Nelson Motta



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Embora a minha primeira vez com os Beatles tenha sido uma decepção.

Quando chegaram as imagens deles ao Brasil, em 1963, de cara não simpatizei muito com aquelas franjinhas e aqueles terninhos, achei meio ridículo. Mas estava louco para ouvir a música deles, estávamos todos: o disco era mais que um sucesso, era uma comoção mundial, uma nova onda musical. No meu apartamento da Rua Paissandu, ouvimos pela primeira vez ”She Loves You”.

Quando a música terminou, silêncio total.

Mas era só aquilo? Uma musiquinha boba, com uma letrinha bobíssima, um ritmo quadrado: o que havia de tanta novidade naquilo?

Shakespearianamente concluí que era ”much ado about nothing”, muito barulho por nada.

Quando saiu o primeiro Lp, com ”Love Me Do”, dei uma ouvida desinteressada mas continuei achando a música pobre e as letras bobas. Ninguém que eu conhecia gostava dos Beatles, só as garotinhas da praia e Carlos Imperial e suas platéias suburbanas. Mas quando fui, com Edu Lobo, ver o filme Os reis do iê-iê-iê (A Hard Day’s Night), saímos do cinema completamente seduzidos por suas personalidades e humor, pela atitude rebelde e irreverente, pelo ritmo vertiginoso e as imagens sofisticadas de Richard Lester.

Depois do filme, até as músicas deles pareciam melhores. E talvez ”Cant Buy Me Love”, ”A Hard Day’s Night” e especialmente ”And I Love Her” fossem mesmo muito melhores.

Em 1965 vi Help em Londres, num imenso cinema em Picadilly Circus, e saí em êxtase, absolutamente conquistado. Foi um dos pontos altos da viagem. Três meses depois, o filme entrou em cartaz no Rio e assisti pelo menos mais umas dez vezes, vários dias seguidos. Adorava os diálogos, as gags, as músicas, os vilões, as roupas, as cores psicodélicas, tudo ali era alegre e divertido, tudo parecia novo e jovem. Na ESDI costumávamos até brincar entre nós, perguntando com afetada casualidade:

”Você já viu Help hoje?”

Numa das incontáveis festas no apartamento de Olivia Leuenroth, no Morro da Viúva, o irmão de Bethânia apareceu, tocou e cantou e ouvimos pela primeira vez sua nova música ”Quem me dera”, que deixou todo mundo maravilhado e teve que ser repetida muitas vezes, até que todos aprendessem a melodia, a letra e os acordes do violão.

”De madrugada, Quando o sol cai dendágua Vou mandar te buscar.

Ai quem me dera Voltar quem me dera um dia Meu Deus não tenho alegria Bahia no coração...”

Ele estava louco para voltar para Salvador, não estava gostando nada daquela vida no Rio como acompanhante da irmã. Caetano foi paparicadíssimo por todo mundo e eu me encantei com ele, que também adorava João Gilberto. Conversamos um pouco sobre cinema, Fellini, nouvelle vague, Cinema Novo, Godard, Bunuel, e me surpreendi secretamente que aquele rapaz daquela distantíssima Salvador e de uma inconcebível Santo Amaro da Purificação tivesse visto os mesmos filmes que eu via no Paissandu e na Cinemateca do MAM e na Europa e falasse deles com tanta intimidade e desenvoltura. E me dei conta de que, há pouco tempo, quando eu conversava animadamente sobre cinema e música com um jovem recém-amigo inglês num pub de Londres, ele deve ter pensado a mesma coisa.

”Aldeia global” era um conceito muito recente e muito teórico de Marshall MacLuhan, formulado no livro The Media is the Massage, que não tinha a ver com massagem mas era um trocadilho com Mass Age, a idade da cultura de massa, a era das comunicações, o império da mídia, onde o veículo era a mensagem. As teses eram polêmicas e incendiaram discussões na ESDI, onde foram promovidas várias palestras sobre o palpitante tema.

Chegaria mesmo o dia em que o mundo seria uma aldeia global?

Em São Paulo, era guerra total. E a jovem guarda estava ganhando.

O festival da Record seria uma grande oportunidade para a ”música brasileira” reagir e mostrar suas novidades e qualidades.

O pessoal da jovem guarda nem ousou inscrever suas músicas.

