Nelson Motta



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Fizemos tudo com uma câmera na mão, alternando diálogos, piadas e comentários com os clips escolhidos por Maria Giulia, Massimiliano e os personagens no ”videofone”. Ficou tudo meio pobre, meio precário, pra lá de alternativo, mas ficou muito divertido, cheio de boa música de diversos gêneros e países, de piadas e truques visuais e de situações de comédia. Mas estreou quase despercebido, com 2% de audiência, e foi ignorado por crítica e público — como toda a programação da Telemontecarlo. !

Era impossível quebrar o monopólio de credibilidade dos telejornais das três emissoras da RAI, um dirigido pela democracia cristã, outro pelos socialistas e um terceiro pelos comunistas. Desde o início da televisão os italianos se acostumaram a acreditar no , ”Telegiornale” das oito da noite.

Jamais deixarão de vê-lo para assistir a um outro feito por brasileiros e gerado de Montecarlo, por melhor que seja. Baseado nos ritmos e padrões do ”Jornal nacional” e mesmo muito bem produzido, o telejornal da Telemontecarlo não funcionou. Não dava mais do que 2% de audiência. A novela .

que vinha em seguida pegava a audiência com 2% e ali ficava ou caía. Com a pouca audiência da novela, o especial e o filme também naufragavam. No Brasil, a audiência absoluta do ”Jornal nacional” entregava o horário para a novela com 60% de Ibope. A receita de programação brasileira funcionava ao contrário na Itália, onde um programa puxava o outro, mas para baixo. Antes, nas emissoras de Berlusconi as novelas brasileiras davam grandes audiências, faziam muito sucesso, porque entravam em seguida a programas populares, com grande massa de espectadores. Na Telemontecarlo, ninguém via.

Quando vi os mapas de audiência da programação da TMC, entendi tudo e me lembrei de uma conversa com Boni no Rio, quando disse a ele que iria produzir e dirigir um programa para a Telemontecarlo.

”Se você quer se divertir, comer bem e ficar morando numa cidade deslumbrante, não há lugar melhor. Mas é claro que vai dar errado. Esta operação toda é uma loucura e eu sempre fui contra.” E explicou por quê.

Era exatamente o que estava acontecendo.

Fora as brigas judiciais e policiais. Fazia parte da rotina da Telemontecarlo a notícia que em alguma cidade as emissoras locais tinham conseguido um mandado judicial para lacrar os nossos transmissores. Os advogados da TMC entravam com mandados de segurança, invocavam a liberdade constitucional de expressão e em alguns dias liberavam os transmissores e iniciavam interminável briga judicial à italiana. Até que outros fossem interditados. Nas principais cidades, sob o império da lei, os carabinieri executavam a ordem judicial de tirar a emissora do ar. Em regiões mais brabas como a Sicília e a Calábria, os transmissores da Telemontecarlo foram literalmente pelos ares, com bombas.

Três meses depois eu não agüentava mais. Tudo era difícil, a produção era paupérrima, a edição precária, a equipe técnica lentíssima (parava três horas para o almoço), era uma batalha conseguir os vídeos nas gravadoras. Passada a novidade inicial, era cada vez mais penoso escrever e gravar o programa cada semana. E a audiência não saía dos 2%. Comecei a ficar com saudades do Brasil, da eficiência e potência da TV Globo, de falar a minha língua e me divertir com minha família e meus amigos. Além disso, tirando o napolitano Pino Daniele e alguns ”cantautores” dos anos 70 como Lúcio Dalla e Edoardo Benatto, o pop italiano era ruim de doer.

