Nelson Motta



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E certamente aquele trem já passou e se passou passou daqui pra melhor, foi Só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder.”

O pequeno público do Noites conhecia vagamente os Titãs, porque ”Sonífera ilha” tocava muito no rádio e eles apareciam freqüentemente no programa do Chacrinha na televisão. Além disso, o público local não tinha muita simpatia por bandas paulistas e poucas escapavam da intolerância regional. Poucos meses antes, os Titãs tomaram uma vaia monumental na sua estréia carioca, numa noite caótica e violenta no Circo Voador, dividida com bandas de heavy metal, sob uma chuva de latas de cerveja. O público do Noites também vaiou algumas músicas, vaiou o sotaque, as roupas e os cabelos, mas a banda reagiu com coragem e entusiasmo e produziu um show poderoso, com grande movimentação em cena, energia titânica.

André Jung, Arnaldo Antunes, Branco Mello, Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sergio Brito e Tony Belotto não eram grandes instrumentistas nem cantores, muito pelo contrário, mas as músicas e a atitude eram ótimas: eles tinham muito estilo e eram infinitamente melhores ao vivo do que em disco.

A morena da Urca adorou.

Além da Fluminense FM, do Circo Voador e do Noites Cariocas, o Rock Brasil tinha seus maiores apoios no Jornal do Brasil, com o crítico Jamari França e o repórter Arthur Dapieve, e em O Globo, com o casal Ana Maria Bahiana e José Emilio Rondeau, que também escreviam para diversas revistas de música. Ana era uma das melhores (e certamente a mais aplicada) entre os críticos de música de nossa geração e foi minha ”interina” nos últimos tempos da coluna em O Globo. Nos anos 70, participou da edição brasileira da Rolling Stone, de breve e delirante vida, manteve durante cinco anos um precioso Jornal da Música com Tarik de Souza e Ezequiel Neves (onde Júlio Barroso começou a escrever), e no início dos anos 80 lançou com José Emílio a revista Pipoca Moderna, que tinha entre seus colaboradores Walter Salles Jr., como crítico de cinema, e Paulo Ricardo Medeiros escrevendo sobre rock. Na Pipoca, as novas bandas receberam calor e impulso e começaram a estourar.

Feito pipoca.

Ana Maria tinha um jovem assistente, que adorava punk e rock pesado, skates e quadrinhos, e vivia falando maravilhas de novas bandas de Brasília, onde tinha muitos amigos. Mas não mostrava nada.

Uma tarde, finalmente, Tom Leão apresentou, excitadíssimo, um cassete com quatro músicas de uma dessas bandas planaltinas. Quando José Emílio ouviu a voz poderosa de Renato Russo e a pegada da Legião Urbana em ”Será” e ”Geração Coca-Cola”, ficou louco. Além de um grande letrista, culto, irônico e agressivo, ninguém no rock brasileiro cantava tão bem, com tanta potência e afinação, com tanta fúria e personalidade como Renato.

Telefonou imediatamente para o diretor artístico da EMI, Jorge Davidson, que estava em negociações com a banda, dando uma força na contratação e se oferecendo para produzir o primeiro disco. A Fluminense FM tocava a demo direto, os ouvintes não paravam de pedir.

”Somos os filhos da revolução somos burgueses sem religião nós somos o futuro da nação geração Coca-Cola...”

Cantava Renato e as jovens platéias deliravam, se identificavam com aquela sensação de vazio e de impossibilidade, tinham alguém para dizer o que eles pensavam e sentiam. Muita gente imaginava que a nova geração musical, do Ultraje a Rigor e dos Titãs, de Lobão e da Legião, por ter vivido praticamente a vida inteira numa ditadura fechada para o mundo, sem acesso à cultura internacional e à História brasileira, sofrendo lavagem cerebral dos militares, seria desinformada e individualista, tão ignorante e alienada quanto a autocrítica furiosa de Renato em ”Geração Coca-Cola”.

