Nelson Motta



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"Só louco amou como eu amei, só louco quis o bem que eu quis, ó insensato coração..."

Nana canta e a cidade iluminada passa na margem do Tevere. Caymmi faz uma segunda voz, revira os olhos, faz bico com os lábios grossos e sensuais, é a encarnação do "dengo viril", de uma macheza delicada e sedutora, talvez possível pela mistura bem-sucedida de árabes com baianos, como Jorge Amado. O motorista está adorando o taxi-concert e desconfio que está fazendo um caminho mais longo mais por prazer que por lucro. Várias músicas depois, quando chegamos ao seu hotel, Caymmi me abraça e, diante de minha expressão de êxtase e gratidão, num estado que Nelson Rodrigues descreveria como "vazado de luz como um santo de vitral", declama com voz solene e majestosa:

"Cada minuto que passa é um milagre que não se repete." Dá um tempo para que eu pasme com tanta sabedoria e profundidade e, com um timing de grande comediante, revela a fonte de tanta poesia:

”Rádio Relógio Federal.”

Boa noite, Dorival Caymmi.

João Gilberto foi o máximo. Mínimo para tanta arte, gente e aplausos o imenso circo onde a biga de Ben Hur corria há 20 séculos. Onde agora um brasileiro de 52 anos, de óculos e terno cinza, canta e toca violão para uma platéia hipnotizada por sua arte elegante e refinada.

Quando João começou sua apresentação com o Hino Nacional popular brasileiro, ”Aquarela do Brasil”, ninguém ouviu: as caixas de som estavam mudas. Da primeira fila, na beira do palco, ouvi seu fio de voz distante:

”Deixa cantar de novo o trovador, à merencórea luz da lua...”

Depois de um interminável minuto ouviu-se de repente, como uma explosão de luz brilhante, voz e violão formando um único corpo sonoro, leve e diáfano, num ritmo preciso e seco como golpes de caratê.

À tarde, depois do ensaio, ele tinha me chamado a seu hotel. Estava tenso e apreensivo. Os italianos não tinham conseguido acertar o som, uma orquestra de cordas participaria de três músicas com pouco ensaio, ele previa um desastre. O legendário perfeccionismo do mestre: para os ouvidos de João que som será bom? Que silêncios seriam necessários para agradá-lo? Tudo muito além de nossa vã estereofonia. João sofre, diz que está preparado para o sacrifício, pelo Brasil e pelos brasileiros, sem soar patriótico ou populista. E começa a tocar.

Ensaia mais uma vez com a filha Bebel, que vai cantar com ele ”Chega de saudade”, e para se distrair começa a pedir sugestões sobre o repertório que vai cantar à noite, fingindo que vamos escolher o que já está escolhido: ”Estate”, ”Wave”, ”Samba da minha terra”, ”Desafinado”, ”Retrato em branco e preto”, ”Triste”, ”O pato”, ”Garota de Ipanema”, suas músicas de sempre, sempre novas. E uma ”novidade” dos anos 40, uma moderníssima canção de Custódio Mesquita, ”Valsa de quem não tem amor”, que ele canta em suave ritmo de samba. ”Minhas noites são fatais, meus dias tão iguais tão só sem ter ninguém, minha imaginação distrai meu coração que vive na ilusão de um dia amar alguém...”

Durante o concerto, a arte de João sempre esteve ameaçada por toda sorte de incompetências técnicas que nos acostumamos a associar às precariedades do Terceiro Mundo e não à riqueza e cultura do Primeiro. Paciente e guerreiro, completamente concentrado, enquanto as caixas de som zumbiam, João, filho dos trópicos e do povo, continuava cantando com precisão absoluta e ensinando em Roma o rigor e a disciplina. João cantava em homenagem a Glauber.