No auditório, desde as primeiras eliminatórias, se organizaram as torcidas, como as torcidas organizadas de futebol. Com faixas, bandeiras, gritos e palavras de ordem. Torciam mais por seus ídolos do que pelas músicas que eles cantavam: os torcedores de Elis odiavam Roberto e os de Roberto vaiavam Elis, os fãs de Nara vaiavam Jair Rodrigues, os de Vandré vaiavam todos os outros. Parecia que as torcidas tinham mais prazer em vaiar os adversários do que aplaudir seus ídolos. Dois anos de repressão política, prisões, cassações, censura levavam para os auditórios de televisão uma ânsia imensa de participar, de criticar e de escolher.

Nas eliminatórias, duas músicas saíram consagradas. A primeira era uma moda de viola estilizada, com uma letra de ritmo e sonoridade vibrantes, metaforizando as lutas de um boiadeiro contra o dono da boiada; a outra, uma marchinha lírica, na melhor tradição brasileira, feita de delicadeza e desencanto, sobre a magia de uma música que passa pela rua e sua alegria fugaz.

”Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré, e ”A banda”, de Chico Buarque, chegaram à final como Vasco e Flamengo, como Grêmio e Internacional, como Atlético e Cruzeiro.

Chico tinha 22 anos e músicas como ”Pedro pedreiro” (penseiro, esperando trem que já vem, que já vem, que já vem), ”A Rita” (que levou seus planos, seus pobres enganos, os seus vinte anos e seu coração), ”Morena dos olhos d’agua” e outras de uma primeira safra excepcional, que revelavam um extraordinário talento de compositor. Suas músicas tocavam no rádio, nas festas, nas ruas e ele aparecia com freqüência nos musicais da Record e nos shows nas universidades. As meninas iam à loucura. Nara foi a primeira a gravar várias músicas de Chico, tornou-se sua intérprete e amiga, sua parceira de sucessos. Vandré era alguns anos mais velho, paraibano, ligado a Carlos Lyra (com quem fez ”Quem quiser encontrar o amor”) e ao Centro Popular de Cultura do Rio. O grosso da torcida de Vandré era político, engajado, de participação; mas boa parte era de meninas que se encantavam com o seu charme agreste e com os seus olhos, verdes como os de Chico.

Pela primeira vez o festival foi transmitido direto de São Paulo para o Rio, onde também ”A banda” e ”Disparada” dividiam as opiniões e as paixões. E geravam até apostas em dinheiro.

Na noite da final, o auditório explodia, como num estádio de futebol. Quando ”A banda” e ”Disparada” foram apresentadas e fizeram o público delirar com igual intensidade, todo mundo sabia que a vencedora seria uma das duas. As outras, como um belíssimo samba do novo compositor carioca Paulinho da Viola com letra do baiano José Carlos Capinam, ”Canção de Maria”, teriam que se contentar com os prêmios menores.

Irritada com as vaias e provocações das torcidas adversárias, Elis cantou mal nas eliminatórias, se descontrolou, ficou furiosa, desafiou o público, e não se classificou para a final com a música de Edu Lobo, ”Jogo de roda”. A outra música que defendia, o samba ”Ensaio geral”, de Gilberto Gil, um novo baiano talentoso, de quem ela já tinha gravado ”Lunik 9”, terminou em quinto lugar.

Roberto Carlos, de smoking, enfrentou as vaias com coragem e segurança e cantou maravilhosamente bem uma canção dificílima de Beto Rushel, construída com harmonias complexas e dissonantes, como era do gosto mais sofisticado. Roberto interpretou com emoção e precisão e valorizou uma letra apaixonada de Renato Teixeira, cheia de dubiedades amorosas: um rapaz declarando seu amor para sua bela madrasta.

Foi premiado pelo júri como ”melhor intérprete”.

Theo e Vandré montaram um poderoso trio para acompanhar o popularíssimo Jair Rodrigues em ”Disparada”, com Airto Moreira na percussão, Heraldo do Monte na viola caipira, além do próprio Theo, uma fera no violão: o Trio Novo. Jair, parceiro de Elis em ”O fino da bossa”, era um negro sorridente, sambista alegre e brincalhão, que divertia o público plantando bananeira no palco e batendo palmas como uma foca. Jair cantava bem, tinha ótima voz, era bonito e simpático. Mas, até então, não era considerado ”sério”.

