Nelson Motta



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O novo disco dos Titãs é ainda melhor do que Cabeça dinossauro. Produzido por Liminha, Jesus não tem dentes no país dos banguelas é mais agressivo e mais musical, mais vigoroso e mais rigoroso, ainda mais provocativo e sofisticado, com bateria eletrônica e cheio de efeitos. Além de ”Comida”, se destacam a libertária ”Lugar nenhum” (”Não sou de São Paulo, não sou japonês/ Não sou de Brasília, não sou do Brasil/ Nenhuma pátria me pariu”) e a furiosa ”Nome aos bois” (Nando Reis/Arnaldo Antunes/Marcelo Fromer/Toni Bellotto), com uma letra feita apenas dos nomes de inimigos da liberdade, da alegria, da paz e dos Titãs:

”Garrastazu/ Stalin/ Erasmo Dias/ Franco/ Lindomar Castilho/Nixon/ Delfim/ Ronaldo Bôscoli/ Baby Doc/ Papa Doc/ Mengele/Doca Street/ Rockfeller/ Afanásio/ Dulcídio Wanderley Bosquila/Pinochet/ Gil Gomes/ Reverendo Moon/ Jim Jones/ General Custer/ Flávio Cavalcanti/ Adolf Hitler/ Borba Gato/ Newton Cruz/ Sérgio Dourado/ Idi Amin/ Plínio Correia de Oliveira/ Plínio Salgado/ Mussolini/ Truman/

Khomeini/ Reagan/ Chapman/Fleury...”

Ronaldo entrou na letra porque no episódio da prisão de Arnaldo detonou a banda como drogada e corruptora da juventude em sua coluna na Última Hora.

Com 20 anos, Marisa estava pronta para começar. Seriam quatro noites no Jazzmania, de quinta a domingo. Marcamos a estréia para o dia da chegada da primavera no hemisfério sul.

À medida que avançavam os ensaios, conversávamos muito não só sobre música, mas também sobre gravadoras, rádios, televisões, imprensa, tudo que se relacionava com uma carreira artística.

Sobre tudo que está em volta da música, seu melhor e seu pior, sua nobreza e vulgaridade, o comércio e a arte. Ensinando o que aprendi, eu queria que ela soubesse como funcionam as engrenagens do mundo musical, a realidade de uma carreira. E advertia sempre:

”Hoje música não é mais só música, é cada vez menos.”

É imagem, é palavra e atitude, é dança e teatro, é tecnologia e produto de consumo, é tantas outras coisas. À medida que a informava eu me ouvia, fazendo a mim mesmo um relatório editado de minhas experiências em cada área e identificando Marisa com o idealismo de meus 20 anos. Nosso pacto era fazer o melhor possível, sem truques, era preciso conhecê-los para evitá-los. Queríamos produzir um trabalho que tivesse uma fluência natural, uma sinceridade radical, uma liberdade ilimitada. Sem nenhuma expectativa popular e com imensas ambições artísticas.

Embora eu lhe falasse sempre sobre João Gilberto como padrão de excelência e de integridade artística, Marisa não sabia mas eu queria produzir uma artista para João, que ele gostasse de ouvir, que lhe mostrasse como aprendi com ele. Ele estava morando no Leblon e nos falávamos quase todos os dias pelo telefone e fui lhe contando cada passo da aventura musical com Marisa. Decidi pôr em prática o estrito conceito publicitário gilbertiano:

”Informar corretamente às pessoas interessadas.”

Só isso e mais nada: sem adjetivos, sem chamar a atenção, sem oba-oba. Mas, no país das cantoras, quem estaria interessado em (mais uma) nova cantora? Não pedi nada a nenhum de meus colegas jornalistas, nem uma notinha, nem uma foto, nada em rádio ou televisão, só o serviço dos jornais informava data e local. O único esforço promocional foi a distribuição de folhetos no Baixo Leblon: queríamos saber como as pessoas reagiriam, sem nenhuma sugestão, sem truques, sem explicações, queríamos enfrentar a verdade. Duzentos convidados para a noite de estréia quase lotam o Jazzmania, seja lá o que Deus quiser.

Antes de irmos para o Jazzmania, num exagero de misticismo musical, telefonei para João Gilberto e pedi que ele falasse com Marisa, para uma inspiração, uma força, como se fosse uma bênção musical. Ele falou, ela ouviu sorrindo e agradeceu. Mas não me disse nada, nem eu perguntei o que ele tinha falado. E fomos para o show.