Ao contrário, Lobão, a Legião, o Ultraje e os Titãs — além de dezenas de outras bandas que brotavam como cogumelos não mais no eixo Rio-São Paulo mas na Bahia, em Minas, no Rio Grande do Sul e em Pernambuco — mostravam visão crítica, informação, independência e vontade de mudança. Nada mais punk do que os últimos estertores da era Figueiredo. Além de talentosos, eles eram, quem diria, intensamente políticos. A geração Coca-Cola não estava perdida. O amanhã estava chegando. Não teríamos eleições diretas, mas o Colégio Eleitoral poderia eleger um presidente civil, conservador e confiável para os militares, com o apoio das oligarquias e dos partidos que debandavam da ditadura moribunda. Com a economia devastada, o Brasil estava quebrado. Depois de 20 anos teríamos um presidente civil e, finalmente, o nosso Woodstock. Ou quase. Produzido por Roberto Medina, foi anunciado para janeiro de 85 o megafestival Rock in Rio, numa imensa área em Jacarepa-guá, com um palco monumental, som e luz ingleses e espaço para meio milhão de espectadores. Viriam estrelas como o Queen, Rod Stewart, o já decadente Yes, as new-wavers Go-Go’s, a alemã Nina Hagen, misturando ópera e rock pesado, os mais lights James Taylor e George Benson, além de uma inesperada delegação de heavy metal, com o AC/DC, Scorpions, Iron Maiden, Whitesnake e o veterano Ozzy Osbourne, comedor de morcegos e patriarca do metal.

Eles se apresentariam junto com as maiores estrelas do pop brasileiro, como Rita Lee, a Blitz, Lulu Santos, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Alceu Valença, Elba Ramalho, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Eduardo Dusek, os novos Paralamas ”do Sucesso, Kid Abelha e Barão Vermelho, e até Ivan Lins, absolutamente estranho no ninho roqueiro, escalado para dividir a noite jazzística com George Benson. Em Roma, fui chamado pela TV Globo, que transmitiria ao vivo o festival, para ser o apresentador e comentarista dos shows.

Cheguei ao Brasil às vésperas do Natal e encontrei o país eufórico. Com a candidatura invencível da chapa Tancredo Neves-José Sarney, apoiada pelas mesmas forças políticas que estavam (sempre estiveram e continuariam) no poder.

Na transmissão da noite de abertura, nervoso e ao vivo, tentei fazer graça na apresentação de Erasmo Carlos:

”... e como dizia Jair de Taumaturgo, vamos tirar o tapete da sala porque hoje é dia de rock!

Eraaaasmo Carlos!”

Erasmo entrou em cena e o diretor Aloysio Legey me disse que Boni queria falar comigo no fone. Apesar do volume que vinha do palco, meu ouvido quase estourou quando ele gritou: ”Jair de Taumaturgo é a puta que o pariu!!!”

Entendi a mensagem e passei a fazer apresentações mais sóbrias, procurando aprofundar os comentários musicais. Realmente Jair e sua cabeça branca eram de um tempo em que a maioria do público do Rock in Rio nem tinha nascido. Com 40 anos me senti velhíssimo, como um patético neojair animando a garotada enquanto o amanhã não chegava.

Graças a Deus eu não apresentava o festival do palco, mas de uma pequena cabine no alto de uma torre, acima das cabines de som e luz, no meio da platéia, a pouco mais de 20 metros do palco.

De lá assisti ao festival de um dos melhores lugares possíveis: ficávamos só eu, um câmera e um assistente. De lá vi Erasmo Carlos ser vaiado por uma platéia de mais de 100 mil metaleiros furiosos, guerreiros de uma nova tribo urbana que ninguém esperava nem conhecia, que ninguém sabia que existia e onde se escondia. Mas eles estavam ali para gritar e cantar junto com o Iron Maiden e o Whitesnake, e para vaiar e jogar latas de cerveja e copos de areia em tudo que não fosse metal. E pesado. E em inglês.

Para Erasmo, patriarca do rock brasileiro, que a vida inteira (como todos nós) sonhou com o nosso Woodstock (onde ele seria um Chuck Berry e um Little Richard ao mesmo tempo), a esperada noite foi só desapontamento e decepção. Vaiado agressivamente, Erasmo mal conseguiu apresentar seus rocks e muito menos suas baladas. E descobriu assustado que legiões de jovens dos subúrbios e das periferias das grandes cidades estavam desenvolvendo uma outra cultura urbana, de skates e tatuagens, de quadrinhos e agressividade, movida a bandas de heavy metal internacional. Eram os metaleiros — novo terror das mães brasileiras. A imprensa fez um escândalo com a nova ameaça. Os artistas reclamaram. Uma nova radicalidade, agressiva e intolerante como as platéias dos velhos festivais, foi a novidade do dia. O Rock in Rio abriu pegando fogo.

