Neuroanatomia e a psicoterapia existencialista



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Nivaldo Campana – Psicólogo

ncamp@uol.com.br

Dezembro/2003
SICOLOGIA EXISTENCIALISTA E NEUROANATOMIA


"A sensação que eu tenho é como se fosse um bicho feio que fosse me devorar, como se eu tivesse visto uma coisa apavorante e que vai me ceifar a vida. É esse o medo que eu tenho".
France Presse/Pressens Bild
Foi com a expressão acima que E.G., uma senhora de 53 anos, resumiu seu transtorno ao procurar ajuda no SAPSI, um serviço de atendimento psicológico da Universidade Federal de Santa Catarina oferecido à comunidade.

A psicologia existencialista é uma abordagem que prevê um trabalho na esfera interdisciplinar envolvendo diversas áreas do conhecimento humano, dependendo de cada caso. Entende que a complexidade do ser humano não pode se resumir a ponto de ser compreendida apenas dentro de uma única disciplina.


Há bases científicas que explicam a neuroanatomia do medo, assim também como há bases científicas que corroboram os métodos da psicoterapia existencialista. O objetivo de reconhecer pontos de mútua sustentação entre Psicologia Existencialista e Neuroanatomia diante de um fenômeno psicofísico é o desafio deste ensaio monográfico.

Psicologia como ciência

A primeira questão que se impõe diz respeito à possibilidade de existir uma prática psicológica que se diga científica. A Psicologia pode ser científica? Esta questão se impõe porque as diversas correntes de estudos psicológicos ainda estão presas ao paradigma cartesiano corpo/mente e isso tem desdobramentos que travam qualquer avanço de um estudo científico, principalmente pelo uso do conceito "mente". Mesmo que se entenda "mente" como aquilo que o cérebro faz, ou que a mente depende do cérebro para existir, há um impasse neste conceito quando subentende algo subjetivo e inatingível, próprio de cada pessoa. Se for assim, não há como estudar cientificamente a mente humana por tratar-se de uma entidade não-objetiva, que não está disponível no mundo para ser observada. E se não for assim, como a Psicologia Existencialista se atreve a estudar cientificamente as complicações psicológicas?


Este impasse foi resolvido graças a um novo entendimento filosófico de mundo, de homem e de consciência. Consciência aqui não é conhecimento, nem o software que supostamente se teria dentro da cabeça. Consciência se estabelece, simplesmente, em "relação a" alguma coisa do mundo. Daí que, estando fora da cabeça, estando disponível no mundo, é passível de ser verificada. Não existe consciência sozinha. Ela aparece sempre em relação a alguma coisa. E dessa relação aparecem as emoções. Portanto, emoção é resultado de uma relação que se expressa sempre através do corpo, psicofisicamente. E é por onde o homem se revela.

QUALQUER PROCESSO CIENTÍFICO


O

Os métodos usados pela psicoterapia existencialista são os mesmos utilizados por qualquer ciência. O processo científico, diante de um fenômeno a ser estudado e modificado, parte da observação sistemática e de verificações visando sua demarcação. Uma elaboração do que foi demarcado será sustentada por uma teoria já balizada que permita estabelecer um planejamento de execução visando a alteração desse fenômeno na direção em que se deseja. Por fim, a avaliação de todo o processo, que implicará a publicação dos resultados obtidos nos meios específicos.


