Nelson Motta



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Mas o grande, o mais esperado e concorrido show do verão não foi de uma banda de rock, mas do rei do funk e do soul, Tim Maia. Depois de muitas negociações, Tim assinou um contrato para cantar no Noites Cariocas. Na noite do show, desde cedo, subiam bondinhos e mais bondinhos lotados de consumidores ávidos e logo a lotação estava esgotada. Nunca a casa recebeu tantos VIPs e tantos artistas: roqueiros, emepebistas e sambistas adoravam Tim Maia. Depois da meia-noite começamos a nos preocupar. Tim ainda estava em casa, na Gávea. E pelo papo, com pouca vontade de sair. Só sairia se recebesse o seu ”levado”, que é como ele chamava o cachê, em grana viva. Tim não acreditava em cheques.

O produtor Nelson Ordunha, o Duda, deu um rasante na bilheteria e saiu em velocidade rumo à Gávea, com uma sacola de supermercado cheia de dinheiro. Tim abriu a porta do apartamento de calção e chinelo e o convidou para um drinque, uma fileira e um baseado. E confessou, contando o dinheiro e rindo, que morria de medo de andar de bondinho. Para criar coragem tomou mais alguns uísques, jogou a sacola debaixo da cama e finalmente entrou no carro. No alto do morro, a galera estava inquieta, já se ouviam algumas vaias e gritos, temia-se o pior. Quando Duda finalmente chegou com Tim à estação na Praia Vermelha e respiramos aliviados, ele olhou para cima, para o bondinho balançando suavemente nos cabos, rosnou e disse:

”Não entro nessa porra de jeito nenhum. Só com anestesia geral.”

Durante intermináveis minutos, Duda e Djalma tentaram convencê-lo a subir. Num bondinho só para ele. Com a luz apagada. De olhos vendados. Bebendo uísque. Com uma gata lhe fazendo massagem, chupando seu pau, chicoteando-o, o que ele quisesse. Desde que subisse. Pedi para falar com ele no telefone. Implorei que subisse, em nome de nossa velha amizade. Os ânimos estavam exaltados na pista e a Banda Vitória-Régia já no palco, tocando o tema de abertura. Tim respondeu, muito amistoso e jovial, com sua voz de trovão:

”Meu amigo Nelsomotta (a única pessoa que, apesar da intimidade, só chamava os amigos pelo nome completo), eu tenho uma idéia muito melhor: em vez de eu subir, você manda o pessoal aqui pra baixo e a gente faz o show na praça.”

Soltou uma gargalhada, virou um copo de uísque puro e, empurrado por Duda e Djalma, embarcou no bondinho como um boi para o matadouro. De macacão de lamê prateado, subiu de olhos fechados e entrou no palco cantando ”Vale tudo”, fez um show sensacional e a pista explodiu com seus sucessos. ”Primavera”, ”Gostava tanto de você”, ”Réu confesso” e todos os que vinha acumulando desde 1980, quando lançou pela Warner um dos melhores discos de sua carreira: o Tim Maia Disco Club, com históricos arranjos funk-disco-samba de Lincoln Olivetti e clássicos como ”Sossego”, ”Acenda o farol” (”pneu furou? Acenda o farol!”) e ”A fim de voltar”. Tim com a voz no seu ponto máximo de potência e precisão, vigor e maturidade, ainda com bom fôlego, ainda resistindo bem à devastação do álcool, da cocaína e da maconha, que consumia em quantidades industriais. E mais musical do que nunca.

Depois desse, quando sua voz começa a declinar, ainda lançou dois discos poderosos — já por sua gravadora independente, a Vitória-Régia — com grandes hits como ”Do Leme ao Pontal”, um passeio funk-samba pelas praias cariocas, ”Descobridor dos Sete Mares”, que se tornou um hino nas noites cariocas, e a suingada ”Vale tudo”, com que abria — escancarava — os seus shows:

”Vale tudo, vale o que vier, vale o que quiser, só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher.

(O resto vale)”

Só que em vez de cantar ”nem mulher com mulher”, Tim gritava:

”Nem amassar bombril!”

E o público explodia de rir e de dançar.

Foi em Tim Maia que Edu Lobo e Chico Buarque pensaram quando produziram um belíssimo score musical para o bale O grande circo místico, que lançou a deslumbrante ”Beatriz”, cantada por Milton Nascimento. Na gravação do disco, para cantar a música ”A bela e a fera”, Edu e Chico precisavam de uma voz forte e grave para interpretar o homem-fera do circo e convidaram Tim Maia.