Mas felizmente Daniel Filho me chamou ao Rio, para outro projeto longamente sonhado: escrever junto com Euclydes Marinho um especial para Tom Jobim. Não seria um especial tipo ”vida e obra”, mas misturando alguns clássicos com as canções de seu novo disco, belíssimo, gravado em Nova York. Os pontos altos eram uma versão sinfônica de sua obra-prima ”Saudades do Brasil” (que apesar de a gravação ter resultado belíssima, por ser muito longa — sete minutos — acabou não entrando na edição final) e um dueto de ”Chansong” (que tem letra anglo-francesa) que imaginei com o maestro de smoking, tocando e cantando baixinho nos salões vazios do Hotel Pierre. Sua companheira de dueto seria Márcia Haydée, uma diva do balé clássico. Mas as negociações complicaram e as gravações foram feitas em Nova York, no Pierre, mas com outra Márcia bailarina, a Albuquerque, que tinha participado de alguns musicais da Broadway. Entre as novidades, a sofisticação novaiorquina de ”Two Kites”, com surpreendentes ecos de uma batida disco-music, de muito bom gosto; e entre os clássicos, uma grandiosa versão de ”Se todos fossem iguais a você” em marcha-rancho que fechou gloriosamente o programa. Entre as surpresas, um dueto com ele ao piano cantando junto com Marina Lima o clássico ” Lígia”. Além da música, Tom nos brindou com uma visita guiada ao Museu de História Natural de Nova York, com amplas explicações sobre pássaros, mamíferos e roedores, e especialmente sobre seus favoritos, os urubus — que deram título a um de seus grandes discos.

Em conversa, descendo a Quinta Avenida, olhou pra cima e comentou, citando Fernando Sabino:

”A melhor maneira de conhecer Nova York é de maca.”

No Festival de Cinema e Vídeo de Nova York, ”Antônio Brasileiro”, “ dirigido por Roberto Talma, ganhou o prêmio de ”Melhor musical”. * !

De volta a Roma, uma noite, no piano-bar Manuia, assim que entrei, o craque Toninho Cerezo, do Roma, me chamou a atenção para uma mesa com quatro morenas brasileiras. Embora as três garotas fossem bonitas, era a mãe que mais atraía olhares. Era Silvia de Azevedo Marques, ex-

Monte, uma bela dama da sociedade carioca, amiga de minha irmã, com as filhas Lívia, Letícia e Marisa, de 19

anos, para quem ela havia me pedido, há quase um ano, que desse alguma orientação musical e acadêmica. Marisa queria ser cantora, estava indo estudar em Roma e, a pedido de minha irmã, me visitou no Rio, muito educada e discreta. Conversamos sobre música, ela cantarolou um pouco, mas como eu não sabia nada de professores e academias de ópera, falamos sobre música brasileira e fiquei surpreendido como uma menina da sua idade, fã de Maria Callas e Billie Holiday, conhecia tanto sobre João Gilberto, Vicente Celestino, Lamartine Babo, Velha-guarda da Portela e outros excluídos de sua faixa etária musical. Não a vi mais. Marisa ficou alguns meses estudando canto em Roma mas só a reencontrei naquela noite no Manuia, quando ela me disse que tinha desistido da ópera. Para fazer carreira lírica teria que morar fora do Brasil, o meio operístico era muito careta e competitivo e ela estava voltando para o Rio e queria ser cantora de música popular. Mas antes ia passar uns dias em Veneza e fazer um show num bar, acompanhada por um amigo violonista italiano, casado com uma brasileira.

”Aparece lá”, disse como quem fala do bar da esquina, e escreveu no guardanapo o telefone do casal em Veneza. No dia do show, em movimento que surpreendeu a mim mesmo, peguei um avião para Veneza.

Claro, não era só para ver a garota cantar, eu mal a conhecia. Talvez para escapar das decepções televisivas, do pop italiano, não entendi muito bem por que estava indo, mas, afinal, quem precisa de um motivo para ir a Veneza na primavera?

O bar à beira do canal era pequeno e charmoso. Suas portas se abriam para um calçadão, com mesas ao ar livre, vasos de flores e um pequeno palco ao fundo. Quando cheguei, nem metade das mesas estavam ocupadas. Era uma noite comum, o show semi-amador só foi anunciado no boca a boca de turma de amigos, Roberto Bortoluzzi amava música brasileira, era esforçado, mas era um violonista amador. Marisa nunca tinha feito um show profissional, mas quando começou a cantar, iluminada por meia dúzia de spots, estava muito diferente da garota que vi em minha casa e depois no Manuia.

Com os cabelos negros cacheados descendo pelos ombros, sobrancelhas grossas, olhos escuros, um nariz grande e uma enorme boca vermelha, cantando Caetano, Gil, Milton, Chico, Tom Jobim, pura MPB de piano-bar, com uma certa dramaticidade operística, ótima afinação e belo fraseado musical. E uma voz linda. À medida que ia cantando, as mesas foram se enchendo, foi se enchendo o calçadão em frente ao bar, e o show terminou aplaudido pelo que, nas dimensões venezianas, pode ser considerado uma pequena multidão. Ela e Roberto, que esperavam uns trocados do dono do bar como participação na renda da noite, acabaram recebendo cada um 50 mil liras, US$ 70.

