No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Os dias passaram em entristecida mesmice. Meu pai me mantinha ocupada o tempo todo, do momento em que levantávamos na semiescuridão do novo dia até encostar minha cabeça no travesseiro à noite. O sono não trazia trégua, pois frequentemente sonhava com Sophia levantando-se do Allagash congelado; em pé, como uma nuvem de fumaça no túmulo; rondando minha casa na escuridão, como um fantasma desassossegado. Talvez seu fantasma se confortasse com meu sofrimento.

Ajoelhei-me ao lado da cama, preparando-me para dormir, e imaginei se seria blasfêmia pedir a Deus para retirar de mim aquele pecado. Se ser banida era minha punição pelos meus abomináveis pecados, não deveria aceitar meu fardo em vez de pedir clemência a Deus?

À medida que o inverno amainava e o dia de minha partida se aproximava, minhas irmãs ficavam cada vez mais tristes. Passavam o máximo de tempo que podiam comigo, não falando sobre a minha partida, mas sentando-se comigo, me abraçando, pressionando a testa na minha. Trabalharam avidamente com minha mãe para remendar meu guarda-roupa, para eu não parecer tão rústica, e até me fizeram uma nova capa com a lã que sobrara da primavera anterior.

O inevitável não seria postergado para sempre e, uma noite, quando a neve derretida já tinha realmente se assentado no vale, meu pai me disse que as providências já haviam sido tomadas. Eu partiria no domingo seguinte, na charrete do dono do armazém, acompanhada pelo tutor da cidade, Titus Abercrombie. Da Ilha Presque, iríamos viajar em uma charrete até Camden e, de lá, embarcaríamos num navio até Boston. O único baú da família foi arrumado com meus pertences e deixado ao lado da porta, um papel com o nome de todos os meus contatos (capitão do navio, madre superiora do convento) costurado dentro do forro de minha roupa de baixo, junto com todo o dinheiro de que minha família dispunha. Minhas irmãs passaram aquela noite em nossa cama larga, enroscadas comigo; não queriam que eu partisse.

— Não entendo por que nosso pai está mandando você embora.

— Ele não quis me ouvir, por mais que eu implorasse.

— Sentiremos sua falta.

— Algum dia a veremos de novo? Virá para o nosso casamento? Ficará a nosso lado no batismo de nossos bebês? — Essas perguntas também me trouxeram lágrimas aos olhos. E eu as beijei gentilmente na testa e as abracei bem forte.

— Claro que me verão de novo. Ficarei fora só por um tempinho. Chega de lágrimas, hein? Tanta coisa acontecerá enquanto eu estiver fora que vocês nem sentirão minha falta. — Elas gritaram em negativa e prometeram pensar em mim todos os dias. Eu deixei que chorassem até a exaustão e fiquei acordada o restante da noite, tentando encontrar paz nas últimas horas antes do amanhecer.

Quando chegamos, os condutores estavam arreando os cavalos e amarrando-os às charretes, agora vazias, já que, um dia antes, haviam entregado montes de mercadorias secas (farinha, rolos de tecido, agulhas, chá) na loja dos Waldorf. Três grandes charretes e os seis homens parrudos fizeram os últimos ajustes nos arreios e observavam, encabulados, minha família se reunir a meu redor. Abracei minhas irmãs e minha mãe com força, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Meu pai e Nevin ficaram de lado, emburrados e insensíveis. Um dos condutores tossiu, relutante em me chamar, mas ansioso para sair no horário.

— Hora de partir — meu pai disse. — Meninas, para dentro da charrete. — Ele esperou que minha mãe me abraçasse uma última vez, enquanto Nevin ajudava o condutor a colocar o baú dentro da carroceria. Meu pai virou-se para mim e disse:

— Esta é sua oportunidade de se redimir, Lanore. Deus achou por bem lhe dar outra chance, então, não seja estúpida para com a beneficência dele. Sua mãe e eu iremos rezar para parir seu filho com segurança, mas nem pense em recusar a ajuda das freiras que levarão a criança para outra família. Eu ordeno que não fique com a criança e, se resolver não cumprir minhas ordens, melhor nem voltar para St. Andrew. Se não se transformar em uma cristã digna e temente a Deus, não quero nunca mais ouvir falar de você.