”Quando vocês falaram em besta-fera eu vi logo que ia sobrar para mim”, disse Tim soltando uma gargalhada e aceitando entusiasticamente.

No estúdio, muito simpático e cordial, recusou-se terminantemente a cantar a melodia como Edu tinha escrito, insistindo em mudar a última nota da primeira frase musical. Era uma blue note, uma nota torta, e, por mais que Edu insistisse e mostrasse no piano que a nota natural que Tim preferia não cabia no acorde, foi definitivo:

”Não adianta, Edulobo, o povo não entende blue note.” E cantou como queria. Ficou uma das melhores faixas do disco.

Em junho de 83, vindos de Brasília, os Paralamas do Sucesso (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone) gravaram um compacto com ”Vital e sua moto”, que começou — como todas as novas bandas de rock — tocando na Fluminense FM, autocognominada ”A maldita”, e de lá se espalhou pelos ares cariocas e brasileiros. A rádio, pra lá de alternativa (emitia de Niterói), foi uma criação do radialista Luiz Antonio Mello e do ex-empresário de Os Mutantes Samuel Wainer Filho, o Samuca. A partir de março de 82, a Fluminense foi a principal plataforma de lançamento das novas bandas: tocava do Clash ao The Cure até demos caseiras, promovia concursos e shows de rock, agitava dia e noite.

Foi na ”maldita” que tocaram pela primeira vez os Paralamas e a nova banda carioca Kid Abelha e os Abóboras Selvagens.

Logo que se mudou para a Lapa, o Circo Voador se tornou o grande palco alternativo do nascente BRock (expressão cunhada pelo jovem jornalista Arthur Dapieve e adotada pelo influente crítico Tarik de Souza, do Jornal do Brasil), com a programação ”Rock Voador”, de Maria Jucá, que resultou no Lp lançado pela Warner.

Sob sua lona generosa se apresentavam bandas novas como os Paralamas e o Kid Abelha e as novas estrelas do rock, como Lulu Santos, Blitz e Lobão. No Noites Cariocas, que era muito maior, passaram a se apresentar só os roqueiros que faziam sucesso no circo. A escalada de uma nova banda de rock no Rio de Janeiro começava com a banda tocando na Fluminense FM, depois no Circo Voador e se consagrava no Noites Cariocas, se apresentando para três mil pessoas. Às vezes essa trajetória era cumprida em menos de seis meses, como aconteceu com os Paralamas, com o lançamento de seu primeiro Lp, Cinema mudo, e com o Kid Abelha, com o estrondoso sucesso nacional da atrevida ”Pintura íntima”:

”Fazer amor de madrugada, amor com jeito de virada.”

O Brasil cantou e dançou com Paula Toller, a loura vocalista do Kid Abelha e co-autora do hit com seu namorado Leoni, baixista da banda. Venderam 100 mil discos em semanas.

Conheci Eduardo Dusek quando ele era pianista e ator na montagem teatral anárquica e engraçadíssima de Antonio Pedro para Desgraças de uma criança, com Marco Nanini e Marieta Severo.

Louro e altíssimo, com tanta vocação para a música como para a comédia, Dusek começou a fazer sucesso a partir de sua apresentação no festival MPB-80 da TV Globo, quando divertiu o público e a crítica, de fraque e cuecão, cantando Nostradamus, sua debochada versão cabaré-do-apocalipse do fim do mundo:

”Vou até a cozinha Encontro Carlota, a cozinheira, morta! diante do meu pé, Zé! eu falei, eu gritei, eu implorei: levanta, me serve um café, que o mundo acabou.”

Dusek não ganhou prêmios, mas saiu como a grande revelação do festival. Ele não era um roqueiro, musicalmente, mas era muito na atitude e no espírito libertário, com um talento especial para o humor e o escracho. Fazia uma espécie de rock-cabaré, novidade que o público adorou. Quando chegou ao Circo Voador e ao Noites Cariocas já tinha dois Lps gravados e um hit estrondoso, ”Rock da cachorra”, de Léo Jaime, um jovem roqueiro goiano que estava trabalhando com os cariocas do João Penca e seus Miquinhos Amestrados, que gravaram com Dusek no Lp Cantando no banheiro :

”Troque seu cachorro por uma criança pobre, sem parente, sem carinho, sem rango e sem cobre.

