Nelson Motta



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Ao contrário do que esperávamos, quando abriu para o público, o novo Dancing não partiu de onde tinha terminado o velho, com seu público habitual de artistas e garotada da praia. Todas as sextas e sábados três mil pessoas lotavam os bondinhos, vindos não mais da Zona Sul mas principalmente da Zona Norte e dos subúrbios, muita gente que confundia a novela com a discoteca, que imaginava ”estar” na novela, que esperava encontrar a Sônia Braga dançando na pista. Um público completamente diferente da Gávea, quando se conhecia todo mundo: agora não conhecíamos mais ninguém. A casa era um sucesso absoluto de público, estávamos ganhando mais dinheiro, mas todo mundo estava se divertindo muito menos.

Divertida mesmo foi a festa que Rod Stewart deu no Copacabana Palace, por conta da Warner.

Estrelíssima internacional, ele era alucinado por futebol e não veio para cantar, mas para ir ao Maracanã. Para aproveitar a oportunidade e fazer uma promoção do seu novo disco, a gravadora convidou para jantar com Rod a imprensa especializada e alguns artistas e VIPs, coisa de 40 pessoas. Mas a notícia se espalhou na praia do Posto 9 e a suíte presidencial do Copa recebeu mais de 250 (não) convidados, de todos os sexos, animados ààà beça. Rod e seus amigos adoraram e a noite terminou com um disputado futebol de salão de três contra três na ”quadra” de mármore da suíte, com resultado de alguns abajures e cadeiras quebrados. Rod foi expulso do hotel, mas gostou tanto do Rio que alugou um apartamento no vizinho e chiquissimo Edifício Chopin, na Avenida Atlântica. Na festa de réveillon de Guilherme Araújo, no Morro da Urca, o escocês se esbaldou. Seu amigo Elton John, vestido de marinheiro, também, os dois cheirando cocaína como aspiradores humanos.

O grande acontecimento do Dancing Days foi a festa de arromba que a gravadora Ariola ofereceu para dois mil convidados, em homenagem a sua estrela Bob Marley, que fazia sua primeira viagem ao Brasil para lançar o novo disco. Marley chegou como um rei, fumou diversos baseados, dançou e tomou guaraná, ficou louco com o visual do Rio de Janeiro iluminado, da ponte Rio-Niterói ao Leblon. Nessa noite, o público foi o do antigo Dancing.

Com a novela, a febre mundial da discoteca se espalhou por todo o Brasil, o segundo Lp das Frenéticas, puxado por ”Dancing Days”, estourou nas paradas de sucesso, grandes artistas como Tim Maia e Ney Matogrosso gravaram disco-music, todo mundo começou a gravar. Tudo virou discoteca, havia uma discoteca em cada esquina, a moda discoteca, as meias arrastão, os sapatos de plataforma, os ternos brancos, as roupas de lurex, os produtos licenciados pela TV Globo. O disco com a trilha internacional da novela vendeu quase um milhão de cópias. Era hora de mudar de praia.

No final do verão, com o final da novela e o início das aulas, o público começou a diminuir e resolvemos fechar, melhorar o palco e o anfiteatro, que eram precários, fazer novos bares e banheiros, para reabrir no verão seguinte com outro nome, outra decoração e outra música. Eu não agüentava mais disco-music.

Enquanto as obras andavam a passo de cágado no Morro da Urca, recebi de Mário Priolli uma proposta muito interessante. Fazer uma discoteca no seu Canecão, a maior casa de espetáculos do Rio, que apresentava temporadas de shows dos maiores artistas brasileiros. O espaço era sensacional, todo equipado com palco, som e luz, mas uma discoteca era totalmente incompatível com os shows que Mário apresentava às nove da noite. A discoteca teria que funcionar depois dos shows, que terminavam às dez e meia.

Poderíamos mudar completamente a decoração da casa, a cenografia, o palco, tiraríamos as mesas e cadeiras e abriríamos às onze e meia como discoteca. Uma idéia muito louca: duas casas em uma.

Mas eu não queria fazer uma discoteca como o Dancing Days e todas as outras, tocando discomusic, copiando as americanas. Queria uma diferente, com música latina e decoração tropical, com uma big band de 20 músicos regida por Guto Graça Mello tocando para dançar um repertório de sabor latino. Salsas e merengues cantados e dançados por duas crooners animadíssimas, vestidas de rumbeiras num cenário cheio de palmeiras, frutas e flores, duas jovens atrizes que cantavam muito bem e tinham pernas sensacionais, Tânia Alves e Elba Ramalho. Era o Tropicana.