Glauber e João, nossos Dionísio e Apolo, duas faces opostas da mesma preciosa moeda, síntese da melhor arte moderna brasileira: dois baianos porretas. O excesso e o escasso, o máximo e o mínimo, o épico barroco e o modernismo minimalista. Glauber tinha muito boa cultura de música brasileira, acompanhava seus movimentos e gostava de discuti-la acaloradamente, mas nos seus últimos tempos, com exceção de uma simpatia conterrânea por Gal, Gil, Caetano e Bethânia, dizia provocativamente que não gostava de mais ninguém além de Villa-Lobos e Antonio Carlos Jobim. E considerava João Gilberto um gênio musical, escreveu para ele o papel de Sabiá, um cantor e violonista cego, o narrador da história de Palmeiras selvagens, uma adaptação do livro de William Faulkner para uma praia baiana, jamais filmada. Glauber amava e respeitava João, em perfeita harmonia por total contraste, mas defendia uma polêmica tese que atribuía a João Gilberto um processo de ”feminização” da música brasileira, introduzindo doçura, suavidade e delicadeza no canto dos homens, tirando-lhes a virilidade. Não que fosse ruim, mas apenas menos másculo, ele concedia sem muita convicção.

Mas era inegável. Depois de João, todos os novos cantores passaram mesmo a cantar mais docemente. Daí, segundo Glauber, a reação: um processo de ”masculinização” do canto feminino, iniciado com a voz grave e poderosa de Maria Bethânia, com a potência e agressividade de Elis Regina, com a explosão da Gal roqueira, influenciando todas as novas cantoras na busca de timbres mais graves e de atitudes mais agressivas. Glauber adorava uma polêmica.

João detesta. Gosta de harmonia.

Gostei tanto do festival, de Roma, de tanta beleza, de tanta gente interessante que conheci, que resolvi ficar. Por tempo indeterminado.

Afinal, o Noites Cariocas ia a pleno vapor, como um templo do rock brasileiro, tocado por Léo, Djalma, Duda e Dom Pepe. Depois de 15 anos de incessante e múltipla labuta, pela primeira vez achei que podia me dar um tempo. Para descansar e pensar, para aprender.

Mudei-me para o Residence Ripetta, um lindo prédio ocre do século XV, com pátio interno e a respectiva fonte, perto da Piazza del Popolo. Caminhava a esmo pela cidade, deslumbrado, horas seguidas sem destino, entrando e saindo de becos e vielas, vendo beleza e harmonia onde quer que o olho batesse. Comia na Bucca di Ripetta ou no Moro, recomendado por Chico Buarque, freqüentava os bares do Trastevere, tomava sorvete na Piazza Navona, ia ao estádio Olímpico para ver os jogos do ”piu bello campionato del mondo”, estrelado pelos brasileiros Falcão e Cerezo no Roma, Zico no Udinese, Sócrates no Fiorentina, Júnior no Torino, Batista no Lazio, os grandes craques da geração de ouro de 82, que perdeu a Copa do Mundo para a Itália. Melhor, eu não suportaria. Para amenizar a culpa por tanta felicidade sem trabalhar, comecei a escrever crônicas para O Globo.

Depois de mais uma vitória do Roma, gol de Cerezo, volto do estádio de ônibus com o novo amigo Paolo Scarnecchia, um jovem musicólogo formado pela Universidade de Roma, com uma tese sobre a música popular brasileira. Professor de música contemporânea, Paolo nunca foi ao Brasil mas fala um português fluente, com um estranho sotaque anglo-lusitano, e se apaixonou pela nossa música quando ouviu Milton Nascimento e Chico Buarque cantando ”Cálice”, há cinco anos. Estudou português e montou com grande esforço uma heróica discoteca básica brasileira, de Ernesto Nazareth a Tom Jobim, de Hermeto Paschoal a Arrigo Barnabé, é fã extremado de Caetano Veloso e João Gilberto, tem um programa de rádio e escreve para uma prestigiada revista de música sobre MPB. Conheci Paolo durante o festival, no lobby do Hotel Fórum Imperiale, de plantão há dois dias na esperança perdida de uma entrevista, um aperto de mão ou mesmo uma visão fugaz de João Gilberto, trancado no quarto há dias. Comovido com a sua ansiedade e seu sotaque, levei-o comigo para o apartamento de João, que tinha convidado alguns amigos para um concerto íntimo. Paolo quase desmaiou quando entrou no quarto, onde já estavam Cazuza e Bebel, o secretário Otávio Terceiro e o empresário Krikor Kerkorian. E João cantando. Quando o dia nasceu, João mandou pedir café com leite, pão e mel para todos e Paolo foi para casa, mas não conseguiu dormir.

Conosco no ônibus, outro novo amigo, conhecido nos bastidores do festival, um garoto de 20 anos, que tem um programa diário de uma hora na FM favorita dos jovens romanos, a Dimensione Suono.