Seja mais humano, seja menos canino, dê guarida pro cachorro, mas também dê pro menino, senão um dia desses você vai amanhecer latindo.”

Mais rock — e mais Brasil — era impossível. Os Miquinhos começam a se popularizar e lançam seu primeiro Lp, uma explosão de humor, alegria e rockabilly, com o sugestivo título de Os grandes sucessos de João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Mas foi só um pequeno sucesso, com ”Telma eu não sou gay” (paródia debochada de Léo Jaime para ”Tell me once again”) divertindo a juventude. No show do Noites Cariocas, os Miquinhos, Bob Gallo, Avelar Love, Cláudio, the Killer e Selvagem Big Abreu (apresentado como ”o maior pau da banda”) fazem todo mundo dançar e levam os bailarinos às gargalhadas com suas grossuras e baixarias.

Rock é humor.

E rock é barato. Para as gravadoras, a nova onda do rock tinha muitas vantagens, mas especialmente uma: os discos saíam baratíssimos em relação aos de MPB, com suas grandes orquestras e suas estrelas que ganhavam royalties e adiantamentos muito maiores do que a garotada, que assinava contratos por uma penca de bananas. Uma banda de rock não precisava de músicos contratados e maestros para escrever arranjos. Precisava só de horas de estúdio — muitas — e um produtor. Mas não precisava de um produtor para buscar ou encomendar músicas aos compositores. As bandas de rock compunham e tocavam seu próprio repertório, cabia ao produtor só selecionar o material e, no estúdio, dar forma ao produto final. No que Liminha, um dos maiores músicos de rock do Brasil, desde Os Mutantes, era mestre absoluto. E melhor ainda: bandas de rock eram lançadas e testadas primeiro em compactos baratos até chegarem ao Lp, formato-base da MPB. O que economizavam em custos e royalties, as gravadoras investiam em promoção e marketing. E, na onda do Plano Cruzado, comemoravam recordes de vendas. Rock é business.

Produzido por Ezequiel Neves, o melhor crítico de rock do país, o Barão Vermelho, de Cazuza, Frejat, Maurício, Guto e Dé, emplaca seu primeiro sucesso, ou quase: ”Pro dia nascer feliz” explode mesmo é com a gravação de Ney Matogrosso, que vivia um caso amoroso com Cazuza e era uma das grandes estrelas pop do momento, com bem-sucedidas incursões no rock. A gravação do Barão é relançada em compacto e também arrebenta. Um ano antes, Cazuza (em parceria com Frejat) escreveu a belíssima ”Todo amor que houver nessa vida” para o primeiro disco do Barão e chamou atenção para seu talento de letrista. A música não chegou a ser um grande sucesso popular mas ganhou o Prêmio Sharp — e também apareceu em vários jornais e revistas — como ”melhor do ano”. E mais: Caetano cantou ”Todo amor que houver nessa vida” em seu show no Canecão.

”Ser teu pão, ser tua comida, todo amor que houver nessa vida e algum trocado pra dar garantia.

E ser artista no nosso convívio pelo inferno e céu de todo dia pra poesia que a gente não vive transformar o tédio em melodia...”

Caetano me conta que há uma banda punk na Bahia divertidíssima, que esculhamba com Caymmi, João Gilberto, Gil, Moraes, Pepeu e ele mesmo, Caetano. Os jornais se recusam a imprimir o nome da banda e do espetáculo: no Circo Relâmpago de Salvador, o Camisa-de-Vênus arrebenta com seu primeiro show, ”Ejaculação precoce”. João Gilberto, surpresa das surpresas, grava, do seu jeito cool e bossa nova, ”Me chama”, de Lobão, para a trilha sonora de uma novela da Globo. É o primeiro grande nome da música brasileira a gravar um roqueiro dos anos 80. As novas bandas ainda são vistas com desprezo e desconfiança por boa parte da MPB, que ironiza a ignorância política dos roqueiros, debocha das músicas em três acordes, tocadas por músicos que não sabem tocar e cantadas por cantores que não sabem cantar, para um público que não sabe ouvir. Mas as jovens massas estão adorando, a abertura política está ajudando e o afrouxamento da Censura permite letras cada vez mais agressivas, que expressam melhor o ânimo atual e a eterna ânsia de liberdade e irreverência da juventude. Pela primeira vez, desde o início da Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo, o Rock Brasil está em movimento.