Estupefata, fui até a charrete; Titus esperava por mim. Com uma dignidade cavalheiresca, ele me ajudou a subir até o banco ao lado dele.

— Minha querida, será um prazer acompanhá-la até Camden — ele disse num tom rígido e formal, mas amigável, um tom do qual Jonathan fazia piada. Eu não conhecia Titus muito bem, já que nunca tivera aulas com ele, e só tinha as histórias de Jonathan como referência para julgá-lo. Ele era um cavalheiro mais velho, mais para delicado, com a constituição de um professor: braços e pernas curvados, uma barriguinha protuberante que crescera com o passar dos anos, já perdera a maioria dos cabelos e, os que sobraram, estavam grisalhos, deixando sua cabeça calva com uma franja fina, no estilo de Benjamin Franklin. Ele era um dos poucos homens na cidade que usava óculos, uma fina armação de metal que fazia seus pálidos olhos cinza parecerem ainda menores e mais lacrimejantes. Titus passava os meses de verão em Camden ensinando, em latim, os filhos de seus primos, em troca de seu sustento, já que todos os seus alunos de St. Andrew trabalhavam nas fazendas da família até a escola recomeçar, no outono.

Quando a charrete pôs-se a andar, chorei copiosamente, respondendo, entre lágrimas, aos acenos frenéticos de minha mãe e de minhas irmãs.

À medida que a cidade ia ficando para trás, a dor em minha garganta e em meu coração se intensificava; observava o único lugar que conhecera desaparecer na distância e dizia adeus a todos e a ele, o único que sempre amaria.

13

ESTRADA DE FORT KENT, HOJE



O cruzamento da fronteira não está muito longe. Apesar de Luke, há anos, não dirigir por ali, desde que levara a família para umas férias desastrosas pela trilha dos Montes Apalaches, tem certeza de que ainda consegue encontrá-la sem consultar o mapa. Ele passa por algumas estradas secundárias, mais lentas e demoradas, mas imagina que assim terão menor possibilidade de se encontrar com soldados da Cavalaria ou outros policiais; há poucos deles para patrulhar rotas secundárias ou se preocupar com cidadezinhas. A estrada, é aí que mora o problema, com os carros em alta velocidade, os caminhões com excesso de peso e o dinheiro que vem das infrações, é que traz lucro para o governo.

Ele coloca em ponto morto, aperta o volante e dirige com uma mão só. A passageira olha fixa e aleatoriamente para a estrada diante deles, mordendo o lábio inferior. Ela parece ainda mais uma adolescente, escondendo a preocupação embaixo de um véu de impaciência.

— Então — ele diz, tentando quebrar o gelo entre eles. — Se importa se eu fizer algumas perguntas?

— Fique à vontade.

— Pode me dizer como se sente sendo o que você é?

— Não sinto nada de especial.

— Verdade?

Ela se encosta no banco e coloca o cotovelo no apoio de braço.

— Não me sinto diferente, pelo menos não que eu consiga me lembrar. Não percebo mudanças no dia a dia, não da maneira que faça diferença. Não é que eu tenha superpoderes ou coisas do tipo. Não sou um personagem de uma história em quadrinhos. — Ela olha para ele para mostrar que não achou a pergunta idiota.

— Aquilo que você fez na sala de emergência, se cortar... doeu?

— Na verdade, não. A dor é pequena, fica só um pouco dormente, talvez como numa cirurgia depois de uma pequena dose de anestesia. Só a pessoa que fez você assim pode machucá-lo, realmente fazê-lo sentir dor. Já faz tanto tempo que quase me esqueci de como é sentir dor.

— Uma pessoa fez isso com você? — Luke pergunta, incrédulo. — Como aconteceu?

— Vou chegar lá — ela responde ainda sorrindo. — Seja paciente.

A revelação de que este milagre tenha sido feito por um homem quase deixa Luke tonto, como se de repente olhasse uma paisagem de uma perspectiva diferente. Parece ainda mais impossível, uma chance ainda maior de ser uma mentira de uma mulher bela e manipuladora.