Nas noites seguintes, do alto de minha cabine a visão era maravilhosa: um mar humano de 200 mil pessoas, sentadas em paz ouvindo música, tomando cerveja e torrando unzinho, cantando em coro junto com Freddy Mercury e o Queen todas as letras de seus grandes sucessos, em inglês. Com Rod Stewart a mesma coisa, só que ainda melhor: um show de altíssimo nível sob chuva torrencial, que Rod, como escocês legítimo, tirou de letra, chutando bolas de futebol para a platéia e pensando se toda aquela galera estava mesmo cantando em inglês ou se ele tinha tomado um a mais. Ou cheirado uma a menos.

Para os Paralamas do Sucesso, o Rock in Rio foi o trampolim da vitória e lançou ”Óculos” para o sucesso nacional, cantada em coro pela colossal platéia, ao vivo em rede nacional. Herbert Vianna saiu do festival como um novo herói da garotada e no final ainda ganhou a mocinha, Paula Toller, do Kid Abelha.

”Por que você não olha pra mim? me diz o que é que eu tenho de mal, por que você não olha pra mim? por trás dessas lentes tem um cara legal.”

Ovacionado pela multidão, Herbert dedica o show a Lobão, Ultraje a Rigor, Titãs e Magazine (ausentes do Rock in Rio) e a todos os grupos que tornaram possível o rock brasileiro. E começa a cantar ”Inútil” como um inesperado bis. O público explode de alegria, 200 mil vozes em fúria cantam os versos históricos. Totalmente rock and roll. Os Paralamas rapidamente vendem mais de 100 mil discos e fazem 120 shows em um ano de estrada. A banda é uma das grandes do Rock Brasil, mas, além de ”Óculos”, os seus novos grandes sucessos no disco e no show são as românticas ”Me liga”, ”Mensagem de amor” e ”Meu erro”. |

Além dos Paralamas, a Blitz, Lulu Santos e Barão Vermelho fizeram bons espetáculos, profissionais, cheios de hits. A Erasmo foi dada uma segunda chance, quando se apresentou na mesma noite que James Taylor — uma das mais tranqüilas e aplaudidas do festival.

Todo o rock brasileiro (ausente e presente) teve no Rock in Rio um divisor de águas, que marcou a sua entrada oficial no mercado musical de massa. O grande ausente foi Raul Seixas, cada vez mais recluso, mais magro e mais drogado, com a barba maior, que se recusou a participar de tal caretice.

Mas a rainha estava lá, Rita Lee era uma das grandes atrações do Rock in Rio e esperava-se uma apresentação não menos que consagradora, tal a popularidade que desfrutava, tantos os hits que emplacava, um atrás do outro, com Roberto de Carvalho, desde ”Lança perfume”: ”Saúde”, ”Banho de espuma”, ”Chega mais”, ”Nem luxo nem lixo”, ”Luz dei fuego”, ”Flagra”, ”Baila comigo”, ”Alô alô marciano” e muitas outras.

Mas havia um problema e Rita esperava uma solução.

Assim como Raul, ela estava vivendo uma vida totalmente rock and roll, na estrada com a banda, entre aeroportos e quartos de hotel, tocando para multidões e submergindo num mar de drogas, com a saúde bastante debilitada. Mas pouco antes do festival, Rita conheceu o paranormal Thomas Green Morton, que começava a fazer sucesso nos círculos esotéricos entortando metais com os olhos e transformando água em perfume. Rita estava fraca e apavorada, queria cancelar o show, não tinha força para nada. Mas Thomas prometeu que a energizaria antes da apresentação e tudo correria bem.

Durante uma hora Thomas energizou Rita no camarim. Ela entrou no palco linda e carismática como sempre e cantou confiante os primeiros versos de ”Nem luxo, nem lixo”: .

”Como vai você? assim como eu uma pessoa comum um filho de Deus nessa canoa furada remando contra a maré...”