A temporada durou quatro meses e todas as sextas e sábados as equipes de montagem do Canecão iam à loucura, tirando centenas de mesas e cadeiras e, em uma hora, transformando a casa de shows numa discoteca. O Tropicana era uma floresta de palmeiras e plantas tropicais, com paredes cobertas por estamparias de frutas e exuberante cenografia florida no palco. O DJ Chris Jones era um crioulo jamaicano que conheci em Nova York, irmão da disco-diva Grace Jones, e que — em escolha infeliz e precipitada — importei para tocar no Tropicana. A bicha era tresloucada, cheirava como um tamanduá, adorou o Rio de Janeiro, mas as suas músicas eram nova-iorquinas demais para as massas que iam ao Tropicana e gostavam das Frenéticas e de Tim Maia. O som latino não pegou, o pessoal gostava mesmo era da disco-music do DJ Ricardo Lamounier (da New York City Discotheque), que substituiu Chris às pressas e garantiu as pistas lotadas. As Frenéticas foram chamadas para fazer os shows e o Tropicana encheu. Mas não teve a menor graça. Eu não agüentava mais disco-music. Mas estava adorando a vida noturna, que vivia como uma festa permanente, onde me divertia e ganhava dinheiro, convivendo com estrelas da música, da televisão e dos esportes.

Chegava em casa sempre de madrugada e depois de incontáveis brigas, de idas e voltas, de vidas cada vez mais separadas, o casamento acabou com muito sofrimento para nós dois. Marília ficou com Esperança na casa do Joá e eu me mudei para uma cobertura no Edifício Imperator, o último da Praia de Copacabana, no Posto Seis, no 13º andar de um prédio art-déco dos anos 40. Aos 34 anos, eu ia morar sozinho pela primeira vez. A distensão ”lenta, gradual e segura” do general Geisel continuava, com a revogação do AI-5, o abrandamento da Censura (”Cálice”, ”Apesar de você” e muitas outras músicas foram liberadas) e, no final do ano, a anistia. Um fervor nacionalista e estatizante unia governo e oposição, o general João Figueiredo tomava posse prometendo a redemocratização.

Em julho, fui cobrir para O Globo e a TV Globo o Festival de Jazz de Montreux. A grande estrela da ”Noite brasileira” era Elis Regina, que depois de 15 anos tinha saído da Polygram para assinar com seu velho amigo André Midani na Warner. A gravação de um disco ao vivo em Montreux era parte importante do novo contrato, para dar um impulso à sua carreira internacional. Com César Camargo Mariano e um pequeno grupo de músicos de alto nível, Elis montou com César e André um show com seus grandes sucessos, até mesmo ”Upa neguinho”, poucas canções políticas e, meio contrariada, mais bossas novas do que gostaria: eram obrigatórias no circuito internacional. Os arranjos eram simples e eficientes, como ouvi no ensaio na véspera do show, mas sem maiores brilhos e surpresas, pelo menos para ouvidos brasileiros. Elis estava nervosa, mas procurava se acalmar cantando tecnicamente, à meia voz, repetindo divisões rítmicas, ensaiando finais. A lotação do velho Cassino de Montreux estava esgotada há dias e Hermeto Paschoal, vindo de gravações com Miles Davis e idolatrado nos meios jazzísticos como um ”bruxo dos sons”, faria a primeira parte da ”Nuit bresiliene”.

Depois do ensaio, impressionado com a multidão que queria ver Elis e não tinha entradas, o diretor do festival Claude Nobs pressionou seu velho amigo André, que convenceu Elis a fazer uma matinê extra, às três da tarde, no dia do show.

Na matinê superlotada, Elis arrasou. Cantou com segurança, técnica e discreta emoção um repertório de alto nível, já muito conhecido dos brasileiros, mas encantador para o público internacional.