— Bem — ela continua —, sou praticamente a mesma coisa que era, exceto que não fico cansada. Não me canso fisicamente, só emocionalmente.

— Depressão?

— Sim, provavelmente é isso e existem muitos motivos para sê-lo, eu acho. Em geral, só acontece de vez em quando, principalmente quando penso na futilidade de minha vida, de não ter outra alternativa a não ser viver um dia após o outro. E me pergunto qual é a razão de enfrentar tudo isso sozinha, senão me fazer sofrer, ser lembrada pelas coisas ruins que fiz ou pela maneira que devo ter tratado as pessoas. Não que eu possa fazer alguma coisa sobre o assunto. Não posso voltar no tempo e desfazer os erros que cometi.

Essa não era a resposta que ele esperava. Ele muda a posição da mão no volante enquanto passam por cima de um trecho de macadame.

— Quer que eu receite alguma coisa a você?

Ela ri.


— Antidepressivos? Não acho que fariam efeito em mim.

— Os remédios não fazem efeito em você?

— Vamos dizer que tenho uma tolerância bastante alta. — Ela se vira e passa a olhar pela janela. — Às vezes, a obliteração é a única forma de esquecimento.

— Obliteração, quer dizer, álcool? Drogas?

— Podemos parar de falar sobre isso? — A voz dela estremece no final.

— Claro. Está com fome? Provavelmente já faz tempo que você comeu. Quer parar para comer uma coisinha? Tem um lugar que faz sonhos perto de Fort Kent...

Ela balança a cabeça em desacordo.

— Não sinto mais fome; posso passar semanas sem pensar em comer ou beber, na verdade.

— E dormir? Sente vontade de dormir?

— Também não durmo muito. Simplesmente me esqueço disso. Afinal, a melhor parte de dormir é ter alguém a seu lado, não é? Um corpo quente, um peso contra seu corpo. É muito reconfortante, não acha? Como a respiração entra no ritmo, se sincroniza. É o paraíso.

“Isso queria dizer que não havia um homem em sua cama nos últimos tempos?”, Luke se pergunta. Então, o que significava o homem morto no necrotério, os lençóis amassados no quarto? Ou talvez ela o estivesse enganando, escondendo o que realmente era.

— Você sente falta de ter sua esposa na cama com você? — ela pergunta depois de um momento, provocando-o.

Claro que ele sentia, apesar de sua ex-esposa ter o sono leve, dormir pouco e, frequentemente, acordá-lo aos solavancos quando tentava se acomodar na cama ou quando estava sonhando. Ele adorara vê-la adormecida na cama quando chegava em casa depois de uma longa noite no hospital, seu corpo esguio e elegante enrolado nas cobertas, as curvas suaves se delineando para cima e para baixo, os cabelos dourados emaranhados em sua cabeça, a boca ligeiramente aberta; havia algo mágico em observá-la sem que soubesse. A memória dessas cenas íntimas fizeram crescer um nó na garganta dele.

— Quanto tempo faz que ela foi embora? — Lanny pergunta.

Ele dá de ombros.

— Quase um ano, agora. Ela vai se casar com o namorado de infância; voltou para Michigan, levou nossas duas filhas.

— Isso é... terrível. Sinto muito!

— Não desperdice sua simpatia comigo. Parece que você está passando por algo muito, muito pior. — Ele tem a mesma sensação de novo, a mesma que sentiu fora do necrotério, uma sensação de desorientação diante do confronto da história dela com o mundo que conhece. Como ela poderia estar falando a verdade?

Enquanto faz uma curva para a direita, ele pensa ter visto a luz de um carro de patrulha preto e branco no espelho retrovisor. Será que os tinham seguido o tempo todo, Luke se pergunta, e ele não percebera? Será que a polícia estava atrás deles? A ideia causa um desconforto diferente para um homem que nunca teve nenhum tipo de problema com a lei.

— O que é? — Lanny pergunta de repente, ajeitando-se. — Aconteceu alguma coisa, posso ver na expressão de seu rosto.

Luke mantém o olhar no espelho retrovisor.

— Fique calma. Não quero que se assuste, mas acho que estamos sendo seguidos.