Um fenômeno psicológico, o pânico, por exemplo, aparece como um objeto de estudo através das relações do paciente com o mundo. Algo no mundo se impõe a ele como ameaça e essa relação alterada, que constitui o fenômeno, é passível de ser modificada. Se o desencadeador do medo ocorrer por um fator interno, como veremos em Bernard Rangé, o envolvimento de processos bioquímicos irá requerer a esfera da interdisciplinaridade em áreas específicas.
processo científico



















Hipóteses biológicas e psicológicas para o Transtorno do Pânico

Bernard Rangé (1998), com mais de vinte anos de experiência atendendo pacientes com Transtorno do Pânico, sugere que há hipóteses biológicas e hipóteses psicológicas para a etiologia do pânico. Disto poderia ser inferido que, se ambas as hipóteses têm seu lado de verdade, poderia haver pacientes com preponderância na hipótese biológica e outros com preponderância na psicológica. É no continuum de uma hipótese para outra que o fenômeno ganharia status para ser verificado na esfera interdisciplinar. Ao psicólogo cabe um conhecimento mínimo de neuroanatomia, de bioquímica e de endocrinologia para avaliar o momento de pedir ajuda a outros profissionais. Cabe saber que o hipertiroidismo apresenta os mesmos sintomas observados no pânico: ansiedade, taquicardia, sudorese, dispnéia, irritabilidade, diarréia e outros. Ou, que sintomas de prolapso da válvula mitral não é um problema psicológico. Eliminada a hipótese de etiologia biológica num caso específico, pode-se trabalhar com mais segurança os fenômenos psicológicos. Para os existencialistas, a etapa do processo terapêutico que envolve a interdisciplinaridade irá ajudar na hipótese diagnóstica. Se o Transtorno do Pânico for a hipótese mais provável, sua etiologia só poderá verter de uma complicação psicológica, haja vista que é algo do mundo que apavora, ou seja, é algo oriundo da relação com o mundo, embora esteja havendo uma correspondência biológica interna para expressar psicofisicamente o pavor.

Aquilo que leva os neurocientistas, em certa medida, a negligenciarem o aspecto psicológico está fundamentado nos resultados de pesquisa em laboratório quando excitam experimentalmente certas regiões do cérebro em cobaias por meio químico ou elétrico. Simular o pânico apenas estimulando regiões do sistema límbico pode esclarecer quais regiões do cérebro estão envolvidas no fenômeno do pânico – que é importante saber – mas isso não garante sua etiologia. Nem os psicólogos podem negligenciar quais estruturas neurológicas estão envolvidas no medo, porque a destruição dessas estruturas por acidente, ou doença, poderá incapacitar a experimentação psicológica nas relações com o mundo. O grande diferencial da psicoterapia existencialista é que tais incapacidades podem ser superadas, no mínimo parcialmente, considerando a extraordinária plasticidade do sistema nervoso quando submetido às demandas nas relações com o mundo. Os neurocientistas reconhecem que "há casos de uma clara plasticidade cerebral em lesões específicas permitindo recuperação de funções perdidas no hemisfério cerebral dominante, as quais passam a ser elaboradas pelo outro hemisfério" (Norberto Cysne Coimbra – Neurocientista/USP, em entrevista). Herbert Vianna, o cantor brasileiro que sofreu grave traumatismo craniano num acidente aéreo, não teria voltado a cantar se não tivesse forçado seu cérebro a substituir as regiões lesadas através de uma obsessiva relação com a música. Ele não ficou sentado esperando que seus neurônios estabelecessem novas sinapses orquestradas apenas por seu mosaico genético.



Neuroanatomia do medo

Entender quais os possíveis circuitos neurais estão envolvidos no mecanismo saudável do medo passa a ser uma obrigação para o profissional que se proponha a investigar o pânico. É claro que há correntes psicológicas que dispensam essa necessidade por acreditarem no dualismo mente/corpo e, em decorrência, tendem a negligenciar os aspectos biológicos.


Os circuitos do medo saudável envolvem, principalmente, o complexo amigdalóide cerebral que se compõe de duas estruturas em forma de amêndoas, localizadas no centro da cabeça.

amígdalas

(central do medo)



O complexo amigdalóide funciona como uma espécie de estação que registra informações emocionais recentes. Um susto, ou uma experiência de ataque de um cão raivoso, por exemplo, fica retido, em primeira instância, nesse complexo. Com o tempo, a sensação de medo ligado a essa experiência vivida parece que se difunde pelo cérebro, conforme indícios experimentais.

