Nelson Motta



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”Eu sou um negro gato de arrepiar e esta minha vida é mesmo de amargar, só mesmo de um telhado aos outros desacato . eu sou um negro gato!

Minha triste história vou lhes contar e depois de ouvi-la, sei que vão chorar há tempos eu não sei o que é um bom prato, eu sou um negro gato.”

Carlos Imperial está com a corda toda e não descansa. A gravação de Ronnie Von de sua ”A praça”, uma contrafação vagabunda de ”A banda” que ele marqueteava como ”marcha-jovem”, promovida febrilmente pela sua máquina pessoal de divulgação, vai ao primeiro lugar das paradas de sucessos. Apesar de denunciada e debochada pela crítica, ou talvez por isso mesmo. Com Eduardo Araújo, Imperial acerta no paladar e diverte o Brasil com o sensacional rock and roll ”Vem quente que eu estou fervendo”.

”Pode tirar seu time de campo, o meu coração é do tamanho de um trem, iguais a você eu já apanhei mais de cem, pode vir quente que eu estou fervendo.”

Parecia Ronaldo e Elis brigando. Era o contrário da delicadeza e melancolia de Chico. Segunda - ”O fino”.

Terça — ”Esta noite se improvisa”. Quarta — ”Show em Si... monal”.

Quinta — Hebe Camargo. Sexta — ”Bossaudade”. Sábado — ”Astros do disco”. Domingo — ”Jovem guarda”. Além do ”Show do dia 7”, que reunia o cast inteiro durante três horas uma vez por mês. A Record arrasava as concorrentes todas as noites no horário nobre. Mas os programas começaram a se parecer entre si: os convidados eram praticamente os mesmos em todos os shows, ficava cada vez mais difícil criar alguma coisa diferente e o público começou a se cansar dos musicais. A dupla Miele e Bôscoli conseguiu fazer umas poucas mudanças em ”O fino 67”, mas não suficientes para reacender a velha chama. Elis se renovou e se modernizou, mas o programa não, a audiência caía lenta mas inexoravelmente. ”Jovem guarda” fervia. Na esperança de uma guerra musical, a Record abriu as inscrições para o festival. Além do prêmio em dinheiro e do ”Galo de Ouro” do festival do Rio, Dory e eu ganhamos da Esso uma passagem de ida-e-volta para Nova York e US$ 500 para despesas, que davam de sobra para uma semana num hotel barato na Rua 46, para comer e para comprar discos e livros e entradas para shows. Eu já tinha ido à Europa duas vezes, uma com meus pais, percorrendo compulsoriamente museus, ruínas e monumentos em exaustiva maratona cultural, e outra solto na ”suingueing London”, na Copa do Mundo, em Paris e na Liverpool dos Beatles. Tirando a música, os Estados Unidos me interessavam muito menos do que a Europa, nos bares de Ipanema só se discutia cultura européia e se desprezava a americana, na ESDI o design e a comunicação visual americanos eram debochados como mero ”styling”. Fora a música e alguma coisa de Hemingway, Scott Fitzgerald e Faulkner, dos beats e de alguns poucos atores e diretores como Marlon Brando e Elia Kazan, eu considerava tudo deles muito inferior aos europeus: cinema, pintura, moda, teatro, literatura, política e comportamento. E mulheres. Arrogante e ignorante, só fui porque ganhei a passagem.

Assim que cheguei, procurei um amigo de meu pai, Andre Spitzman Jordan, e ele gentilmente me convidou para assistir a um show no Rainbow Room, no 65º andar do Rockeffeller Center, um grande salão art déco redondo, todo envidraçado e com Manhattan iluminada embaixo e ao redor: uma das vistas mais lindas do mundo. O show era João Gilberto, cantando e tocando violão, com Airto Moreira tocando com vassourinhas num catálogo telefônico: parecia um sonho dentro de outro dentro de outro. João estava cada vez melhor e depois do show saímos juntos os três, conversando pela rua. Feliz e animado, ele de vez em quando ensaiava uns passos de sapateado pela Quinta Avenida quase deserta, com fumaça saindo pelos bueiros. Foi minha primeira noite em Nova York.

Com um bilhete de recomendação de minha colega Silvia Ferreira para seus amigos Neville de Almeida e Jorge Mautner, que moravam em Nova York, encontrei-os no bar Figaro, no Village.