Parte dois
14

BOSTON, 1817

A viagem para o sul, na charrete do comerciante, durou duas semanas. Foi beirando a ponta leste da Floresta Great North, longe o bastante do Monte Katahdin para nos impedir de ver os picos cobertos de neve, até chegarmos ao rio Kennebec, que seguimos até Camden. Fora uma viagem solitária; se essa parte do estado já não é muito povoada hoje, era praticamente vazia naquela época. Passamos por caçadores e às vezes acampávamos com eles durante a noite, os condutores das charretes ansiosos para ter com quem dividir uma garrafa de uísque.

Os caçadores que encontrávamos eram geralmente franco-canadenses e quase sempre estoicos ou estranhos, o ofício cabendo àqueles que eram ou ermitões, ou independentes fervorosos. Alguns deles me pareciam meio loucos, balbuciando para si mesmos de um modo esquisito enquanto limpavam e lubrificavam as ferramentas antes de começarem a trabalhar na caça que haviam pegado. Animais congelados eram colocados ao lado das fogueiras até descongelarem e ficarem maleáveis o suficiente; então, os caçadores sacavam suas facas de lâminas finas e começavam a arrancar a pele. Olhar os homens arrancarem a pele revelando-se os corpos molhados e vermelhos me deixava enjoada e desconfortável. Sem vontade de me sentar com eles, eu escapava de volta para a charrete com Titus e deixava os condutores dividirem a bebida com os caçadores no abraço morno da fogueira.

Embora estivesse infeliz com meu exílio, sempre quis conhecer um pouco do mundo fora do vilarejo. St. Andrew podia não ser sofisticada, mas eu a considerava civilizada em comparação com outros lugares do território, que eram, na maioria, despovoados. Com exceção dos caçadores, vimos poucas pessoas durante nossa jornada a Camden. Os índios, que eram nativos da área, já tinham se mudado anos antes, apesar de alguns continuarem vivendo nos assentamentos brancos ou trabalharem para os caçadores. Havia lendas sobre colonizadores que haviam se transformado em nativos, deixando suas cidades para montar acampamentos como os índios, mas eram poucos e geralmente desistiam durante o primeiro inverno.

A viagem pela Floresta Great North prometia ser escura e misteriosa. O pastor Gilbert nos avisara sobre espíritos malignos que ficavam à espreita, esperando os viajantes. Os lenhadores diziam ter visto trolls e duendes, o que era esperado, pois a maioria deles vinha de terras escandinavas onde essas figuras folclóricas são comuns. A Floresta Great North representava o selvagem, a parte da terra que resistia à influência dos homens. Entrar nela era se arriscar a ser devorado, voltar às origens do homem selvagem que ainda vivia em cada um de nós. Em público, a maioria das pessoas de St. Andrew não dava muita atenção a essa conversa, mas era raro ver uma alma entrar na floresta, sozinha, durante a noite.

Alguns dos condutores gostavam de assustar uns aos outros contando histórias ao redor da fogueira, histórias de fantasmas vistos nos cemitérios ou demônios encontrados na floresta enquanto faziam alguma viagem. Eu tentava evitá-los nessas horas, mas não havia muito como fugir, pois só tínhamos uma fogueira queimando e todos os homens estavam ávidos por entretenimento. A julgar pelas histórias dos condutores, acho que eram ou muito corajosos ou grandes mentirosos, pois, apesar das lendas de fantasmas perambulantes, do demônio feminino da morte e coisas do gênero, eles continuavam conduzindo pelos caminhos solitários da floresta.

A maioria das histórias era sobre fantasmas e, enquanto ouvia, percebi que todos pareciam ter uma característica comum: eles assombravam os vivos porque tinham negócios pendentes nesta vida. A despeito de terem sido assassinados ou de terem se suicidado, os fantasmas se recusavam a passar para a outra vida por sentirem que pertenciam a este mundo e não ao outro. Por quererem se vingar da pessoa responsável pela morte deles ou por não conseguirem deixar a pessoa amada, os fantasmas permaneciam perto das pessoas com quem passaram seus últimos dias. Obviamente eu me lembrei de Sophia. Se alguém tinha o direito de voltar como fantasma, era ela. Será que Sophia ficaria zangada quando voltasse e soubesse que a maior responsável por seu suicídio tinha ido embora da cidade? Será que me seguiria? Talvez ela tenha me jogado uma praga do túmulo e fosse responsável por minha atual situação de infelicidade. Ouvir as histórias dos condutores somente reforçava minha crença de que eu havia sido amaldiçoada por causa de minha maldade.