Para Marisa, uma fortuna: seu primeiro cachê internacional.

Fiquei mais uns dias flanando em Veneza e voltei para Roma. Marisa foi para Milão e de lá para o Brasil. Fiquei muito impressionado, não só com sua voz e performance, mas por sua atitude: a garota só pensava naquilo, em cantar, em aprender música, em emocionar as pessoas. Tinha ótima cultura musical, conhecia jazz e ópera, bossa nova e MPB, choro e funk, tropicalismo e rock, tinha uma obsessão por qualidade e parecia muito séria e determinada em sua escolha. Não ambicionava fazer sucesso: queria cantar bem, músicas bonitas.

No Brasil, onde elegeu quase a totalidade dos governadores, o governo Sarney decretou a falência do Plano Cruzado logo depois das eleições. Com as reservas dizimadas, desmoralizado nos mercados internacionais, com a dívida externa fora de controle, a inflação reprimida explodindo e a economia desorganizada entrando em parafuso, o Brasil quebrou: a conta seria alta, recessão, inflação, desemprego, desilusão, desmoralização das instituições.

Fui passar o fim de ano no Rio de Janeiro e encontrei o país perplexo e revoltado, com a sensação de que, mais uma vez, tinha sido enganado. A lambada explodia nas rádios, perfeita trilha sonora para o momento.

Passei o Natal no Rio e voltei para Roma com minhas três filhas, que passariam as férias comigo, enquanto eu continuaria as gravações do malfadado ”Pop Shop”, num inverno gelado. Depois de um mês em Roma, com o naufrágio da Telemontecarlo, a pobreza da produção e a total falta de perspectivas, em uma rápida conferência familiar decidimos por unanimidade que a aventura romana estava encerrada. Era só gravar os poucos programas que faltavam para cumprir o contrato e voltar para casa.

Sem casa, sem trabalho e sem namorada, voltei feliz para o Rio de Janeiro, às vésperas do carnaval de 1987.

”O Rio amanheceu cantando/toda a cidade amanheceu em flor/ os namorados vão pras ruas em bandos porque a primavera é a estação do amor.”

A alegre marchinha de Braguinha da velha chanchada da Atlântida encheu meus ouvidos quando o carro saiu do Túnel Novo e o mar azul de Copacabana explodiu diante dos meus olhos. Bem, não era primavera, muito pelo contrário, o Rio estava fervendo, às vésperas do carnaval, na rebordosa da falência do Plano Cruzado.

De volta à casa paterna, com 42 anos, pronto para começar tudo de novo. Para desapontamento de minha mãe, que estava adorando a minha temporada extemporânea sob o seu teto, logo aluguei um apartamento todo branco, de frente para o mar de Ipanema, e Esperança, minha filha de 12 anos, foi morar comigo. Abri os trabalhos.

Que trabalhos?

Depois do exaustivo fracasso italiano, não queria ouvir falar em televisão por um bom tempo, não pensava em voltar ao jornalismo, estava completamente afastado da produção de discos, Lulu Santos fazia suas próprias letras. Eu estava tecnicamente desempregado.

Logo que voltei ao Rio, Marisa Monte telefonou convidando e fui com Dom Pepe ouvi-la, num domingo, no Jazzmania, na Praia de Ipanema, num show semiprofissional produzido por sua irmã Lívia, com apoio da mãe e da irmã Letícia. A operação familiar funcionou, a beleza e simpatia das morenas da Urca ajudaram na promoção e a casa se encheu de amigos para ouvir Marisa cantar Chico Buarque, Tim Maia e Caetano Veloso, mas também os inesperados i Kurt Weill (”Speak Low”), Marvin Gaye (”I’ve Heard it Through the Grapevine”) e Getulio Cortes, um grande compositor da jovem guarda (”Negro gato”, o ponto alto do show). Uma das primeiras pessoas que recebi no novo apartamento foi Marisa, interessada em conversar sobre música e em orientação para sua carreira.

