quadril, caminhou até a porta e, aos berros, chamou um serviçal. Depois, virou seu rosto para mim.

— Então, acha que fiz mal a você? O que vai fazer sobre o assunto? Poderia contar a história ao policial e ele a prenderia por ser uma prostituta. Assim, sugiro que receba seu pagamento e faça uma refeição antes de ir embora. — Então, meneou a cabeça enquanto me olhava uma segunda vez. — Você é aquela que Tilde encontrou na rua, sem lugar para ir. Bem... nunca poderão dizer que não sou um homem generoso. Pode ficar conosco por uns dias. Descanse e se recomponha, se quiser.

— E devo cantar a mesma música de ontem? — perguntei com sarcasmo.

— Você é impertinente, não é, para falar dessa maneira comigo? Completamente sozinha nesse mundo, ninguém aqui sabe quem você é, eu poderia comê-la como um coelho, um coelho ensopado. Isso não a assusta nem um pouco? — Ele me lançou um sorriso sarcástico, mas com um ar de aprovação. — Vamos ver o que me vem à cabeça. — Ele se jogou sobre o sofá, enrolando-se no cobertor. Para um aristocrata, tinha modos de um rufião.

Tentei me levantar e procurar minhas roupas, mas minha cabeça ficou tonta e o quarto todo rodou. Caí de volta na cama enquanto um serviçal entrou com trapos e um balde. Ele não prestou atenção em mim quando se ajoelhou para cuidar de minha poça de vômito. Só então é que senti uma dor latejante nas vísceras, uma sensação perdida num oceano de dor. Eu estava coberta, da cabeça aos pés, com arranhões, manchas rochas e escoriações. A dor interna, sem dúvida, veio do mesmo modo que a dor externa: pelas mãos de uma criatura bestial.

Pretendia fugir da mansão nem que tivesse que sair rastejando. Mas não cheguei nem ao pé da cama; desmoronei de uma vez, vencida pela exaustão.

Meses se passaram até que eu fosse embora da casa.

16

CONDADO DE AROOSTOK, HOJE



A madrugada dessa época do ano tem um tom característico: a poeira cinza-amarelada como o lado de fora da gema de um ovo cozido. Luke podia jurar que pairava sobre a terra como a maldição de um fantasma, mas sabe que provavelmente não passe de mais um truque de luz brincando com as moléculas de orvalho da manhã. Nuvens de luz ou antiga maldição, o fato é que traz às manhãs uma aparência peculiar: o céu amarelado, um teto baixo de nuvens de sombras ameaçadoras contra o qual se erguem árvores cinza e marrons praticamente nuas.

Depois de ver o carro da polícia pelo retrovisor, Luke resolveu que não podiam continuar a viagem até a fronteira do Canadá em sua caminhonete. É muito fácil de ser reconhecida, pois tem as placas especiais de médico e o adesivo no vidro da antiga escola de Jolene, proclamando que o filho do motorista pertencia ao quadro de honra da Escola de Ensino Fundamental Rio Allagash (desde quando, Luke tinha se perguntado quando Tricia insistiu para que colocasse o adesivo em sua caminhonete, havia quadros de honra em escolas de Ensino Fundamental?). Assim, passaram a última meia hora fazendo o caminho de volta até St. Andrew, por estradas de uma via só, para chegarem até a casa de alguém em que ele acredita poder confiar. Ligou primeiro do celular para saber se podia emprestar um carro, mas, principalmente, ele queria saber se a polícia estivera perguntando por ele.

Ele para em frente a uma casa de fazenda, reformada, fora de St. Andrew.

A casa é uma beleza, uma das maiores e mais bem conservadas, com toques de guirlandas de amentilho decorando a varanda em volta e lanternas solares no caminho da entrada. A casa pertence a um novo médico do hospital, um anestesista chamado Peter, que mudou da cidade para poder criar seus filhos no campo, onde acredita não haver crimes nem drogas. Ele é um cara patologicamente agradável, até mesmo para Luke, que, cheio de mágoa e ainda sofrendo com todos os problemas recentes, afastara-se de todos nos últimos meses.

Quando Luke bate à porta da frente, Peter atende vestindo um roupão e chinelos, uma expressão de desagrado no rosto. Ele parece ter sido arrancado da cama pelo telefonema de Luke, que fica profundamente envergonhado. Peter coloca a mão no braço de Luke enquanto estão parados na porta de entrada.

— Está tudo bem?

— Me desculpe por lhe pedir isso; é um pedido estranho, eu sei — Luke diz, mudando o peso de um pé para o outro, com a cabeça baixa. Ele praticou a mentira em sua cabeça durante os últimos dez minutos. — É que... a filha de minha prima passou uns dias comigo e eu prometi à mãe dela que a levaria para casa a tempo de pegar o ônibus para um passeio da escola. O problema é que minha caminhonete está falhando e estou com medo de não conseguir chegar até lá e voltar... — O tom de Luke mistura a quantidade certa de incoerência e desculpas por estar incomodando um amigo, dando a impressão de um coitado bem-intencionado e confuso, que só um ogro rejeitaria.

Peter olha sobre o ombro de Luke, para a caminhonete estacionada no final da longa entrada. Luke sabe que ele verá Lanny em pé, ao lado do veículo, com a mala a seus pés. Ela está muito longe para que Peter consiga vê-la direito, caso a polícia faça perguntas mais tarde. Ela acena para Peter.

— Você não acabou de sair do plantão? — Peter olha de volta para Luke, tão perto como se estivesse procurando pulgas. — Não está cansado?




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