”Disparada” era sua oportunidade de se afirmar como um intérprete de primeira linha. De blazer vermelho e gravata, olhando duro nos olhos do público, Jair levou a sério: foi forte e empolgante em sua interpretação e levantou o auditório.

Chico e Nara eram muito tímidos, cantavam tensos e parados, pareciam pouco adequados para incendiar a jovem platéia.

Mas provocaram uma reação explosiva quando apresentaram ”A banda” pela primeira vez: era irresistível a combinação de música e letra, ritmo e melodia, simplicidade e sofisticação, passado e presente.

Cheios de graça e juventude, acompanhados por uma bandinha e pelo auditório em coro, Chico e Nara saíram do palco consagrados: seria impossível derrotar tão poderosa paixão popular.

Assim também pensavam os autores, intérpretes e fãs de ”Disparada”.

Paulinho Machado de Carvalho, dono da televisão, e Solano Ribeiro, diretor do festival, estavam felizes. Mas começaram a ficar preocupados. O júri também.

Os ânimos estavam exaltados na platéia, nos bastidores e nos camarins. A temperatura esquentava enquanto o júri deliberava.

Diz a lenda que ”A banda” ganhou por um voto na apuração do júri. Ou teria sido ”Disparada”? E que Solano ficou furioso quando Paulinho Machado de Carvalho, o dono da casa, sabiamente decretou o empate oficial, dobrando o prêmio e fazendo explodir o auditório. Era o único resultado possível: dar o prêmio a qualquer das duas músicas enfureceria metade do público e provocaria um quebraquebra.

Afinal, não era uma guerra: era só um festival.

”A banda” e ”Disparada” se tornaram estrondosos sucessos nacionais, e Chico Buarque virou a estrela do momento.

”Na boiada já fui boi, mas um dia me montei (...)

(...) agora sou cavaleiro, laço firme e braço forte, num reino que não tem rei.” ”E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois da banda passar cantando coisas de amor.”

Uma moda de viola e uma marchinha, estilizadas, sofisticadas, populares, dividiam o gosto musical do país. Nos dias seguintes ao festival, discutia-se acaloradamente nas esquinas e nos botecos:

”A banda” ou ”Disparada”? Havia um jeito-banda de ser, como havia um jeito-disparada. Os mais líricos, mais românticos, as mulheres, os cariocas preferiam ”A banda”, os mais políticos, mais agressivos, os homens, os paulistas gostavam mais de ”Disparada”.

”A banda” vendeu mais de 100 mil discos em uma semana, se transformou num dos maiores sucessos brasileiros de todos os tempos e foi gravada no mundo inteiro: Chico Buarque virou uma paixão nacional, uma unanimidade. Quase uma obsessão.

O Brasil se apaixonou por suas músicas e letras, por seus olhos e sua timidez, por seu brilho seco e sua inteligência emocionada.

Se encantou até com um certo desconforto de sua figura na tela da TV: o que para ele era pura tensão, inspirava tesão, tanto físico como intelectual em homens e mulheres de todas as idades.

Jovem e bonito, culto e carismático, talentosíssimo, ele reunia todas as qualidades certas, na pessoa certa, no momento certo: sua poesia ágil e moderna, com sólidas raízes no Brasil, unia o popular e o sofisticado em suas harmonias e melodias, avançava pelos caminhos abertos por Tom, Vinícius e João, ídolos máximos do novo ídolo brasileiro.

Era a resposta da ”música brasileira” à ”música jovem”. Seria ele, o cruzado de violão, a enfrentar as guitarras dos infiéis com seu talento e sua juventude. Só que ele não sabia. E nem queria. O”Seis em ponto” teve fim natural , rápido e indolor. Comecei a fazer letras para as belas e complexas melodias do amigo Dory Caymmi. De aparência muito séria, com bigode e óculos, cara fechada, Dory também era um falso rabugento, um baiano amoroso e desabusado que divertia a turma com seu espírito crítico e seu humor apimentado. Mas principalmente com o violão que tocava. Numa de nossas festinhas, Dory conheceu Ana Beatriz, prima de minha namorada Heleninha, que falava como uma metralhadora e era do tipo animada à beça. Discutiram a festa inteira. No dia seguinte e nos subseqüentes, Dory fez questão de reclamar de Ana Beatriz. Ela também se queixou dele para todas as amigas, incessantemente. Festa após festa, Dory e Ana Beatriz discutiam e brigavam e falavam mal um do outro. E tanto que começamos a desconfiar: pouco depois estavam apaixonados e casados.