Há duas versões controversas sobre o que aconteceu na noite de estréia de Marisa Monte no Jazzmania: a minha e a dela, as duas honestas e de boa-fé, mas contraditórias. Para mim, o início do show foi ouvido e vivido como uma tragédia, com Marisa nervosíssima, semitonando notas e atravessando ritmos, como não acontecia nem nos piores ensaios, um pesadelo que durou alguns intermináveis minutos. Ou seria um problema do som, da amplificação de sua voz? Ou as duas coisas? Não posso afirmar que foi exatamente assim, mas com certeza foi assim que ouvi. Embora absolutamente sóbrio, ou por isso mesmo, estava mais nervoso do que ela e tentando aparentar calma e controle, não comentei nada, a única coisa que consegui lhe dizer no pequeno intervalo foi:

”O pior já passou. Vamos lá.”

Marisa voltou para a segunda parte e cantou com a segurança que cantava nos ensaios e com grande emoção, num crescendo empolgante, e o público delirou. Com seu repertório surpreendente, com a juventude de sua bela figura de minivestido de seda branca e colar de pérolas, com sua performance. Na primeira fila, Dom Pepe e Euclydes foram os primeiros a aplaudir de pé no final e com eles todo o público. Como Marina, as empresárias Silvinha e Monique Gardenberg e o temido cronista Tutty Vasquez, que estavam entre os mais entusiasmados. Um pesadelo que se transformava em sonho de final feliz.

Comemoramos discretamente o sucesso e não falamos sobre as primeiras músicas, só sobre a parte final. O pior já tinha passado, pensei, o melhor estava começando. Falamos do futuro, de ampliar ainda mais o repertório, de melhorar alguns arranjos. Só tempos depois conversaríamos sobre aquela noite.

Na noite seguinte, sexta-feira, meia casa com alguns amigos e muita gente que tinha ouvido na praia, nos bares, no trabalho, comentários entusiasmados sobre a estréia da nova cantora. O boca a boca tinha começado. Marisa fez um show perfeito, segura, emocionada, com uma postura dura e tensa mas um gestual expressivo, às vezes meio operístico, passeando com naturalidade e competência pelas paisagens musicais tão diferentes daquele repertório eclético. O público adorou.

Mas André Midani assistiu só à primeira parte e saiu sem falar nada.

Na manhã de sábado, diante do mar de Ipanema, abri o Jornal do Brasil e, para minha surpresa, toda a capa do Caderno B era ocupada por uma foto de Marisa cantando no Jazzmania e uma matéria entusiasmadíssima de Alfredo Ribeiro, com o título: ”Nasce uma estrela”. Parecia um filme. Não só o título, a coisa toda que estava começando a acontecer. À noite, o Jazzmania abarrotou, voltou gente da porta e Marisa fez um grande show, aplaudida de pé. De Kurt Weill a Getulio Cortes, de Tim Maia a Augusto de Campos, de Peninha a Chico Buarque, de Pino Daniele a Marvin Gaye, harmonizando contrastes e surpreendendo o público. Como queríamos demonstrar.

Naquela primavera o Rio de Janeiro amargava uma das piores ”secas” de sua história. Não que faltasse água ou que o asfalto rachasse e houvesse caveiras de burros pelas esquinas. Há mais de um mês não havia maconha na cidade e quando havia era caríssima e de péssima qualidade. E a resposta dos ”vapores” era sempre: ;

”É a seca, é a seca.” Os surfistas estavam desesperados, o meio musical nervoso, o público dos shows e das danceterias inquieto. ;

Quando o milagre aconteceu.

Latas, latas e mais latas prateadas, do tamanho de latas grandes de leite em pó, começaram a aparecer boiando no mar do Arpoador e em outras praias cariocas, como cardumes metálicos.

Quando os primeiros pescadores e surfistas recolheram as latas hermeticamente fechadas e as abriram, não acreditaram no que viram, cheiraram e fumaram. Cada uma tinha quase dois quilos de maconha prensada com um gosto e uma potência desconhecidos no Brasil.