Gostei deles e de seus relatos entusiasmados sobre a cultura pop e revolucionária, me deslumbrei com a potência daquela juventude colorida e cabeluda, com o ar de liberdade política praticamente ilimitada que se respirava, com a riqueza e diversidade, com a vitalidade da metrópole: foi amor à primeira mordida. Neville estudava cinema e sobrevivia como garçom free-lancer, Mautner era tradutor na ONU e reforçava o orçamento como massagista de senhoras. No apartamento deles, na esquina de Bleecker Street com Sexta Avenida, fumei meu primeiro baseado. Duas tímidas e medrosas tragadas. E não senti nada.

Tudo ali para mim era novo, forte, inesperado. Numa loja de livros, revistas e bugigangas, cheirando a incenso de patchouli, vi as paredes cobertas de pôsteres, enormes fotos em preto-e-branco de músicos, estrelas de cinema e heróis culturais nacionais e internacionais, novidade absoluta. Eram lindos, todos, eu nunca tinha visto’nada parecido. Meu deslumbramento só foi quebrado quando ouvi um garotão cabeludo, cheio de livros debaixo do braço, chamar o vendedor e apontar para a parede, com a maior nonchalance:

— Please give me a Charlie Marx and a Freddie Engels.

”Charlie”?!? ”Freddie”?!?

Era um mundo novo de liberdade e irreverência que se abria diante dos meus olhos. No Brasil, falar em Karl Marx e em Friedrich Engels, mesmo com o maior respeito, o que era pior ainda, podia dar cadeia. Mesmo assim, inebriado pelos vapores da liberdade, comprei Num almoço com Chico num restaurante na Praça Quinze, no Centro da cidade, depois de cobrir para o JB a gravação de seu precoce depoimento histórico para o Museu da Imagem e do Som, ele me falou da música que tinha inscrito no festival da Record. Chico tinha 23 anos e parecia assustado com a ”Chicomania”: unanimidade nacional, ele vivia sob intensas e cada vez maiores pressões e expectativas, de mais e ; melhores músicas, de atitudes e declarações mais fortes. Para alguém discreto e reservado como ele, era terrível ter sua intimidade ” devassada e todos os seus menores passos fotografados e descritos todos os dias nos jornais. Era um desconforto se apresentar na televisão, um tormento fazer shows ao vivo, nervoso, bebendo, com medo de esquecer as letras, desafinar, errar no violão. Ele não dizia, mas se incomodava com a sensação de que cada um queria um pedaço dele, a televisão, as gravadoras, a imprensa, amigos e inimigos.

Mas Chico parecia esperançoso quando me cantou baixinho ”Roda-viva”, que falava em versos perfeitos e sofridos sobre tudo que ele, superstar relutante, estava vivendo. Era fortíssima concorrente:

’ ”Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu.”

Dory e eu inscrevemos ”O cantador”, a primeira letra boa de verdade que escrevi na vida. A melodia de Dory era linda, uma toada moderna e sofisticada, e melhor ainda, tinha um poderoso refrão, como era indispensável para ir ao jogo dos festivais. E melhor do que tudo, Elis aceitou nosso convite: iria cantar a nossa música.

Amanhece, preciso ir, meu caminho é sem volta e sem ninguém, eu vou pra onde a estrada levar, cantador, só sei cantar: eu canto a dor, canto a vida e a morte, canto o amor.” Antes de ir para a Europa, Edu tinha ouvido a música de Dory, ainda sem letra. Adorou, pediu para repetir várias vezes, cantava junto, não parava de elogiar. E tanto que Dory perguntou-lhe se não queria fazer a letra. Edu queria, claro, mas achava que não sabia e principalmente não devia: afinal, entre jovens compositores, as parcerias musicais tinham peso conjugal, e como éramos todos amigos não ficava bem ninguém ciscar em quintal alheio. Edu decidiu que não faria, mas não conseguia tirar da cabeça os versos que tinha imaginado para o refrão:

”Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar.”

Quando voltou de Paris, a poucos dias do encerramento das inscrições, Edu musicou esses mesmos versos e transformou-os no poderoso refrão de sua música. Construiu uma primeira parte em ritmo tenso e agalopado, com uma melodia vigorosa, e deu-a para o jovem poeta baiano José Carlos Capinam, já com o refrão pronto e com uma idéia de letra, baseada no ponteado do violão, principal característica da música. No dia seguinte, Capinam apareceu com a letra:

”Era dia, era claro, quase meio, era um canto calado sem ponteio, violência, viola, violeiro, era a morte em redor, mundo inteiro.”