Mas o que saiu da sua garganta foi um sopro, um fio de voz trêmulo, mas que ainda assim lhe custou grande esforço. Estava perdida: a energização não pegou, a mágica não funcionou, a banda tocava alto e forte, com grande ritmo, mas a voz não lhe saía da garganta. Foi quando, como se percebesse seu sofrimento, o povo começou a cantar com ela, por ela. E cantou do início ao fim todas as músicas, com força e alegria, enquanto Rita sofria para sussurrar um mínimo e se comovia com a imensa prova de amor que o público carioca lhe dava. Foi uma das artistas mais aplaudidas do festival e saiu do palco desfalecendo, totalmente desenergizada. Mas se sentindo mais amada do que nunca.

A noite de 15 de janeiro era muito especial. Tancredo Neves tinha sido eleito de manhã pelo Colégio Eleitoral o nosso primeiro presidente civil depois de 20 anos de governos militares. O último show da noite seria do Yes e encerrei a transmissão anunciando a banda e me despedindo feliz: ”Boa noite presidente Tancredo Neves, boa noite Nova República, boa noite Brasil!”

Mais uma noite. Expediente encerrado, em vez de ficar na cabine assistindo a um show chato, convido Barata, o assistente, para descer comigo. Ele tem metade de um baseado, o trabalho está terminado, podemos relaxar no meio da galera, comemorando a liberdade e a democracia. A poucos metros da cabine de som acendemos a bagana e, mal começamos a fumar, uma mão segurou firme no meu pulso e outra exibiu uma carteira:

”Polícia Federal.”

Estava muito escuro, mas o suficiente para ver a carteira e seu portador: um garotão de camisa esporte, como qualquer um daqueles em volta. O seu companheiro era um senhor de meiaidade, de paletó, que só faltava ter a palavra ”cana” escrita na testa.

Confiscaram a bagana, pegaram a mim e ao Barata pelo braço e nos levaram:

”Vocês estão presos. Vamos para a Entorpecentes”, disse o garotão, nos encaminhando para a saída da Cidade do Rock.

Quando passávamos próximo das salas de produção da TV Globo, estava mais claro e tive a esperança de que alguém me visse, que avisassem que eu estava sendo preso. Mas ninguém viu. Talvez os policiais me reconhecessem como o apresentador do festival na televisão e livrassem a minha cara. Eles reconheceram. Mas foi pior. Aí eu vi um brilho nos olhos claros do garotão, seu sorriso de deboche, sua felicidade em pescar um peixe gordo.

”Estás fodido. Quando isto estourar nos jornais tu vai ser demitido por justa causa. Vai precisar de um bom advogado. Se quiser eu tenho um.”

Começava a intimidação, anunciava-se a extorsão, como as centenas que aconteceram durante o festival, onde a polícia fez a festa. Mas, em vez de acertar logo minhas contas, um pouco por civismo, um pouco por orgulho e um pouco por estupidez, resolvi resistir:

”Se quiser me levar preso, pode levar. Eu não vou pagar um tostão.”

O cara ficou furioso. Me jogou no banco de trás do Opala preto-e-branco e entrou na frente com o velho. Barata foi colocado em outro carro e a última visão que tive dele foi sua expressão desesperada mostrando as mãos algemadas no vidro de trás do carro que partia. Durante todo o longo trajeto entre Jacarepaguá e meu apartamento no Posto Seis, onde eles me acompanhariam para que eu telefonasse a meu advogado, as ameaças e intimidações do garotão foram crescendo: era o ”bad cop”. O velho fazia o papel do ”good cop”, me aconselhando a ter juízo, a não criar problemas, a aceitar a oferta do advogado deles e resolver tudo.

”Quem é o seu advogado?”, o garotão perguntou.

Eu disse. Ele ficou feliz:

”Esse é muito conhecido. Deve ser dos mais caros.”

No meio da madrugada saí do carro e entrei com os dois canas no meu prédio, sob o olhar assustado do porteiro. Eles tinham esperança que eu tivesse dinheiro vivo ou dólares em casa, mas eu não tinha. E felizmente não resolveram fazer nenhuma revista, que teria piorado muito as coisas.

Telefonei para meu advogado, que não estava. Deixei recado na secretária eletrônica. Eles ficaram furiosos e eu me senti um pouco menos ameaçado. Afinal, pelo menos meu advogado sabia que eu estava sendo levado para a Entorpecentes, na Praça Mauá. Eu não tinha medo do escândalo, não me sentia um criminoso, não estava fazendo mal a ninguém, não me envergonhava de nada, estava disposto a enfrentar as conseqüências.