Goleman (1995) faz referência a uma paciente que teve as amígdalas cerebrais destruídas por uma doença rara mas permanecendo com todas as outras estruturas intactas. Essa paciente deixou de experimentar medo, embora reconhecesse intelectualmente as ocasiões em que deveria experimentá-lo. Isso parece confirmar os experimentos nos quais o complexo amigdalóide funcionaria, em parte, como uma espécie de porta de entrada para as emoções no cérebro, principalmente depois que foi descoberto uma ligação direta do tálamo para a amígdala, um verdadeiro atalho para os sinais de perigo antes de chegarem ao córtex cerebral onde tais sinais são mais bem avaliados. Assim, ao experimentar um ataque de um cão raivoso, o complexo amigdalóide recebe parte do sinal de perigo alguns milésimos de segundos antes do córtex visual, permitindo uma reação mais rápida, embora menos precisa, tal como um salto desordenado. A maior parte do sinal de perigo que segue da retina para o córtex visual, passando pelo tálamo, é analisada e avaliada em busca de significado. A resposta ao ataque irá depender da história de vida do sujeito relacionada com cães. Poderá encarar o ataque ou sair em descabelada carreira.

Além disso, o complexo amigdalóide parece reter registros de emoções da mesma maneira que o hipocampo retém registros de significados. Por exemplo, se o contexto do ambiente onde houvera o ataque do cão pode ficar registrado temporariamente no hipocampo, a onda emocional experimentada em todo o corpo em função desse ataque estará registrada no complexo amigdalóide. A amígdala é uma estrutura adjacente ao hipocampo muito importante na memória implícita que, segundo o professor Benito Damasceno em entrevista recente, envolve reações automáticas, especialmente as reações de medo. É uma estação intermediária que processa as informações perceptivas visuais, olfativas ou auditivas, principalmente quando carregadas de valores emocionais ou afetivos para o indivíduo.









Córtex Visual


Sendo uma espécie de sentinela da experiência sensória, o complexo amigdalóide monitora sinais do tálamo, do córtex auditivo, do córtex visual, do bulbo olfativo, das papilas gustativas e mensagens das vísceras, entre outros.



Alguns sinais monitorados pelo complexo amigdalóide











área

central











área córtico-medial

Estando conectado às diversas mensagens sensórias, o complexo amigdalóide pode desencadear uma seqüência de funções. Pode ativar o locus cereleus no Tronco Cerebral aonde a noradrenalina pode ser produzida e disseminada por todo o cérebro deixando os circuitos sensórios mais sensíveis no caso de uma expectativa de medo. As respostas em larga escala do complexo amigdalóide ocorrem quando o medo deixa de ser expectativa e passa a ser efetivamente experimentado pelo sujeito: células do Tronco Cerebral são ativadas e, em decorrência, o ritmo cardíaco se acelera, aparece a expressão de medo no rosto, os movimentos ficam paralisados, a pressão do sangue se eleva, tudo isso apenas como uma parte das inúmeras mudanças organizadas pelo complexo amigdalóide numa situação de medo. O diagrama abaixo representa o fluxo de influências disparado pelo medo através de ramos neurais e descarga hormonal. O hipotálamo, por exemplo, que recebe conexões das áreas centrais do complexo amigdalóide, vai liberar hormônios que irão desencadear a corticotropina (CRH), a qual, por sua vez, irá desencadear uma avalanche de outros hormônios para a ação de lutar ou fugir.




Alguns fluxos de influências disparados pelo medo
























área basal








Sistema de movimento do cérebro



Apesar da complexidade das estruturas neurais envolvidas nas reações de medo, sabe-se que se trata de um tipo de emoção cuja origem primeira não é, obviamente, o complexo amigdalóide. O medo é algo aprendido, cultural e, portanto, de ordem psicológica. A circuitaria neural apenas dá o suporte biológico para garantir a sobrevivência evolutiva. Uma lesão na amígdala, como foi descrito por Goleman, levaria o indivíduo à passividade diante do perigo e à improvável capacidade de deixar prole por risco de vida.