A notícia se espalhou pela praia e pela noite, mas muito pouca gente acreditou: era bom demais para ser verdade. No dia seguinte, mais latas em mais praias, mais pescas miraculosas, arrastões de latas, delírio no Rio de Janeiro. As latas ganham as primeiras páginas dos jornais e o mistério começa a se esclarecer. Um navio, o Solana Star, vindo da Ásia carregado com mais de dez mil latas de ”cannabis índica” prensada, de altíssimo teor de the, rumava para a Europa quando sofreu sérias avarias próximo de Angra dos Reis. Antes de abandonar o navio, a tripulação desovou no mar todo o ”flagrante”. A bordo, ficou só o cozinheiro, que não sabia de nada mas mesmo assim foi preso.

Mas era tarde demais: as latas continuaram a aparecer em cardumes não só nas praias cariocas, mas também no litoral de São Paulo e do Espírito Santo, em Santa Catarina e até no Rio Grande do Sul. Pescadas, compradas, divididas, multiplicadas, distribuídas, as latas derrubaram o preço do jererê no mercado porque eram muito melhores e mais baratas do que o similar nacional. Viraram um símbolo de status nas rodas de surfistas e roqueiros e originaram a expressão ”É da lata!” (significando excelência), que se integrou ao vocabulário carioca.

O show de Marisa era ”da lata”. Harmonia e contrast Com o governo Sarney completamente desmoralizado e a crise econômica descontrolada, a lambada enchia as pistas e os ares de vulgaridade e o rock brasileiro, rebelde sem causa, entrava em decadência. Parecia o pior, ou melhor, momento para lançar uma artista nova e sofisticada como Marisa. Mal terminaram os shows do Jazzmania, recomeçamos os ensaios, acrescentando e tirando músicas. O novo show seria dentro de dois meses, no mesmo Jazzmania, a pedidos insistentes da casa.

Mesmo procurada por diversos jornais, Marisa não deu nenhuma entrevista nem tirou fotos. Para o novo show a ”publicidade gilbertiana” continuaria a mesma, só uns folhetos distribuídos em bares jovens, com uma bela foto de Marisa quase de costas. Acabei não resistindo e incluí um pequeno texto:

”Suaves negras melodias/ harmonias, palavras luminosas/ sons e sentimentos/ luz e blues/ tons de azuis na noite carioca/ rio sonoro, fonte, ponte, voz: "Tudo veludo", Marisa Monte.”

Só isso. Nem um anúncio, nem um ”tijolinho” nos jornais, nem uma nota, testando e confiando no boca a boca. Só a informação correta aos interessados, na seção de serviços dos jornais, junto com todos os shows em cartaz. Foram quatro noites superlotadas e críticas entusiasmadas, os jornais a chamavam de cantora eclética, Marisa deu suas primeiras entrevistas, descartando qualquer possibilidade de gravar discos e anunciando novo show dentro de um mês.

Marisa era uma jovem de hábitos um pouco estranhos para sua idade: não usava jeans e nunca a vi de tênis, andava sempre de blazer, minissaia e sapatos masculinos, era vegetariana e não comia açúcar, lia Nelson Rodrigues e Fernando Pessoa. Não ia à praia, a boates, nem praticava esportes, detestava festas e badalações, gostava de ficar em casa lendo, conversando e ouvindo música e seu sonho era voltar no tempo e fazer um show no Cassino da Urca com Carmen Miranda e Grande Otelo. Era uma espécie de neo-hippie urbana, com gostos muito pessoais, ecléticos como seu repertório.

O novo show seria não mais num bar, mas em um teatro, o pequeno e alternativo Laura Alvim, em frente ao mar de Ipanema, entre o Jazzmania e o meu apartamento. Incluímos o bolero tropicalista de Caetano Veloso e Ferreira Gullar, ”Onde andarás”, outra música dos Titãs, o misterioso funk ”O quê”, de Arnaldo Antunes, o clássico pernambucano ”Ciranda de Lia” e uma peça pop-minimalista do erudito Phillip Glass, um dos grandes nomes da ”next wave” americana, ”Freezing”.

Apesar de não ter ar-condicionado e de fazer um calor infernal no início de janeiro, o pequeno teatro lotou seus 200 lugares para a estréia de ”Cantando na praia”. Entre eles Lulu Santos e Scarlet Moon, que não agüentaram mais do que 20 minutos e saíram esbaforidos e banhados em suor, como eu teria feito, se pudesse.

Mas a platéia calorosa agüentou estoicamente até o final com ”Do Leme ao Pontal” e Marisa foi aplaudida de pé pelo público encharcado.