O programa de Massimiliano de Tomassi se chama ”Festa do som Brasil”, assim em português mesmo, e ele toca exclusivamente música brasileira. Mas são músicas muito diferentes das preferências mais eruditas de Paolo: Blitz, Rita Lee, Lulu Santos, Gilberto Gil, Marina e outros.

Massimiliano é romano de várias gerações, nunca foi ao Brasil, mas fala um português quase perfeito, com sotaque carioca. Foi arrebatado pela música brasileira quando assistiu a um show de Jorge Ben há dois anos em Roma. Seu sonho é morar no Rio.

E eu quero morar em Roma. As casas alaranjadas passam róseas pela janela do ônibus, ocres e terracotas através do vidro, cinema transcendental. Massimiliano me conta que a maior audiência na TV italiana é a série de 12 programas ”Brasil, te Io do io”, que o comediante Beppe Grillo gravou no último verão no Brasil e é exibida pela RAI, às quintas, oito e meia da noite, para mais de dez milhões de espectadores. O programa já apresentou números musicais com Rita Lee, Antonio Carlos Jobim, Jair Rodrigues, Toquinho e Sargentelli e suas mulatas, que enlouqueceram os italianos. O sucesso é a mistura de humor, mulheres e música na viagem de Beppe pelo Brasil, de Manaus a Porto Alegre, com cada programa dedicado a uma capital, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e outras.

No ar, com sucesso, duas telenovelas brasileiras, ”Água viva” e a reprise de ”Dancing Days”. A Som Livre abriu filial na Itália para vender discos com trilhas de novelas. Sônia Braga está na capa e em dez páginas escaldantes da Playboy italiana e nas telas estrelando Gabriela ao lado de Marcello Mastroiani. O sabor tropical vai da cama à mesa: um restaurante de Milão serve 200 feijoadas cada fim de semana. Toquinho faz uma série de apresentações superlotadas no Teatro Sistina, comemorando o Disco de Ouro que acaba de ganhar na Itália. A nova amiga Maria Giulia liga de Nápoles convidando para ouvi-la cantar música brasileira num bar de nome inesquecível: Ipanema. Outro bar, no Trastevere, o Manuia, sempre abarrotado, tem um clima muito parecido com o Beco das Garrafas carioca dos anos 60 e deve seu sucesso à presença e ao som do pianista e cantor Jim Porto, um negro gaúcho que vive em Roma há seis anos. Jim está lançando seu primeiro disco, que tem em três faixas o som do trompete de ninguém menos do que Chet Baker, que também vive na cidade e toca na noite.

No elegante Hotel Hassler, na Via Sistina, o maestro Antônio Carlos Jobim é muito requisitado para entrevistas e dá uma concorrida coletiva para rádio, jornal e televisão, convalescendo de uma gripe e comemorando o sucesso de seus dois shows em Roma, depois de triunfal apresentação com a Filarmônica de Viena.

Quando os repórteres saem, conto-lhe excitado tudo de bom que está acontecendo com o Brasil na Itália. Da janela de sua suíte, Tom Jobim contempla o crepúsculo alaranjado harmonizando seus tons com os do casario ocre e rosado, pede mais um conhaque, adia a volta e exclama:

”O Brasil é aqui!”

Vou com Jim Porto ver e ouvir Chet Baker. Antes que ele acabe. No Brasil, poucos ouviram falar dele, apesar de sua importância na história do jazz e da música brasileira, raros o ouviram tocar seu trompete e cantar. Aos 55 anos ele (ainda) está vivo, não muito bem, e se apresentando no Music Inn, uma caverna escura, uma catacumba contemporânea, antro de jazzistas romanos. Ele foi o primeiro, um pouquinho antes da bossa nova, a encostar seus lábios no microfone e cantar com um mínimo de volume e um máximo de precisão e invenção musical no histórico Chet Baker Sings, um marco na história do cool jazz e da bossa nova, gravado em 1954 e lançado dois anos depois. Mas enquanto João, iogue-zen-baiano, se aperfeiçoava na arte da disciplina, a heroína destruía Chet Baker.

Sob as luzes mortiças do pequeno palco, ele parece uma múmia de si mesmo quando jovem, quando era belo como um james-dean.