Entretanto, há fenômenos de manifestação do medo incompatíveis com um perigo real. Hoje, são designados como fobias e pânico. Veremos a seguir as condições de possibilidades da ocorrência do pânico.


Psicologia do medo

Já foi dito que o medo é cultural, ou seja, é algo aprendido. Entretanto, há medos particulares, desenvolvidos unicamente por um sujeito em função de suas experiências de vida. Quando tais medos assumem proporções que começam a limitar a vida desse sujeito é hora de procurar ajuda. Foi o caso de E.G. ao procurar a Universidade Federal de Santa Catarina. Ela contou que tudo começou aos quinze anos de idade quando pensou que fosse morrer devido a um mal súbito com sintomas de aceleração cardíaca, sudorese, sensação de irrealidade, falta de ar, tontura, ansiedade aguda e medo de morrer. No hospital, os médicos verificaram que não havia nada de errado com seu organismo e atribuíram o mal-estar a uma "descarga de adrenalina", segundo a paciente. Entretanto, tais crises foram ocorrendo esporadicamente ao longo dos meses até aos seus vinte e dois anos de idade, quando cessaram de vez, ficando esquecidas durante vinte e quatro anos.

Aos quarenta e seis anos a paciente é acometida pela Síndrome de Guillain-Barré, uma doença que atinge o sistema nervoso pela degeneração da bainha de mielina dos nervos periféricos, restringindo drástica e progressivamente a motricidade. Submetida a tratamento por plasmaferese, recupera-se. Entretanto, um episódio peculiar ocorre no terceiro dia em que recebe alta do hospital. Uma vizinha lhe faz uma visita e conta que soube de um rapaz que morreu em conseqüência dessa doença, ao voltar do hospital. À noite desse mesmo dia a paciente experimenta os mesmos sintomas que há vinte quatro anos havia esquecido: palpitação, sudorese, falta de ar, sensação de irrealidade, ansiedade aguda e muito medo de morrer. Nos seis anos seguintes a paciente é acometida esporadicamente desse mal-estar até que procura ajuda profissional.
O trabalho psicoterapêutico permitiu a verificação do elenco de ocorrências objetivas na vida dessa paciente e de que maneira ela atualmente se relaciona no mundo. Sua vida de extrema carência material e afetiva desde sua mais remota infância, a violência física sofrida no ambiente doméstico, as ameaças constantes da própria sobrevivência fizeram a criança de então se reconhecer na ameaça da morte, culminando no primeiro ataque de pânico aos quinze anos de idade. Embora aos dezesseis anos tenha enfrentado sua última ameaça empunhando um facão contra o pai agressor para pôr fim àquela opressão, o processo de pânico há havia se instalado e iria atormentá-la por mais sete anos, quando já estaria sozinha enfrentando a própria sorte. Dona do seu destino, as crises de pânico desaparecem nos vinte e quatro anos seguintes. A ameaça de morte só seria reinstalada com a possibilidade concreta de morrer quando alguém lhe traz um dado concreto da realidade informando-a de que alguém já morrera da mesma doença que teve, ao voltar para casa. A incerteza de que a qualquer momento poderia morrer vai lançá-la novamente no saber-de-ser ameaçada pela morte.

Em linhas gerais, o saber-de-ser é um conceito da psicologia existencialista que define o estado no qual o indivíduo se reconhece como tal. É o núcleo da personalidade e por onde essa personalidade se alimenta e se perpetua. O processo psicoterapêutico existencialista consiste em dispor elementos para alterar o saber-de-ser do sujeito e, com isso, alterar o núcleo da própria personalidade, tendo como decorrência a alteração da maneira como esse sujeito se relaciona com as coisas do mundo. Mas não é um processo simples. Inúmeros outros conceitos são necessários para dominar tal processo, entretanto, não cabe neste pequeno espaço descrever toda a teoria que o sustenta.