Agressivo, grosso e pesado, alegre, dançante e melodioso, o rock é o ritmo do momento. Mas sucesso mesmo é Roberto Carlos, muito romântico, com o Brasil inteiro cantando a sua nova música com Erasmo, um clássico instantâneo:

”Quando eu estou aqui eu vivo este momento lindo...”

Roberto Carlos canta ”Emoções”, a massa que se amassa dentro do ginásio em Vitória enlouquece.

Acompanhado pelo público em coro e por uma grande orquestra de cordas e metais, regida por Eduardo Lages, com um arrebatador arranjo sinatreano, Roberto cumpre triunfalmente mais uma etapa de sua turnê nacional ”Emoções”.

Como um popstar internacional, o ”Rei” viaja num Boeing privado, todo pintado de azul e branco, com grande comitiva, a mulher Miriam Rios, a mãe, dona Laura, de óculos gatinho, muito simpática e jovial, os 20 músicos e a equipe técnica, todo o equipamento de som e luz, seguranças e assistentes. São tantas emoções nessa vida musical. Uma delas é ser convidado por Roberto Carlos para viajar com ele e assistir às duas últimas etapas da turnê, em Vitória, e na sua pequena Cachoeiro de Itapemirim, onde tudo começou. No ginásio de Vitória, o povo ainda aplaudia delirantemente e Roberto já estava longe, a caminho do hotel. Pouco depois de entrar no meu quarto, o telefone tocou e ouvi a voz inconfundível, falando baixinho:

”Oi bicho, é o Roberto (como se fosse possível confundir).

Como é, gostou do show?”

Agradeço o privilégio efusivamente e gaguejo alguns elogios à excelência da sua performance.

Show impecável, cantor perfeito em técnica, emoção e repertório. Um belo retrato musical da alma brasileira...

Falo como um fã e ele me ouve como um jornalista. Roberto está falando baixinho porque ficou meio rouco depois do show, quer poupar a voz porque no dia seguinte o show é na sua cidade, onde ele não se apresenta há muitos e muitos anos. O Rei está naturalmente um pouco nervoso e ansioso:

”Sabe como é... terra da gente... cidade pequena... grandes emoções... sabe como é, bicho.”

Imagino. E me lembro daquela noite distante em Copacabana, naquele apartamento, Carlos Imperial de chinelos e ele imitando João Gilberto.

Domingo radioso em Vitória do Espírito Santo, dia dos namorados, parece que todas as rádios só tocam Roberto Carlos. No hall do hotel, sentado numa mesa com o baterista-secretário-amigo Dedé, o Rei concede uma espécie de audiência pública. Uma longa fila aguarda pacientemente, cada um espera de olhos brilhando o momento de ser atendido. Alguns precisam de uma dentadura, outros de aparelho de surdez, outros uma ajuda para o filho doente, uma cadeira de rodas, a reforma de uma igreja, esperam um milagre mas todos se contentariam apenas em ver de perto, olhar nos seus olhos, talvez tocar Roberto Carlos. Dedé faz uma curta entrevista com o suplicante, avalia o pedido e encaminha a Roberto que, de talão de cheques em punho, vai atendendo no ato. É assim em todas as cidades por que passam.

A partida para Cachoeiro atrasa meia hora porque um grupo de cegos queria ”ver” Roberto Carlos, como contou Dedé às gargalhadas entrando no ônibus com o Rei. Durante a viagem, Roberto está alegre e animado e conta histórias da estrada. Nas mais de 30 cidades que visitou só conseguiu sair do hotel duas vezes, em Recife, escondido num furgão para almoçar na casa de amigos, e em Maceió, quando foi com toda a companhia, mais de 40 pessoas, jantar num restaurante fechado só para eles.

”Mesmo assim, os garçons vieram pedir autógrafos...”, conta Roberto divertido e resignado.

O ônibus entra na cidade pobre e feiosa, quente e poeirenta, e se aproxima do estádio por uma rua estreita, lentamente, abrindo caminho entre a multidão que espera desde cedo nas calçadas.

São seis e meia da tarde e o show está marcado para as sete. O ônibus pára em frente a uma pequena porta que dá acesso aos vestiários, Roberto é o primeiro a entrar, seguido dos seguranças.

O povo aplaude.

Todas as janelas dos edifícios à volta do estádio estão iluminadas e lotadas. O morro ao lado, com magnífica visão do campo, está superlotado. Mas ainda há alguns lugares nas arquibancadas e nas cadeiras do gramado. Parece que a cidade inteira está ali para celebrar a volta do jovem senhor, do mais ilustre filho da terra, o artista mais popular do Brasil. Roberto fica uma hora e meia trancado sozinho no camarim. A massa espera paciente a primeira hora, mas começa a se inquietar, gritando e assobiando.

