No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas



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Sinopse: No turno da noite de um hospital no estado do Maine, o Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranquila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas. Mas, no momento em que lanore McIlvrae — Lanny — entra no pronto-socorro, muda a vida dele para sempre. Uma mulher com passado e segredos misteriosos, Lanny não é como as outras pessoas que Luke conhceu. E Luke fica, inexplicavelmente, atraído por ela...mesmo sendo suspeita de assassinato. E conforme Lanny conta sua história, uma história de amor e uma traição consumada que ultrapassam tempo e mortalidade, Luke se vê totalmente seduzido. Seu relato apaixonado começa na virada do século 19 na mesma cidadezinha de St. Andrew, quando ainda era um templo puritano. Consumida, quando criança, pelo amor que sentia pelo filho do fundador da cidade, Jonathan, Lannyfará qualquer coisa para ficar com ele para sempre. Mas o preço que ela tem de pagar é alto — um laço imortal que a prende a um terrível destino por toda a eternidade. E agora, dois séculos depois, a chave para sua cura e salvação depende totalmente de seu passado. De um lado um romance histórico, de outro uma narrativa sobrenatural, Ladrão de Almas é uma história inesquecível sobre o poder do amor incondicional, não apenas para elevá-lo e sustentá-lo, mas também para cegar e destruir. E revela como cada um de nós é responsável por encontrar o próprio caminho para a redenção.


Parte Um

1

Maldito frio congelante. A respiração de Luke Findley paira no ar, quase sólida, na forma de um ninho de vespa congelado e destituído de oxigênio. Suas mãos estão pesadas sobre a direção; ele está grogue, acordou em cima da hora de fazer o percurso até o hospital para assumir o turno da noite. Os campos cobertos de neve dos dois lados da estrada são pinceladas fantasmagóricas de azul sob o luar; seus lábios azulados estão quase insensíveis pela hipotermia. A neve é tão espessa que encobre todos os vestígios de galhos espinhentos, que geralmente permeiam os campos e dão ao lugar uma falsa aparência de calma. Ele sempre se pergunta por que seus vizinhos continuam vivendo nesse ponto tão ao extremo norte do Maine; solitário e frígido, um lugar difícil para a agricultura. O inverno reina durante metade do ano, forma pilhas de neve nos parapeitos das janelas e solta lufadas de vento enregelantes sobre a plantação de batatas.



Vez ou outra alguém realmente congela e, como Luke é um dos poucos médicos da região, já presenciou a cena. Um bêbado (o que mais há em St. Andrew) pegou no sono sobre a neve e, pela manhã, havia se tornado um picolé humano. Um menino, patinando sobre o rio Allagash, caiu em um buraco que se abriu quando passou pela camada mais fina do gelo. Às vezes, o corpo é encontrado na metade do caminho para o Canadá, no encontro do rio Allagash com o rio St. John. Um caçador perde a visão por causa do reflexo da neve e não consegue sair da Floresta Great North; seu corpo é encontrado sentado, recostado em um tronco, a espingarda sobre o colo, sem uso.

— Aquilo não foi acidente, que nada! — Joe Duchesne, o xerife, disse a Luke, desgostoso, quando o corpo do caçador foi levado ao hospital. — O velho Ollie Ostergaard, ele queria mesmo morrer. Este foi o jeito dele de cometer suicídio. — Mas Luke suspeita que, caso fosse verdade, Ostergaard teria atirado na própria cabeça. Hipotermia é um processo lento de morte, dá tempo suficiente para reconsiderar qualquer decisão.

Luke estaciona a caminhonete em um lugar vazio do estacionamento do Hospital Municipal de Aroostook, desliga o motor e promete a si mesmo, mais uma vez, que se mudará de St. Andrew. Ele só tem que vender a fazenda de seus pais e, então, se mudará, ainda que não saiba exatamente para onde. Suspira, tira as chaves da ignição e se dirige à entrada da sala de emergência.

A enfermeira de plantão o cumprimenta com a cabeça enquanto Luke entra tirando as luvas. Ele pendura a parca no pequeno vestiário dos médicos e volta para a recepção. Judy diz:

— Joe ligou. Está trazendo um prisioneiro, quer que você dê uma olhada nele. Vai chegar a qualquer minuto.

— Motorista de caminhão?