Psicologia e neuroanatomia

Para os neurocientistas, qualquer comportamento humano tem um substrato neuroquímico correspondente, ou seja, os comportamentos decorrem de alterações neuroquímicas do organismo. Admitem que possa haver alterações das redes neurais por um esforço psicoterapêutico, mas, em última instância, só haveria alteração de comportamento se houver alteração de tais redes. Esse raciocínio vem da idéia de aprendizagem, onde se afirma que uma aprendizagem só ocorre em face da plasticidade cerebral quando acontece modificação das redes neurais que dão sustentação àquilo que foi aprendido.









Perspectiva dos neurocientistas


Para os existencialistas, qualquer expressão humana constitui um fenômeno e é função de um conjunto de ocorrências objetivas vivenciadas pelo sujeito, além da sua constituição física. A psicoterapia não modifica diretamente as redes neurais, mas modifica a relação da pessoa com o mundo e, em decorrência, pode modificar as redes neurais.


No processo de psicoterapia os existencialistas trabalham interdisciplinarmente também com os neurologistas para prescrição de medicamentos que funcionam como uma espécie de "bengala química". Daniela Schneider, a primeira a defender uma tese na PUC/SP sobre a viabilidade clínica da Psicoterapia Existencialista, entende que os medicamentos intervêm de forma direta nas redes neurais para controlar os sintomas, mas não alteram os fatores psicológicos que estão na base daquilo que está levando o sujeito às complicações psicológicas. Sem uma psicoterapia que altere o psicológico pode-se alterar os sintomas, mas não superar a psicopatologia. A "bengala química" serve provisoriamente para trazer o paciente em condições de ser submetido à psicoterapia.
Com efeito, iniciar o tratamento psicológico de um paciente com alto nível de ansiedade ou uma forte compulsão para suicídio sem apoio provisório de medicamentos, num consultório no décimo andar, sem grades na janela, seria acreditar demais no poder instantâneo da palavra.

Perspectiva dos existencialistas























No diagrama acima, as setas representam o fluxo de influências. As relações com o mundo refletem o saber-de-ser, isto é, todas as experiências acumuladas pelos anos de vida. Como já foi dito, o saber-de-ser é o núcleo da personalidade e não se reduz no "comportamento". Os sintomas de uma alteração das redes neurais, sejam por lesões ou por medicamentos, podem alterar o comportamento, mas não o núcleo da personalidade que foi construído ao longo do desenvolvimento. Um indivíduo que se droga tem o comportamento alterado, mas o saber-de-ser continua intacto. Passado o efeito da droga, o sujeito volta ao que era. Alterar o saber-de-ser implica considerar o fenômeno como um todo, o sujeito, sua história de vida, sua personalidade e seu saber-de-ser. Nas palavras de Pedro Bertolino, epistemologista e estudioso existencialista, "não é possível concluir nada cientificamente quando se mutila o fenômeno e, portanto, se ignora sua totalidade, sua integridade", no caso de se considerar apenas os aspectos anátomo-biológicos ou um comportamento isolado.