O nariz pequeno e fino, os lábios bem desenhados sobrevivem no rosto magro e encovado mas, ao menor movimento, a pele cor de cera parece se soltar da carne, as muitas cicatrizes se confundem com as rugas fundas que lhe marcam o rosto de garoto envelhecido. Atrás dos óculos, seus olhos baços olham para baixo quando começa a tocar, apontando o trompete para o chão.

Sua entrada é hesitante, é claro que houve pouco ou nenhum ensaio com os músicos italianos que o acompanham, um flautista péssimo, um pianista horrível e um baixista razoável, que se esforçam em vão. Chet começa a acertar uma frase aqui e outra ali, começa a engrenar. Os solos dos italianos são longos e chatos e ele termina a música rapidamente. Magro e enfraquecido, dentro de um paletó de veludo marrom de lapelas antigas e largas, sua perna balança dentro de uma calça folgada, os cabelos louros alongam-se, esgarçados, abaixo do colarinho da camisa, alternam tufos mais lisos e claros com outros mais queimados e ondulados, que emolduram seu rosto esquálido e seus olhos fundos. Me angustio imaginando como Chet, tão frágil, terá forças para soprar seu trompete e cantar. Mas ele toca, quase bem, uma segunda música, seu solo tem algumas frases inspiradas, entre clichês e notas aleatórias.

Durante o longo e insuportável solo do flautista, Chet senta-se na bateria vazia e começa a marcar o ritmo, levíssimo, quase sem encostar a baqueta no prato, fazendo o metal apenas sussurrar, parecendo buscar o mínimo de som necessário para produzir um ritmo ágil, leve e preciso. Um sonho gilbertiano.

Na terceira música Chet toca de verdade, seguro e sutil, elegante, e até os músicos tocam bem melhor, mais discretos e precisos.

É um samba bonito de origem desconhecida, talvez dele mesmo, mas que poderia ser assinado por Tom Jobim, com uma melodia fluente sobre arrojadas estruturas harmônicas. Na penumbra, por momentos, achei que ouvia, como se estivesse ali implícito, o violão de João, assim como meu coração ouvia a bateria que Chet só insinuara antes. Ele tira o microfone do pedestal com alguma dificuldade, senta-se em um banco alto e marca o ritmo com a perna magra balançando dentro da calça larga. E canta. Como sempre. Como nunca:

”I remember you you’re the one who makes my dreams come true...”

Um clássico do jazz num fio de voz afinado e enxuto, navegando em um ritmo vertiginoso. Improvisa com a voz, como se fosse um trompete doce, criando frases musicais surpreendentes, canta de olhos fechados e cabeça baixa e sabe Deus do que se lembra quando diz ”I remember”.

Mais uma música, solta e disforme, Chet sopra alguns clichês e, cansado, avisa que vai fazer um pequeno break. Preciso respirar e vou com Jim até a rua para um pouco de ar fresco. Falamos de Chet. Muito jovem ele se tornou uma big estrela do jazz da West Coast, cool e refinado, influência decisiva na melhor música americana dos anos 50. Depois naufragou num mar de heroína, dívidas e desamparo. Nas margens do submundo do crime, com o corpo marcado de picadas e sem trabalho, com os dentes quebrados por surras de traficantes, parou de tocar. Preso várias vezes e desmoralizado nos Estados Unidos, recompõe a boca, reaprende a embocadura fundamental de seu instrumento e vai para a Europa, onde zanza meio molambo pelos circuitos de jazz, gravando inúmeros discos de qualidade irregular por qualquer dinheiro. Mas mesmo assim produz o belíssimo álbum duplo The Touch of Your Lips e algumas faixas memoráveis com jazzistas franceses e alemães. No final desse filme B em preto-e-branco não há happy end e a heroína é a vilã da história que ainda não terminou.

Chet volta ao palco, toca caoticamente mais dois temas, com os músicos italianos perdidos entre partituras, e em seguida o show termina, com ele cantando ”There Will Never Be Another You”, com o rosto contorcido pelo esforço e a expressão dolorida, mas sussurrando as palavras com grande delicadeza e surpreendente precisão. Nunca haverá um outro (como) você, ele canta.

Nunca. Parecia um cenário do Decameron de Pasolini. Um palazzo do Quatrocento, de três andares, com paredes pintadas de ocre, pisos de mármore, um pátio interno cheio de estátuas e, nos fundos, um jardim de laranjeiras florido. Era a sede da TV Globo International, dirigida por Roberto Filipelli, onde trabalhavam, contando secretárias e assistentes, meia dúzia de pessoas. Um discreto e eficientíssimo escritório comercial que estava gerando mais de US$ 10 milhões por ano com a venda de novelas e programas da TV Globo para o mundo inteiro.

