Nelson Motta



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Em maio de 1973, Elis era uma das estrelas do grande evento da Philips — o festival ”Phono 73” —, três noites em São Paulo com todo o seu elenco milionário reunido em duplas, algumas delas surpreendentes e provocativas, como Caetano Veloso e o rei do ”brega jovem”, Odair José, grande sucesso popular com suas músicas de amor para prostitutas (”Eu vou tirar você desse lugar”) e empregadas domésticas, na crista da onda com o hit ”Pare de tomar a pílula”.

Mesmo sendo um festival sem prêmios, promovido por uma gravadora, na platéia do Phono 73 os ânimos estavam exaltados. O público e a imprensa ansiavam por novidades, surpresas, intervenções políticas, rebeldia e resistência. A Philips esperava gravar tudo ao vivo e lançar em três discos, valorizando e movimentando seus talentos em duetos, somando públicos, lançando novas músicas e novas versões de antigos sucessos, misturando suas estrelas estabelecidas com as jovens revelações musicais.

Quando entrou no palco, tensa e de cara fechada, Elis foi recebida com frieza pelo público passional e politizado. Entre os aplausos pouco entusiasmados, alguns assobios e uma voz raivosa que grita ”Vai cantar na Olimpíada do Exército!”, provocando uma pororoca de vaias e aplausos e a réplica ”Respeitem a maior cantora do Brasil”, atribuída a Caetano.

Pior — ou melhor — se saíram Chico Buarque e Gilberto Gil, que tinham feito uma música perfeita para expressar o momento e o estado de espírito que vivíamos, de repressão e sofrimento, de medo e desconfiança, apropriadamente chamada, em tempos de boca calada obrigatória, ”Cálice”:

”Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue.” A música era um protesto tão sentido, tão doloroso e apropriado, tão óbvio, que a Censura Federal naturalmente a proibiu.

Mesmo não constando da lista aprovada pela Censura, Chico e Gil decidiram cantá-la, sem a letra, só dizendo a palavra ”cálice”. E assim tentaram fazer, no meio da gritaria do público, e nem isto conseguiram.

O som do microfone foi cortado. Na versão oficial, por agentes da repressão, porém o mais provável é que tenha sido um funcionário mais apavorado da Philips, para evitar represálias. Ou talvez o censor, abominável presença obrigatória que acompanhava todos os shows, tenha mandado o técnico cortar o som. O fato é que Gil e Chico não conseguiram cantar — embora com isso tenham provocado ainda mais barulho.

A grande vitoriosa do Phono 73 foi Gal Costa, sem fazer política, estritamente musical e até religiosa, dividindo o microfone com Maria Bethânia na lindíssima e inédita ”Oração a Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi. As duas, filhas do terreiro do Gantois, Iansã e Oxum, respectivamente, levantaram o público e no final da música, de mãos dadas, se beijaram na boca.

De Gal também foi a música que se tornou o maior sucesso popular do Phono 73, uma esperta reinterpretação do velho sucesso local ”Trem das onze”, um clássico ”samba italiano” de Adoniram Barbosa delirantemente recebido pela platéia paulistana. O público envaidecido cantou entusiasmado com Gal o refrão edipiano.

”... minha mãe não dorme enquanto eu não chegar, sou filho único, tenho minha casa pra olhar não posso ficar (breque), não posso ficar.”

Depois de uma viagem a Paris, Londres e Nova York, que Marília não conhecia, passamos a morar juntos numa cobertura em Copacabana. Convidada pela TV Globo para estrelar um especial mensal — ”Viva Marília!” — que entraria no lugar do ”Elis especial”, Marília me chamou para ser o produtor musical e um dos roteiristas do programa, junto com Domingos Oliveira e Oduvaldo Vianna Filho. A direção musical seria de Guto Graça Mello e eu faria também as letras das músicas que seriam compostas especialmente para o programa, onde Marília receberia convidados para quadros de comédia, drama e musicais. A surpresa era a indicação da TV Globo para a direção: a dupla Miele e Bôscoli.

Na primeira reunião de produção, pela primeira vez depois de tudo que tinha acontecido, fiquei cara a cara com Ronaldo. Nos cumprimentamos com naturalidade e até com certa efusão tensa e exagerada. Eu estava aliviado por encerrar aquela briga, aquela culpa, aquela história pesada de amor e traição. Acho que ele também, embora com Ronaldo fosse impossível ter certeza do que ele realmente sentia. Como dois Escorpiões, ele era de 28 e eu de 29 de outubro, guardamos os ferrões e nos entendemos. Ele estava casado de novo, com uma advogada, eu com Marília. Elis era uma palavra proibida.