Como toda a turma, Dory e eu tínhamos inscrito nossas músicas no festival da Record e também no novo Festival Internacional da Canção.

Com a nossa boa e velha ”Saveiros”, recusada no festival paulista, nos classificamos entre as 36 finalistas do festival carioca, que seriam apresentadas no Maracanãzinho em três eliminatórias e uma final. A novidade era que a música brasileira vencedora disputaria uma finalíssima com concorrentes do mundo inteiro em disputa do ”Galo de ouro”. O prêmio era uma fortuna: dava para comprar um fusca e meio.

Mas alguns não deram importância ao novo festival. Chico Buarque não inscreveu música mas, como a nova unanimidade nacional, não escapou: foi convocado para o júri. Roberto Menescal também. Edu Lobo inscreveu e classificou a melhor música que já tinha feito, ”Canto triste”, com bela letra de Vinícius, que seria cantada por uma Elis Regina apaixonada e recém-saída das vaias e confrontos com o público no festival da Record. Nós já conhecíamos a música de Edu, era lindíssima, e ainda mais cantada por Elis, mordida pelas vaias paulistas. Dory escolheu sua irmã Nana, recém-chegada da Venezuela e recém-saída de um casamento, para cantar nossa música. Minha preferência inicial era Elis, mas gostei da idéia porque adorava a voz de Nana desde as primeiras vezes que, adolescente, a ouvi cantando nas festinhas de bossa nova no apartamento de meus pais.

Os ensaios foram no auditório da TV Rio, no Posto Seis, em Copacabana. Grande orquestra, correria, nervosismo, concorrentes e imprensa teriam uma prévia das músicas. À medida que iam sendo ensaiadas as canções, aumentava a minha ansiedade, mas cresciam minhas esperanças: eram quase todas fraquíssimas, de um nível muito inferior às músicas que disputaram o festival da Record.

Elis estava séria, emburrada, pelos cantos, não queria falar com ninguém, me cumprimentou secamente e respondeu monossilabicamente às perguntas da imprensa. Dura e tensa, entrou no palco para ensaiar ”Canto triste” com orquestra. O grandioso arranjo de cordas escrito por Luiz Eça, a beleza da linha melódica e das seqüências harmônicas, a letra emocionada de Vinícius e a interpretação arrebatadora de Elis, mesmo num ensaio, me trouxeram a certeza de ser esta a nossa grande concorrente. Olhei para Dory e não falei nada. Nem precisava. Uma de minhas esperanças secretas era que, embora belíssima, a música era difícil às primeiras audições, era sofisticadíssima, dificílima de cantar. Mas principalmente, como seu título dizia, era triste. E essas coisas não combinavam muito com o clima dos festivais, principalmente depois do que tinha acontecido em São Paulo. E, afinal, Edu já tinha ganho com ”Arrastão”.

Minhas esperanças cresceram quando ouvi Nana cantando ”Saveiros” na frente da orquestra regida pelo maestro Lindolpho Gaya, que tinha escrito um arranjo poderoso, reproduzindo com o naipe de metais da orquestra o balanço que Dory fazia nos baixos do violão e dando um ritmo ondulante à canção. A voz grave e marítima de Nana navegava por essas ondas sonoras, que iam e vinham e cresciam sempre, explodindo num final grandioso. Quando Nana terminou de cantar, todos que estavam ali, músicos, imprensa e concorrentes, explodiram em aplausos.

Depois de algumas músicas, felizmente fracas, outra bonita, muito bonita, levemente ameaçadora:

”Minha senhora”. Com letra lírica e amorosa de Torquato Neto, a música de Gilberto Gil era uma bossa nova ultracool, com sabor nordestino, que servia como uma luva para a voz afinadíssima de Maria da Graça, uma baianinha timidíssima, que morava no Solar da Fossa e cantava docemente, como um João Gilberto de seios. Tudo ali era bonito, a voz e as palavras, a melodia e o arranjo, tudo era suave, elegante, "gilbertiano", delicado demais para as arenas em que estavam se transformando os festivais. E Gracinha, que já conhecíamos e admirávamos de festinhas e de um dueto com Bethânia em disco, com seu fio cristalino de voz e sua musicalidade intensa, por sugestão de seu empresário Guilherme Araújo, agora se chamava Gal Costa. Nos bares de Ipanema, diziam que a origem do nome era a sigla de Guilherme Araújo Limitada. Poucos no Rio sabiam que era o antigo apelido baiano da nova cantora.