Quando há problema, geralmente envolve um dos motoristas das empresas madeireiras. São famosos por ficar bêbados e provocar brigas no Blue Moon.

— Não. — Judy está absorta em algo que está fazendo no computador. A luz do monitor reflete em seus óculos bifocais.

Luke limpa a garganta querendo chamar a atenção dela.

— Quem é, então? Alguém daqui? — Luke está cansado de costurar seus vizinhos. Parece que só os desajustados, bêbados e briguentos conseguiam tolerar aquela cidade miserável. Judy tira os olhos do monitor, cotovelo plantado no quadril.

— Não. Uma mulher. E também não é daqui.

Isso é incomum. Mulheres raramente são trazidas pela polícia, exceto quando são as vítimas. De vez em quando, uma esposa da cidade é trazida após uma briga com o marido ou, no verão, uma turista pode perder o controle no Blue Moon. Mas, nessa época do ano, não há nem sinal de turistas. Algo diferente para se esperar esta noite. Ele pega uma prancheta.

— Ok. Que mais temos aqui? — Luke ouve mais ou menos enquanto Judy lista a atividade do turno anterior. Ele volta para o vestiário para esperar pelo xerife. Tinha sido uma noite bem movimentada, mas, agora, dez da noite, está tranquilo. Não consegue aguentar outro relatório sobre o casamento da filha de Judy, que está prestes a acontecer, um discurso interminável sobre o preço de vestidos de noiva, serviço de buffet e floristas.

— Diga a ela pra fugir com o noivo. — Luke disse uma vez para Judy, que o olhou como se ele tivesse declarado ser membro de uma organização terrorista.

— O casamento é o dia mais importante da vida de uma jovem — Judy respondeu em tom de zombaria. — Você não tem umvanuromântico no seu corpo. Não é à toa que Tricia se divorciou de você.

— Tricia não se divorciou de mim; eu me divorciei dela.

Ele parou de explicar, pois ninguém lhe dá atenção. Luke senta-se no sofá surrado do vestiário e tenta se distrair com um Sudoku. Mas não consegue e pensa no caminho para o hospital naquela noite, as casas pelas quais ele passara nas estradas desoladas, luzes solitárias queimando na noite. O que as pessoas fazem enfiadas em suas casas por tantas horas nas noites de inverno? Como médico da cidade, não há segredos que Luke não conheça. Ele sabe de todos os pecados: quem bate na esposa, quem tem a mão pesada com as crianças; quem bebe e termina batendo o caminhão num monte de neve; quem tem depressão crônica em razão de outro ano ruim na colheita, sem perspectiva no horizonte. As florestas de St. Andrew são escuras e cheias de segredos; lembram a Luke por que quer ir embora desta cidade: está cansado de saber os segredos dos outros e de que eles conheçam os seus.

Além disso, tem outra coisa, algo em que, ultimamente, ele pensa assim que pisa no hospital. Não faz muito tempo que sua mãe morreu e ele se lembra vividamente de quando a removeram para a chamada eufemisticamente de “ala de recuperação”, para pacientes cujo fim está tão próximo que não vale a pena removê-los para o centro de reabilitação em Fort Kent. A função cardía­ca caíra abaixo de 10% e ela lutava para respirar, a despeito da máscara de oxigênio. Ele sentou-se com ela aquela noite, sozinho, pois era tarde e os visitantes já tinham ido embora havia muito tempo. Quando ela tivera a última parada cardíaca, ele estava segurando a mão dela. Naquele momento, ela estava exausta e se mexeu só um pouquinho; então, o aperto de mão se afrouxou e ela se foi tão silenciosamente quanto um pôr do sol ao anoitecer. O alarme do monitor soou quase ao mesmo tempo em que a enfermeira de plantão entrava, mas Luke alcançou o botão do monitor e, sem pestanejar, fez sinal para a enfermeira sair. Tirou o estetoscópio do pescoço e verificou o pulso e a respiração. Ela havia partido.