Apesar do talento de Marília cantando, dançando e representando, o programa teve modesto sucesso e breve trajetória. Continuei fazendo reportagens no ”Hoje” e apresentando o ”Sábado som”, e cada vez me desinteressava mais da produção de discos. O último que fiz reuniu diversos artistas de vários gêneros e gerações, todos cantando músicas de carnaval, como nos velhos tempos das chanchadas da Atlântida. Em irônica homenagem ao filme de Cacá Diégues com Chico, Nara e Bethânia, Quando o carnaval chegar, o disco se chamava O carnaval chegou e reuniu Nara Leão (cantando uma marchinha do trio Sá-Rodrix e Guarabyra, ”O cordão do Zepelim”), Raul Seixas, que compôs e cantou um samba animado, o MPB 4 com a marchinha ”Boi voador”, do musical Calabar de Chico e Ruy Guerra, o novo Sérgio Sampaio com o seu ótimo samba ”Quero botar meu bloco na rua” , Caetano com seu animadíssimo ”Frevo novo” (”A praça Castro Alves é do povo/ como o céu é do avião...”), Jorge Ben, Jair Rodrigues, Tim Maia, Fagner e outros. O disco foi igualmente ignorado na imprensa, nas rádios, nas ruas e nos bailes e resultou em completo fracasso. Comecei a pensar em voltar ao jornalismo. Por intermédio de Armando Nogueira, diretor de Jornalismo da Globo, cheguei a Evandro Carlos de Andrade, diretor de redação de O Globo, que me encomendou uma crônica musical para o jornal de domingo. Usando muitos dos conceitos que aprendi no ”Grupo de Trabalho” da Philips, fiz uma longa e profunda análise musical, poética, política, sexual, comportamental e mercadológica do Secos e Molhados, o novo fenômeno musical brasileiro, que tinha vendido mais de 700 mil discos. Era o primeiro grupo nacional com uma atitude rock a conquistar o sucesso de massa no Brasil.

Rostos pintados, roupas extravagantes, músicas animadas e principalmente o sensacional solista Ney Matogrosso, com sua voz de soprano e sua sexualidade exuberante, ambivalente e provocativa.

Ney não era só a voz, era o corpo e o coração do grupo, mas a cabeça era João Ricardo, um jovem intelectual português de São Paulo, esnobe e bonitíssimo, autor da maioria das músicas, dos conceitos de repertório e performance do Secos e Molhados.

Evandro, um homem charmosíssimo mas conhecido por uma certa rispidez nas críticas e pela extrema parcimônia nos elogios, não disse nada (”quando eu não digo nada é porque gostei, só falo quando não gosto, para reclamar”). Pediu outra para o domingo seguinte. Foi sobre Raul Seixas e seu estrondoso sucesso. Na segunda-feira ele me convidou para escrever uma coluna diária em O Globo, com notícias e comentários sobre música popular. Pedi demissão da Philips e comecei imediatamente. Cada vez mais gente gostava mais de Chico, que respondia com mais e melhores músicas e letras. Amadurecido no sofrimento, ele reagia ao sufoco e à repressão explodindo de criatividade, usando a linguagem como arma e arte, como truque e verdade ao mesmo tempo. Com Ruy Guerra, escreveu o melhor score musical que o teatro brasileiro mereceu em muitos anos: Calabar.

Suas músicas iam e voltavam da Censura, cortadas, vetadas, proibidas: ou por subversão ou por corrupção. Palavras eram negociadas, intenções eram investigadas, letras eram alteradas para que as músicas sobrevivessem. Fernanda Montenegro e Fernando Torres, com prestígio e experiência teatral, com fichas de subversão relativamente limpas, eram os produtores junto com Ruy e Chico, dividindo os riscos de uma montagem caríssima, que envolvia muitos atores, músicos, figurinos de época e cenografia.