E absolutamente certo de que meu advogado (se recebesse o meu recado) impediria que eu fosse preso. A quantidade era mínima, eu era primário, os juizes estavam liberando todos os indiciados em condições parecidas — porque sabiam que a polícia achacava.

Também achava que nenhum jornal noticiaria minha prisão por uma besteira daquelas e que a TV Globo não me demitiria por justa causa simplesmente porque eu não era seu funcionário ou contratado, estava apenas fazendo um free lance. Mas temia a violência do garotão, que estava com ódio de mim, por estar lhe dando tanto trabalho, por ele não poder me espancar como a qualquer um de seus presos sem arriscar um escândalo, porque eu não me submetia a seu banditismo.

”Vou te jogar na cadeia com um monte de assassino e estuprador pra tu ver o que é bom. Até teu advogado chegar já te mataram”, ameaçava dirigindo pela Avenida Atlântica rumo ao Centro da cidade.

Quando entramos na Delegacia de Entorpecentes, na Praça Mauá, apesar do sórdido ambiente policial, dos móveis de ferro e fórmica e da luz fria, me senti mais seguro. Estava tudo aceso, havia gente entrando e saindo das salas. Telefonei de novo para meu advogado, que atendeu no primeiro toque, respirei aliviado, expliquei tudo rapidamente e ele me tranqüilizou:

”Estou indo para aí.” ;

Estou salvo, pensei. Mas o garotão continuou me ameaçando, queria resolver tudo rápido, botou o revólver na mesa com força, na minha frente. Mandou que eu levantasse e fosse com eles até a sala do escrivão para lavrar o flagrante. Confirmei ao escrivão que estava fumando e que a bagana era minha. Mas disse que queria registrar que tinha sido ameaçado, coagido e achacado pelos policiais e que estava sendo preso porque não quis pagar. Pensei que o cara fosse me bater. Foi quando chegou meu advogado, com longa militância em delegacias e tribunais, e imediatamente tomou providências: foi conversar com meus captores. Voltou poucos minutos depois.

”Não vou pagar”, eu disse antes que ele dissesse alguma coisa.

Com calma e até um certo tédio, ele explicou:

”Você não vai ser preso, não vai ser jogado na cadeia, ninguém vai te bater, mas você vai ser processado. Nenhum juiz vai te condenar, mas vai ser uma aporrinhação danada, você vai ter que prestar depoimentos, vai a Juízo, vai gastar uma grana de custas e advogados, e isto pode complicar a sua vida se você quer voltar para Roma...”

Suspirei e, quase chorando de raiva, perguntei: ”Quanto eles querem?”

Ele respondeu: ”Dois mil dólares.”

Exatamente o que eu estava ganhando da TV Globo para apresentar todas as noites do Rock in Rio.

Abaixei a cabeça, ele disse ao escrivão para rasgar o flagrante e foi acertar o pagamento do resgate.

Quando meu advogado me deixou em casa, o dia estava começando a clarear em Copacabana.

Agradeci efusivamente e comprei os jornais, com as primeiras páginas ocupadas pela eleição de Tancredo e celebrando a volta à democracia.

Na varanda de meu apartamento, diante do mar azul de Copacabana brilhando ao sol, sentei-me na espreguiçadeira para ler os jornais históricos, que registravam o fim do autoritarismo e da repressão e a alvorada fulgurante da Nova República. Acendi um baseado, agradeci a Deus e pensei, quase rindo sozinho:

”O amanhã é hoje...” No dia seguinte ao final do Rock in Rio, o governador Leonel Brizola mandou botar abaixo a Cidade do Rock. O maior e melhor palco ao ar livre que o Brasil já viu, dezenas de banheiros, camarins, cabines, lojas, enfermarias, centrais elétricas e telefônicas. Toda a infra-estrutura necessária para produzir grandes espetáculos com artistas brasileiros e internacionais para grandes multidões transformada em terreno baldio, perdido nos confins de Jacarepaguá. Com o sucesso do festival, que teve poucos incidentes sem gravidade e maciço apoio popular, seus produtores pediram a renovação da licença que tinha sido dada provisoriamente à Cidade do Rock para continuar produzindo shows. Brizola negou terminantemente, depois de ter feito o possível para dificultar a realização do festival, produzido por Roberto Medina, irmão do deputado Rubem Medina — inimigo político e ferrenho adversário de Brizola no Estado. Poucas vezes o Rio de Janeiro teve uma exposição internacional tão boa, nunca teve a chance de um espaço de espetáculos como aquele, mas na briga eleitoral provinciana a juventude carioca acabou sofrendo rude golpe em suas ilusões libertárias. E logo pela mão do sonhado governo socialista-moreno de Brizola e do professor Darcy Ribeiro, maciçamente votado pelo eleitorado jovem (e pelo mundo musical em peso) e levado ao poder triunfalmente em 1982.