Fez o show como se fosse um ensaio geral, como uma preparação para a grande noite. À noite, no show de abertura, Hermeto Paschoal e seus músicos fizeram a casa vir abaixo, foram aplaudidos de pé durante 15 minutos, com o público gritando e exigindo mais. Depois de um intervalo de meia hora, com uma orquídea azul nos cabelos, como Billie Holiday, Elis entrou no palco do Cassino de Montreux. Com um vestido longo e um penteado que a faziam mais velha, Elis parecia nervosa e tensa, cansada e intimidada, quando começou a cantar. Com dez minutos de show, ela transpirava muito e parecia exausta, fazendo grande esforço para cantar. Não cantava mal, cantava com precisão e cautela, sem tentar qualquer efeito. Na coxia, André entrou em pânico, pensou que Elis ia desmaiar. Entrou no palco com um copo d’agua, que ela bebeu imediatamente. O show continuou. Para os jornalistas brasileiros, o repertório era por demais conhecido, os arranjos discretos demais, a performance de Elis com muita técnica e pouca emoção, quase burocrática. Já os estrangeiros estavam maravilhados com sua afinação, seu timbre belíssimo, sua técnica impecável, sua tensão criativa. No palco, Elis sofria intensamente, como se não estivesse fazendo o que mais gostava na vida, mas cumprindo um doloroso dever. O show terminou com muitos aplausos, mas muito menos intensos do que os de Hermeto. Elis estava exausta e saiu rapidamente do palco. No meio da gritaria, Claude Nobs chamou de volta à cena Hermeto Paschoal, que assistiu a todo o show de Elis na coxia. Recebido com uma espetacular ovação, o bruxo albino se encaminhou vitorioso para o piano enquanto, de surpresa, Claude chamava de volta Elis Regina!

Sempre altamente competitiva, Elis sabia que tinha perdido a noite para Hermeto. Frustrada e furiosa, entrou no palco pisando duro e sorrindo tensa para o público. Silêncio total, piano e voz.

Hermeto começa a tocar ”Corcovado” e, quando Elis começa a cantar, suas harmonias começam a se transformar, dissonâncias surpreendentes começam a brotar do piano, é cada vez mais difícil para Elis — ou para qualquer cantor do mundo — se manter dentro da mesma tonalidade, tantas e tão sofisticadas são as transformações que Hermeto impõe, tornando o velho clássico quase irreconhecível, genialmente irreconhecível. E Elis lá, respondendo a todos os saques do bruxo com uma precisão que o espantava e o fazia mudar ainda mais os rumos de uma canção não-ensaiada. Na corda bamba e sem rede, Elis cantava como uma bailarina, como uma guerreira, como um músico. Hermeto arregalava seus olhos vermelhos atrás dos óculos. Elis crescia a cada nota, a cada frase de seus improvisos e scats, a cada compasso de seu duelo com Hermeto. Foram delirantemente aplaudidos. Quando Hermeto começou a tocar ”Garota de Ipanema” (que Elis odiava e jurava que jamais cantaria em sua vida), ela baqueou. Mas logo se recuperou e cantou, com todo vigor, como se fosse a última música de sua vida, improvisou como uma negra americana, virou a música pelo avesso, provocou Hermeto, voou com ele diante da platéia eletrizada.

Com o público de pé, ”Asa branca”, Elis e Hermeto no round final, o baião de Luiz Gonzaga em ambiente free-jazz e atonal, harmonias jamais sonhadas se cruzando com fraseados audaciosos de Elis, trocas bruscas de ritmo e de andamento, propostas e respostas, tiros cruzados, arte musical de altíssimo nível protagonizada por dois virtuoses. Ao meu lado, meu velho amigo Nesuhi Ertegun, agora vice-presidente da Warner americana, estava pasmo e livido.

Experimentado crítico de jazz, que acompanhou a carreira de Miles Davis e outros gênios, Nesuhi disse que raras vezes tinha testemunhado um dueto tão emocionado e tão técnico, tão audacioso.

Saiu do cassino eufórico, me convidando para celebrarmos num jantar com André e Elis.

Festejada por Nesuhi, Elis foi a contragosto, quase não falou, mas disse para André, ameaçadora:

”Este disco não vai sair, não é?”