Uma a uma, obras-primas como ”Tatuagem”, futuros hits como ”Não existe pecado ao sul do Equador” e grandes músicas como ”Fado tropical”, ”Cobra de vidro”, ”Você vai me seguir” e ”Tira as mãos de mim”, o amor de duas mulheres em ”Bárbara” (cantada em dueto por Chico e Caetano na Bahia) foram sendo liberados e começaram a ser ensaiados pelo elenco, com Betty Faria no papel de ”Bárbara”, a mulher de Calabar, o traidor dos portugueses na luta contra os holandeses em Pernambuco. O tema era explosivo, discutia a lealdade e a traição, o amor e a guerra, o homem e a mulher.

”Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é pra te dar coragem pra seguir viagem quando a noite vem...”

A Censura finalmente liberou o texto da peça, que foi ensaiada, vestida, coreografada e apresentada, às vésperas da estréia, para os censores examinarem a montagem e a interpretação dos atores, para a liberação final. Mas o espetáculo foi proibido em todo o território nacional, em decisão inapelável. Fernanda e Fernando, Ruy e Chico, além da frustração artística e da humilhação civil, quase quebraram com a perda total do que investiram na montagem.

Chico ainda teve o consolo de poder reunir num belo Lp as canções da peça proibida. Apenas com o título Chico canta, a palavra ”Calabar” não poderia sequer ser mencionada. Mesmo assim foi incluída, sutilmente, como uma das pichações do muro que fazia fundo para a foto de Chico na capa. Nem isso foi permitido e a Philips teve que fazer novas capas.

O ambiente na música brasileira estava sufocante no início de 1974 e eu me esforçava para fazer da coluna um respiradouro liberal, uma janela para os novos talentos e os velhos perseguidos.

Mas a Censura estava cada vez mais intolerante, a repressão política ainda mais truculenta, as notícias de desaparecimentos e o horror da tortura criavam um quadro de medo, paranóia e sufoco.

Nem mesmo as metáforas políticas, cada vez mais sutis, que os letristas aprenderam a desenvolver sob pressão funcionavam: a censura estava aprendendo a ler nas entrelinhas. E por excesso de zelo, comicamente, muitas músicas que não tinham nada de metafóricas acabaram sendo proibidas. Por outro lado, desenvolveu-se o patético hábito de ”ler” nas entrelinhas de tudo, mesmo do que não tinha nada, em busca de alguma coisa, algum protesto, alguma esperança.

Depois de Calabar, tudo que fosse de Chico Buarque, qualquer coisa assinada por ele, a Censura proibia. Sem dar justificativas, em atos que não permitiam recursos ou contestação judicial.

Chico se fingiu de morto. Mas maquinava uma vingança terrível, que humilharia pelo humor, que driblaria o autoritarismo e a repressão com talento e malandragem. Começava a nascer Julinho da Adelaide — o novo grande nome da música brasileira, um dos poucos raios de sol nas noites silenciosas de 1974.

Como Chico não poderia gravar nenhuma música nova de sua autoria e precisava viver, cantar, fazer um disco, a sua saída foi a que lhe sugeriu a direção da Philips: fazer um disco cantando músicas de outros compositores. Os colegas estavam ansiosos para colaborar com inéditas. Rigoroso e autocrítico, Chico resistiu no início, porque nunca se considerou um cantor e tinha grandes inseguranças vocais. E ainda mais tendo João Gilberto como modelo e agora cunhado: João estava casado com sua irmã Miúcha.

Era a melhor — talvez a única — alternativa ao silêncio que o regime queria lhe impor. E Chico mergulhou com entusiasmo — e raiva — no trabalho. Pesquisou músicas antigas, com letras fortes, recebeu músicas inéditas de Gil, Caetano e Tom Jobim e elegeu a emblemática ”Sinal fechado”, de Paulinho da Viola, a canção-título do disco. Fez uma reinterpretação pop da estupenda ”Me deixe mudo”, de Walter Franco, recente revelação da vanguarda paulistana, recriou clássicos de Caymmi, Noel Rosa e Geraldo Pereira, revelou a obra-prima secreta de Nelson Cavaquinho e Augusto Tomaz Júnior, ”Cuidado com a outra”. Cantou melhor do que nunca e produziu um dos melhores discos de sua carreira, um disco histórico que marca a estréia — e a breve carreira — de Julinho da Adelaide.

O desconhecido Julinho assinava duas pérolas no disco de Chico, ”Acorda amor” e ”Jorge maravilha”. Na primeira, um samba sincopado, Julinho apresentava uma visão dramática e hilariante da paranóia repressiva:

”... são os homens, e eu aqui parado de pijama eu não gosto de passar vexame chame, chame, chame, Chame o ladrão!”