A enfermeira de plantão perguntou se queria um minuto a sós e ele disse que sim. Passara a maior parte da semana na unidade de terapia intensiva com a mãe e parecia-lhe inconcebível simplesmente ir embora naquele momento. Então, sentou-se ao lado da cama e olhou para o nada, com certeza não olhou para o corpo, e tentou pensar nas providências a tomar. Ligar para os parentes; todos eram fazendeiros que viviam na parte sul do condado... Ligar para o padre Lymon na igreja católica que Luke não frequentava... Escolher um caixão... Precisava pensar em tantos detalhes... Ele sabia o que precisava ser feito, pois passara por tudo isso apenas sete meses antes, quando seu pai morrera. Mas a ideia de passar por tudo aquilo de novo era desanimadora. Era em momentos como esse que sentia mais falta de sua ex-mulher. Era muito bom poder ter Tricia, uma enfermeira, em ocasiões tão difíceis. Ela não era do tipo sentimental; era prática até mesmo diante do sofrimento.

Esse não era o momento de desejar que as coisas fossem diferentes. Agora estava sozinho e teria que administrar. Ruborizou de vergonha, sabendo que sua mãe queria que ele e Tricia ficassem juntos; quantas reprimendas ouviu por tê-la deixado ir embora. Olhou para a mulher morta, viu um reflexo de culpa.

Os olhos dela estavam abertos. Há um minuto, estavam fechados. Sentiu seu peito apertar com esperança, mesmo sabendo que isso não significava nada. Somente um impulso elétrico percorrendo os nervos no momento em que as sinapses paravam de acontecer, como um carro pipocando quando a última fumaça de gasolina passa pelo motor. Ele esticou as mãos e fechou as pálpebras dela.

Elas se abriram naturalmente uma segunda vez, como se a mãe dele estivesse acordando. Luke quase pulou para trás, mas conseguiu controlar o medo. Não, medo não, surpresa. Em vez disso, inclinou-se, colocou o estetoscópio e o pressionou sobre o peito dela. Silêncio, nenhum fluxo de sangue nas veias, nenhum vestígio de respiração. Tomou seu pulso. Sem pulso. Olhou para o relógio: já havia passado quinze minutos desde que declarara sua mãe morta. Abaixou a mão fria da mãe, incapaz de parar de observá-la. Jurava que ela estava olhando de volta, os olhos grudados nele.

E, então, a mão dela ergueu-se do lençol e o alcançou. Esticou-se em direção a ele, palma para cima, implorando para que ele a segurasse. Ele a segurou, chamou-a pelo nome, mas, assim que tocou sua mão, deixou-a cair. Estava fria e sem vida. Luke deu cinco passos para trás da cama, esfregando a mão na testa, imaginando se estava tendo alucinações. Quando se virou, os olhos dela estavam fechados e, o corpo, imóvel. Ele mal podia respirar, seu coração batia na garganta.

Levou três dias para ter coragem de falar sobre o que acontecera com outro médico. Escolhera o velho John Mueller, um clínico geral pragmático, conhecido por ajudar seu vizinho quando as vacas pariam os bezerros. Mueller olhou-o desconfiado, como se suspeitasse que Luke tivesse bebido.

— Mexer os dedos das mãos e dos pés, sim, isso acontece — ele dissera —, mas quinze minutos depois? Movimento muscoloesqueletal? — Mueller olhou para Luke novamente, como se o fato de estarem conversando sobre aquilo já fosse motivo de chacota. — Você acha que viu porque queria ver. Não queria que ela tivesse morrido.

Luke sabia que não era isso. Mas não tocaria nesse assunto de novo, pelo menos não entre médicos.

— Além disso — Mueller quisera saber —, que diferença faz? O corpo pode ter mexido um pouco; acha que ela estava tentando dizer alguma coisa a você? Acredita naquela coisa de vida após a morte?

Pensando nisso agora, quatros meses depois, Luke ainda sentia um leve calafrio percorrendo os braços de cima a baixo. Coloca o Sudoku na mesinha e passa os dedos pelos cabelos, tentando fazer a confusão ir embora com uma massagem. A porta que dá para o vestiário se abre numa fresta: é Judy.

— Joe está estacionando.

Luke sai sem a parca, para que o frio o acorde. Observa Duchesne estacionar perto do meio-fio em uma grande SUV pintada de branco e preto, uma insígnia do estado do Maine nas portas da frente e uma discreta barra luminosa grudada no teto. Luke conhece Duchesne desde garoto. Não estavam no mesmo ano escolar, mas o horário de algumas aulas coincidia na escola. Luke olhava para aquela cara parecida com um furão, de olhos pequenos e brilhantes e um nariz quase sinistro, por mais de vinte anos.