”Minha senhora” era uma música talvez tão boa quanto a nossa, nossas cantoras eram ótimas, mas talvez ”Canto triste”, música, letra e interpretação, fosse ainda melhor. As outras não davam medo.

Na noite da grande final, Elis ficou isolada, concentrada, entrou pisando duro no palco, cantou com grande precisão e intensidade os versos apaixonados de Vinícius e a rica e triste melodia de Edu, impressionou os jurados mais sofisticados, mas a música passou praticamente despercebida pelo público. Elis entrou e saiu sem um sorriso.

Uma sorridente e amorosa Maysa, com seus olhos verdes e sua voz rouca, levantou as arquibancadas com ”Dia de rosas”, uma marcha-rancho de Luiz Bonfá e sua mulher Maria Helena Toledo, mas Gal Costa quase não foi ouvida, embora seu estilo e sua qualidade tenham sido percebidos por todos os ouvidos mais sensíveis.

Meu coração batia cada vez mais forte. Nana foi arrebatadora, soltou a voz e o coração, o poderoso arranjo impulsionou sua interpretação e a música empolgou o público: nosso saveiro navegou de velas abertas. No intervalo, minha amiga Marieta Severo, que estava começando a namorar Chico, me disse que no júri estávamos bem. Menescal me confirmou. Na espera ansiosa nos bastidores, entre boatos, fofocas e unhas roídas, Dory me deu uma fita do Senhor do Bonfim, que amarrei no pulso mentalizando meu secreto e óbvio desejo.

Quando ”Dia de rosas” foi anunciada em terceiro lugar, o público não gostou da classificação e vaiou: Maysa foi ovacionada delirantemente.

A temperatura subiu. Vaias e aplausos quando ”O cavaleiro”, de Tuca e Geraldo Vandré, foi classificada em segundo lugar. Então... será que... alguém nos empurrou para o palco.

De mãos dadas, Dory, Nana e eu vivíamos aquele momento tão ansiado de vitória, de conquista, de afirmação, dessas coisas que importam tanto quando se tem 21 anos. Ofuscados pelos refletores e emudecidos pela gritaria, entramos no palco e fomos recebidos pelos aplausos calorosos que tanto desejávamos mas também por uma estrepitosa vaia, dos muitos que torciam por ”Dia de rosas” e estavam furiosos com a decisão do júri. Fiquei chocado, não entendia nada naqueles segundos intermináveis entre o locutor Hilton Gomes anunciar a primeira colocada e o maestro Mário Tavares conseguir fazer a orquestra tocar os primeiros acordes no meio do barulho ensurdecedor, ampliado pelas paredes de concreto do ginásio, famoso por sua péssima acústica. Do alto do palco, no meio da gritaria, vejo nas primeiras filas meu pai e minha mãe rindo e aplaudindo (ela chorando) e aceno para eles, Nana começa a cantar sem ouvir a orquestra, sai do tom, o ritmo atravessa, sua voz treme e falha, dramaticamente e com grande coragem ela canta a música até o final sem se ouvir nem ouvir a orquestra: só os aplausos e vaias ensurdecedores de 20 mil pessoas. Meu coração quase saía pela boca.

No dia seguinte, na ESDI, foi uma pequena comoção. Encantado, recebi cumprimentos de colegas e professores, e na primeira incursão do dia ao botequim da esquina, excedi-me com certa arrogância numa discussão sobre arte x tecnologia e tive que ouvir de um colega, que com afetada solidariedade me dava tapinhas nas costas:

”É, Nelsinho, acho que as vaias subiram-lhe à cabeça...”

Descontei no garoto que servia café. Ele usava uma touca de pano e nós o chamávamos de ”De touca” e ele odiava. Naquele dia, triunfante, ele tinha resolvido o problema: tinha tirado a touca.

”Ô ’Sem touca’, um cafezinho aqui pro vaiado, por favor”, pedi, para gargalhadas gerais. Touca recolocada.