E, então, me senti mais feliz e aliviada quando começamos a passar por pequenos assentamentos com mais frequência: significava que estávamos nos aproximando da parte mais povoada ao sul do território e que não estaríamos à mercê dos condutores de charrete por muito mais tempo. Realmente, depois de termos encontrado o rio Kennebec, em poucos dias chegamos a Camden, uma grande cidade na costa. Foi a primeira vez que vi o mar.

A charrete nos deixou no porto, conforme acordado com meu pai. Corri pelo píer mais longo e fiquei olhando para toda aquela água por muito tempo. Que cheiro peculiar, o cheiro do mar, salgado, sujo e rústico! O vento estava muito frio e intenso, tão forte que era quase impossível respirar. Batia em meu rosto e emaranhava meus cabelos, como se me desafiasse. Além disso, fui tomada pela grandeza do oceano; sim, já tinha visto bastante água, mas somente a do rio Allagash. Por mais largo que fosse, dava para ver a margem oposta, sabia que tinha limites. No entanto, com esse horizonte infinito, a expansão plana do oceano parecia o próprio fim do mundo.

— Sabe, os primeiros exploradores a viajar para a América achavam que fossem cair na ponta do mundo. — Titus disse, lembrando-me de que estava a meu lado.

Achei a maré revolta assustadora e fascinante ao mesmo tempo, e não conseguia deixar de olhar para aquele mar; quase congelei até os ossos.

O tutor me acompanhou até o escritório do mestre do porto, onde encontramos um homem velho, com uma pele assustadora que parecia couro. Ele apontou na direção de um pequeno navio que me levaria até Boston, mas avisou que não partiria antes da meia-noite, quando a maré teria baixado, e que eu só seria bem-vinda a bordo um pouco antes de zarparem. Ele sugeriu que passasse um tempo numa taberna, pedisse alguma coisa para comer e, talvez, convencesse o dono a me deixar passar as horas cochilando numa cama que não estivesse sendo usada. Ele até me mostrou o caminho para uma taberna perto do porto, ficou com dó de mim, suspeito, pois eu mal podia me fazer entender, nervosa, com a língua presa, e eu era tão rude! Se Camden era tão grande e intimidadora assim, como eu conseguiria sobreviver em Boston?

— Senhorita McIlvrae, eu devo protestar. Não deve ficar desacompanhada numa taberna, nem andar sozinha pelas ruas de Camden, à meia-noite, procurando por seu navio — Titus disse. — Mas estão esperando por mim na casa de meu primo e eu realmente não tenho como passar o resto do dia com a senhorita.

— Que outra opção eu tenho? — perguntei. — Se for lhe tirar o peso da consciência, leve-me até a taberna e veja com seus próprios olhos se é um lugar respeitável. Então, faça como sua consciência mandar. Assim, não se sentirá traindo o compromisso com meu pai.

A única taberna que eu conhecia era a Daughtery’s, um lugarzinho caseiro em St. Andrew, e essa taberna em Camden a reduzia a nada, com dois atendentes e duas mesas longas com bancos e comida quente para comprar. A cerveja também era consideravelmente mais saborosa e eu percebi, com uma dor súbita, o quanto as pessoas da minha cidade eram privadas de tantas coisas. A injustiça da situação se abateu sobre mim, apesar de não me sentir privilegiada por ter sido apresentada a isso só agora. Na verdade, sentia falta de casa e pena de mim mesma, mas escondi isso de Titus, que, ansioso para ir embora, concordou que aquele não parecia ser um lugar de má reputação e me deixou aos cuidados do dono da taberna.

Depois de ter comido e observado admiradamente os estranhos que entravam no lugar, aceitei o convite do dono da taberna para cochilar numa cama no depósito de mantimentos até que meu navio estivesse pronto para partir. Aparentemente, era comum que os passageiros passassem o tempo nessa taberna em particular e o dono estava acostumado a fornecer esse tipo de serviço. Ele prometeu me acordar depois do pôr do sol, a tempo de chegar ao porto.