André não respondeu, mas Elis sabia que o disco ao vivo em Montreux, que poderia impulsionar sua carreira internacional, não sairia. Porque ela não queria, porque, tirando os números com Hermeto, ela achava que o resto não valia a pena, que não tinha cantado bem. Achava que tinha chutado um pênalti para fora. De volta ao Brasil, exigiu de André um juramento de que nunca lançaria aquela gravação, nunca, nem depois que ela morresse. Em Janeiro de 1980, no alto do Morro da Urca, abriram-se as cortinas vermelhas do Noites Cariocas, com uma grande orquestra — a Metalúrgica Dragão de Ipanema, regida por Edson Frederico, todo mundo de smoking — tocando música brasileira para dançar, como nos velhos dancings dos anos 50, e Dom Pepe tocando exclusivamente música brasileira, rock, samba, baião, frevo, forró, reggae e até mesmo disco-music, mas tudo nacional. O Noites Cariocas seria a casa do que Júlio Barroso tinha chamado de ”Música Prapular Brasileira” no seu ”Manifesto gargalhada”:

”Minha visão da Música Popular é: Alô! A Música Prapular Brasileira chegou aqui com a primeira caravela negra, o desembarque da Banda do Zé Pretinho.

Veio o upa neguinho na estrada do sol e do soul cantando ”Eu sou o samba”. Ela desce a ladeira da história, a 120 por hora, no embalo das Melodias Contemporâneas (...) Quem sabe, sabe, não chama jacaré de meu benzinho.”

Milhares de jovens da Zona Norte e da Zona Sul se encontravam nos fins de semana no Noites Cariocas, para dançar com os discos de Rita Lee e dos Novos Baianos, de Tim Maia e Raul Seixas, de Zé Ramalho e Alceu Valença, com a orquestra tocando arranjos modernos e dançantes de clássicos de Ary Barroso e Dorival Caymmi, de Jorge Ben e Chico Buarque. Na pista superlotada, todos continuavam pulando feito pipoca. Júlio idolatrava Dom Pepe, que considerava o seu grande mestre DJ, um designer musical, e passou a freqüentar assiduamente a cabine de som — além da pista de dança. E aos poucos Dom Pepe foi dando espaço a Júlio para pilotar a música — enquanto se esbaldava na pista.

Depois de dois meses tocando todas as sextas e sábados as mesmas músicas, trocamos a orquestra, que tinha 20 músicos de primeiro time (mas que nunca tinham tempo para ensaiar novos arranjos) e era caríssima. Mas trocamos para melhor, para a Banda Black Rio, de Oberdan Magalhães, o som negro dos subúrbios cariocas, funk, soul e samba, morro e Motown, dez dos melhores músicos cariocas tocando um repertório moderno, pra pular: o público cresceu e dançou ainda mais.

O conceito de ”Música Prapular Brasileira” de Júlio foi a transição entre a MPB e o pop, com a Banda Black Rio fazendo a ponte entre a praia e o subúrbio, as novas gerações viraram a década dançando frevos e xaxados elétricos e estilizados, uma saraivada de hits de Zé Ramalho (”Admirável gado novo”), Amelinha (”Frevo mulher”), Novos Baianos (”Lá vem o Brasil descendo a ladeira”), Pepeu Gomes (”Malacacheta”), Alceu Valença (”Coração bobo”) e Robertinho do Recife (”O elefante”), todos nordestinos. Um paraibano, uma cearense, vários baianos e dois pernambucanos tomaram de assalto as paradas de sucesso e o gosto popular, fazendo a fusão entre a música regional e o pop internacional, explodindo nas pistas de dança cansadas do bate-estaca massificado da discoteca decadente. O público delirava quando Zé Ramalho cantava:

”Virgulino Ferreira, o Lampião, bandoleiro das serras nordestinas sem temer o perigo e nem ruínas foi o rei do cangaço do sertão mas um dia sentiu no coração o feitiço atrativo do amor a mulata da terra do condor dominava uma fera perigosa.

Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor...”

Lancei meu segundo livro, Música, humana música, uma coletânea de textos musicais publicados em O Globo e selecionados por Evandro Carlos de Andrade. Com apresentação de Glauber Rocha (”O Brazyl musical se estrutura neste jardim. Do outro lado do parayzo é possível delinear a geografia do inferno cultural [...] alma bendita, erva pacificadora nas guerras negativistas, tem a bandeira desfraldada na tempestade...”), teve ótimas críticas e vendas ridículas. Noite de autógrafos animadíssima. Até Nelson Rodrigues foi. O Fluminense nos unia mais do que a política nos separava. Eu era seu fã desde os folhetins de ”A vida como ela é”, lia apaixonadamente todos os seus livros, vi todas as suas peças, me divertia com suas crônicas e tinha imensa alegria de encontrá-lo sempre no Antonio’s, na TV Globo e no Maracanã. Ele me gozava freqüentemente em suas crônicas, dizendo que eu era um pálido romântico tentando passar por um revolucionário incendiário, que eu era doce e inocente como uma cambaxirra. Eu ficava furioso — porque, tirando a palidez, tudo era verdade. Volta e meia Nelson escrevia que, quando me encontrava nos corredores da TV Globo, ”pálido como um ’Werther’ de ópera”, tinha vontade de me perguntar ”Quando é o suicídio?