Na segunda, um samba-rock de linguagem jorge-beniana, celebrava a liberdade e proclamava:

”Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando.

Você não gosta de mim mas sua filha gosta...”

Todo mundo acostumado a ler nas entrelinhas entendeu que a coisa era com o general Geisel, novo presidente da República, e sua filha Amália Lucy, que tinha dito em entrevista que admirava as músicas de Chico. Chico desmentia vigorosamente, ninguém acreditava.

Com a invenção de Julinho da Adelaide, como um Garrincha enfurecido, Chico marcou um golaço por debaixo das pernas da ditadura. Combateu se divertindo, criando não só um personagem, mas sua mãe cruzadista Adelaide e seu meio-irmão e parceiro que o explora, Leonel Paiva. Quando as músicas começaram a fazer sucesso, deu uma longa e hilariante entrevista a Mário Prata, na Última Hora de São Paulo, em que Julinho contava cínica e deslavadamente toda a história de sua vida, da mãe favelada e do pai alemão, da invenção do ”samba-duplex”, que pode ser lido de duas maneiras, de sua felicidade em ser gravado por Chico Buarque.

Em pouco tempo, a identidade secreta de Julinho da Adelaide se espalhou pelos bares de Ipanema, Chico cresceu ainda mais como herói da resistência, foi chamado de ”o nosso Errol Flynn” por Glauber Rocha e Julinho começou a correr perigo de vida. Com a repressão política onipresente e cada vez mais truculenta e paranóica, a música popular contestava a rigidez do regime na liberação da sexualidade e da linguagem, no desbunde das drogas e no individualismo exacerbado.

No fim, tudo acabava sendo político, até quando não queria ser.

Ney Matogrosso exibia nos palcos — além da bela e subversiva voz de soprano — uma sexualidade agressiva e ambivalente, que provocava igualmente mulheres e homens, mas surpreendentemente encantava também as crianças. Foram elas que consagraram o grupo com o sucesso nacional da dúbia ”O vira”, uma mistura dançante de rock com o ”vira” folclórico português, feita pela violonista carioca Luli e o luso João Ricardo, idealizador e compositor do Secos e Molhados.

”Vira, vira, vira, Vira, vira, vira homem, Vira, vira, Vira, vira lobisomem.”

A música tinha uma ambientação mágica, entre sacis e fadas, e o refrão era irresistível, divertia adultos e crianças, por motivos diferentes. A sexualidade revolucionária do Secos e Molhados balançava o sufoco político e trazia esperanças. Afinal, era o primeiro grupo pop de verdade a fazer sucesso de massa no Brasil, o que nem Os Mutantes tinham conseguido. Depois de vender 800 mil discos, lançados pela pequena Continental como uma banda de rock internacional, com suas caras pintadas e Ney seminu e cheio de plumas rebolando pelo palco, o Secos e Molhados fez um triunfal — seria o último — espetáculo no Maracanãzinho, gravado ao vivo para um especial de fim de ano da TV Globo. O segundo disco foi decepcionante e em seguida — como conseqüência do choque de egos entre Ney e João Ricardo, entre o sertanejo e o português, o instintivo e o intelectual, o sexual e o político — o grupo acabou. E Ney iniciou sua carreira solo, com um Lp extraordinário, que o colocava entre os grandes intérpretes brasileiros.

Raul Seixas se afirmava como um rebelde independente e libertário, se tornando ao mesmo tempo um ídolo popular nas favelas e um admirado ponta-de-lança da contracultura. Com ironia debochada e grande sentido crítico, num canto quase falado, à maneira de Bob Dylan, ele transformou ”Ouro de tolo” num dos maiores sucessos do ano, fustigando os sonhos da classe média e o ”milagre brasileiro”:

”Eu é que não me sento No trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais no cume calmo de meu olho que vê assenta a sombra sonora dum disco voador.”

Lançada em compacto, a música não aconteceu no Rio, mas foi muito bem recebida em São Paulo.

Por sugestão de Paulo, Raul, de terno, gravata e violão, convocou a imprensa e provocou grande tumulto na Avenida Rio Branco, juntando uma multidão à sua volta, cantando e promovendo ao vivo, direto ao consumidor, a sua nova música. Apareceu até no ”Jornal nacional”. A música era irresistível: estourou no país inteiro.