”Senhoras e senhores... Rrrrrrrrroberto Caaaaaaarlos!”, a voz do apresentador estoura nas caixas.

Os canhões de luz mostram as arquibancadas, as janelas e o morro superlotados, a orquestra ataca a overture e o público delira.

”Quando eu estou aqui, eu vivo este momento lindo”, Roberto começa a cantar, de terno branco e gravata azul brilhante, sorrindo tenso, com o rosto suado brilhando sob os refletores.

A primeira nota que canta quase não lhe sai da garganta, trêmula e sofrida, engasgada. E o rosto mostra imediatamente a dor do perfeccionista implacável consigo mesmo, do senhor de uma técnica musical de alta precisão, traído por suas emoções. Rapidamente se recompõe e sorrindo corajosamente vai adiante e termina a canção sob aplausos não muito entusiasmados. Ninguém ouviu direito, o som está péssimo, Roberto conversa com o maestro e os técnicos de som e o show recomeça, frio. O som continua ruim, Roberto não se ouve nas caixas de retorno. Só na terceira música as coisas melhoram e ele pode relaxar um pouco. Até que o som apita. Ele ignora e segue em frente, aos poucos o público vai se entusiasmando:

”Por isso uma força estranha me leva a cantar, por isso essa força estranha no ar, por isso é que eu canto, não posso parar, por isso essa voz, essa voz tamanha...”

Roberto canta Caetano e o público finalmente explode, nas arquibancadas, nos edifícios e no morro.

Ele conversa, conta piadas e histórias de namoros, com uma mistura de malícia e ingenuidade, descrevendo cheio de charme os seus tempos de amassos e paqueras nas matinês do Liceu Cachoeirense. E canta ”Jovens tardes de domingo” com infinita graça. As meninas sentadas ao meu lado, adolescentes, começam a chorar. Uma saraivada de sucessos depois, Roberto sorri feliz, mas seu olhar tem sempre uma tristeza e uma melancolia que são parte importante de seu carisma, e fecha o show com ”Amante à moda antiga”, a massa delira e os fogos de artifício explodem no céu de Cachoeiro. O público ainda continua aplaudindo e Roberto e toda a comitiva já estão no ônibus, que avança lentamente abrindo caminho entre a multidão que grita e aplaude. Roberto tira o paletó e a gravata e se envolve numa toalha, o ônibus ganha a estrada e corta a noite capixaba, o Rei viaja em silêncio, cansado e sorridente, quase todo mundo dorme. Boa noite, Roberto Carlos.

Na chegada ao hotel em Vitória, com fome e com sono, me despeço de Roberto, ganho um abraço e um beijo e não resisto: peço que ele me autografe a camiseta do show, o primeiro e único autógrafo que pedi em minha vida. Em agosto de 83, com o fim abrupto de um romance movido a álcool e cocaína com uma psicanalista carioca, fui para Roma, para o festival Bahia de Todos os Sambas, produzido pelo cineasta Gianni Amico e bancado pela Secretaria de Cultura romana, do comunista visionário Renato Nicolini, em homenagem a Glauber Rocha. Shows de Dorival Caymmi, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Nana Caymmi, Moraes Moreira e outros baianos musicais ilustres, cantando e tocando durante uma semana para uma platéia de dez mil pessoas, nas ruínas do Circo Massimo. E mais: um trio elétrico com Armandinho, Dodô e Osmar circularia na Piazza Navona. Os filmes de Glauber seriam exibidos. Estrelas da ”Roma negra” iluminando as noites de verão da Roma imperial, nada melhor para curar uma rebordosa amorosa. E para sair da canoa furada da cocaína, numa outra cidade, num outro tempo, movido a arte e civilização.

Fui para o Hotel Raphael, com seus salões de mármore e suas paredes cobertas de hera, o favorito de Vinícius, onde Chico Buarque também ficou logo que chegou a Roma, na Via Dell’Anima, esquina com o Vícolo Delia Pace, atrás da Piazza Navona. Ali, na esquina da alma com a paz, do terraço vêem-se os telhados de Roma e as cúpulas de suas igrejas brilhando ao sol, o casario ocre e terracota e as velhas ruas de pedra, desertas sob o calor africano de agosto. A semana Bahia de Todos os Sambas tinha começado um dia antes, com a exibição tumultuada do último filme de Glauber, A idade da Terra, e o show de Caetano Veloso no Circo Massimo com lotação esgotada. À noite vou ao show de Gal Costa.