O polêmico encenador Gerald Thomas, amigo de Phillip Glass, gostou do estilo pop-operístico da cantora e do repertório caótico. O cineasta Walter Salles Jr.

admirou seu estilo cool e elegante. O jornalista Sérgio Augusto, encantado com o que tinha visto e ouvido, decretou na saída, com autoridade:

”Habemus cantora.”

E escreveu uma matéria de página inteira na Folha de S. Paulo com o título ”Marisa Monte é a nova musa da música pop”, que começava:

”Desde Gal Costa não surgia no cenário musical brasileiro um talento vocal tão privilegiado.”

No Rio, no megafestival Hollywood Rock, cheio de estrelas internacionais, os Titãs abrem para os Pretenders na Praça da Apoteose superlotada e arrebentam, levando o público ao delírio. A histórica performance é reconhecida como a melhor de todo o festival, incluindo os estrangeiros. O velho sonho roqueiro brasileiro finalmente se realizava.

Alberico Campana, dono da Churrascaria Plataforma, que conheci como garçom no Beco das Garrafas, me convidou para ser seu sócio em uma casa noturna no Leblon. Chamei Dom Pepe para a sociedade e abrimos os trabalhos do African Bar. Os shows de Marisa davam muita alegria e orgulho mas, como previsto, quase nenhum dinheiro. O espaço de Alberico era ótimo, um chalé normando de dois andares na Rua Venâncio Flores, onde funcionavam um bar e um restaurante francês. Virou um chalé afro-normando: pintamos a fachada de caqui, enchemos a calçada de palmeiras e bananeiras e na entrada colocamos um toldo de onça. O piano-bar foi feito todo de bambu, com sofás e cadeiras de onça e zebra e plantas tropicais por toda parte. O segundo andar era só um bar e uma pista de dança cercada de plantas, com três percussionistas tocando ao vivo junto com os torpedos negros que Dom Pepe detonava nas caixas.

No piano-bar realizei um sonho de juventude, que começou ! quando o ouvi pela primeira vez num distante show de bossa nova na Faculdade de Arquitetura: trouxe Johnny Alf de São Paulo, para tocar piano e cantar todas as noites no African Bar. Os pedidos de convites para a inauguração foram tantos que a festa de abertura se desdobrou em duas de 500 convidados cada, quase enlouquecendo a nossa promoter Liége Monteiro. E mesmo assim muita gente reclamou de só receber convite para a segunda noite.

Em São Paulo, no final de março, Marisa fez duas temporadas de quatro dias na danceteria Aeroanta, templo do rock paulistano, e no prestigioso e erudito auditório do Museu de Arte Moderna.

No Aeroanta fez um show mais ”dançante”, só com as músicas mais animadas, o ”Aeroshow”. No MASP, os 800 lugares e os corredores superlotaram todas as noites, o show ”Cantando na avenida” foi aplaudido de pé.

Como uma provocação, incluímos no show paulista uma música do megabrega Waldick Soriano, a hilariante ”Amor de Vênus”, com Marisa cantando em clima de chanchada tropical. O público se divertiu, o mundo musical sentiu um frisson, os jornais engasgaram para definir a nova cantora, que ia de Phillip Glass a Waldick Soriano, de Tim Maia a Kurt Weill. Mas eram unânimes — com a exceção do bad boy Luis Antonio Giron — em reconhecer o seu talento e originalidade. Giron disse que Marisa era um blefe, uma enganação, uma ”miragem”.

Parecia um filme. Estávamos cada vez mais integrados pela música e felizes com o sucesso, juntos dia e noite ouvindo e falando da música e da vida. E como acontece freqüentemente nesses cenários, a sintonia fina começa a misturar as estações. Eu já não sabia mais onde terminava a paixão avassaladora pela artista que estava se formando diante de meus olhos e ouvidos e onde começava o afeto por aquela garota bonita, educada e amorosa, que me lembrava tanto de mim mesmo aos 20 anos. Não sabíamos direito o que era aquilo, só sabíamos que estava bom, que estava cada vez melhor.

Voltamos correndo para o Rio, no dia seguinte do último show paulista, para as festas de estréia do African Bar. A promoção de Liége foi eficientíssima e o sucesso instantâneo. Funcionou a combinação dois em um. Um piano bar cool, com um maravilhoso cantor intimista, num ambiente aconchegante. Um segundo andar tremendo com as bombas rítmicas das novas bandas internacionais, dos africanos King Sunny Adé, Touré Kundá e Feia Kuti, e dos baianos Olodum, Ilê Ayê e Araketu, reforçados pela percussão ao vivo. As noites cariocas estavam conhecendo o samba reggae, o futuro axé, e gostando.