Brizola detestava rock. Instrumento de dominação americana, canto da sereia do imperialismo para seduzir os jovens, desviá-los da construção do socialismo moreno. Cuidadosamente, assessores mais jovens tentaram ponderar com o governador que, apesar dos eventuais benefícios eleitorais para os Medina, seria muito bom para o Rio ter um espaço tão bom, que tinha sido amplamente aprovado pela população, seria um gesto popular e democrático.

Destruir seria antipático, poderia parecer autoritário, antiquado, argumentou um assessor mais corajoso. E, aproveitando o bom humor do velho caudilho, arriscou, meio brincando:

”O senhor precisa ser mais moderno, governador.” ”E você quer o quê? Que eu queime um fuminho?”, devolveu Brizola com seu sotaque gaúcho, para gargalhadas gerais.

E ordenou a demolição da Cidade do Rock.

Rock e fuminho eram queridos de Neuzinha, a filha do governador, que conheci no calor da campanha de Brizola, de bonezinho vermelho do PDT, toda gostosinha em seu biquíni vermelho, distribuindo panfletos e sorrisos e fazendo sucesso na Praia de Ipanema. Principalmente entre os pirados, friques e doidões, que achavam o máximo ter como ”primeira-filha” do Estado alguém tão parecida com eles, tão alegre e anárquica como Neuzinha. Com cabelos curtos e cacheados, além de muito bonitinha, Neuzinha era viva e inteligente, provocativa e irreverente, tocava piano, fazia letras engraçadas e queria ser cantora de rock. Depois da eleição de Brizola ela se tornou uma rockstar em Ipanema, mesmo sem disco e sem show. Entrou para a turma. Bebia, fumava e cheirava, ia ao Circo Voador e ao Noites Cariocas, no Baixo Leblon protagonizava cenas de tapas e beijos com Cazuza. Coisas do Rio de Janeiro.

Mas quando a Cidade do Rock foi arrasada, o rock ”Jorge Maravilha”, de Julinho da Adelaide, parecia ter sido feito para ser cantado — não para o general Geisel — mas para Brizola:

”Você não gosta de mim mas sua filha gosta.”

Com ou sem sua cidade, o rock brasileiro saiu do festival como grande vitorioso, tornou-se um fenômeno de mídia, invadiu as paradas de sucessos e programas populares de televisão, era a nova mina de ouro das gravadoras. Assim como a bossa nova tinha sido o som dos anos JK e a MPB dos anos 70, o rock era o som da Nova República. Apesar da oposição de Brizola, Neuzinha, assessorada por Paulo Coelho, lançou o seu primeiro disco. E pior: pela Som Livre — das Organizações Globo, dos arquiinimigos do governador. O pau quebrou no palácio. O disco não vendeu, mas a debochada new wave ”Mintchura”, em parceria com o gaúcho Joe Eutanásia, era um sucesso de rádio, todo mundo conhecia. E Neuzinha se divertia: no melhor espírito roqueiro, ela mesma se dizia uma ”mintchura”.

No Noites Cariocas, logo depois do Rock in Rio, pouca gente se animou a subir o morro para ver uma nova banda paulista lançando seu primeiro compacto. Mas todo mundo gostou: a música era muito boa e o som deles era ótimo, um vigoroso technopop com teclados e baixo pulsante, uma boa atitude roqueira. Mas o melhor de tudo era o crooner e baixista, um garoto lindo, moreno, de nariz fino e olhos escuros, um pop star instantâneo, tocando e cantando com uma voz rouca e sexy e enlouquecendo todos os sexos da pista, o ex-jornalista Paulo Ricardo Medeiros e o RPM (Revoluções Por Minuto):

”Na madrugada, na mesa do bar, louras geladas vêm me consolar qualquer mulher é sempre assim vocês são todas iguais nos enlouquecem então se esquecem?




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