Afinal, haveria interesse na discussão que debate sobre as possibilidades de alterações das redes neurais causadas pelo comportamento, ou vice-versa? Não, se essa discussão ficar restrita apenas nestes dois pólos porque, como disse Bertolino, o fenômeno estaria mutilado por não levar em conta sua abrangência na qual deveria incluir a personalidade do indivíduo em questão. Sim, ao abranger o fenômeno como um todo, e daí o grande interesse quando um pensamento paradigmático cai por terra: o pensamento de que desvios comportamentais de base genética predestinam o homem a ser o que é.
Esse tipo de pensamento é notório no senso comum e reforçado pela mídia. Uma frase absurda fez a abertura da matéria em recente reportagem em rede de televisão: "Imagine que, antes mesmo de um bebê começar a falar, cientistas fizessem o mapa do cérebro dele. E descobrissem que ele pode se tornar um gênio, como o físico Albert Einstein, ou um ditador assassino como Adolph Hitler" (Rede Globo, Fantástico, 02/11/2003). Ou, como aconselha o doutor José Bento, um médico que sempre aparece na mídia dando conselhos: ingerir carboidratos para aumentar nosso bem-estar e a alegria de viver; ingerir proteínas, para ter mais vivacidade "Se você quer se sentir mais alerta coma mais proteína e menos carboidrato mas se quiser se sentir mais feliz e com prazer faça ao contrário: coma mais carboidrato pois estará estimulando a produção de triptofano, um aminoácido que vai aumentar a produção de serotonina, o neurotransmissor da satisfação" (Acesso em 02/12/2003 - http://www.drjosebento.com.br/habitos.htm).
Não questiono aqui as conclusões científicas de que os carboidratos contribuem para o aumento da serotonina no cérebro e que esse neurotransmissor esteja relacionado com o bem-estar e a alegria de viver. Também não está em discussão se as proteínas estimulam ou não a produção de noradrenalina e dopamina, relacionadas à vivacidade. O que se discute é o pensamento do senso comum fermentado pela mídia de que são as condições orgânicas do corpo que determinam as emoções, ou que o desenvolvimento neurológico é ditado pelo mosaico genético e vai determinar quem será um Hitler ou um Einstein. Nesse tipo de pensamento não há nenhuma consideração pelo contexto de vida, ou personalidade do sujeito, e nem a consideração de que os genes podem ter sua expressão alterada por fatores alheios àquilo que estaria programado. O fenômeno não está sendo considerado na sua integridade.
Outro pensamento que contribui para tal equívoco é o conceito de personalidade como fruto de herança genética. "Puxou ao pai"; "puxou ao tio"; "o neto saiu ao avô, cuspido e escarrado" são expressões do senso comum ao considerar a personalidade das crianças. Só alguns poucos entendem que as crianças têm a personalidade ainda em formação, fruto do convívio sociológico. As novelas na TV brasileira alimentam o pensamento de que há filhos ou netos de "má natureza", que desrespeitam pais ou maltratam avós, sem levar em conta que a personalidade desses filhos e netos é fruto do próprio convívio sociológico onde pais e avós contribuem para sua formação.
A história da neurologia confunde os estudiosos da área com casos espantosos de "mudança da personalidade" depois de acidentes no córtex pré-frontal, como se a personalidade fosse uma função dos arranjos sinápticos determinados apenas pelas informações do DNA. O clássico caso de Phineas Gage que se acidentou no século XIX com uma barra de ferro destruindo parte do córtex pré-frontal causou espanto por sobreviver com todas as funções cerebrais intactas, exceto sua "personalidade".


Disposição da barra de ferro em Phineas Gage – Inglaterra, séc XIX

Phineas Gage passou de um homem compenetrado a um fanfarrão. Mudou a personalidade, ou mudou o "comportamento"? A psicologia existencialista irá considerar o fenômeno na sua integridade, não apenas em um dos perfis na relação com as coisas e pessoas. Como já foi dito, personalidade não se resume num "comportamento", é algo bem mais complexo que envolve o tempo de vida do sujeito e suas relações no mundo. A destruição de uma área cerebral que dá sustentação biológica na organização dos pensamentos de convívio social não condena o sujeito a viver na marginalidade, mas requer elementos psicológicos que irão, em última instância, permitir a ação da capacidade plástica do cérebro para se recompor, ao menos em parte. Tais elementos poderão ser dispostos pela psicoterapia, assim como a obsessão de Herbert Vianna pela música o tornou capaz de tocar e cantar novamente.


O grande equívoco que se comete ao considerar o biológico como determinante da personalidade é a condenação a um estado patológico irreversível ou, quando muito, tratável eternamente com a ingestão de medicamentos de controle, pois o que se controla são os sintomas e não a raiz daquilo que está travando o sujeito na relação com o mundo. A perspectiva da psicoterapia existencialista permite nova esperança para um condenado quando ele compreende de que maneira sua personalidade pode ser alterada, e assim sua vida e suas relações.