Com as mãos enfiadas debaixo das axilas, para aquecê-las, Luke observa Duchesne abrir a porta de trás e pegar o braço de uma prisioneira. Está curioso para ver a fora da lei. Talvez seja uma mulher grande, de modos masculinos, com o rosto vermelho e lábios cortados. Então, fica surpreso ao ver que a mulher é pequena e jovem. Poderia se passar por uma adolescente. Esguia e de feições infantis, com um lindo rosto e uma vasta cabeleira loura encaracolada, cabelos de querubim.

Olhando para a mulher (garota?), Luke sente uma estranha fisgada, um formigamento atrás dos olhos. Seu pulso acelera, parece que a conhece. Não sabe o nome, mas sente algo muito mais intenso. O que é? Luke dá uma olhada com olhos semicerrados, estudando-a mais de perto. Será que já a viu em algum lugar antes? Não, ele percebe que está equivocado.

Enquanto Duchesne puxa a mulher pelo braço, as mãos amarradas com algemas de plástico, uma segunda viatura de polícia estaciona e um agente, Clay Henderson, sai e acompanha a prisioneira para dentro da sala de emergência. Enquanto passam, Luke vê que a camisa da prisioneira está encharcada, manchada de preto e exala um odor conhecido de ferro e sal, o cheiro de sangue.

Duchesne anda em direção a Luke, apontando com a cabeça para o casal.

— Encontramos ela desse jeito, caminhando pela estrada em direção a Fort Kent.

— Sem casaco? Sem casaco nesse frio? Não pode estar vagando há muito tempo.

— Sim. Escute, preciso que você me diga se ela está machucada ou se posso levá-la de volta à delegacia e prendê-la.

Até onde conhecia os agentes da lei, Luke sempre suspeitara que Duchesne fosse mão pesada; já vira muitos bêbados serem trazidos com galos na cabeça ou escoriações no rosto. Essa garota, ela é só uma criança, o que poderia ter feito?

— Por que ela vai ser presa? Por não usar casaco com um frio desse?

Duchesne, desacostumado a ser motivo de piada, lança um olhar cortante a Luke.

— Esta garota é uma assassina. Ela nos disse que matou um homem a facadas e deixou o corpo na floresta.

Luke faz todos os procedimentos para examinar a prisioneira, mas mal consegue pensar por causa da estranha pulsação em sua cabeça. Acende uma pequena lanterna nos olhos dela (são do azul mais claro que já viu, como duas pedras de gelo) para ver se as pupilas estão dilatadas. Sua pele é viscosa, sua pul­sação, baixa, e a respiração, irregular.

— Ela está muito pálida — diz para Duschesne, enquanto se afastam da maca à qual a prisioneira fora amarrada pelos pulsos. — Isso significa que ela está cianótica. Está entrando em choque.

— Ela está machucada? — pergunta Duchesne, desconfiado.

— Não necessariamente. Ela pode estar em estado de trauma psicológico. Pode ser de uma briga. Talvez de lutar com esse homem que ela diz que matou. Como sabe que não foi autodefesa?

Duchesne, com as mãos na cintura, olha para a prisioneira na maca como se pudesse descobrir a verdade só de olhar para ela. Muda seu peso de um pé para o outro.

— Não sabemos de nada... ela não disse muita coisa. Pode me dizer se está ferida? Porque se ela não estiver, vou levá-la...

— Tenho que tirar a camisa, limpar o sangue...

— Ande logo. Não posso ficar aqui a noite toda. Deixei Boucher na floresta procurando pelo corpo.

Mesmo com a lua cheia, a floresta era escura e vasta, e Luke sabe que o agente Boucher tem poucas chances de encontrar, sozinho, um corpo. Luke pega na ponta de sua luva de látex.

— Então vá ajudar Boucher enquanto faço o exame...

— Não posso deixar a prisioneira aqui.