”Ponteio” era uma formidável concorrente. E ainda mais com o time musical que Edu chamou para defendê-la ao seu lado: o Quarteto Novo de Hermeto Paschoal, Theo de Barros, Airto Moreira e Heraldo do Monte, a jovem e bela cantora guerreira do Teatro de Arena, Marília Medalha, os afinados e animados vocalistas cariocas do Momento 4: Maurício Maestro, David Tygel, Ricardo Villas e Zé Rodrix. Certamente estaria entre as primeiras.

Duas semanas antes do festival, no Hotel Danúbio de São Paulo, encontrei Gilberto Gil e Nana Caymmi, recém-casados, e fui para o quarto deles tomar cerveja, bater papo e saber das novidades. Quando Gil pegou o violão e me mostrou a sua canção do festival, perplexo, ouvi uma música cinematográfica, com letra e melodia trabalhadas como um filme moderno e dinâmico, com seqüências, planos, cortes, montagem: um crime passional no parque de diversões tratado com linguagem fragmentada e moderníssima. Fiquei chocado: de todas as concorrentes que eu conhecia, inclusive a nossa, ”Domingo no parque” era a mais moderna, mais audaciosa, a de que eu mais gostava.

Caetano dividiu com Gal Costa um lindíssimo Lp na Philips, que achava que eles ainda não mereciam Lps individuais e deu meio disco, seis faixas para cada um. Mas em nenhuma eles cantavam juntos. Dory produziu e fez alguns arranjos, Francis Hime outros, conhecemos as novas músicas de Caetano como ”Avarandado” e ”Remelexo”, Gal gravou gilbertianamente músicas lindíssimas de Edu, Sidney Miller, Caetano e Gil. O disco não teve repercussão popular, mas entre nós foi um grande acontecimento de novidade e bom gosto. Para o povão e as torcidas da TV Record, Caetano começava a ficar conhecido e querido por sua memória e simpatia no ”Esta noite se improvisa”. Uma tarde, no escritório de Guilherme Araújo, em Copacabana, ele me falou alegre e entusiasmado sobre a sua música do festival:

”Alegria, alegria”. Mas a poderosa letra modernista de Caetano não falava em alegria em nenhum momento: era sobre liberdade.

”Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, no sol de quase dezembro eu vou.”

Até Erasmo Carlos concorreu, com ”Capoeirada”, uma tentativa nacionalista totalmente fora de seu estilo, impiedosamente vaiada nas eliminatórias, onde o nível das músicas era extraordinário: nunca um festival tinha reunido tantas músicas tão boas. E um público tão feroz. Um belíssimo samba-canção de Johnny Alf, ”Eu e a brisa”, que se tornaria um grande clássico da MPB, foi vaiado e não chegou à final. Nem uma bonita canção de Gil e Nana, ”Bom dia”, cantada impecavelmente por ela com um quarteto de cordas e arrasada pelas vaias. Nos bastidores, Wilson Simonal sabe que não tem chances e se diverte com o nervosismo dos concorrentes sérios, aterrorizados com o clima de guerra. De conjunto safari, botas militares e boina, se preparando para defender a marchinha ”Belinha”, de Toquinho e Vitor Martins, o Simona beberica um uísque e explica seu bizarro figurino ao microfone da repórter Cidinha Campos:

”É um modelo no estilo ’guerrilheiro’”, faz uma pausa e uma expressão pilantra e completa:

”Guerrilheiro Pierre Cardin, naturalmente.”

Entra no palco vaiado e sorridente, manda beijos para o público, que se diverte com sua música inofensiva e com o ritmo de pilantragem do Som Três e sai aplaudido.

Com o sucesso de ”Disparada”, Geraldo Vandré disparou para o sucesso e tornou-se o mais popular e festejado representante da esquerda musical no Brasil. Com seus olhos verdes e suas letras inflamadas, era um ídolo dos estudantes paulistas e encarnava os seus ideais revolucionários socialistas e nacionalistas. No festival, Vandré veio com ”Ventania”, cantando em versos épicos as aventuras de um caminhoneiro. O boiadeiro se motorizava, mas a música estava longe da qualidade e do impacto de ”Disparada”, soava antiga diante das novidades de Edu, Chico, Gil e Caetano. Para a apresentação, Vandré preparou uma grande produção, com vários participantes e a introdução da música tocada por várias buzinas de caminhão, em acordes. Em vão: nas eliminatórias, o público se dividiu entre vaias e aplausos e viu-se que aquele caminhão tinha pouca areia e não ia a lugar algum. Restava aos fanáticos vandresistas vaiar todas as outras.