E a Itália era o principal mercado. Três novelas brasileiras estavam sempre em exibição nos canais de Silvio Berlusconi, concorrente direto dos três canais da RAI com a recente quebra do monopólio estatal na Itália. A convite de Filipelli e usando os arquivos da TV Globo, montei uma série de cinco programas musicais, ”The Voice of Brazil”. Escrevi o roteiro e as apresentações dos artistas, narrei em inglês e ele vendeu para a Europa inteira e dezenas de outros países nas feiras internacionais de televisão. Um dos programas era com os big stars Roberto, Elis, Gal, Bethânia, Tom Jobim, João Gilberto, Chico, Gil, Caetano, Tim Maia, outro com os grandes mestres Caymmi, Cartola, Luiz Gonzaga, outro com a nova geração, Lulu, Marina, Paralamas, Lobão, Blitz, um dedicado a grandes instrumentistas como Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal e um gran finale com grandes duplas como Gal e Elis, João Gilberto e Rita Lee, Caetano e Paulinho da Viola, e um sensacional dueto de Gilberto Gil e Chico Buarque, o negro com a cara pintada de branco e o branco com a cara preta, debochando do racismo em ”A mão da limpeza”.

Com um pequeno intervalo, duas péssimas notícias do Brasil: Marília me dizendo que Júlio Barroso tinha se jogado da janela de seu apartamento em São Paulo. E meu pai contando que a emenda das ”Diretas já” fora derrotada no Congresso, com o general Newton Cruz chicoteando carros em Brasília sob ”estado de emergência”. Chorei de tristeza e de raiva. Todo mundo sabia que o regime militar estava moribundo e que a liberdade era inevitável, a ditadura caía de podre. Mas Júlio estava morto de verdade. Embora fosse impossível para mim acreditar que tivesse se suicidado: ele amava apaixonadamente a vida e, com todos os seus excessos, não era dado a depressões. Muito pelo contrário. Mas foi a primeira informação que Marília ouviu, pelo rádio. Falei depois com vários amigos, devastados, no Rio e em São Paulo. Da cama à altura da janela aberta, Júlio caiu para a morte, talvez dormindo, talvez bêbado, drogado, dançando, trepando ou tudo isso junto. Jamais se jogaria.

Meses antes estive com ele em São Paulo, fomos almoçar no Hotel Maksoud. Estava elegantíssimo de terno, camisa, tênis, tudo branco, falando com entusiasmo do novo disco da Gang 90, Rosas e tigres. Júlio me pareceu até mais comedido nos drinques, mais profissional, mais maduro. Amoroso e divertido como sempre e criativamente em grande forma. O material do novo disco era de alto nível, totalmente Júlio. Uma tragédia, uma perda colossal, um buraco na nossa alegria e na música e poesia do Brasil.

Em Roma, a vida seguia boa, ótima, cheia de amigos novos e reforçada por uma longa temporada de antigos, como Euclydes Marinho, roteirista das séries ”Malu mulher” e ”Quem ama não mata”, grandes sucessos da TV Globo, e Dom Pepe, o DJ, que ficaram quase três meses na cidade.

Inicialmente no Ripetta, depois nos mudamos todos para um outro residence na Via Archimede, em Parioli, que tinha a deliciosa trattoria Da Domenico no térreo.

Cama e mesa e metade do preço do Ripetta. Noites no Trastevere. Dias de sol na Cidade Eterna. A alegria e simpatia dos italianos, sua democracia, sua política caótica e divertida, sua língua musical de alta expressividade, sua malandragem e civilização. Às vezes me sentia quase culpado por tanta felicidade e beleza, trabalhando tão pouco e tão longe de minhas filhas, que teriam por algum tempo ”menos pai” mas, eu esperava, depois teriam um ”pai melhor”.

De fato: em Roma me livrei da cocaína e da bebida. Mergulhei na cultura da beleza e da harmonia, do bel canto e dos museus. Tomávamos uns vinhos aqui e ali, fumávamos um ou outro ”spinello” de haxixe e o mais era saúde e alegria. No Rio de Janeiro e em São Paulo, a cocaína reinava nas boates, nas festas, nos estúdios, nos escritórios e nas casas. E até nas areias escaldantes de Ipanema.