— Pelo amor de Deus! — Luke diz, balançando levemente a cabeça na direção da mulher. — Acho difícil ela me dominar e fugir. Se está tão preocupado assim, diga para o Henderson ficar. — Os dois deram uma olhada rápida para Henderson. O agente grandalhão está encostado no balcão, virando as páginas de uma antiga Sports Illustrated deixada na sala de espera, um copo de café de máquina na mão. Ele parece um urso de desenho animado e é um bonachão obtuso. — Ele não será uma grande ajuda para você na floresta... Não vai acontecer nada. — Luke disse, impaciente, dando as costas para o xerife como se o assunto já estivesse encerrado. Ele sente o olhar de Duchesne em suas costas, e este não sabe se deve argumentar com Luke. E, então, o xerife se afasta, caminhando em direção às portas de correr.

— Fique aqui com a prisioneira! — ele grita para Henderson enquanto enfia na cabeça o chapéu pesado e revestido de pele. — Vou voltar para ajudar o Boucher. O idiota não é capaz de achar o próprio traseiro nem com um mapa.

Luke e a enfermeira vão cuidar da mulher amarrada à maca. Ele levanta um par de tesouras.

— Vou precisar cortar sua camisa — avisou-a.

— Pode cortar. Está destruída — ela diz com uma voz suave e um sotaque que Luke não consegue definir de onde é. A camisa é obviamente cara, o tipo de roupa que se vê em revistas de moda e que nunca veria alguém usando em St. Andrew.

— Você não é daqui, é? — Luke pergunta, um quebra-gelo para ela relaxar.

Ela estuda seu rosto, avaliando se pode ou não confiar nele, ou pelo menos é o que Luke imagina.

Eu nasci aqui, na verdade. Há muito tempo.

Luke dá uma fungada.

— Talvez bastante tempo para você. Se tivesse nascido aqui, eu saberia. Vivo nessa região quase minha vida toda. Qual é o seu nome?

Ela não cai na armadilha.

— Você não me conhece — diz ela, sem rodeios.

Por alguns instantes, há somente o som do tecido molhado sendo cortado com dificuldade, a pontinha da tesoura se movimentando preguiçosamente pelo material encharcado. Feito isso, Luke se afasta para deixar Judy limpar a garota com gaze embebida em água morna. As manchas vermelhas de sangue se diluem, revelando um torso pálido e magro sem nenhum arranhão. A enfermeira deixa cair ruidosamente a bacia de metal com as gazes e sai apressadamente da sala de exame, como se soubesse, desde o início, que não encontrariam nada; mais uma vez, Luke tinha provado sua incompetência.

Ele desvia os olhos enquanto coloca uma folha de papel sobre o torso nu da garota.

— Teria dito que não estava ferida se tivesse perguntado — ela disse a Luke num sussurro.

— Mas não disse nada ao xerife! — Luke falou, alcançando um banquinho.

— Não. Mas teria dito a você. — Acenou com a cabeça para o médico. — Tem um cigarro? Estou morrendo de vontade de fumar.

— Me desculpe, não tenho. Eu não fumo — Luke respondeu.

A garota olha para ele, aqueles olhos azuis mapeando seu rosto.

— Você parou um tempo atrás, mas começou de novo. Não tiro sua razão, dado tudo pelo que passou ultimamente. Mas tem dois cigarros no seu jaleco, se não estou enganada.

Ele enfia a mão no bolso, por instinto, e sente o toque de papel dos cigarros bem onde os havia deixado. Foi só um golpe de sorte ou ela realmente os viu em seu bolso?

E o que ela queria dizer com “tudo pelo que passou ultimamente”? Ela está fingindo ler a mente dele, tentando entrar em sua cabeça como faria uma garota esperta que está em apuros. A verdade é que seus problemas estavam estampados em sua cara ultimamente. Ele ainda não encontrara uma maneira de consertar sua vida; seus problemas estavam todos interligados. Não sabia nem por onde começar a resolvê-los.

— É proibido fumar no prédio e, caso tenha esquecido, você está amarrada numa maca. — Luke aperta a ponteira da caneta e pega uma prancheta. — Estamos com falta de pessoal hoje, então terei que pegar algumas informações sobre você para os arquivos do hospital. Nome?

Ela observa a prancheta, hesitante.

— Prefiro não dizer.