Logo depois, Paulo e Raul enfrentaram pela primeira vez problemas com a Censura, que exigiu a modificação de dois versos de ”Como vovó já dizia”: ”quem não tem papel dá recado pelo muro/

quem não tem presente se conforma com o futuro” foi mudado para ”quem não tem filé come pão e osso duro/ quem não tem visão bate a cara contra o muro”. Mas liberou o debochado refrão, que pulsava hipnoticamente e levou a música ao sucesso popular:

”Quem não tem colírio usa óculos escuros...”

Empapuçados de maconha e ácido, Paulo e Raul se tornavam cada vez mais audaciosos.

Imaginavam, ingenuamente, que suas músicas anárquicas e sua contraditória tentativa de ”organização” da ”Sociedade Alternativa” não eram levadas a sério pelo sistema repressivo, que eram vistas como coisa de ”roqueiros americanizados”e não de ”subversão política”. Mas foram presos, apertados em longos depoimentos e finalmente libertados, assustadíssimos. Mudaram o jogo e abriram o leque para o misticismo oriental. Feita em dez minutos, ”Gîtã” foi um dos maiores sucessos de 1974, gravada por Raul e depois por uma poderosa Maria Bethânia, num dos maiores sucessos populares de sua carreira. Assim, os brasileiros conheceram uma versão tropicalizada das milhares de páginas em sânscrito do Bhaghawad-Gitâ, condensadas por Paulo Coelho e Raul Seixas num sucesso popular. Parecia mágica.

Talvez fosse algo além do talento e oportunismo da dupla, que andava enfiada até o pescoço no mundo da magia e do ocultismo, eram estudiosos e seguidores do mago e satanista inglês AliesterCrowley, de quem me falavam com grande entusiasmo e devoção: o homem era o ”cão”.

Também gostavam muito de Thomas De Quincey e suas Memórias de um comedor de ópio, gostavam de tudo que era proibido, pecaminoso, secreto e misterioso. E diziam que detestavam política.

Raul, além de magro e abusado, fumava, bebia e cheirava cada vez mais, embora a cocaína apenas começasse a aparecer no meio musical carioca, basicamente alcoólico, canábico e lisérgico. Os hippies maconheiros e viajandões, místicos e pacifistas, eram radicalmente contra o pó: era coisa ”dele”, do ”cão”. Tim Maia detestava. Envolvido com a seita ”Universo em desencanto”, do pai-desanto ”Seu Manuel” de Belford Roxo, ele tentava converter os amigos ao naturalismo.

Uma tarde, no apartamento de Raul na Rua Figueiredo Magalhães, testemunhei uma acalorada discussão entre o gordo e o magro sobre as grandezas e misérias da cocaína e da maconha. Raul falava mal da maconha, dizendo que ela deixa as pessoas prostradas e ;

sem vontade de nada, que a cocaína dava força e velocidade. Tim contradizia dizendo que a planta era santa, dava paz e inspiração. A coisa foi esquentando e quando Raul começou a debochar do ”pacifismo naturalista” de Tim, os ânimos se exaltaram e Tim encerrou a discussão advertindo o machista Raul para tomar cuidado porque a cocaína, além de impotência, provoca no usuário uma irresistível vontade de ser sodomizado. Ou, em suas palavras imortais, ”afrouxa o brioco”. Discussão encerrada. Tim acendeu mais um e Raul esticou mais uma e quase fizeram uma música juntos.

Depois da prisão, assustados, Paulo e Raul viajaram para os Estados Unidos no início de 1974. Raul pela primeira vez, Paulo já tinha feito, um ano antes, de mochila nas costas e de carona, uma road trip de Nova York à Califórnia. Com Raul pagando tudo, os dois parceiros e respectivas mulheres desembarcaram em Los Angeles para a primeira etapa da viagem, exigência do satânico Raulzito: a Disneylândia.

No desembarque, um pequeno suspense. Sem saber da fartura californiana e correndo graves riscos, Raul tinha levado um cinto recheado de maconha, convenientemente envolvida em panos encharcados de perfume. Passou incólume pelos cachorros e pela alfândega mas, quando chegou ao hotel, se decepcionou: a preciosa carga estava inutilizada pelo perfume. Em Los Angeles, Raul ficou maravilhado com as ”head shops”, lojinhas hippies que vendiam tudo que servia para usar (e para esconder) maconha e cocaína.