Na noite da grande final o ar estava elétrico e os ânimos exaltados, as torcidas gritavam sem parar, aplaudiam seus favoritos e vaiavam os adversários, num clima de final de campeonato: pelo menos metade das doze finalistas tinha chances reais de ser a vencedora. Quando Caetano entrou no palco para cantar ”Alegria, alegria” com os Beat Boys, uma banda de rock — e de argentinos —, foi uma gritaria infernal. Traição! Adesão! Oportunismo!, gritavam nacionalistas exaltados: Caetano estava trocando a ”música brasileira”pela ”música jovem”. Mas ele não estava trocando, estava tentando integrar. Sua música era só uma marcha leve e alegre, com uma letra caleidoscópica e libertária. Os três acordes da introdução gritados pelas guitarras eram quase tudo que tinha de rock.

Mas eram mais do que suficientes. Somente a presença cabeluda e elétrica dos rockers argentinos já seria para caracterizar a provocação.

Quando ele começou a cantar, mais gente vaiava do que aplaudia, o que era injusto mas de certa forma animador para os concorrentes, como eu. Eu jamais vaiaria um colega, mas no calor da competição não me incomodava muito que outros vaiassem.

Longe das melhores de Caetano, a música era simples, tinha a sua graça, mas sua força era a letra e principalmente a atitude de Caetano, a potência e simpatia de sua performance, que foram aos poucos ganhando o público e transformando vaias em aplausos.

Foi tão arrebatador esse ato de talento e de poder que comecei também a aplaudir entusiasticamente o concorrente, quase contra a minha vontade. Mas era irresistível. Caetano saiu do palco consagrado e a luta pelo ”Berimbau de ouro” ficava mais dura.

Chegamos à final entre as favoritas, credenciados por uma performance sensacional de Elis nas eliminatórias, dominando as tentativas de vaia com a potência de sua voz, impondo a beleza da música e saindo do palco sob aplausos consagradores. Já na noite final, com o ambiente muito mais carregado e agressivo, Elis se irritou com as vaias, se perturbou e, embora cantando bem, não brilhou tanto quanto na eliminatória e abalou minha certeza de que estaríamos entre os primeiros.

Mas o pior ainda estava para acontecer.

Antes mesmo de Sérgio Ricardo entrar para cantar seu samba ”Beto bom de bola”, o público começou a vaiar maciçamente. A música já tinha se classificado sob vaias nas eliminatórias, decididamente aquele público a detestava. E vaiava. Sérgio pedia para começar. Vaiavam mais alto.

Alguns aplaudiam, o que atrapalhava ainda mais. Sérgio não conseguia ouvir a orquestra e nem a própria voz. Começa a cantar, sai do tom, procura a orquestra, pára. A vaia cresce selvagem. Tenta começar de novo, vai aos trancos e barrancos, dramaticamente misturando sua voz trêmula à confusão sonora da orquestra, os músicos param de tocar, ele segue em desesperador ”a capella” no meio de uma vaia ensurdecedora, tentando contar a história de um jogador de futebol explorado. Pára de cantar e, com os olhos fuzilando de fogo e lágrimas, arrebenta o violão contra o palco, no que se tornaria um número clássico de guitarristas de rock como Jimi Hendrix e Pete Townshend.

”Vocês ganharam! Vocês ganharam! Isso é o Brasil subdesenvolvido! Vocês são uns animais!”, grita furioso no microfone e joga o violão despedaçado no público, antecipando em uma década o que seria um dos atos rebeldes favoritos de bandas punk como os Sex Pistols.

Sérgio, nacionalista e socialista radical, não sabia que estava fazendo história. Do rock.