O que eu tinha visto e ouvido me dava a viva impressão de estar diante de um real talento. E mais: de uma forte personalidade cênica, de uma jovem com ótima cultura musical e muito bom gosto na escolha do repertório e na maneira de frasear as canções, de uma musicalidade à flor da pele. Já vi e ouvi muitas pessoas de talento, muito talento, mas que não foram a lugar algum. Porque lhes faltavam a vocação e a determinação dos que vi triunfar. Ou o carisma. Ou a sorte. Ou tudo isto. Já ouvi muita gente cantando muito bem, mas seus repertórios, sua ignorância e mau gosto os levaram, no máximo, a acompanhar conversas de bar. Aquela garota de 19 anos parecia ter todas as qualidades para se tornar uma grande cantora. E uma obsessiva vontade de aprender, melhorar e crescer. Não ambicionava gravar um disco, nem tocar no rádio, nem ser popular. Queria ser uma cantora de palco, como as cantoras líricas, e as gravações, se acontecessem, seriam conseqüências naturais e secundárias. Porque ela acreditava que a grande música acontecia ao vivo, correndo todos os riscos, sem rede e fugaz como o teatro e a ópera. E por isso com mais emoção do que num registro trabalhado a frio, editado e transformado como o disco. E eu concordei.

Marisa não queria se envolver com gravadoras ou empresários, queria começar pelo começo, fazendo um show, depois outro e depois outro, até amadurecer seu repertório, suas interpretações e sua técnica. E depois seria depois: o importante era cantar, cada vez melhor, melhores músicas. Me ofereci para dirigi-la, com uma única condição: eu não me envolveria com a produção, empresariamento, dinheiro, pagamentos, contratos, nada que não fosse o roteiro e a direção do show. Para fazer o que tinha que ser feito. O namorado de sua irmã, Lula Buarque de Hollanda, que nunca tinha produzido um show na vida, produziria, eu e Marisa receberíamos uma porcentagem dos eventuais lucros dos shows, que sabíamos improváveis. Marisa morava com a mãe, não tinha pressa e não estava preocupada com dinheiro. O que era uma grande vantagem, porque a liberava de pressões econômicas e permitia que dedicasse todo o seu tempo à música, com o supremo luxo de não fazer nenhuma concessão comercial em seu trabalho. Mesmo assim, ela ia na música como quem vai num prato de comida.

Diante do talento natural de Marisa, achei que valia a pena investir meu tempo e minha experiência naquela possibilidade. E melhor que tudo, era uma oportunidade rara para pôr em prática — com uma jovem com excelentes recursos — tudo que aprendi sobre o desenvolvimento de um artista. Fazer bom uso de minhas experiências como jornalista e produtor, como compositor e empresário, como pedra e vidraça. Fazer o trabalho como se fosse uma tese universitária de design artístico, como um projeto completo de produção, não de um disco ou um show, mas de um novo artista. Sem influência de nenhuma gravadora ou televisão ou empresário, sem concessões de qualquer ordem, com a qualidade artística como prioridade absoluta. Fazer o que tinha que ser feito.

Primeiro a base de tudo: escolher as músicas, não só as mais bonitas, mas as mais adequadas à artista, a seu timbre, a seu jeito de cantar. Sim, porque muitas vezes um artista gosta de uma música — mas a música não gosta dele e o desastre é certo. Ouvimos centenas de músicas de diversos estilos e gerações, entre elas uma belíssima canção do napolitano Pino Daniele, com uma letra que, a pedido da cantora portuguesa Eugênia Melo e Castro, comecei a escrever dois anos antes.

Demorei tanto que Eugênia desistiu e, quando finalmente a terminei, ofereci a Marina, mas ela também não se interessou. Marisa adorou: parecia que a música estava esperando por ela.

”Bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz mas já não há caminhos pra voltar o que é que a vida fez da nossa vida?

o que é que a gente não faz por amor?”

Não era uma tradução de ”E po ché fá”, mas uma letra totalmente original sobre a melodia de Pino.

Mesmo porque, como metade da letra era em napolitano, eu não entendia absolutamente nada.

Marisa e eu estávamos nos entendendo às mil maravilhas, parecia incrível como, apesar do generation gap, tínhamos uma grande identidade de gosto musical. Além de João Gilberto, Marisa adorava Custódio Mesquita, sofisticado compositor dos anos 30/40, um dos favoritos de João.