Uma imensa variedade de papéis para enrolar (em vários sabores), cachimbos, narguilês, vidros, canudos, trituradores, pilões, filtros, vaporizadores, sprays desodorizantes com vários aromas, embalagens com fundos falsos, toda uma parafernália de artigos para drogados e farta literatura sobre maconha, ácido e cocaína.

Nas ”head shops” só não se vendiam os próprios.

Da Disneylandia, doidões, eles foram para New Orleans e de lá para Memphis, em peregrinação ao santuário de Elvis Presley, Graceland. Em Nova York, por dias cercaram o Edifício Dakota, no Central Park, onde moravam John Lennon e Yoko Ono, em busca de um encontro. Em vão: nunca foram recebidos, mas na volta ao Brasil deram longas e detalhadas entrevistas sobre as idéias que trocaram com o famoso casal.

Em seguida, Raul lançou o Lp Novo Aeon, completamente ideológico, com músicas como ”A maçã”, que pregava a liberdade sexual e o casamento aberto, ”Rock do diabo” (”enquanto Freud explica as coisas o diabo fica dando o toque/ O diabo é o pai do rock”) e a bela balada ”Tente outra vez”, uma das melhores da dupla. Sucesso relativo mas muito abaixo do padrão de Raul e nenhum hit popular.

Entupidos de cocaína e cada vez mais paranóicos, no fim do ano Paulo e Raul foram outra vez para os Estados Unidos, de novo bancados por Raul, mas dessa vez com o objetivo de ficar morando e trabalhando. Fizeram letras em inglês para as músicas, iam procurar empresários, produtores e gravadoras, começar tudo de novo nos Estados Unidos. Não procuraram ninguém. Paulo ficou em Nova York e Raul em Atlanta, com a família de Gloria, e dois meses depois voltaram ao Brasil de rabo entre as pernas. Brigaram, se separaram, e Paulo começou a fazer letras para Rita Lee.

No verão de 1975, com sorte, determinação e patrocínio da Souza Cruz, produzi no estádio do Botafogo, na Rua General Severiano, o primeiro Hollywood Rock, finalmente o sonhado festival ao ar livre. Em quatro sábados, reunimos Rita Lee & o Tutti-Frutti, em um dos seus primeiros shows solo, Os Mutantes (com Sérgio, Arnaldo, Liminha e Dinho), os novos cariocas Veludo, Vímana e O Peso, os ”antigos” Erasmo Carlos e Celly Campello, que fez uma volta triunfal ao lado de seu irmão Tony, na noite que foi encerrada triunfalmente por Raul Seixas.

Antes desse granfinale, muita água rolou sobre o palco e o gramado. No primeiro sábado, com Rita Lee, o tempo estava bom, mas o som estava horrível e o show não foi grande coisa. Pelo menos não choveu, ninguém foi preso, milhares de jovens se juntaram ao ar livre para um concerto de rock.

Isso não existia no Brasil, só nos nossos mais ardentes sonhos. Como naquela noite quente e (quase) vitoriosa.

No sábado seguinte, muito mais gente foi ver Os Mutantes, o Veludo e o Vímana, o som estava muito melhor, o público estava adorando, mas caiu um temporal que acabou com tudo. Público e artistas debandaram, técnicos tentavam proteger equipamentos, luzes estouravam e finalmente a cobertura do palco desabou diante dos nossos olhos.

Com o palco reconstruído e um público não muito grande mas muito animado, roqueiro, Erasmo Carlos, Celly Campello e Raul Seixas protagonizaram uma noite histórica para o rock brasileiro.

Milhares de jovens gritaram com ele, de punhos cerrados, ”Viva a Sociedade Alternativa!” e ouviram aos gritos um inflamado e subversivo discurso de Raul, tão inflamado e subversivo que, felizmente, foi registrado no filme Ritmo alucinante, senão pareceria inverossímil no clima repressivo em que se vivia. Durante dez minutos, Raul falou barbaridades políticas, sexuais e religiosas, levou a garotada ao delírio, realizou nosso sonho roqueiro no campinho da Rua General Severiano. No fim do ano, com Marília grávida, nos mudamos para uma casa no alto do Joá, numa montanha sobre o mar, com acesso difícil e sem nada por perto. Para comprar um jornal, era preciso ir de carro à Barra da Tijuca, então um bairro incipiente, com ruas de terra e construções baixas e esparsas.




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