Assim que Sérgio saiu do palco, o apresentador Blota Júnior anunciou que a música tinha sido desclassificada e chamou a próxima concorrente. Nos bastidores do circo romano, Edu, Marília, o Momento 4 e os músicos, ainda chocados com os dramáticos acontecimentos, foram empurrados para o palco, enquanto o público ainda vaiava e o auditório parecia que ia explodir. Foram recebidos com aplausos ensurdecedores, o público estava aliviado e se sentia vitorioso na guerra contra ”Beto bom de bola”. Fizeram uma apresentação empolgante e saíram do palco ovacionados e aos gritos de ”já ganhou”.

Apoiado pelo MPB 4, Chico faz uma sóbria mas poderosa apresentação de ”Roda-viva” e também sai ovacionado. É adorado pelo público e vai pras cabeças, com certeza.

Se ouvida só com violão a música de Gil já era um espanto, imaginem com um sensacional arranjo de orquestra de Rogério Duprat à maneira dos que George Martin fazia para os Beatles, com berimbaus e atabaques se misturando aos sons elétricos de Arnaldo, Sérgio e Rita Lee, Os Mutantes, pela primeira vez diante do grande público, recebidos com vaias estrepitosas e aplausos estrondosos.

Com toda a polêmica que incendiou, com aquela música e aquela letra, aquele arranjo, aqueles meninos cabeludos que tocavam muito bem, aquela lourinha maravilhosa que balançava os cabelos de seda e tocava pratos, tudo conspirava a favor de ”Domingo no parque”.

Aplaudi entusiasticamente e achei que Gil ganharia. E merecia: tinha dado um grande, audacioso passo adiante, tinha virado a mesa e criado nova beleza.

De smoking, Roberto Carlos enfrenta as vaias com altivez e simpatia e canta com grande competência e discreta emoção o samba lento ”Maria, carnaval e cinzas”, do paulista Luiz Carlos Paraná.

Sai do palco muito aplaudido e para muitos é o melhor intérprete da noite.

Mas quando foi anunciado o prêmio de ”melhor intérprete” para Elis Regina, entendi que nossa música estava fora e fiz força para não chorar. Muita gente chorou quando foi anunciada a premiação:

”Alegria, alegria” foi quarto lugar, ”Roda-viva”, terceiro, ”Domingo no parque”, segundo e ”Ponteio”, a grande vencedora do ”Berimbau de Ouro” de 1967, aplaudidíssima. Se Edu tivesse feito a letra para a música de Dory, certamente não estaria ali. Perguntado por uma rádio sobre qual a sua preferida, Edu foi sincero e elegante: ”O cantador”.

Mas Gil e Caetano saíam do festival mais vitoriosos ainda. A música brasileira nunca mais seria a mesma depois daquela noite.

No dia seguinte, em São Paulo, um jornal de crimes noticiava a final do festival em histórica manchete: ”Violada no auditório”. Passada a euforia inicial I pela conquista do ”Berimbau de ouro” e o alívio pelo fim das tensões, Edu Lobo fez o circuito triunfal dos musicais da Record, assinou novo contrato com Marcos Lázaro na capota de um carro na Rua da Consolação, ouviu sua música maciçamente tocada pelas rádios e aos 24 anos estava consagrado. Mas se descobriu vazio e decepcionado: afinal, para que tanto esforço e tanta vontade de ganhar, tanto sofrimento e ansiedade? Edu acreditava, como outros românticos, no festival como uma competição de excelência musical, que não podia ser uma guerra de popularidade, com o público escolhendo as melhores, como nos programas de auditório.

Depois das vaias, dos medos, das humilhações, de tudo o que aconteceu, depois da vitória, Edu começou a achar que os festivais estavam se tornando corridas de ratos, com gravadoras e televisões e empresários apostando em seus ”cavalos”, estimulando a competitividade sem limites entre os compositores e gerando inveja, animosidade e ressentimento. Um circo romano para diversão do povo, na falta de maiores liberdades políticas. Chocado e desiludido, Edu inscreveu no II Festival Internacional, no Rio, a música mais triste, complexa e chata que já tinha feito, uma parceria com Ruy Guerra com o sugestivo título de ”Maré morta”. Esperava ser vaiado, queria ser vaiado, encomendou ao maestro Chiquinho de Moraes um arranjo de orquestra denso e sombrio: só a introdução da música tinha quase um minuto e o povo já começava a vaiar antes do canto. Edu sentia, estranhamente, uma espécie de conforto.