Escolhemos dele os foxes ”Nada além” e ”Mulher” (”

Não sei/ que intensa magia/ teu corpo irradia/ que me deixa louco assim/ mulher”), que naturalmente sempre só foi cantado por homens. De Custódio para Tim Maia, outro favorito, com os funks ”A festa” e ”Chocolate”, um jingle divertido que ele compôs nos anos 70 e depois transformou em música. Na seqüência, ”Negro gato”, como um blues bem pesado, rascante e sensual, Billie-Holiday-no-Estácio.

Outras boas descobertas: a pouco conhecida ”Samba e amor” (”Eu faço samba e amor até mais tarde/ e tenho muito sono de manhã...”), que Chico Buarque compôs em seu exílio italiano, em 1970, também a ser levada em heavy blues, sexy e preguiçosa. E o hit brega de Peninha, ”Sonhos”, reabilitado por uma regravação recente de Caetano Veloso. Mas a versão de Marisa teria uma dramaticidade intensa e ansiosa, deliberadamente over, como um quase tango, o ambiente musical mais adequado para sua letra de perda e abandono. Como um Piazzolla suburbano.

Aos poucos formamos um repertório básico, cada vez mais desigual, buscando grandes contrastes para surpreendentes harmonias, dentro de um conceito que contrariava todas as tendências da indústria do disco. As gravadoras queriam bandas de rock ou então especialistas, com um padrão definido, e principalmente que compusessem suas músicas. Além de não ser compositora, Marisa não era uma cantora de rock, nem uma sambista, nem uma romântica, porque era um pouco de tudo isto e mais, cantava blues e funk e soul e até bossa nova. Por que não um repertório que expressasse exatamente isto? Sem truques. Escolher com rigor grandes músicas de diversos estilos e de várias gerações. Um repertório que funcionasse como uma declaração de princípios musicais, que mostrasse a cantora como uma encarnação da frase de Torquato Neto:

”Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira.

Gilberto Gil prefere todas.”

Porque Marisa também gostava muito de muita coisa dos melhores autores da sua geração, como Renato Russo, Cazuza, Lobão e a rapaziada dos Titãs, que tinha acabado de lançar um novo disco.

Em Jesus não tem dentes no país dos banguelas, encontramos um clássico instantâneo do rock brasileiro, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, que avançava a discussão política em forma e conteúdo: ”A gente não quer só comida, *

a gente quer comida, diversão e arte, a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte, a gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor, a gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor, >

a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade, a gente não quer só dinheiro, !

a gente quer inteiro e não pela metade.”

”Comida” foi imediatamente incluída no repertório, numa ambientação mais jazzística. Junto com uma nova canção de Lobão, de seu recém-lançado e estupendo Lp Vida bandida, com letra de BernardoVilhena, que também deu nome ao show de Marisa: ”Tudo veludo”.

”Tudo, tudo veludo, tudo, tudo, tudo azul na noite.”

Uma música de estranha beleza, ultradissonante, com seqüências harmônicas complexas, intervalos raros em música pop, dificílima de cantar. E mais ainda de cantar bem.

Para (des)equilibrar, em seguida escolhemos dois grandes sambas, que Marisa conhecia desde criança, quando seu pai, Carlos Monte, era da diretoria da Portela: o belo samba-enredo ”A lenda das sereias” e o lento e pungente ”Preciso me encontrar (Deixe-me ir)”, de Candeia. E fechamos o repertório com um blues de Rita Lee e Paulo Coelho, ”Cartão-postal”, uma linda versão de Augusto de Campos para a ”Elegia”, de John Donne, musicada por Péricles Cavalcanti em ritmo de beguine, um clássico de Os Mutantes, ”Ando meio desligado”, e uma marchinha de Assis Valente lançada por Carmen Miranda, ”Good Bye Boy”. Quanto mais o repertório se integrava com músicas aparentemente inconciliáveis, mais nos divertíamos. Isto contrariava todas as receitas do sucesso, resultava em cantores sem estilo e, no máximo, em crooners, diziam as lendas do mercado musical. Mas era justamente o que se buscava, a liberdade de cantar canções extremamente diferentes entre si, mas unidas pela qualidade musical e poética. A cantora seria a soma de todas essas escolas e gerações, dessas contradições, mostraria que era possível fazer disso um estilo, afirmaria uma visão da música brasileira aberta e libertária, integrando opostos e contrários em nome da surpresa e da beleza.