Uma questão aberta

Apesar dos avanços científicos da neuroanatomia na identificação de sítios neurológicos e suas funções relacionadas ao fenômeno do Transtorno do Pânico, e apesar das verificações, intervenções e sucesso em seu tratamento pela abordagem da Psicoterapia Existencialista, essa questão não está fechada. Se por um lado, as pesquisas experimentais da neuroanatomia apontam também para variáveis psicológicas na constituição desse transtorno, por outro, as constatações da psicologia existencialista não descartam as variáveis anatômicas desse fenômeno, haja vista a visão de homem como corpo/consciência. Isso corrobora a necessidade da pesquisa interdisciplinar e ratifica o pensamento de que a Neurologia e a Psicologia constituem duas disciplinas que se apóiam mutuamente.


O Transtorno do Pânico com Agorafobia define aquele no qual os ataques estão relacionados a algum contexto ambiental. Se, por um lado, a neuroanatomia inclui dados bioquímicos próprios da constituição de um indivíduo específico que o mantenha no limiar do estado de alerta, por herança genética que seja, ou por disfunção degenerativa de algum núcleo neuroanatômico, por outro lado, a psicologia irá investigar a relação desse indivíduo naquele contexto que o faz ultrapassar seu limiar de alerta lançando-o no pânico.
Mas o Transtorno do Pânico sem Agorafobia, que define aquele no qual os ataques ocorrem sem qualquer relação a contextos ambientais ou situações críticas, torna-se um desafio maior. A psicologia existencialista continuará buscando alguma relação com o mundo que faz o indivíduo cristalizar alguma forma de pensamento catastrófico que o lança no pânico, entretanto, não poderá desqualificar a possibilidade de uma lesão na circuitaria neural do medo por uma degeneração qualquer no qual a neurologia se vê engalfinhada pesquisando obstinadamente, tal como já descobriu que a degeneração dos neurônios da substância nigra do sistema extrapiramidal é inviabilizante para o indivíduo no controle do repouso muscular que caracteriza o parkinsonismo.

A questão continua aberta, mas E.G., que procurou ajuda para seu Transtorno do Pânico, terá agora grandes chances de superar seu mal, desde que seu caso seja tratado cientificamente por disciplinas que não se antagonizam nem se desqualificam mutuamente, antes pelo contrário, que se apóiam como as pedras do Arco de Marco Pólo, metáfora de Bertolino para explicar que a força de sustentação de uma ponte em arco só é percebida quando consideradas todas as pedras em seu conjunto. Tirando-se uma delas a ponte desaba. Assim se mantém a ciência, apoiando-se em todas as disciplinas. Aquilo que uma delas afirma cientificamente, não há como ser refutado por outra.


Afinal, se os fenômenos do mundo não são compartimentados em disciplinas mas o são para serem estudados, não poderão sê-los na hora da intervenção científica quando necessitam ser modificados.

, em certa medida,



Referências Bibliográficas


BERTOLINO, P. Razão e ciência: o impasse. In: As emoções. Cadernos de formação. Florianópolis: NUCA, 1998.


GOLEMAN, D. Inteligência emocional. 21ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
KANDELL, E.R.; SCHWARTZ, J.H.; JESSELL, TM. Fundamentos da Neurociência e do

Comportamento. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil, 1997.
RANGÉ, B. (org.). Psicoterapia comportamental e cognitiva de transtornos psiquiátricos. Campinas: Editorial PSY, 1998.
SCHNEIDER, Daniela R. (2002). Novas Perspectivas para a Psicologia Clínica – um estudo a partir da obra “Saint Genet: comédien et martyr” de Jean-Paul Sartre. Tese de Doutorado. São Paulo: PUC. (mimeo).




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