Em São Paulo, muito pelo contrário, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Guilherme Araújo comemoravam: deflagrada por eles, por sua audácia e criatividade, por seu sentido de oportunidade, estava em curso uma revolução dentro da música brasileira. Os prêmios interessavam menos: eles viam o festival como o evento e o momento ideal para a apresentação de sua nova maneira de fazer música brasileira. Depois dos Beatles e dos Rolling Stones, de Jimi Hendrix e Janis Joplin, o mundo musical não era o mesmo. Em Londres e na Califórnia, em Paris e em Nova York, o mundo estava pegando fogo, os jovens estavam começando uma revolução movida a sexo, drogas e rock and roll. A música brasileira, por melhor que fosse, não poderia continuar a mesma. E nem o país, cada vez mais fechado ao exterior pela paranóia dos militares com as idéias subversivas, que eram justamente o que mais interessava aos jovens rebeldes brasileiros. E a Caetano e Gil, que estavam subvertendo a música brasileira e fazendo um som elétrico e contemporâneo, popular e provocativo: um ”som universal”.

Reconhecendo a importância e vitalidade da jovem guarda e sua genuína identificação com a juventude, Caetano e Gil estabeleceram uma aliança com os ex-inimigos, que eram vistos e ouvidos como ”alienados e colonizados” pelas esquerdas musicais. Mesmo sendo um grande sucesso popular, à jovem guarda faltava ainda o prestígio e o reconhecimento de artistas mais ”culturais”.

Caetano e Gil valorizaram a jovem guarda e romperam com o que consideravam a ditadura do ”bom gosto” de classe média, com a estética stalinista da ”esquerda nacionalista”, o isolamento internacional, o nacionalismo musical, o saudosismo bossa-novista. Caetano e Gil integram a ”música brasileira” e a ”música jovem” e deflagram a mais furibunda polêmica musical nacional desde Noel Rosa e Wilson Batista.

Na televisão, fui ardoroso defensor de Gil, Caetano e do ”som universal” contra a fúria conservadora, nacionalista e provinciana dos jurados de ”Um instante maestro”. Como o programa de Flávio Cavalcanti era o único júri musical da televisão e a final do festival tinha sido tão polêmica, era grande a expectativa pelo que diriam aqueles que o público acreditava serem os ”especialistas”.

No programa, alguns jurados lamentaram paternalmente o desvio oportunista de tão promissores talentos e outros os acusaram agressivamente de traidores e mistificadores e daí para baixo; eu defendi a honestidade e generosidade das intenções deles, celebrei entusiasticamente a novidade, sua liberdade, suas possibilidades.

Votei publicamente em ”Domingo no parque” como a melhor música. Mas também elogiei Edu, Chico e Sidney Miller. No calor dos debates, por um breve momento, me dei conta de estar ao mesmo tempo saindo de um festival, recém-julgado por um júri e pelo público, e estar ali julgando os meus amigos e competidores, diante das vaias e aplausos do auditório.

Uma tarde de sábado estávamos vendo televisão na cobertura de Ronaldo, com Elis, Miele, Wanda Sá, Hugo Carvana, Paulo Garcez e outros amigos e, como fazíamos muitas vezes e era divertidíssimo, escolhíamos o pior dentro do pior, que é a programação de sábado à tarde. E entre as piores, nossa favorita era a TV Continental, de absoluta precariedade técnica e artística, paupérrima, onde os cenários desabavam, onde em preto-e-branco todo mundo parecia mulato porque as luzes eram fracas e parcas, lâmpadas explodiam ao vivo, os atores esqueciam as falas.

Mas naquela tarde tivemos uma surpresa: no vídeo da Continental, um grupo de jovens cantava e tocava músicas alegres, engraçadas e românticas. E havia neles um entusiasmo, uma simpatia e um talento que nos encantaram.

A Ronaldo especialmente. O ”Véio” se lembrava dele mesmo quando jovem no início da bossa nova.

Os garotos do Grupo Manifesto — Guto Graça Mello, Mariozinho Rocha, Gracinha Leporace e outros — receberam no ar, ao vivo, um telefonema que pensaram que era trote. Mas quando aquela voz grave, potente, cristalina, repetiu seu nome ao telefone, era impossível ser uma imitação: Elis elogiou todo mundo, pediu para mandarem músicas para ela, para seguirem em frente. Depois Ronaldo falou, falamos todos, como fãs, entusiasmados com o frescor e a alegria da garotada.




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