Segundo movimento: conseguimos um jovem pianista, um aluno de Luiz Eça que tocava bem e estava disposto a passar as tardes ensaiando, quase de graça. Roberto Alves adorava tocar piano.

Como não tinha piano em casa, tocava todos os dias na seção de pianos da Mesbla, graças à boa vontade do gerente. No apartamento da mãe de Marisa, de frente para a Baía de Guanabara, Roberto passou as tardes repetindo dezenas, centenas de vezes cada música, enquanto Marisa encontrava uma forma de cantar e procurávamos um ritmo, uma levada, um fraseado para cada uma. Suave, cool, elegante, pesada, agressiva, econômica, dramática, irônica, até achar um jeito pessoal de dizer cantando aquelas coisas tão diferentes. Uma a uma, frase a frase, sempre mais uma vez.

Fiel ao método gilbertiano, que pela repetição sempre diferente procura a forma perfeita, sempre em movimento sem sair do lugar, torturei Marisa e Roberto tardes a fio, entre cafezinhos, pães-de-queijo e um eventual baseado. Às vezes me sentia um professor de ginástica. Outras, um designer pop.

Centenas de vezes depois, quando cada música começou a tomar forma, a ganhar uma linguagem própria, começamos a chamar outros músicos, jovens conhecidos de Marisa: o baterista Edu Szajinbrum, o baixista Ronaldo Diamante e um percussionista de suingue sutil e elegante, Marcos Suzano. E improvisamos um trio de backing-vocals em três músicas com Letícia, irmã de Marisa, minha filha Joana, de 17 anos, e o jovem ator Carlos Loffler. Estávamos prontos para começar.

O RPM começava a acabar. Depois de vender mais discos mais rápido do que qualquer outro artista brasileiro e de se apresentar para milhões de espectadores em todo o país e na América Latina. Sob a barragem cerrada de legiões de fãs histéricas, o maior fenômeno do rock nacional naufragava num mar de álcool, cocaína e megalomania. Rock é clichê. Como em toda banda de sucesso, os egos entram em conflito, todos os excessos são permitidos, cada um quer um pedaço do sucesso, todos querem compor as músicas e ganhar direitos autorais. Quando a banda faz sucesso, o sonho coletivista do rock se transforma em seu pior pesadelo: a disputa pelo poder. Todos sempre acham que são iguais perante o rock, embora em todas as bandas, sempre, haja obrigatoriamente um vocalista carismático e um grande compositor, porque não há rock and roll sem eles. Os outros são, geralmente, apenas músicos competentes, mas sem eles também o rock não rola. Com o RPM não foi diferente.

Quando Paulo Ricardo e Luiz Schiavon mandaram uma carta para a CBS avisando que estavam acabando com o grupo, no auge do sucesso, a gravadora subiu nas tamancas e seus advogados rodaram a baiana. Havia contratos a cumprir, milhares de dólares que a companhia tinha investido, milhões que esperava faturar com a maior banda do Brasil. E chegou-se a um acordo: um último disco, com total liberdade criativa e orçamento ilimitado. Claro, se desse certo, a banda continuaria, de um jeito ou de outro, acreditavam os experientes executivos. Mas Quatro coiotes foi um fracasso retumbante. E a banda acabou, pouco mais de dois anos depois de começar, na mais breve e fulgurante aventura do Rock Brasil. O rock é rápido.

Com os Titãs acontece exatamente o inverso. Seu sucesso e sua originalidade se devem e se alimentam exatamente dos talentos, egos e vontades de seus oito integrantes. Nesse conflito permanente, movido a fúria e criatividade, a banda vive e cresce na anarquia, num exercício radical de convivência e tolerância. Nos Titãs, uns são mais inteligentes, outros menos; uns tocam melhor e outros pior; uns cantam muito bem e outros nem tanto. Mas todos cantam e todos compõem, não há líder nem estrela, todos ganham igual. Uma exceção absoluta no mundo do rock. Mas mesmo assim, não por ser um dos principais vocalistas e nem pelo escândalo da sua prisão, mas pela qualidade de suas letras e o brilho e originalidade de suas opiniões, Arnaldo Antunes se destaca como um dos artistas mais talentosos e respeitados da nova geração. Nele se cruzam a cultura pop e a vanguarda paulistana, o conceito e a performance, a música e a letra. O rock, o tropicalismo e a MPB.




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