— Por quê? É uma fugitiva? É por isso que não quer me falar o seu nome? — Ele a estuda: ela está tensa, cautelosa, mas controlada. Ele já estivera com pacientes envolvidos em mortes acidentais e, geralmente, ficavam histéricos: chorando, tremendo, gritando. Essa jovem mulher está tremendo levemente embaixo da folha de papel e mexe as pernas nervosamente, mas, pelo seu rosto, Luke pode afirmar que ela está em choque.

Da mesma forma, ele sente que ela está baixando a guarda; sente uma química entre os dois, como se ela quisesse que ele perguntasse sobre o fato terrível que acontecera na floresta.

— Quer me contar o que aconteceu esta noite? — ele diz, rolando o banquinho para mais perto da maca. — Você estava viajando de carona? Talvez tenha pegado carona com alguém, o homem da floresta... Ele atacou você, você se defendeu?

Ela suspira e pressiona a cabeça no travesseiro, olhando para o teto.

— Não foi nada disso. Nós nos conhecíamos. Viemos juntos para a cidade. Ele — ela para, gaguejando —, ele me pediu para ajudá-lo a morrer.

— Eutanásia? Ele estava morrendo? Câncer? — Luke fica desconfiado. Quem quer se matar geralmente escolhe algo silencioso e certeiro: veneno, pílulas, um motor de carro ligado na garagem fechada ou gás escapando do forno. Não pede para ser esfaqueado até a morte. Se esse amigo realmente quisesse morrer, poderia simplesmente ter ficado sentado sob as estrelas a noite toda, até congelar. Ele olha para a mulher, tremendo debaixo da folha de papel.

— Deixe-me pegar um avental do hospital e um cobertor. Você deve estar com frio.

— Obrigada — ela responde, baixando o olhar.

Ele volta com um avental de flanela desbotado de tanto lavar, cor-de-rosa, e um cobertor azul de acrílico, cheio de bolinhas, azul-bebê. Cores de maternidade. Ele olha para as mãos dela, presas à maca com amarras de plástico.

— Venha, vamos fazer uma mão de cada vez — Luke diz, desfazendo a amarra da mão mais próxima ao aparador onde os instrumentos de exames são colocados: pinças médicas, tesouras sujas de sangue, bisturi.

Como um azougue, ela agarra o bisturi, sua mão fina se fechando em volta dele. Ela aponta o bisturi para ele, olhos arregalados, narinas vermelhas e abertas.

— Vá com calma — pede Luke, levantando-se do banquinho e indo para trás, para fora do alcance do braço dela. — Tem um agente bem ali no corredor. Se eu o chamar, está tudo terminado, entende? Você não pode atingir nós dois com essa faquinha. Então, por que não coloca de lado o bisturi...

— Não o chame — pediu, mas o braço continuava esticado. — Preciso que você me escute.

— Estou escutando. — A maca está entre Luke e a porta. Ela consegue liberar a outra mão enquanto ele atravessa a sala.

— Preciso de sua ajuda. Não posso deixar que ele me prenda. Você tem que me ajudar a fugir.

— Fugir? — De repente, Luke não está preocupado que a mulher com o bisturi possa machucá-lo. Está com vergonha por ter baixado a guarda, permitindo que ela controlasse a situação. — Você está maluca? Não vou ajudar você a fugir.

— Escute...

— Você matou alguém esta noite. Você mesma disse isso.

— Não foi assassinato. Ele queria morrer, já falei a você.

— E ele quis morrer em St. Andrew, pois ele também cresceu aqui?

— Sim — ela confirmou, um pouco aliviada.

— Então me diga quem ele é. Talvez eu o conheça...

Ela balança a cabeça.

— Já falei, você não nos conhece. Ninguém daqui nos conhece.

— Não tenha tanta certeza. Talvez alguns de seus parentes... — A obstinação de Luke vem à tona quando ele está zangado.

— Minha família não vive em St. Andrew há muito, muito tempo — ela soa cansada. Então, fala secamente: — Você acha que me conhece, não é? Ok, meu nome é McIlvrae. Conhece este nome? E o homem na floresta? O nome dele é St. Andrew.

— St. Andrew, como a cidade? — Luke pergunta.

— Exatamente, como a cidade — ela responde, quase irritada.

Luke sente um borbulhar esquisito atrás de seus olhos. Não exatamente um reconhecimento... onde ele já viu este nome “McIlvrae”? Sabe que já viu ou ouviu em algum lugar, mas não se lembra de jeito nenhum.




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