Minha vida acadêmica estava movimentadíssima: fascinado com as aulas de Zuenir Ventura sobre a linguagem e a comunicação, a força da expressão escrita, o jornalismo moderno, consegui por intermédio de meu pai um estágio na reportagem geral do Jornal do Brasil. Quando ganhei o festival, já vinha me dividindo entre o jornal e a ESDI. Ia às aulas, quando ia, de manhã, e passava as tardes no jornal e na rua. As noites, na música, com minha turma, em volta de Vinícius, nos shows do Beco das Garrafas e nas festas.

Na velha redação da Avenida Rio Branco, onde trabalhavam Fernando Gabeira, Alberto Dines, Carlos Lemos, Marina Colasanti, Armando Nogueira e outras estrelas do novo jornalismo, me apaixonei por aquele mundo de notícias, idéias e papel. No primeiro dia, saí com um velho repórter para a cobertura de um escândalo no Departamento de Águas. No dia seguinte, materinha humana da editoria de Cidade, um leilão de objetos penhorados na Caixa Econômica. Na volta, escrevia a minha versão, que era submetida ao chefe da Reportagem, Luiz Orlando Carneiro, que pacientemente corrigia, tirava todos os adjetivos e me ensinava o básico.

Logo comecei a receber pequenas missões, campanhas do Banco de Sangue, eventos escolares, pequenos acidentes, novo bicho no Zoológico.

Mesmo assim gostava, cada vez mais. Corria para ler o jornal de manhã cedo para ver como tinha saído, se tinha saído, a minha materiazinha anônima, depois de um trato dos copidesques.

No dia seguinte ao festival, subi as centenárias escadas de madeira do Jornal do Brasil e entrei na redação modesto e sorridente, como se nada tivesse acontecido. Mas ninguém falou nada de festival, ninguém ali me conhecia, embora junto com Dory e Nana eu estivesse na primeira página de todos os jornais, levantando o ”Galo de ouro” no Maracanãzinho. No meio da tarde, duas jovens repórteres do JB, Maria Helena Leitão e Bella Stal, entraram esbaforidas na redação: estavam procurando o estudante da ESDI que tinha ganho o festival. Me apresentei e dei minha primeira entrevista na própria redação onde estagiava.

Como representantes do Brasil na parte internacional do festival fomos, brasileiramente, vice: a vencedora foi a alemã ”Frag den Wind”, que ninguém precisa ouvir para saber que era chatíssima.

As concorrentes internacionais eram fraquíssimas e poucas entusiasmaram o público: as preferidas eram a inglesa ”Love Is All” e a francesa ”L’ amour toujours l’amour” que, como os próprios nomes dizem, não eram lá muito originais. Foi bom porque abiscoitamos mais uma grana e chato porque todas as vezes que a música era anunciada uma parte do Maracanãzinho vaiava a entrada de Nana. Mesmo na noite da final, quando Ronaldo Bôscoli — que era o redator do festival — colocou no script de Hilton Gomes na apresentação da música que o letrista estava fazendo 22 anos naquela noite e pedindo um aplauso, recebi uma inédita ”vaia natalícia”.

Depois do festival, fiquei eufórico quando soube que Elis gravaria ”Saveiros”. Mas saí decepcionado do estúdio da Philips, onde fui assistir à gravação. Ao contrário do arranjo rítmico e vibrante da gravação de Nana, o que Elis encomendou ao maestro Chiquinho de Morais era o oposto, em forma de lentíssima canção, sem ritmo marcado, sem bateria nem percussão. Era bonito até, mas chato, parado, e Elis cantando também era perfeito, mas sem emoção, sem brilho, sem vontade. Estava claro que ela não se entusiasmava com a música: estava gravando, a pedido da direção artística da Philips, para ser o lado B de seu compacto com ”Canto triste”.

Logo passei de estagiário a repórter, ganhando um salário mínimo, e começaram a aparecer oportunidades de matérias melhores e, finalmente, a glória: uma matéria de meia página, minha primeira assinada, no Caderno B, com uma das novas sensações musicais de 1966: o baiano Gilberto Gil, que eu já conhecia do Teatro Opinião e da casa de Vinícius e admirava por ”Procissão”, ”Roda”, ”Louvação” e ”Ensaio geral”. Usei como epígrafe uma frase de Torquato Neto, perfeita para expressar como Gil se situava no efervescente momento musical, dividido entre políticos e bossanovistas, jazzistas e sambistas, nacionalistas e jovem-guardistas, cariocas e paulistas.




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