Certo dia uma rodinha se formou em torno da barraca de um conhecido maestro, que esticou várias carreiras de pó, e todos cheiraram alegremente, em pleno sol do meiodia, entre barracas coloridas e vendedores de mate e limãozinho. Foi o fim da linha. No Rio, a cocaína era tanta e em tantos lugares que era quase impossível sair do círculo viciado. Em Roma, onde eu conhecia pouca gente e ninguém do ramo, quebrar o hábito não foi tão difícil. A vida melhorou muito.

Do Rio chega ótima notícia: uma nova banda paulista estoura em todo o Brasil com um rock debochado e de explosiva carga política.

Mais que um hino de campanha, era uma resposta à derrota da emenda das Diretas, numa linguagem agressiva, irônica, contundente, muito diferente das canções de protesto dos anos 70.

Ninguém mais falava em ”dia de amanhã” e em ”faca de ponta”, em pescadores e sertanejos: o Ultraje a Rigor exigia o amanhã agora e desmoralizava pelo humor e o ridículo a estrebuchante ditadura.

E, além disso, contam Léo e Djalma do Rio, a música fazia a pista do Noites Cariocas pular feito pipoca. Em Roma, quando ouvi o disco, tive um ataque de riso histérico e vitorioso, saboreei a vingança como uma goiabada e fiquei morrendo de saudades do Brasil. Todos os garçons do Da Domenico e metade do Parioli devem ter aprendido a letra de ”Inútil”, que tocava constantemente e em alto volume no meu apartamento.

”A gente não sabemos escolher presidente, a gente não sabemos tomar conta da gente a gente não sabemos nem escovar os dentes, tem gringo pensando que nóis é inteligente, Inútil A gente somos inútil, Inútil A gente somos inútil...”

No Noites Cariocas, numa noite gelada e chuvosa de agosto, pouca gente se animou a subir o morro para ver uma nova banda de rock de São Paulo. ”Poucos bondinhos com poucos consumidores muito desanimados”, reportava Djalma sonolento da estação para o escritório. Entre os poucos que subiram, uma garota de longos cabelos negros cacheados e uma enorme boca vermelha, moradora da vizinha Urca e habitue do Noites, louca por música. Ela tinha 17 anos mas como era muito alta nunca teve problemas para entrar. Embora muitos garotos e garotas da mesma idade, mas não tão altos, também contassem com a boa vontade de Duda e Djalma e dos porteiros para se divertir no Noites. O espaço aberto favorecia um clima mais relaxado, onde a polícia não entrava e as brigas e problemas de violência eram mínimos e raríssimos. Paz, amor e rock and roll entre as nuvens. A morena era aluna do Colégio Andrews, conhecida por cantar o dia inteiro, a qualquer hora e em qualquer lugar; estudava canto lírico, queria ser cantora de ópera, mas adorava música brasileira e rock. Por cantar tão bem ela tinha participado, com 15 anos, da montagem de Rock horror show que o jovem ator Miguel Falabella dirigiu com alunos do Andrews num animado curso de teatro de três meses. Foi quando Marisa Monte subiu pela primeira vez num palco e, mesmo com um papel pequeno, foi a grande estrela dos espetáculos. Agora estava subindo o morro para ver a banda de rock paulista.

Mas eles não eram só rock, eram reggae, punk, brega, tudo junto, refletindo a diversidade dos seus oito integrantes, mais um lançamento de sucesso da Warner e de Pena Schmidt. No início eles se chamavam Titãs do Iê-Iê. Quando André Midani me disse que tinha contratado essa nova banda, achei o nome hilariante e me decepcionei um pouco quando o disco saiu só como Titãs. Mas mesmo gravado num estúdio vagabundo com som ruim, o Lp tinha coisas muito boas: além do hit ”Sonífera ilha” (”Não posso mais ficar assim ao seu ladinho/ por isso colo meu ouvido num radinho de pilha...”), uma ótima versão para o reggae jamaicano ”Patches” (”Marvin”)

e uma grande música, o reggae ”Go Back”, que o tecladista Sérgio Brito fez sobre um poema do tropicalista Torquato Neto, que se suicidou em 1972:

”Você me chama, eu quero ir pro cinema Você reclama meu coração não contenta você me ama mas de repente a madrugada mudou.




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