Deitei-me na cama, no depósito de mantimentos sem janela, e me dei conta de minha situação. Foi então, enrolada no escuro com os braços apertados em meu peito, que percebi o quanto estava sozinha. Tinha crescido numa cidade em que conhecia todos e não havia dúvida sobre quem tomaria conta de mim. Ninguém aqui ou em Boston me conhecia ou queria saber quem eu era. Lágrimas pesadas escorreram por minha face em autopiedade; na época, imaginava que meu pai não poderia ter me dado uma punição mais brutal do que essa. Acordei na escuridão, com o dono da taberna batendo à porta.

— Está na hora de se levantar — ele chamou do outro lado da porta — ou perderá seu navio.

Paguei com algumas poucas moedas que tirei do forro de minha capa, aceitei a oferta dele para me acompanhar até o escritório do mestre do porto e caminhei de volta até a praia em frente do porto.

A noite havia caído rapidamente, assim como a temperatura, e uma névoa, vinda do oceano, instalava-se. Havia poucas pessoas na rua e elas se apressavam de volta para casa, para fugir do frio e da névoa. O efeito conjunto era sombrio, como se eu estivesse andando por uma cidade de fantasmas. O dono da taberna foi muito amigável e seguimos o marulhar das ondas até o porto.

Vi o navio que me levaria a Boston através da névoa. O deque estava todo pontilhado de lanternas que iluminavam a preparação para a partida: os marujos escalavam os mastros, desenrolando algumas das velas; barris eram carregados rampa acima para o depósito no porão; o navio boiava gentilmente de um lado para o outro.

Sei, agora, que era um navio de carga comum, mas, na época, era tão exótico quanto um navio de guerra britânico ou um baghlah árabe, o primeiro navio de verdade que eu já vira tão de perto. Medo e entusiasmo subiram pela minha garganta (eles seriam minha companhia constante para o resto da vida: medo do desconhecido e desejo irrepreensível por aventura) enquanto eu subia a rampa até o navio, outro passo ainda para mais longe de tudo o que eu conhecia e amava, e outro passo para mais perto de minha nova vida misteriosa.

15

Vários dias depois, o navio aproximou-se do porto de Boston. À tarde, já tínhamos chegado ao cais, mas eu esperei até o anoitecer para sair ao deque do navio. Estava tudo quieto agora: os outros passageiros haviam desembarcado assim que o navio ancorou e a maior parte da carga, aparentemente, havia sido descarregada. Os tripulantes do navio, pelo menos aqueles de cujo rosto eu me lembrava, não podiam ser vistos em lugar nenhum, provavelmente estavam lá fora, descobrindo os benefícios de se estar em terra visitando uma das tabernas que davam de frente para o porto. A julgar pelo número de tais estabelecimentos na rua, as tabernas eram parte importante dos negócios da navegação, mais importantes do que madeira ou lona.



Tínhamos ancorado muito antes do previsto, graças aos bons ventos, mas foi uma questão de tempo para que o convento fosse avisado e mandasse alguém me buscar. De fato, o capitão havia me olhado curiosamente uma ou duas vezes enquanto eu permanecia no deque inferior, imaginando por que eu ainda não havia saído, e até se ofereceu para procurar transporte para me levar até meu destino, caso eu não soubesse o caminho.

Eu não queria ir para o convento. Em minha mente, tinha imaginado que seria parecido com um reformatório ou uma prisão. Era para ser minha punição, um lugar destinado a me corrigir mediante todos os meios possíveis, a curar minha paixão por Jonathan. Tirariam o bebê de mim, minha última e única conexão com meu amado. Como poderia permitir uma coisa dessas?

Por outro lado, estava com muito medo de sair sozinha. As incertezas que tinha encontrado em Camden seriam cem vezes piores em Boston, que parecia uma cidade grande e fervilhante. Como saberia para onde ir? A quem pediria ajuda, um lugar para ficar, particularmente em minha condição? De repente, senti cada pedacinho da jovem simplória e desinformada da floresta completamente fora de seu ambiente.




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