O filme continua com Marisa, em Belo Horizonte, no Cabaré Mineiro, com mais de 700 pessoas lotando a casa nas três noites e o show tratado pelos jornais como um grande evento. Comemorando o triunfo mineiro e discutindo o próximo show, conversamos sobre aquela noite no Jazzmania. E falei a ela do que tinha ouvido e sentido. Mas para minha surpresa, ela tinha ouvido e vivido o show de forma muito diferente. Em sua memória musical, ela estava nervosa no início e não chegou a cantar bem, mas também não cantou mal, e nunca semitonou nem atravessou ritmos. Ela tinha certeza. Eu também, não de como foi, mas de como ouvi. Ninguém queria convencer ninguém, nem ela nem eu queríamos nos enganar. Ela não tinha problemas com críticas, ouvia todas, sempre, gostava de ser criticada, tinha boa autocrítica, queria melhorar. Não seria nenhum problema ter mesmo começado mal para crescer e triunfar no final.

Mas para ela não foi assim.

Para mim, talvez traído pela emoção (ou pela literatura), foi muito diferente, porque o que vi e ouvi sem dúvida melhorava a história, acrescentando surpresa, angústia e suspense. Melhorava o filme. De volta ao Rio, começamos a preparar um passo decisivo: uma pequena temporada de verão no Teatro Ipanema, por onde tinham passado, sem exceção, todos os grandes nomes da nova música brasileira. Era quase obrigatório, uma prova de fogo, um batismo artístico. O show foi um pouquinho diferente do de São Paulo, com o repertório ainda mais provocativo. E superlotou, muitos artistas, especialmente cantoras, foram assistir, e a maior delas, Gal Costa, achou Marisa linda e talentosa e adorou o show. Em seguida me convidou para dirigir seu show internacional e viajar com ela para Buenos Aires, Lisboa, Nova York, Tóquio e mais 12 cidades do Japão.

A pedidos, Marisa voltou a São Paulo para uma temporada de duas semanas no Teatro de Cultura Artística, superlotando os 1.500 lugares todas as noites, tratada como uma nova diva pela imprensa.

Em Nova York, em maio de 1988, fui o curador da parte musical de um ambicioso e bem-sucedido festival de artes brasileiras produzido por Carmen Elisa Madlener com o nome de ”Brazil Project 88”: uma mostra de Arquitetura, Artes Plásticas (com grande destaque para Hélio Oiticica) e Cinema. De música, foram três shows no Town Hall Theater, com Caetano Veloso, João Bosco e João Gilberto.

Pela primeira vez em Nova York, Marisa assistiu João Gilberto ao vivo pela primeira vez, na primeira fila. Cazuza também, muito doente, vindo de uma temporada de tratamento em Boston. No show, João impecável, com seus clássicos de sempre, sempre novos, e uma interpretação de ”You Do Something To Me” que faria a alegria de Cole Porter.

No dia seguinte ao concerto de João, Caetano me contou que Chet Baker tinha morrido. Tinha caído (ou se jogado) da janela de seu hotel em Amsterdam. Comovido, saí pelos sebos do Village procurando o histórico Chet Baker Sings, de 1956, para substituir o meu já gasto e arranhado original, um dos discos mais bonitos e influentes da história do jazz e da música brasileira. Com o coração pulando e sem discutir preço, arrematei um novo em folha, uma reedição feita por um pequeno selo de Barcelona, provavelmente pirata. No Rio, o African Bar fervia, Boni e sua mulher Lu tinham uma mesa cativa ao lado do piano de Johnny Alf. Ao som de suas canções, começou um sensacional romance entre a balzaquiana Vera Fischer e o jovem Felipe Camargo, que interpretavam justamente Édipo e Jocasta na novela ”Mandala” da TV Globo. Com bem-vinda freqüência, Vera, lindíssima, incendiava o bar e a pista.

Noite a noite o African se tornava o point do momento na Zona Sul, cheio de artistas e de meninas e meninos bonitos e ótima música. Para desespero dos moradores da pacata rua do fim do Leblon, que viram sua tranqüilidade invadida por filas de carros e buzinas, interrompendo o trânsito até a Lagoa nos fins de semana. E com o sucesso crescente, praticamente todas as noites.