Quando é o suicídio?”. Bronzeado pelo sol do Posto Nove e feliz da vida, eu me divertia, honrado por estar na sua crônica. A presença de Nelson, que eu adorava, valeu a noite e o livro.

Comemoramos a passagem da década com uma festança no Noites Cariocas: ”Os jardins suspensos de Iemanjá”, produzida pelo carnavalesco Joãosinho Trinta, da Beija-Flor de Nilópolis. O Morro da Urca foi completamente transformado por Joãosinho. Já na entrada, quando os convidados saíam do bondinho, atravessavam a estação de passageiros passando por sete cortinas de contas e plástico transparente, caindo do teto em cachoeira. As árvores foram decoradas com grandes imagens de Iemanjá e uma alegoria de cinco metros de altura saudava os convidados na entrada.

No anfiteatro, as arquibancadas foram transformadas em camarotes em diversos níveis, sem separações, todos estofados e forrados de branco, com uma imensidão de almofadas brancas de todos os tamanhos e formas. Eram ninhos coletivos e aconchegantes, todo mundo meio deitado em volta de grandes cestas de frutas, entre véus e telas, cortinas de contas, uma mistura de ”Mil e uma noites” com Império Romano de chanchada da Atlântida.

Na pista, todo mundo dançou ”Música Prapular Brasileira” até meia- noite, quando uma mulata sensacional da Beija-Flor desceu no meio da pista, vinda das árvores deslizando num cabo de aço, sob os refletores e os aplausos delirantes de 1.500 pessoas. Sem parar de sambar, ela destravou o gancho que a prendia ao cabo e anunciou festivamente a nova década. No palco, explodiram a bateria e os passistas da Beija-Flor.

Nos camarotes, na pista, nos bares e nos banheiros, os bicheiros de Nilópolis se confraternizaram com os artistas e a sociedade carioca.

Mesmo separados formalmente e vivendo em casas diferentes, Marília e eu continuávamos nos encontrando informalmente.

Pouco mais de um mês depois de um desses encontros ”secretos” ela me disse que estava grávida.

Decidimos ter a criança — mas também que tudo continuaria como estava, cada um com sua casa e sua vida. Marília começou a ensaiar a revista Brasil, da censura à abertura, produzida e dirigida por Jô Soares no Teatro da Lagoa, e trabalhou, cantou e dançou de maiô, salto alto e plumas na cabeça até o oitavo mês. Nina Morena nasceu em junho de 1980, no dia em que o Papa chegou ao Brasil.

Felicíssimo, fui à supermissa do Aterro do Flamengo como quem vai a um show dos Rolling Stones.

À noite encontrei Rogério Duarte no Baixo Leblon. Contei alegre a novidade, ele desejou felicidades, sorriu beatificamente mas advertiu:

”Cuidado, porque aumenta o apego.”

Um dos grandes de nossa geração, influência decisiva em Gil e Caetano, no tropicalismo, profeta do underground, poeta, matemático, designer, filósofo, violonista clássico, Rogério, um dos nossos grandes rebeldes e visionários, para estupor geral, tinha se tornado Hare Krishna. Uma tarde ele entrou de surpresa no escritório de Ipanema e me contou que estava a caminho da fazenda que herdara no interior da Bahia, para ser, como disse, um refazendeiro. Ia fazer uma imensa plantação de maconha, profissional. Quando estava quase chegando, teve uma iluminação, recebeu um chamado, voltou para Salvador, largou tudo, entrou para uma comunidade Hare Krishna. Acordava de madrugada para cantar mantras horas seguidas, não fumava nem bebia nem comia carne, lia os livros sagrados, que traduzia do sânscrito. Não sofria mais, estava perdendo o apego às ilusões e ao mundo material, se livrando da angústia, da paranóia, da culpa. O que ouvi fazia sentido: entendi a ausência do sofrimento como a maior felicidade possível.