O Circo Massimo não é o Coliseu, é muito maior (embora muito mais destruído), é o hipódromo onde as bigas corriam para os césares. Ao fundo, as ruínas iluminadas, à frente delas o palco e um grande descampado, ocupado por uma platéia de dez mil pessoas sentadas, que se levantam quando a banda toca a introdução de ”Canta Brasil”. E gritam e aplaudem quando ouvem a voz cristalina de Gal e vêem aquela bela figura de mulher, suas formas generosas e maduras mais reveladas do que cobertas por um vestido de Markito de um finíssimo tecido dourado, ora fosco, ora brilhante, que se colava ao seu corpo como uma outra pele até os quadris, de onde descia fluido, revelando coxas e pernas fortes e morenas, que irrompiam pelo rasgo lateral da saia ou se revelavam através das transparências iluminadas. Quando ela canta ”Noites cariocas”, o choro de Jacob do Bandolim, choro copiosamente. Em parte pela rebordosa amorosa, em parte pelo Brasil. E ao mesmo tempo de alegria, infinitamente contente pelo testemunho da arte refinada de Gal, de sua consagração por um público culto e exigente, rara oportunidade de desfrutar um legítimo sentimento de orgulho nacional.

Ultimamente, diante do mundo civilizado, sentimos mais vergonha do que orgulho do Brasil, com nossa grotesca ditadura moribunda e em debandada, nossa eterna crise econômica agravada, nossas injustiças revoltantes, nossa pobreza, ignorância e violência.

Provincianamente, imagino que os romanos estão perplexos: como pudemos, com nossa miséria cultural e nossa história curta e inglória, produzir uma arte tão rica e desenvolvida, uma arte tão moderna e sofisticada num país tão primitivo e atrasado?

Qualquer crítico de música informado — e há muitos ali — sabe que Gal Costa, como Elis Regina, é uma das melhores cantoras do mundo, que produz uma música tão boa quanto a de Ella Fitzgerald ou Sarah Vaughan. O show termina com uma ovação consagradora e diversas voltas ao palco. Feliz e emocionada, Gal se curva em altiva reverência, a massa de cabelos escuros e ondulados emoldurando uma imensa boca vermelha e sorridente, os bicos dos seios redondos e fartos avançando pelo tecido dourado que o suor lhe cola ao corpo como uma segunda pele. Choro de novo, ’

pensando em Glauber e Hélio Oiticica, amigos queridos e mortos (os dois aos 42 anos), mestres e inventores de arte e linguagem, reverenciados por estrangeiros e massacrados em sua própria terra, banidos e perseguidos pela insensibilidade e violência da ignorância nacional. Como Gal e Elis na música, Glauber e Hélio desfrutam o respeito e admiração de qualquer crítico informado de cinema e artes plásticas. Na consagração de Gal, choro a perda, em pouco mais de um ano, de Elis, Glauber e Hélio. ’ Depois do show divido um táxi com Dorival e Nana Caymmi.

O "Algodão" está feliz, o rosto moreno cercado pelo prateado dos cabelos, sereno como quem sabe, alegre como quem aceita, a perfeita imagem do "Buda nagô" criada por Gilberto Gil.

Refestelado no banco traseiro do táxi, para deleite meu e do motorista, inicia com Nana um dueto da "Tosca", enquanto rodamos pelas ruas estreitas e antigas do Trastevere. Caymmi conta que foi criado ouvindo ópera e música clássica, fala sobre Bach, diz que todos os acordes e estruturas harmônicas que ainda hoje surpreendem os que se acreditam "modernos" já estavam lá, em Bach. Talvez Caymmi esteja para a música brasileira como Bach está para a música do mundo. Sua música está presente e é fundamental em três grandes momentos da nossa gloriosa história musical. Primeiro com Carmen Miranda, para quem criou seus grandes sucessos, como "O que é que a baiana tem?" e "Você já foi à Bahia?"; depois na bossa nova, com as releituras revolucionárias de João Gilberto de "Rosa morena", "Doralice" , "Saudades da Bahia" e outras; e finalmente no tropicalismo, com Gil e Caetano criando a nova música sobre os alicerces sólidos da música de Caymmi.




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