A Associação de Moradores começou a reclamar. Fizemos obras de reforço do isolamento acústico, o som não saía da casa mas, mesmo com uma brigada de manobreiros, era impossível evitar gritarias e buzinadas na porta. E pior: Alberico não tinha um alvará de funcionamento para casa noturna, ele tinha herdado a licença do antigo restaurante, que não permitia música ao vivo nem dança. E pior do que tudo: o zoneamento proibia expressamente casas noturnas naquela rua. Rua!

Não havia nada a fazer, eles tinham toda a razão, sorry. Depois de quatro meses escaldantes, o African Bar fechava para sempre, deixando uma marca de alegria e novidade na noite carioca.

Com Marisa, começamos a planejar o próximo passo, um vôo mais alto, inédito na praça: um show para ser transformado em um especial de TV — antes mesmo do lançamento de seu primeiro disco, que seria exatamente a trilha sonora do especial, contrariando o tabu discográfico de estrear com um disco ao vivo.

Aceitamos a proposta da EMI, que estava disposta a investir no especial de TV e garantia liberdade criativa e controle do marketing. E, como nós, não tinha pressa: era para lançar quando estivesse pronto. Parecia a ideal para fazer o que tinha que ser feito. Marisa seria a primeira artista brasileira a ter um show de uma hora exibido em rede nacional de TV e um home-video, sem ter um disco.

Dirigido por mim e por Walter Salles e produzido por Lula Buarque de Hollanda, o especial seria feito em cinema, com fotografia de José Roberto Eliezer e gravado ao vivo pela EMI, em três noites, no Teatro Villa-Lobos, em Copacabana.

Depois de um mês entre o Japão e os Estados Unidos com Gal, voltei ao Brasil e começamos a ensaiar o show de Marisa. O projeto artístico crescia muito mais rápido e mais intenso do que se sonhara, mas a escalada de Marisa acabou provocando em mim uma reação inesperada e desastrosa quando ”o ciúme lançou sua flecha preta”, como dizia a nova canção de Caetano que Gal cantava no show internacional. E pior, em dobro. Ciúme de uma bela garota de 21 anos e do que eu via como minha criatura artística devorada pelo público. Pigmalião de Ipanema torna-se um otelo branco e perversamente usa sua imaginação para ser seu próprio iago. Sua mente conturbada vê em cada espectador que a aplaude um potencial pretendente e concorrente. Mas afinal, era tudo que eu queria, que Marisa fosse admirada, respeitada, amada e desejada, todo o meu esforço tinha sido para isso.

Tinha construído minha própria armadilha e entrado nela e agora não sabia como sair. Marisa nem imaginava essas fantasias paranóicas que me torturavam, mas não deixou de perceber que as coisas estavam mudando entre nós.

Cada vez mais seguro da direção do projeto artístico, eu me sentia cada vez mais inseguro no plano pessoal, porque era experiente o bastante para saber que não havia futuro para nós, juntos. O que me provocava secreto sofrimento, porque sabia que quanto mais tarde fosse, mais doloroso seria, pelo menos para mim. Mas ninguém precisava saber disso. Para Marisa, todos os caminhos estavam abertos e claros, às vésperas de fazer seu primeiro especial de televisão e seu primeiro disco ao vivo, de sua primeira turnê nacional, iniciando uma brilhante carreira profissional onde tudo era novidade e excitação. Eu queria dirigir outros shows, produzir discos, escrever um livro sobre Glauber Rocha, conviver com amigos de minha geração, mas estava totalmente dedicado a Marisa.

E quanto mais ela crescesse, mais envolvido eu estaria. E sem que ela tivesse qualquer responsabilidade nisso, mais ciúmes eu teria de todo mundo, pior seria o convívio, o choque de gerações seria insuperável.

Os shows do Villa-Lobos foram os melhores que Marisa já tinha feito, segura e vigorosa, amadurecida mas mantendo o frescor e espontaneidade da sua juventude. Com direção musical do maestro Eduardo Souto Neto, com Letícia Monte, Suzana Ribeiro e Joana Motta nos backing-vocals, o show teve até um quarteto de cordas, que acompanhou Marisa e o grupo de jazz paulista Nouvelle Cuisine numa versão clássica de ”Bess, You Is My Woman Now”, da ópera Porgy and Bess, de Gershwin. E a participação especial de um sensacional garoto de 19 anos, Ed Motta, sobrinho de Tim Maia, cantando com ela ”These Are The Songs”, recriando o dueto de Tim e Elis em 1970.




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