A conversão de Rogério foi um escândalo nos meios artístico-político-intelectuais.

O mais desconcertante era que ele demonstrava intensa alegria e serenidade, argumentava com a inteligência mais aguda do que nunca sobre a lógica do Krishna e sua sabedoria, sobre o valor da renúncia e da disciplina. Não parecia em nada um fanático, antes, dava curso à sua radicalidade de sempre, só que em outra direção. Fiquei impressionadíssimo. Todo mundo estava dizendo que Rogério tinha pirado, que estava maluco, mas eu o achei ótimo. Conversamos horas sobre as origens do sofrimento, sobre o desejo e a renúncia, a precariedade humana e a aceitação do destino. Aceitei seu convite para um almoço que ele e outros krishnas bons de fogão estavam oferecendo num apartamento em Ipanema. Rogério queria introduzir seus amigos no reino da paz, do prazer e da alegria e prometeu um banquete. Para corpo e alma. Convidou muitos amigos artistas e intelectuais, mas ninguém foi: só Luiz Carlos Maciel, Júlio Barroso e eu. Era mesmo um banquete indiano, com dezenas de pratos deliciosos, doces e salgados, sucos, folheados, assados, cremes, sopas, pães, pastéis, tudo orgânico, apimentado, saboroso. Júlio também adorou, as doutrinas, a radicalidade, a comida. Ficamos horas comendo e filosofando, Rogério ria feliz com os elogios e dizia, com sotaque baiano e alegre cumplicidade:

”Krishna pegou vocês pela barriga!” Pegou mesmo, mas estive mais perto de uma indigestão do que de uma conversão. Li e gostei muito do que Rogério me deu, refleti, aprendi, achei até que tinha descoberto novos caminhos, me senti até mais leve e sereno. Achei que tudo aquilo tinha lógica e fazia sentido, mas não servia para mim.

Por falta de desapego e de disciplina, pela terceira filha, por minha carne fraquíssima, não podia me dar ao luxo de aplacar minhas angústias e medos no conforto espiritual de Krishna. Melhor uma análise lacaniana. A morte de Vinícius de Moraes, em julho de 1980, marca o fim de uma era musical brasileira.

A bossa nova conquistou o mundo e o ”poetinha” foi a maior influência dos melhores letristas da MPB. No enterro, no Rio de Janeiro, fiquei o tempo todo com minha ”afilhada” Maria, de dez anos, filha do poeta e de Cristina Gurjão. Através do conceito do ”tempo lógico” lacaniano, que se opunha ao ”tempo cronológico”, tentei explicar-lhe que Vinícius não tinha vivido 67

anos mas, pelas minhas contas, uns 300, trezentos e poucos. E que viveria para sempre nas suas músicas.

Na virada da década, com a anistia e a abertura política, a música brasileira mudou. Com dez anos de atraso começa a nascer o rock brasileiro — não como um gênero musical, um ritmo, mas como um movimento artístico, uma música de geração, de atitude, de massa, só possível na semiliberdade da lenta redemocratização.

A jovem guarda era ingênua e inofensiva demais para ser considerada rock. Erasmo era um grande compositor de rock, mas seus maiores sucessos eram canções românticas com Roberto. Desde Os Mutantes, que nunca chegaram a ser um sucesso de massa, o que houve de mais próximo foi o Secos e Molhados, que embora não tocasse só rock tinha a atitude de uma banda de rock, e durou pouco mais de dois anos. Raul Seixas e Rita Lee eram casos isolados, únicos, de roqueiros bemsucedidos.

A década foi completamente dominada pela MPB, e no final pela onda internacional da disco-music e pelo funk-soul americano. O rock que explodiu nos Estados Unidos e na Inglaterra durante toda a década de 70, os progressivos, os mods, os punks, os new-wavers, nunca tiveram vez no Brasil supernacionalista dos militares — e ultranacionalista das esquerdas. Mas quem tinha nascido junto com o golpe militar de 1964 agora tinha 16 anos, não se interessava por política, desfrutava relativa liberdade e prosperidade e queria uma nova música.

Nos subterrâneos da terra do samba, as guitarras roncavam.




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